quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Novo Ano e Novo Homem

Pedro Ravazzano

A comemoração do Ano Novo sempre me pareceu emblemática. De fato é interessante tirar um momento para avaliar os frutos colhidos durante o tempo que passou, contudo o que parece é que o homem se esforça para nutrir a crença gnóstica de que o novo ano representa um novo tempo. O cristianismo, por sua vez, rompeu com qualquer noção cíclica das eras, inaugurou, isto sim, o tempo enquanto realidade progressiva e contínua. O homem é chamado a contemplar a realidade e transformar-se além dos marcos que são colocados.

A crença popular, ainda que não tenha um objetivo pressuposto gnóstico, parece que reflete certa mentalidade obscura e ultrapassada. O novo ano é um novo tempo, ou melhor, o tempo das mudanças e das reformulações. Obviamente não há nenhuma imoralidade em usar tais festejos como saudáveis pretextos para refazer as prioridades e repensar os sonhos. Entretanto, o preocupante é saber que o homem, esmagado pela complexidade do mundo materialista atual, se encontra impossibilitado de refazer-se conscientemente no hoje. A grande sacada do Réveillon é o tempo universal que a sociedade concede a si mesma para festejar o ano que nasce.

Não obstante, o então 2012 não difere em nada do velho 2011. Trata-se do mesmo mundo com os mesmos problemas e do mesmo homem inserido na mesma realidade. Infelizmente o Novo Ano se transforma em Ano Novo e, nessa crença quase gnóstica de um tempo zerado, o homem sequer consegue confrontar-se com si mesmo. Sustenta-se, contudo, na vã confiança de que os tempos que se iniciam carregam o vigor do renascimento. Não! Se algo deveria ser comemorado não seria o tempo, mas sim o homem, entretanto este não precisa dos limites do calendário para refletir sobre o sentido da existência.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O nosso lado humano e o yorkshire


A morte do pequeno yorkshire foi tema de muitas publicações no facebook. O que me causou interesse foram as posições radicais e opostas. Infelizmente parece que o equilíbrio está cada vez mais distante da estrutura mesma do homem. Entretanto, vale destacar que o equilíbrio como aqui coloco não é um simples remendo diplomático entre pareceres opostos, mas sim reflexo da constatação serena da realidade.

Muitos transformaram a morte do yorkshire num crime comparável apenas às grandes barbaridades realizadas pelos homens. Claro que aqui partimos dos pressupostos eco-chatos e, ao mesmo tempo, do radical rompimento com as mais fundamentais noções de natureza. Contudo, os que se colocaram do outro lado, isto é, pasmos com os clamores desesperados, pareciam que no protesto contra tão grande perplexidade transformavam a gravidade do acontecimento em uma simples história do cotidiano.

O interessante em ambos os lados é a banalização e a perda da consciência do homem em relação à realidade. Obviamente existe um abismo moral instransponível, por exemplo, entre o aborto e o assassinato de cães, contudo, o segundo é sim um ato assustador ainda mais quando conseqüência dessa cultura de morte onde o ódio e a violência tornam-se banais e ordinários, a tal ponto de, num “mau dia”, um pequeno cachorrinho ser bizarramente espancado.

Sejamos equilibrados, simplesmente! Que a morte de um yorkshire não se transforme em crime contra a humanidade, mas que também não seja vista como um mero evento da vida da gente. O que é infeliz é saber como a violência vem tornando-se gratuita e corriqueira e como, por outro lado, o homem moderno se encontra tão anestesiado pela morte da humanidade que apenas um cachorro consegue despertar o seu lado...humano.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A experiência de Deus em Edith Stein


Por Diego dos Anjos

Seminarista estudante de filosofia no Mater Ecclesiae

A jovem estudante Srta. Stein, que buscava sinceramente a verdade na filosofia, fez dessa sinceridade o diferencial nas suas discussões nos mais diversos campos, entre eles, a dignidade da mulher, “a estrutura da pessoa humana”, o sentido religioso do homem e a contemplação mística, e é desse último um dos que mais tratou uma vez convertida ao cristianismo.

Católica, e mais tarde carmelita, Edith preocupou-se em disseminar nos escritos filosóficos a experiência com Deus, utilizando de sua bagagem husserliana-fenomenológica, tomista e também carmelita – baseada nos doutores da Igreja São João da Cruz e Teresa D’Ávila.

Para ela, essa experiência não se trata de nada parecido às experiências com as quais o homem está acostumado. Trata-se de algo que se dá acima da inteligência humana, algo puro, delicado e espiritual: trata-se de uma “contemplação mística”.

O caminho para essa contemplação é traçado por ela no exemplo do Amado cumpridor da vontade do Pai: o Abandono. Nele, o homem cede ao uso pretensioso da razão para “entrar nas trevas da fé”, onde o conhecimento humano já não será o mesmo, mas será obscuro, ainda que certo, já que quem vive a experiência tem certeza a respeito dela.

A partir disso se dará a definição que a filósofa carmelita dá à “contemplação mística” como “sabedoria secreta de Deus, conhecimento obscuro e geral”; “obscuro porque oposto às atividades naturais do entendimento e geral porque nesse conhecimento não há mais lugar para distinções e particularidades”.

Quem possibilita essa experiência, segundo Stein, não é uma escalada arrogante da razão, mas sim Deus, que age diretamente tocando a alma humana. Uma fez vivida essa experiência, o homem entra nessa absoluta escuridão da fé. Nesse momento, porém, o homem faz uso da razão para conhecer a fé, mas não abarcá-la, reconhecer-la como mistério e reconhecer também os “lampejos da escuridão” – metáfora de Pseudo-Dionísio usada por Stein – no qual Deus tem experiência com o homem e vice-e-versa, sem, porém, iluminar a totalidade da escuridão.

Portanto, a contemplação mística que caracteriza a experiência de Deus para Edith Stein, longe de se tratar de experiências pietistas tomadas de movimentos extraordinários nos quais a razão é menosprezada, é um estado no qual todo o crente se encontra, fazendo uso da razão sem tirar da fé a soberania de caminhar nas trevas. Trata-se da metáfora citada em que, ainda que haja lampejos de luz, a escuridão do abandono é maior.

A credibilidade que uma doutora em filosofia pela Universidade de Göttingen dá ao falar da experiência de Deus é grande e digna de ser seguida porque é dupla: fala do sentido religioso ao qual todo o homem tende naturalmente e trata dele exprimindo racionalmente sua experiência e apontando a razão como sensível à fé, ainda que tendo que reconhecer-se limitada diante de sua meta.

REFERÊNCIAS:

FILHO, J.S.. O toque do inefável: Apontamentos sobre a experiência de Deus em Edith Stein. Bauru, SP: EDUSC, 2000.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Encontro com Annette Kirk

Edson Carlos de Oliveira 
Na noite de ontem, tive a honra de conhecer pessoalmente a Sra. Annette Kirk (foto ao lado), viúva do filósofo Russell Kirk (1918-1994) e presidente daRussell Kirk Center for Cultural Renewal.

Estando em São Paulo para o lançamento, pela editora É Realizações, de quatro livros de autoria de seu falecido esposo - um dos maître à penser do conservadorismo americano -, Annette Kirk visitou a sede do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (IPCO) acompanhada de sua filha e do pesquisador Alex Catharino.

A pequena comitiva americana foi recebida pelo príncipe Dom Bertrand, Dr. Adolpho Lindenber, presidente do IPCO, Mário Navarro da Costa, dirigente do Bureau-TFP de Washington, Daniel Martins, coordenador de campanhas do IPCO e por mim.

Daniel Martins apresentou a Sra. Annette Kirk os trabalhos que o Instituto desenvolve com as caravanas de jovens que percorrem o Brasil em defesa da família. Em contato frente a frente com o público, os jovens sacrificam suas férias escolares de início e meio de ano para combater ideologicamente o aborto, "casamento" homossexual, invasões de terras, PNDH-3, etc.

Através da Sra. Kirk, fiquei sabendo de um xará. Quando me apresentei como "Edson Oliveira, ela me disse em seguida: "It's the same name of the publisher!". Só então soube que o editor da É Realizações chama-se Edson Manoel de Oliveira Filho e que este deveria ter-se apresentado a ela também como "Edson Oliveira".

E por incrível que pareça, a sede da É Realizações fica apenas a algumas quadras de onde resido. Que coisa, precisou a Sra. Kirk vir ao Brasil para eu ficar sabendo disso. O mundo gira mesmo.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Santo André, rogai por nós!

Naquele tempo, 18quando Jesus andava à beira do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores. 19Jesus disse a eles: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. 20Eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram. 21Caminhando um pouco mais, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João. Estavam na barca com seu pai Zebedeu, consertando as redes. Jesus os chamou. 22Eles imediatamente deixaram a barca e o pai, e o seguiram.
Quando a Sagrada Escritura deixa de incomodar ou é porque todo o mundo já vive a mensagem evangélica ou porque o homem se encontra apático diante da Boa Nova. De fato o que é nela anunciado e proclamado foi, é e sempre será uma novidade para todos os que não experimentam a vocação mais profunda que Deus colocou em seus corações. O Evangelho da festa de Santo André, contudo, é um convite a meditar sobre o absurdo.

