sábado, 28 de fevereiro de 2009

A Alta Igreja e o Luteranismo


Pedro Ravazzano

O movimento da Alta Igreja (High Church) não é uma exclusividade anglicana. Claro que na Igreja da Inglaterra as diferenças entre as “alturas” são bem estruturadas, com definições próprias e concepções distintas; existe, de fato, uma identidade High Church (Alta Igreja) e uma identidade Low Church (Baixa Igreja), não apenas maneiras particulares de enxergar a fé, mas formas opostas, e até contraditórias, de viver a religião. A Igreja Luterana também desenvolveu as mesmas polaridades, ou seja, o amadurecimento de grupos organizados que defendem e enfatizam a necessidade e relevância de práticas devocionais e conhecimentos doutrinários rechaçados quando da invasão do pietismo e do racionalismo no luteranismo. Desse modo, se aproximam da ala anglo-católica.

A Igreja Luterana tem uma unidade muito mais acentuada que a Comunhão Anglicana, vários fatores influenciam, mas destaco o fato de ter nascido com um novo paradigma doutrinário, essencialmente vinculada a uma forma de entender a fé. A Igreja da Inglaterra, diferentemente, sabia que era reformada mas não sabia o que significava aderir à Reforma. Desse modo era campo aberto para a influência da teologia calvinista, luterana e até mesmo católica – afinal muitos Bispos só entendiam o rompimento do Reino britânico com Roma como uma aversão ao papado e não, necessariamente, à doutrina romana. Por isso, através dessa falta de produção de uma teologia anglicana própria ou, ao menos, sem uma definição clara dos propósitos reformistas na Inglaterra, o nascente anglicanismo tornou-se um ambiente propício ao desenvolvimento de concepções distintas de entender o ethos (natureza característica) reformado. A unidade – ou menos heterogeneidade – do luteranismo se deve à forte centralização doutrinária ao redor do Livro de Concórdia que contém a essência da profissão de fé luterana. Os documentos reunidos no Livro são: o Credo Apostólico, o Credo Niceno e o Credo Atanasiano, a Confissão de Augsburgo, a Apologia da Confissão de Augsburgo, os Artigos de Esmalcalde, o Tratado sobre o Poder e o Primado do Papa, o Catecismo Menor e o Catecismo Maior de Lutero e a Fórmula de Concórdia. Os dois primeiros credos foram escritos por Padres da Igreja, reunidos em Concílio, para manter imaculada a sã doutrina que vinha sendo atacada pela heresia. O terceiro credo foi escrito por Santo Atanásio, Patriarca de Alexandria (para mais informações a respeito SUGIRO VISITAR O LINK: http://www.veritatis.com.br/article/5536/simbolo-atanasiano-quicumque) – o mais irônico de tudo isso é que os Santos Padres reconheciam a Unidade da Igreja, a legitimidade e origem divina da Tradição, além de acatarem a devoção aos santos, a adoração de Jesus-Hóstia etc. Os Catecismos e os Artigos de Esmalcalde vieram da pena de Lutero; servem para aprofundar e fundamentar a fé cristã luterana. Os outros escritos são de Filipe Melâncton, a não ser a Fórmula de Concórdia, redigida por um apanhado de teólogos luteranos. A nascente Igreja Luterana, então, se enxergava como legitimamente católica e não, necessariamente, protestante – “Somos tanto evangélicos quanto católicos, ao ponto de muitos luteranos chamarem-se de "evangélicos católicos". De fato, o assunto básico da Confissão de Augsburgo é que o real católico é luterano! Mas acima de tudo, não somos protestantes.”, disse no seu artigo “Luteranos não são protestantes” Dare. E. Paul

Assim definiu a Igreja Luterana – Sínodo de Missouri:
Se, no entanto (como é frequentemente o caso hoje em dia), o termo "protestantismo" é vagamente e simplesmente associado a diversas visões teológicas Reformadas, Anabatistas ou “Fundamentalistas”, muitas das quais não correspondem ao que os luteranos acreditam e ensinam, então, obviamente, o termo não seria apropriado ou corretamente aplicado aos luteranos.
O que deve ser levado em conta é que com a forte expansão da teologia calvinista – que foi amplamente usada por grande parte das denominações reformadas – essa, inevitavelmente, se chocou com o luteranismo no sul da Alemanha. Os calvinistas tinham uma posição muito mais radical em relação à condenação da Tradição, da Presença Real (do corpo, sangue, alma e divindade de Jesus Cristo nas espécies eucarísticas pão e vinho consagrados), da manutenção de tradições de devoção e adoração Os luteranos, por sua vez, mesmo defendendo a Sola Scriptura, levavam em conta, ao menos na nascente igreja, a relevância do desenvolvimento doutrinário ao longo dos tempos, daí que aceitassem algumas heranças católicas. Desse modo, os adeptos de Calvino diziam que a Igreja Luterana deveria se livrar desse ranço papal que ainda persistia nas suas fileiras.

Lutero já havia tido uma controvérsia com os Sacramentários, ou seja, os adeptos das teorias de Zwinglio e Ecolampádio que negavam não só a Transubstanciação defendida pela Igreja Católica como a União Sacramental defendida pela Igreja Luterana:
"Cremos, ensinamos e confessamos que o corpo e o sangue de Cristo são recebidos, em virtude da união sacramental, com o pão e o vinho não só espiritualmente, pela fé, mas também oralmente, não, porém, de modo cafarnaítico, mas de maneira sobrenatural, celeste" (FC, Epítorne VII, 15)
Além desses conflitos desde o nascimento do luteranismo, outras problemáticas teológicas se estruturaram desde os primórdios do desenvolvimento doutrinário do pensamento luterano. Depois da morte de Lutero, seu principal amigo, Felipe Melâncton, tornou-se o grande líder da teologia nascente. Entretanto, talvez devido a sua flexibilidade em busca da unidade com outras confissões reformadas, fez concessões que foram vistas como conseqüências do seu cripto-calvinismo: rejeitou a doutrina da ubiqüidade e fez mudanças no ensino de questões como o livre-arbítrio, predestinação e a ceia do Senhor, se distanciando da ortodoxia luterana – partindo da premissa de que a ortodoxia se encontra em Lutero. Vejamos a edição da Confissão de Augsburgo, preparada por Felipe Melâncton, de 1530:
Da ceia do Senhor ensinam que o corpo e sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes e são distribuídos aos que comungam na ceia do Senhor. E desaprovam os que ensinam de maneira diferente.
Na edição Variata, de 1540, já dizia:
Da ceia do Senhor ensinam que com o pão e o vinho estão verdadeiramente expostos o sangue e o corpo de Cristo aos que comungam na ceia do Senhor.
A reformulação é muito clara, há uma diferença essencial na forma de enxergar a Presença Real de Cristo na Ceia. Se a concepção luterana já era imperfeita, depois dessas mudanças adotadas por Melâncton ela se distanciava ainda mais da ortodoxia tradicional, ou seja, ficava mais longe dos ensinamentos cristãos que chegavam até nós por meio da Escritura e da Tradição, sendo corados com os belos e profundos escritos dos Padres da Igreja. Por meio dessa atenuação dos ensinamentos luteranos dois grandes grupos se formaram dentro da igreja; os filipistas, adeptos das novidades de Melâncton, e os gnesioluteranos, que se diziam fiéis aos ensinamentos do Reformador. O foco do nosso artigo não é a controvérsia dentro do luteranismo nascente, por isso vamos nos distanciar dessa abordagem.

Se a Igreja Luterana já trazia essa polaridade, mesmo que não explicita, no séc. XVII a presença calvinista se fortaleceu através da expansão do pietismo. Esse se caracterizava por se opor ao cristianismo teológico, defendia a praticidade cristã, uma fé bastante individualizada, onde a estrutura hierárquica era totalmente descartada ou, ao menos, subvalorizada. A forte defesa da práxis religiosa tornava o pietismo deveras empobrecido o que, somada a sua destacada oposição à disputa teológica, fazia dele a porta de entrada do pentecostalismo. Desse modo, por meio do triunfo do espírito pietista e racionalista dentro do luteranismo, houve uma simplificação, um empobrecimento, as vezes até mesmo eliminação, dos elementos tradicionais que dignificavam as cerimônias, os momentos de oração e, principalmente, glorificavam a celebração da Ceia do Senhor. A difusão do ethos pietista, em oposição ao que se considerava ortodoxia luterana, o esvaecimento do que restava da Tradição nos ambientes reformados, chegou a ponto de lançar ao segundo plano a própria Eucaristia; não mais era celebrada com freqüência, ficando restrita a momentos específicos. A análise feita por Jonh Henry Newman, no seu livro Apologia Pro Vita Sua, em relação ao forte peso do pensamento evangélico e puritano na Igreja Anglicana, também serve, por conta do mesmo contexto, ao passado pela Igreja Luterana:
Analisando, porém, o que eu chamava religião evangélica ou puritanismo, confesso que tinha maiores razões para temer. Por esse motivo, fazia notar qual era a sua organização. Mas, em compensação, faltava-lhe uma base intelectual, uma idéia interna, um princípio de unidade; em uma palavra carecia de uma teologia. "Seus aderentes, dizia eu, separam-se uns dos outros e fundem-se como os montículos de neve. Não há uma opinião franca sobre nada que eles ensinam. Para disfarçar tanta pobreza vestem-se de palavras.”
O que tem acendido nos ambientes luteranos a vontade de reforma – uma reforma da reforma, ou seja, reformando o pietismo que reformou o luteranismo – é o desejo de reavivar a discussão teológica, trazendo a tona a ortodoxia luterana, os clássicos do pensamento reformado, para que assim, por meio de um sincero embate, haja produção e aprofundamento na doutrina da fé. Do mesmo modo, há um forte clamor eclesiológico; desde o triunfo do pietismo a Igreja Luterana perdeu sua identidade institucional, sendo levada pela concepção puritana e calvinista trazida por Spener. Assim como o Movimento de Oxford os desejos da Alta Igreja Luterana também perpassam, muitas vezes, pela dissociação da religião do Estado. As Igrejas nacionais, como reflexo da burocracia política, apenas refletem as vontades dos governantes, dessa maneira, como conseqüência imediata, tornam-se meios de propagação das decadências e imoralidades ratificadas pelas autoridades estatais.

