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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Julia Roberts, Freiras e a Felicidade


É cada história que nós ouvimos; Padre que larga o Sacerdócio e vira guerrilheiro das FARC, Padre que continua no Sacerdócio e se comporta como guerrilheiro das FARC, Freira militante abortista, monge que reza com mãe-de-santo, missa "afro" em Catedral, celebração "eucarística" com caldo de cana e rapadura etc.

Tudo isso é muito triste e lamentável, OBVIAMENTE! Mas fazendo uma breve reflexão eu me peguei pensando nos protagonistas de tais absurdos. De fato, devem ser pessoas "pesadas", pavorosas e melancólicas, afoitas por encontrar um objeto que dote de sentido a opção tão radical que fizeram. Eu, particularmente, não consigo entender de forma lógica o porque de alguém colocar-se tão violentamente contra aquilo que, teoricamente, deveria viver. Claro que se levarmos em consideração a mentalidade relativista que descontrói a consciência e qualquer percepção concreta do real tudo faz "sentido". Não obstante, por mais claro que seja o diagnóstico, continuo acreditando que os promotores da revolução são, por natureza, homens ansiosos por SER, por isso tendem ao hedonismo, materialismo - e aqui entra tanto o marxismo quanto o sexismo tão aberto à cultura homossexual - e às paixões ideológicas.

Ontem eu comecei a assistir um filme que estava aqui no computador mas desisti bem antes da metade; Comer, Rezar e Amar, com Julia Roberts. Até onde eu vi era uma total e completa porcaria. A história pode ser resumida em conceitos brevíssimos; individualismo e hedonismo. Uma senhora que, ligada a uma profecia feita por um guru cambojano, divorciou-se e que, na sua "infelicidade" pós-moderna, resolveu viajar para a Itália, Índia e Bali. O melhor dos personagens era o ex-marido que, gritando na audiência de separação, afirmou muito racionalmente que ela jamais reclamara da relação - o que mostra o caráter passional do divórcio - e que a sua escolha pessoal era optar por ela - claro que sem nenhum sucesso. O enredo por si só pode ser definido como "bizarro", mas o ethos que perpassava toda a produção era muito interessante justamente por ser o espírito de miserabilidade - crise metafísica - do mundo atual. Na Julia Roberts "infeliz" e divorciada, vivendo em busca de prazer, amor, alegria e todas as idéias do imaginário atual, eu consigo enxergar tanto o petista militante apaixonado como a freirinha ambientalista que abraça um tronco de Ipê.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O que é o que é?

a) Discussão entre os líderes do Partido dos Trabalhadores
b) Encontro de ONGs ambientalistas
c) Reunião de Reitores de Universidades Federais
d) Assembleia Geral de uma Congregação com mais de trezentos anos
a) Reunião da ala feminista do Partido dos Trabalhadores
b) Encontro de professoras de sociologia da UFBA
c) Assembleia das Protetoras das Árvores
d) Capítulo Geral de uma certa Congregação feminina

Tirando a clara e escancarada ironia, eu, particularmente, não sou muito entusiasta desse tipo de postagem pelo risco de simplificar ou estimular uma visão reduzida dos prolemas reais. Não obstante, o fato verídico é que a pobreza simbólica das fotos retrata um problema profundo; a desconstrução da espiritualidade fundamentalmente cristã, erigida numa riqueza tradicional que ostenta gloriosamente a beleza da fé. Claro que a estética não é sinal da oração e piedade, mas a harmonia, a ordem e a coerência são símbolos de um vigor exterior que, em sua maioria, reflete a saúde da alma.

domingo, 1 de agosto de 2010

Causas religiosas da Revolução Francesa - III


O surgimento do jansenismo se deu ao longo da discussão travada a respeito da predestinação e do livre arbítrio. O Bispo de Ypres, Cornélio Jansênio (1585-1638), ao retomar os escritos agostinianos – então esquecidos devido ao caos protestante – aproximou-se da perspectiva luterana ao afirmar que o homem, depois do pecado original, está dominado pela concupiscência.

Em concreto, o jansenismo partia de uma concepção moral rigorosa e estóica. Mesmo sendo “um sistema que se afasta do protestantismo pela primeira tese (...) pela segunda se aproxima dele” (ROPS, 2000). Como destacado por Daniel Rops, o jansenismo pode ser denominado como um “semi-protestantismo”. Dentro das suas diversas matizes o pensamento de Jansênio, centralizado na problemática da graça e da predestinação, fruticou e conquistou espaços relevantes na sociedade francesa em especial. O jansenismo, como pontuado por Theo Janses, da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, apresentava duas feições distintas e complementares; o jansenismo popular, de forte caráter espiritual, ascético e moralista e, em segundo plano, o jansenismo de influência aristocrática com fortes adeptos no parlamento galicano. Nesse sentido, o jansenismo e suas teorias multiformes endossavam as posições episcopalistas dos políticos franceses. A politização do pensamento de Jansênio chegou ao seu máximo no Sínodo de Pistoya, condenado pela bula Auctorem fidei.

O jansenismo aristocrático deu margem às iniciativas de emancipação política e religiosa de certos parlamentares franceses. Do mesmo modo, a sua versão popular submeteu todo o paradigma da fé. Os homens influenciados por esta heresia se fecharam para a vida de piedade e esperança cristã, formando o contexto favorável para a incredulidade:
Favorecida pelo enfraquecimento da piedade dos fiéis – ocasionado pelo jansenismo e pelos outros fermentos que o protestantismo do século XVI desgraçadamente deixara no Reino Cristianíssimo – tal ação teve por efeito no século XVIII uma dissolução quase geral dos costumes, um modo frívolo e brilhante de considerar as coisas, um endeusamento da vida terra, que preparou o campo para a vitória gradual da irreligião. (DE OLIVEIRA, 1998)
A eclesiologia jansenista, fundamentada no ideal de participação e descentralização, se colocava na antípoda do modelo institucional católico. As taxativas condenações magisteriais a esta heresia não conseguiram retificar o espírito revolucionário vigente nas concepções inauguradas por Jansênio. Destarte, é correto falar de um certo princípio galicano mitigado por ideais milenaristas. Partindo da utopia romanceada da Igreja primitiva, os jansenistas se levantaram em oposição ao poder. Assim, o jansenismo não pode ser entendido em sua plenitude se não for levado em consideração o seu caráter político. O arraigado senso de desobediência às leis do Estado refletia a teologia da autoridade inaugurada pelos seus adeptos. O homem jansenista é um homem desesperado e o mundo jansenista é increvelmente pessimista. Por vezes, o intento de fugir da realidade – condenada e decadente nesta percepção – levava a radicalismos aberrantes que, bem canalizados, fomentariam verdadeiras e colossais revoltas.

