domingo, 30 de novembro de 2008

Católicos reclusos

Às 6 horas da manhã, uma sirene toca na chácara que abriga a Comunidade Luz da Vida, nos arredores de Goiânia. Os 37 moradores deixam suas casas e caminham para a capela. Nas duas horas seguintes, eles assistem à missa e rezam as 220 orações do rosário. A seguir, começa uma pesada maratona de missões assistenciais e de evangelização. Um grupo trata de dependentes químicos que buscam fugir do vício trabalhando no campo. Outra equipe se dedica a acompanhar mães que foram dissuadidas de abortar seus filhos. A principal tarefa levada a cabo na chácara é a produção de programas de rádio e TV com conteúdo católico. O Futebol Show, na Luz da Vida FM, combina a narração de jogos com mensagens religiosas. As atividades só terminam às 10 e meia da noite, quando todos se recolhem. Na Comunidade Luz da Vida vivem homens e mulheres que decidiram abandonar o burburinho da cidade para se dedicar integralmente à oração, ao trabalho missionário e à vida comunitária de acordo com a doutrina católica. Na chácara eles se pautam pelos princípios monásticos da pobreza, obediência, castidade e vida fraterna. Não recebem salário. Vivem do que chamam de "providência divina" – ou, em linguagem laica, doações. Até mesmo as roupas que vestem são doadas.

A Luz da Vida é uma das 450 comunidades de católicos criadas em vários estados nos últimos dez anos. Chamadas de Novas Comunidades, elas normalmente nascem de grupos de oração da Renovação Carismática Católica, o movimento que reúne elementos culturais modernos à tradição religiosa para atrair fiéis, principalmente os jovens. Estima-se que haja 12 milhões de católicos carismáticos no Brasil, que se encontram regularmente em 23 000 grupos de oração e celebram missas festivas embaladas por ritmos pop. Calcula-se que 10 000 católicos carismáticos morem nas Novas Comunidades. A pioneira delas é a Canção Nova, em Cachoeira Paulista, a 195 quilômetros de São Paulo, fundada em 1978, que reúne 1 200 fiéis. Há um mês, o papa Bento XVI concedeu o reconhecimento oficial à Canção Nova. Uma delegação da comunidade foi recebida pelo pontífice no Vaticano. No ano passado, a Comunidade Shalom, de Fortaleza, obteve a mesma distinção.

Uma vida dedicada à religião pode ter uma aura de romantismo, mas não é nada fácil. Na Comunidade Luz da Vida, apenas um de cada dez internos permanece por mais de cinco anos. As regras internas incluem submeter todas as decisões pessoais à avaliação coletiva. Um exemplo dessa interferência está nos relacionamentos amorosos. As regras variam entre as comunidades, mas, em geral, nos três primeiros anos é proibido namorar. Após esse período, dois internos que desejem iniciar um relacionamento amoroso precisam submeter sua intenção à apreciação do conselho da comunidade, formado por membros graduados. Caso seja autorizado, o namoro será casto, já que vale a orientação da Igreja Católica de que o sexo só deve ocorrer após o casamento. Rafael Leal e Lílian de Castro, diretor de jornalismo e apresentadora da TV Canção Nova, esperaram quatro meses entre o pedido formal, feito por carta, e a aprovação pelo conselho. Mas, logo após a autorização para o namoro, Rafael foi transferido para atividade missionária em Israel, onde passou um ano e meio. Só depois desse período o casal pôde, enfim, ficar junto. Eles dizem não guardar mágoa pela separação imposta. "Aqui somos consagrados a Deus. Tudo o que fazemos, todo o tempo, é para Ele", diz Lílian.

Quem busca as comunidades católicas costuma se declarar farto daquilo que vê como valores efêmeros – os mais citados são a valorização da aparência e o consumismo. Antes de entrar para a Canção Nova e se tornar superintendente de eventos da entidade, Róbson Alves, de 32 anos, era líder de torcida organizada no Rio de Janeiro e usava drogas. "Procurava me preencher nas drogas, no sexo, nas baladas e na bebida. Meu time era o meu deus. Mas, quando colocava a cabeça no travesseiro, só sentia um grande vazio", ele diz. O maranhense Luciano Parga Lobo, de 28 anos, dono de uma rede de lojas e distribuidoras de material de construção e de uma fábrica de tintas, também viveu uma crise de valores. "Lá fora eu tinha apartamento à beira-mar, casa de praia, lancha, jet ski e um carro de 200 000 reais", conta. Hoje, Lobo vive na Canção Nova e se alterna com os outros moradores em tarefas como limpeza, poda da grama, plantio da horta e manutenção do chiqueiro e do galinheiro. "Eu tinha tudo e não tinha nada. A cada dia, naquela vida, sentia que ia perdendo os meus valores numa existência desregrada", ele diz.

As normas para ingressar nas comunidades católicas são rígidas e exigem renúncias. Em primeiro lugar, é preciso interromper os estudos, o trabalho e os namoros. A partir do segundo ano, o contato com a família é restrito. Nessa fase de adaptação, os chamados noviços só deixam a comunidade em alguns dias da semana, para ir à missa e ao grupo de oração. Apenas nessas ocasiões eles se encontram com os familiares. O recebimento de telefonemas é limitado a um a cada quinze dias. É permitido telefonar uma vez por mês. A opção por esse tipo de vida, que simula a dos monges reclusos, nem sempre é aceita pela família e pelos amigos dos que ingressam nas comunidades. Em 1998, aos 18 anos, a goiana Wanessa Lôbo decidiu abandonar o curso de administração de empresas e mudar para a Luz da Vida. "Minha mãe foi falar até com o bispo para que me tirassem daqui", diz ela. Para o padre Luiz Augusto Ferreira, co-fundador da Luz da Vida, o espanto com que muitas famílias vêem a opção pela vida nas comunidades católicas reflete os valores da sociedade atual. "Vivemos num tempo em que, se é para tentar a vida ilegalmente nos Estados Unidos, os pais arrumam a passagem. Se o filho quer ir para Deus, eles se escandalizam", ele pondera.

Pode parecer estranho que as Novas Comunidades floresçam no Brasil depois de duas décadas de queda acelerada no número de fiéis católicos. A explicação para isso parece estar num fenômeno maior: a atual corrente de busca pela espiritualidade. Num mundo cada vez mais complexo e repleto de desafios, e no qual a família tradicional se acha em crise, mais e mais gente encontra conforto no âmbito do transcendental. Os livros e palestras de auto-ajuda espiritual se multiplicam em velocidade espantosa. Não por acaso, Paulo Coelho se tornou o escritor mais lido do mundo com sua sabedoria de porta de igreja. "No caso das comunidades católicas, a sensação de falta de vínculos e de apoio afetivo é preenchida por essa proposta de vida fraterna", diz a socióloga Cecília Mariz, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

O crescimento das comunidades é também resultado da reação da Igreja Católica diante da perda acelerada de fiéis para as igrejas evangélicas. Os sinais visíveis dessa reação estão nas missas campais para multidões, nos megatemplos católicos construídos nas últimas décadas e até nos adesivos com a frase "Sou feliz porque sou católico". A Renovação Carismática, que lidera esse movimento, recuperou também elementos do catolicismo tradicional, como a reza do rosário. Também passou a disputar fiéis com os evangélicos ao enfatizar as curas espirituais e falar com mais liberdade em milagres, algo que caíra em desuso desde o Concílio Vaticano II, nos anos 60. Outras práticas populares, como a bênção da água, de velas e até de objetos pessoais – as chaves da casa e do carro, por exemplo –, foram resgatadas. Tudo isso reveste a Igreja de uma nova imagem, distante daquela que vigorou entre os anos 60 e 80, impregnada do ideário esquerdista. Diz a socióloga Brenda Carranza, da PUC de Campinas, especialista em religiões: "Nos anos 80, participar da Igreja era estar engajado em obras sociais. Hoje, é ir com mais freqüência à missa, participar de vigílias e grupos de oração. Naquela época, o padre era visto como agente de transformação social. Agora, ele é um agente de transformação pessoal e espiritual". É essa transformação que move o rebanho das novas comunidades católicas.

EM NOME DA FAMÍLIA

Em 1998, o administrador de empresas Ângelo Heitor Longhi, 34 anos, e sua esposa, Ana Paula, se mudaram para a Comunidade Oásis, no Rio Grande do Sul. Lá nasceram os três filhos do casal. Longhi acha que atualmente a família é minada por valores contrários aos do Evangelho e que a vida comunitária facilita a vivência dos princípios cristãos, como a partilha, o amor ao próximo, o perdão e a fidelidade. "Em que lugar do mundo eu teria um ambiente mais propício a viver um ideal da família cristã?", ele questiona.

OPÇÃO PELO CELIBATO

O paulista de Aparecida João Carlos do Nascimento, 25 anos, está há seis na Comunidade Shalom, em Fortaleza. Embora não pretenda ser padre, ele fez a opção pelo celibato — e, portanto, pela castidade. Seu objetivo é dedicar-se inteiramente à religião. "Descobri que Deus quer isso de mim. O celibato não é uma prisão nem um peso. Afinal, a gente não é homem apenas no contexto de um relacionamento com uma mulher", diz ele.

ADEUS, NOIVO E EMPREGO

Há cinco anos, a fonoaudióloga Weslaine Cardoso, de Goiás, tinha tudo o que uma jovem pode desejar. Ganhava até 4 000 reais por mês entre o consultório particular e um emprego público e estava prestes a ficar noiva. Uma semana antes de anunciar o noivado, resolveu abandonar tudo e se mudou para a Comunidade Luz da Vida, em Goiânia. Enfrentou forte oposição da família, mas não se arrepende da mudança. "Lá fora eu tinha muito, mas aqui dentro sinto que tenho muito mais", diz Weslaine, que trabalha como produtora na rádio Luz da Vida.

O SEXO PODE ESPERAR

Quando Rafael Leal e Lílian de Castro, ambos missionários da Canção Nova, em Cachoeira Paulista, resolveram namorar, tiveram de enviar uma carta pedindo a aprovação do conselho da comunidade. Foram quatro meses de espera até receber a aprovação. O relacionamento é casto, de acordo com a orientação da Igreja Católica de que o sexo só deve ocorrer após o casamento. "É claro que sentimos atração um pelo outro, mas vivemos o amor de Deus sobre todas as coisas", diz Lílian.

FÉ NO LUGAR DAS DROGAS

O fluminense Róbson Alves, 32 anos, é superintendente de eventos no braço paulistano da Canção Nova. Antes, foi líder de torcida organizada de futebol no Rio de Janeiro e usava drogas. "Procurava me satisfazer com sexo, baladas e bebida, mas, quando colocava a cabeça no travesseiro, só sentia um grande vazio", afirma. Hoje, em vez de lotar ônibus com torcedores para ir ao Maracanã, Alves os atrai para as missas e shows católicos que promove. "Eu buscava o amor que me preencheria nas coisas erradas", diz.

