quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Feliz Ano Novo!


Nós, do blog Acarajé Conservador, membros do Grupo de Estudos do Pensamento Conservador, desejamos a todos nossos leitores, os acarajezeiros, um feliz 2009! Que o próximo ano seja de muita saúde, prosperidade e, de verdadeira, felicidade! Que em 2009 se acenda o fogo Contra-Revolucionário. Quem sabe, hein?!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Ontem genocidas, hoje heróis

Pedro Ravazzano
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Hitler matou seis milhões de judeus ao longo da Segunda Guerra Mundial. A URSS, em apenas um ano, matou sete milhões de ucranianos de fome. A China maoísta, aproximadamente, aniquilou sessenta e cinco milhões de chineses. A Cuba castrista assassinou vinte mil pessoas e gerou o exílio de dois milhões de habitantes, homens e mulheres que buscavam a liberdade. A pergunta que fica é; por que o nazismo foi radicalmente execrado da vida social e política moderna ao mesmo tempo em que o comunismo genocida, além de valorizado, passou a ser popularizado por meio de um marketing bem feito e pela conversão de assassinos em heróis?


Talvez esse questionamento gere a ira de neonazistas. Realmente, um jovem seguidor de Hitler deve fazer essa pergunta frequentemente, até poderia ir além ao chamar o regime hitlerista de “nazismo real”, distinto dos verdadeiros princípios do nacional-socialismo. Não obstante, o problema não é a condenação de Hitler, mas a não condenação de outros assassinos que marcaram e marcam a história da humanidade.

A banalização da morte de milhões de pessoas, onde carrascos se tornam exemplos para a juventude e baluartes da vanguarda, apenas comprova a decadência moral, ética, espiritual, da sociedade moderna. Um marxista não-totalitário, o que até pode ser difícil de encontrar dentro de uma perspectiva ortodoxa, já que a marxologia atual constata o caráter violento intrínseco a hermenêutica das obras de Karl Marx, deveria ter a obrigação de rechaçar a defesa desses regimes genocidas. Os malabarismos teóricos e práticos usados para justificar mortes em série e extermínios em massa apenas constatam a banalização da vida, o esvaecimento da dignidade humana que ocorre entre os homens que se encontram submersos na cegueira ideológica.

Essa popularização de figuras como Che e Mao só é possível, na sociedade atual, porque reina, de forma pujante, um relativismo feroz e aniquilador. É muito engraçado ver artistas famosos, cantores, milionários e esbanjadores, batendo palmas e elogiando líderes que eram defensores incontestes da morte de inimigos políticos, ou seja, qualquer cidadão que defendesse a liberdade ou fosse visto como influência do imperialismo, seja por meio da música americana, cinema europeu, religião etc. Tudo era compreendido como ferramenta de alienação; superestruturas que sustentavam o sistema capitalista, daí a radical necessidade de destruir os pilares fundamentais da civilização ocidental; a fé cristã, o direito romano e a filosofia grega; as peças basilares que juntas definiam a identidade do homem do Ocidente, sem elas, ou por meio do início de uma guerra contra elas, os indivíduos não mais se reconheciam.

Hoje o mundo se escandaliza com Guantánamo, por acaso alguém se importa com a prisão de La Cabaña, chefiada por Guevara, onde quatrocentos cubanos foram assassinados sem julgamento, onde o único crime cometido, quando havia alguma acusação, era o de se opor ao regime castrista? O bom senso nos obrigaria a fazer uma radical oposição as duas realidades, ambas representantes da banalização da vida, os dois casos retratando o descaso, a profanação da dignidade do ser humano. Entretanto, infelizmente, ao mesmo tempo em que a mass media, a casta artística e jornalistica, governantes e políticos, incitam e estimulam a oposição caricata ao governo Bush, essas mesmas estruturas são as responsáveis por alimentar os devaneios de milhares de homens e mulheres que, enebriados com a massificação socialista, esquecem ou pouco se importam com as mortes e os extermínios em massa. Tudo isso ao mesmo tempo em que, ironicamente, protestam contra o Presidente dos EUA que mantém uma prisão desumana em solo cubano. Ora, Guevara e outros assassinos comunistas se encontravam num estágio superior, eles não escondiam o grau de importância que davam a essas mortes políticas; “fuzilamento, sim, temos fuzilado, fuzilamos e continuaremos fuzilando enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta de morte”, dizia Che na Assembleia da ONU. O mais “engraçado” foi quando questionado sobre duas mil mortes que havia sido diretamente responsável, respondeu que todos eram agentes da CIA. Realmente, quem não saberia que camponeses, trabalhadores, padres, freiras, pastores, comerciantes e estudantes na verdade, por debaixo das aparências, eram espiões bem treinados da Inteligência Americana?!

Essa conversão, a transformação de assassinos em heróis, só se sustenta por meio de um processo de decadência. Quando a sociedade ocidental passa a não mais se importar com a verdade, quando começa a reinar um sentimentalismo exacerbado e, para piorar, ocorre o triunfo de doutrinas políticas massificantes, estatólatras, invadindo a mídia, a arte e corrompendo a educação básica, os homens passam a ser formados com uma concepção obtusa a respeito da realidade. Antíteses claras e óbvios paradoxos são defendidos sem qualquer preocupação intelectual; não há um mínimo senso de responsabilidade. A defesa dos absurdos – elogiar um Che genocida e criticar Bush militarista, ou se dizer católico, que acredita na ressurreição, e espírita, que é reencarnacionista -, não incomoda, não gera desconforto intelectual.

De forma sucinta podemos dizer que os homens modernos não mais se sentem responsáveis com a Verdade, desse modo abrem espaço para o triunfo não só da mentira, mas das falácias e das contradições.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Aprendendo a ser consumidor

É fato que os consumidores exercem uma função muito mais relevante no Livre Mercado do que em qualquer outro sistema. Numa economia onde não há uma forte regulação e a estatolatria as escolhas dos indivíduos, a praxeologia, a ação humana, são artifícios determinantes no aprimoramento das estruturas do Mercado. Desse modo, as empresas melhoram, modificam seus princípios, se adaptam as condições impostas pelos consumidores. Não obstante, no nosso país, os consumidores não sabem agir como consumidores. Isso mesmo! Em terras brasileiras dois fatores atrapalham a construção de um pensamento liberal; em primeiro lugar a inércia dos indivíduos e, em segundo lugar, a falta de competitividade, um déficit no espírito concorrencial, principalmente devido as grandes empresas estatais e a monopolização do Estado em diversos setores.

Agora me lembro de uma história interessante! Enquanto todo o mundo fazia embargo aos produtos franceses, o motivo não me recordo, acho que era por causa da guerra na Argélia, no Brasil apenas um homem segurava um cartaz na porta da Embaixada da França. Esse caso é bastante interessante, ele exemplifica a incapacidade, dos consumidores brasileiros, de compreender que o poder da escolha, que a preferência individual é o fator determinante na saúde empresarial. Essa é a ferramenta que decreta falências e solidifica marcas e companhias; o melhor selo de qualidade.

Os consumidores brasileiros reclamam vigorosamente dos serviços, mas poucos são os que trocam de empresas. Ademais, esbarram em outro problema; as Estatais e setores monopolizados pelo Estado. O que irá fazer alguém que acha o serviço dos Correios terrível? Infelizmente as empresas privadas são super taxadas - isso quando não existe um total e completo controle estatal no setor que impede o desenvolvimento da iniciativa privada -, para que não haja concorrência. A mesma coisa em setores como luz, água, saneamento básico, em regiões onde não houve privatização. Nesses casos as críticas dos consumidores não conseguem ultrapassar a burocracia, a péssima qualidade de atendimento, a letargia e inércia estatal.

As escolhas dos consumidores guiam a lapidação mercadológica, servem como a base de sustentação de um darwinismo econômico onde apenas os mais fortes sobrevivem, e quem seriam esses? Aqueles que conseguem conquistar, seja por meio de uma publicidade bem feita ou através de produtos e serviços com qualidades insuperáveis, a confiança dos consumidores. Entretanto, enquanto as pessoas continuarem sem saber a força exercida pelas suas escolhas nas estruturas de Mercado, ou seja, o terrível vício da apatia, persistirá existindo empresas que prestam serviços de péssima qualidade e ofertam produtos duvidosos.

Pedro Ravazzano

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Um caso incomum – as idiossincrasias de um ateu conservador (Parte I)

por Fabrício Oliveira

História de sete anos numa escola religiosa – ou, Tudo começa quando somos pequeninos...


Como a maioria dentre nós, fui batizado na Igreja Católica Apostólica Romana e fiz, com gosto, catequese na Paróquia de Brotas, onde moro a quase quinze anos, desde que minha família voltou para Salvador, depois de morarmos em Seabra. Após terminar a 4ª série na Gente Miúda, tivemos de procurar uma escola que oferecesse ensino ginasial, como se chamava o da 5ª a 8ª série. Uma das opções foi o Colégio Nossa Senhora da Conceição, possibilidade que me empolgava bastante, mas que não se cumpriu. As outras duas, que foram efetivamente as alternativas dentre as quais eu escolhi, foram o IECB (onde hoje funciona o EEMBA) e a Escola Santa Maria Eufrásia, anexa ao Instituto Bom Pastor. A primeira, a laica, próxima à minha residência, oferecia aulas de natação, o que não me atraía pouco. Eu amava piscina, amava água – me encantava ver água nos programas esportivos, só bem depois que o futebol se tornaria mais interessante aos meus olhos; era sinônimo de alegria para mim, poucas coisas representavam tão bem os sentimentos de conforto e prazer, e visitamos a escola para conhecê-la. A segunda, a religiosa, católica, “escola de freira”, mais longe de minha casa, era, porém, uma perspectiva muito, mas muito fascinante para mim; eu teria aulas de religião e me prepararia para a Primeira Eucaristia, a se realizar no final do ano. Eu era uma criança, mas, no fim das contas, esta opção foi a que mais me seduziu: aquela primeira perdeu, e escolhi, com convicção, estudar na ESME: o desejo de religião, de fé, significava muito mais. Teria aulas de religião! Faria a Primeira Comunhão! Sem ter uma consciência clara da doutrina, obedecia eu naquela circunstância, entretanto, obedecia eu naquele momento da infância, ao primeiro mandamento. Será que me dei conta disso? Acho que não, mas a minha escolha foi a que relatei, foi por Deus, foi por conhecê-Lo, por segui-Lo.