Depois do alvorecer revolucionário, o jansenismo perdeu a influência concreta. Entretanto, as suas sementes já tinham germinado juntamente com o terror francês. O individualismo proposto pelo jansenismo, com a absolutização do homem em sua busca solitária e autônoma, partindo de paradigmas protestantes da consciência e da liberdade cristã, com a emancipação humana diante da autoridade e da tradição, forjaram e consolidaram os ideais que, bebendo do subjetivismo, desaguaram na explosão de movimentos revolucionários: “A contenda destacou-se na França, assumindo nesse país o matiz político-religioso que caracterizaria até o fim” (LACOSTE, 2004).

Tanto o galicanismo quanto o jansenismo refletiu, essencialmente, o ethos protestante. A divinização do homem – medida e fim – acarretou no desabrochar da ânsia revolucionária. Como consequência desta perspectiva, a Igreja passou a ser vista como ferramenta de dominação e instrumento ligado às forças contra-revolucionárias. Nesse sentido, a leitura marxista da Revolução Francesa entra em sintonia com a mentalidade dos homens que se levantaram contra o Antigo Regime, fruto da mesma árvore:
A Revolução francesa fez germinar idéias que levam além das idéias de todo o antigo estado do mundo. O movimento revolucionário, que começou em 1789 no Cercle social que, no meio da sua carreira, teve como representantes principais Leclerc e Roux e acabou por sucumbir provisoriamente com a conspiração de Babeuf, tinha feito germinar a idéia comunista que o amigo de Babeuf, Buonarroti, reintroduziu em França depois da revolução de 1830. Esta idéia, consequentemente desenvolvida, é a idéia da nova ordem universal. (MARX, 1974)
A ótica marxista, adotada no entendimento da história, reduz este marco descartando a sua complexidade genuína, centralizando o processo e submetendo toda a sua leitura ao choque de forças opostas e contrárias. Os antecedentes da Revolução Francesa são compreendidos dialeticamente, portanto, a estrutura social petrificada – ainda que aberta à ascensão – baseada em três “estados” – clero, nobreza e povo – contorna a percepção adotada por Marx; “A filosofia da práxis é o coroamento de todo este movimento de reforma intelectual e moral, dialetizando no contraste ente cultura popular e alta cultura.” (GRAMSCI, 1981). De fato, o forte poder do Estado, juntamente com condições de vida inapropriadas, instauraram um contexto favorável a certas revoltas. Não obstante, a distância entre motins e Revolução sempre foi bastante considerável:
A Reforma Luterana e o calvinismo suscitaram um vasto movimento popular-nacional no qual se difundiram, mas tão somente em épocas posteriores criaram uma cultura superior (...) A França foi dilacerada pelas guerras religiosas, cuja vitória coube aparentemente ao catolicismo, mas obteve uma grande reforma popular no século XVIII, com o iluminismo, o voltairianismo, a Enciclopédia que precedeu e acompanhou a revolução de 1789; tratou-se, na realidade, de uma grande reforma intelectual e moral do povo francês, mais completa do que a luterana alemã, já que envolveu também as grandes massas camponeses rurais, pois teve um fundo laico acentuado e tentou substituir a religião por uma ideologia completamente laica, representada pela vinculação nacional e patriótica. (GRAMSCI, 1981)
Destarte, se faz mister pontuar o papel crucial – quiçá vital – das grandes mentalidades iluministas, de formação aristocrática ou burguesa, responsáveis por dar forma ideológica ao que se tornou a Revolução Francesa; “As idéias encarnaram-se em fatos; o filosofismo armou-se em revolução e o Terror realizou a associação repugnante de Diderot quando saudava o dia em que haveria de ver; Des boyaux du dernier prêtre/ Serrer le cou du dernier roi.” (FRANCA, 1955). A intelectualidade “das luzes”, carregada do mais radical espírito antimedieval, inflamou as massas, no máximo, insatisfeitas. A estrutura social francesa refletia, naturalmente, a mentalidade do homem cristão. O clero, enquanto grupo social fundado diretamente por Deus, para os crentes, encabeçava a nação pelas altas virtudes e valores que regiam os seus atos e ações. Na linha contrária, os iluministas, embriagados com a ira anticlerical, reconheceram na Igreja Católica não só o alvo como a grande base que mantinha o equilíbrio da nação. Durante todo o processo revolucionário, desde a Convenção, passando pelo Grande Terror, chegando até o 18 de Brumário, com todas as multiformes ações, se manteve o mesmo organizado e orquestrado ataque à Igreja, seja para destruí-la ou para submetê-la.

A problemática religiosa da Revolução Francesa “construiu-se e organizou-se em torno do gigantesco combate entre a Igreja Católica e o novo regime” (VOVELLE, 1987). A mentalidade revolucionária foi formada a partir da convergência de fatores que lapidaram a consciência do homem. Assim, o combate à Igreja, consequência de certo ranço de sabor galicano e jansenista, deu margem ao florescimento do devaneio e da utopia política. Por exemplo, a estapafúrdia tríade fundamental dos “Mártires da Liberdade”, composta por Lepeletier, Marat e Chalier, gozando de veneração, e a excêntrica religiosidade revolucionária com cultos a razão, a “Boa Mãe”. Esta transferência de sacralidade, da fé cristã à religião revolucionária, partiu de dois movimentos complementares. Por um lado uma ação de descristianização organizada, com combate à vida sacramental, ao ensino catequético, e a tudo que se referisse ao sobrenatural, e, por outro lado, uma espontaneidade popular diante da nova “crença”, fruto, em parte, da influência jansenista com a privação da vida da graça.

A Revolução Francesa, dizem os teóricos marxistas, foi o apogeu das forças dialéticas que se tornaram insustentáveis numa nação altamente injusta e com grandes massas em estado de opressão. Entretanto, analisando uma perscpetiva mais ampla, a Revolução Francesa se forma com o alvorecer da mentalidade moderna, inaugurada formalmente na Reforma.

O evento de 1789 deve ser estudado em sua diversidade, levando em consideração as diversas variantes que o influenciaram – direta ou indiretamente. Em concreto, a complexa e delicada situação do “terceiro estado” é fator relevante na análise, não obstante, deve-se frisar o crescente espírito humanista, surgido no Renascimento, e o fortalecimento das filosofias de sabor liberal, com destacadas características individualistas, racionalistas, socialistas, nascidas factualmente do berço do protestantismo. Ademais, a intelectualidade francesa - burguesa e aristocrática - foi, seguramente, a responsável por despertar nas massas o ardor revolucionário que, para os marxistas, estas carregam na própria essência proletária.

Partir de uma leitura que entende a Revolução como fruto da organização espontânea do “terceiro estado” é não só reduzir a complexidade da história como mascarar uma realidade óbvia; trabalhadores e camponeses não pensam ideologias nem arquitetam tomadas de poder, no máximo revoltas. Os grupos intelectuais elitizados, estes sim, que forjam as utopias e lapidam as paixões ideológicas.

[...]

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Os homens que viraram na'vis...