MISSÃO D'ALÉM-MAR

Luísa Lima, 32 anos, e Shahir Rahemane, 21, são portugueses e descobriram a Canção Nova graças ao sinal de TV da comunidade, que chega à Europa. Ambos enfrentaram a oposição da família antes de se tornarem missionários no Brasil. "Achavam que eu estava fanatizada", conta Luísa. Rahemane teve de superar barreiras culturais. Filho de pai moçambicano e muçulmano, ele se converteu ao catolicismo. "Meu pai chorou ao se despedir de mim. Disse que preferia que eu fosse muçulmano, mas me abençoava", conta.


sábado, 29 de novembro de 2008

As origens do politicamente correto

por William S. Lind

Bill Lind é diretor do Centre for Cultural Conservatism for the Free Congress Foundation e fez discursos semelhantes a este por diversas vezes em nome da Accuracy in Academia. Em especial, este foi proferido na American University, em 2000. Sua importância é crucial na medida em que traça as raízes intelectuais do discurso politicamente correto. Em geral, as pessoas imaginam que as idéias são como o vento, cuja origem é incerta e desconhecida: ora sopra para um lado, ora para outro. Como dizia Ricard Weaver, idéias têm conseqüências, e encontrar suas origens é essencial para combater o mal que delas deriva.

De onde vêm todas essas coisas que se ouve falar – o feminismo, o movimento gay, as estatísticas inventadas, a história reescrita, as mentiras, os protestos e todo o resto? Pela primeira vez na história os americanos têm motivos para tomar cuidado com o que dizem, com o que escrevem, com o que pensam. Eles têm que ter medo de usar a palavra errada, a palavra tida como ofensiva, insensível, racista, machista ou homofóbica.

Tem-se observado, particularmente neste século, o mesmo cenário em outros países, e a sensação que se tem é de pena e, para falar a verdade, de diversão, além de soar muito estranho que as pessoas possam permitir-se viver numa situação onde elas tenham medo de usar as palavras que usam. E nós estamos vivendo essa situação aqui nos EUA. Primeiro aconteceu nas universidades, mas agora a coisa está se espalhando por toda a sociedade. Qual a origem disso?

Nós chamamos isso de discurso "politicamente correto". O nome originou-se como que uma piada, e nós ainda tendemos a pensar no assunto com metade da seriedade devida. Na verdade, é algo terrivelmente sério. É a grande doença do século, a mesma que fez dezenas de milhões de mortos na Europa, Rússia, China, em todo o mundo. É a doença da ideologia.

Se olharmos o problema de maneira analítica, de maneira histórica, rapidamente descobriremos sua natureza exata. Politicamente correto é igual a marxismo cultural. É marxismo traduzido de termos econômicos para termos culturais. É um esforço que começa não nos anos 1960, com os hippies e o movimento pacifista, mas sim na Primeira Guerra Mundial. Se nós compararmos os conceitos básicos do politicamente correto com o marxismo, o paralelo entre eles é bastante óbvio.

Em primeiro lugar, ambos são ideologias totalitárias. A natureza totalitária do politicamente correto não poderia ser revelada de maneira mais clara do que nos campi universitários, os quais muitos são hoje em dia pequenas Coréias do Norte com jardim, onde os estudantes e professores que ousam cruzar qualquer dos limites colocados por feministas, ou por ativistas pró-homossexuais, ou por grupos negros ou hispânicos locais, ou quaisquer outros grupos que o politicamente correto possa girar em torno, rapidamente se vêem em problemas judiciais. Dentro do pequeno sistema legal da universidade, eles enfrentam acusações formais – alguns procedimentos inquisitórios – e punição. Essa é uma pequena amostra do que o politicamente correto pretende para todo o país.

Na verdade, todas as ideologias são totalitárias porque a essência de uma ideologia (lembro que conservadorismo, corretamente entendido, não é uma ideologia) é afirmar, com base em uma filosofia, que certas coisas devem estar de acordo com ela – como, por exemplo, a idéia de que toda a história da nossa cultura resume-se à opressão das mulheres. Como a realidade contradiz essa filosofia, então a realidade mesma deve ser proibida. E é preciso tornar-se proibida para que reconheçamos a realidade da nossa história. As pessoas devem ser forçadas a viver uma mentira, e já que as pessoas são naturalmente relutantes em fazê-lo, elas naturalmente usam seus olhos e ouvidos e pensam: "Espere um minuto. Isto não é verdade. Eu posso ver que não é". Então o poder do Estado deve ser colocado por trás da exigência de se viver uma mentira. É por isso que ideologias invariavelmente dão origem a Estados totalitários.

Em segundo lugar, o marxismo cultural do politicamente correto, como a economia marxista, tem uma singular explicação da história. A economia marxista afirma que toda a história é determinada pela propriedade dos meios de produção. O marxismo cultural, ou politicamente correto, afirma que a história é determinada pelo poder, onde grupos são definidos em termos de raça, sexo, etc., e têm o poder sobre outros grupos. Nada mais importa. Na verdade, toda literatura é sobre isso. Todas as coisas passadas têm a ver com isso.

Em terceiro lugar, do mesmo modo que certos grupos na economia marxista clássica, i.e. trabalhadores e camponeses, são bons a priori, e outros grupos, i.e. burgueses e donos de capital, são maus, no marxismo cultural politicamente correto certos grupos também são bons – mulheres feministas (somente elas, mulheres não-feministas são tidas como inexistentes), negros, hispânicos, homossexuais. Esses grupos são escolhidos para serem "vítimas" e, por isso, são automaticamente bons, não importa o que façam. Similarmente, machos brancos são automaticamente determinados para serem maus, tornando-se assim o equivalente aos burgueses da economia marxista.

Em quarto lugar, ambos (marxismo econômico e cultural) baseiam-se na expropriação. Quando os marxistas clássicos – os comunistas – tomaram o poder na Rússia, eles expropriaram a burguesia tomando suas propriedades. Do mesmo modo, quando marxistas culturais tomam um campus universitário, eles expropriam por meio de quotas de admissão. Quando um estudante branco mais qualificado tem a sua admissão negada em favor de um negro ou de um hispânico não tão qualificado, o estudante branco é expropriado. Empresas de propriedade de brancos não conseguem um contrato porque este é reservado para uma empresa de propriedade de, digamos, hispânicos ou mulheres. Logo, expropriação é a principal ferramenta para ambas as formas de marxismo.

E, finalmente, ambos têm um método de análise que automaticamente dá a resposta que eles querem. Para o marxista clássico, o método é a economia marxista. Para o marxista cultural, o método é o desconstrucionismo. Essencialmente, o desconstrucionismo remove todo o sentido de um texto e reinsere qualquer sentido desejado. Então nós descobrimos, por exemplo, que toda a obra de Shakespeare é sobre a opressão das mulheres, ou a Bíblia é sobre raça e sexo. Todos esses textos tornaram-se úteis para provar que "toda a História é sobre quais grupos têm poder sobre os outros". Por isso os paralelos são tão evidentes entre o marxismo clássico - que nós conhecemos da antiga União Soviética - e o marxismo cultural - que nós vemos hoje como na forma do politicamente correto.

Mas os paralelos não são acidentais. Os paralelos não vieram do nada. O fato é que o politicamente correto tem uma história muito mais longa do que as pessoas pensam, exceto para um pequeno grupo de acadêmicos que têm estudado o assunto. E a história vai, como eu disse, de volta à Primeira Guerra Mundial, da mesma forma que tantas patologias que vêm destruindo nossa sociedade e, no fim, nossa cultura.

* * *

A teoria marxista dizia que quando a guerra generalizada na Europa chegasse (como aconteceu em 1914), a classe trabalhadora da Europa iria se levantar e derrubar seus respectivos governos – os governos burgueses – porque os trabalhadores tinham mais em comum com os seus pares de outros países do que com a burguesia e a classe dominante nos seus próprios países. Bem, 1914 chegou e isso não aconteceu. Por toda a Europa os trabalhadores agarraram-se às suas bandeiras nacionais e marcharam satisfeitos para lutar uns contra os outros. O Kaiser apertou as mãos dos social-democratas alemães e disse que naquele momento não havia partidos, só havia alemães. E isso aconteceu em cada país da Europa. Alguma coisa estava errada.

Os marxistas sabiam que, por definição, esse algo não poderia ser a teoria. E dois marxistas começaram a pensar nisso: Antonio Gramsci na Itália e Georg Lukacs na Hungria. Gramsci disse que os trabalhadores jamais iriam perceber os seus verdadeiros interesses de classe, como assim definidos pelo marxismo, até eles serem libertados da cultura ocidental, particularmente do Cristianismo, uma vez que todos eles estavam cegos pela religião e pela cultura aos seus reais interesses de classe. Lukacs, que foi considerado o teórico marxista mais brilhante desde o próprio Marx, perguntou-se, em 1919: "Quem irá nos salvar da cultura ocidental?" Ele também teorizou que o grande obstáculo à criação do paraíso marxista era a cultura e, por conseguinte, a própria civilização ocidental.

Lukacs teve a chance de pôr suas idéias em prática, porque quando o governo bolchevique Bela Kun tomou o poder na Hungria em 1919, ele tornou-se Comissário para a Cultura naquele país, sendo que seu primeiro ato foi introduzir a educação sexual nas escolas húngaras. A medida assegurou que os trabalhadores não apoiassem o governo, porque os húngaros a detestavam, tanto trabalhadores como qualquer um. Mas ele já tinha feito a conexão que hoje muitos de nós encaramos com surpresa, como uma coisa moderníssima.

* * *

Em 1923, na Alemanha, foi fundado um centro de estudos que tomou para si a tarefa de traduzir o marxismo de termos econômicos para culturais, o que criou o discurso politicamente correto que conhecemos hoje, tendo, portanto, suas bases assentadas essencialmente no fim da década de 1930. Isso foi possível por causa de Felix Weil, filho de um milionário comerciante alemão, que se tornou marxista e tinha um bocado de dinheiro para gastar. Contrariado com as divisões dentro das fileiras marxistas, Weil patrocinou a Primeira Semana de Trabalho Marxista, reunindo Lukacs e muitos outros importantes pensadores alemães para discutir sobre as diferenças do marxismo.

Então Weil decide que era preciso criar um think thank. Washington é cheia de think thanks, e nós pensamos que eles são novidades. Na verdade, eles existem há muito tempo. Weil subsidiou um instituto associado à Universidade de Frankfurt, fundado em 1923, que era originariamente para ser conhecido como o Instituto para o Marxismo. Mas as pessoas por trás dele decidiram logo no começo que não era do seu interesse serem identificados abertamente como marxistas. A última coisa que o politicamente correto quer é que as pessoas percebam que ele é uma forma de marxismo. Então eles decidiram chamá-lo de Instituto de Pesquisa Social.