Tive de responder a um questionário – achava tratar-se de um teste para ter o privilégio de estudar lá – e algum tempo depois soube que ia me matricular. Como estava contente e satisfeito! A empolgação estava em tudo, na observação da lista de material escolar (sempre gostei disso), nas compras, em tudo que se relacionava à escola. Quanto tempo durou a lua-de-mel? Não sei ao certo, mas nos anos seguintes o desejo do divórcio iria crescer cada vez mais, mas não foi concedido; o que era escolha do livre-arbítrio e alegria se tornaria sentimentos de impotência, decepção, frustração, e a escolha deu lugar à imposição – não só a imposição de permanecer naquele ambiente, mas até a imposição de suportar quieto as violências que lá abundavam. Eu era cristão, e não Cristo! Se se me dá um tapa na cara, o meu desejo é de trucidar o ...desgraçado. Explico: lugares como escolas são espaços de hostilidades. Alunos procuram colegas que tenham características que possam servir de matéria para chacotas, e se divertem à custa do sofrimento alheio. Não é por que a escola é “religiosa” que vai ser diferente, e os alunos se guiarão pelo amor ao próximo. Bom, eu transbordava os limites da ingenuidade, facilitando os engodos e ataques contra mim. Meu temperamento me levava a perdoar facilmente, mesmo quando eu sentia que a ofensa viria de novo amanhã. No meu caso, o que era tão diferente em mim? Eu era (era?) bastante distraído, do tipo que viaja horrores ao ponto de não saber o que o professor esteve falando à sua frente, e um católico inocente demais – que melhor para um lobo do que um cordeiro inocente? Explico mais uma vez. Aqueles meninos de quinta, de sexta série, levavam pornografia para a escola (espero que estejam conseguindo imaginar o clima de imbecilidade que imperava) e eu, recusando-me a olhá-las, tornei-me um tipo ridículo na Escola Sta. Mª Eufrásia, sendo chamado de “viado”, dentre a enorme variedade de agressões que já foram dirigidas contra mim naquele lugar. Nunca fui bom em me aproximar das meninas, e lá tive a oportunidade de aprimorar essa incapacidade – que melhor para aumentar a timidez do que ser o otário da turma, e qual garota vai querer alguma coisa com o otário da turma? Elas devem querer um cara mais esperto, capaz, “miseravão” (soube na própria escola de rapazes brasileiros que transaram com namoradas, filmaram o ato sem que elas soubessem, e que colocaram o vídeo na internet mostrando aos amigos como eles são demais, à custa da imagem das meninas.) Para que menino besta? Sempre fui o besta, bobão, lerdão, conforme já fui informado tantas vezes. Desenvolvi um sentimento de afeição às meninas, via nelas vítimas inocentes de homens, mas não vou comentar esse ponto. Tenho de avançar no artigo.

Fiz a Primeira Eucaristia na 5ª série, mas não senti nada de muito forte na cerimônia – até me distraí muito durante ela. Não que eu tivesse alguma dúvida quanto a Deus; apenas me culpei pela minha falta de compenetração. Na oitava série, no entanto, tive uma grave crise em minha fé. Os pensamentos intensos e constantes a que me dedicava – razão de eu ser considerado do “mundo da lua”, de ser “Da Lua”, naquele contexto que expliquei -, em contraponto com o ensino horrendo de religião que eu tive naquela escola religiosa, me levaram a dúvidas que não conseguia sanar e me traziam grande sofrimento. Não conseguia conciliar a idéia de Deus com a de infinito [1], comecei a imaginar a morte eterna – o que se tornaria motivo de terror, pânico e desespero solitário para mim, e perdi, enfim, a fé. E no seu vácuo, irrompeu o medo, a desesperança, a tristeza pela idéia de que meu avô que morrera dois anos antes poderia ter morrido pela infinitude dos tempos. Era um conjunto de pensamentos e sentimentos novos que não constituíam uma concepção de Universo, era um proto-ateísmo, involuntário, desengajado, introspectivo, que não se apresentava como ateísmo. Mas o sofrimento que esta disposição de espírito me trazia fez com que eu voltasse a me apegar com a fé. Evidentemente, esse nova situação era muito frágil e transitória, bastando apenas as primeiras semanas do ano letivo seguinte pa ra que ela evoluísse e se tornasse uma segunda etapa de minha descrença: era, agora, o ateísmo enquanto tal, consciente de sua condição e que não desejava ser outra coisa. Isso foi no começo do 1º ano do Ensino Médio, e completará portanto oito anos em fevereiro ou março próximos. Tornei-me um “ateu clássico” – iluminista, cientificista, combatente da fé e que me envolvia em polêmicas com meus amigos religiosos procurando derrubar sua posição – justamente a coisa que não imaginava me tornar e que combatia em casa (em minha família há católicos, espíritas e ateus); a palavra “ateu” antes me gerava repulsa, e pensar que havia me tornado um me provocava uma sensação estranha devido à memória daquela repulsa que permanecia em minha mente na forma de uma impressão, de um hábito mental. Eu era algo que estava acostumado a condenar, e só com o tempo fui adequando minhas atitudes externas e internas à minha nova visão das coisas. Foi também o último ano de ensino religioso obrigatório na escola.

Há uma coisa que me esqueci de relatar. Tornei-me comunista na 6ª série. Sei, impressionante a precocidade, mas pelo menos desde a 4ª eu já repetia algumas coisas que meu pai falava. Ele foi militante do PCdoB na época em que estudava na UCSAL, durante a ditadura militar, não na sua fase mais dura mas na que sucede o Gal. Médici e que já caminhava para a abertura. Foi diretor, (alguma coisa assim) do DA de Biologia, sendo colega de curso de Moema Gramacho, atual prefeita de Lauro de Freitas, e que na época nem era envolvida com militância, segundo ele me disse. Nesse ponto, eu procurei segui-lo. Não, eu não via incompatibilidade nenhuma com o catolicismo, muito pelo contrário, achava que era uma luta por justiça e que Jesus me ajudaria nela. Encontrei na biblioteca uma coleção de livretos ao estilo “Primeiros Passos” mas que visava também o público mais jovem, a “Pergunte ao José”, e li, dentre os inúmeros exemplares que li dessa série, os volumes “Comunismo”, “Socialismo” e “Capitalismo”, além de “Poder”, “Política” e “Feminismo”. O Manifesto Comunista de Marx e Engels eu só leria todo seis anos depois, no primeiro semestre da faculdade, mas eu já torcia pelo PT e sonhava com a eleição de Lula, e tinha aversão pela TFP (da qual a única coisa que eu sabia é que era uma organização católica de Direita que combatia a reforma agrária, chefiada por Plinio Corrêa de Oliveira, também um nome que soava muito mal aos meus ouvidos; foi o que eu pude extrair lendo o livro de História de Cotrim) desde aqueles tempos de imberbe. Isso na 6ª série! Da homossexualidade eu não simpatizava não, isso aí teria de esperar a faculdade mesmo, que é onde eu adquiriria uma nova opinião e me tornaria um quase “politicamente correto”, não fosse o fato de eu ter certos problemas com a política de cotas. Eu havia avançado mais para a esquerda.

Em 2003, fiz vestibular para História na UFBA, ingressando no curso no ano seguinte. Esse período ficará para a continuação, na qual eu abordarei o que considero minha terceira etapa ateísta, e minha visão atual sobre sua relação com outros assuntos que nos interessam, como religião e conservadorismo. Mas, por ora, quero justificar a feitura desses artigos.

Justificativa

Não desejo parecer pretensioso por estar tratando de minha pessoa; sei que é muito mais importante falar de Guénon, Ortega Y Gasset, Aristóteles, Confúcio, dos escolásticos, ou de Washington e demais Pais Fundadores, ou de tantos outros que deram contribuições inestimáveis à Civilização, coisa que ela ainda espera de mim. Tampouco posso me comparar a Sto. Agostinho para supor que posso imitá-lo escrevendo confissões com o valor que teve a dele. Sei qual é o meu lugar. Porém, além de minha falta de competência para tratar de tão elevados pensadores, posso alegar uma razão positiva para compartilhar convosco a minha insignificância. Ao relatar-vos essa minha trajetória intelectual, não pretendo tratar em primeiro plano de mim mesmo, mas de assuntos que me preocupam e que são de interesse muito mais geral: creio que interessam a todos os que lêem esse blog, e até a muitos mais, que não o lêem. Li em Olavo de Carvalho textos escritos de acordo com esse método, o de abordar coisas pequenas para discutir as grandes; não que eu tenha primeiramente observado tal uso em seus escritos – ele mesmo defendeu a utilização que faz de tal procedimento, sem o qual certamente não haveria Imbecil Coletivo nenhum, assim como muitas outras coisas que ele escreveu. Ademais, creio que pode interessar aos mais próximos, aos amigos ou aos que lidam pessoalmente comigo saber um pouco mais sobre mim; e mesmo para quem não me conhece, ou nem o deseja, ou seja lá o que for, o presente tipo de relato não carece de utilidade. É só pensar que ao ler ficção, se lê sobre gente que nem existe, apesar das mensagens e informações verdadeiras que hajam nas obras de tal gênero. O leitor tem a opção de encarar esse texto como um artigo com um personagem! Espero, com tudo isto, ter despertado ou mantido o interesse de tantos quantos tenham lido (ou até, só examinado) esse post, ou, pelo menos, do máximo possível dentre esses.
Aguardem o prosseguimento desse escrito.