Pedro e André não tinham nem sequer 1/3 do conhecimento a respeito de Jesus Cristo que hoje nós temos. Questõ
es a respeito das naturezas humana e divina, da complexa e sublime realidade do Verbo feito carne, da sua concepção miraculosa etc. Todo esse aparato teológico-ontológico se deu organicamente a partir da necessidade da Igreja de estruturar os fundamentos da fé, então minada pelos hereges e romanos. Não obstante, o chamado de Nosso Senhor foi prontamente atendido.

O que leva, então, dois homens que levavam aparentemente uma vida pacífica, dentro da normalidade contextual da Galiléia, a largar tudo IMEDIATAMENTE, para seguir àquele que diz que os transformará em “pescadores de homens”? A beleza da Escritura está em compreendê-la também mediante o olhar do homem comum, daquilo que de mais humano existe em nós. Ora, quem em sã consciência abriria mão da seguraça coditiana pelo seguimento de um homem? O que tinha naquele olhar? O que de diferente existia naquele chamado? Algo de divino? Certamente, mas para Pedro e André ali estava o seu destino, isto é, a realização da vocação mais íntima e profunda, a plenitude. A rapidez e a força com que aquela Pessoa os fascinou refletiram na imediata abnegação de si. Não que, com isso, Cristo nos peça a autonegação. Muito ao contrário! A Pessoa de Cristo, que é justamente onde a fé se finca, no seu reconhecimento hoje, nos abre para nós mesmos, nos eleva através da busca pela santidade. A força do primeiro encontro plantou a semente da qual brotou o madeiro onde os dois irmãos pregados derramaram o sangue por esse Homem!

Pedro e André foram os primeiros de muitos homens que largaram tudo por Ele!

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O homo religiosus e o conhecimento de Deus

Pedro Ravazzano

O secularismo moderno, herdeiro legítimo do iluminismo, mostra-se pujante e o real responsável por forjar a realidade social na qual o homem está inserido. Contudo, quando parecia que os raios da divindade se extinguiam como o último feixe de luz de uma estrela já morta, como anunciara Nietszche, a experiência religiosa não só se mostra desperta como vem se transformando numa nova potência dentro das exigências do homem atual. Assim, a verticalização da existência, oposta ao materialismo hodierno, reencontra a razão aberta ao absoluto, totalmente diferente da razão amputada defendida pela Ilustração.

A verdadeira liberdade, diferente daquilo que fora proclamado pelos revolucionários de outrora, não se encontra na desconstrução da fé. A utopia de que o mundo distante do dogmatismo religioso seria sinônimo da real autonomia humana se mostrou um pesado fracasso. As intempéries do século XX apresentaram esse novo “sujeito” frente a Deus. Usando uma linguagem zubiriana podemos dizer que quando o homem se considerou absoluto não só em relação ao seu eu – realidade “sua” -, mas também frente às coisas, se encontrou fechado àquilo que é fundamental na sua constituição mesma, ou seja, o caráter cobrado perante o real, de pessoa que só faz seu eu com as coisas, com os demais homens e consigo mesmo. Portanto, o homem fechado à realidade – ideologia, preconceitos etc – não mais compreende o caráter possibilitante, impelente e último desta.

O homo religiosus, ardorosamente combatido, é uma constante na história e reflete a busca incansável do homem por Aquele que é o fundamento mais profundo da existência. A realidade da “transcendência” é justamente a consciência a respeito de um duplo aspecto humano: do seu conhecimento limitado e da sua necessidade ilimitada. A auto-suficiência nada mais é do que a revolta frente ao inefável, direcionada àquele que é o único capaz de saciar o desejo profundo e íntimo do ser do homem. Assim, como disse o Santo Padre, “o homem tem em si uma sede de infinito, uma saudade de eternidade, uma busca de beleza, um desejo de amor, uma necessidade de luz e de verdade, que o impelem rumo ao Absoluto; o homem tem em si o desejo de Deus.” Destarte, a atração do homem a Deus é reflexo da própria marca divina na alma.

O homem implantado na realidade é chamado a conhecer o seu próprio ser. Não obstante, na época moderna, esse convite foi renegado mediante o fortalecimento das ideologias que o fecharam para essa inquietude da existência. Desse modo, sem a necessidade de aprofundar em si mesmo, pelo descobrimento da sua nova condição soberana, o “indivíduo” moderno constatou que estava sozinho e que era absoluto em relação às coisas. Entretanto, apenas pela atração profunda e íntima que Deus exerce no homem, é este capaz de sair de si e viver a sua vida divina.

O homem, então, para chegar a Deus necessita fazer um movimento de retorno. Enquanto constitutivamente religado, a busca pelo seu fundamento se faz não por meio da saída de si, mas mediante o compreender desde onde se veio, aceitando a realidade. Esse é o problema da existência, o problema do ser mesmo do homem enquanto fundamentado em Deus. Edith Stein também dirá, nessa mesma linha, que o homem livre e em construção se compreende no íntimo, isto é, na sua essência. Portanto, é através da presença íntima de Deus, Ser infinito e criador, nas criaturas, nas coisas e na realidade, que pode o homem, a partir da sua vontade livre, conhecê-Lo ao conhecer a si mesmo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A crise européia e a redescoberta do homem

Pedro Ravazzano

Parece que a crise econômica européia fortaleceu o discurso que anunciava a falência do capitalismo e das estruturas “neoliberais” de mercado. Não obstante, a realidade parece ser bem diferente. O Estado com o seu famigerado poder sempre foi um problema constante dentro das discussões políticas da modernidade. Hoje em dia a reflexão a respeito das suas funções e do seu fim se torna atual, ainda mais quando no centro se encontra o homem.

A presente crise, dentro da perspectiva da escola austríaca de economia, está longe de ser contabilizada na conta do capitalismo. Não obstante, é importante ter em vista que no seio dessa problemática se encontra o homem muitas vezes esquecido. Se, por um lado, a individualidade – não confundamos com o individualismo – humana é esmagada pelos desmandos do Estado, por outro o “sujeito” é transformado numa variante dentro do cálculo integral e transformado em um dos pontos do gráfico, dentro do paradigma neoclássico de economia.

Partindo da perspectiva da escola austríaca de economia a crise só pode ser definida como reflexo das ações do Estado. Este é responsável, então, por criar artificialmente uma euforia no mercado ao decidir os rumos da economia mediante a injeção de moeda e através da redução de juros, simples movimento de projetos de poder político, criando, conseqüentemente, para os agentes econômicos, a impressão de que existe mais poupança para o investimento. Destarte, tais medidas governamentais, usadas pela máquina burocrática, impulsionam o crescimento econômico de modo artificial, gerando um falso entusiasmo. Assim, ainda continuando dentro da perspectiva econômica, estas atividades acarretarão o aumento do acesso ao crédito, isto é, o barateamento do dinheiro. Desse modo, o crescimento do índice de emprego, consumo e de riquezas exprimem as medidas do governo, porém, com a manutenção dessas políticas artificiais a economia inicia a ruína por meio da perda do valor da moeda, gerando incerteza para os “agentes econômicos”. A solução, nesse ponto, se encontra em optar pela continuação das medidas de outrora ou, buscando remediar a crise, a adoção de projetos restritivos com o aumento de juros e redução dos gastos públicos. Surgem, por fim, as falências e a depressão.

Entretanto, o risco que corremos é que, ainda compreendendo corretamente as origens da crise européia, reduzamos tudo a uma dinâmica estritamente econômica. Nesse sentido é crucial entender não apenas a relevância e protagonismo do homem, mas sim que, inclusive dentro da ciência econômica, é este o único capaz de, usando as suas potencialidades, criar um mundo e cumprir o seu desígnio fundamental que é a felicidade. Apenas com tal olhar conseguimos encontrar o homem perdido em meio aos discursos políticos nos parlamentos e ofuscado pelos cálculos matemáticos que o transforma numa máquina programada. A escola austríaca de economia, ao nos oferecer o homem e suas escolhas, e a Doutrina Social da Igreja, ao apresentar o homem e sua liberdade, apontam para este princípio fundante da sua existência.

Obviamente a crise européia só poderá ser solucionada através de ferramentas do saber econômico, da correta compreensão e captação das estruturas de mercado. No entanto, a sabedoria só é possível de ser entendida pela intervenção da inteligência humana, isto é, nos deparamos com o homem e aquilo que realiza. Com isso frisamos a necessidade do mundo, e principalmente a Europa, se reencontrar com a humanidade, ou seja, com o que de mais fundamental existe na sua natureza, o princípio basilar sobre o qual se realiza e se entende enquanto tal.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A atualidade do cristianismo

Pedro Ravazzano

Pensar o cristianismo como acontecimento e Cristo como uma presença concreta na existência, como colocara Beato João Paulo II, Beata Teresa de Calcutá, Mons. Luigi Giussani e, inclusive, o atual Papa gloriosamente reinante, Bento XVI, entre tantos outros homens da Igreja, pode ser visto para alguns católicos como uma nova leitura do modernismo ou, simplesmente, como concepções progressistas da fé. Entretanto, essa visão, de fato reavivada pelo Concílio Vaticano II, não se contrapõe aos ritos, devoções, piedade, mas concede a tais manifestações da fé o princípio basilar, isto é, o alicerce sobre o qual se torna possível falar do cristianismo enquanto evento que funda o homem.