Weil tinha muita clareza dos seus objetivos. Em 1971, quando o Instituto de Pesquisa Social rapidamente ficava conhecido informalmente, ele escreveu para Martin Jay - autor de um livro sobre os princípios da Escola de Frankfurt – dizendo: "Eu quero que o Instituto fique conhecido, talvez até famoso, em função de suas contribuições para o marxismo." Bem, ele teve o que queria. O primeiro diretor do Instituto, um economista austríaco chamado Carl Grunberg, finalizou seu discurso, de acordo com Martin Jay, "colocando de maneira clara sua convicção pessoal na metodologia científica do marxismo". Segundo ele, o marxismo seria o princípio norteador do Instituto, e isso jamais mudou.

Os trabalhos iniciais do Instituto eram convencionais, mas em 1930 assumiu um novo diretor chamado Marx Horkheimer, e as visões dele eram bem diferentes. Ele era definitivamente um marxista renegado. As pessoas que criaram e formaram a Escola de Frankfurt eram todos eles marxistas renegados. Eles eram ainda verdadeiramente marxistas no seu pensamento, mas tinham efetivamente saído do Partido. Moscou, observando o que eles faziam, diria algo como "Hei, isto não somos nós, não iremos apoiar uma coisa dessas."

A primeira heresia de Horkheimer é que ele era muito interessado em Freud, e a chave para que ele pudesse traduzir o marxismo de termos econômicos para termos culturais era essencialmente a sua combinação com o freudismo. Mais uma vez, Martin Jay escreve que "Se podemos afirmar que, no começo de sua história, o Instituto preocupava-se primeiramente com a subestrutura sócio-econômica da sociedade burguesa" – e eu observo que Jay é bastante simpático à Escola de Frankfurt, não estou citando um crítico a ela aqui –, "nos anos que se seguiram seus interesses iniciais eram por sua superestrutura cultural. De fato, a fórmula marxista tradicional, no que diz respeito à relação das duas, foi posta em questão pela Teoria Crítica."

Todas essas coisas da moda – feminismo radical, os departamentos de estudos das mulheres, dos gays, dos negros – todas elas são ramificações da Teoria Crítica. O que a Escola de Frankfurt faz essencialmente é usar tanto o marxismo quanto o freudismo nos anos 1930 para criar o que se conhece por Teoria Crítica. O termo é engenhoso porque você fica tentado a perguntar, "Do que se trata a teoria?" A teoria serve para criticar. A teoria é o caminho para destruir a cultura ocidental e não aceitar que o capitalismo seja uma alternativa. Seus teóricos explicitamente se recusam a aceitar essa hipótese. Eles afirmam que a alternativa capitalista não é válida, uma vez que não nos é dado imaginar como deve ser uma sociedade livre (a definição deles de sociedade livre). Dado que nós estamos sob repressão – a repressão da ordem capitalista que cria (na teoria deles) a patologia descrita por Freud da repressão individual – nós não podemos imaginá-la. A Teoria Crítica resume-se em simplesmente criticar. E isso pede a crítica mais destrutiva possível, em todas as possibilidades, projetada para destruir a ordem contemporânea. E, claro, quando ouvimos das feministas que toda a sociedade está contra as mulheres e assim por diante, esse tipo de crítica deriva da Teoria Crítica. Tudo vem dos anos 1930, não dos anos 1960.

Outros membros importantes que se juntaram ao time foi Teodoro Adorno e, especialmente, Erich Fromm e Herbert Marcuse. Fromm e Marcuse introduziram um elemento que é central no politicamente correto: o sexo; particularmente Marcuse, que em seus próprios escritos clamava por uma sociedade "polimorficamente perversa", a sua definição para a sociedade futura que desejava criar. Nos anos 1930, Marcuse escrevia coisas bastante extremadas sobre a necessidade de liberação sexual, mas essa acabou tornando-se uma bandeira de todo o Instituto. Mais uma vez, um dos principais temas do politicamente correto começou nos anos 1930. Na visão de Fromm, masculinidade e feminilidade não refletiam diferenças essenciais como os românticos tinham pensado. Na verdade, essas diferenças derivavam de funções da vida, que eram em parte socialmente determinadas. "Sexo é uma convenção; diferenças sexuais são convenções."

* * *

Outro exemplo é a ênfase que verificamos hoje no ecologismo. "Desde Hobbes, o materialismo levou a uma manipulação dominadora sobre a natureza". Este é Horkheimer escrevendo, em 1933, na obra Materialismus und Moral. "O tema da dominação do homem sobre a natureza", de acordo com Jay, "deveria tornar-se uma preocupação central da Escola de Frankfurt nos anos seguintes." "O antagonismo da fetichização do trabalho de Horkheimer (aqui ele está obviamente partindo da ortodoxia marxista) expressa outra dimensão do materialismo, da demanda pelo humano, pela felicidade sensual." Num dos seus mais profundos ensaios, Egoísmo e o Movimento para a Emancipação, escrito em 1936, Horkheimer "discute a hostilidade com relação à gratificação pessoal, inerente à cultura burguesa." E ele especificamente faz referência favorável ao Marquês de Sade, pelo seu "protesto... contra o ascetismo em nome de uma moral mais elevada."

Mas como as coisas chegaram nesse ponto? Como entraram nas nossas universidades e em nossas vidas? Os membros da Escola de Frankfurt são marxistas, mas também são judeus. Em 1933, os nazistas tomaram o poder na Alemanha e, naturalmente, fecharam o Instituto de Pesquisa Social. Os membros do Instituto deixaram o país. Eles foram para Nova York, onde o Instituto foi restabelecido com o suporte da Columbia University. E gradualmente os membros do Instituto, durante os anos 1930 – apesar de muitos deles ainda escreverem em alemão – mudaram o foco da Teoria Crítica sobre a sociedade alemã - o criticismo sobre cada aspecto daquela sociedade - para a sociedade americana. E houve outra importante transição quando chegou a guerra. Alguns deles foram trabalhar no governo, incluindo Herbert Marcuse, o qual se tornou figura chave na OSS (a precursora da CIA), e muitos outros, incluindo Horkheimer e Adorno, mudaram-se para Hollywood.

Essas origens do politicamente correto não significariam muito para nós hoje não fosse dois eventos subseqüentes. O primeiro foi a rebelião dos estudantes nos anos 1960, a qual se deu em grande parte pela resistência à convocação para as forças armadas e à Guerra do Vietnã. Mas os estudantes rebeldes precisavam de algum tipo de teoria. Eles não podiam simplesmente dizer: "Que se danem, nós não iremos"; eles precisavam de algum suporte teórico por trás disso. Poucos deles estavam interessados em se embrenhar na leitura de "O Capital". O marxismo econômico clássico não é nada leve, e a maioria dos radicais da década de ‘60 eram pouco profundos. Felizmente para eles, e infelizmente para nosso país como um todo – não só para a universidade – Herbert Marcuse permaneceu na América depois que a Escola de Frankfurt restabeleceu-se na Alemanha depois da Guerra. Na Alemanha, enquanto Adorno ficava estarrecido quando estourou a rebelião por lá – os estudantes invadiram a sala de aula de Adorno e ele chamou a polícia para prendê-los –, Herbert Marcuse, que permaneceu nos EUA, viu na revolta a grande chance. Ele percebeu a oportunidade de transformar os trabalhos da Escola de Frankfurt na teoria da New Left nos EUA.

Um dos livros de Marcuse foi essencial para o processo. Este livro transformou-se na bíblia do SDS (*) e dos estudantes rebeldes dos anos 1960. Em Eros e Civilização, Marcuse argumenta que sob a ordem capitalista (ele maquia fortemente o marxismo, o subtítulo é Uma Investigação Filosófica de Freud, mas o esqueleto é marxista) a repressão é a sua essência, e disso resulta na descrição freudiana: o indivíduo com todos os complexos e neuroses em função do desejo sexual reprimido. É possível enxergar um futuro - uma vez que se possa destruir a ordem repressiva vigente – no qual sendo Eros liberado, libera a libido, o que conduz ao mundo da "perversidade polimórfica" onde "cada um pode fazer o que quiser". Diga-se de passagem, nesse mundo não haverá mais trabalho, somente diversão. Que mensagem maravilhosa para os radicais dos anos 1960! Eles eram estudantes, eram baby-boomers, e estavam crescendo sem ter que se preocupar com nada, exceto em eventualmente arrumar um emprego. E aqui você tem um sujeito escrevendo umas coisas muito fáceis de serem seguidas. Ele não exige dos jovens densas leituras de marxismo e, principalmente, diz a eles as coisas que querem ouvir. "Faça o que quiser", "É gostoso fazer isso" e "Vocês nunca vão ter que trabalhar". Aliás, Marcuse foi o homem que inventou a frase "Faça amor, não faça a guerra." Voltando para o problema enfrentado nos campus, Marcuse define "tolerância libertadora" como intolerância para tudo que vem da direita e tolerância para qualquer coisa que venha da esquerda. Marcuse juntou-se à Escola de Frankfurt em 1932 (salvo engano). Mais uma vez, a coisa começou na década de ‘30.

Por fim, a América passa hoje pela maior e mais terrível transformação na sua história. Os EUA estão se transformando num Estado ideológico, num país com uma doutrina oficial apoiada pelo poder estatal. Há pessoas cumprindo pena por "crimes de ódio", ou seja, crimes políticos. E o Congresso movimenta-se no sentido de expandir essa categoria de crimes ainda mais. A ação afirmativa é parte disso. O terror contra qualquer um que discorde do ‘politicamente correto’ nas universidades é parte disso. Exatamente o que aconteceu na Rússia, na Alemanha, na Itália, na China, está ocorrendo aqui. E nós não percebemos porque nós chamamos isso de politicamente correto e nos rimos. Minha mensagem é que isso não tem graça nenhuma, está bem aqui, está crescendo, e eventualmente vai destruir – como deseja fazer, tudo o que nós sempre entendemos por nossa liberdade e nossa cultura.

Publicado por Academia.org

Tradução: Eduardo Ribeiro

(*) N. do T.: SDS é a Students for a Democratic Society, uma organização estudantil fundada em 1960 para promover a participação em assuntos governamentais (após o início da Guerra do Vietnã dedicou-se a protestar ativamente contra a guerra).

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Gramsci, fundador do PC italiano, teria se convertido antes de morrer

CIDADE DO VATICANO (AFP) - O filósofo Antonio Gramsci, fundador do Partido Comunista italiano, encontrou a fé antes de sua morte em 1937, afirmou nesta terça-feira um prelado do Vaticano, dando um caráter oficial a velhos rumores que circulam na Itália onde Gramsci goza de um grande prestígio intelectual e moral.Monsenhor Luigi De Magistris, 82 ans, ex-adjunto da Penitenciaria Apostólica (um tribunal do Vaticano encarregado dos problemas de consciência) fez o anúncio durante uma entrevista à imprensa de apresentação de um álbum consagrado a imagens piedosas.