[1] O problema era o seguinte: quantos seres vivos poderiam existir? Se fosse possível permitir a reprodução dos seres vivos, que existem aos bilhões, indefinidamente, o processo jamais terminaria, e sempre haveriam seres por surgir. Não conseguia, então, imaginar a possibilidade, a capacidade de Deus de dar origem a toda a vida que poderia existir, pois sempre faltaria uma infinidade dela por nascer. Se Deus é conformado com isso, então ele não é tão misericordioso assim – e sim, aliás, cruel; eu, por sofrer com isso, teria muito mais misericórdia. Pior ainda era tentar imaginar que o conjunto infinito de potenciais seres a existir existisse com inteligência, como era o justo para mim. Então passei a pensar e sentir a vida – a vida como categoria absoluta sobre a qual me debrucei nesse raciocínio filosófico - como algo precário.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Nazismo e Comunismo: Os Cavaleiros do Apocalipse disseram ‘Amém’!

O nazismo e o comunismo, diferentemente do que muitos pensam, têm uma mesma força propulsora; ambos os regimes são ateus, socialistas, dialéticos e totalitários. Tanto os nacional-socialistas, quanto os bolcheviques, acreditavam numa força revolucionária, numa redenção social através das ações políticas, no surgimento do Novo Homem livre dos grilhões da opressão impostos pela burguesia. Não concordavam com a natureza do jeito que ela era; teriam eles a missão de recriar a figura do homem, moldá-la para instituir uma sociedade próspera e justa. Além do mais, tanto alemães e soviéticos, defendiam a estatização de toda a produção, o controle econômico, a restrição das liberdades individuais em nome de um bem maior.

No caso dos nazistas a burguesia era, essencialmente, identificada com o povo judaico; a luta de classes se tornara luta de raças na Alemanha. Um ponto importante a ser explicado é a noção do polilogismo. O polilogismo nazista afirmava que a mente era condicionada pela raça. A inferioridade do não-ariano era resultado da sua natural incapacidade - sua mente era limitada e o induzia a imundice intrínseca a sua existência - de compreender a verdadeira realidade, realidade essa que era conhecida em sua plenitude pelos arianos. De onde o nazismo tirou essa idéia? Do comunismo. O comunismo fazia a mesma análise polilógica, só que ao invés de raças eram classes. A burguesia só reproduzia opressão e alienação porque era condicionada a criar desigualdades e representar os interesses do Capital. Ambos os regimes não refutavam idéias, mas pessoas. O mais engraçado era que Hitler tinha sangue judeu e Marx era burguês, filho de um advogado, descendente de importantes rabinos, casado com uma baronesa, primo do fundador de uma das maiores Companhias do mundo; a Philips, e amigo de um industrial! Enfim, o mesmo polilogismo, a mesma superstição não-científica que apenas justificava, de um lado, o racismo e, do outro, o imaginário de que o proletariado tinha a incumbência de realizar a revolução redentora, aquela que criaria o Novo Homem e libertaria as mentes.

O nazismo não se enxergava como um sistema totalitário e genocida, mas sim como uma ferramenta de evolução social, se baseando em compreensões biológicas e antropológicas totalmente submersas na alienação ideológica. Se o nazismo é condenado, hoje em dia, por seu histórico genocida porque neonazistas não podem afirmar que se tratava de um "nazismo real" e continuar a sustentar suas falácias? Os comunistas não mataram 100 milhões e mesmo assim não conseguem continuar na vida política moderna por meio desses malabarismos teóricos?

A esquerda européia apoiou Hitler, isso é fato. Bernard Shaw, socialista britânico de grande destaque, foi além ao defender o extermínio em massa - "Eu apelo aos químicos descobrir um "gás humano" que matará instantaneamente e sem dor. Que seja mortal, mas humano, não cruel". A URSS incitou os partidos comunistas para que impedissem os movimentos de resistência anti-nazista na Europa ocidental. Ademais, estimulou a aliança com os invasores alemães; "É reconfortante ver prisioneiros-trabalhadores falando com soldados alemães como amigos. Nas ruas ou nos cafés de esquina. Muito bem, camaradas, continuem assim! Mesmo que isto desagrade a classe média a irmandade dos homens não permanecerá para sempre na nossa esperança, irá transformar-se numa realidade viva" - Partido Comunista Francês. Não podemos negar que, posteriormente, muitos socialistas se opuseram ao nazismo, entretanto, vale lembrar, os motivos não era nada humanitários, simplesmente a ideologia nazista era exageradamente nacionalista, a luta, para os seguidores do nacional-socialismo, não era de classes, mas de raças. Burgueses não eram eliminados por serem burgueses, a burguesia não tinha cor, raça, religião, a burguesia era judaica, alemã, eslava, católica, protestante. O erro nazista não era o extermínio em massa, mas transformar a Luta de Classes em Luta de Raças, darwinismo social.

Não obstante, a aversão de nacional-socialistas e soviéticos a raças e etnias sempre foi muito clara. Marx chegara a dizer que "As classes e as raças, fracas demais para conduzir as novas condições da vida, devem deixar de existir. Elas devem perecer no holocausto revolucionário". Engels ainda completou ao afirmar que alguns povos eram “lixo racial”, o extermínio dessas etnias era necessário já que se tratavam de culturas que estavam dois estágios atrás na luta histórica, o que tornava impossível trazê-los ao nível revolucionário; bascos, bretões, escoceses e sérvios. Além disso, tanto Marx quanto Engels, odiavam eslavos, viam como povos imundos e, talvez pela herança germânica, nutriam uma tenra oposição a Polônia.

O nazismo, na verdade, aprendeu com o comunismo. Vejamos. Em um ano a URSS matou 7 milhões de ucranianos de fome, uma fome estrategicamente construída por meio do confisco de grãos, fechamento de fronteiras, isolamento das cidades. Enquanto milhões morriam na província rebelde a exportação de alimentos crescia; o Ocidente consumia os grãos produzidos pelos homens fadados a morrer, muitos, inclusive, sendo enterrados vivos; “a terra se mexia”. A primeira carnificina, o primeiro extermínio em massa da Segunda Guerra, começou com os soviéticos fuzilando reservistas poloneses. Ainda é pertinente lembrar das quotas estipuladas pelo comando central da URSS; cada chefe da polícia tinha um número de mortos a cumprir; 2 mil, 3 mil, 7 mil. O mais assustador era que todos queriam o aumento das quotas; todos queriam mais mortes. O famoso Kruschev pediu para que se ampliasse a sua de 8 mil para 17 mil! Quanta humanidade! Heróico Soljenitsin que nos descreveu com maestria essa triste realidade soviética; mortes aleatórias, deportações sem motivo, extermínio banais.

A política de terror, que depois tornou célebre a SS, já havia sido instituída décadas antes pela NKVD e pela KGB, por Lênin - "Enforquem ao menos 100 kulaks, executem os reféns, façam de uma tal maneira que num raio de quilômetros as pessoas vejam e trema". Quando os nazistas ainda construíam intelectualmente a sua ideologia nacional e socialista, na União Soviética homens e mulheres eram mortos, torturados, sucumbiam de fome, eram enterrados em valas comuns. Ademais, a NKVD ajudou na estruturação da SS, inclusive os “famosos” campos de concentração da Alemanha Nazista foram copiados baseando-se nos já rodados Gulags soviéticos. O intercâmbio entre ambas as polícias sempre foi muito forte.

A aliança com a Alemanha custou a vida de muitos judeus russos que foram perseguidos e presos, inclusive o Ministro Soviético Litvinov, que era israelita, foi destituído do cargo; sua figura era imprópria, impedia a amistosa relação entre ambos os regimes. Ainda é pertinente frisar que os judeus que fugiram da Alemanha Nazista, acreditando que a URSS era inimiga do fascismo, foram reunidos pelo exército vermelho e mandados de volta para a Gestapo como um gesto de amizade. Quanta delicadeza; "A Alemanha e a Rússia [bolchevista] se completam de maneira maravilhosa. Elas são feitas verdadeiramente uma para a outra" - Hitler

Nazistas e soviéticos mantinham uma aliança muito estreita, não só política, mas ideológica. Ambos os regimes acreditavam na necessidade do Novo Homem, entretanto, nazistas embebiam sua fundamentação ideológica no caráter nacional, daí “nacional-socialistas”; “o Nacional Socialismo é um socialismo em devir” (Hitler); acreditavam na Alemanha como propulsora e motor da sociedade renovada, evoluída e transformada - "Nós temos que criar o Novo Homem! E uma nova forma de vida deve surgir" - Hitler. Dr. Goebells, então Ministro da Propaganda Nazista, disse “O movimento nacional-socialista [nazista] tem um só mestre: o marxismo”, ainda foi além ao falar que Hitler e Lênin deveriam ser comparados e que o embalsamado líder soviético só ficava atrás do genocida alemão quando se tratava de “grandes homens”. De acordo com ele a diferença entre o nazismo e o comunismo era muito pequena. Tamanha simpatia foi retribuída pelo Primeiro-Ministro Soviético, Molotov, que se encontrou com Hitler, no início das incursões militares de ambos os países, para tratar do mundo pós-guerra, dos territórios do interesse da URSS. Molotov alertou o Ocidente para não lutar contra a ideologia nazista, falando que se levantar contra o nazismo era uma atitude criminosa. Hitler já dizia; “Aliás, existem entre nós [nazistas] e os bolchevistas mais pontos comuns do que há divergências”

Nazistas e comunistas dividiram a Europa! Enquanto a Alemanha invadia a Bélgica, Luxemburgo e a França, a URSS tomava a Polônia, Lituânia, Estônia, Letônia e Finlândia. O bombardeamento de Helsinque custou a expulsão da União Soviética da Liga das Nações. Só restou ao regime comunista um aliado; Hitler. Esse aliança decretou o destino do continente. A URSS ajudou diretamente na invasão nazista da Noruega, cedendo bases navais; "A amizade entre a URSS e a Alemanha Nazista foi selada por sangue" - Stálin. Além disso a URSS se tornara a principal mantenedora da máquina de guerra nazista, exportando para a Alemanha ferro, combustível, material de construção, grãos - enquanto seu povo morria de fome, literalmente.

A Alemanha ainda fazia limpeza étnica nos países invadidos. A URSS mantinha a mesma estratégia genocida nos Bálcãs, expulsando lituanos, estonianos e letões, todos mandados para a Sibéria onde morriam de tanto trabalhar; “O trabalho é um honra”, dizia a frase de boas-vindas nos Gulags.