O sempre atuante Leonardo Boff, aquele conhecido kamarada eco-teólogo, fez um comentário muito pertinente no seu twitter acerca da proibição das belíssimas e tradicionais touradas na Catalunha; "Na medida em que cresce a consciência ecologica e a interdependencia entre todos os seres, nesta medida ficam impossíveis as touradas."

Eu quase me senti um na'vi no coração do planeta Pandora plugando os meus interruptores cerebrais à natureza e aos animais, figuras perfeitas da suprema divindade Eywa! E viva a cultura Nova Era. De certa forma fico até triste ao ver Leonardo Boff descambar para uma visão tão superficial, simplória e caricatural da realidade. Ok, é verdade que no auge da Teologia da Libertação o ex-frade era o primeiro a ostentar os falaciosos paradigmas marxistas dentro da teologia, numa visão dialética tão rasa quanto a febre verde da atualidade.

Entretanto, Boff evolui, ele coloca a natureza como sendo mais um alvo das estruturas de dominação e alienação. Diz ele que "A mesma lógica que leva a explorar as pessoas, as classes, os países, é também a que leva a explorar a natureza". Aplausos! Não sei se é apenas coincidência, mas o terror ambiental, fundamentado no mito do aquecimento global, perpetua uma indústria financiada por bilhões de doláres e que tem como objetivo difundir o espírito politicamente e ecologicamente correto. Boff atualmente anda pelo mundo, numa cruzada vegetariana, pregando em favor da santa biodiversidade e da beata natureza!

A sua obra "Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres" inaugurou a Ecoteologia da Libertação; "Temos que nos convencer que a Terra é Gaia, isto é, tem um comportamento típico dos seres vivos. Somos mais filhos e filhas da Terra. A nossa singularidade é a de ser os cuidadores da Terra, os jardineiros do Éden terreno, e não o Satã da Terra." Aleluia! Até estou vendo Boff liderando um ritual sagrado, num santuário ecumênico, em torno de um cacho de banana, com fiéis cantando mantras e captando a energia vinda da Mãe Terra.

Como disse Lord Nigel Lawson, Ex-Ministro de Finanças e da Energia da Inglaterra, no documentário "A Grande Farsa do Aquecimento Global": "A esquerda ficou levemente desorientada depois do fracasso evidente do socialismo e, naturalmente, do comunismo-marxismo como foi testado, e ainda permanecem tão anticapitalistas quanto eram, mas eles têm de encontrar novos sujeitos para esse anticapitalismo." A causa verde e o ambientalismo caricatural surgem como as novas bandeiras que escondem os desejos mais revolucionários. Funcionam como máscaras que conseguem conquistar e renovar o séquito dos idiotas úteis e, ao mesmo tempo, ofuscar um intento extremamente subversivo e friamente planejado; a destruição da Civilização.

Welcome to Pandora, baby!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Causas religiosas da Revolução Francesa - II

O galicanismo e o jansenismo como causas da Revolução Francesa

O galicanismo pode ser definido como a busca pela submissão da Igreja ao poder civil, tolhida em sua liberdade e impedida burocraticamente de praticar a sua missão apostólica. Desde o rompimento da igreja da Inglaterra, iniciada com Henrique VIII e estruturada com Izabel I, surgiram em certas nações européias movimentos que partiram do mesmo ideal, alguns com fundamentações teológicas e outros com simples intentos políticos.

O galicanismo nasceu da convergência de fatores como, por exemplo, o conciliarismo que, debilitando o papado e fortalecendo os episcopados nacionais, deu margem para o desenvolvimento de teses nacionalistas. Além disso, a complexa situação canônica, com problemas jurisdicionais, somada a questões doutrinais e morais, deram margem ao desenvolvimento de tais teses. Nem mesmo a condenação ao conciliarismo por Pio II e pelo Concílio Lateralense V - não reconhecido como ecumênico pela França - deu fim ao movimento galicano.

O galicanismo eclesiástico, com seus matizes episcopais ou presbiterianos, segundo os tempos, possibilitou um ataque frontal à Igreja, o que enfraqueceu e deteriorou a vida espiritual dos franceses. Obviamente, os princípios galicanos foram utilizados por entusiastas do absolutismo como forma de neutralizar a influência papal na nação. Richelieu, por exemplo, grande promotor do ideal do Estado forte e centralizado, defendeu a ereção de um patriarcado francês aos moldes das igrejas autocéfalas cismáticas; “em algumas ocasiões não resultava fácil distinguir movimento político do eclesiástico” (LABOA, 2001). Ademais, é com Luiz XIV, o Rei Sol, que se inicia intensivamente o conflito entre Roma e as aspirações galicanas.

Pierre Pithou, influente inspirador das doutrinas galicanas no ambiente parlamentário, elencou em 83 artigos os direitos e privilégios do rei francês sobre a Igreja. Do mesmo modo, Edmond Richer defendeu uma igreja democrática onde os sacerdotes seriam soberanos e a estrutura do poder estaria subordinada a uma legislação sinodal e conciliar tendo, o Papa, um poder meramente executivo – propostas apropriadas e remodeladas mais tarde pelos revolucionários. Baseado, do mesmo modo, no direito divino dos reis, Richer restringe o poder da igreja a uma ordem estritamente espiritual e, em contrapartida, gozando o poder civil de toda a ordem material, assim, a Igreja torna-se refém da coroa: “A infalibilidade pertence a toda a Igreja ou ao concílio geral, que a representa; é sobre o concílio geral sobre quem recai todas as controvérsias, como o último e infalível tribunal, tendo toda a plenitude de poder” (LABOA apud RICHER, 2001). Destarte, os seus bispos têm jurisdição plena, independente e livre exercício de sua autoridade. Logo se restringe a plena autoridade papal.

A problemática das regalias e o intento político de alguns parlamentaristas franceses deram forma a essa mecânica de poder, tendo em vista a redução da autonomia da Igreja. Visando o alvorecer de uma igreja nacional, Luiz XIV convocou a assembléia do clero francês em reação aos pronunciamentos papais opostos aos projetos de cunho cismático, ou próximo disso, orquestrados pelo rei e influenciado por seus conselheiros, como o arcebispo de Paris. Os quatro artigos galicanos promulgados nesta assembléia, aprovados pelos 34 bispos participantes, deram forma às doutrinas de emancipação da igreja francesa.

O grande orador Bossuet, membro atuante da assembléia convocada, buscava convergir uma fidedigna adesão ao primado pontifício juntamente ao receio da extrapolação do poder papal como defendido por autores ultramontanos. A linha adotada por esse ilustre bispo francês partia do entendimento do “direito” que a Igreja tinha de ser protegida pelo rei. Como exposto pelo historiador Juan Maria Laboa, Bossuet acreditava não na infalibilidade do pontífice romano, mas sim na da Santa Sé.