Antonio Gramsci, marxista italiano nascido em 1891, passou os onze últimos anos de sua vida na prisão onde havia sido jogado pelo regime fascista de Mussolini. Tuberculoso e hipertenso, morreu de hemorragia cerebral em 27 avril 1937 numa clínica religiosa, seis dias após ter sido posto em liberdade.

Segundo Monsenhor De Magistris, o filósofo "tinha no quarto a imagem de santa Teresa do Menino Jesus", e durante os últimos dias da doença pediu aos religiosos "que lhe levassem a imagem do Menino Jesus" para que pudesse beijá-la.

"Gramsci recebeu os sacramentos ao morrer, quando retornou à fé de sua infância", afirmou o prelado.

Antonio Gramsci é uma grande figura intelectual italiana cuja influência ultrapassou as fronteiras de seu país. Uma de suas teorias mais conhecidas está relacionada ao papel dos intelectuais no mundo, que não se limita a produzir o discurso mas passa pela organização de práticas sociais.

O filósofo e ex-parlamentar comunista Beppe Vacca, presidente do Instituto Gramsci, rejeitou as revelações de Monsenhor De Magistris.

"Nenhum dos numerosos documentos editados e inéditos sobre as últimas horas de Antonio Gramsci não dá crédito à tese da conversão", declarou ele à agência Ansa.

As cinzas de Antonio Gramsci, que foi incinerado, repousam no "cemitério acatólico" de Roma, criado no século 19.

http://br.noticias.yahoo.com/s/afp/081125/mundo/it__lia_religi__o_hist__ria

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Um dia de marxista!

A Mídia e o Nordestino; Audiência e Preconceito

O Brasil é um país agraciado com uma rica heterogeneidade de pensamento, diversidade essa sustentada por um elo comum, um ethos que norteia a construção da compreensão que o brasileiro tem dele mesmo.


A Terra de Santa Cruz, diferentemente dos outros países da América Latina, não passou por um processo de dissolvimento da unidade nacional. Se opondo ao que ocorreu com as ex-colônias espanholas, a nação brasileira ganhou força e identidade justamente por nutrir seu peso interno através da manutenção da união entre as províncias que compunham o país. Desse modo, mesmo com uma miscelânea cultural, o Brasil pôde se firmar como uma nação que carregava em seu âmago uma diversidade cultural, econômica, étnica etc.

De fato, nunca se saberá até que ponto a unidade interna do país foi essencial para o fortalecimento do Brasil, a questão é que a experiência passada pelas colônias espanholas mostrou que a desfragmentação regional apenas possibilitou o nascimento de repúblicas instáveis e polvorosas.

De acordo com o historiador, jurista e sociólogo brasileiro, Francisco José de Oliveira Vianna, a unidade brasileira não surgiu naturalmente, reflexo de uma aspiração popular, ao contrário, foi um longo processo, duro e doloroso, que perpassou pelas enormes diferenças que distanciavam as províncias. Enquanto nas vizinhas colônias espanholas a divisão se tornou a saída para as desavenças culturais e políticas, no Brasil houve uma proposital luta em busca da comunhão interna:
Proclamada a independência da colônia, o pensamento dos homens, a que ia caber a formidável incumbência de organizar o governo nacional, já não podia ser o outro: a necessidade de manter a unidade política do país toma o primeiro lugar no plano das suas cogitações construtoras. Eles não têm diante de si uma vasta colônia a explorar(...) mas, uma pátria a organizar, uma nação a construir, um povo a governar e dirigir (...) um povo esfacelado em quase vinte partes autônomas, com pequeníssimas, se não nulas, relações de interdepen dência (...) o sentimento de uma pátria única não está ainda formado: as várias capitanias, que vão ser as futuras províncias, não se sentem membros de uma mesma família. (VIANNA, 1956)


Dentro de uma análise marxista ortodoxa, não houve uma mudança do modo de produção quando o eixo econômico se deslocou do Nordeste para o Sudeste. As características do trabalho evoluíram, saíram do processo manufatureiro para a produção industrial. Não obstante, as mesmas relações de produção, pautadas na opressão do trabalhador que, através do processo de alienação vê o produto do seu trabalho explorado pelos capitalistas, continuaram. Entretanto, é pertinente frisar, que a nova geografia econômica industrializada perpetuou os processos produtivos exploratórios e, ao se enxergar como a vanguarda nacional, estabeleceu um modelo discriminatório ao resto do país, com ênfase a região nordestina que, na visão desses homens, representava, mesmo que inconscientemente, um período de letargia e retrocesso no crescimento da economia brasileira.

Ademais, foi com a mudança no centro econômico, político e comercial do país que houve o boom tecnológico. Assim sendo, a tecnologia, vista por muitos sociológos como representação do modo de produção capitalista, “um instrumento de controle e dominação” (MARCUSE, 1999), reproduzindo o comportamento e os padrões da classe dominante, ao se concentrar historicamente no eixo Rio – São Paulo, desde a sua estruturação no Brasil, fincou as bases de uma visão preconceituosa em relação ao Nordeste. Essa região, em uma análise pessoal, é a “proletarização geográfica”, estados que personificariam a imagem do retrocesso.

A tecnologia, como modo de produção, como a totalidade dos instrumentos, dispositivos e invenções que caraterizam a era da máquina, é assim, ao mesmo tempo, uma forma de organizar e perpetuar (ou modificar) as relações sociais, uma manifestação do pensamento e dos padrões de comportamento dominantes, um instrumento de controle e dominação (MARCUSE, 1999)

O modelo midiático torna o eixo Rio – São Paulo representante da essência nacional. Por exemplo, o sotaque da Bahia carrega uma herança deveras tradicional, a própria pronúncia baiana do alfabeto é originada do português arcaico. Não obstante, mesmo com essa herança legítima nas raízes lusas, que de forma alguma é relevante já que a língua vive em constante metamorfose, sem isso não existiria filologia, essas regiões do país que, não por coincidência são as mais ricas, estabelecem um modelo de Brasil, língua e comportamento.

A Rede Globo de Televisão, através do programa Zorra Total, estimula e alimenta uma idéia de baianidade que, de forma alguma, condiz com a realidade. O personagem Bethânio do programa acima citado apenas incita uma idéia caricata e perversamente exagerada da Bahia. O que São Paulo e o Rio de Janeiro entendem por Nordeste se deve, em grande parte, a ação midiática que veicula um imagem da região invetada em estúdio. Em especial é a mídia que se deve a idéia, hoje aceita nacionalmente, que a região nordestina é homogênea, que os sotaques são os mesmos, que a cultura é igual. Entretanto, qualquer real conhecedor sabe que estados como Bahia, Pernambuco e Piauí têm diferenças lingüísticas, culturais e sociais bem claras. A construção de uma imagem caricata, debochada, humorística do nordestino, apenas continua um processo de depreciação dessa gente. De certa forma, esse círculo vicioso degringola no fortalecimento da imagem do “sudestino”, em especial do paulista, como sério, comprometido e trabalhador. Se na Bahia tudo é festa, carnaval e animação, em São Paulo anda a locomotiva do Brasil. Essa é a clara mensagem transmitida, mesmo que indiretamente.

A mídia, enquanto mais uma “superestrutura” (usando um termo muito caro para Marx), apenas corresponde a uma relação de produção que, juntamente com estruturas econômicas e jurídicas, determina as formas de consciência social.
Na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. (MARX, 1859)
Como foi exposto ao longo do texto, a discriminação tem um fundamento histórico, econômico e cultural. A transformação do Sudeste em centro do Brasil, seja através da mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro como pela transformação do processo produtivo manufatureiro, reinante no período de pujança do Nordeste, para a industrialização tardia concentrada em São Paulo, condicionou a mentalidade discriminatória. Os estados do norte-nordeste, largados a míngua, na nova periferia nacional, aqueles que outrora detinham o controle do país num período onde os estados do sudeste, tirando Minas Gerais, nem de perto imaginavam o futuro promissor que teriam, se viram sem capital, sem poupança, sem investimento, sem crescimento econômico; uma seqüencia necessária para qualquer progresso nacional.

O jeito alegre de viver do nordestino, como visto pelo Sudeste, não é uma mera estereotipização inocente. A idéia do baiano, por exemplo, preguiçoso, festeiro, carnavalesco, apenas alimenta o ideal de um nordeste letárgico, irresponsável, sem participação no desenvolvimento do país. Esse imaginário, como foi dito no texto, se origina no fato de que a concentração do poder econômico brasileiro, no eixo Rio – São Paulo, através do progresso tecnológico, fez dessa região a encarnação geográfica das elites dominantes, detentoras dos meios de produção. O NE, por sua vez, apenas vive o papel da região sofrida, falida e entregue a penúria, não por menos descrição que se encaixaria em qualquer estereótipo do trabalhador médio nacional no início do séc. XX. Desse modo, concluí-se, com precisão, que a região nordestina personificou em larga escala um preconceito pontual, uma discriminação inicialmente voltada ao povo que, conseqüentemente, se alastrou a toda região através de um processo de “simplificação” e “empobrecimento”, onde nove estados com diferenças culturais e lingüísticas, vitimas de um hermenêutica sociológica preconceituosa, passam a ser vistos como iguais.

A estereotipização midiática do nordestino carrega com ela algumas características bem peculiares; primeiro que ela tende a uniformizar, as enormes discrepâncias culturais, tradicionais, contidas na região são deixadas de lado em nome de uma análise reduzida e restrita a pontos que, em nada, representam a totalidade regional. Em segundo lugar essa interpretação estereotipada é essencialmente simplista, como qualquer rotulação. Desse modo se renega os séculos e séculos de história e desenvolvimento cultural do NE. Vale pontuar que essa estereotipização não necessariamente carrega um fundamento discriminatório proposital. Muitas pessoas adotam essa visão por ser ela amplamente difundida na grande mídia, entretanto, mesmo visivelmente não nutrindo obrigatoriamente o preconceito, essa rotulação é, em sua origem basilar, reflexo de uma ótica odiosa. Por fim, se faz pertinente lembrar, que esse estereótipo adota uma interpretação hiperbólica dos fatos, exagerando carnavalescamente pontos de fato existentes e, por sua vez, inventando outros que são inverídicos.

A discriminação do nordestino é fruto da soma de diversos fatores históricos, culturais, econômicos e políticos. Como foi exposto ao longo do texto, sem dúvida alguma a radical concentração do poderio econômico, comercial e tecnológico no sudeste instituiu um ideal discriminatório. O NE passou então a ser compreendido como o insucesso brasileiro, a pobreza e o atraso. Essas conclusões geográficas se uniram ao preconceito mirado no povo da região, visto como preguiçoso, lento, feio, no máximo alegre e expansivo, não obstante, esse ótica aparentemente positiva surgiu como antípoda da auto-compreensão que os habitantes do Sudeste tinham deles mesmos; os trabalhadores.