Roosevelt considerava a URSS uma potência do Eixo, na verdade a aliança dos soviéticos com os alemães era tão clara que os grandes líderes mundiais não pensavam duas vezes ao constatar esse pacto comuno-nazista. Entretanto, ao mesmo tempo em que a União Soviética invadia países com nomes estranhos e em regiões longínquas, o exército de Hitler marchava sobre as nações do Ocidente; Hitler era um inimigo presente, Stálin um problema futuro. Enquanto os comunistas massacravam ucranianos, poloneses, tártaros, lituanos, russos etc, as nações do Oeste, no máximo, estampavam nas capas dos jornais fotos de crianças raquíticas e de corpos em valas, nada de protestos, embargos, intervenção armada, caminhadas, artistas compondo letras ou fazendo festivais de músicas em defesa da liberdade. Já Hitler se lançou contra as grandes cidades européias; ele precisava ser detido. A URSS apenas se adaptou as novas necessidades, se antes a aliança com Hitler era sinal de espólios territoriais no futuro, a traição e o levante anti-nazista, pelos soviéticos, apenas adiantaria o triunfo bolchevique em grande parte da Europa. Isso foi o que, de fato, ocorreu; a União Soviética declarou guerra a Alemanha Nazista e, com a derrota de Hitler, estendeu a fronteira da sua influência, fincando a Foice e Martelo até o centro da Europa! Graças a política britânica, todos os crimes, extermínios e genocídios cometidos pelos soviéticos entraram na conta da vitória aliada, eram justificados e defendidos, mesmo que essas mortes tenham sido antes da guerra e unicamente de civis inocentes!

Enquanto o mundo chora, cria memoriais, estátuas em honra aos mortos pelo regime nazista, as vítimas dos comunistas soviéticos continuam anônimas, perdidas em valas comuns, desconhecidas e na sombra de uma ideologia que ainda apaixona. Essas silenciosas mortes são esquecidas em nome da honra da Rússia moderna; os arquivos são escondidos e destruídos. O nazismo foi criminalizado por ter matado, ao longo da Segunda Guerra, seis milhões de judeus; só num ano a URSS matou de fome sete milhões de ucranianos! Por que ainda temos que ver a Foice e Martelo sendo ostentada com orgulho nas camisas e estampas de jovens no Ocidente? Por qual motivo a ideologia marxista, que alimentou Hitler – “Eu aprendi muito do marxismo, e eu não sonho esconder isso” – e Lênin, continua sendo tão bem aceita mesmo carregando milhões de corpos? A Verdade deve triunfar!

Quem precisa dos Cavaleiros do Apocalipse - Peste, Guerra, Fome e Morte - quando ainda perdura no mundo a utopia comunista?

Pedro Ravazzano

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O texto usa como fonte livros de Pipes, Soljenitsin, Besançon, Carr, Wilson, Von Mises, Hayek etc, e o documentário The Soviet Story.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Pedro, a Pedra

É sabido que os cismáticos nutrem uma tenra aversão ao catolicismo romano, provavelmente porque reconhecem, por dentro, que a Igreja encabeçada por Roma tem aquilo que eles nunca terão; a integralidade da fé cristã. Com isso, muitos bizantinos ressentidos se lançam numa cruzada, por mais latina e católica que ela seja, em combate a pureza da Esposa de Cristo.

Aqui mesmo eu publiquei [Veritatis Splendor] uma tradução livre que fiz de ditos de Santos e Patriarcas Orientais que endossam o papado e sua supremacia, soando bem diferente da primazia de honra que os cismáticos tanto defendem. Será que algum bizantino teria a coragem de lançar anátemas a São Máximo o Confessor, um dos Padres mais exaltados pelos orientais, por ter dito que “sem medo, mas com toda a confiança sagrada e conveniente, aqueles ministros (os Papas) são da rocha realmente firme e imóvel, que é da Igreja mais grandiosa e Apostólica de Roma." (Santo. Maximus, em JB Mansi editor Amplissima Collectio Conciliorum, volume 10), ou então a São Teodoro Estudita, chefe do mais importante Mosteiro de Constantinopla, que escrevendo a São Leão Magno disse; “oh mais divina Cabeça das Cabeças, o Chefe Pastor da Igreja do Céu." (Santo. Theodore, Reserve I, Epístola 23)”. O que não faltam são citações que confirmam a universalidade e supremacia de Roma, mas que combatidas de maneira mesquinha por ardilosos religiosos orientais, fomentou o cisma. Fócio, que é santo lá por aquelas bandas, e um dos grandes responsáveis pela queda dos bizantinos, escreveu ao Papa; “Se mandares venerar o meu nome numa só igreja de Roma, eu me comprometo a mandar venerar o teu em todo o universo’’, provavelmente não sabia que essa sua presunção nada cristã o daria a “santidade” e a alcunha de “o Grande”. Realmente, só se for padroeiro da picaretagem.

Os cismáticos deformam a promessa de Cristo feita a São Pedro. Eles a interpretam dizendo que a Pedra não era Pedro, mas sim sua fé. Um grande erro, Pedro é a Pedra, só que esta procede de Cristo. Pedro não é pedra por si só, mas em função de Cristo e de sua fé ortodoxa, a qual sempre está no Príncipe dos Apóstolos, a fim de que confirme seus irmãos.

Falar que Cristo é Rocha, que Pedro é feito pedra em função da fé em Cristo não tira em nada o entendimento que Pedro é a pedra sobre a qual é edificada a Igreja, em função de Cristo e não de si mesmo. Alguns chegam ao extremo, utilizando teses protestantes para afirmar que o termo usado por Nosso Senhor para designar Simão não era o mesmo que Ele utilizou para chamar a Pedra.

São João Crisóstomo, considerado pelos cismáticos o maior Padre da Igreja, ajuda a colocar um ponto final nessa questão. Ele diz:

Jesus disse [a Pedro] ‘Alimenta minhas ovelhas’. "Por que Jesus não leva em conta os demais Apóstolos e fala do rebanho somente a Pedro? "Porque ele foi escolhido entre os Apóstolos, ele foi a boca de seus discípulos, o líder do coro. Foi por essa razão que Paulo foi procurar a Pedro antes que os demais. E também o Senhor fez isso para demonstrar que ele devia ter confiança uma vez que a negação de Pedro havia sido perdoada. Jesus lhe confia o governo sobre seus irmãos... Se alguém perguntar "Por que então foi Santiago quem recebeu a Sé de Jerusalém?", eu lhe responderia que Pedro foi constituído mestre não de uma Sé, mas do mundo todo” (Homilia 88 (87) in Joannem, I. Cf. Orígenes, “In epis. Ad Rom.”, 5, 10; Efrém da Síria “Humn. In B. Petr.”, en “Bibl.Orient. Assema.)

Eles poderiam rebater citando por exemplo São Cipriano de Cartago, que disse; “Este Trono de Pedro é mantido por todo episcopado, de modo que cada bispo é sucessor de Pedro” (mesmo santo que escreveu; "A cátedra de Roma é a cátedra de Pedro, a Igreja principal, de onde se origina a unidade sacerdotal" (Cipriano, +258, Epístola 55,14), o que confirma o fato de que é a interpretação obtusa dos cismáticos que deforma o conteúdo patrístico), ora, aí eles entram num erro de interpretação. São João Crisóstomo é claro, ele se refere especificamente a Pedro e a promessa feita por Cristo, frisando a relevância do Príncipe dos Apóstolos perante os outros irmãos. Tão ilustre Padre grego ainda salienta a supremacia de Pedro e a universalidade de seu primado, que mesmo não se localizando em Jerusalém, Sé Apostólica chamada de "Mãe de todas as Igrejas", tem sua maestria fincada em todo o mundo.

Foi a falta de humildade de certos religiosos orientais que deu início ao cisma do oriente, e hoje, o mesmo déficit persiste em estender suas influências nas mentes cismáticas.

Pedro Ravazzano

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Sadistas e Castristas

A Ilha de Fidel, literalmente de Fidel, é quase uma sucursal do paraíso. Por lá reina um princípio social que incita a formação de homens e mulheres conscientes e imunes a influência do materialismo capitalista. Cuba conseguiu criar um sistema de distribuição de renda, construiu redes de ensino e de saúde que dão inveja aos países neoliberais. O regime de Havana instaurou a democracia popular, a partilha, a dignidade do homem. "200 milhões de crianças no mundo dormem hoje nas ruas. Nenhuma é cubana.”

Voltando ao mundo real, sabemos que os domínios da família Castro não são nada parecidos com esse paraíso que pintam por aí. Existe a Cuba dos livros didáticos, da doutrinação marxista nas escolas, dos professores comunistas dos Colégios, e a Cuba verdadeira e, para piorar, a Cuba dos cubanos, os maiores prejudicados com o regime ditatorial, genocida e perseguidor das mais essenciais liberdades individuais.

Primeiramente, é importante frisar, a defesa do regime cubano só se sustenta, hoje em dia, pelo simples fato de que a manutenção desse Estado totalitário impede o conhecimento da real profundidade do alto grau de baixeza moral que chega o governo de Havana. Ademais, vale lembrar, Cuba sempre esteve embebida numa mística comunista muito particular. Se o marxismo pede, essencialmente, a fé na revolução como ferramenta de redenção social e o surgimento do Novo Homem como objeto fundamental, Cuba aparece como a terra prometida do esquerdismo latino-americano. Che e, com menos relevância, Castro, representam os arautos dos ideais marxistas de sociedade. A ascensão desses dois jovens, num período marcado pela bipolarização mundial e pela estruturação de células comunistas nas nações, só foi possível porque havia sim a possibilidade da concretização do sonho socialista, em princípio. Tanto é que, atualmente, os aspirantes a ditadores; Chavez, Morales e Correa, não conseguem movimentar as massas unicamente pela paixão – não vale a utilização dos aparelhos estatais.