Claro que a idéia de Alta Igreja, dentro do luteranismo, não se define com tanta particularidade como no anglicanismo. Além de ser alvo de muitas críticas – consideram a definição de “Alta Igreja” como uma forma de rompimento com a tradição luterana – muitos teólogos acreditam que as suas práticas são opostas às compreendidas nos documentos essenciais do luteranismo – Confissão de Augsburgo, Apologia da Confissão de Augsburgo, Artigos de Esmalcalde, Tratado sobre o Poder e o Primado do Papa etc. Entretanto, o que se coloca em questão é justamente se o triunfo do pietismo não teria corrompido a ortodoxa hermenêutica luterana, rejeitando tradições caras para Lutero e para os primeiros reformadores. Ademais, a Alta Igreja Luterana sofre por conta da perseguição em países com Igrejas Estatais, como a Dinamarca; nessas nações os anseios desses religiosos e fiéis são identificados como extremamente católicos, logo em regiões que são, infelizmente, tradicionalmente opostas à fé romana. Outro ponto que distancia a Alta Igreja da grande massa luterana é a onda de relativismo que assola a sua comunidade; a ordenação de mulheres ao sacerdócio e episcopado é mais um motivo que aumenta, radicalmente, as diferenças entre a igreja aceita – liberal, “baixa” – e a igreja “reacionária” – tradicional, “alta”. Daí, por exemplo, o surgimento da Igreja Católica Nórdica – de confissão luterana, que declara aderir à fé ortodoxa e católica da indivisa Igreja -, formada por Bispos que se separaram da Igreja da Noruega por não concordarem com essas novidades anti-tradicionais e anti-bíblicas acatadas pelo establishment religioso. Surgiu com a ajuda da Igreja Católica Nacional Polonesa, um cisma católico que ocorreu nos EUA. Dentro da Alta Igreja Luterana, ou ao menos nos movimentos que vivem sob seu espírito – afinal, como já foi dito, não há uma estruturação individual, como na High Church inglesa – ainda há a preocupação em relação à perda da noção do episcopado e, para piorar, à crise na Sucessão Apostólica. Além disso, outro fator que a impulsiona é o desejo pela sacra estética; paramentos e belas cerimônias. Assim se expressou Dare. E. Paul – mais tarde convertido ao catolicismo:
A intenção de Martinho Lutero e daqueles que estão escritos na Confissão de Augsburgo era de Reformar, não Rejeitar, a Igreja como ele a tinha achado. À parte as adições hiperbólicas de sentimentos anti-católicos por parte dos contemporâneos de Lutero, estes seguiram Lutero partilhando muitas práticas e pontos teológicos com Roma. Lutero travou batalhas intensas contra os "entusiastas" e "sacramentarianos" que recusavam o batismo infantil e a validade de um ministério ordenado, rejeitando a Real Presença de Cristo na Eucaristia, e de fato rejeitando todos os sacramentos como significado da graça de Deus.
Dentro do luteranismo existem concepções distintas acerca do episcopado e da noção do mandato divino da Igreja. Na “Comunhão de Porvoo” Igrejas Anglicanas da Inglaterra, Escócia, Irlanda, País de Gales, Portugal e Espanha celebraram a Eucaristia com Igrejas Luteranas da Finlândia, Islândia, Noruega, Suécia, Estônia e Lituânia. Entre elas há a mesma estrutura episcopal, todavia, não entram em consenso quando o assunto é a definição doutrinária sobre o poder sobrenatural do Pastor. As seis igrejas luteranas que participaram do encontro defendem e acreditam na sua Sucessão Apostólica. Do mesmo modo, dentro do luteranismo, existem maneiras diversas no governo eclesiástico; desde o Sínodo de Missouri – Missouri Synod, segunda maior denominação luterana dos EUA - que centraliza o poder na Congregação, passando pela Igreja Evangélica Luterana na América – maior denominação luterana dos EUA, é a união da Igreja Luterana na América, Igreja Luterana Americana e Associação das Igrejas Evangélicas Luteranas – que elege um Presidente-Bispo por seis anos e, por fim, a Igreja Católica Anglo-Luterana que tem uma rigorosa estrutura episcopal composta por um sínodo de Bispos e um Metropolita e que, buscando a Sucessão Apostólica, ordenou e (re)ordenou diáconos, padres e bispos usando o Ordinal católico para exprimir a plenitude da intenção sacerdotal e sacrificial da ordenação, com cerimônias presididas por Bispos cismáticos vindos do Vétero-Catolicismo ou de outras Igrejas fora da plena comunhão – a principal linhagem da Sucessão Apostólica dos anglo-luteranos deriva de Carlos Duarte da Costa, o fundador da ICAB (Igreja Católica Apostólica Brasileira). Ademais, vale frisar, é uma denominação bem “particular”; ao mesmo tempo que segue os Catecismos de Lutero, a Confissão de Augsburgo, o Livro de Concórdia etc, aprecia o ‘Livro de Oração Comum’ e os ’39 Artigos’ interpretados por Newman e, além disso, os ensinamentos do Magistério Católico e do nosso Catecismo.

A entrada do liberalismo na Igreja Luterana apenas tem acentuado a necessidade da aproximação com a Tradição católica. Bem sabemos que a teologia liberal nasce como conseqüência natural do espírito da própria reforma. Assim percebeu teólogos luteranos destacados como Richard John Neuhaus e Reinhard Hütter, convertidos ao catolicismo – o primeiro era pastor e depois tornou-se sacerdote – e Jaroslav Pelikan que se converteu à ortodoxia. Gunnar Rosendal, em “The Catholic Movement in the Swedish Church”, aborda a crise na Igreja Sueca. A sua análise vale para todas as igrejas de confissão luterana:
Na época do Iluminismo, no século XVIII, muitas das características católicas na Igreja da Suécia foram negligenciadas. A Igreja como tal as havia preservado, ainda que os clérigos as negligenciassem e, muitas vezes, as utilizassem com a sua própria interpretação. E assim verificou-se que a liturgia sueca, no início do século XIX, se tornou mais pobre na sua expressão e a teologia sueca, na segunda década deste século, chegou ao seu mais baixo volume (nível). A vida sacramental da Igreja sueca se tornou mais pobre em todo o mundo, as igrejas fechadas, exceto para os serviços, o espírito de oração comum extinto, os serviços estéreis e enfadonhos. Mas foi até o momento do reavivamento evangélico de intensa piedade. Estes foram os principais sinais de vida na Igreja Sueca. Tivemos alguns proeminentes nomes na Alta Igreja, mas eles foram mais diplomáticos e políticos do que hierárquicos nos seus pontos de vista. Eles nunca expressaram o espírito da Alta Igreja nas liturgias, vida sacramental, ou doutrina do ministério, mas conservaram uma profunda veneração pelos episcopado e sacerdócio.
Os “evangélicos católicos” no luteranismo buscam se apropriar das tradições perdidas quando da invasão pietista, puritana e até mesmo iluminista na Igreja. O resgate do legado litúrgico, devocional e doutrinário, para esses religiosos, se encontra na perfeita continuidade histórica com a indivisa Igreja de Cristo: católicos, ortodoxos, anglicanos e luteranos. Essa concepção, mesmo que heterodoxa – afinal a Igreja é Una desde sempre – resgata, ao menos, a Tradição que existia na nascente igreja luterana. A valorização da teologia dogmática e sacramental vem dessa linha, em oposição ao simplismo instaurado. Do mesmo modo a revisão da própria visão institucional, através da recuperação da hierarquia, do episcopado e do sacerdócio. Assim disse Reverendo Rolf Preus, Pastor Luterano do Sínodo de Missouri, na National Conference on Worship, Music & the Arts:
As pessoas esperam, quando vão à igreja, que certas coisas devam acontecer. Certas palavras devam ser ditas. Certas ações devam ser seguidas. Estou falando de coisas como a confissão e a absolvição, o canto do Kyrie, seguido do Gloria in Excelsis, ouvindo os ensinamentos, e confessando o Credo. Isto é o que aconteceu e é isto que pessoas esperam que aconteça. Hinos serão cantados. Um homem vestindo uma túnica e estando no púlpito irá pregar um sermão baseado em um texto da Bíblia. Você irá cantar os familires Salmos e Cânticos da igreja, rezar a Oração do Senhor, ajoelhar no altar do Senhor e comer e beber o corpo e o sangue de Cristo. Você não irá sair antes de ouvir as palavras da Benção de Aarão que irão garantir que Deus, que o serviu com a Sua Santa Palavra e Sacramento, agora dá-lhe Sua paz. O que ocorre no Domingo de manhã vai fazer você se sentir em casa (...) Você falou com Deus e ouviu Ele falar com você. Isso é o que está procurando. É por isso que você vai à igreja.

E agora você vai à igreja e tudo é diferente. Vai com a expectativa de encontrar algo que já não existe. Talvez seja o canto do Kyrie. Ou talvez o Credo que seja substituído por uma versão caseira que não é realmente muito boa. Em vez de um sermão, há uma espécie de prebistério dramático. Os cânticos familiares sumiram. Os corais luteranos deram lugar às rasas e repetitivas músicas de “louvor”. A bênção é substituída por uma extensa e longa exortação de como ser cristão de qualquer tipo que esteja em voga na temporada. Vocês não querem criticar. Querem saber se as suas expectativas foram um pouco exageradas. Afinal, deve haver muitas maneiras diferentes de adorar a Deus. A Bíblia, na verdade, não define para a igreja do Novo Testamento as instruções detalhadas sobre o que fazer num domingo de manhã. E, se tais instruções não estão previstas nas Escrituras, e se as Escrituras por si só têm de ser para nós a norma e juiza de todas as doutrinas e práticas na igreja, por isso você deve se lamentar se você deve sofrer mudanças? Talvez você esteja apenas sendo antiquado. Mesmo assim, você tem a sensação de que algo definitivo foi e é importante e que você quer de volta. A Igreja já não é a sua casa ".
Esses luteranos buscaram, desse modo, resgatar os escritos e os trabalhos de grandes nomes da sua religião e que foram, com o tempo, rechaçados ou colocados de lado. Se os anglo-católicos restauraram William Laud, Herbert Thorndike etc, os similares luteranos trouxeram a tona Johann Gerhard, os gnesiosluteranos etc. Foi desse renascimento que surgiu, por exemplo, o “Kyrklig förnyelse", um manifesto composto por Gunnar Rosendal onde se defende a renovação litúrgica na igreja da suécia, assim como o resgate da Eucaristia como o cerne da vida cristã, além da revitalização do episcopado, da vivência da fé por meio da graça sacramental e do sacerdócio. Rosendal ainda pontuou que sem essa restauração tradicional os fiéis iriam buscar a Igreja de Cristo, sem o liberalismo e o relativismo que começavam a assolar o luteranismo, na Igreja de Roma, assim sendo, via essa reforma como uma necessidade essencial para a própria existência do protestantismo – o que se mostrou verdade depois da crise na Igreja da Suécia que acabou aumentando o número de convertidos ao catolicismo. Sustentada nesse manifesto nasceu a Arbetsgemenskapen Kyrklig Förnyelse, a União Sueca, a Alta Igreja no luteranismo da Suécia. Essa denominação tem relações estreitas com ramos similares, anglo-católicos e evangélicos-católicos, na Igreja da Inglaterra, Noruega, Alemanha e Dinamarca, onde eles mantém bispos e sacerdotes. Na nação germânica foi redigido o Stimuli et clavi, escrito pelo pastor Heinrich Hansen; consiste em 95 teses, clara referência às 95 teses de Lutero, em defesa da restauração do luteranismo alemão. Inspirada nessa obra brotou a União da Alta Igreja da Confissão de Augsburgo. Ela foi muito influenciada por Friedrich Heiler, teólogo alemão convertido ao luteranismo – era católico – que enxergava a Igreja Luterana como a verdadeira Via Média – não o anglicanismo – por conta do zelo doutrinário e sacramental, assim como a manutenção das tradições litúrgicas. Heiler lançou mão de uma concepção modernista para perseverar em algumas doutrinas católicas ao mesmo tempo em que adotava o luteranismo, chegando a afirmar que a Igreja incluía todos os não-cristãos, esperançoso de uma síntese entre todas as religiões do mundo.