A mídia alimentou esse ideal, na verdade não se pode definir até que ponto essa visão preconceituosa e generalizadora é demérito total e completo da mass media. Os programas de TV, novelas, quadros humorísticos, estimularam o povo brasileiro a enxergar o Nordeste como uma região caricatural, além de simplificar a tão rica heterogeneidade presente nos diversos estados. O Nordeste da mídia não é, de fato, o Nordeste do fardo, um peso carregado pelo resto do Brasil, entretanto, não é o Nordeste historicamente relevante, culturalmente essencial e economicamente uma grande promessa (Salvador, Recife e Fortaleza já despontam como importantes capitais no cenário econômico nacional), para os meios de comunicação o Nordeste é apenas uma terra distante, com um povo festeiro e de fala estranha. Entretanto, tanto essa compreensão aparentemente inocente, quanto a do Nordeste letárgico, carregam, da mesma forma, o gérmen da discriminação.

Pedro Ravazzano
_____________________________________________________________

Viu como não é difícil reproduzir as velhas idéias marxistas?

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Subjetividade e Objetividade

Todas as questões que interferem no consumo, na capacidade de escolha dos indivíduos, perpassam, obrigatoriamente, pela subjetividade, já que ela é latente a existência e a condição humana. Viver é escolher, fazer julgamentos, selecionar caminhos. Esses desejos particulares não podem se resumir a equações e teoremas matemáticos, mas devem ser compreendidos como ações individuais motivadas pelos próprios interesses que maximizam o bem-estar da sociedade.

A matematização, ou melhor, a objetivização da economia, se iniciou com a Escola Marginalista; Walras, Menger* e Jevons, mas também foi impulsionada por Keynes e keynesianos, assim como Neoclássicos, Monetaristas. Desse modo, se inculcou na cabeça dos estudantes e pensadores da economia que todos os Liberais, tirando o estatólatra Keynes, são essencialmente matemáticos, e que as idéias de Equilíbrio, assim como a análise histórica e a excessiva metodologia quantitativa, muitas delas vistas como utópicas e ilusórias pelos críticos, são devaneios dos defensores do Livre-Mercado e do Estado minimo.

Aqui vale um adendo, Keynes, aluno do neoclássico Marshall, o defensor da teoria objetiva do valor (mesmo tentando sintetizar a idéia clássica do custo de produção com o princípio da utilidade marginal) e grande promotor do método analítico-matemático, colocou um verniz matemático, um formalismo exato, objetivo, "simplificante" (não se leia simplista), adotando um "jargão algébrico e geométrico", ou como diria Von Mises "simplesmente traduziu seus sofismas para a duvidosa linguagem da economia matemática" Exatamente! Keynes, como é de fácil constatação, produziu poucas equações, mas sua simples equações trazem simples relações como se os eventos fossem...simples, e na verdade são complexos, como a EA mostra ao se basear no individualismo metodológico, com a combinação das capacidades individuais movidas pela ação humana, diferentemente do Lord que, como disse Rothbard, "reduz os motivos subjetivos à organização econômica vigente, costumes, padrões de vida, etc., e os assume como dados (...) Keynes simplesmente afirma sem discussão que esse fator [mudanças futuras de renda que alteram o consumo individual, por exemplo] “acabará se homogeneizando na comunidade como um todo”." Enquanto austríacos levam em conta a relação entre os indivíduos, a praxeologia, a inerente ação humana como determinante no processo econômico, keynesianos, assim como monetaristas, só enxergam os agregados econômicos como a maneira mais confiante de se analisar as estruturas da economia.

Ainda vale lembrar que os Novos Clássicos, ao partirem da premissa de que a ação dos agentes econômicos se fundamenta numa racionalidade a ponto de criar uma expectativa (racional) sobre o desenvolvimento futuro da economia, quase com poderes premonitórios, extingue e lança para escanteio o caráter subjetivo tão relevante na compreensão do real funcionamento da economia, descartando o método dedutivo e apriorística da Escola Austríaca. As tais Expectativas Racionais, consolidadas por Robert Lucas foram, por sua vez, criticadas por Hayek. Realmente, os teóricos das expectativas racionais usam pontos iluminados pelo ilustre vienense, mas se distanciam completamente dele já que o economista austríaco argumenta que a eficiência dos mercados se encontra na descentralização e dispersão dos conhecimentos, enquanto os Novos Clássicos se pautam em previsões mecânicas a respeito do comportamento do individuo de forma totalmente racionalizada, excluindo o caráter subjetivo, inerente a escolha, assim como a criatividade dos agentes, as inovações, o empreendedorismo etc. De um lado a metodologia empírica, e com um ranço cientificista, dos monetaristas, do outro a lógica dedutiva dos austríacos.

Nesse ponto ele, Hayek, mostra sua herança miseana tão ardorosamente defensora da praxeologia, teoria geral da ação humana, que, entre outras coisas, argumenta que inexiste uma homogeneidade, constantes quantitativamente mensuráveis no comportamento do indivíduo, logo da sociedade, o que acaba também endossando a natureza subjetivista do equilíbrio, a clara antipatia austríaca pelo doentio estudo do equilíbrio (Von Mises e sua ferrenha crítica ao equilíbrio walrasiano), diferentemente da sadia valorização que fazem dos processos de tendência ao equilíbrio, ou seja, as tendências equilibrativas servindo como processo de descoberta dos empreendedores, como diria Kirzner! Retornando, a homogeneidade, tanto do conjunto de conhecimentos quanto dos conhecimentos dos agentes em relação a estrutura econômica, que inexiste em Hayek, é essencial na fundamentação do pensamento dos teóricos das expectativas racionais, os Novos Clássicos.

* O nome de Menger só aparece nessa relação por ter sido ele um dos marginalistas, de fato, seu peso na racional objetivização da economia foi muito pequeno, nulo, até porque suas mais valiosas heranças; a teoria da utilidade marginal e a subjetivização das escolhas individuais, foram essenciais para a estruturação do pensamento Liberal e o florescimento da Escola Austríaca com Von Mises, Hayek, Haberler, Kirzner, Rothbard etc.

domingo, 16 de novembro de 2008

Eloá: feminicídio ou cultura de morte?

Esta semana recebi por email um texto escrito por duas militantes feministas, uma bem famosa: Maria da Penha, sobre o caso Eloá. Neste texto as autoras tratavam a trágica morte desta jovem como um feminicídio, uma consequência da cultura machista etc.

Tentarei tecer algumas reflexões sobre o assunto nas linhas que se seguem.

É incrível como as pessoas não conseguem reconhecer na realidade as consequências de suas próprias ações. Tratar o caso Eloá como feminicídio é uma postura no mínimo pouco reflexiva.

O que a televisão nos mostrou por 100 horas foi um resumo da cultura de morte instalada em nossa sociedade. Foi uma das faces da idade de trevas em que vivemos, como nos mostra o filme "A era da inocência" cujo nome original em francês é: L'Âge des ténèbres. E aqui não podemos deixar de dizer que a ideologia feminista tem uma colaboração considerável. Basta olharmos como elas defendem o infanticídio através da discriminalização do aborto, como elas se unem a Nietzche para decretarem a morte de Deus através da perseguição às religiões, sobretudo à Igreja Católica.

Este desastre que assistimos é a consequência de um mundo que se afasta Daquele que dá à vida um sentido e um destino. Como nos ensina Santo Irineu "A glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem é a visão de Deus". Qual seria então o destino daqueles que desejam ofuscar a glória de Deus, senão a morte?

O que vemos neste caso, mais do que vítimas e agressores, mais do que um "crime do patriarcado" é uma sociedade inteira vitimizada por uma cultura que quer matar os nascituros, os inválidos, os anencéfalos, os idosos. E porque este desprezo pela vida? A resposta não pode ser outra senão o fato de estarmos privando o homem daquilo que é próprio da sua natureza: a relação direta com Deus, a sede de infinito. Todas as vezes na história em que esta característica humana foi desprezada a consequência foi a morte. Só o comunismo matou em 80 anos 105 milhões, o nazismo matou 6 milhões.

Na Austrália, onde a ideologia feminista, usando da mentira, conseguiu discriminalizar o aborto, morrem por ano cerca de 100 mil crianças, 50% delas do sexo feminino, por conta da "free choice" (livre escolha) de suas mães. Isso sim é um feminicídio... Agora eu faço uma pergunta a Maria da Penha e Maria Dolores? Em uma sociedade que dá à mãe o direito de matar os seus filhos o que impediria um jovem de matar a namorada? O que impediria um pai e uma madrasta de jogarem uma criança pela janela?

Entretanto, não podemos nos conformar com o estado das coisas; como nos ensina São Paulo, cuja vida recordamos neste ano, não podemos nos conformar com este mundo, mas sim transformar-nos pela renovação do nosso espírito para podermos discernir o que é bom (cf. Rm 12,2). Existe um caminho a percorrer e é o AMOR. Só ele é capaz de vencer a morte.

sábado, 15 de novembro de 2008

Zumbi era dono de escravos

O enigma de Zumbi

Estudos recentes sobre o herói da luta contra a escravidão mostram que ele próprio pode ter sido dono de escravos no quilombo dos Palmares


Leandro Narloch

Na próxima quinta-feira, 262 cidades brasileiras comemoram o Dia da Consciência Negra, data que evoca a morte de Zumbi dos Palmares. Último líder do maior dos quilombos, os povoados formados por negros fugidos do cativeiro no Brasil colonial, Zumbi foi morto em 20 de novembro de 1695, quase dois anos depois de as tropas do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho praticamente destruírem Palmares. Ao longo dos séculos, Zumbi se tornou uma figura mítica, festejado como o herói da luta contra a escravidão. O que realmente se sabe dele, como personagem histórico, é muito pouco. Seu nome aparece apenas em oito documentos da época, incluindo uma carta do governador de Pernambuco anunciando sua morte. Como ocorre com Tiradentes e outros heróis históricos que servem à celebração de uma causa, a figura de Zumbi que passou à posteridade é idealizada. Ao longo do século XX, principalmente nos anos 60 e 70, sob influência do pensamento marxista, Palmares foi retratada por muitos historiadores como uma sociedade igualitária, com uso livre da terra e poder de decisão compartilhado entre os habitantes dos povoados. Uma série de pesquisas elaboradas nos últimos anos mostra que a história de Zumbi e do quilombo dos Palmares ensinada nos livros didáticos tem muitas distorções. Muito do que se conta sobre sua atuação à frente do quilombo é incompatível com as circunstâncias históricas da época. O objetivo desses estudos não é colocar em xeque a figura simbólica de Zumbi, mas traçar um quadro realista, documentado, do homem e de seu tempo.