O acontecimento tem a força de gerar uma mudança radical de perspectiva, como nos mostra o exemplo de São Paulo; de perseguidor tornou-se Apóstolo dos gentios e se viu modificado a ponto de dizer que o que outrora era o ideal máximo transformou-se em “esterco”. Destarte, a transformação não vem por meio de um pensamento, mas sim pelo impacto do acontecimento, ou seja, da “pela presença irresistível do Ressuscitado, da qual nunca poderá sucessivamente duvidar, dado que foi muito forte a evidência do acontecimento, deste encontro.” (Bento XVI) Por isso este acontecimento, como nos diz o Papa, é o encontro forte com Cristo, o Ressuscitado que “mostra-se como uma luz maravilhosa e fala a Saulo, transforma o seu pensamento e a sua própria vida”.

O ritualismo, devocionismo, moralismo, são degenerações do cristianismo em sua correta compreensão. Quando a pessoa de Cristo é subtraída em Sua influência na existência dos fiéis, aquilo que pode ser compreendido como manifestações do sagrado e signos do transcendente perde o caráter basilar. Obviamente a linha que separa a devoção do devocionismo, por exemplo, é muito tênue ainda mais por ser um aspecto estritamente subjetivo, ou seja, que se refere ao âmbito da consciência e da relação desta com Deus. Não obstante, a atualidade do cristianismo se faz não na leitura legalista e normativa do Mistério, mas sim no despertar para o sentido fundacional e existencial que a pessoa de Jesus Cristo tem junto ao homem nos mais amplos aspectos; cultura, sociedade, política etc.
“O cristianismo é a presença do Senhor aqui e agora, presença que nos sustenta no aqui e agora da vida de fé. Assim, a alternativa é clara: o cristianismo não é teoria, nem moralismo, nem ritualismo, mas um acontecimento, encontro com uma presença, com um Deus que entrou na história e nela entra continuamente.” Cardeal Joseph Ratzinger
Entretanto, é sabido da grande possibilidade disso ser interpretado como a polarização entre um Cristo rarefeito e difuso e a Igreja enquanto instituição responsável por zelar pelo Seu legado. Entretanto, a Igreja não está desassociada de Jesus enquanto presença, mas é sim a Sua atualização e atualidade no mundo hodierno, querer o contrário é reduzir a Esposa de Cristo a uma realidade meramente burocrática. Nesse sentido, corre-se o risco de “salpicar” a pessoa de Nosso Senhor no ritualismo, no moralismo e no clericalismo, ou seja, que parte do não reconhecimento do Seu caráter verdadeiro, da compreensão da dimensão do Mistério do Verbo divino encarnado, que rompe, muda e transforma a história, do qual brota a ordem do homem reconciliado com Deus, sabendo que “o acontecimento cristão é um encontro humano no qual Jesus Cristo se revela significativo para o coração da vida e desvela o eu.” (Mons. Luigi Giussani)

Apenas nessa dimensão e nessa compreensão não apenas intelectual, mas sim, e principalmente, experiencial, podemos falar da grandeza e profundidade do rito, da missão profética da Igreja, da simplicidade e sinceridade das devoções. De fato, é conhecendo e reconhecendo a pessoa de Cristo que se faz possível a vivência intensa da fé cristã em sua plenitude. Sem essa noção desconstruímos o Seu legado e transformamos o evento cristão num gélido e frio instante da angústia do homem que busca Àquele que não encontra.

Esse seguimento radical de Jesus em todas as nossas decisões, como dizia o Cardeal Van Thuan, abre os olhos para a realidade, mas, antes de tudo, abre os olhos para a condição do próprio homem. Assim, na interioridade, como já colocava Santo Agostinho, o homem reconhece o seu fundamento ao se enxergar e, saindo de si mesmo, vai ao mundo para encontrá-Lo. Unicamente nessa dinâmica é possível, para o cristão, penetrar o mais íntimo da experiência em Cristo como existência desperta, com a compreensão da irrupção do Mistério e dizer, como o Doutor da Graça, “Será viva a minha vida toda repleta de Ti!”

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Quando os sedevacantistas se tornam até "coerentes"...

Pedro Ravazzano

O radical-tradicionalismo tem uma lógica muito peculiar que é fruto da desconstrução de paradigmas fundamentais da fé. Não é meu interesse, entretanto, refletir a respeito do conteúdo das recorrentes afirmações, mas sim mostrar como se desenvolve o pensamento que tende, naturalmente, à delirante pretensão.

A Igreja objetivamente, isto é, por meio de documentos, pronunciamentos oficiais, encíclicas etc, aquilo que realmente indica a sua posição, defende, estimula e reverencia realidades consideradas por muitos radicais-tradicionalistas como heréticas. Obviamente, comparam a própria Igreja presente com o ensinamento de outrora que consideram ter sido vilipendiado. Entretanto, afirmando que a Igreja atual errou e contradisse o que fora defendido em outros tempos afirmariam, na conseqüência lógica, ou que ela é falível – o que seria um completo absurdo do ponto de vista da fé - ou então recorreriam aos argumentos sedevancatistas que, nesse ponto, são bem lógicos e coerentes partindo dessas – falsas – premissas. Contudo, lançando mão de falácias eclesiológicas e malabarismos teológicos, preferem dizer que a Igreja é e não é formalmente, ou seja, que ainda que a Igreja, objetivamente, tenha respaldado “heresias” – dentro do argumento “rad-trad” em questão – não fora a Igreja que as respaldou, mas sim esta entidade modernista. Desse modo, é como se a verdadeira Igreja fosse uma idéia vaga, rarefeita, sem concretude e objetividade, supra-institucional conseqüentemente, onde os seus ditames e ensinamentos se tornam livremente interpretados.

Ademais, aparece o segundo obstáculo; o Papa. O Santo Padre defende Movimentos “heterodoxos”, participa de encontros ecumênicos, exalta ardorosamente o Concílio Vaticano II e não parece ter interesse em celebrar publicamente a forma extraordinária do rito romano. Entretanto, esse é o mesmo Sumo Pontífice que liberou a Missa Tridentina, retirou a excomunhão dos Bispos cismáticos lefebvristas e combate a mentalidade secularizante da modernidade. Ora, como conciliar, sobre a mesma autoridade, portanto gozando do mesmo poder legítimo, duas realidades consideradas, pelos “rad-trads”, tão adversas? Apela-se, então, para o modernismo papal, isto é, acusa-se o Santo Padre de heresia para assim, conseqüentemente, poder discernir individualmente o que é passível de seguimento, ou, então, afirma a sua ignorância, ou seja, que não tem o conhecimento necessário para enxergar a cristalina “heresia”, o óbvio “erro” e a evidente “apostasia” daquilo que defende.

No último estágio aparece a pretensão com o surgimento do direito de se arrogar o verdadeiro e real entendedor da Tradição e do Magistério. A Igreja que se opõe a “mim” na verdade não é a Igreja, mas sim um amontoado de modernistas, o Papa que parece se colocar do outro lado daquilo que “eu” defendo ou é herege ou, então, não entende muito bem os documentos escritos pelos seus antecessores. Alegam, contudo, que os fiéis, pautados na fé e na razão, têm o dever moral de fazer aquilo que Roma não mais realiza; alertar para as heresias. O peculiar é que, para isso, partem da livre interpretação, totalmente pessoal, no máximo fundada em certos teólogos, dos documentos da Igreja e do que entendem por Tradição. Desse modo, como os protestantes, dentro do radical-tradicionalismo se encontra uma multiplicidade de pareceres. O interessante dessa dinâmica é o delírio, ou seja, considerar, simplesmente considerar, que, por exemplo, Joseph Ratzinger, não leu ou não compreendeu aquilo que é “óbvio” – na visão “rad-trad” friso – ou, então, simplesmente reduzir toda a discussão na acusação de modernismo, o que garante certa tranqüilidade em escolher o que deve ser seguido – quando o Santo Padre defende a liberdade religiosa certamente é modernista, quando o Santo Padre libera a “forma extraordinária” certamente está em comunhão com os ensinamentos “de sempre”. Ademais, para gozar de uma pequena segurança institucional apelam para autoridades paralelas dentro do universo eclesial para assim mostrar comunhão.

Portanto, é inegável a forma pretensiosa com que se outorgam o direito de, abertamente, contradizer a Igreja e o Santo Padre, enquanto se consideram, ao mesmo tempo, fiéis à Igreja e devotos ao Santo Padre, sem sequer pensar ou na possibilidade de estarem errados ou, pelo menos, na consideração de dar um “voto” de confiança àquela que é a mãe de todos os cristãos; a Igreja.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O homem e o absoluto

Pedro Ravazzano

O homem é, como pensara Xavier Zubiri, a sua própria realidade. Entretanto, é somente por meio dos seus atos que vai fazendo a figura do Eu, atualizando-o enquanto realidade substantiva. Por isso, o pensador espanhol entendera o Eu como um ser absoluto, não obstante, adquirido e cobrado, então relativamente absoluto. Assim, dentro dessa condição aparentemente paradoxal, brota a inquietude do homem que está fundamentada na própria realidade pessoal e dá origem à voz da consciência.

Enquanto realidade vital, isto é, baseada na “suidade” do sujeito, o homem não é absolutamente absoluto – apenas Deus o é. Contudo, pode ser, então, pensado como absoluto diante da realidade outra, por isso relativamente. Nesse sentido Xavier Zubiri entende o homem como destinado a ter uma abertura à realidade e, conseqüentemente, a Deus. Ora, ao pensá-lo como absoluto, isto é, “soluto”, “solto” – “ab-soluto” – não o faz numa absolutez em si mesma - “Frente a toda realidad en cuanto realidad soy Yo quien soy. En su virtud, el ser del hombre, su Yo, es un ser “ab-soluto” . Absoluto porque es mio, y porque está determinado em función de “la” realidad simpliciter.” - Ao contrário, essa condição se faz mediante a um absoluto frente ao cosmos e ao mundo, portanto um momento relativo a.