Desse modo, através do resgate tradicional, nasceu, na Igreja Luterana, o anseio pela restauração dessas práticas litúrgicas e, principalmente, um maior aprofundamento doutrinário. Esses movimentos, mesmo que sem nenhuma organização comum, lutam pelo mesmo ideal; tornar o luteranismo mais próximo da plenitude da fé cristã, para isso buscam a centralidade não na Bíblia, mas sim na Eucaristia, no sentido sacrificial da Missa:
Na Ordem da Igreja [Luterana da Suécia] lemos: "Não é proibido chamar este Sacramento de Sacrifício, como tem sido sempre feito na cristandade, porque o sacrifício de Cristo, que foi oferecido pelo nosso Senhor na cruz, é oferecido na missa" Essas palavras na Ordem sueca foram escritas pelo arcebispo Laurentius Petri (1499 – 1573), o primeiro arcebispo, após a reforma. Ele escreveu uma Dialogus acerca da Santíssima Eucaristia, onde diz que pode chamar a missa de sacrifício, porque "significa ou representa o sacrifício de nosso Senhor na cruz" e porque "o padre e a congregação o oferece (o Sacramento, isto é, o Corpo e Sangue), entre os nossos pecados e a ira de Deus. " É evidente que temos aqui uma completa e explícita doutrina do Sacrifício da Missa. Isso também implica que o sacerdote ordenado para a oferta desse sacrifício é um verdadeiro sacerdote, vindo do mesmo Sacerdócio de nosso Senhor, o celestial Sumo-Sacerdote. Esta doutrina sempre tem sido a doutrina da Igreja e os sacerdotes suecos sempre foram ordenados para executá-la. O Movimento Católico fará essa doutrina vivida, amada, e conhecida em sermões e na vida devocional da Igreja.
Além disso procuram dignificar os momentos de oração, usando do rico simbolismo sacro como uma ponte de santificação do mundo. Esse resgate vai das coisas simples até as mais complexas; desde o retorno dos atos cotidianos, como um sinal da cruz ou uma genuflexão, até a minuciosa defesa da Presença Real ou a revisão do sentido do episcopado. Os movimentos tradicionais que pululam nas denominações protestantes nascem como a conseqüência do entendimento, mesmo que inconsciente, das contradições que povoam toda a fundamentação da fé reformada. Como entender a Escritura sem a Tradição? Como entender a fé cristã imaculada sem os Concílios Ecumênicos? Como seguir os Concílios sem acatar os Padres da Igreja? E como ler os Santos Padres sem enxergar a riqueza mariológica, eucarística, eclesiológica, dogmática, contida nas suas palavras?

A crise no protestantismo, com o triunfo do relativismo e do liberalismo, na verdade é inerente à própria estruturação da sua crença. A Sola Scriptura abre o espaço para o subjetivismo hermenêutico, um individualismo que de tão acentuado modifica a fé cristã, a rebaixando aos desejos próprios; não é o indivíduo, enquanto crente, que se santifica através da penitência, oração e mortificação, mas a própria Revelação que parte das premissas particulares do fiel para então se encaixar num cristianismo feito à encomenda. Claro que não acredito que tenha essa sido a idéia clara de Lutero, mas é inegável que foi o que se tornou a “Somente a Escritura” e todo o protestantismo. O círculo vicioso é tão forte que não há nenhuma autoridade que lance anátemas e condene o erro. As heresias na religião reformada surgem de hermenêuticas corrompidas, formas heterodoxas de interpretar a Bíblia. Mas como saber se é heterodoxia se a própria Escritura, no protestantismo, além de auto-autenticável pode ser interpretada pessoalmente? A noção de heterodoxia só existe por conta da noção de ortodoxia, e como saber qual é a ortodoxia bíblica se a própria Bíblia se encontra submissa à Sola Scripitura? Ora, se não existe uma interpretação única e absoluta todas as interpretações tornam-se licitas e genuínas. Entretanto como pode haver Deus onde há contradição? Como um Livro inspirado pode ser base para entendimentos tão distintos e contraditórios? Existe sim uma Única hermenêutica, assim como existe um Uno Deus e uma Una Igreja.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Igreja Anglicana: Católica, Via Média ou Protestante?

Pedro Ravazzano
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Hoje é muito comum encontrar o discurso do tal cristianismo primitivo na boca de protestantes, assim como o combate às tradições e à idéia de um cristianismo paganizado desde os primeiros séculos. Na verdade essas teorias não encontram fundamento nem mesmo entre as críticas da Reforma. Boa parte dos reformadores, quando pensava em "Igreja primitiva", levava em conta os quatro primeiros Concílios, ou seja, não enxergava no primitivismo eclesiológico a visão puritana e pentecostal que hoje reina. A própria Igreja Anglicana não só reconhece os Concílios como corrobora o trabalho dos Padres da Igreja, os reverenciando como santos e doutores. Só mais tarde, com a consolidação do setor evangélico dentro do anglicanismo – não por mesmo essa invasão se deu com a estruturação do liberalismo dentro da Igreja – que essas tradições foram deixadas de lado ou, no mínimo, passaram a ser subvalorizadas.


A Igreja Anglicana, em especial, não surgiu como essencialmente oposta ao papado enquanto doutrina, mas sim ao poder que o Santo Padre exercia nos seus domínios. Daí o famoso Ato de Supremacia – em 1534 o Parlamento inglês declarou Henrique VIII "Senhor da Igreja da Inglaterra". Com isso houve um levante de soldados invadindo mosteiros, tomando paróquias e confiscando os bens da Igreja que, a partir de então, passaram a ser do Estado. São Tomás Moro - Chanceler do Reino - e São João Fisher – Cardeal e Bispo de Rochester - foram martirizados por se recusarem a obedecer ao decreto, persistindo na fidelidade à Igreja de Cristo. Posteriormente, esse Ato de Supremacia foi substituído por outro ratificado por Elisabete I, a principal responsável pela consolidação da reforma protestante na Inglaterra. Com isso a dita cuja dominava, através da força, a massa católica que ainda lutava fortemente no reino e, principalmente, revertia e destruía o que tinha sido feito pela verdadeira Rainha da Inglaterra, Maria I, que tentou resgatar a fé genuína no seu país. Ademais, instituiu um "Juramento de Supremacia" onde se declarava total fidelidade à monarquia, opondo-se a qualquer interferência externa, reverenciando a Rainha como "única governadora suprema deste reino e de todos os outros domínios e países de sua Alteza, assim como em todas as coisas ou causas espirituais, eclesiásticas ou temporais". Com isso os católicos que lutavam em meio à aristocracia se viam obrigados ou a apostatar da fé, para manter seus títulos, ou renegar a glória do mundo, em defesa da Religião. Hillaire Belloc, no seu livro, Characters of the Reformation, disse:
A Igreja Anglicana foi imposta em definitivo na Inglaterra por razões econômicas, já que esta nova religião permitiu a nova nobreza ascender e ficar com a grande riqueza da Igreja Católica que Henrique VIII e seus sucessores lhes deram em recompensa aos seus serviços. Isso tornaria impossível restaurar a antiga religião, já que significaria a restituição das terras.
O diálogo Anglicano X Católico por muito tempo esteve fadado ao fracasso por conta do ranço anti-católico na Inglaterra que levava os seus clérigos a acreditarem que toda e qualquer doutrina e dogma oriundo de Roma era essencialmente anti-cristão, ou seja, não enxergavam a base fundamental da reforma anglicana, a política, e não percebiam que, mesmo sem saber, a Igreja da Inglaterra, ao menos antes de ser tomada pelos evangélicos (Baixa Igreja), tinha muitas crenças em perfeita sintonia com os ensinamentos romanos.

Os Trinta e Nove Artigos foram estabelecidos em 1563, por meio deles a doutrina anglicana se definiu, tomando uma visão própria frente a doutrina calvinista, luterana e católica. As duas primeiras gozavam de ampla defesa em setores anti-romanos, defendidas por religiosos que buscavam na adesão teológica aos princípios reformados a genuína oposição ao atolicismo, principalmente de cunho político. Os Trinta e Nova Artigos surgiram de uma revisão dos Quarenta e Dois Artigos publicados em 1553, mas revogados pela Rainha Maria, a Católica. De forma geral os Artigos adotam uma postura mais próxima ao luteranismo do que ao calvinismo, mas mantendo uma forma católica, zelando por certas tradições, preservando a estrutura hierárquica dos tempos romanos.

No artigo XXXV se diz:
O Segundo livro das Homilias (...) contém doutrina pia, saudável e necessária para estes tempos, como também o primeiro livro das Homilias, publicado ao tempo de Eduardo VI; e portanto julgamos que devem ser lidas pelos ministros, diligente e distintamente nas igrejas, para que sejam entendidas pelo povo." [The second Book of Homilie (…) doth contain a godly and wholesome Doctrine, and necessary for these times, as doth the former Book of Homilies, which were set forth in the time of Edward the Sixth; and therefore we judge them to be read in Churches by the Ministers, diligently and distinctly, that they may be understanded of the people.]
As Homílias Anglicanas são dois livros com trinta e três sermões que aprofundam o conhecimento da doutrina anglicana, auxiliando no entendimento de pontos específicos da crença da Igreja da Inglaterra. Usadas pelo clero paroquial, são instruções metódicas que se aproximam em muito do método pedagógico do Catecismo Católico. Os discursos contidos nas Homilias estão baseados na Vulgata e na Septuaginta (versão rejeitada pelos protestantes que preferiram seguir o cânon do AT definido por fariseus anti-cristãos no Sínodo de Jâmnia, no ano 100 d.C). Nas Homilias se diz que a Igreja primitiva se manteve absolutamente pura durante 700 anos (ainda não havia aquele papo de Constantino criador do catolicismo e paganizador da Igreja), acatando os quatro primeiros Concílios, além disso aderem aos Padres da Igreja dos oito primeiros séculos, os reverenciando como santos e doutores, reconhecendo a inspiração divina dos seus escritos. Afirmam que o Corpo e o Sangue são recebidos sob a forma de pão e vinho, considerando a Carne do Santíssimo Sacramento como uma substância espiritual. Atestam o matrimônio e ordenação como sacramentos e louvam os jejuns, as esmolas, os atos de misericórdia. As Homilias, melhores comentários dos Artigos, não procuram aderir formalmente ao protestantismo como forma de consolidar sua posição anti-católica, ao contrário, buscam se livrar daquilo que eles consideravam os erros dominantes do catolicismo, ou seja, crenças medievais, costumes e devoções populares corroboradas por Roma. O que eles entendiam como os ensinamentos católicos dos primeiros séculos era aceito na construção daquilo que chamavam de Igreja primitiva e até mesmo a evolução doutrinal e dogmática católica, com o aprofundamento no saber religioso contido em Concílios e pronunciamentos Papais, não era, a priori, rechaçada por completo. Card. Newman, no seu grande livro Apologia Pro Vita Sua, relembrando a sua história de conversão, disse:
Eu (...) considerava Roma em repouso e Roma em atividade como duas coisas completamente distintas. Opunha seu credo à sua doutrina comum, ao seu tom de controvérsia, à sua influência política e social, às suas crenças e às suas práticas populares. Com essa distinção entre os decretos e as tradições de Roma, fazia, paralelamente, uma outra entre o Anglicanismo em repouso e o Anglicanismo em ação, No seu credo formal, o Anglicanismo não estava à grande distância de Roma. Mas, a coisa muda de figura quando se considera no Anglicanismo seu espírito insular, suas tradições de Igreja estabelecida, suas características histórica, seus rancores na controvérsia e seus juízos privados.
As Igrejas da Comunhão Anglicana reclamam validade da sua Sucessão Apostólica. Quando a Igreja da Inglaterra rompeu com Roma, no séc. XVI, manteve a estrutura episcopal por meio de sagrações válidas, mesmo que ilícitas. Até então a nascente Igreja Anglicana continuava aderindo as normas doutrinais e litúrgicas católicas. Não obstante, graças ao fortalecimento do espírito anti-romano, que abria espaço, propositalmente, a teologia protestante, a Igreja da Inglaterra entrou num processo de declínio e empobrecimento Tradicional. No reinado do Rei Eduardo VI mudanças radicais foram feitas na sagração episcopal. Com a estruturação do "Edwardian ordinal" – louvado por clérigos que eram simpáticos à compreensão protestante de ministério - a Igreja da Inglaterra perdeu a validade da sua sucessão apostólica, já que a houve a corrupção da forma e da intenção sacramental. O novo Ordinale pretendia conferir a graça sacramental por meio da expressão "receive the Holy Spirit" apenas. Não havia qualquer referência ao sacerdócio, sacrifício, ou a consagração das sagradas espécies. Ficava característica a ausência do sentido Sacerdotal da ordem - Sacerdos in æternum – e do sacerdócio sacrificante. Posteriormente, um século depois, lideranças conservadoras dentro do anglicanismo, preocupadas com a deficiência da forma, reformaram o Ordinale, acrescentando a expressão "for the office and work of a priest". De todo o modo já era tarde, todos os Bispos válidos já tinham saído de cena, a partir desse momento o problema não era só de forma e intenção, mas também de ministro; só restavam Pastores, e também Sacerdotes, com sagrações, e ordenações, sem qualquer legítima validade. Entretanto, vale frisar que, desde os anos 30, Bispos Vétero-Católicos – que têm a Sucessão Apostólica reconhecida por Roma – participaram ativamente das cerimônias de sagração episcopal anglicanas, as concelebrando. Os anglicanos e os Velhos Católicos rapidamente se viram como aliados naturais contra o que eles consideravam as invencionices da supremacia papal. Assim, em 1879, um Bispo católico que aderiu aos erros desse cisma, Herzog, celebrou a ordenação sacerdotal de alguns anglicanos, em Paris, para a diocese de Edimburgo.