Biblioteca Nacional

Idéia exótica Negro retratado no Brasil do século XVII pelo pintor holandês Albert Eckhout: na época, o conceito de igualdade entre os homens não existia na África

Os novos estudos sobre Palmares concluem que o quilombo, situado onde hoje é o estado de Alagoas, não era um paraíso de liberdade, não lutava contra o sistema de escravidão nem era tão isolado da sociedade colonial quanto se pensava. O retrato que emerge de Zumbi é o de um rei guerreiro que, como muitos líderes africanos do século XVII, tinha um séquito de escravos para uso próprio. "É uma mistificação dizer que havia igualdade em Palmares", afirma o historiador Ronaldo Vainfas, professor da Universidade Federal Fluminense e autor do Dicionário do Brasil Colonial. "Zumbi e os grandes generais do quilombo lutavam contra a escravidão de si próprios, mas também possuíam escravos", ele completa. Não faz muito sentido falar em igualdade e liberdade numa sociedade do século XVII porque, nessa época, esses conceitos não estavam consolidados entre os europeus. Nas culturas africanas, eram impensáveis. Desde a Antiguidade e principalmente depois da conquista árabe no norte da África, a partir do século VII, os africanos vendiam escravos em grandes caravanas que cruzavam o Deserto do Saara. Na época de Zumbi, a região do Congo e de Angola, de onde veio a maioria dos escravos de Palmares, tinha reis venerados como se fossem divinos. Muitos desses monarcas se aliavam aos portugueses e enriqueciam com a venda de súditos destinados à escravidão.

"Não se sabe a proporção de escravos que serviam os quilombolas, mas é muito natural que eles tenham existido, já que a escravidão era um costume fortíssimo na cultura da África", diz o historiador carioca Manolo Florentino, autor do livro Em Costas Negras, uma das primeiras obras a analisar a história do Brasil com base nos costumes africanos. Zumbi, segundo os novos estudos sobre Palmares, seria descendente de uma classe de guerreiros africanos que ora ajudava os portugueses na captura de escravos, ora os combatia. Quando enviados ao Brasil como escravos, os nobres africanos freqüentemente formavam sociedades próprias – uma delas pode ter sido Palmares. Para chegar a esse novo retrato de Zumbi e do quilombo, os historiadores analisaram as revoltas escravas partindo de modelos parecidos que ocorreram em outros lugares da América e da África. Também voltaram às cartas, relatos e documentos da época, mostrando como cada historiografia montou o quilombo que queria.

Reprodução/Biblioteca Nacional e Museu Paulista

A caça e o caçador Zumbi e o bandeirante Domingos Jorge Velho, que destruiu Palmares: a escassez de documentos favoreceu versões romantizadas de como era a vida no quilombo

O principal historiador a reinterpretar o que ocorreu nos quilombos é o carioca Flávio dos Santos Gomes. Ele escreve no livro Histórias de Quilombolas: "Ao contrário de muitos estudos dos anos 1960 e 1970, as investigações mais recentes procuraram se aproximar do diálogo com a literatura internacional sobre o tema, ressaltando reflexões sobre cultura, família e protesto escravo no Caribe e no sul dos Estados Unidos". Atendo-se às fontes primárias e ao modo de pensar da época, os historiadores agora podem garimpar os mitos de Palmares que foram construídos no século XX.

O novo quilombo dos Palmares

Estudos recentes mudam a visão que predominou
no século XX sobre os povoados

O que se pensava
• O quilombo era uma sociedade igualitária, com uso livre da terra e poder de decisão compartilhado
• Zumbi lutava contra a escravidão
• Zumbi foi criado por um padre, recebeu o nome de Francisco e aprendeu latim
• Ganga-Zumba, líder que antecedeu Zumbi, traiu o quilombo ao fechar acordo com os portugueses

O que se pensa hoje
• Havia em Palmares uma hierarquia, com servos e reis tão poderosos quanto os da África
• Zumbi e outros chefes tinham seus próprios escravos
• As cartas em que um padre daria detalhes da infância de Zumbi provavelmente foram forjadas
• Ao romper o acordo com Portugal, Zumbi pode ter precipitado a destruição do quilombo

http://veja.abril.com.br/191108/p_108.shtml

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Extrato de uma conversa filosófica

"Evidentemente, estas considerações não valem para a lógica aristotélico-escolástica, que não é um "mecanismo de representação", nem uma função específica das estruturas lingüísticas (como queria um R.Carnap, por exemplo). Reduzi-la a algo assim é retirar dela a sua própria essência. A lógica em Aristóteles enuncia as leis de encadeamento dos princípios supremos da realidade, os quais são por sua vez apreendidos pela intuição intelectual. Ora, a possibilidade de se dizer algo do mundo que efetivamente saia da esfera das representações subjetivas ou da mecânica da linguagem, desaparece quando cortamos o laço entre pensamento e mundo, entre alma e realidade exterior.

Decerto, este afastamento dos dois polos não foi mera obra do acaso histórico, mas tem uma bem traçada linha de desenvolvimento, cuja culminância e cintilação mais vultuosa nós hoje assistimos. Os espíritos conventuais, ainda apegados à tradição, recuam horrorizados ante a idéia de esposar esta dualidade trágica. A certeza lógica e ontológica em Aristóteles provêm da estrita homologia que é possível estabelecer entre pensamento e mundo. Sem esta homologia, a lógica nada nos diz sobre o real, mas apenas sobre as condições do discurso possível acerca do real.

Em Aristóteles, interior e exterior, mundo e discurso se interpenetram e se resolvem da unidade de uns quantos princípios comuns - eis aí a raiz e a possibilidade mesma do conhecimento, uma possibilidade que Kant não percebeu quando, movido pelo afã de tudo reduzir às representações do sujeito, esvaziou a lógica do seu alcance ontológico e com isso abriu a possibilidade para a queda no formalismo puro da lógica moderna - instrumento maravilhoso, que faríamos bem em conservar abdicando dos pressupostos epistemológicos que lhe servem de base. Mas, mesmo sem entrar em toda esta controvérsia, ainda assim você não estaria mais respaldado para concluir, como você conclui, que a validade da lógica reduz-se a uma espécie de "legitimidade" socialmente condicionada.

Ora, isto é confundir dois planos distintos. Uma coisa é falar acerca das condições históricas que tornaram este ou aquele método de conhecimento preponderante numa determinada época ou cultura. Outra, bem diferente, é especular sobre a validade de um saber considerado em sua estrutura interna. Quando dizemos que um silogismo é válido, estamos nos referindo a uma ordem de realidade que não depende em nada das "convenções" sociais ou das suposições de qualquer indivíduo, mas que depende da apreensão de certos princípios universais, que podem estar na realidade, no entendimento puro ou nas estruturas linguísticas do gênero humano. Em suma, seja derivada da natureza das coisas, seja derivada de estruturas maiores comuns a todo homem, a legitimidade da lógica não é "convencionada" arbitrariamente.

O racionalismo mitigado de Kant não entra em questão, pois ele de fato não criticou a razão em si mesma, o que seria uma pura e simples impossibilidade de acordo com o seu método. Ele criticou certas pretensões filosóficas que levavam a razão a enredar-se em controvérsias irresolvíveis. Conforme estudos mais recentes no kantismo, o que Kant propunha era uma espécie de semântica transcendental, na qual certas perguntas seriam recusadas in limine: ao notar que as questões metafísicas mais apaixonantes eram questões "sem objeto" - pois apoiavam-se em proposições sem sentido - o que Kant faz não é impor limites à razão ou coisa do tipo, mas tão só discriminar entre as questões que realmente fazem "sentido", as questões cujo objeto pode ser dado na representação, e as que não fazem. Naturalmente, a imagem que você me sugere ao falar desta crítica da lógica através da lógica, é sumamente paradoxal, mas correta. Lembra uma imagem de um filósofo analítico, não me recordo quem foi agora... Ele dizia que a epistemologia assemelhava-se a tentativa de desarmar e reconstruir um barco enquanto se está navegando.

A arte não pode demonstrar coisa alguma. Na arte não existem os mecanismos para se passar da irresolução de uma idéia à sua certeza apodítica. A arte é por essência um meio de "apreensão" - nisto você está certíssimo. Mas, se ela apreende algo - uma impressão exteriorizada, vamos supor - é precisamente porque sua natureza lhe indica a função de captar certas realidades e não de demonstrá-las. Demonstrar é revelar a necessidade de algo ser exatamente o que é. Assim, demonstramos que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa quando, por certos mecanismos apropriados, o entendimento é levado a tomar a conclusão como necessária. No entanto, se a arte nos permite captar certas realidades, estas realidades podem, evidentemente, ser diferentes do que são. Nada há nestas realidades artísticas, e na sensação de beleza que elas nos provocam, de "demonstrável", quanto mais de "demonstrado".

Mas esta é uma mudança ociosa. A distinção entre demonstração e apreensão, entre a certeza lógica e a impressão, a certeza que a arte nos provoca - uma "certeza", cum grano salis - corresponde a uma adequada diferenciação de processos de conhecimento. No caso, o excesso logicista estaria em desprezar a apreensão artística como forma de conhecimento, em considerá-la uma forma menor de saber, quando na realidade ambas as coisas, lógica e arte, são as duas faces de Jano: a arte enquadra-nos numa perspectiva simbólica, quando nos fornece certas experiências interiores sem as quais estaríamos confinados permanentemente na baixa animalidade; ao fazê-lo, a arte nos dá uma imagem em miniatura de um "mundo possível" e, portanto, nos estende um horizonte de possibilidades anímicas e sensitivas.

O acúmulo de impressões variadas desta mesma ordem se traduz no aumento progressivo da capacidade de estruturas sub-realidades com as quais, imaginativamente, reproduzimos a estrutura de um mundo possível, cujas leis sempre serão o reflexo, ainda que retorcido, das leis do nosso próprio mundo (leia-se aí o conceito da mímese aristotélica). Ora, projetar imaginativamente modelos estruturais de realidade é uma atividade artística comum à ciência, com a diferença que na ciência busca-se o real com tais modelos, enquanto que o domínio da arte é o domínio do possível. Se a arte situa-se no domínio do possível, então é um contra-senso falar em "demonstração", pois o sentido mais óbvio do termo "demonstrar", é: mostrar algo como não podendo ser senão o que é demonstrado. Daí a pertinência da distinção: a atividade científica supõe outras condições que não estão presentes na arte, as quais constituem os requisitos particulares e diferenciadores dessa atividade."

terça-feira, 11 de novembro de 2008

René Guénon e a Unidade Metafísica das Tradições I

A obra de René Guénon se constitui no exemplo mais perfeito de intelectualidade espiritual no Ocidente do século XX. Este juízo grandiloquente dificilmente poderia ser contestado por quem lesse a totalidade dos 27 volumes saídos da lavra do ilustre autor.

Francês de nascimento, tendo sido educado por família católica devota, Guénon desde cedo mostrou aptidões notáveis para as matemáticas. Mais tarde, quando afastado do estudo das disciplinas lógicas a que era afeiçoado e dedicando-se por completo a exposição das doutrinas tradicionais, este caráter matemático do seu espírito revelar-se-ia no estilo escolástico e complexo dos seus escritos.