Nesse sentido, Zubiri retoma uma reflexão filosófica que abarca a transcendência dentro da realidade, isto é, o reconhecimento da condição religada mediante o anterior reconhecimento do caráter humano e da sua incapacidade de repousar em si mesmo. Ou seja, existe essa realidade apoiada na qual há o que faz que haja. Assim, podemos falar da abertura do homem à realidade na qual, inexoravelmente, descobre-se como religado.
Este ser absoluto que es el Yo, es, sin embargo, algo cobrado. En su virtud, diremos que el Yo es el ser “relativiamente absoluto”. Relativamente, porque es un ser cobrado; pero absoluto en el sentido que acabamos de explicar. Y como lo cobrado es absoluto resulta que el hombre está radicalmente inquieto en la vida. Y como esta inquietud se halla constitutivamente inscrita en mi realidad en cuanto realidad, resulta que es esta realidad la que clama en aquella inquietud. Este clamor es la viz de la conciencia. La voz de la conciencia es el clamor de la realidad camino del ser absoluto. La realidad se me hace presente como noticia em la voz de conciencia.
A inquietude radical do homem é reflexo dos questionamentos que tomam o mais profundo do ser, perguntas que abarcam a completa existência e se formam a partir desse caráter relativamente absoluto, isto é, da necessidade de moldar a sua realidade vital pessoal de modo relativamente absoluto, já que “la vida personal del hombre consiste em poseerse haciendo su Yo, su ser, que es un ser relativamente absoluto, um absoluto cobrado.”

Contudo, no contexto histórico-cultural moderno, essa condição é ofuscada pelos devaneios ideológicos e pela força do sentimento que impede a correta maturação do juízo. O ateísmo, indiferentismo religioso, consumismo, individualismo, vem minar a estrutura fundante do Eu, ou seja, tais projetos desconstroem o caráter aberto da racionalidade, o aspecto transcendente da realidade.

O Outro que me faz, deste modo, quando não expurgado da sociedade atual é reduzido a um papel de total distanciamento da realidade. Assim, a modernidade tende para o secularismo indiferentista de caráter deísta/ateísta ou, então, às filosofias e pensamentos de sabor gnóstico que buscam, mediante a afirmação das misérias do mundo, reformular, repensar e reordenar a realidade partindo dos pressupostos e preconceitos. Consequentemente a inquietude intrínseca à condição humana é anestesiada e a voz da consciência tolhida. Destarte, redescobrir o Outro, ou seja, reconhecer a nossa condição de homens abertos à realidade, é despertar do sono letárgico do mundo moderno.

domingo, 13 de novembro de 2011

180 Movie

Não deixem de ver esse documentário. Foi produzido por protestantes americanos e aborda de forma muito pertinente a defesa da vida. Nos Estados Unidos alcançou grande repercussão e teve 1,2 milhão de acessos no YouTube, apenas no primeiro mês. O filme faz um paralelo entre o aborto o e o holocausto dos judeus na Alemanha. O nome é uma metáfora que representa uma mudança completa e radical de opinião.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

USP: Um amor pela sabedoria em terras universitárias

Pedro Ravazzano

Até quando a esquerda estudantil vai continuar dominando toda a estrutura universitária do Brasil? O que ocorreu na USP é uma realidade possível e presente em grande parte das instituições públicas de ensino superior. Entretanto, enquanto os jovens se encontram embriagados com as mais estapafúrdias ideologias, os seus pais preferem acreditar que tudo não passa de um momento da juventude, de que é inexistente em nosso país o espírito marxista revolucionário de outrora.

Os jovens vivem ideologias, isto é, a segunda realidade que pressupõe a deformação do mundo concreto e real. Obviamente falar de “mundo” e “realidade” é quase um contra-senso se sabemos que, em sua grande maioria, estes estudantes bebem da fonte dos clichês e chavões repetidos ad infinitum. Qualquer brasileiro semi-alfabetizado pode em menos de três minutos reproduzir uma sentença “revolucionária” apenas com a montagem de alguma oração que contenha palavras como “opressão”, “burguesia”, “estruturas de poder”, “alienação”, “repressão”, “elites” e, obviamente, muitos adjetivos bem degradantes. Não há necessidade de lógica e nem de coesão, afinal estes parâmetros emanam de concepções filosóficas produzidas pelas classes dominantes.

Como bem sabia Popper o marxismo chega ao ápice da impossibilidade de ser falsificado, já que tudo se encontra dentro da dinâmica interna que, como também compreendeu Von Mises, parte da bizarra idéia polilógica. Se tudo é fruto da estrutura burguesa, desde instituições até a razão e a realidade, tudo é passível de ser destruído. O que aconteceu na USP é extremamente normal se olhamos o contexto completo, ou seja, a influência de pensamentos nefastos, a crise da razão, a ascensão da mentalidade positivista e dos princípios marxistas etc.

Entretanto o circo uspiano já ultrapassou o limite da ridicularidade dos próprios esquerdistas. Se alguém aparecesse com a idéia de que tudo fora orquestrado pelos “tucanos golpistas” para debochar da esquerda estudantil eu até acharia mais lógico e sensato. Mas tendo em vista que a lógica e a sensatez faltam aos montes por essas bandas, é realmente um verdadeiro estudante indignado aquele que aparece na televisão dizendo que quer o direito de fumar o seu “cigarrinho” e que a PM – que reduziu o índice de criminalidade na Cidade Universitária – é o cão da “elite”. E, do mesmo modo, tais jovens de fato apelam para as leis do estado democrático de direito – sim, o mesmo estado “burguês e elitista” que mantém a “satânica” polícia militar – buscando resguardar os seus direitos de cidadãos.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"Os dois pilares humanos", por Dom Luigi Giussani

Coloco a seguir um trecho muito interessante do livro "El atractivo de Jesucristo", de Dom Luigi Giussani, que transcrevi e traduzi:

Os dois pilares humanos de qualquer relação são, por um lado e antes de tudo, a admiração e, por outro, o sacrifico.

A admiração sempre remete a uma presença, mas uma presença que é algo excepcional. A admiração te remete não à presença da pessoa como tal é, senão a algo excepcional que há nela, que vibra no ar dessa pessoa. Essa pessoa, de fato, há sido e é “criada”, se fez Outro, te manda a Outro, há algo que está antes dela.

Este “algo que está antes dela” se há feito homem e você já conhece a história: por ela tem fé e amor a Ele. Mas essa Presença que é anterior à presença que te impressionou tem que fazer com que entre nela. A memória dAquele que a fez, dAquele que a faz, de Cristo, deve penetrar na presença que te há impressionado.

E isto implica um sacrifício contra tudo o que quereria te deter na surpresa, que ficasse na admiração. Portanto, é mediante a admiração e o sacrifício como se afirma a Deus, perdão, como se afirma a Cristo, porque Deus se há feito Cristo.

Em resumo, podemos identificar três momentos:

- A você algo te impressiona. Mas algo te impressionou verdadeiramente quando diz: “Que grande é Deus” Como minha mãe com as estrelas do céu: “Deus, que grande és!”

- Então o assombro que experimento se deve a algo que está “antes” que essa estrela. Agora bem, isso que é anterior a essa estrela se fez homem. Esta é a graça, a graça que foi dada, a fonte da graça: a fé.

- Mas é então quando começa a tua tarefa: você deve fazer passar a isso que vimos antes, que está antes, a Deus que fez essa estrela, que se fez homem; tem que deixar entrar a este homem dentro do aspecto que te impressiona. Então esse aspecto se volta verdadeiro, mais verdadeiro, cada vez mais verdadeiro, e te completa cada vez mais, porque é o Eterno quem penetra nele. Mas para que deixe entrar ao “que está antes” do que te impressionou e que Ele há feito, requer-se a cruz, o sacrifício: o sacrifício e a cruz, quer dizer, separar-se de tudo o que faria deter-se na simples admiração. Se você para nela não dará espaço a tudo o que a coisa tem; se para na admiração à estrela não verá todo o espaço a que pertence, todo o espaço que a estrela te sugere, não verá todo o céu, todas as outras estrelas. É mais verdadeiro separar-se disto e dizer, como disse minha mãe: “Que grande é Deus!”: faz com que a estrela resulte mais verdadeira. Já não a pode perder. Depois de 50 anos, que vá, depois de 60 anos, já não a perderei.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O Brasil positivista

Pedro Ravazzano

O estado brasileiro faz jus às suas origens mais positivistas. O lema “Ordem e Progresso” não é outra coisa senão a construção da sociedade política que se impõe antes de converter. Destarte, o positivismo religioso transformou a sociologia na sociolatria sociocrática. Nessa nova realidade não há espaço para Deus, mas apenas para a “Humanidade” e seus novos sacerdotes.