Os quatro artigos podem ser sintetizados de tal modo:

1. Cristo concedeu a Pedro e seus sucessores apenas poder e autoridade sobre as coisas espirituais e concernentes à salvação. A ordem temporal e os estados são livres e independentes de qualquer interferência e ação eclesiástica. Os reis não se submetem a nenhuma potência da Igreja. Assim, o Papa não tem nenhum respaldo para depor ou desligar os súditos.

2. Os poderes que Cristo deixou à Santa Sé estão limitados pelo Concílio de Constança (conciliarismo).

3. As leis do reino e os estatutos da igreja da França gozam de estabilidade e não podem ser alterados pela Sede Apostólica por estarem em consonância com a autoridade instituída por Cristo.

4. O juízo do Santo Padre não é irreformável senão com o consentimento de toda a Igreja.

Claramente os artigos propostos trazem um arraigado espírito de desobediência e revolta diante da autoridade da Igreja. “A Igreja Constitucional que ela [França], antes de naufragar no deísmo e no ateísmo, tentou fundar, era uma adaptação da igreja da França ao espírito do protestantismo” (DE OLIVEIRA, 1998).

Toda a problemática galicana acarretou o choque entre a França e Roma. Luiz XIV, mesmo recebendo a condenação de Inocêncio XI aos quatro artigos que, além disso, se negou a conceder as bulas de instituição dos novos bispos nomeados pelo rei, manteve a sua cruzada em prol da emancipação da igreja francesa. Entretanto, temendo a concretização de um cisma formal, não procurou a sagração episcopal dos sacerdotes indicados por ele para o pastoreio das dioceses sabendo que configuraria um ato canônico de rompimento à autoridade do Papa.

Toda a gênese do galicanismo termina, ou ao menos perde a força de outrora, com a publicação da bula inter multiplicis do Papa Alexandre VIII, na qual condenou os quatro artigos, as regalias, declarando nulos, inválidos e sem consequências. Luiz XIV, constatando o desgaste de sua política e entrando em diálogo fraterno com o Papa Inocêncio XII, não mais exigiu o ensino do edito da assembléia galicana ainda que conservasse a declaração.

Obviamente o galicanismo não se finda por meio de um decreto. Ainda que não mais houvesse uma política oficial do Estado em busca da independência da igreja francesa, o espírito proposto se manteve e repercutiu na mentalidade do homem. De certo modo, como colocado pelo Pe. Leonel Franca, o jansenismo nasceu ao pé das iniciativas galicanas.

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sábado, 24 de julho de 2010

Causas religiosas da Revolução Francesa

[Abaixo se encontra a introdução do trabalho apresentado por mim e pelo Sem. Cleyton Torres Reis, diocese de Anápolis - GO, na matéria de História do Prof. Valter de Oliveira, no Seminário Maria Mater Ecclesiae do Brasil. O trabalho é relativamente extenso, portanto a sua publicação será dividida. Todos os artigos tocavam em algum ponto da Reforma Protestante. Já o nosso tema introduzia o espírito reformado no alvorecer do terror revolucionário; "Causas religiosas da Revolução Francesa; o Galicanismo e o Jansenismo"]

A Revolução Francesa reflete em sua essência mais profunda o novo espírito e o novo paradigma proposto pela Reforma Protestante. De fato, o acontecido de 1789 “foi senão a transposição, para o âmbito do Estado, da ‘Reforma’ que as seitas protestantes mais radicais adotaram em matéria de organização eclesiástica” (DE OLIVEIRA, 1998). O ethos reformista fomentou em terras francesas o contexto que propiciou a explosão de um movimento revolucionário, anticlerical e totalitário. O jansenismo e o galicanismo, frutos desta árvore, sancionaram, mesmo que indiretamente, a ascensão do horror e da utopia.

A Revolução não pode ser compreendida como um evento a parte da sua história precedente. Sem dúvida alguma, a compreensão sincera e genuína das consequências civilizacionais do Renascimento e da Reforma são partes fundamentais no estudo deste marco do mundo contemporâneo. Todo o processo revolucionário abarca em seu âmago o homem, por isso se faz mister levar em consideração a desconstrução do paradigma medieval, movimento este iniciado pelo humanismo renascentista e consolidado na coroação do homem absoluto com os princípios protestantes.

O homem moderno, com as aspirações revolucionárias, distante da compreensão cristã da realidade – entenda-se cristã não como a percepção religiosa, mas como a visão profunda e completa do mundo –, deu início a um processo de absolutização de si mesmo, com o triunfalismo das suas capacidades e a vanglória dos seus ponteciais. A Revolução Francesa concretiza e inaugura, com a sua prática, uma época de rompimento formal com a mentalidade do medievo.
A Reforma foi a primeira explosão do individualismo destruidor e da sentimentalidade republicana, as grandes questões intelectuais e sociais, em vez de serem resolvidas em comum e pelas vias tradicionais, começaram a ser interpretadas no segredo dos corações e no isolamento das consciências. As incertas aspirações de cada indivíduo tornaram-se, para ele, uma verdade e um deus. A atividade harmônica dos agrupamentos naturais, os seus hábitos de disciplina religiosa e estética desvaneceram-se perante as iniciativas particulares de cada um dos seus membros. E chamou-se a isto ‘libertação’. Por toda a parte onde a Reforma triunfou sob a sua forma pura, a forma luterana, não houve, na realidade, senão anarquia e, quando findou o período da fermentação ficou a existir um fracionamento territorial quase infinito e uma desagregação moral quase irremediável. A unidade francesa foi salva e o rei salvou-se com ela. Triunfando o classicismo, Pascal, Descartes, Bousuet e La Bruyère vão buscar à monarquia a sua concepção do direito e do governo. Parece que nada virá perturbar este equilíbrio e este acordo. No entanto, a mística revolucionária não está morta. É ela que inspira as tiradas dos libertinos contra a memória e contra a razão, tiradas essas que corromperam a natureza e tiraram ao homem o gosto e a arte do prazer puro. (GAXOTE, 1945)
Em concreto, “a característica da idade moderna da Igreja é a desintegração do universalismo e o trânsito ao particularismo” (LABOA, 2001). A Europa, então, se vê afetada pelos reflexos da Reforma Protestante; não só uma crise espiritual, mas sim, como consequência desta, a derrocada da unidade relativamente estável; “a Reforma engendra como fruto maduro as igrejas nacionais” (LABOA, 2001). O galicanismo e, em seu pé, o jansenismo surgem, na França, na esteira dessa mentalidade. Nesse sentido, “a revolução é filha legítima da Reforma.” (FRANCA, 1958).

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Ideologia "Tradicional"


O espírito do mundo moderno é extremamente destrutivo e assola todas as instituições e o plano divino da existência. Assim, é o grande responsável pela desordem e pela crise espiritual que vivemos. Os seus arautos, aqueles que promovem o liberalismo/secularismo/progressismo nas mais diversas frentes, agem na desconstrução da Tradição e na imposição de um novo paradigma ideológico. O ardor revolucionário é extremamente eficiente por ter um motor romântico e ser norteado por concepções falseadas da realidade.