Este estilo, naturalmente, tem um encanto ambíguo. Pode afastar leitores menos afeitos a intrincadas distinções e ao mesmo tempo seduzir aqueles que, a despeito das dificuldades encontradas, buscam uma fonte extremamente precisa de dados tradicionais. Pois de fato o intuito de Guénon não foi jamais destacar-se por sua originalidade, muito menos atiçar a sensibilidade de seus leitores com belas metáforas e floreados estilísticos. O rigor matemático da exposição, aliada a erudição invejável mas nunca louvada como fim em si, recomenda Guénon como o expositor por excelência da Sophia Perennis.

Por Sophia Perennis entende-se o núcleo metafísico das tradições cuja unidade essencial se atesta precisamente pela convergência neste plano: apenas no plano da Sophia Perenis pode haver identidade das tradições. Malgrado as diferenças de ritos, moral, dogmas e outras diferenças de forma, a concepção metafísica da Realidade deve necessariamente ser compartilhada pelas religiões. No plano dos princípios supremos e universais não pode haver distinção entre as várias formas tradicionais. Todas as tradições, por exemplo, seja sob véus de mitologias politeístas, seja afirmando um monoteísmo irredutível, compreendem a realidade como sendo, em última instancia, unitotalidade espiritual. A impossibilidade de um dualismo metafísico incontornável é um daqueles pontos nos quais a unidade metafísica das tradições mostra-se mais facilmente visível.

Do mesmo modo, a convergência manifesta-se quanto ao aspecto operativo dos métodos ascéticos empregados pelas distintas tradições. Existem técnicas de ascese que tem rigorosamente seus similares em diversas tradições conhecidas. Um dos métodos de iluminação mais difundidos é a repetição de um nome sagrado. Encontramos a técnica entre os místicos cristãos, em especial São Bernardino de Siena famoso por suas jaculatórias inspiradas e pelas pregações recomendando a eficácia deste método. Entre os cristãos ortodoxos lembramos a tradicional repetição do nome de Jesus, um dos métodos centrais da ascese do monte athos. Na mesma linha, o budismo Sukhavati (Terra Pura) centraliza sua devoção em torno da repetição do nome do Buda, enquando o hinduísmo traz a mesma técnica no japa yoga.

Este é apenas um exemplo entre tantos outros que podiam ser citados. O prof. W. Perry forneceu uma extensa lista de semelhanças deste tipo no seu livro Treasures of Traditional Wisdom. Em contrapartida, as diferenças entre os métodos explicam-se por caraterísticas específicas a cada tradição. Assim, nas tradições iconodúlicas[1] há uma veneranda transmissão de práticas vinculadas à contemplação dos ícones, cujo caráter sacramental é incontestável[2]; ao contrário, as religiões iconoclastas dispensaram todo aparato figurativo para a contemplação. Analogamente, enquanto o zen coloca todo o acento da sua prática nos koans e no zazen, o budismo tibetano traz os upayas e as recitações salmodiadas dos mantras unem-se a uma liturgia na qual os movimentos e os mudras (gestos simbólicos) são imprescindíveis e tradicionais.

Basta-nos dizer que as semelhanças dificilmente poderiam ser atribuídas a influências históricas recíprocas entre estas civilizações, uma vez que os métodos em questão se apresentam desde épocas remotas nas quais não havia contato registrado entre algumas destas civilizações.

A semelhança repousa, em realidade, na eficácia objetiva destes métodos espirituais. Isto significa que, ao contrário das hipóteses subjetivistas e relativistas que grassam na modernidade, as tradições têm um componente objetivo inequívoco. Este componente reside nos princípios metafísicos supremos os quais se refletem na adequação de certos métodos cuja prática servirá para alcançar a religação com a Fonte divina, seja esta religação concebida como Identidade Suprema com o Princípio (at-tawhid, yoga) ou estado Absoluto e Incondicionado (nirvana, sahaja nirvikalpa samadhi), seja a meta mais modesta dos exoterismos de matriz abraâmica: a felicidade imaculada num reino de bem-aventurança celestial.
__________________________________

[1] O termo iconodúlico foi introduzido na literatura especializada ao que consta pela primeira vez pelo prof. William Stodart. Iconodúlica é uma tradição na qual os ícones são objeto de veneração.

[2] Um velho costume dos artistas ortodoxos do medievo indica significativamente o caráter sacramental dos ícones. Misturava-se na tinta em que eram pintados os ícones um pouco do pó das relíquias. Em outro contexto, e num plano menos material, por assim dizer, os textos de arte hindús salientam a necessidade do artista em dedicar-se à disciplina espirtual e à dhyana (contemplação).

Ricardo Almeida

domingo, 9 de novembro de 2008

Lula Hamlet, e a Democracia na Venezuela

Ato 1 - Cena 1

"Eu não sei se a América Latina teve um presidente com as experiências democráticas colocadas em prática na Venezuela", disse Lula, ao comentar que ninguém poderia acusar a Venezuela de não ter democracia. "Poder-se-ia até dizer que tem em excesso". (29/09/2005 )

Ato 1 - Cena 2

"Se permitirem que a oligarquia volte ao governo (de Carabobo), vou acabar mandando os tanques da brigada blindada para defender o governo revolucionário e para defender o povo",afirmou Chávez ao lado do candidato oficial do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) em um comício nesse estado. ( 09/11/2008 )

Ato 1 - Cena 3

Dom Luizinácio I entra no Cemitério. Bate um papo animado com Marco Aurélio Garcia. O coveiro lhe apresenta um crânio.

LUIZINÁCIO: De quem era este?
PRIMEIRO COVEIRO: Da mais extravagante louca que já se viu. Quem pensais que ele fosse?
LUIZINÁCIO: Não posso sabê-lo.
PRIMEIRO COVEIRO: Para o diabo com sua loucura! Esse crânio aí, senhor, esse crânio ai, senhor, era o crânio de Democracia, a boba da corte do Coronel.
LUIZINÁCIO: Este?
PRIMEIRO COVEIRO: Precisamente.
LUIZINÁCIO: Deixe-me ver (pega o crânio). Olá, pobre Democracia! Eu a conheci, Marco. Uma moça de infinita graça, de espantosa fantasia. Mil vezes me carregou nas costas. E agora, como me atemoriza a imaginação! Sinto engulhos. Era aqui que se encontravam os lábios que eu beijei não sei quantas vezes. Onde estão agora os chistes, as cabriolas, as canções, os rasgos de alegria que faziam explodir a mesa em gargalhadas? Não sobrou uma eleição, um plebiscito, ou um jornal livre ao menos, para rir de tua própria careta? Tudo descarnado!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O Marxismo e a Religião: Exemplos Práticos

O marxismo por onde passou deixou destruição e chagas muitas vezes irreversíveis. A China, desde os primórdios da revolução, vive uma realidade dura e cruel onde a liberdade é perseguida e, junto com ela, as religiões, com mais força o cristianismo que tão naturalmente estimula e incita a luta dos homens contra o totalitarismo, em defesa da real vivência dos ideais Verdadeiros. Já a Venezuela sofre com a força de um governo que persegue e manipula a sociedade, um Estado que lança mão da sua máquina para gerir os movimentos e controlar a opinião pública. A religião não fica de fora. As Igrejas são alvos de ataques jurídicos e até policiais, tudo para reduzir a influência da mensagem cristã junto ao povo venezuelano. Para isso, Chávez propaga, aliado aos teólogos da libertação, o relativismo e modernismo, tão eficientes na destruição do senso religioso e da honestidade lógica do homem. Nada disso espanta a qualquer pessoa que conheça o marxismo e sua relação com a religião, desde Marx e sua ortodoxia até as novas tendências modernas.

Marx disse; "Se conheço a religião como autoconsciência humana alienada, a minha autoconsciência não é confirmada na religião, mas na abolição e superação da religião." [1] Como pontuei em outro texto, para ele a religião é simplesmente um elemento do mundo da ideologia, conseqüência da atividade da consciência dos homens na história. Logo não tem consistência própria, existência real, não tem essência, é apenas um produto histórico, o reflexo de um modo de produção. A essência da religião não se encontra nela, mas no mundo material dos homens. Por fim, a Revolução, que para ele é o rompimento, o alvorecer do Novo Homem, impede a alimentação da religião através da alienação. Não obstante, a união da religião com o marxismo ocorre justamente no ideal da redenção revolucionária, mesmo isso colocando o sacrifício de Cristo na Cruz, a única e verdadeira redenção para os cristãos, em total segundo plano. Qual seria o papel da Igreja então? Ela se tornaria um instrumento da luta de classes, e sua tomada por ideais marxistas, por se tratar de uma “superestrutura” que produz discurso e desenvolve a cultura e o pensamento, a transformaria na principal promotora da revolução cultural. Gramsci e Lukács entrariam em êxtase.

Marx ainda vai além ao dizer:
Quanto mais o trabalhador se desgasta no trabalho, mais poderoso se torna o mundo de objetos por ele criado em face dele mesmo, tanto mais pobre se torna a sua vida interior, e tanto menos ele pertence a si próprio. Quanto mais de si mesmo o homem atribui a Deus, tanto menos lhe resta. [2]
Ainda afirma:
Tal como na religião, onde a atividade espontânea da fantasia do cérebro e do coração humanos reage independentemente como uma atividade alheia de deuses ou demônios sobre o indivíduo, assim também a atividade do trabalhador não é sua própria atividade espontânea. É atividade de outrem e uma perda de sua própria espontaneidade. [3]
Percebe-se claramente que Marx relaciona a religião como mais um fator de alienação, ou seja, quando o resultado do trabalho do homem, que é determinante na definição dos valores dos bens, o objeto produzido, se torna alheio ao próprio homem, gozando de identidade própria. O produto do trabalho se volta contra o seu criador, o trabalhador, de forma hostil. A religião, por sua vez, é, para o filósofo alemão, mais um fator de esvaziamento do homem, distanciando de sua essência humana. Da mesma forma que a alienação econômica, a religiosa cria um produto com identidade estabelecida; Deus, que sacrifica o próprio homem. Ou seja, Deus, produto da fantasia do homem, invade e se torna dono do seu criador, o escravizando, o submetendo a um mundo de privações e pesares. Vale lembrar que para Marx a religião ainda é mais um artificio de dominação de classes, um produto histórico que surgiu para alienar e impossibilitar o rompimento das classes proletárias aos grilhões da exploração. Para Marx, de forma resumida, nas palavras de Giuseppe Staccone, “Deus é para o homem o que a mercadoria é para o trabalhador: um produto que passa a dominar o produtor.” [4]

Vejam que desde já fica clara a impossibilidade de conciliação entre o marxismo e a religião, em especial o cristianismo. Não obstante, desde a maturação do ideal da revolução cultural, se estabeleceu uma nova forma de relação dos ideais materialistas histórico-dialéticos com a fé, em especial devido a ação da psicologização do marxismo através da Escola de Frankfurt, e o fortalecimento da ideologização por meio de métodos mostrados por Gramsci e, posteriormente, por Lukács.