Atualmente vivemos um cenário político bem peculiar. Se outrora parecia que as propostas revolucionárias precisavam, necessariamente, de jogadas constitucionais para galgar espaço institucional, hoje a carta magna se simplificou a uma idéia vaga, rarefeita e difusa de lei, bem-estar, bem comum, sociedade etc, que existem nas cabeças dos nossos legisladores. Assim, a liberação de “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, ainda que seja claramente inconstitucional, torna-se constitucional se parte dos axiomas recorrentes da jurisprudência tipicamente fundada em pressupostos positivistas.

O positivismo, como pensado por Augusto Comte, tem uma metodologia muito peculiar e estruturada. Acredita que a melhor forma para conquistar seus fins é empregar uma disciplina brutal que passa pela tomada do governo e, só em seguida, a conquista dos sujeitos. O novo sistema, como disse o pensador francês, persegue, acima de tudo, a aquisição do poder.

O rechaço de Comte à democracia é reflexo da sua mentalidade totalitária. Contudo, se buscava sequazes entre as classes inferiores era unicamente por acreditar que eram menos infectados pela “cultura escolástica”. Ainda proclamando que a solução positivista geraria maior bem-estar aos trabalhadores que o comunismo, pede dos trabalhadores apenas submissão, tendo em vista que estes não gozariam de nenhum espaço nos negócios públicos. Desta forma defende que o melhor governo é o governo dos fortes – positivistas – contra os débeis, regidos pela razão positivista “que se apresenta de modo exclusivista e não é capaz de perceber algo para além do que é funcional, assemelha-se aos edifícios de cimento armado sem janelas, nos quais nos damos o clima e a luz por nós mesmos e já não queremos receber estes dois elementos do amplo mundo de Deus” (Bento XVI, Discurso ao Parlamento Federal, Berlim, 22 de Setembro de 2011).

Dentro dos devaneios positivistas, com sua religião, seu culto como um decalque mal feito do culto católico, com a adoração do seu triunvirato religioso – “Espaço, Terra e Humanidade” - e do rebaixamento diante da deusa razão, Comte pensava no indivíduo como mera abstração, uma emanação do “Grande Ser”, dirigido pelo “papado positivista”.

Hoje o Brasil não destoa muito das pretensões delirantes comteanas. De fato, há uma inegável influência da mentalidade marxista, entretanto, a forte carga positivista se faz presente na construção do espírito que permeia os fundamentos do estado em todos os seus âmbitos. De tal sorte que os cidadãos se transformam em sujeitos dirigidos pelos homens que já transcenderam – dentro desta ótica particular – e que se consagram ao serviço da “Sociedade”, isto é, uma idéia pouco definida e objetiva da comunidade que forma a nação.

Destarte, o estado não mais se entende, em suas bases, como servidor, mas sim como o sumo condutor que aponta a via pela qual todos os homens devem passar. A inversão da função essencial do estado é a virada positivista que enxerga no governo a missão profética de criar, por meio dessa “metafísica social” e fundamentalmente tirânica, a humanidade sem pessoas, ou seja, homens sem liberdade, sem uma alma feita à imagem e semelhança de Deus.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O acontecimento cristão no mundo moderno

Pedro Ravazzano

Como fazer com que o cristianismo volte a ser o evento fundante do homem inserido na modernidade? A urgência da Igreja hoje é fazer com que o evento cristão retorne à sua condição de princípio fundante da cultura, da sociedade, do homem. Não obstante, sofremos atualmente, além de toda a complexa realidade moderna, com uma forte carga interna em certos setores eclesiais que buscam ou reduzir o cristianismo a certo moralismo ou, então, ao espírito que vai além dos caminhos da Igreja. A solução passa, primeiramente e antes de tudo, pela adesão e experiência do eu na pessoa de Jesus Cristo.

O cristianismo corre o risco, no tempo atual, de engessar-se na lei, isto é, num simples aparato normativo que regula as relações do homem consigo, com outros homens e com a Igreja. Ademais, do mesmo modo, existe uma carga ideológica que pretende fazer uma dissociação entre a religião enquanto instituição e o cristianismo pensado como uma mensagem difusa, rarefeita, individual e horizontal. Assim, configuram-se duas facetas das discussões internas; o tradicionalismo e o progressismo. O então Cardeal Ratzinger afirmou que “o cristianismo não é teoria, nem moralismo, nem ritualismo, mas um acontecimento, encontro com uma presença, com um Deus que entrou na história e nela entra continuamente.”

Primeiramente, devemos pensar que a resposta para a "crise" não se encontra em devaneios "contra-revolucionários", projetos de poder “de direita” ou "de esquerda", na mística puritana, muito menos no tradicionalismo, arquelogismo, modernismo etc, mas sim no fazer com que o homem reconheça-se como homem inserido no real e onde, ao se enxergar enquanto um ser fundamentando em, redescobre a este Deus que Se encontra presente na realidade. Aquilo que Henri de Lubac entende como "o problema humano total.” Quanto menos “homem”, quanto mais afastado de Deus, mais desesperadora e angustiante se torna a vida. Chegamos, então, à degradação anunciada por Dostoievski, ao Kirilov que na sua lógica racional niilista descobre no suicídio a verdadeira libertação e divinização do homem, na revolta existencialista de Raskolnikoff, no delírio utópico de Vierkhoviénski etc.

A urgência atual, ou seja, esse redescobrimento da humanidade e, conseqüentemente, do cristianismo, é recolocar Cristo no lugar em que Ele ocupa, de fato, no mais profundo das consciências, da natureza, da realidade. Derrubar a muralha de ilusões onde parece que as "grandes almas" só são grandes quando desprezam a condição humana. O cristianismo precisa voltar a ser vivente. O que Soren Kierkegaard disse - "Que se prepare a estar atento ao Cristianismo não pela leitura de livros nem pelas perspectivas histórico-mundiais, senão pelo aprofundamento na existência." – pode ser entendido dentro da visão de Mons. Luigi Giussani; “o acontecimento cristão faz aflorar e acende toda a dramaticidade da nossa existência” e, assim, por meio do “acontecimento cristão” é possível “um encontro humano no qual Jesus Cristo se revela significativo para o coração da vida e desvela o eu.”

Bento XVI, na sua encíclica Deus Caritas Est, afirmou que “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande idéia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.” Nesse sentido, as duas posições acima colocadas aparecem como distorcidas, fragmentadas e, muitas vezes, além das fronteiras dos ensinamentos cristãos. Não obstante, entender o cristianismo como acontecimento não deve ser visto como sinônimo de subjetivismo, isto é, antípoda à Igreja institucional. Obviamente, as leis e a doutrina são conseqüências do evento fundante, da encarnação do Verbo.

O risco que corremos ao esquecer o caráter novo e atual do cristianismo, que dá início a um novo processo, é cair em percepções bem reduzidas. Ao passo que o tradicionalismo pretende colocar a lei acima de Cristo – ainda que a primeira seja, obviamente, uma emanação do evento cristão – o progressismo insiste em desconstruir o fundamento histórico da pessoa de Jesus e a sua validade enquanto acontecimento. Mediante essa derrocada, torna-se possível a equiparação da fé cristã com qualquer outra religião, já que a encarnação do Verbo é única, inclusive do ponto de vista da estrutura fenomenológica se confrontada com outras percepções do sagrado.

Destarte, “O homem de hoje, dotado de possibilidades operativas como nunca antes na história, tem grande dificuldade em perceber Cristo como resposta clara e certa para o significado do seu próprio engenho.”, como disse Giussani. Entretanto, o homem, unido ao evento cristão, deve redescobrir-se como dependente e consciente da sua necessidade humana e, a partir da constatação da realidade, miserável da graça de Deus. Apenas nessa experiência pessoal com Cristo é possível construir a “Civilização do Amor”, anunciada pelo Servo de Deus Paulo VI, em plena modernidade.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A epopéia do homem e a “Árvore da Vida”

Pedro Ravazzano

O filme “Árvore da Vida” se mostrou uma grata surpresa. De fato, sempre tive certa desconfiança com filmes “cults”, até porque não sabia onde começava o real conteúdo e onde acabavam os devaneios delirantes dos seus diretores. Entretanto, o filme de Terrence Malick se destaca pela marcada coesão da abordagem, pela estética profunda e pela visão perspicaz acerca da condição humana.

A obra pode ser dividida em três partes centralizadas em momentos específicos. O primeiro questionamento lançado ao início; “Senhor, onde estavas?” tem como resposta a epopéia da criação, o ato de amor de Deus ao pensar o mundo, as criaturas e o homem. Não obstante, a vida do ser humano, a sua condição enquanto inserido na realidade, como colocado pelo enredo, é, do mesmo modo, uma clara alusão ao amor de Deus. E, por que não como um contínuo ato de criação? O amor do Senhor, destarte, encarna-se na gênese do mundo e do homem. Creio que, nessa visão, o filme se aproxima muito da percepção zubiriana a respeito da presença de Deus na realidade, isto é, enquanto modo fundante das coisas reais. Assim, toda coisa real é realidade justamente por ser fundada em Deus. Do mesmo modo, o homem sustenta-se nesse princípio fundante. A busca do fundamento não se inicia a partir de uma saída de si, mas sim de acatar desde onde viemos no que se refere à aceitação da realidade humana. A deidade, o poder do real, é poder “transcendente”, abarca todas as coisas e as transcende. Assim diz Zubiri; “El descubrimiento de la deidad no es el resultado de una experiencia determinada del hombre, sea histórica, social o psicológica, sino que es el principio mismo de toda esa posible experiencia.”