A primeira realidade, que só é compreendida através da reflexão racional, a partir do entendimento da realidade concreta, é totalmente tolhida em nome da segunda realidade, ou seja, a alternativa forjada pela ideologia, concebida nas mentes insanas de homens tomados pela febre da paixão. Assim, por exemplo, Karl Marx concebe a sua falácia comunista partindo da deformação dos pressupostos filosóficos, históricos e econômicos, ou seja, falseia a primeira realidade tendo em vista o alcance da segunda. A complexidade da questão inicia-se quando toda a sociedade é tomada pela doença espiritual, esmagada pelo choque entre as duas realidades, como foi o caso da Alemanha nazista.

Entretanto, o que quero pontuar nessa breve reflexão não é a postura dos modernistas e seus sequazes. Em relação a eles já temos um amadurecimento suficiente. O perigo, muitas vezes, forma-se na busca pela remediação drástica e rápida dos problemas civilizacionais. De fato, é louvável a ânsia de muitos que buscam, apressadamente, reconstruir aquilo que foi destruído pela sorrateira ação revolucionária. Não obstante, a eficácia e eficiência não podem ser confundidas com rapidez e brutalidade. Ao contrário, quanto mais conhecemos a realidade da crise - a sua amplitude e complexidade - mais percebemos como as soluções devem ser equilibradas, ponderadas e frias. Isso mesmo; frias no sentido de não-passionais, afinal, infelizmente, constata-se a forte presença de um espírito romântico nas atitudes tomadas pelos mais ardorosos defensores da "Contra-revolução."

O maior perigo se faz na construção de uma "ideologia" tradicional, contra-revolucionária, na ereção da segunda realidade utópica. Como qualquer ideologia, incidirá no erro de falsear a realidade, ou enxergá-la de modo parcial e pontual, galgando a adequação ao projeto tão ansiado. Enquanto Marx deformava as teorias históricas mirando o encaixe com as suas pretensões comunistas, alguns tradicionalistas ideologizados restringem o entendimento da realidade buscando o fácil solucionamento da crise do mundo moderno com o alvorecer da sociedade tradicional.

Essa simplificação cria soluções caricaturais que incidem no imediatismo e na brutalidade, além disso, não só transforma questões acidentais em essenciais como sanciona a dinâmica do bode expiatório ao acreditar na vítima sacrificial que, quando exterminada, apazigua toda a sociedade. Destarte, o fundamento é a ideologia, a crença apaixonada que busca, por meio da deformação do real, a realização dos anseios mais profundos e obscuros. Ainda que a iniciativa carregue uma positiva e inocente percepção, outrossim, é obtusa e inadequada, já que incorre na ridicularização da causa. Ademais, a crescente adesão de jovens no mundo virtual ao projeto contra-revolucionário favorece ao rompimento profundo com a realidade. Com isso, encontramos com facilidade soluções pueris aos problemas do mundo moderno, com remédios que passam desde a anulação do Concílio Vaticano II até a retomada da Santa Inquisição.
***
Podemos iniciar a campanha: Pela não banalização tradicional - contra a banalização do cachimbo, do tabaco, das abotoaduras, de Shakespeare, Dostoiévski, Mozart, Hildegard von Bingen, do latim, da filosofia clássica, da história medieval, do gótico, de Santo Tomás, Camões, Chesterton, Dante etc.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Novamente a Legião é atacada...

Eu tenho fico "admirado" com o esforço e o tempo que certas pessoas vem gastando para afrontar moralmente e espiritualmente a Legião de Cristo e os seus apostolados. De fato, é triste e penoso os escândalos que envolvem o nome de Pe. Maciel, o Fundador. Entretanto, também é inegável o esplendoroso benefício oriundo dessa fundação. Sigamos o método deixado por Nosso Senhor para conhecer a essência de um iniciativa; a qualidade dos frutos.

Ora, a Legião e o Regnum Christi não têm atuado, justamente, na defesa de Cristo, da Sua Igreja, de todas as riquezas doutrinárias ensinadas e protegidas pelo Magistério? Toda a ação desta fundação se centra num belíssimo espírito de fidelidade e piedade, com vida de oração e forjando no peito de cada irmão um coração eucarístico. Do mesmo modo, os leigos formados pelos Legionários se destacam na defesa da Igreja, atuando no mundo como sementes que multiplicam o poder do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Quase sempre os ataques à Legião partem de dois lados diametralmente opostos; primeiro nós temos aqueles que, embebidos na mais liberal das teologias, acusam os Legionários de farisaísmo e hipocrisia; defendiam a ortodoxia doutrinária mas eram pecadores inveterados. Ora essa, os erros de Pe. Maciel incidem sobre seus filhos? Ademais, muitos desses acusadores, defensores públicos de posicionamentos heréticos, se dão ao direito de apelar para um autoridade que nem mesmo eles seguem. Por outro lado, existem as afrontas vindas das alas radicais-tradicionalistas. A origem dessa violência é muito clara; a Legião de Cristo encarna, com fidelidade, o espírito do Concílio Vaticano II; são "pós-conciliares de carteirinha". Logo, de certa forma, atacar os Legionários é diminuir estes que são arautos na defesa do Concílio e fidelíssimos aos documentos conciliares.

Ambos os ultrajes partem de uma percepção apaixonada e distante dos fatos, movidas por interesses que vão muito além do amor a Cristo e à Sua Igreja. É triste perceber que logo quando a Esposa de Nosso Senhor é mais violentada pela ação de maçons, anticlericais, laicistas etc, os católicos se separam insuflados por discórdia e conflitos originados na luta de ego e interesses pessoais.

Do que adianta perceber que a Igreja é alvo da ira do mundo moderno se nós, que somos irmãos, enfraquecemos as suas fileiras quando caímos em brigas sem propósito?

sábado, 20 de março de 2010

A Ação Revolucionária e a Igreja

Por Sem. Pedro Ravazzano
O marxismo tem como uma das características mais marcantes a sua práxis. De fato, dentro dos paradigmas propostos por Karl Marx, a prática revolucionária é o fundamento basilar da sociedade comunista. Os princípios econômicos desta doutrina refletem a perspectiva materialista da história e da existência. Assim, para o pensador alemão, toda a evolução social parte do desenvolvimento de forças produtivas, causadoras, portanto, da opressão e da alienação. Em concreto, a religião é, observando esses princípios, mais um instrumento de dominação do proletariado e, como consequência, o combate ao sagrado é parte integral do processo revolucionário.