Esse método, juntamente com o resgate de tradições perdidas com a entrada do pensamento protestante no anglicanismo, foi responsável pela tentativa da retomada da Sucessão Apostólica na Igreja da Inglaterra – a Igreja Católica ainda não reconhece a apostolicidade desse clero anglicano. A forma e a intenção dessas sagrações merecem ser examinadas, mas de todo o modo existem Bispos e Padres sagrados e ordenados a partir de uma linha legítima vinda dos Vétero-Católicos, desse modo reivindicam a validade da Sucessão.

Infelizmente a ativa "ordenação" sacerdotal e "sagração" episcopal de mulheres e homossexuais evidenciou, novamente, a total invalidade da hierarquia anglicana que, mais uma vez, rompeu com a Tradição Apostólica e, conseqüentemente, aumentou em grandes proporções as diferenças da Igreja da Inglaterra em relação a todas aquelas que vivem respaldadas na Tradição.

A preocupação da Igreja a respeito da validade da Sucessão Apostólica dentro do anglicanismo levou S.S Leão XIII, de eterna memória, a convocar um grupo de teólogos para estudar o problema inglês; o fruto dessa minuciosa e sincera análise resultou na Bula Apostolicae Curae. O Papa afirma categoricamente que as ordens anglicanas são "absolutamente nulas e completamente vazias" ["Absolutely Null and Utterly Void"]. Leão XIII afirmava que o novo Ordinale transparecia uma “nativa indoles ac spiritus”, ou seja, um caráter inato e um espírito natural que vinha com a proposital omissão a toda e qualquer referência aos sentidos da compreensão católica da natureza do sacerdócio cristão. Além do triunfo do Ordinale do Rei Eduardo VI que, como já foi dito, deformou a intenção - não havia referência ao sentido sacrificial e sacerdotal - e, posteriormente, a forma, outro ponto foi levado em grande consideração; como bem se sabe um Sacramento não pode ser ministrado duas vezes, já que, se houve validade, imprime uma caráter eterno na alma. Entretanto, desde o séc. XVI, a Igreja ordenava os Padres convertidos que vinham do anglicanismo. Devemos destacar, principalmente, as instruções dos Papas Júlio III e Paulo IV ao Cardeal Reginald Pole, no período da restauração católica com a Rainha Maria I, que afirmavam explicitamente a necessidade da (re)ordenação dos Sacerdotes e Bispos cismáticos. Ora, se havia validade sacramental não teria motivo para ordenar, novamente, o Padre. Ou seja, a própria Igreja, já nos períodos passados, não reconhecia a Sucessão Apostólica e a validade dos Sacramentos ministrados dentro do anglicanismo. Assim se pronunciou o D. Basil Cardeal Hume, Arcebispo de Westminster:
Embora reafirmando o julgamento da Apostolicae Curae de que as ordens anglicanas são inválidas, a Igreja Católica tem em conta o envolvimento, em sagrações episcopais da Igreja da Inglaterra, de bispos da Velha Igreja Católica da União de Utrecht que são validamente ordenados. Em particular, e provavelmente em raros casos, as autoridades em Roma admitiram existir uma "prudente dúvida" sobre a nulidade da ordenação sacerdotal de ministros anglicanos vindos dessa linha de sucessão. (...) Existem muitos complexos fatores que precisam ser verificados em cada caso. [1]
Ainda é pertinente frisar que, o então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Card. Ratzinger, na carta apostólica Ad Tuendam Fidem de S.S João Paulo II, que normatiza o Código de Direito Canônico e Código dos Cânones das Igrejas Orientais, listou a Bula Apostolicae Curae como um dos ensinamentos definitivos que pedem firme assentimento de fé por se encontrar intimamente ligado a própria doutrina revelada. O Bispo anglicano de Huron, no Canadá, George Luxton, em carta ao Papa Paulo VI, pediu a revisão das ordens anglicanas, a revogação da excomunhão a Rainha Elisabete, decretada por São Pio V e, por final, um projeto de união entre anglicanos e outros cristãos. Sua Santidade respondeu, simplesmente, que a Bula de Leão XIII foi uma “declaração definitiva”, ou seja, de essencial seguimento para toda a Igreja. É de grande relevância as palavras do Papa na canonização dos quarenta mártires católicos mortos pelos reformadores na Inglaterra e no País de Gales:
Não haverá nenhum desejo de diminuir o legítimo prestígio e o valoroso patrimônio de piedade e costumes próprios da Igreja Anglicana, quando a Igreja Romana – esta humilde serva dos servos de Deus – puder abraçar sua bem-amada irmã na única comunhão autêntica da família de Cristo, uma comunhão de origem e de fé, uma comunhão de sacerdócio e de preceito, uma comunhão de santos na liberdade de amor do Espírito de Jesus. Talvez tenhamos que esperar vigilantes na oração, a fim de merecer esse dia abençoado. Mas somos desde já fortalecidos nesta esperança pela amizade celestial dos 40 mártires da Inglaterra e País de Gales que são canonizados hoje.
Em resposta ao documento de Leão XIII os Arcebispos de Cantuária e Iorque escreveram uma carta, endereçada ao “nosso venerável irmão”, o Papa, em nome da Comunhão Anglicana e de todos os bispos da cristandade – haja hipérbole - chamada Saepius Officio, O Dever da Defesa. No texto, os dois religiosos anglicanos, num irônico esforço – afinal renegam o papado mas pretendem se justificar frente ao Santo Padre – defendem que a intenção da Ordem na Igreja da Inglaterra tem sim um caráter sacerdotal oriundo do único sacerdócio de Cristo. Vão além ao afirmar que o anglicanismo ensina e propaga a doutrina do sacrifício eucarístico e da realidade mística da Missa – “Estamos acostumados a chamar toda a Ação de Sacrifício Eucarístico”. E, ainda, na tentativa de validar o Ordinale anglicano, partem da argumentação de que nos ritos romanos mais antigos não havia menção a todos os sentidos do sacerdócio.

A resposta da Santa Sé veio com a confirmação da Apostolicae Curae, chamando a Igreja Anglicana para um sadio estudo doutrinal. Assim ocorreu nas conversações de Malinas, na Bélgica, entre 1921 e 1925, uma conferência mista entre anglicanos e católicos dirigida pelo Cardeal Mercier. O mais impressionante desse encontro foi a concordância anglicana, mesmo que informal, a Primazia de Honra do Papa, a presença real de Cristo na Eucaristia, a crença de que o Sacrifício Eucarístico é um verdadeiro Sacrifício, não um mero simbolismo e, por fim, a compreensão do mandato divino da Igreja e do episcopado.

Toda esse explicação gira em torno do que se denomina Alta Igreja (High Church). A High Church se caracteriza por se opor aos princípios essencialmente reformados, esse setor do anglicanismo aprecia o legado tradicional católico, pré-reforma, indo além ao pensar a Igreja com uma autoridade divinamente instituída, uma hierarquia que remonta aos Apóstolos, com Sacramentos que representam sinais visíveis da graça divina. A Alta Igreja não compreende o rompimento da Inglaterra com Roma como um atestado de condenação aos ensinamentos católicos, desse modo aceitam e louvam a Tradição e os Padres da Igreja. Os setores dessa ala se distanciam da idéia protestante de Igreja, para eles o anglicanismo é a via média, de fato. A High Church tem uma postura mais dogmática do que qualquer denominação protestante. Ainda vale frisar que a Alta Igreja carrega um espírito crítico a dependência da Igreja Anglicana ao Estado, se aproximando, mais uma vez, dos princípios católicos de mandato divino da Igreja. Os anglo-católicos, um quase sinônimo para os fiéis da High Church depois do Movimento de Oxford, compreendem a palavra "Católica" como a designação do nome da Igreja construída por Cristo, postura bem diferente da tomada pelos anglicanos da Baixa Igreja (Low Church).

A Low Church já tem uma pensamento essencialmente protestante, se enxergando como, de fato, uma Igreja reformada. Ela é herdeira das mais tradicionais heranças puritanas e calvinistas, e dela vinha os não-conformistas [2]. Desse modo subvalorizam o Episcopado, o Sacerdócio, os Sacramentos, o sentido sacrificial das ordens. Como já foi dito ao longo do artigo, o espírito anti-católico, dentro da Igreja Anglicana, levou ao fortalecimento dos setores protestantes que apreciavam a entrada da teologia reformada na Inglaterra como forma de minar a influência do ethos católico que ainda perdurava. Os evangélicos, como ficaram conhecidos os fiéis da Baixa Igreja, tem uma postura protestante. Existe, entre eles, uma radical defesa do primado da Escritura e da salvação unicamente pela fé, centralizando toda a sua espiritualidade em torno da Bíblia. A estruturação da Sola Scriptura contrastou com o próprio reconhecimento que o anglicanismo fazia não só da Tradição, mas também dos primeiros Concílios e dos escritos dos Santos Padres. A Sucessão Apostólica, a priori, era defendida por ambas as igrejas – afinal era comumente citada nos principais textos da Comunhão Anglicana -, entrentanto uma questão se colocava: como um Bispo evangélico poderia se pensar herdeiro dos Apóstolos se se opunha à própria tradição de origem apostólica? Desse modo, com esse distanciamento não só doutrinal mas estrutural da idéia de Igreja – para eles a Igreja só era "Católica" enquanto "Universal" – houve a perda do sentido real da idéia do episcopado.