Em seguida, refletindo sobre a angústia da alma, na retrospectiva da vida e da história, o garoto encontra-se confrontado com um estado polarizado, a luta entre a natureza – o pai – e a graça – a mãe. O filme coloca na boca do rapaz uma passagem quase literal de São Paulo. Diz o Apóstolo dos Gentios; “Não entendo, absolutamente, o que faço, pois não faço o que quero; faço o que aborreço.” (Rom 7, 15) enquanto a personagem “O que gosto não faço, mas faço o que odeio”. A angústia é a antípoda do amor conhecido por meio da graça e apenas amando a vida se torna plena no sentido de que, assim, realiza-se a vocação do homem; “Para quem não ama a vida passa como um raio.”

Uma das últimas falas do filme é um convite à eternidade; “Siga-me”. O encontro com Deus passa pela compreensão da história, aquilo que Mons. Luigi Giussani colocara do seguinte modo; “Tudo o que Deus permite é para um desenvolvimento, para uma vida, para uma história, para um destino; das Suas mãos tudo sai como semente, como promessa.”. A promessa do homem é, então, a sua vocação à existência absoluta com o Senhor. A epopéia da vida, paralela à epopéia da criação, é onde o homem, enxergando os sinais divinos na realidade, entende a sua condição e, portanto, necessitado da graça. O filme faz uma reflexão pertinente, lançando mão de um belo jogo de imagens, emolduradas com composições pontuais que elevam o espírito, mostrando a presença de Deus nas consciências e na natureza. Nesse sentido, levando em consideração não apenas o enredo em si, mas até o modo como Terrence Malick contextualiza e apresenta, fica-se clara a incursão em prol da apresentação da alma que descansa e encontra o seu alento unicamente junto ao Senhor.

domingo, 16 de outubro de 2011

O cristianismo hoje

Pedro Ravazzano

O mundo atual vive a grave crise do espírito, uma decadência que impossibilita o homem de exprimir aquilo que, de fato, é. Obviamente, a religião é afetada justamente por ser o ápice da vocação transcendental da humanidade, entretanto, todas as marcas características da sua condição também são atingidas. Nesse sentido, o acontecimento cristão, isto é, o conhecimento do homem da sua natureza mais profunda, é o meio pelo qual ele pode alçar os altos vôos do espírito.

A gênese da crise remonta ao Renascimento, passando pela Reforma Protestante e pela luta anti-metafísica da filosofia moderna. A desconstrução da capacidade de conhecimento do homem, atrelado às querelas ontológicas e ao triunfo do indivíduo saído do protestantismo forjaram aquilo que deu forma a muitos dos axiomas da modernidade. Assim, na realidade atual, encontramos homens indiferentes ao transcendente, fechados em si e incapacitados de conhecer. A solidão contemporânea é, então, fruto do vazio interior, do desconhecimento do eu e da impossibilidade de considerar a sua condição radical, totalmente oposta ao amor que fundamenta a relação trinitária e a vivência cristã. Bento XVI, na celebração ecumênica em Erfurt, disse; "A unidade suprema não é solidão duma mónada, mas unidade através do amor. Acreditamos em Deus, no Deus concreto. Acreditamos no facto que Deus nos falou e Se fez um de nós. Dar testemunho deste Deus vivo é a nossa tarefa comum no momento actual."

Nesse sentido, é importante se afastar de dois pólos diametralmente opostos. Por um lado corre-se o risco de cair num certo saudosismo tradicionalista, onde o passado deixa de ser a memória da qual o homem no presente se inspira para se transformar na realidade almejada no hoje. Justamente por se fundamentar no passado, os que assim pensam vivem num constante pessimismo e melancolia já que o pretérito nunca se tornará atual. E, por outro lado, existem os entusiastas do futuro, onde o presente é apenas a ante-sala do que poderá vir a ser e o passado um rascunho mal feito da tão almejada utopia.

Entretanto, o homem deve, partindo da experiência do passado – não só pessoal, mas enquanto homem inserido na história, na cultura, na Civilização – realizar o presente, através da realidade na qual está submergido e, assim, edificar o futuro. Não obstante, encontramos na modernidade “indivíduos” que, omitindo a sua condição vertical, vivem numa constante indiferença e alienação. O cristianismo e a sua perene atualidade e atualização, afinal o mistério de Jesus Cristo se coloca aos homens de todas as eras, abre, justamente, essa dinâmica interna do nosso estado. Assim, possibilita a intimidade com Deus e, como resultado imediato dessa experiência, a relação transformada na história. Como disse o Santo Padre no encontro com os representantes do conselho da Igreja Evangélica da Alemanha; "Naturalmente, a fé deve ser repensada e sobretudo vivida hoje de um modo novo, para se tornar uma realidade que pertença ao presente." Destarte, o cristianismo, nos tempos modernos, fulgura como o único meio pelo qual pode o homem reconhecer o seu reflexo e compreender a mais profunda vocação da sua natureza.

sábado, 1 de outubro de 2011

Uma em cada três paróquias episcopalianas desaparecerá antes de cinco anos, prevê um relatório



Clero casado, anticoncepção, divórcio, aborto, homossexualidade... os episcopalianos aceitam tudo. E, entretanto, não deixam de perder fiéis. O mesmo acontece com outros protestantes "progressistas": luteranos, presbiterianos e unitaristas.

A teologia "progressista" esvazia as paróquias. E a prova mais evidente é a Igreja Episcopal, os anglicanos do EUA, antigamente uma comunidade em crescimento, e agora em um declive tão grave que um terço de suas paróquias fecharão nos próximos cinco anos, segundo um recente relatório do portal anglicano conservador VirtueOnline que analisa os dados oficiais desta igreja.

A deriva "progressista”

Os episcopalianos aprovaram tudo o que os "progressistas" exigiam e mais. Mas isso não atraiu fiéis. No século XVI, o anglicanismo aceitou o clero casado. Em 1930, aceitaram a anticoncepção. Em 1976, os episcopalianos aprovaram o clero feminino. Em 1989, ordenou-se a primeira bispa episcopaliana. Em 1994, proibiu toda terapia para deixar a homossexualidade. Em 2000, aceitou-se o sexo fora do matrimônio. Em 2003 ordenaram como bispo a Gene Robinson, um senhor divorciado, com dois filhos, que vivia «maritalmente» com outro homem (este ano 2011 deixou o cargo). Em 2006 o episcopalianismo admitia o matrimônio homossexual. Em 2010 presumia ordenar em Los Anjos uma bispa lésbica. Em 1 de janeiro de 2011 um bispo episcopaliano casava com pompa midiático a duas sacerdotisas lésbicas episcopalianas, uma delas a famosa militante pro-aborto, Katherine Ragsdale.

Nada disso atraiu gente à sua igreja. Nesta deriva liberal, o episcopalianismo perdeu mais de 30 por cento de seus fiéis. Se em 2001 tinham 3,4 milhões de fiéis autodeclarados, em 2009 só eram 2 milhões. Trata-se, sobretudo, de que os velhos morrem e ninguém os substitui, e de que muitos outros deixam de ir à Igreja. Alguns vão para igrejas conservadoras.

As cifras que analisa o relatório do VirtueOnline são ainda mais terminantes. Mede a "assistência média dominical" (o número de fiéis que se podem contar um domingo dado nos serviços religiosos desse dia em cada templo). É um dado muito concreto. Pois bem, em 2010 eram apenas 683.000 os episcopalianos que podiam ser encontrados um domingo em suas igrejas. Em 2009 eram 705.000 e em 2008 eram 727.000. Perdem 20.000 paroquianos praticantes, reais, cada ano.

O relatório mostra, por exemplo, que há sete diocese com menos de mil fiéis praticantes reais, e outras sete que não chegam aos 2.000. Não dá para manter a cúria nem o bispo.

Uma de cada três paróquias (sobre um total de 6.800) não chega nem aos 40 assistentes dominicais, o qual faz que seja insustentável demográfica e economicamente e fechará antes de cinco anos, segundo o relatório. Além disso há 2.380 paróquias que têm entre 40 e 100 paroquianos dominicais... e terão que fechar devido ao envelhecimento: sua idade média é de sessenta anos. E há outras 1.450 paróquias, com entre 100 e 200 paroquianos de assistência dominical real, que poderiam manter-se se houvesse uma geração jovem de fiéis para sustentá-la, mas isso não se dá. Inclusive há 36 catedrais episcopalianas que não conseguem ver nem duzentos fiéis no domingo.

Os episcopalianos tentam dissimular suas cifras com suas missões no estrangeiro. Por exemplo, no muito pobre Haiti mantêm 99 paróquias com 16.000 fiéis praticantes, que provavelmente não sabem nada de bispas lésbicas. Isso significa que no Haiti há mais "episcopalianos" que somando 14 diocese do EUA (mais que somando Dakota do Norte, Alaska, Montana, Idaho, Utah, Kansas Ocidental, etc...). Em Honduras mantêm 140 comunidades (11.500 fiéis), 58 na República Dominicana (3.000 fiéis), 48 em Porto Rico (2.400 fiéis), etc... Num total, 40.000 fora dos Estados Unidos.

Cresce o anglicanismo conservador

As pessoas de tradição anglicana e moral conservadora fartas da deriva liberal do episcopalianismo têm várias opções. Por um lado, em 2008 se criou a Igreja Anglicana da América do Norte (ACNA), com uns cem mil fiéis e quase 700 paróquias. São conservadores em moral, pró-vida e pró-família, de estilo evangélico, fartos da perseguição ao que lhes submetiam desde 1997 as autoridades episcopalianas "progressistas".