A religião, segundo o materialismo histórico, se relaciona com a opressão; do mesmo modo que o bem produzido pelo trabalhador torna-se estranho a ele, graças à exploração do trabalho e da mais-valia, gozando de vida própria independente do seu criador, Deus, uma criação também humana, se volta contra o indivíduo de forma hostil. A religião transforma-se, então, num fator de esvaziamento do homem, o distanciando da sua essência. Assim como a alienação econômica, a religiosa cria um produto com identidade estabelecida; Deus, que sacrifica o próprio homem. A fé, enquanto tal, é mais uma peça fundamental do que Marx denomina “superestrutura” que, por sua vez, é responsável pela manutenção e perpetuação do sistema opressivo e dialético. A alienação religiosa é originada na classe burguesa que, na perpetuação de crenças, legitima o seu poder, justifica a dominação e impede o despertar revolucionário entre o proletariado.

Obviamente, a perspectiva materialista do marxismo se afasta radicalmente de qualquer princípio cristão, a começar pelo fato de submeter toda a existência a um dado econômico. O marxismo, concebe a revolução como uma verdadeira redenção, não só desconsiderando a única e real Redenção, a de Cristo, como alimentando a crença de que o resultado desta seria um novo homem, com uma nova filosofia e um novo paradigma existencial. Karl Marx acreditava, factualmente, no poder redentor do comunismo revolucionário, entretanto, desconsiderava um dado crucial e essencial no entendimento da complexa natureza humana; o pecado original.

Explicando o marxismo, na Quadragesimo Anno, S.S Pio XI diz que “a sociedade humana” para os comunistas “não é mais do que forma ou aparência da matéria, em evolução segundo as suas leis; por uma necessidade fatal, tende, por meio de um perpétuo conflito de forças, para a síntese final: uma sociedade sem classes (...) Insistindo no aspecto dialético do seu materialismo, pretendem os comunistas que o conflito, destinado a levar o mundo para a síntese final, pode ser precipitado, devido aos esforços humanos. Por isso procuram tornar mais agudos os antagonismos ressurgentes entre as diversas classes da sociedade. A luta de classes, com os seus ódios a as suas destruições, reveste o aspecto de uma cruzada do progresso da humanidade. Pelo contrário, todas as forças se opõem a estas violências sistemáticas, sejam de que natureza forem, devem ser aniquiladas, como inimigas do genêro humano.”

Nesse processo dialético, de luta de classes, a revolução toma forma como o fim dos anseios humanos por uma sociedade fundamentada na justiça e na concórdia. Entretanto, os princípios marxistas partem, em suas origens, de concepções relativistas que se chocam com a utopia imaginada pelos arautos do comunismo. O próprio Lênin, justificando a prática bolchevique, que em sua época já havia matado sete milhões de ucranianos de fome, dissera, no discurso ao Comitê Central do Partido Comunista, em Julho de 1928, que “É sofisma usar da palavra violência, quando referida à ação revolucionária. Isto não impede os socialistas de serem partidários duma guerra revolucionária” O que o revolucionário russo pretendera defender é que “qualquer guerra é justa, desde que sirva a Revolução Soviética (...) a violência é justificada, quando favorece a ação revolucionária. A violência é condenável quando contrária à revolução comunista”, como comentou o fabuloso Arcebispo de Nova Iorque Fulton Sheen.

Desde a queda do muro de Berlim o marxismo ortodoxo, de cunho tipicamente soviético, foi perdendo forças para ações baseadas em Gramsci, Lukács, frankfurtianos etc. Gramsci já era lido e debatido nas rodas revolucionárias, em especial com os crescentes problemas internos da URSS e a percepção de outros teóricos a respeito do papel crucial da cultura no processo da revolução. Entretanto, só com a derrocada da ortodoxia marxista, encarnada em Moscou, que se deu a devida relevância à sua cartilha. Antes disso, com o poder bolchevique exportando guerras, ainda se acreditava na redenção revolucionária através das armas. Dito isso, o processo revolucionário vivencia, atualmente, um novo paradigma de atuação. Aqueles que ainda crêem no poder místico de uma AK-47 perdem espaço para jovens que adotam como bandeira a ação cultural da revolução, com maior eficácia no mundo moderno. Dentro dessa linha, sem dúvida alguma, Gramsci se destaca. O comunista da “filosofia dela prassi” se opunha ao caráter dogmático do marxismo soviético; atrofiava a prática revolucionária e fechava a teoria. A cultura, para ele, tem uma função essencial, já que dentro da perspectiva gramsciana a união entre o pensamento e a ação se faz nas circunstâncias concretas, através de um processo interno que abarca a intelectualidade e tendo como fim a revolução. A “filosofia da práxis” se transforma numa verdadeira reforma revolucionária, levando em conta a liberdade cultural da sociedade e as variantes que não podem ser forçadas por meio de uma prática marxista pré-fabricada, como quiseram os russos.

O pensamento de Antonio Gramsci se revitaliza nos tempos atuais juntamente com a necessidade do marxismo de revisar os modelos falidos da URSS. O absolutismo da democracia desfavorece a “práxis” que não adota a roupagem democrática, mesmo que seja de forma nominal. O contexto atual lança ao ostracismo político aqueles que defendem, numa honestidade interna louvável, o processo revolucionário como ruptura violenta - vide, por exemplo, a imagem de partidos como PCO, PSTU e PCB. A relevância do teórico comunista italiano se faz, justamente, no novo modelo proposto; não mais uma revolução entendida como luta armada e motins sociais, mas sim que parte da cultura e da classe intelectual.

A “função orgânica” dos intelectuais, como diz Gramsci, torna-os peças relevantes em todas as etapas de reprodução social, refletindo, obviamente, o poder de liderança que têm junto ao homem comum. Nesse tocante, o comunista italiano afirma que a intelectualidade deve ser transformada em artífice de uma nova moral e uma nova cultura, combatendo a “hegemonia” e a opressão das classes capitalistas, gerindo a reflexão social que abarcaria toda e cultura e teria como fim, no devido momento histórico, o socialismo; “Admiro os revolucionários que se dão a tanto trabalho para explodir muralhas com dinamite, enquanto o molho de chaves das pessoas bem-pensantes lhes teria permitido entrar tranquilamente pela porte, sem acordar ninguém”, assim disse o magistral pároco do “Diário de um pároco de aldeia”, de Georges Bernanos.

A escola, “aparelho privado de hegemonia”, era, para Gramsci, do mesmo modo, peça relevante na edificação de um novo paradigma social. A juventude, formada nos colégios, absorve modos de raciocínio que bebem da cultura dominante, da ideologia da opressão. Logo, se faz mister romper com a subordinação intelectual, erigindo a nova sociedade, a começar pela desconstrução do discurso moralista, religioso.

Destarte, Antonio Gramsci destacava o papel relevante da Igreja na contra-revolução, por ser esta uma força essencialmente “reacionária”. Assim como as escolas deveriam ser tomadas por agentes da ideologia partidária, a destruição da Igreja, Mãe e Mestra da Verdade, se tornava parte determinante de qualquer projeto socialista de governo. O socialismo, para Gramsci, era a “a religião que” mataria “o cristianismo”. Ademais, dentro da ótica gramsciana, o Partido Comunista adota uma mística religiosa, sendo uma reprodução “vermelha” do Príncipe maquiavélico. A subordinação sem limites do militante à sigla reflete, em essência, a ânsia do ser humano por Deus. A dura disciplina interna, somada ao forte estudo intelectual-doutrinário, com uma destacada centralização, transforma o Partido sonhado por Gramsci quase como uma instituição religiosa de fundo transcendental, destinado ao misticismo revolucionário.