Ademais, ainda existe a Broad Church, Larga Igreja, com uma pensamento liberal – modernista para ser mais claro – de entender a fé cristã. Assim sendo tenta enxergar os ensinamentos da religião de forma ampla, alargada, levando em conta toda a realidade contextual, uma adaptação da Verdade aos tempos modernos.

O que os anglicanos relativistas enxergam como sadias maneiras de compreender a fé cristã na verdade não passam do produto dos eternos paradoxos da Reforma Protestante. Dentro da Igreja Anglicana existem grupos que valorizam a Tradição e a consideram essencial no conhecimento da Verdade, vão além ao reverenciar a doutrina e a forma dogmática, acreditando na Sucessão Apostólica e na sua origem essencialmente Cristã. Além disso têm um entendimento dos Sacramentos e do Episcopado bem próximos da ótica católica. Do outro lado estão os setores que não só rejeitam a Tradição – além dos Concílios e da Patrística – como têm um comportamento verdadeiramente reformado ao aderir formalmente ao modo protestante de pensar o cristianismo, ou seja, Somente a Escritura. Ademais, subvalorizam o episcopado e seu fundamento apostólico, deixando também de lado a importância dos Sacramentos enquanto sinais visíveis da graça de Deus. O mais irônico de tudo isso é que ambas as alas seguem e se fundamentam na mesma fé, crença que gira em torno do Livro de Oração Comum, dos Trinta e Nove Artigos da Religião e das Homílias Anglicanas. Na verdade o anglicanismo sempre nutriu, desde as suas origens, uma terrível tensão interna; de um lado existiam aqueles que rejeitavam qualquer ensinamento que remontasse ao catolicismo, desse modo abraçavam a teologia reformada, do outro tinham religiosos que, de fato, recusavam a obediência ao Santo Padre, mas não confundiam o anti-papado com anti-catolicismo, como se tudo que viesse de Roma tivesse um base anti-cristã. O equilíbrio conquistado se deu por meio de um rodízio de hegemonia dentro da estrutura anglicana. As antíteses coexistiam, e como? Através do desenvolvimento da descentralização do poder e da autonomia dada aos bispos. Desse modo cada diocese vivia uma espiritualidade e uma fé. Um fiel que saísse da Cantuária de William Laud e fosse para alguma diocese escocesa calvinista provavelmente não reconheceria a mesma Igreja.

Vejamos, por exemplo, a fórmula de absolvição impressa no 'Prayer Book', livro síntese da fé anglicana, que é usada tanto por evangélicos, liberais e membros da Alta Igreja:
Nosso Senhor Jesus Cristo que deu à sua Igreja o poder de absolver qualquer pecador que sinceramente se arrepende e nele crê, perdoa as tuas ofensas pela sua grande misericórdia; e pela autoridade que me confiou, eu te absolvo de todos os teus pecados, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Essa fórmula não se distancia em nada da forma católica. Fica claro que ela entende a Igreja como uma estrutura divinamente pensada e o Sacerdote como fazendo as vezes do próprio Cristo- in persona Christi – origem de todo o sacerdócio.

De todo o modo vemos, mais uma vez, o resultado das contradições essenciais do protestantismo. Dentro da própria Igreja Anglicana coexistem três óticas que compreendem a fé e a estrutura da religião de maneiras não só diversas, mas até contraditórias. Os setores da Alta Igreja e, especialmente, os anglo-católicos têm uma postura muito mais realista, desse modo não interpretam essa diversidade como uma riqueza cristã, mas como o sintoma de uma problemática encrustada no âmago do anglicanismo. O surgimento de movimentos e comunhões tradicionais, desde o séc. XIX, como o de Oxford [3] e a Comunhão Anglicana Tradicional [4], apenas foi o resultado do alto grau de decadência, com o fortalecimento dos setores liberais e evangélicos, que acentuou as contradições da Igreja da Inglaterra. Qualquer homem comprometido com Cristo enxerga com claridade essas antíteses na religião e, levando em conta a Unidade da Verdade, as interpreta como o atestado da falta de vivência sincera da fé – se existe contradição não existe Deus, já que Deus é a Verdade e a Verdade não se contradiz.

Com qual Igreja nós católicos dialogamos? Com a Igreja Anglicana que renega a Tradição e a Sucessão Apostólica, que nem sequer valoriza os Sacramentos, ou com a Igreja Anglicana que crê na Tradição e no mandato divino da Igreja e do episcopado, indo além ao enxergar na Missa um verdadeio Sacrifício? Se nem eles se entendem como nós iremos entendê-los?

[1] – "Statement of Cardinal Hume on the Ordination of Anglican Bishop Leonard as a Roman Catholic Priest" (in English). The Catholic Resource Network (Trinity Communications). 1994. http://www.ewtn.com/library/ISSUES/LEONARD.TXT. Retrieved on 11 October 2007.

[2] – Os não-conformistas eram protestantes ingleses que estavam insatisfeitos com o desfecho da reforma no Reino. Eram contrários à intervenção do Estado nos assuntos da Igreja e faziam radical oposição à manuntenção da hierarquia institucionalizada. Os grupos não-conformistas mais famosos foram os puritanos, quakers, batistas, presbiterianos, congregacionalistas e metodistas.

[3] – O Movimento de Oxford ou Tractarianismo (por causa dos seus escritos, os Tracts Times) foi um grupo formado na Alta Igreja basicamente por membros da Universidade de Oxford. Entre eles havia a sincera pretensão de demonstrar que a Igreja da Inglaterra descendia, diretamente, da mesma instituição criada por Cristo e guiada pelos Apóstolos. Os dois principais atores desse Movimento foram John Henry Neman e Edward Bouverie Pusey – daí que os fiéis filiados a proposta tractariana também fossem chamados de newmanites ou puseyites.

A forte secularização da Igreja, assim como a entrada do pensamento liberal e o fortalecimento do partido evangélico, foram os motivos que impulsionaram a estruturação do Movimento. Os líderes tractarianos buscaram aprofundar o conhecimento nas origens cristãs do anglicanismo, desse modo se aproximaram do catolicismo como forma de conhecer com mais intensidade a Tradição. Mesmo assim quase todos tinham uma postura radical anti-papado – menos Pusey. A Teoria dos Ramos se desenvolveu no seio do Movimento de Oxford, nela dizia que o catolicismo, o anglicanismo e a ortodoxia eram as ramificações da mesma Igreja – o que já é um erro, mas depois os modernistas pioraram colocando na “árvore” qualquer denominação dita cristã. Foi a partir do Movimento de Oxford que houve o renascimento das ordens religiosas na Igreja Anglicana, assim como o surgimento de um belo Movimento Litúrgico. Os “puseyites” centralizaram toda a vida espiritual e devocional ao redor da Eucaristia, e ainda tomaram certas tradições católicas. Os tractarianos faziam uma clara distinção entre os ensinamentos católicos dos primeiros séculos, aceitando-os integralmente, as crenças medievais, costumes e devoções populares corroboradas por Roma, rechaçadas por considerarem exageros e deformações da verdadeira doutrina, e o dogmatismo romano, que a depender de quem olhasse poderia ser apreciado com simpatia ou repudiado com escárnio. Newman, que não nutria a mínima simpatia por Trento, acabou não só reverenciando o Concílio como se convertendo ao catolicismo. Além do futuro Cardeal Newman vários outros membros do Movimento se converteram, entre eles; Henry Edward Manning, mais tarde o Cardeal Arcebispo de Westminster, Mons. Robert Hugh Benson, filho do arcebispo anglicano de Cantuária, Augusta Theodosia Drane, escritora e abadessa dominicana etc.

[4] - A Comunhão Anglicana Tradicional – Traditional Anglican Communion (TAC) – reúne igrejas anglicanas que juntas se separararam da Comunhão Anglicana sob o pastoreio do Arcebispo de Cantuária. A TAC corrobora a Declaração de St. Louis – Congresso convocado depois que a Igreja Episcopal dos EUA aprovou a ordenação de mulheres e fez uma radical reforma no ‘Livro de Oração Comum’ – e segue uma hermenêutica tradicional dos Trinta e Nove Artigos – vale frisar que tradicionalmente é uma interpretação legítima, afinal os religiosos da Baixa Igreja já partem de uma ótica calvinista ao ler os Artigos, mesmo eles não tendo essa conotação.A Comunhão Anglicana Tradicional não desassocia a Escritura da Tradição, além disso valoriza a teologia dogmática e o decoro litúrgico. Ademais, a TAC mantém um colégio de Bispos que é responsável pela eleição do Primaz.

A saída desses Bispos da Comunhão Anglicana foi motivada pela permissão da ordenação de mulheres e aceitação do homossexualismo, assim como a subvalorização da Tradição e a reforma litúrgica. Desse modo, esses pastores da Igreja da Inglaterra reconheciam que, por meio dessas mudanças, o anglicanismo rompia com todo o tradicionalismo apostólico.