Com a queda da URSS, a abertura dos arquivos do regime de Moscou, os comunistas rapidamente se blindaram, afirmaram que o totalitarismo soviético representava o socialismo real, distante dos verdadeiros princípios marxistas – é estranho uma doutrina política e filosófica tão racional lançar mão desse discurso tão idealista, Marx provavelmente se remexeria no túmulo. Todos queriam se distanciar da poça de sangue deixada por Lênin e Stálin, mesmo que ainda tentassem salvar a memória do primeiro. Aquele passado de treinamento em Moscou, as viagens para a Albânia, o financiamento da China maoísta, tudo isso foi rapidamente, imediatamente, esquecido. Se até ontem lutavam pela instauração do regime comunista, pelo triunfo revolucionário, hoje já falavam de democracia e liberdade.

Com Cuba isso não ocorreu. A América Latina sempre esteve enebriada com o discurso excessivamente utópico a respeito da ilha. A formação de tantas gerações sob essa mentalidade ilusória de um país justo e socialmente equilibrado foi essencial para a criação do mito cubano. Ninguém se importava com o fato de que a dita saúde de Cuba só se mantinha graças ao apoio soviético e que desde a década de 80, com a queda brutal da entrada de divisas no país, todos os serviços públicos entraram em franco declínio. Os fatos não importavam, Cuba tinha, tinha que ter, uma excelente saúde.

O regime cubano conseguiu a fantástica proeza de gerar o exílio e fuga de 2 milhões de cidadãos, cerca de 20% da população do país. Além disso o totalitarismo castrista matou entre 15 e 17 mil pessoas. Os terroristas que combatiam a nossa ditadura, que mesmo sendo exageradamente menos destrutiva que a cubana ainda era uma ditadura, eram treinados em Havana e diziam lutar pela liberdade da nossa nação ao mesmo tempo em que eram financiados por um país que matava, fuzilava e torturava. Quando o Brasil já debatia a Lei de Anistia, em Cuba 20 mil pessoas se encontravam no cárcere, inimigos políticos. Em 1997, depois de anos do regime militar, esquerdistas chiques ainda super-valorizavam a ditadura de Cuba enquanto 2500 homens e mulheres estavam presos. O crime? Criticar o regime, defender seus direitos fundamentais, lutar pela liberdade!

A luta contra a nossa ditadura foi financiada pelo sangue dos cubanos mortos no paredão, dos cubanos expulsos da ilha e daqueles que morriam nas prisões e nas ruas. O bom senso obrigaria qualquer pessoa sincera e submissa a verdade a se opor tanto ao nosso regime militar com suas 500 vítimas, mais desaparecidos e torturados, assim como nutrir uma radical aversão ao regime cubano com seus 17 mil mortos, mais desaparecidos e torturados. O daqui foi derrubado, não tanto pela ação armada esquerdista, que matava, roubava e seqüestrava, mas também pela própria aspiração social de democracia. Em Cuba ainda persiste a ditadura sangrenta e cruel e, para piorar, ainda persiste os louvores e incensamentos do totalitarismo. Uma pena, até onde chega o idealismo marxista? (Peço licença ao barbudo para colocar sua doutrina ao lado da filosofia que tanto criticava, mas essa é a única forma de denominar todos aqueles que, submersos na ideologia utópica, não enxergam o terror instaurado)

Além do mais, vale lembrar que Fidel e Che vinham de famílias abastadas e financeiramente estáveis, ainda descendiam da mais alta nobreza espanhola. Ambos não eram bem quistos pelo Partido Comunista Cubano, tanto que muitas das primeiras vítimas de Fidel eram membros do PCC. Ademais, mesmo com críticas ao governo de Fulgêncio Batista, devemos recordar que mestiços e negros estavam maciçamente inseridos na máquina estatal, diferentemente da concentração de poder na mão de uma elite branca, tradicionalmente rica e com gostos finos e requintados, como se viu no governo comunista.

Pobre Cuba, sua desgraça apenas estimula as mentes pervertidas dos jovens e incita os velhos sonhos arqueológicos dos saudosistas do fervor revolucionário!

Pedro Ravazzano

Carta aberta ao Papa condena diálogo com Islã

***
O
conceituado jornalista católico Magdi Cristiano Allam, convertido do islamismo, é vice-diretor do “Corriere della Sera”, um dos mais importantes jornais da Europa. Publicou uma “carta aberta ao Papa” a respeito do modo como vem se desenvolvendo o diálogo católico-islâmico, documento que tem repercutido em países europeus e também nos Estados Unidos.

No Brasil, ao que nos conste, tal carta não está sendo noticiada, em parte porque o diálogo com os muçulmanos não é um problema entre nós, uma vez que eles aqui representam minoria pouco significativa. Ao contrário da Europa, onde o tema é muito vivo, pois há milhões de muçulmanos que não se integram na vida social e constituem por isso uma espécie de tumefação social; e os poucos que se convertem ao Cristianismo sofrem todo tipo de ameaças.

Nossa revista tem sido sempre muito reservada (tanto do ponto de vista teológico como prático) em pronunciar-se sobre o diálogo de católicos com outras religiões, a fortiori com o Islã. Mas, posta a carta aberta de Magdi Cristiano Allam, Catolicismo subscreve as críticas aí feitas a tal diálogo e o pedido que o conceituado jornalista faz a Bento XVI.

A extensão da missiva obriga-nos a transcrever apenas trechos. Ela pode ser lida na íntegra, em italiano, em: http://www.magdiallam.it:80/node/7467. Passamos a palavra a Magdi Cristiano Allam. Só os intertítulos são da redação.

* * *

Carta aberta ao Papa: “A Igreja pode legitimar o Islã como religião e considerar Maomé um profeta?”

Apelo ao Santo Padre a fim de que se esclareça o desvio relativista e islamicamente correto que levou altos prelados católicos a legitimar o Islã como religião e a transformar as igrejas e casas paroquiais em salas de oração e de reunião dos extremistas islâmicos.

A Sua Santidade o Papa Bento XVI

Dirijo-me diretamente a Vós, Vigário de Cristo e Cabeça da Igreja Católica, com a deferência de um sincero crente na fé em Jesus e como incansável protagonista, testemunha e obreiro da Civilização Cristã, para manifestar a minha máxima preocupação pelo grave desvio religioso e ético que se infiltrou e difundiu no seio da Igreja.

A ponto de, enquanto nos vértices da Igreja alguns altos prelados, inclusive entre os vossos próximos colaboradores, sustentam aberta e publicamente a legitimidade do Islã como religião e Maomé como profeta, na base da Igreja outros sacerdotes e párocos transformam a igreja e as casas paroquiais em salas para orações e de reunião dos integristas e extremistas islâmicos, que perseguem lúcida e infatigavelmente a estratégia de conquista do território e das mentes de um Ocidente cristão.

É vital para o bem da Igreja que o Papa se pronuncie

Pois bem, Santidade, como é possível não se dar conta de que a disponibilidade ou, pior ainda, o conluio com o Islã como religião –– o qual, a despeito das aparências, põe em perigo o amor cristão para com os muçulmanos enquanto pessoas –– culmina em renegar a fé em Deus que se fez Homem e no Cristianismo, que é o testemunho de Verdade, Vida, Amor, Liberdade e Paz?

Eis por que hoje é vital para o bem comum da Igreja católica, para o interesse geral da Cristandade e da própria civilização ocidental, que Vós vos pronuncieis de modo claro e vinculante para o conjunto dos fiéis sobre o problema de fundo que está na base deste deletério desvio religioso e ético que está desacreditando a Igreja, abalando as certezas nos valores e na identidade do Ocidente cristão, arrastando ao suicídio da nossa civilização: é concebível que a Igreja legitime substancialmente o Islã como religião, levando até o ponto de considerar Maomé como um profeta?

Dois exemplos muito significativos

Santidade, limitar-me-ei a indicar dois recentes episódios dos quais fui testemunha. Quarta-feira passada, 15 de outubro de 2008, o arcebispo de Brindisi, Dom Rocco Talucci, qualificou Maomé como um profeta e substancialmente legitimou o Islã como religião enquanto expressão da aspiração do homem a elevar-se a Deus. Não é absolutamente minha intenção levantar um caso pessoal em face do arcebispo Talucci. Pois que não é um caso isolado. Quisera Deus que assim o fosse! Infelizmente é uma atitude difundida no seio da Igreja católica hodierna.

O segundo episódio concerne ao cardeal Jean-Louis Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. Repetiu a tese por ele já sustentada no passado, segundo a qual as religiões seriam de si fatores de paz, mas que causariam medo devido a alguns crentes que traíram a sua fé, quando na realidade todas as crenças seriam portadoras de uma mensagem de paz e fraternidade.

A tese do cardeal Tauran é que as religiões seriam intrinsecamente boas, e que, pois, sê-lo-ia também o Islã. Disto se seguiria que, se hoje o extremismo e o terrorismo islâmico se tornaram a principal emergência para a segurança e a estabilidade internacional, isto se deveria imputar a uma minoria “ruim” que interpretaria de modo transviado o “verdadeiro Islã”, enquanto a maioria dos muçulmanos seria “boa” no sentido de respeitosa dos direitos fundamentais e dos valores não negociáveis que estão na base da comum civilização do homem.

Jesus Cristo nada tem de comum com Alá

A realidade objetiva, digo-o com serenidade e animado por uma intenção construtiva, é exatamente o contrário do que imagina o cardeal Tauran. A verdade é que o extremismo e o terrorismo islâmico correspondem genuinamente ao “verdadeiro Islã”, que é uma coisa só com o Corão, o qual, por sua vez, é considerado uma coisa só com Alá.

Na raiz do mal não existe, pois, uma minoria de homens “ruins”, responsáveis pela degradação geral, enquanto as religiões seriam todas igualmente “boas”. A verdade é que o Cristianismo e o Islã são totalmente diferentes: o Deus que se fez Homem encarnado em Jesus, que partilhou a vida, a verdade, o amor e a liberdade com outros homens até o sacrifício da própria vida, não tem nada de comum com Alá, que se fez texto impresso no Corão; que se impõe sobre os homens de modo arbitrário; que legitimou uma ideologia e uma praxe de ódio, violência e morte visadas por Maomé e seus sequazes para difundir o Islã.

A Igreja não pode legitimar um “Islã moderado”...