A ação comunista contra a Igreja Católica compreende, hoje em dia, uma diversidade de práticas, desde o ataque frontal, até às sórdidas arquitetações da grande mídia. O Cristianismo enfrenta uma violência interna e muito bem articulada. O relativismo moral e religioso da sociedade moderna, fruto, de certo modo, da decadência alimentada pela perspectiva coletivista, cria o habitat apropriado para o fortalecimento dos “chavões sociais” comumente repetidos nas sacristias e passeatas.

De todo o modo, nem mesmo o mais organizado dos ataques conseguirá derrubar aquela que é a Esposa de Cristo, a única instituição Divinamente pensada e sobrenaturalmente guardada. Como bem disse Fulton Sheen – oxalá seja uma profecia; “O martelo que tantas habitações e tantos lares destruíra, tantos santuários profanara, há-de um dia, em virtude de tantas preces e de tantos sacrifícios feitos por milhões de homens e mulheres, transformar-se numa cruz; a foice que os comunistas usaram para ceifar tanto caule verde, tanta vida incipiente, deixará o seu simbolismo e transformar-se-á numa lua de pureza sob os pés da Virgem Nossa Senhora.”

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Qual é a do Titãs?


Que as novelas são um grande instrumento para disseminar, e porque não, educar, e fomentar uma sociedade indiferente e cheia de contra-valores, isso não é novidade. Cada novela traz consigo as concepções ideológicas dos seus autores, portanto, basta fazer uma rápida e simples pesquisa biográfica para compreender o norte que certas novelas tomam durante sua exibição na televisão.

Lembremo-nos apenas de Benedito Rui Barbosa, que confessou, para o programa Roda Viva, ter tentado manipular a opinião pública acerca da questão agrária durante a exibição da novela O Rei do gado.

Mas por hora, não detenhamos nossos esforços por entender o poder persuasivo e imoral da novela. Quero apenas fazer uma pequena reflexão acerca do grupo musical Titãs.

Há alguns anos o Titãs gravou uma música cujo nome é Igreja. Desde então, por amar a Igreja incondicionalmente e saber que ela é a Coluna e Sustentáculo da Verdade, nutro um sentimento de desprezo por este grupo que numa atitude explicitamente rebelde, canta para os quatro cantos do mundo, não crêr na Graça de Deus. Note-se que existe na letra da música um certo ódio, ou melhor dizendo, um profundo ódio pela Igreja, e aqui entende-se Igreja Católica Apostólica Romana, pois conforme os elementos citados, não há o que duvidar disso. Segue:

IGREJA (Titãs)

Eu não gosto de padre
Eu não gosto de madre
Eu não gosto de frei.
Eu não gosto de bispo
Eu não gosto de Cristo
Eu não digo amém.
Eu não monto presépio
Eu não gosto do vigário
Nem da missa das seis.
Não! Não!
Eu não gosto do terço
Eu não gosto do berço
De Jesus de Belém.
Eu não gosto do papa
Eu não creio na graça
Do milagre de Deus.
Eu não gosto da igreja
Eu não entro na igreja
Não tenho religião.
Não!
Não! Não gosto! Eu não gosto!
Não! Não gosto! Eu não gosto!

Como podemos observar, para cada frase da música, há um elemento explicitamente reprovado pelo grupo. Mas o que me intriga, é: afinal, por que tanto ódio contra a Igreja? Com quais objetivos se compõe a letra de uma música com um teor de repúdio tão explícito?

Mas o Titãs não para por aí. Recentemente, o grupo gravou mais uma música com um teor estranho, e explicitamente rebelde, (É esta a bandeira do rock?), tema de abertura da novela global Cama de Gato.

Segue:

PELO AVESSO – (Titãs)
Vamos deixar que entrem
Que invadam o seu lar
Pedir que quebrem
Que acabem com seu bem-estar
Vamos pedir que quebrem
O que eu construi pra mim
Que joguem lixo
Que destruam o meu jardim
Eu quero o mesmo inferno
A mesma cela de prisão - a falta de futuro
Eu quero a mesma humilhação - a falta de futuro
Vamos deixar que entrem
Que invadam o meu quintal
Que sujem a casa
E rasguem as roupas no varal
Vamos pedir que quebrem
Sua sala de jantar
Que quebrem os móveis
E queimem tudo o que restar
Eu quero o mesmo inferno
A mesma cela de prisão - a falta de futuro
Eu quero a mesma humilhação - a falta de futuro
Eu quero o mesmo inferno
A mesma cela de prisão - a falta de futuro
O mesmo desespero
Vamos deixar que entrem
Como uma interrogação
Até os inocentes
Aqui já não tem perdão
Vamos pedir que quebrem
Destruir qualquer certeza
Até o que é mesmo belo
Aqui já não tem beleza
Vamos deixar que entrem
E fiquem com o que você tem
Até o que é de todos
Já não é de ninguém
Pedir que quebrem
Mendigar pelas esquinas
Até o que é novo
Já esta em ruinas
Vamos deixar que entrem
Nada é como você pensa
Pedir que sentem
Aos que entraram sem licença
Pedir que quebrem
Que derrubem o meu muro
Atrás de tantas cercas
Quem é que pode estar seguro?
Eu quero o mesmo inferno
A mesma cela de prisão - a falta de futuro
Eu quero a mesma humilhação - a falta de futuro
Eu quero o mesmo inferno
A mesma cela de prisão - a falta de futuro
O mesmo desespero

Pelo visto, a música me parece ter um teor revolucionário e irônico. Ou haveria uma outra interpretação? Qual seria, afinal de contas, o objetivo da letra? Edificar? Bem, o que sei é que as palavras “tão edificantes da música” entram através da novela nos lares, minando gradativamente a fé de tantos. Lendo a letra desta música, me recordo das palavras de Eduardo Alves da Costa no poema “No Caminho, com Maiakóvski”:

...Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada..

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Breve História da Moda na França: 1900-2000



É interessante ver como a mulher termina com um vestido que é muito menor do que a roupa íntima (!!) do vestido inicial.
No quesito moda a Revolução avançou a passos largos neste século.

Comparem o vídeo com a sequência de fotos abaixo. As fotos mostram as mudanças ocorridas na vestimenta feminina da Idade Média até o século XIX.