Outra opção para os episcopalianos e anglicanos conservadores é somar-se aos "ordinariatos" católicos que o Papa tem proposto e que vão se criar a partir de grupos anglocatólicos, mantendo parte de sua liturgia e costumes.

"Progressistas" luteranos, presbiterianos e unitaristas... igual

A aliança de luteranos liberais dos Estados Unidos (a ELCA) permite oficialmente o aborto desde 1991. 50% de seus clérigos acreditam que o aborto deve ser legal na maior parte dos casos, 14% pensam que deve ser legal sempre e só 3% acreditam que deve ser ilegal. Nas suas paróquias ia o especialista em abortar casos de seis meses George Tiller, assassinado faz um par de anos. Em 1991 a ELCA tinha 5,2 milhões de paroquianos; em 2009 só ficavam 4,5 milhões de "batizados" e deles apenas 2,5 milhões de "membros ativos".

Os presbiterianos (PCUSA), que no ano 2000 contavam com 2,5 milhões de membros, em 2010 já só tinham 2 milhões. De 2006 a 2009 60 de suas paróquias partiram a outras denominações, enquanto que só 5 comunidades se uniram à PCUSA atraídas por sua deriva liberal. Hoje outras 200 paróquias e comunidades conservadoras pretendem criar a sua própria igreja, desde que este mesmo ano o sínodo presbiteriano decidisse que "as pessoas em relações do mesmo sexo podem ser candidatas à ordenação ou designação como diáconos, anciões ou ministros", sem lhes pedir nenhum compromisso, nem monogamia, nem heterossexualidade nem exclusividade.

A igreja mais liberal dos Estados Unidos é a unitarista (UCC, United Church of Christ), a que assistia Barack Obama até mudar-se a Washington. Segundo o relatório «Clergy Voices 2008», 79 por cento dos clérigos unitaristas acreditam que o aborto deve ser legal sempre ou quase sempre, 83 por cento está a favor de entregar meninos em adoção a casais homossexuais e 74 por cento destes eclesiásticos se define como «politicamente liberal» (nos EUA se chama «liberal» ao que na Europa chamamos «progressista»). A UCC, nascida em 1957, conta em Dallas com uma «catedral» dirigida especialmente a homossexuais com 3.500 fiéis. Em 2001, os unitaristas eram 1,3 milhões de norte-americanos; em 2008 só eram 736.000.
E na Inglaterra, o mesmo

No Reino Unido, de 50 milhões de habitantes, apenas 13,4 milhões se declaram anglicanos, e só 1 milhão vai ao serviço dominical. Segundo o relatório «Cost of Conscience» de 2002 que entrevistou a 2.000 clérigos anglicanos só uma de cada três sacerdotisas acredita na maternidade virginal da María, quase a metade nega que Jesus ressuscitou, 30% nega a Trindade e uma de cada quatro não acredita em «Deus Pai Todo-poderoso» nem em «Deus Espírito Santo».

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A angústia moderna em “Os Demônios”

Pedro Ravazzano

O mundo moderno é tão febril e perdido no próprio devaneio quanto o pedantismo liberal de Stiepan Trofimovicth. Entretanto, para o leitor atento de Os Demônios, a mão do escritor-de-nenhum-livro tocou direta ou indiretamente todas as personagens que deram forma não apenas ao pensamento, mas à práxis niilista, anarquista etc. Caminhamos, isto sim, para formação da futura geração insana como Piotr Vierkhoviénski e angustiada como Nikolai Stavróguin.

Qual o fruto da geração liberal, bon-vivant, utópica em seus objetivos e em sua soberba magistral? O vazio das crianças. Stiepan Trofimovicth, encarna a caricatura mais emblemática do intelectual-poeta-revolucionário afogado em seus delírios liberais, junto a alguma obra do iluminismo francês e na mão a pena do livro que jamais escreveu. A típica modernidade líquida. Esse idealismo doentio, com ares internacionalistas, forma a primeira geração perdida, isto é, rarefeita no que se refere ao entendimento da Civilização. O estereótipo importado, mediante a acentuada crítica a tudo que seja tipicamente russo, ao espírito eslavo, é marca da destruição gradual das raízes fundamentais que, na próxima geração, será radicalizada.
“Quanto mais a vida é dura para o homem, quanto mais é um povo oprimido e miserável, tanto mais se obstina em sonhar compensações no paraíso; e se cem mil padres se põem a encorajá-lo nas suas ilusões e a especular sobre elas, então...”
Destarte, Stiepan Trofimovicth forma os seus “filhos” no vazio interior que dará margem a um relativismo feroz, esculpindo nas almas o niilismo e o anarquismo. Os seus critérios flutuantes serão rapidamente rechaçados e substituídos pelo ardor revolucionário objetivo. Assim, o que a próxima geração sonha é, simplesmente, a concretização dos frágeis e confusos ideais por ele ostentados.

Do devaneio vacilante de Stiepan Trofimovicth vamos ao delírio revolucionário de Piotr Vierkhoviénski, numa paixão ideológica que cega, que se forma primitivamente no nada interior, na falta de critérios, parâmetros, de intimidade consigo.
“Os espíritos superiores são naturalmente despóticos e sempre causaram mais mal que bem. Será preciso bani-los ou condená-los à morte. Arrancar a língua a Cícero, furar os olhos de Copérnico, lapidar Shakespeare, eis o chigalievismo! Os escravos devem ser iguais: sem despotismo jamais houve rebanho, eis o chigalievismo! Ah! Ah! Ah! Isto parece-lhe estranho? Eu sou pelo chigalievismo.”
A sua devoção pela revolução, quando “o mundo será revirado como ainda não o foi”, quando “a noite descerá sobre a Rússia” e “a terra chorará seus antigos deuses” é o sonho da nova ordem, iniciada a partir da tibieza moral e espiritual dos seus pais. Sem embargo, trata-se de uma dinâmica de desconstrução da tradição, mediante a ostentação da razão, com o triunfo do nada. Piotr Vierkhoviénski simplesmente desperta para o caráter fraco e escorregadio de seu genitor. Simplesmente realiza o mal o externalizando.
“Mas uma ou duas gerações de costumes corrompidos é coisas indispensável; corrupção desenfreada, monstruosa, em que o homem será transformado num réptil lamacento, abjeto, cruel, imundo! Eis o que nos falta!”
Nikolai Stavróguin, por sua vez, na angústia e desespero que norteiam as suas ações, apresenta uma dimensão interna em oposição às facetas práticas de Piotr. Ele é o príncipe emblemático sonhado pelas senhoritas e alvo das fofocas da cidade. Contudo, carrega na alma o peso do coração esmagado pela inquietude. Nesse sentido é pesaroso ler o apêndice de Os Demônios, onde se encontra o seu diálogo com o Bispo Tíkhon – não fora colocado na versão publicada por Dostoiévski por temer alguma retaliação pelo caráter próprio do trecho -, e pensar que, caso cumprisse o conselho do sábio religioso talvez o seu fim não seria com a corda no pescoço, com o testamento reduzido a um bilhete suicida. Em certa altura do diálogo Tíkhon o diz:
“O perfeito ateísmo situa-se no alto da escada, no antepenúltimo degrau que leva à fé perfeita (toda a questão está em saber se o galgará ou não), ao passo que o indiferente não tem fé nenhuma, a não ser o medo vil, e somente por vezes, se é homem pecador”
Parece-me que Nikolai Stavróguin, no sofrimento dilacerante da alma, ao invés de buscar a Deus que habita no mais profundo do ser, lançou-se do alto da escada num salto que não teria outro fim senão a morte. Não que ele tenha se convertido ao ideal de Kirilov - “Haverá liberdade completa, quando for totalmente indiferente viver ou não viver. Tal é o fim universal” e “Aquele que se matar unicamente para matar o temor, tornar-se-á na mesma hora um Deus.”. Não. O seu suicídio não foi um ato de “coragem” diante da coerência com o ideal defendido, mas sim uma ação da mais profunda angústia. Stiepan Trofimovicth, no seu discurso derradeiro, com característica quase delirante, diferentemente de Stavróguin, parece despertar, ao menos em parte, ao reconhecimento do caráter transcendental da existência humana
"Se se viesse a privar os humanos desse infinitamente grande, eles não quereriam mais viver e morreriam de desespero. O incomensurável e infinito são tão necessários ao homem quanto o pequeno planeta sobre o qual ele se move... Meus amigos, todos, todos, viva o grande Pensamento, o Pensamento eterno, infinito! Todo homem! Até mesmo o homem mais estúpido tem necessidade de alguma coisa de grande. Pietrucka! Oh! Como desejaria revê-los todos... Eles ignoram, sim, eles ignoram, que também eles encerram em si aquele mesmo grande Pensamento eterno.”
O questionamento lançado por Stavróguin ao estudante Chátov – “Mas em Deus, crê em Deus?” – ecoa por toda a obra. A resposta enigmática – “Eu...acreditarei em Deus.” – é a marca da alma que, ainda lutando contra a existência no vazio, é incapaz, por conta das marcas deixadas pelos traumas do sofrimento, de chegar à experiência com Deus.