A amarga verdade é que aquela parte da Igreja doente de relativismo e de islamicamente correto corre o risco de se tornar mais islâmica do que os próprios islâmicos.

Como pode a Igreja prestar-se ao jogo de quem instrumental e ideologicamente tira do contexto, tira de seu unum, seleciona arbitrariamente o conteúdo e a mensagem corânica, com o fim de ressaltar os versetos que, extrapolados dos que o precedem e dos que o seguem, permitiriam afirmar a existência de um “Islã moderado”? Como pode a Igreja legitimar substancialmente um pseudo “Islã moderado”, acabando por dar crédito a um personagem abjeto e criminal, que não hesitou em recorrer a todos os meios, inclusive o extermínio dos que não aderiam ao Islã, para submetê-los à sua mercê?

... não pode ser cúmplice na construção de um panteão mundial das religiões

Pergunto-me se a Igreja se dá conta de que, ao não se afirmar e não se levantar como testemunha da unicidade, do absoluto, da universalidade e da eternidade da Verdade em Cristo, pode acabar por tornar-se cúmplice na construção de um panteão mundial das religiões, em que todos considerem que cada uma delas seja depositária de uma parte da verdade.

Como espantar-se depois que o Cristianismo, colocado no mesmo plano de uma miríade de fés e ideologias que dão as respostas mais disparatadas às necessidades espirituais, cesse de atrair, persuadir e conquistar a mente e os corações dos próprios cristãos, que abandonam sempre mais as igrejas; que diminuam as vocações sacerdotais; e, mais em geral, que seja excluída a dimensão religiosa da própria vida?

O Cristianismo é a única religião verdadeira

Para mim o Cristianismo não é uma religião “melhor” do que o Islã, ou uma religião “completa” com uma mensagem “perfeita e acabada” em face de um Islã, considerado como uma religião “incompleta” com uma mensagem “inacabada”. Para mim o Cristianismo é a única religião verdadeira, porque é verdadeiro Jesus, o Deus que se fez Homem e testemunhou em meio a nós homens, através das obras boas, a verdade, o fascínio, o razoável e a bondade do Cristianismo. Para mim o Islã, que reconhece um Jesus apenas humano –– que condena pois o Cristianismo como heresia porque crê na divindade de Jesus, e como idolatria porque crê no dogma da Santíssima Trindade –– é uma falsa religião, inspirada não por Deus mas pelo demônio.

Santidade Bento XVI, a Igreja, o Cristianismo e a civilização ocidental hoje estão sucumbindo, pela penetração da chaga interna do nihilismo e do relativismo de quem perdeu a própria alma, sob o influxo da guerra de conquista de natureza agressiva do extremismo e do terrorismo islâmicos, acrescidos do transviamento de um mundo que se globalizou; inspirando-se na modernidade ocidental, mas apenas na sua dimensão materialista e consumista, enquanto não acolheu inteiramente a sua dimensão espiritual e de valores.

Elogio do Papado e pedido final

Em tal contexto tão crítico e com perspectivas tão densas de trevas, Vós hoje representais um farol de Verdade e de Liberdade para todos os cristãos e para todas as pessoas de boa vontade no Ocidente e no mundo. Vós sois uma bênção do Céu, que mantém em pé a esperança no soerguimento moral e civil da Cristandade e do Ocidente. Inspiramo-nos em Vós e confiamos na vossa bênção para atuar como construtores da Civilização cristã, a fim de promover um movimento de reforma ética que realize uma Itália, uma Europa, um Ocidente e um mundo de fé e razão. Que Deus vos assista na missão que vos conferiu; e que Deus nos acompanhe no comum caminho dedicado à afirmação da Verdade, na consecução do bem comum e na realização do interesse geral da humanidade.

Magdi Cristiano Allam

Retirado de: Catolicismo - Revista de Cultura e Atualidades


quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Mentiras Bolcheviques


A revolução russa não pode ser vista como uma revolução popular propriamente dita, diferente do que se pensa, ou do que se quer induzir a pensar, a participação do povo foi muito pouca, quase diminuta. A importância das massas se restringiu a construção de uma máquina ideológica por meio das frentes trabalhistas; uma fachada pseudo-popular. O sucesso revolucionário foi obtido graças à infiltração em altos escalões dos ministérios militares e das polícias, além, é claro, da própria nobreza que ou sonhava com a revolução ou não via com bons olhos as mudanças políticas propostas por Nicolau, como veremos mais adiante.

O Tsar representava o Cristianismo Ortodoxo e a Rússia, sendo assim, a criação um governo comunista, ou de extrema-direita, perpassava, obrigatoriamente, pela necessidade de ultrajar a família real e criar junto ao povo o gérmen anti-Romanov. Infelizmente foi esse o método usado pelas forças revolucionárias; a imagem de Nicolau II passou a ser objeto de zombaria e escárnio, não só com factóides e histórias milimetricamente inventadas, mas também alvo de um complexo jogo de intriga.

Depois do golpe a eliminação dos resquícios imperiais se tornou essencial. Um ponto basilar era a destruição do espírito russo, do ethos cristão e tradicional que norteava e fundamentava a existência do povo eslavo. A derrubada desses símbolos teria um apogeu; a morte da família Romanov, a representação física, carnal, de um ideal, de princípios, valores, de uma fé. Símbolos vivos de uma Rússia que deveria ser sepultada!


Após a morte de Nicolau II e sua família os comunistas continuaram com o projeto de desmoralização. A mentira foi repetida milhões de vezes, era necessária uma nova geração formada sobre esse fascínio revolucionário anti-imperial. O conhecimento dos contemporâneos do Tsar impedia a total absolutização desse jogo de mentiras. A moderna e tradicional Rússia de Nicolau II, a Rússia da alta industrialização, das reformas institucionais, do resgate do Patriarcado de Moscou, se tornou a Rússia da crueldade, despotismo, tirania.


Os grandes fatos que corroboram a proposital deformação da história de Nicolau II são; a guerra do Japão, os progroms contra os judeus, domingo sangrento e Rasputin!


Rasputin é objeto de milhares de teorias e teses, a grande maioria se baseia nas falácias proferidas pelas comunistas no período pós-revolucio
nário. Mesmo assassinando a família real, os bolcheviques criaram uma máquina publicitária anti-Romanov, mantendo um projeto de desmoralização com lendas e mitos. Grigori Rasputin, o "diabo santo", é mais uma das produções da perversa criatividade bolchevique.

Esse diabólico homem foi apresentado a Tsarina como sendo o herdeiro e sucessor de São Serafim de Sarov, santo de piedosa devoção da família. Rasputin fizera uma peregrinação a Kiev, Sarov, locais sagrados em toda a Rússia, com o claro propósito de estimular sua fama de santidade, era tão sorrateiro que chegara a ponto de ludibriar sacerdotes como o Pe. Teôfano, reitor da Academia de Teologia de Petersburgo: "Na vila de Pokroveskoe vive um homem religioso chamado Grigori. Como São Serafim e o profeta Elias, tem o dom de fechar os céus".

Rasputin usou da sincera piedade familiar como brecha para conquistar os corações contritos e amáveis dos soberanos. Depois que passara a "curar" o Tsarevich Aléxis, possivelmente com hipnose, seu prestígio em meio aos Romanovs foi as alturas. Entretanto, ao mesmo tempo que estimulava sua falsa santidade, não escondia seus verdadeiros princípios, ou falta de. A polícia secreta, que o espionava, havia relatado que ele se embebedava e "tinha relação com coristas, cantoras de cabarés e mulheres de índole duvidosa". Além disso Rasputin fazia questão de espalhar, por meio de
boatos, as histórias das suas orgias; um dia, junto com dois grandes repórteres (sendo que um era do maior tablóide da Rússia) e mulheres em geral, foi para um restaurante, se embriagou, ficou nu, mostrando as partes íntimas, continuou a conversar e proferiu frases obscenas e baixas.

A total fidelidade da Tsarina ao santo de Pokroveskoe se sustentava na falsa mística de Grigori Rasputin. Alexandra era religiosa, assim como toda a família, e, como era amplamente conhecida na Rússia, existia uma classe de santidade muito singular e devota, "os loucos por Cristo", Rasputin se passava por um, onde o idiotismo se refletia na degeneração sexual.

Os três outros eventos que fundamentam a corrupção da imagem de Nicolau II devem ser entendidos a partir do real conhecimento do alto grau de infiltração revolucionária nas instituições políticas do Império. Depois da morte do Ministro do Interior, Pehve (de cujo ministério o departamento de polícia fazia parte), descobriu-se em seus escritos que a guerra
da Manchúria foi induzida, ele dizia: "Para segurar a revolução, precisamos de uma guerrinha vitoriosa"

Witte, o Ministro mais influente da Rússia, contou em suas Memórias um episódio curioso: durante sua gestão como primeiro-ministro ele lutou para acabar com os progroms, ações violentas contra os judeus. Como era natural, teve o auxílio e apoio do Departamento de Polícia. Ficou horrorizado quando soube, através de um oficial do departamento, que, ao mesmo tempo em que combatia os progroms, a polícia preparava
editais destinados a incitar o povo a massacrar os judeus! Esses editais eram enviados secretamente, em pacotes, para as províncias. O terrível massacre dos judeus em Gomel começara por causa deles.

A perseguição anti-semita foi usada pela polícia e pela camarilha como artifício de desgaste da imagem do Tsar, até apresentaram os Protocolos dos Sábios do Sião - forjado pela polícia - a Nicolau que percebeu, claramente, que se tratava de uma adulteração. Até o revolucionário Burtsev reconheceu: "No começo, logo que os Protocolos apareceram, o Tsar os aceitou de boa fé e até encantou-se por ele, mas percebeu rapidamente que o livro não passava de provocação".

E qual o interesse político nesse anti-semitismo tão ferrenho, além, é claro, da destruição da imagem do Tsar? O ex-Primeiro-Ministro Witte responde:
"Do seio desse povo judeu, que era extraordinariamente covarde trinta anos atrás, surgiram aqueles que estão dando a própria vida pela revolução, transformando-se em bombardeadores, assassinos e agitadores. Nenhuma nação deu à Rússia tantos revolucionários como a nação judaica".