Gramsci percebeu a necessidade de uma revolução cultural por meio da qual se destruiria os velhos paradigmas de forma silenciosa, preparando o terreno para o advento do socialismo, não mais com armas, mas uma conseqüência quase imediata das radicais transformações sociais. Essa subversão do centro de valores, a destruição do ethos tradicional da civilização ocidental, passou a ser vista como o ponto determinante. Lukács, posteriormente, percebeu que os pilares mais sólidos, sobre os quais se erguera o Ocidente, eram o direito romano, a filosofia grega e, sustentando os primeiros, a moral cristã. Justamente dessa compreensão, muito sábia, devemos reconhecer, nasceu a necessidade de renovação dos métodos marxistas ortodoxos. Não mais uma veemente condenação e rechaço à religião, mas sim a conversão da fé em instrumento de propagação do ideal revolucionário. A Igreja, por exemplo, por ser uma construtora de discurso e pensamento, assim como baluarte da cultura, ao virar meio de difusão da luta de classes faz com que toda a sua potencialização contra-revolucionária seja revertida, com a mesma ênfase, em farol da destruição das bases fundamentais do homem ocidental. Desse modo, de forma resumida, podemos dizer que se entendeu que a derrubada das “superestruturas” poderia ser substituída pela tomada silenciosa das “superestruturas”. Estas, por sua vez, são definidas por Marx desse modo:
Na produção social da sua existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes da sua vontade; essas relações de produção correspondem a um grau de desenvolvimento dado as suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. [5]
Contextualizando nossa abordagem, podemos comparar a aplicação desses métodos distintos com o que hoje vemos na China e na Venezuela. A China não conheceu os princípios de Liberdade e Democracia, nem tinha em sua essência basilar o espírito cristão, tão determinante no fracasso dos ideais socialistas. Desse modo não fica difícil perceber que a aplicação da ortodoxia marxista em relação a religião não foi problemática num país agrário, com pouco desenvolvimento econômico e social, com religiões distantes de uma conscientização política fruto do amadurecimento doutrinal e histórico. A Igreja Católica na China, muito diminuta, não era um obstáculo ideológico a ponto de ser determinante em um possível fracasso comunista. Desse modo, sem um espírito contra-revolucionário intrínseco a formação social, o Estado marxista lançou mão de sua força totalitária para perseguir e reprimir todos aqueles que pudessem subverter a nova ordem, incluindo instituições. Mesmo o cristianismo sendo pouco presente em terras chinesas, as Igrejas em seu solo poderiam servir como canais de propulsão de um ideal de liberdade e fé, uma combinação muito explosivo para os comunistas. As Igrejas não precisavam do apoio dos países capitalistas ocidentais para que fossem justificadas as perseguições pelo regime, o simples fato de ensinar o Evangelho, que carrega no seu âmago uma mensagem de esperança, tornaria a presença de Cristo perigosa.

O governo chinês, de forma estratégica, percebeu que aliciando, aproximando a Igreja do regime, fazendo com que necessitasse do Estado para manter sua vida apostólica, enfim, criando um vinculo muito estreito com o poder político, poderia controlar e gerenciar os passos do clero, fazendo com que perdesse força e influência, o que, naturalmente, acarretaria a diminuição dos fiéis e a extinção da Igreja. Para tanto foi desenvolvida a “Tríplice Autonomia”, que afirmava que a Igreja na China deveria gozar de total “autonomia” perante as outras nações a tudo que envolvesse a evangelização, custeamento e coordenação. Com isso foi exigido relatórios mensais com o discernimento das contribuições recebidas e, posteriormente, foi proibido por lei qualquer contato com outras nações, endossando juridicamente a expulsão de religiosos estrangeiros. Desse modo se cortava toda a relação da Igreja chinesa com o mundo, fazendo dela uma presa fácil ao poderio do Estado, assim como fechando as torneiras que alimentavam e subsidiavam os trabalhos missionários no país.

Alguém pode se perguntar; por que todo o clero se submeteu ao poder do Estado chinês? Não, um grupo de religiosos e fiéis se manteve integro e devoto da ortodoxia católica, esses sofreram com as acusações de serem servos do capitalismo e do imperialismo, sofreram com as perseguições, martírios, prisões, torturas, confisco de bens, destruição de igrejas e mosteiros etc. Outro grupo, composto por homens e mulheres que se aliaram ao governo, enxergando nessa aliança a única forma de professar sua fé, mesmo que fosse as custas da corrupção da doutrina, acabou gerando o que se chama Igreja Patriótica. Eles sucumbiram depois que viram as enormes impossibilidades impostas pelo governo aos católicos ligados a Roma. Trocaram a fidelidade por uma falsa liberdade. A "Associação patriótica dos católicos chineses" nasceu fundamentada na estreita ligação com o partido comunista chinês a ponto de permitir nas suas normas as orientações e nomeações do PCC. Além disso tem como obrigação estatutária fazer com que a Igreja Católica marche rumo ao futuro socialista e goza, em Direito, de independência, autonomia e autogestão, ou seja, sem interferência da Santa Sé.

Não obstante, na Igreja patriótica existe uma busca pelo reconhecimento de Roma, um sentimento muito sincero e puro. Os fiéis e o clero tentam retornar a plena comunhão com a Santa Sé. Interessante é o esforço para validar canonicamente os Bispos patrióticos; quando o Estado seleciona os nomes para as dioceses eles são enviados secretamente a Roma e, posteriormente, são estudados e escolhidos pelo Papa que os reenvia a China. Só aparecem para a ordenação aqueles que tiveram a autorização do Santo Padre. Eles sabem que ordenação sem aval do Sumo Pontífice incide em excomunhão automática (como ocorreu com Lefevbre).

A situação da igreja patriótica, hoje, não é melhor do que a das catacumbas, a verdadeira Igreja Católica da China. Na época da revolução cultural ambas foram proibidas e tiveram seus bens confiscados. Os Bispos e padres eleitos e ordenados, apenas com a permissão do Estado, sabem da triste situação em que se encontram, ainda sofrem porque os religiosos ordenados licitamente não concelebram com eles e os fiéis não aceitam seus sacramentos. Cardeal Zen, Arcebispo de Hong Kong, a maior voz em defesa da liberdade da Igreja, disse que cerca de 85% dos Bispos da Igreja patriótica foram aprovados secretamente pelo Papa (muitas vezes os nomes que os fiéis mandam para a aprovação pelo governo são de religiosos já escolhidos pelo Papa). O governo não sabe como reverter essa situação.

Na Venezuela as coisas mudam de figura. Estamos falando de um país ocidental, criado nas bases que sustentam toda nossa civilização, erguido sobre valores e princípios cristãos, e nascido com um espírito de Liberdade por meio de Simão Bolívar que, diferentemente do que pintam, não tinha ideais coletivistas e igualitaristas, até porque se tratava de um aristocrata e maçom, ou seja, submerso nas novas tendências filosóficas que, por sua vez, passavam longe de um cripto-socialismo. Dessa modo percebemos desde já que a perseguição a religião em terras venezuelanas não se aplica do mesmo modo como na China, diferentemente da ortodoxia, ou da tentativa de ortodoxia, do maoísmo, o chavismo se esforça para aliciar a Igreja, força que se corrompida, por criar e sustentar um discurso, se torna instrumento de ampla ideologização e doutrinação.

A Igreja Católica Reformada da Venezuela é a fusão do anglicanismo, catolicismo e modernismo. Ironicamente, a nova denominação não defende o casamento homossexual nem ordena mulheres, mas, por andar lado a lado com o relativismo, é apenas uma questão de tempo para que o arcabouço doutrinal se adapte as novas “necessidades”. Outra coisa interessante é que a Igreja Católica Reformada recebeu um taxativo não da Comunhão Anglicana ao pedido de reconhecimento, mais interessante ainda é que teve o apoio da Igreja Anglicana Conservadora da América do Norte, comandada do Texas, que surgiu por se recusar a se submeter ao liberalismo reinante na Igreja Episcopal que, inclusive, ordenou um gay.

De fato, a Igreja Reformada da Venezuela não é oficial nem oficialmente representante da crença do líder máximo do país. Entretanto se diz solidária e sensível aos projetos e reformas do Presidente, compartilhando dos planos socialistas e revolucionários de Chávez, como deixou claro Enrique Albornoz, um ex-ministro luterano que é o principal bispo, o líder, da Igreja Católica Reformada. E vejam que engraçado; Alvarado, que era um Padre católico, celebrou seu próprio casamento com sua ex-assistente. Certo estava D Jorge Cardeal Urosa, Arcebispo de Caracas, ao dizer que essa igreja era "uma espécie de canja de galinha, uma salada verde, algo que não terá qualquer coerência interna".

Percebam que o objetivo da Igreja Reformada da Venezuela é minar o catolicismo internamente através da corrupção do clero, da difusão de um espírito relativista e liberalizante. Desse modo, adotando um discurso populista e socialista, em plena comunhão com os métodos panfletários de Chávez e sua poderosa máquina totalitária e publicitária, que inventa um paraíso bem diferente da fome e das filas tão comuns no país, essa denominação pega carona no tal “sucesso” do chavismo. Como disse D. Roberto Luckert, Vice-presidente da Conferência Episcopal Venezuelana, "Eles se vestem como padres, ministram batismos e crismas - tudo pago pelo governo - enquanto as pessoas passam fome" e "O que eles querem fazer é colocar um fim à Igreja Católica, mas não tiveram sucesso". Sem o catolicismo, sem a vivência do verdadeiro Evangelho, sem a defesa da Liberdade, o aspirante a sumo ditador tem o caminho livre para instaurar o regime de terror.

Enfim, percebemos a total incongruência entre o marxismo e a religião, compreendemos como os ideais de Marx, assim como as diversas correntes que posteriormente surgiram, tendem a destruir e minar a fé ou, no máximo, torná-la uma ferramenta de luta de classes, um instrumento muito valioso na corrupção das bases fundamentais da nossa Civilização. Exterminar a religião cristã no Ocidente é corromper e derrubar o pilar mais seguro que mantém uma história de séculos e séculos, é acender um fogo que transformará em pó um legado de milênios. A demolição das pilastras abrirá as portas do inferno no mundo, portas essas que jamais irão prevalecer sobre a Igreja.

[1] MARX, Karl, Manuscritos Econômicos e Filosóficos p. 162

[2] MARX, Karl, Manuscritos Econômicos e Filosófico, p. 97

[3] MARX, Karl, Manuscritos Econômicos e Filosóficos p. 93

[4] STACCONE, Giuseppe, Filosofia da Religião O Pensamento do homem ocidental e o problema de Deus, p. 137

[5] MARX, Karl, Prefácio à Introdução à Contribuição para a Crítica da Economia Política

Pedro Ravazzano