Resta apenas, em meio a essa gênese da história do espírito moderno, repetir como o Bispo Tíkhon que, num murmúrio apaixonado, diante do “demoníaco” Strávoguin, afirmou; “Senhor, não terei vergonha de tua cruz”

sábado, 24 de setembro de 2011

Batalha de Iwo Jima e o heroísmo católico, detalhes desconhecidos sobre a famosa foto



Escrevi este artigo depois de pesquisar em fontes norte-americanas, pois não encontrei dados - mesmo irrelevantes - em nenhum site ou blog de língua portuguesa. Talvez até – pode ser uma pura pretensão minha - seja a primeira vez que ela é contada, ao menos na internet, em nosso idioma. Submeto-a para apreciação de nossos leitores.


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A foto famosa ao lado, intitulada Raising the flag on Iwo Jima, registrou o momento em que os marines conquistaram, no dia 23 de fevereiro de 1945, o cume do vulcão Suribachi (foto acima), ponto mais alto da ilha de Iwo Jima. Esta foto foi tirada por Joe Rosenthal na segunda vez em que a bandeira norte-americana foi levantada.

Mas o que não é muito conhecido é lado da bravura profundamente católica que envolveu o primeiro hasteamento da bandeira.

O livro do padre jesuíta Donald Crosby, Battlefield Chaplains: Catholic Priests in World War II, narra os feitos dos padres católicos que participaram da segunda Guerra Mundial. Entre eles, Pe. Crosby conta a história do sacerdote jesuíta Charles F. Suver, com então 38 anos de idade, pertencente ao 5ª Divisão de Fuzileiros Navais. Ele era um dos 19 capelães que ministravam os sacramentos para as três divisões marines que participaram da mais sangrenta batalha no Pacífico.

Localização da ilha vulcânica de Iwo Jima.
Pe. Suver nasceu em Ellensburg, Washington, no ano de 1907. Formou-se na faculdade de Seattle, em 1924, e foi ordenado padre em 1937. Pouco depois do ataque japonês em Pearl Harbor, ele entrou para a marinha como capelão e foi designado para acompanhar os soldados na batalha de Iwo Jima.

Um dia antes do desembarque na ilha, a tensão aumentava entre os soldados que sentiam a morte se aproximar na medida em que o navio ficava mais perto de seu destino. Eles sabiam que teriam que enfrentar, em breve, mais de 23.000 japoneses liderados por um dos mais capazes generais do Japão. A coragem dos marines seria testada ao máximo.

Alguns fuzileiros foram, então, após o jantar, até a cabine do Pe. Charles Suver para conversar sobre a invasão que ocorreria ao amanhecer. Em certo momento, um jovem oficial disse que se ele tivesse uma bandeira americana, a levaria até o alto do monte e talvez alguém a hasteasse lá em cima.

O tenente Haynes, desafiando o oficial, imediatamente respondeu: "Certo, você leva a bandeira que eu a coloco lá em cima". Com uma santa ousadia, Pe. Suver acrescentou: "Vocês colocam ela lá em cima e eu celebro uma missa embaixo dela!"

Às 5:30 da manhã do dia seguinte, 19 de fevereiro, ainda a bordo do navio (LST 684), o Pe. Suver celebrou uma missa para os fuzileiros navais. Logo após, alguns marines fizeram várias perguntas a ele, especialmente sobre coragem. Então, o sacerdote jesuíta respondeu: "Um homem corajoso cumpre o seu dever, apesar do medo atroz. Muitos homens têm medo, por muitas razões diferentes, mas poucos são corajosos".

Padre Suver desembarcou naquele dia às 9:40 da manhã, na mais perigosa de todas as praias, a Green Beach. Sob o fogo de metralhadoras que começaram de repente a disparar, ele foi forçando a se atirar no chão. Mais tarde soube que tinha estado atrás das linhas japonesas e no território controlado por cinco metralhadoras.

Ele se arrastou imediatamente para o próximo trincheira. Apesar destas situações enervantes, padre Suver não abandonou a ideia de rezar uma missa no Monte Suribachi assim que a bandeira americana fosse hasteada lá. Sua vida esteve em risco diversas vezes durante a batalha, mas ele conseguiu sempre manter o domínio de si mesmo e continuou a exercer sua função.

Cinco dias de combates sangrentos se passaram. Pe. Suver estava trabalhando em um posto de socorro com seu ajudante Jim Fisk (durante a batalha foram designados assistentes para transportar os equipamentos dos capelães) quando percebeu que os marines cautelosamente escalavam o Monte Suribachi. Embora a situação fosse extremamente perigosa, ele decidiu que este era o momento. Convocou seu ajudante, pegou sua mala com o material necessário para celebrar a Missa e correu em direção do vulcão.

Enquanto subiam, viu a bandeira tremulando no cume do monte. Uma onda de entusiasmo tomou conta de todos os marines, alguns até choraram de alegria quando viram a bandeira americana balançando ao sabor do vento. "Todos nós experimentamos uma emoção que nenhum de nós nunca vai ser capaz de descrever", disse o padre Suver.

Infelizmente, o tenente Haynes, que tinha se prontificado a hastear a bandeira no alto do monte, foi baleado nas costas momentos antes e ficou paralisado até o fim de sua vida

Foto: Primeira missa em Iwo Jima, celebrada pelo padre jesuíta Charles Suver no
cume do monte Suribachi. Autor: Louis Burmeister.
Pe. Suver chegou ao topo e, com a aprovação do comandante, preparou-se para celebrar o Santo Sacrifício da Missa. Dois tambores de gás vazio com uma placa colocada em cima eram tudo o que podiam encontrar para servir de altar. Mais ou menos vinte soldados vieram assistir à Missa com suas armas em riste, pois a resistência japonesa ainda estava muito acirrada.

Para proteger o sacerdote e os utensílios sagrados, dois marines segurava um manto contra o vento feroz. Os fuzileiros navais protegiam o sacerdote não só do vento, mas também de um possível ataque que poderia ser eminente.

As cavernas próximas ainda abrigavam soldados japoneses e estavam tão perto que o padre Suver podia ouvir os japoneses falando sobre aquela desconhecida cerimônia religiosa. Providencialmente, os japoneses não atacaram e Pe. Suver conseguiu realizar a histórica primeira missa da ilha de Iwo Jima. 

Joe Rosenthal, judeu convertido ao
catolicismo.
Jim Fisk, o ajudante do Pe. Suver, publicou posteriormente um artigo afirmando que a missa foi celebrada durante o hasteamento da primeira bandeira, cerca das 10:30 da manhã. O segundo levantamento da bandeira - fotografada por Joe Rosenthal, vide foto no início deste artigo - ocorreu entre 12:00 e 12:30.

Sobre o momento em que a missa foi celebrada, há uma versão do padre jesuíta Jerry Chapdelaine, que foi amigo do Pe. Suver e que conviveu com ele na escola jesuíta Bellarmine, em Tacoma, Washington. Segundo ele, o padre Suver lhe disse pessoalmente que a missa foi rezada antes do hasteamento da bandeira e não depois. Pe. Chapdelaine conta que o padre Suver disse aos seus homens: "Eu vou rezar missa para vocês e, em seguida, vocês levantam a bandeira".

"Ele era um cara durão", comenta o Pe Chapdelaine sobre o Pe. Suver, "era fisicamente forte e tinha muita coragem. Mas ele era um homem muito gentil, também". Pe. Suver morreu de câncer em 1993 aos 86 anos. Era domingo de Páscoa. "Ele queria morrer na Sexta-Feira Santa - segundo ele próprio me disse", contou o padre Chapdelaine, que celebrou seu funeral na Igreja St. Joseph, em Seattle.

Sobre o papel dos capelães jesuítas, o fotógrafo Joe Rosenthal - a quem, antes de desembarcar, o tenente Haynes se gabou de que ia levantar uma bandeira no cume do Suribachi e que o padre Suver prometeu celebrar uma missa debaixo dela - comenta que  que tinha boas recordações dos sacerdotes corajosos que serviram como capelão durante a Segunda Guerra Mundial. "A maioria dos capelães foram bons (...). Os jesuítas foram admirados por todos os Marines. (...) Se eles encontravam um fuzileiro naval morrendo, eles iam até lá [correndo o risco de serem atingidos], como uma coisa natural. Eles eram tão heroicos quanto os marines".

Pe. Suver e os seus homens tinham cumprido a sua promessa, apesar do grande perigo que encontraram. Muita batalha ainda havia pela frente em Iwo Jima, mas o levantamento da bandeira e a missa encorajaram os marines para manter a luta em uma combinação sublime de bravura patriótica e fervor religioso.

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Fontes consultadas:

Something Else Sublime Happened on Mount Suribachi, Blog The America Needs Fatima, http://americaneedsfatima.blogspot.com/2008/11/something-else-sublime-happened-on.html, acessado em 22/9/2011.

Fr. Charles F. Suver, S.J. "The Jesuit of Iwo Jima", Blog Good Jesuit, Bad Jesuit, http://goodjesuitbadjesuit.blogspot.com/2011/01/fr-charles-f-suver-sj-jesuit-of-iwo.html, acessado em 22/9/2011.

The Forgotten Mass on Iwo Jima, site The Remnant Newspaper, http://www.remnantnewspaper.com/Archives/archive-2006-0831-iwo-jima.htm, acessado em 22/9/2011.

The Mass on Mount Suribachi, site The American Catholic, http://the-american-catholic.com/2009/03/30/the-mass-on-mount-suribachi/, acessado em 22/9/2011.