Vera Leonidovna Yureneva, uma das poucas sobreviventes do mundo imperial russo, disse em exílio:

"A camarilha da Rússia, envolvia famílias importantes, mas degeneradas, que temiam perder riqueza e o poder, e detestavam o incompreensível capitalismo dos novos tempos. Era essa gente que formava o círculo interno, a corte de Nicolau e Alexandra. Meu amigo percebia que na Rússia havia uma aliança secreta entre a extrema direita, isto é, a camarilha e a polícia secreta. Foi por isso que, quando Alexandre II estava preparando a constituição, a polícia deixou de protege-lo como deveria e ele foi assassinado. Meu amigo sempre falava dos bilhetes cheios de ameaças contra o Tsar Alexandre III que chegavam ao palácio de Gatchina, cuidadosamente vigiado. Reforçavam o ódio do Tsar pelos liberais e eram enviados através da polícia secreta. O Departamento de Polícia fugiu do controle do Tsar, no fim do século, quando a polícia secreta começou a espalhar agitadores no movimento revolucionário (...). Começou uma época de perigosas intrigas tecidas pela camarilha e pela polícia secreta contra o tsar e a sociedade. Uma dessas intrigas foi a guerra japonesa ".

Outra conspiração da polícia secreta foi o famoso Domingo Sangrento, que deu ao Tsar a mentirosa alcunha de "Nicolau II, o Sanguinário". É bom recordar que uma semana antes do fatídico dia Nicolau finalmente se levantara contra a escusa camarilha - que já pensava em trocar o verdadeiro Tsar por um primo Romanov distante - ao aprovar leis destinadas a melhorar e regulamentar a conduta governamental. Não obstante, o chefe-de-policia, Dimitri Fedorovich, pediu demissão como protesto pelas sadias e essenciais reformas.


Também devemos lembrar que três dias antes do infeliz acontecimento, na festa da Epifania do Senhor, fizeram no aterro do palácio um "rio Jordão" para a consagração anual da água. Nicolau ajudara o Patriarca na celebração e, como era tradição, o canhão da fortaleza de São Pedro e São Paulo, localizado do outro lado do "Jordão", disparou tiros. Para horror das pessoas ali reunidas o canhão fora carregado com balas verdadeiras e não de festim. Por milagre o Tsar não foi atingido, mas um policial saiu ferido, seu nome era Romanov! A polícia, que em circunstâncias normais ficaria exageradamente preocupada, declarou o fato como um acidente desagradável.

Sabemos que o Domingo Sangrento era, na verdade, um marcha onde o povo, espontaneamente, carregava bandeiras, retratos do Imperador e ícones, enquanto entoava o ‘Deus Salve o Tsar’. Era sim uma ação popular organizada em defesa da melhoria da qualidade de vida, mas nem de longe trazia em seu âmago uma espírito armado. O Departamento de Polícia, mesmo estando muito bem informado das boas intenções da marcha de protesto, porque Gabon, o organizador, era um de seus agentes, ameaçou o Tsar dizendo que durante a manifestação haveria muito tumulto, que era uma revolta preparada por revolucionários que queriam assaltar o palácio. Nicolau II escreveu em seu diário:

"9 de Janeiro de 1905. Um dia difícil. Sérios distúrbios em Petersburgo, em conseqüência da tentativa dos trabalhadores de tomar o Palácio de Inverno. As tropas foram obrigadas a atirar e, em vários pontos da cidades, pessoas foram mortas ou feridas. Senhor, é tão doloroso e duro"

Vera Leonidovna Yureneva ainda disse em suas memórias:


"(...) No livro que escreveu, meu marido, Koltsov [era judeu], pintou um retrato devastador do Tsar, mas ele realmente não compreendia. Eu comparava o Tsar ao bom homem, personagem de uma peça chinesa, a quem um malfeitor iludia com mentiras. O bom acreditou, por um instante, no mau. Meu amigo, o livre-pensador, que tinha amizade com Witte, percebeu, no final de 1904, que havia um complô na corte e que o Domingo Sangrento fazia parte do esquema".

Depois do Domingo Sangrento o número de atentados aumentou de maneira colossal, praticamente já se vivenciava um amostra do terror que seria a revolução. Nesses ataques o tio do Tsar, Grão-Duque Sergei Alexandrovich, foi morto. O seu falecimento não deve ser recordado pela figura que ele foi, já que era despótico e entregue a corrupção, mas o que tornou o evento impressionante foi a atitude de sua esposa, Elizaveta Fedorovna, santa da Igreja Ortodoxa, sepultada na Igreja de Santa Maria Madalensa, em Jerusalém. Ella, como era conhecida na côrte, colocou na pedra tumular do marido a seguinte mensagem; "Pai, perdoia-os, porque não sabem o que fazem", indo visitar o assassino na prisão:

- Por que matou meu marido? - perguntou ao assassino
- Matei Sergei Alexandrovich porque ele era uma das armas da tirania. Vinguei-me em nome do povo - ele respondeu.

- Não dê ouvidos ao orgulho - ela aconselhou
- Arrependa-se e suplicarei ao soberano para que lhe poupe a vida. Intercederei por você, porque eu mesma já o perdoei.


O assassino não se arrependeu, mas diante de um mundo tão decadente, corrupto e empobrecido, Elizaveta e Nicolau surgiam como pérolas em meio a devassidão. A Grã-Duquesa Elisabete, depois da morte do seu marido, fundou o mosteiro de Santa Maria e Santa Marta, vivendo unicamente da adoração ao Senhor. Quando a revolução chegou foi martirizada sendo sepultada viva numa mina.

Elisabete, assim como Nicolau, sonhava com uma Rússia onde havia respeito a vida, a profundidade e beleza da existência humana. O Imperador, enquanto tal, imaginava um país moderno, com instituições arejadas, crescimento econômico, abertura comercial, ao mesmo tempo em que guardava os esplendorosos legados tradicionais da nação, do povo russo, entre eles a fé.

O Tsar, em carta a sua mãe, disse:
"(...) Discutimos o documento durante dois dias [a constituição]. Então orei e assinei-o (...). Querida mamãe, não pode imaginar quanto tenho sofrido. Meu único consolo é pensar que essa é a vontade de Deus e que a difícil decisão tirará nossa amada Rússia desta situação caótica, insuportável, em que se encontra há quase já um ano".

Não sabia o Tsar que a camarilha e os comunistas não queriam uma Constituição ou reform
as nas leis, mas sim a derrubada dos Romanovs, a divisão do poder, o controle do Estado; o corpo ensangüentado de Nicolau II e sua família.

14 de maio de 1986. Moscou, Kremlin. "Na antiga Catedral da Assunção, o rito sagrado de coroação seguia seu curso. Velas acesas...Um coro angelical...Ele tomou a grande coroa das mãos do Patriarca e colocou-a na própria cabeça. Ela ajoelhou-se diante dele...Uma pequena coroa de diamantes já cintilava no cabelo loiro ".

17 de julho de 1918. Ekarerinburg. "Os corpos foram colocados na vala e sobre eles derramou-se ácido sulfúrico, para evitar que fossem reconhecidos e que exalassem mau cheiro ao apodrecer, pois a vala não era profunda. Cobrimos c
om terra, cal e tábuas e passamos por cima várias vezes, de modo que não ficou sinal da cova. O segredo está bem guardado".

O primeiro Romanov a governar a Rússia foi tirado do monastério de Ipatiev. O grande soberano Nicolau perdeu a vida numa casa chamada Ipatiev!

O primeiro Tsar Romanov se chamava Miguel. Um Miguel foi também o último Tsar em favor de quem Nicolau II, humildemente, abdicou!


Tristes coincidências!

Assim acabava uma família real que realmente fazia jus aos seus títulos; seus membros eram realmente nobres!


"Embora subas ao alto como águia, e embora se ponha o teu ninho entre as estrelas, dali te derrubarei, diz o Senhor.” (Obadias 1:4)

Último trecho bíblico lido pela Tsarina aos seus filhos.

Pedro Ravazzano

Referências bibliográficas:

GUNTHER, John. A Rússia por Dentro. Editora Globo: Rio de Janeiro, 1959

RADZINSKY, Edvard. O Último Czar. Best Seller: Rio de Janeiro, 1992

PIPES, Richard. Historia concisa da Revolução Russa. Record: Rio de Janeiro,1997

sábado, 13 de dezembro de 2008

Marcadas diferenças entre o Ocidente e Oriente cristão

Salvo a pregação naqueles meios onde se ignorava a língua grega, como ocorria com São Irineu quando evangelizava os celtas, não se percebe nenhuma discrepância substancial entre as igrejas do Oriente e Ocidente. É preciso que chegue o séc. II para que as coisas comecem a mudar. Todavia a mudança só teve lugar no Ocidente, pois o Oriente continuou sendo o que antes já havia sido, tão aficcionado aos problemas metafísicos e cosmológicos da Trindade, da criação do mundo e da encarnação do Logos. Os ocidentais começaram a colocar de lado a língua grega e preocupar-se com os problemas psicológicos e morais concernentes a personalidade humana, sem descuidar por isso da metafísica e sem deixar que ambas as mentalidades se influenciassem. Predomina o espírito especificamente romano, um sentimento sóbrio e prático, encaminhado a um fim necessário e proveitoso, e a literatura latina se presta a isso com uma riqueza e flexibilidade maravilhosas.

Para se convencer disso, é suficiente olhar as idéias de Tertuliano, que faz ressoar os acentos mais originais da nova psicologia cristã em antítese ao pensamento grego. Para afirmar a existência de Deus invoca o testemunho da alma, juntamente com a Escritura; " Para que tu possas crer em Deus e na natureza, crê na alma e crerás também em ti mesmo. A alma é tudo para ti, não só como testemunho mas também como partícipe; tu podes aprecia-la pelo que ela faz de ti, e ainda no erro, tu a encontrarás como reu e como testemunha; reu do erro enquanto és ao mesmo tempo testemunho da verdade".