Em 2007 a Comunhão Anglicana Tradicional, em nome de todos seus Bispos, religiosos e fiéis, pediu admissão na Igreja Católica. Assim disse arcebispo Hepworth, Primaz da TAC:
O Colégio dos Bispos da Comunhão Anglicana Tradicional (TAC), se reuniu em sessão plenária, em Portsmouth, Inglaterra, na primeira semana de outubro de 2007. Os Bispos e Vigários-Gerais aprovaram por unanimidade o texto de uma carta à Sé de Roma buscando plena e sacramental união. A carta foi assinada solenemente por todo o Colégio e confiada ao Primaz e a dois bispos escolhidos pelo colégio para ser apresentada à Santa Sé. A carta foi cordialmente recebida pela Congregação para a Doutrina da Fé. O Primaz da TAC definiu que nenhum membro do Colégio dará entrevistas até que a Santa Sé tenha considerado a carta e respondido
A resposta da Igreja veio em 2008, por meio da Congregação para a Doutrina da Fé, que se mostrou solícita e pronta para analisar a questão. Sabemos que não é um acontecimento de pequenas proporções, estamos falando de uma Comunhão que congrega mais de 400 mil pessoas em todo o mundo. O processo de conversão deve ser cuidadoso, afinal as particularidades e riquezas tradicionais, presentes na TAC, herdadas dos tempos católicos, devem ser levadas em conta. Por isso, talvez, a resposta mais saudável para a Comunhão Anglicana Tradicional seja a criação de uma Prelazia Pessoal onde mesmo professando a fé católica em toda a sua plenitude manteriam a sua estrutura e sua individualidade litúrgica e espiritual.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O fenômeno da carnavalização da vida numa sociedade oca e deformada

Cultura e ordem social
As diferentes sociedades que existiram na história humana tiveram um importante ponto em comum: a demarcação entre a esfera cultural superior, ligada diretamente às elites e à classe sacerdotal, mas na qual participava toda a sociedade, e a esfera cultural inferior, mais popular (o que não quer dizer “ruim”, mas sim que se subordinava a uma hierarquia cultural, e que não raro é mais rica e bela até do que a “cultura superior” de nossos tempos); a primeira tinha o papel de ordenamento do cosmos social, é nela que se situa, por exemplo, os pensamentos agostiniano e tomista, e a elaboração da teoria das três ordens (clero, nobreza e servos) por um bispo medieval, enquanto que na segunda situava-se, por exemplo, o carnaval (na forma como José Rivair Macedo explica no livro “Riso, cultura e sociedade na Idade Média”, muito bom para quem quiser ler sobre a cultura popular do período e entender melhor sobre certos aspectos que procurarei comentar, com bem menor competência, nesse artigo) e determinados tipos de eventos sociais. A representação da subversão era encenada nessas celebrações, mas ela cumpria seu papel dentro da ordem, invertendo papéis temporariamente e mantendo incólume a estruturação cósmica “permanente”- pois essas sociedades conheceram a decadência, por motivos que já julguei serem materiais, depois materiais-culturais e que hoje comento com mais reduzida segurança. Era o caso de uma celebração na qual, por um dia, alguém do povo fazia o papel de rei, sendo executada no final – a explicação que conheci foi: saciava-se o desejo de subversão das pessoas, mas no fim tudo voltava a ser como era antes, conciliando aquele desejo com a necessidade de preservar o status quo.[1]

Nessas sociedades, havia espaço para o deboche, para a zombaria e o maldizer, e religiosos e reis não se julgavam tão superiores a ponto de pretender estar fora do alcance disso (hoje existe uma arrogância inconcebível para aquela época, e por parte de indivíduos muito mais medíocres). Mas existia um elemento concernente à seriedade muito mais poderoso e determinante que hoje. As coisas divinas “podiam” ser consideradas superiores, e ofensas a elas ofendiam as pessoas, que tinham o direito de se ofender, atitude que hoje é considerada “radicalismo” religioso, “intransigência”, “fanatismo” etc. etc. “Mas você não é ateu??”, alguém pode perguntar. Sim, mas isso não me tira a legitimidade para fazer essa crítica.[2] E outra coisa muito importante: eles realmente levavam a morte a sério.

A presença da morte, tratada como uma ausência, e o caráter de nossa época

A humanidade sofre um processo de escandalosa infantilização, alienação, mediocrização[3], aviltamento, rebaixamento, imbecilização e por aí vai. As pessoas evitam encarar a realidade, e criam um mundo de fantasia cor-de-rosa para viver nele. Isso acontece o tempo todo na vida cotidiana, e as pessoas não se dão conta e não se chocam. É o caso do desarmamento compulsivo e de sua restrição exacerbada o mais que se puder. Um adulto (isso, lembrem-se, adulto) de 21 anos não pode ter uma arma de fogo, nem uma pistolinha, nem um revólver; Alexandre Magno comandou legiões aos 15 anos! Isso, aos quin-ze!! E não era um caso excepcional, pois o sujeito era ensinado a ser homem o quanto antes, ao contrário de hoje, em que se é ensinado a o ser o mais tarde possível, ou, se possível, a não o ser até o fim da vida. Um adulto de hoje não vale uma criança de ontem, e é nisso que somos educados: na baixeza, na covardia (quem não aprende espontaneamente pela convivência, é forçado pela ditadura “politicamente correta” a aprender a se acovardar), na imaturidade crônica que toma conta de “adultos” cada vez mais idiotas e que não aprendem a crescer. O caso da morte é significativo.

A morte é uma intimação à responsabilidade, a uma vida com sentido, e os povos tradicionais sempre se pautaram por ela. Os antigos egípcios viviam em função da morte, e procuravam economizar seus recursos para custear uma mumificação – ao menos os que podiam fazê-lo, as classes mais altas, às quais se juntou, posteriormente, um conjunto maior de pessoas capazes de pagar. Era notoriamente uma civilização inspirada pela absorção da morte para a vida do dia a dia, o que não é o mesmo que dizer que eram infelizes. Uma vez teve uma exposição de coisas do Antigo Egito em São Paulo (infelizmente, esses eventos não costumam vir para as bandas de cá...) e li sobre ela numa revista. Eu estava no ginásio, na época, mas lembro de como o comentador destacava o fato de os egípcios serem um povo de mentalidade fúnebre, e festivos, alegres! Apesar do destaque dos egípcios, isso não era muito diferente em outros povos. Era o normal.[4]

Vou abordar mais o nível individual agora, já que acima comentei sobre a relação de uma sociedade com a morte. Assim, poderá ficar mais clara a ligação entre as duas coisas. No Livro I de “A República”, Platão conta sobre os jovens atenienses, que viviam em meio a vícios e diversões, mas que, ao chegarem a certa idade, tornavam-se temerosos, devido à morte que se aproximava. [5] Quando eu era pequeno (antes do período pelo qual eu iniciei aquele meu relato), cheguei a praticar Karatê pela Aiasatsu, e precisávamos estudar uma apostila também. Lá havia um ensinamento bastante intimidador: o karateca deveria pensar mais na morte do que na vida. Isso significa o oposto do estado psicológico que tomou conta de nossa época. Não, não estou querendo ficar neurótico nem deixar alguém nesse estado; apenas chamo a atenção para o fato gravíssimo de que não buscamos aprender a maneira correta de lidar com um dos poucos fatos que podemos dizer que é certo, perfeitamente universal e determinante para a nossa existência, “existência” entendida num sentido pleno e total.

Não se trata de exigir heroísmo de ninguém. Eu me amedronto de vez em quando com esse assunto e, há poucas semanas, quando perdi um ente querido, precisei ligar para Ricardo.[6]

Deve-se acrescentar algo importante. A Contemporaneidade, que não encara a morte como as outras épocas o faziam, é justamente o período que mais concedeu espaço para ideologias tresloucadas tornarem-se referência para o governo dos povos, dando lugar a morticínios sem concorrentes na história da humanidade. Hobsbawn narra, no começo de seu “A era dos extremos” que, no começo do século, a morte de dezenas era um fato chocante e de repercussão internacional, e que nem se imaginava em contabilizar as mortes de civis na escala das centenas. As informações que ele nos dá nessa interessante passagem mostram como a morte de poucos (“poucos”?! É porque estamos no século XXI!O leitor da época analisada por Hobsbawn se chocaria comigo, e com meu caro leitor que provavelmente não se espantou com a palavra) causava mais perplexidade que a morte de milhões (não se contente com o dado, junte dezenas, centenas e assim sucessivamente na sua cabeça até formar o milhão) causa hodiernamente, “em pleno século XXI”, como diz certas pessoas com orgulho, num hoje em que defensores do nacional-socialismo e do socialismo-comunismo procuram melhorar sua situação dizendo que seus regimes não mataram como se diz, que foram alguns milhões a menos... A nossa época é a do totalitarismo – que deixou sua marca indelevelmente até hoje, só a alienação de uma ingenuidade estúpida impede as pessoas de perceberem isso- um tipo de “ordem” que consiste no seguinte: a partir do “partido”-Estado, a vanguarda revolucionária conforma os vários aspectos da sociedade da maneira que lhe pareça conveniente. Hoje, no Ocidente (êpa, é aqui) sua semente tenta germinar da seguinte maneira: a vagabunguarda diz o seguinte:

“__Não se preocupe, Joãozinho (tem mais de 50 anos), vamos cuidar de você; se alguém usar uma palavra que te magoe, conte pra gente cuidar dele. Mas me dê essa arma aí, não, nada disso, quem cuida do bandido – não seja preconceituoso, não use essa expressão fascista, ele é só um excluído pela sociedade, por você também – é o governo (governo como conhecemos + intelectuais esquerdistas). Nós protegeremos você... quê, entrou ladrão aqui, não evitamos nada?, não é assim, você tem de cobrar, não fazer nosso trabalho, nós que temos de cuidar de você e da sua família., me dê essa arma que você pode fazer uma besteira, você pode se machucar... Joãozinho, Joãozinhooo!!! Dê cá essa arma, DÊ LOGO A SUA ARMA, JOÃOZINHO! Isso, assim, e não seja malcriado que a gente coloca você pra sentar no canto, de castigo! Saiba que só queremos seu bem.”

E dá sinais evidentes de que constrói-se progressivamente um estado de coisas no qual o Estado se intrometerá cada vez mais no âmbito particular. Não é só a importante questão da arma; trata-se até de querer controlar o exercício da religião e até da alimentação do sujeito.[7]

Ao mesmo tempo que se constrói essa ditadura sobre o indivíduo comum, movimentos sociais procuram colocar-se acima das leis, e, de fato, é a ideologia (da Esquerda politicamente correta) que vem moldando a aplicação destas; numa época totalitária, ou que se almeja a sê-la, o jurídico, intelectual, religioso etc precisa estar, necessariamente, subordinado ao político.
Apenas lembro que não há vida integral sem a compreensão sobre a morte, e não há civilização sem pessoas capazes de enfrentar essa tarefa. Devemos procurar ficar à altura dela, e não evitá-la. Mas, que faz nossa sociedade moderna, que se julga superior – que piada! – às “arcaicas civilizações antigas”? Só pensa em conforto, em lazer, na cura de doenças, no creme anti-rugas, em prolongar a juventude, no jogo de futebol... É uma sociedade de frivolidades, cada vez mais “politicamente correta”, viciada, burguesa (nada de coro com o vulgar discurso anti-burguês da Esquerda; condeno o aburguesamento que atinge todas as esferas da sociedade, quando a burguesia tem o seu papel correto ao se manter em seu lugar devido, sem pretender substituir o que há de superior a ela, sem pretender substituir o que é aristocrático e merece ter um lugar privilegiado na sociedade civilizada), imoral e tecnicista, que acha que o avanço (ah...o avanço!) da ciência e da técnica resolverá os desafios que se impõem à espécie humana, que são maiores do que a mente viciada e preguiçosa de telespectadores do BBB, Faustão e Fantástico podem imaginar.

Carnaval como mero evento circunstancial, e Carnaval como horizonte da existência, numa época infeliz e alegre

Depois dessa prolongada introdução, posso entrar propriamente no tema que intitula o artigo. O carnaval, festa cujas origens são apontadas na Velho Mundo de séculos atrás, tornou-se a festa brasileira por excelência, que atrai a cada ano muitos turistas, seduzidos também por propagandas libidinosas do nosso país (apesar das campanhas em sentido contrário que autoridades brasileiras procuram fazer há anos, segunda cita o Arcebispo do Rio, D. Eugênio Sales, numa Mensagem em 2004.) É apontada na mídia como a maior festa popular do mundo – esse ano, foram 2 milhões de pessoas no Salvador, onde domina o axé. No do Rio de Janeiro, provavelmente o mais famoso até hoje, mulheres nuas, em grau maior ou menor, requebram ao som do samba. Como eu acho questões morais muito difíceis de se responder, prefiro não julgar se o Carnaval é mau ou bom em si (claro que comemorações como a de Olinda não estão em questionamento aqui), isso é, no espaço reservado para ele. Mas, sem tomar como foco a análise particular e essencial do Carnaval, e, em vez disso, considerando a análise desse evento na manifestação circunstancial que ele tem na sociedade em que vivo, considero: ele cumpre, dentro de um contexto social maior, um firme papel na nossa degeneração moral.