É assustadora a velocidade com que a moda mudou no último século. Mesmo aqueles espíritos que vêem nisto apenas uma mudança natural de costumes - como sempre ocorreu -, têm dificuldade em explicar porque no sec. XX esta mudança foi tão rápida e porque houveram mudanças tão radicais.

sábado, 14 de novembro de 2009

Revolução e Contra-Revolução em imagens

Algumas imagens da Revolução [ R ] e da Contra-Revolução [ CR ]

***



R -A mulher moderna e o micro-comprimento :: CR- A mulher moderna vestida



R -Uma face do jovem de hoje :: CR- Outra face



R - Isto é uma criança :: CR- E isto também

R - Feminista lésbica pró-aborto :: CR - Santa Gianna: preferiu morrer a abortar seu filho

R- Homossexuais adotam criança :: CR - Família natural numerosa


R- Isto é Shakespeare :: CR - E isto também



R- Tendência ao ateísmo :: CR - Linda em qualquer época

R- Banda católica "Adonai" :: CR - Coral Católico da catedral St Paul

R - Evento católico Cristoteca [GO] :: CR - Acampamento e Estudos Católicos [DF]

R -Religiosas Paulinas abolem véu e hábito :: CR- Católicas leigas voltam a usar o véu

domingo, 23 de agosto de 2009

A degeneração da música: um aspecto da crise do Ocidente

Vladimir Lachance
***
Uma imagem da crise que assola o mundo ocidental é a degeneração dos princípios da estrutura musical, crise instaurada, sobretudo, pela Revolução Rock.

Dizemos Revolução Rock, pois é exatamente esta a principal característica deste gênero musical, que cria tendências desordenadas e análogas em todas as almas a ele submetidas. Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, diz que “o processo revolucionário nas almas, (...), produziu nas gerações mais recentes, e especialmente nos adolescentes atuais que se hipnotizam com o “rock and roll”, um feitio de espírito que se caracteriza pela espontaneidade das reações primárias, sem o controle da inteligência nem a participação efetiva da vontade; pelo predomínio da fantasia e das “vivências” sobre a análise metódica da realidade: fruto, tudo, em larga medida, de uma pedagogia que reduz a quase nada o papel da lógica e da verdadeira formação da vontade”[1]. Desta afirmação podemos traçar um rápido perfil do jovem sob o domínio do rock: ele tende a uma maior liberalização nos costumes, num eterno estado de revolta, contestação, insubordinação. Mas, contra o quê? Contra a própria alma: é a luta pela inversão do papel da inteligência, da vontade, e da sensibilidade, sobre a alma do homem.

O rock procura agir diretamente sobre a sensibilidade, reduzindo o papel da vontade e da inteligência. O raciocínio lógico é execrado como limitador da espontaneidade, pois, de acordo com a juventude insurreta, a inteligência deve ser vista com olhos de desconfiança, pois crêem que esta é moldada por padrões autoritários e moralistas. Coisa incrível é esta unidade de pensamento entre os “roqueiros”, como que uma identificação quase instantânea com certos ideais e slogans. Mas isto não é gratuito, nem poderia ser: percebe-se certa uniformidade de idéia, de comportamento, até de gestual e de falar, entre estes jovens; diríamos uma tendência ao Tribalismo... um fã do Metallica que vive no Japão é idêntico ao fã que mora nos Estados Unidos.

O prof. Allan Bloom, em sua obra “O Declínio da Cultura Ocidental”, resumindo as idéias sobre música do filósofo grego, Platão, diz que o ritmo e a melodia, acompanhados pela dança, são a expressão bárbara do espírito. Embora não existisse no tempo em que o filósofo escreveu esta sentença, podemos afirmar que a música de que aí se fala, é o rock, a música bárbara por excelência. No rock quem dita as regras é o ritmo, e este, de tal modo atinge a alma do ouvinte comum, que é praticamente impossível imaginá-lo sem se mexer, requebrando ao som de uma melodia pobre, que ocupa praticamente o último lugar na composição. Uma boa composição clássica prima pela beleza da melodia, sendo a harmonia e o ritmo os seus acompanhamentos, funcionando como estruturas subjacentes. A harmonia funciona como a vestimenta da melodia, seu adorno, estando submetida a ela. O ritmo dá uma estrutura à melodia, impondo-lhe certos limites. Mas, enquanto um músico não cogita estrangular sua melodia por amor ao ritmo, com o artista do rock o processo se dá de maneira inversa: por amor ao ritmo, o artista molda a melodia para encaixar-se ao tempo dado pela bateria. O ritmo funciona como uma verdadeira camisa de força da melodia; daí a pobreza das músicas de rock: a melodia acaba se tornando uma infinita repetição (nas bandas de punk rock isto se percebe muito claramente: ouvir qualquer música do Ramones), a harmonia reduz-se a um conjunto de dois a quatro acordes, e o ritmo incessante vai atropelando tudo o que passa em sua frente. Uma ilustração do que isto venha a ser nos é dada pelo Pe. Bertrand Labouche: “É claro que um poema com um ritmo perfeito, mas composto por palavras quaisquer, sem uma idéia diretora, sem “melodia”, seria um poema medíocre ou nulo. Ao contrário, uma prosa rica pela profundidade, pela pertinácia, pelo poder, pela delicadeza de pensamento adornada por expressões bem pensadas seria um texto de valor apesar de não ter cadência.” [2]

A experiência mostra que é bastante improvável que alguém que ouça rock não seja adepto também do seu estilo de vida – e aqui vale a ressalva para o que estamos querendo dizer com “ouvir rock”, isto é, não a espécie de contaminação instantânea que certamente levaria nossos leitores a nos darem exemplos de pessoas razoáveis que escutam “More than words” e se orgulham de serem ecléticas (e que estão de fato contaminadas, mas de outro modo), mas sobretudo aqueles que consomem a Revolução Rock: as centenas e milhares de músicas, roupas, acessórios, a ideologia de seu artista ou grupo, a atitude, acima de tudo. As pessoas que ouvem essas bandas não se conformam com os discos e com as músicas, elas precisam dissecar o grupo, ver a imagem, ler o que eles fazem e o que comem (e, acredite, isso é uma das coisas que mais pesam), o que lhes define, qual seus valores e crenças. E são precisamente essas informações que fornecem ao ouvinte a participação naquele mundo: não o mundo de uma banda, mas antes um arremedo de muitas, diversos fragmentos de seus discursos – o que impede, sempre, a possibilidade do ouvinte definir a si mesmo. E nesse ponto, voltamos ao estado de revolta, que é sempre o mesmo para todos, muito embora eles reivindiquem ou o comunismo, ou a anarquia, ou a causa verde, etc. Essas causas realmente não importam, pois todas são as mesmas, e todas são a Revolução.

Este texto não pretende encerrar o assunto, nem responder a todas as objeções, mas com certeza voltaremos a ele, analisando-o a partir de outras perspectivas.
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[1] Revolução e Contra-Revolução, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira

[2] Bach e Pink Floyd - Breve Estudo Comparativo Entre a Música Clássica e o Rock, Pe. Bertrand Labouche