O abandono progressivo da língua grega e o impulso irresistível dos ocidentais em expressar em latim e ao modo latino as idéias teológicas, impulsiona a literatura latina cristã, talvez com o Papa Victor I, mas certamente com Tertuliano de maneira mais explosiva. (...) A separação ocorre principalmente no séc. IV, e seguirá se expandindo cada vez mais; primeiro a causa de Constantino, que estabeleceu a capital do Império em Bizâncio; depois, pela perda e abandono das possessões bizantinas na Itália posterior a queda do Império do Ocidente; mais adiante pela questão do culto das imagens, o que finalmente gerou a separação definitiva de todo vínculo pelo cisma do Oriente, que ainda perdura.

Retirado do livro "Historia de la Literatura Patristica" de Luis M. de Cadiz (Pe. Antonio Ulquiano-Murga)

Tradução: Pedro Ravazzano

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Sismondi e os Ricardianos

David Ricardo, terceiro filho de uma família neerlandesa descendente de judeus portugueses, se tornou um dos nomes mais importantes da economia. Seu legado foi de grande importância para a estruturação do pensamento econômico. Interessante é que tanto neoclássicos quanto marxistas bebem da fonte ricardiana, atestado da total relevância de suas teorias e descobertas.

A teoria do valor-trabalho, a teoria da distribuição, o comércio internacional, renda da terra, etc, são temas comumente presentes nos trabalhos do ilustre pensador inglês.

O grande economista britânico, como é de fácil percepção, foi uma figura essencial no desenvolvimento da economia. Desse modo, como qualquer pensador, conquistou um séqüito de seguidores e críticos. Nesse texto iremos nos focar em Sismondi, opositor do liberalismo clássico, e em ricardianos como McCulloch e Torrens.

Jean-Charles Léonard Sismonde Sismondi, historiador e economista, nasceu na Suíça de uma família vinda da França mas que originalmente descendia da Itália. Inicialmente foi um defensor do pensamento de Adam Smith. Entretanto, se voltou contra a Escola Clássica tornando-se um radical crítico. Para alguns ele é o fundador das duas principais escolas que se opuseram, posteriormente, a Economia Clássica: a Escola Histórica e Socialista. Em “Nouveaux Principes d’Économie Politique ou de la Richesse dans ses rapports avec la Population” Sismondi expõe suas próprias idéias contra a teoria econômica vigente, a chamando de “ortodoxa”, alcunha essa que chegou até os tempos atuais. É considerado, desse modo, o primeiro dos "socialistas ricardianos" e precursor direto de Karl Marx.

Vale frisar que Marx considerava Sismondi o expoente do socialismo pequeno-burguês, “o chefe dessa literatura, não somente na França, mas também na Inglaterra.” (MARX, 2006). Esse se caracterizava por ser reformista não-revolucionário, visava;
Restabelecer os antigos meios de produção e de troca e, com eles, as antigas relações de propriedade e toda a sociedade antiga, ou então fazer entrar à força os meios modernos de produção e de troca no quadro estreito das antigas relações de propriedade que forram destruídas e necessariamente despedaçadas por eles. (MARX, 2006).


Ademais, mesmo Sismondi desenvolvendo uma teoria contendo todas as particularidades da teoria da exploração, ele se distanciava por não anatemizar o juro de capital. Do mesmo modo aceitava a tese smithiana de que o trabalho era a única fonte de riqueza. Para ele o objeto da economia não era a riqueza em si, mas o homem que se sacrificava em sua produção e desfrutava com seu consumo, frutos do trabalho. Böhm-Bawerk afirmou que “Sismondi virtualmente levara a efeito a teoria da exploração, sem, contudo, orientá-la para o terreno político-social. A ele segue-se aquela força maciça (...) socialismo e comunismo” ( BÖHM-BAWERK, 1987).

Sismondi dizia que o liberalismo clássico consistia de abstrações, que por detrás de um discurso retórico e uma estruturada teoria econômica existia a dominação da classe capitalista sobre os trabalhadores, além disso diagnosticou o que ele considerava as crises inerentes ao sistema capitalista e concluiu que a livre concorrência criava monopólios, proletarizava as massas e gerava subconsumo. Para ele a economia deveria ser interpretada de forma concreta e não abstrata, além disso tinha aversão a objetivização, dogmatização, da economia por meio de leis gerais. O economista genebrino defendia que a concorrência obrigava os produtores a reduzirem os custos para baratear o preço final e ganhar mercado. Entretanto, sem a expansão da demanda, rivais na concorrência iriam atrás da redução de custos para manter competitividade e vender o que produziram, desse modo demitiriam trabalhadores, economizariam materiais afim de diminuir o preço de venda, reproduzindo o valor final do concorrente. Ou seja, a livre concorrência gerava desemprego. Em continuação, Sismondi afirmou que a manutenção da diferença entre oferta e demanda, o prosseguimento do espírito competidor concorrencial, assim como a concentração de fortunas nas mãos de poucos proprietários, obrigaria a busca por mercados externos, já que o interno estaria saturado, dando origem a uma luta com duras conseqüências; desempregos, falências etc. Ou seja, um abarrotamento geral dos mercados.

Sismondi ainda foi além ao elaborar uma análise a respeito do impacto do desenvolvimento de maquinário nas indústrias. A grande quantidade de capital estimularia o aperfeiçoamento do processo produtivo através da adoção de novas ferramentas. Essa evolução tecnológica, de acordo com o economista suíço, gerava o aumento de oferta e se, por sua vez, se deparava com uma demanda inerte, propiciava a queda dos preços, redução dos lucros, cortes salariais e desemprego.

Com o estruturação teórica e prática a respeito dos males causados pela ação das forças competitivas liberais, Sismondi via como essencial a reforma institucional através da adoção de um governo voltado para a promoção do bem-estar social;
O objetivo do Estado é, ou deveria ser, a felicidade dos homens, unidos em sociedade; busca o modo de assegurar o maior grau de felicidade compatível com sua natureza e, al mesmo tempo, permitir que o o maior número possível de indivíduos participem dessa felicidade (...) A felicidade moral do homem, enquanto dependente do seu governo, está intimamente ligada a perfeição desse governo e constitui o objetivo da política (SISMONDI, 1969)

A reação ricardiana as críticas de Sismondi foi áspera e direta nas condenações as exposições do economista suíço. McCulloch rechaçou por completo a idéia regulatória do genebrino; o controle da concorrência pelo Estado era perigoso para o progresso econômico. Para o pensador escocês os problemas causados pela competição devem ser combatidos não por meio da destruição do processo concorrencial, mas sim pelo barateamento dos artigos de consumo. Entretanto, na visão de McCulloch, a melhor forma de recuperar essa classe trabalhadora era através do aprimoramento das máquinas e o seu uso intensivo. Ou seja, o progresso tecnológico acarretaria a diminuição dos preços de artigos oriundos de um processo industrial. A queda dos valores desses bens aumentaria a demanda e, por conseqüência, aumentaria a produção que, por sua vez, reabsorveria a mão-de-obra parada. Destarte, McCulloch era um árduo defensor das máquinas e do aprimoramento dos equipamentos industriais, para ele esses fatores propulsionariam e elevariam o crescimento econômico e beneficiariam capitalistas e trabalhadores - os últimos teriam incrementos salárias reais através da redução do valor dos bens essenciais. Ademais, o economista escocês não via a solução da saturação dos mercados perpassar pela redução da produção, mas sim pelo estímulo de maior produção em outros setores.

McCulloch enxergava a poupança, a divisão do trabalho, a fundamental defesa da propriedade e o livro comércio como os pilares incontestáveis do progresso econômico. Numa sociedade onde essas bases não fossem defendidas com radicalidade, seja através do triunfo de uma compreensão heterodoxa, ou por meio da ação estatal, se colocaria em risco a prosperidade.
Robert Torrens, economista inglês e oficial da Marinha, ao desenvolver suas críticas aos projetos assistencialistas de Robert Orwen deixou claro seu posicionamento econômico. Seguindo a linha ricardiana ele, o árduo defensor da colonização australiana, explicava a taxa de lucro partindo da qualidade dos solos de cultivo, da capacidade de produção da mão-de-obra agrícola e manufatureira e, por último, do salário real dos trabalhadores. Não obstante, Torrens não esquecia de mencionar o livre comércio e o peso da tributação. Vale lembrar que sua posição sobre o comércio internacional foi pioneira ao rejeitar o livre comércio unilateral. O militar, assim como McCulloch, também defendia a mecanização como forma de aumentar a produção e beneficiar capitalistas e trabalhadores.

Destarte, o que norteou a discussão entre Sismondi e os ricardianos foi a diferente compreensão a respeito da existência da superprodução. A construção argumentativa se fundamentava na análise da concorrência, mecanização e intervenção do Estado. De um lado o economista genebrino que enxergava o espírito competitivo como destrutivo, o triunfo das máquinas como avassalador e o Livre-Mercado falacioso. Já McCulloch e Torrens defendiam a concorrência como forma de aprimorar e inovar a produção, diminuir os custos. O avanço tecnológico industrial também reduziria custos e, por sua vez, aumentaria a demanda, forçando a reabsorção da mão-de-obra. Entretanto, Sismondi se opôs a essa argumentação afirmando que o tempo, ou seja, o lag entre a demissão e recontratação, não era levado em conta. Desse modo defendia a intervenção do Estado para administrar o ritmo das inovações e conter, através de ações regulatórias da livre concorrência e por meio de políticas públicas, as crises de superprodução.

McCulloch e Torrens eram opositores da idéia sismondiana de superprodução, para eles as ofertas excessivas ocorriam em determinados setores da economia, entretanto, eram contrabalançadas por sub-ofertas, ou seja, ofertas aquém da demanda existentes em outros setores. Os dois economistas britânicos estavam em sintonia com a Lei de Say.

De forma sucinta podemos afirmar que Sismondi era um opositor do Livre-Mercado e defensor do intervencionismo do Estado, enquanto McCulloch e Torrens se opunham ao intervencionismo do Estado e defendiam o Livre-Mercado. Como percebemos, essa discussão extrapola os tempos, os séculos. Ontem e hoje o debate continua sendo atual, pena que não há a mesma honestidade intelectual em ambos os lados...

Pedro Ravazzano