Contarei um episódio para demonstrar um ponto. Uma vez, uma menina de pouca idade, criança, pediu a mãe uma camisinha, para ir ao Carnaval. Apesar do susto da mãe, a filha era inocente: ela viu as propagandas que diziam para ir com camisinhas para o Carnaval ( Pergunto: por quê? Precisa-se delas para pular, para ouvir o som?), e, como ela ia a um Carnaval - não lembro se era festa de escola ou essa coisa selvagem nas ruas mesmo - pediu à mãe a camisinha, pois como garota inteligente que aprende o que os mais velhos ensinam, aprendeu que precisava-se dela para sair nessa festa, como proclama a TV. Li essa história num módulo na época de escola. É uma demonstração de um dos aspectos mais grosseiros do Carnaval: a sexualização instigada, forçada e insuflada pela mídia, pelos artistas, por quem faz a imagem dessa festa. Atentem-se, nada nesses meios (in)culturais reflete simplesmente a demanda da população, antes procuram moldá-la atribuindo-lhe certos contornos e características desejados (por algum sociopata). A revista Catolicismo cita interessante estudo sobre a opinião do brasileiro sobre essa festa (“Maioria dos brasileiros rejeita imoralidade carnavalesca”- http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/A279FFD8-D0B7-B67F-B1570335ABF2F3FF/mes/Abril2004 ), segundo a qual ela conta com uma rejeição de 57,4%, índice impressionante para algo tão alardeado aos quatro ventos como coisa maravilhosa e fascinante.










(Com esta, ainda é preciso ir com outra roupa para o Carnaval?)

(Não esqueçam, hein?!)

Nesse ano, o Correio da Bahia informou que a Secretaria da Saúde iria distribuir (a essa altura, está distribuindo) camisinhas e pílulas do dia seguinte durante o Carnaval. É profundamente revoltante esse tipo de notícia. Embora os grupos pró-aborto venham tentando legalizar a prática homicida com muita insistência, o fato é que nossa Justiça entendeu por bem não legalizá-la, entendendo que assim estaria protegendo o direito à vida de todos. Mas essa gente que ocupa os governos pouco se importam com as leis (possuem mentalidade revolucionária, e acham que as leis que não são feitas por eles não possuem nenhum valor), e as desobedecem flagrantemente. As tais pílulas são “substância abortiva”, vedada no juramento de quem se forma em Medicina, e eliminam um embrião, resultado da fecundação do óvulo pelo espermatozóide, que não é nem um nem outro, mas o ser particular que se origina da fecundação. Abusos como esse derivam do hedonismo que o jurista Ives Gandra Martins denuncia quando comenta a questão do aborto no Brasil. As pessoas querem prazer fácil, sem responsabilidade. Acrescento: são adultos infantilizados, que querem se divertir com suas genitálias como uma criança se diverte sem preocupação com seu brinquedo; aliás, essa é uma palavra muito comum nas campanhas da camisinha: se for “brincar”, use camisinha! Se brincar errado, é só eliminar o ser resultante. O Estado garante a sua diversão, a lei sobre vida vem depois.

Mas esse Carnaval é muito mais que uma mera festa que acontece numa semana de fevereiro. Permanece incompleto lembrar das micaretas e dos carnavais fora-de-época que acontecem durante o ano inteiro. O Carnaval tornou-se uma metáfora, algo que representa um sentido para as pessoas. Hoje, são privilegiados os que vivem cada dia, vendo um sentido nele próprio. Uma propaganda que está saindo nessa época é reveladora: mostra o desenho cinzento de uma policial, com expressão de desânimo, e uma frase do tipo: “Durante 364 dias do ano, Fulana é policial”. Ao lado, vem: “Na quarta de Carnaval, ela é Odalisca!”, com a imagem a cor da personagem fantasiada e com a maior expressão de felicidade. Há outras semelhantes, com outras profissões. O interessante de se notar é o seguinte: muitas pessoas suportam, cheias de insatisfação, uma semana de trabalho à espera do fim de semana. E esperam os meses com essa rotina passar para ter um tempo de férias – e tirar férias hoje, já não é algo certo, pois o sujeito pode ter de trabalhar nesse período. Em resumo, as pessoas vivem sem objetivos, esperando um momento de alegria extremamente transitório, ou procurando esse momento sempre que possível, na hora do programa de TV, p.ex, conformando assim, a um sofrimento na mediocridade, alegrias fúteis na mediocridade, que valem meramente como descanso para a próxima estação, mas que não desperta em ninguém a dimensão de sua vida por inteiro. O que o século passado trouxe foi o sabor amargo da tragédia, com o insosso da vida ordinária na sociedade de mercado cada vez mais separada dos elementos supra-temporais da civilização que são a fonte da alegria de existir nesse mundo.

Uma sociedade em que o carnavalesco – não em sentido estrito da festa pré-quaresma, mas no sentido amplo da atitude psicológica e cultural que está presente a todos os momentos em nosso meio – ocupou papel principal, é uma sociedade que realizou a subversão a que me refiro no primeiro parágrafo. Diante disso tudo, as pancadarias que acontecem na avenida são coisa pouca, um sintoma menor (E olhe que essas violências baixas não são pouco revoltantes!). O pior é que a isso se soma os caracteres peculiares do período em que vivemos. Fato muito significativo quanto a isso aconteceu há alguns anos, quando um carnavalesco quis colocar, no desfile de sua escola de samba, um carro alegórico representando o Holocausto, com bonecos representando os judeus mortos, a até com pessoas fantasiadas de nazistas e um Hitler.[8] Entendido simbolicamente, é o ponto de articulação entre os dois aspectos freqüentes de nossos dias de Kaly Yuga[9] que comentei aqui: é a tragédia carnavalizada, a representação da hecatombe humana ao som de samba. Quando não resta nada que se considere digno de veneração e respeito, a dignidade cabe a indivíduos fúteis do show business e às vaidades vãs desse meio, enquanto que a vida num ambiente de superficialidade vira Carnaval e, portanto, a morte também.

[1] Não sou a pessoa mais adequada para fazer essas considerações antropológicas, e lamento os erros que posso estar cometendo, e entendo que possa haver críticas ao esquematismo que uso e exemplos de comunidades que não se encaixam no modelo que apresento. Mas mesmo que seja esse o caso, creio que meu objetivo principal estará a salvo, que é o de defender que existe um tipo de hierarquia cultural que não pode ser invertida, ao menos no Ocidente. René Guénon, explicando o caso da Índia, aponta que essa foi a civilização na qual o pensamento metafísico foi mais estendido, e que, para se ligar à tradição, o hindu precisava dominar esse conhecimento em algum grau, a depender de suas capacidades intelectuais. Tenho esse caso em mente quando pressinto as possíveis limitações do esquema que apresento naquele parágrafo.
[2] Não vou comentar esse ponto aqui, porque é relativo ao assunto de outro artigo, que completará aquele que escrevi parcialmente; por enquanto, apenas veja se consegue enxergar um sentido nisso. Talvez você leia aquele artigo já em posse da resposta.
[3] Desculpem o possível neologismo.
[4] Desde a época de escola que eu tenho uma dificuldade tremenda de entender como alguém acredita de verdade no Carpe Diem no sentido de se esforçar por ser alegre o tempo todo; achava que eu não conseguia entender, hoje vejo que essa idéia é um equívoco, não a do Carpe Diem, que é valiosíssima caso entendida adequadamente, mas a da referida interpretação.
[5] Na verdade, Platão expõe as idéias em forma de diálogo, de forma que essa passagem deve constar da fala de algum interlocutor que participa da história. Mas não estou com o livro em mãos, então, perde-se os detalhes.
[6] Eis uma pessoa que se pode dizer que é fantástica, pois é na dor que se vê de que é capaz o bálsamo, e é na profunda dor que aflige o ser que se vê de que é capaz um bálsamo que se oferece para a alma humana.
A pessoa é minha avó materna; tomara que a morte, essa misteriosa, a tenha na verdade levado para algo bom.
[7] Lembra da listinha de alimentos que teriam a propaganda proibida na GB, incluindo catchup e amendoim, dentre inúmeros outros? Quem acompanha Olavo de Carvalho está familiarizado com essas coisas todas.
[8] (Essa nota eu escrevi para um outro artigo, no qual ataco a retórica dos que empunham a bandeira do Estado laico para defender qualquer barbaridade, mas vejo que ela interessa ao tema presente, por isso publico parte dela aqui, com algumas modificações.) Em janeiro, conheci um caso cuja absurdidade ultrapassou todos os limites que eu havia imaginado até o doloroso momento. Na sala de espera de uma clínica, eu lia uma meteria de uma “Época” velha sobre uma polêmica que aconteceu quando um carnavalesco quis colocar, no desfile de sua escola de samba, o supracitado carro alegórico; uma federação israelita conseguiu vetar esse carro na justiça, e houve quem condenasse isso como censura, e quem ficasse ofendido com a idéia do carnavalesco. Um psiquiatra entrevistado pela revista e um dos defensores de tal carro, comemorou algo equivalente a “no Brasil, o Estado é separado da religião”. Ou seja, numa grave questão envolvendo os sentimentos de tantos judeus, para os quais o Holocausto é fato de memória recente, havendo até no Brasil quem passou por Auschwitz, um super-imbecil consegue fazer um comentário completamente desvinculado do que se discutia, só pelo intuito de atacar gratuitamente a religião.
[9] Para os hindus, último ciclo que precederá a destruição do mundo, caracterizado por todo tipo de absurdidades.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Afinal, o que aconteceu com Galileu Galilei?

por Marcio Antonio Campos

Como tive oportunidade de dizer anteriormente, 2009 é o Ano Internacional da Astronomia por comemorar os 400 anos das primeiras observações de Galileu Galilei com a luneta. Por isso, é mais que oportuno destacar no blog um livro recentemente lançado no Brasil que pretende relatar, com riqueza de detalhes, os problemas que o astrônomo italiano teve com a Inquisição, e as circunstâncias que levaram a esses problemas. Galileu – Pelo copernicanismo e pela Igreja foi escrito por Annibale Fantoli, italiano nascido na Líbia, mestre em Filosofia e Teologia, e doutor em Física e Matemática. Lançado já há alguns anos em uma coleção do Observatório Vaticano, só agora o livro ganhou uma edição brasileira, pela Editora Loyola. É com essa obra que inauguro a seção Para sua biblioteca, que trará sugestões de livros sobre ciência e religião.

Mesmo quem não é familiar com a Astronomia pode tirar muito proveito da leitura, pois logo no início Fantoli explica a cosmologia aristotélica-ptolomaica (que colocava a Terra no centro do universo) e conceitos astronômicos como o de paralaxe (que será importante nas argumentações sobre a posição dos corpos celestes) de maneira bem didática. Mas o maior valor que eu reconheço no livro é o de derrubar vários mitos sobre o processo de Galileu. No dia em que saiu o resultado do vestibular da UFPR, resolvi fazer um teste e, enquanto esperava a festa aqui na Praça Carlos Gomes, perguntei a alguns vestibulandos o que eles lembravam daquilo que foi ensinado sobre Galileu no ensino médio. Apenas um estudante recordou algo: que Galileu tinha sido perseguido por dizer que a Terra era redonda!

Nem de longe pretendo que vocês substituam a leitura do livro pelo resuminho que vai abaixo. Mas alguns fatos sobre o caso Galileu precisam ser conhecidos e divulgados o quanto antes:

• O primeiro aspecto a ressaltar é que o sistema copernicano foi recebido com frieza. Poucos astrônomos aderiram ao heliocentrismo, e o maior deles à época, o dinamarquês Tycho Brahe, defendia um sistema em que a Terra ficava no centro, a Lua e o Sol giravam em torno da Terra, e o restante dos planetas girava em torno do Sol (p. 49-52).

• Alguns textos católicos sobre o caso Galileu argumentam que o De Revolutionibus, de Copérnico, não foi colocado no Índice de Livros Proibidos desde 1543, quando foi lançado, até 1616, e que isso representaria uma aceitação, ou ao menos uma tolerância, por parte da Igreja em relação ao copernicanismo. Fantoli discorda, mencionando que ao menos uma autoridade eclesiástica mostrou disposição em condenar o De Revolutionibus, mas morreu antes de conseguir seu objetivo. Quanto ao Papa da época, Paulo III, estava ocupado demais com o Concílio de Trento (1545-1563) e, mesmo depois disso, não havia por que se preocupar em demasia com uma teoria que era vista com ceticismo até pelos próprios astrônomos (p. 46).

• Isso nos lembra que o timing de Galileu foi o pior possível. No início do século XVII, a Igreja estava em plena Contrarreforma, uma época de retração em que novas teorias eram naturalmente vistas como suspeitas e os teólogos se agarravam com ainda mais firmeza aos textos da Bíblia e à interpretação dos Padres da Igreja. Para complicar, especificamente em 1632 (um ano antes da condenação de Galileu), o Papa Urbano VIII era acusado pelos espanhóis de não ser assim tão zeloso na defesa da fé – a acusação era feita dentro de um contexto mais amplo provocado pela Guerra dos Trinta Anos (p. 310). Talvez em outras épocas, de maior abertura e flexibilidade teológica, o copernicanismo fosse melhor recebido pela Igreja.

• Ainda assim, é preciso ressaltar que a Igreja não chegou a condenar o copernicanismo como herético. Em 1616, ele foi declarado "falso e totalmente contrário à Sagrada Escritura" (p. 206). Em 1633, a sentença de condenação (p. 365) retomou as formulações anteriores e considerou Galileu "suspeito de heresia" – embora para o senso comum pareça tudo a mesma coisa, em Teologia os termos têm significados diferentes. E de fato, se considerarmos uma interpretação totalmente literal da Bíblia, o copernicanismo seria mesmo realmente contrário à Sagrada Escritura, que tem trechos como "O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar a seu lugar; em seguida, se levanta de novo." (Eclesiastes 1,5).

Continue lendo em: http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/blog/tubodeensaio/?id=857570

Pensamentos de Santo Tomás de Aquino

"Ninguém pode nesta vida ter satisfeitas as suas aspirações, porque nunca um bem criado sacia as aspirações humanas de felicidade"

"A concórdia não é uniformidade de opiniões, mas concordância de vontades"

"Há homens cuja fraqueza de inteligência não lhes permitiu ir além das coisas corpóreas"

"Uma ofensa é tanto maior quanto maior é aquele contra quem é cometida"

"Rogo a Deus como se esperasse tudo dEle, mas trabalho como se esperasse tudo de mim"

"Maria pronunciou o seu "faça-se" em representação de toda a natureza humana"

"O crente transcende a verdade da sua própria inteligência"

"Aquele que crê adere ao dizer de alguém. Por isso o que parece ser o principal, e tendo de certo modo o valor do fim, em todo o assentimento é a pessoa a cujo dizer se dá assentimento. Assim, o que se concorda em crer apresenta-se como secundário"

"A paciência manifesta-se extraordinária de dois modos: quando alguém suporta grandes males pacientemente ou quando suporta aquilo que poderia ter evitado e não quis evitar"

"É tolice dizer que as criaturas são totalmente más, porque em algum aspecto são nocivas. Podem elas ser nocivas para uns, mas úteis para outros"

"Pela oração de muitos, às vezes, se alcança o que pela oração de um só não se obteria"

"A cobiça de qualquer bem temporal é o veneno da caridade; por ela o homem despreza o bem divino".

"A oração consiste na elevação da alma a Deus"

"Por ser mãe de Deus, Maria tem uma dignidade quase infinita".

"A humildade é o primeiro degrau para a sabedoria".

(Extraído do fórum: agostinho_bernardo_tomas@yahoogrupos.com.br)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O Caminho da Conversão – Parte III: A mulher faz o homem

Por Vladimir Lachance

É sempre difícil começar um texto, ainda mais difícil quando se pretende escrever sobre um assunto que lhe é próximo. Parece que é o tipo de artigo mais fácil de escrever, mas a verdade é que é o contrário. Quanto mais próximo mais difícil de distinguir os contornos do que se quer tratar. Sinto que este texto pode ser considerado como parte de um conjunto, um fragmento que só encontra o sentido completo quando encaixado a outros fragmentos. Ainda não existe a parte II deste conjunto de textos, mas logo será escrito e completará o quadro. Por enquanto os leitores ficarão com este texto, que é uma homenagem à mulher que me fez. Não a que me gerou, ser humano, que me colocou no mundo, mas a que me fez filho adotivo de Deus, que me trouxe a luz de nosso Senhor Jesus Cristo, e deu verdadeiro sentido à minha vida.

Eu estava em tempos de relativismo quando a conheci, Luciana Lachance; vivia numa plena incerteza de tudo, numa perfeita ignorância que imaginava ser o caminho correto para conhecer o mundo. Achava que quanto mais duvidasse mais perto da verdade estaria, pois me parecia que por trás de todas as coisas tinha uma outra realidade que era suja e perversa, mas que não queria se revelar diretamente. Certas idéias para mim eram absolutas, como fórmulas universais que serviam para interpretar qualquer texto, filme, reportagem, etc. Nunca me considerei comunista, tinha certa ojeriza pela figura do velho Marx, aquele homem barbudo de cara enfezada, mas ainda assim tinha uma pequena simpatia por suas críticas da sociedade burguesa. Me sentia mais próximo das idéias anarquistas – hoje penso que não tanto por uma questão de afinidade pessoal, mas porque o comunismo vermelho mesmo, com foice, martelo e boina, já não convencia muito bem. As leituras mais comuns nessa época eram de textos de alguns autores menos conhecidos como Naomi Wolf e Hakim Bey. O que constava principalmente era a leitura dos zines: pequenas brochuras, que normalmente tem menos de cinqüenta páginas; os mais lidos eram textos de grupos ativistas, sobre veganismo, anarquismo, feminismo. Eram nesses textos que me baseava para entender o mundo, para fazer a minha “crítica” da sociedade. É engraçado lembrar que nesse período eu não duvidava em absolutamente nada desses textos – exatamente porque eles me pediam para duvidar de outros textos e idéias, desviando minha atenção para os sofismas absurdos que eles mesmos apresentavam (o relativismo só pode ser utilizado como mecanismo de análise em relação àquilo que você já desconfia, as outras coisas podem continuar absolutas). Era esta a atmosfera em que eu estava envolvido na época, numa confusão geral de idéias, e completando o quadro vivia uma mistura de ateísmo e panteísmo.

Luciana surgiu nesta época, e simplesmente, pela sua presença, me transformou. Certas idéias mudaram de maneira radical; não por ela dizer: “isso é errado”, ou “isso é certo”, mas pelo que trazia consigo, pelo tesouro acumulado no coração. Ela me perguntou: “o que você pensa em relação ao aborto?”. Eu acreditava que era um direito da mulher, que ninguém deveria se intrometer nisto. E foi mais ou menos isso que respondi. Foi quando ela, com apenas quatro palavras, me sacudiu por inteiro, e me mudou completamente. Ela disse: “eu ia ser abortada”. Não houve dúvida: eu passei a repugnar a idéia do aborto. Algumas pessoas podem alegar que essa foi uma decisão extremamente passional, e que eu a tomei para agradar a Luciana, mas a tomei não para meramente agradar, mas por amá-la – e só quem passou por isto pode entender do que se trata. Uma pessoa pode mudar a vida de alguém, ou mesmo o mundo. Quantas pessoas deixaram de existir, e fazer parte da sua vida, (ou precisamente aquelas que mudariam tudo), por terem sido abortadas? Essa é uma questão razoável a ser colocada, mas que muitos encaram com profundo desprezo. E a esses eu respondo, com toda a certeza: Luciana mudou a minha vida, e se ela não existisse eu poderia demorar muito para conhecer a verdade, o amor, Deus.

Ela agora é minha noiva, e foi o meu divisor de águas. Um dia eu fui um adolescente, arrogante, que não suportava os mais velhos e rechaçava os mais novos; agora eu volto a ser criança e começo a ser adulto. Um dia fui um ateu que entoava hinos anti-cristãos, inconformado com o sofrimento no mundo; hoje sou um recém convertido, um catecúmeno, um filho de Deus. Não meus amigos, eu não fui doutrinado como vocês imaginam. Eu fui amado. Éramos dois quando nos conhecemos, e agora estamos muito perto de ser um. Um só corpo e um só espírito. Ela não me trouxe cartilhas – como alguns podem pensar – de como ser um cristão, um conservador, um namorado; nada disso. Aprendemos tudo juntos. Ela me ensinou os primeiros passos do amor a Deus, mas depois continuamos a caminhada juntos.

O que escrevo hoje é difícil de explicar, pois o amor nunca precisou ser defendido. O mundo moderno perverteu as relações entre as pessoas, mesmo aquelas que se gostam, e por isso este texto pode não ser muito bem entendido. Hoje, é muito difícil conceber um relacionamento em que as pessoas realmente queiram se doar à outra, que queiram ser um com o outro. Elas imaginam que fazendo tal coisa estarão sendo submissas, subservientes: as mulheres, em grande parte, infectadas pela ideologia feminista, e os homens perdidos num misto de feminismo e permissividade. Mas eu me atrevo a dizer: não há nada melhor que querer ser um com quem se ama. Não no sentido de ter um pensamento idêntico, de gostar das mesmas comidas, de se vestir combinando. Não é nada disso. Mas de ser unido, da forma correta, como a Igreja Católica me ensinou: a unidade na diversidade. Nós não queremos ser radicalmente iguais, mas também abominamos a idéia de ser completamente diferentes. Há um equilíbrio, que não me cabe demonstrar por meio de palavras, que é exatamente o necessário para que um amor dê bons frutos, se tornando puro e sublime. É esse amor que devemos buscar, o amor que nos dá idéia do Eterno, que nos faz pensar como seria o amor no Reino dos Céus. Esse amor Luciana me deu.
Eu te amo meu amor. Este texto é para você. Fica com Deus e que nosso Senhor Jesus Cristo te dê muitas graças.