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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Dois pesos e duas medidas

O Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, esteve no Brasil, numa viagem oficial. Os membros do governo defenderam a visita como sinal da relevante posição do nosso país na diplomacia internacional. Já a oposição criticou a vinda do polêmico líder iraniano que ainda foi recebido com todos os salamaleques do cerimonial.

O que achei mais pertinente não foi nem a criticada visita de Ahmadinejad, mas os dois pesos e duas medidas da mídia e dos políticos brasileiros. Chávez, quando vem ao Brasil, não é alvo de 1/3 dos protestos dirigidos ao kamarada iraniano. Claro que todos os regimes ditatoriais são atrozes, mas é fato que o bolivarianismo da Venezuela, se comparado ao regime islâmico no Irã, é muito mais chocante ao Brasil.

Ora, no Irã a fé bahai é perseguida, homossexuais encarcerados e o Holocausto negado - o judaísmo não é tolhido, inclusive, constitucionalmente, o parlamento iraniano deve ter representantes judeus, zoroastrianos, católicos, cristãos armênios e assírios. Enquanto isso, na Venezuela, a Igreja Católica é perseguida, venezuelanos de ascendência espanhola apontados como herdeiros dos opressores europeus (sic) e a classe média vista como a encarnação do Capeta. Não estou aqui diminuindo a violência cometida pelo regime do Irã às minorias, mas não posso negar que em terras chavistas a identidade da maioria é perseguida pelas políticas ditatoriais do bolivarianismo. Boa parte dessas realidades culturais também são comuns ao Brasil, por isso, para o brasileiro médio, perseguir a Igreja Católica, por exemplo, diz mais do que a perseguição a fé bahai, desconhecida no nosso país e com um número insignificante de seguidores.

Tolher a liberdade religiosa, restringindo o bahaísmo, desperta a ira adormecida dos deputados e senadores brasileiros, mas tolher a mesma liberdade religiosa, atormentando a Igreja Católica, que congrega 85% dos venezuelanos e 75% dos brasileiros, não é tão escandaloso. Encarcerar e punir homossexuais, como ocorre no Irã, vale o tempo gasto em protestos, mas aborrecer brancos, heterossexuais e a classe média, que compõe a esmagadora maioria da população, não merece nenhuma insurgência.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Um caso incomum – as idiossincrasias de um ateu conservador (Parte I)

por Fabrício Oliveira

História de sete anos numa escola religiosa – ou, Tudo começa quando somos pequeninos...


Como a maioria dentre nós, fui batizado na Igreja Católica Apostólica Romana e fiz, com gosto, catequese na Paróquia de Brotas, onde moro a quase quinze anos, desde que minha família voltou para Salvador, depois de morarmos em Seabra. Após terminar a 4ª série na Gente Miúda, tivemos de procurar uma escola que oferecesse ensino ginasial, como se chamava o da 5ª a 8ª série. Uma das opções foi o Colégio Nossa Senhora da Conceição, possibilidade que me empolgava bastante, mas que não se cumpriu. As outras duas, que foram efetivamente as alternativas dentre as quais eu escolhi, foram o IECB (onde hoje funciona o EEMBA) e a Escola Santa Maria Eufrásia, anexa ao Instituto Bom Pastor. A primeira, a laica, próxima à minha residência, oferecia aulas de natação, o que não me atraía pouco. Eu amava piscina, amava água – me encantava ver água nos programas esportivos, só bem depois que o futebol se tornaria mais interessante aos meus olhos; era sinônimo de alegria para mim, poucas coisas representavam tão bem os sentimentos de conforto e prazer, e visitamos a escola para conhecê-la. A segunda, a religiosa, católica, “escola de freira”, mais longe de minha casa, era, porém, uma perspectiva muito, mas muito fascinante para mim; eu teria aulas de religião e me prepararia para a Primeira Eucaristia, a se realizar no final do ano. Eu era uma criança, mas, no fim das contas, esta opção foi a que mais me seduziu: aquela primeira perdeu, e escolhi, com convicção, estudar na ESME: o desejo de religião, de fé, significava muito mais. Teria aulas de religião! Faria a Primeira Comunhão! Sem ter uma consciência clara da doutrina, obedecia eu naquela circunstância, entretanto, obedecia eu naquele momento da infância, ao primeiro mandamento. Será que me dei conta disso? Acho que não, mas a minha escolha foi a que relatei, foi por Deus, foi por conhecê-Lo, por segui-Lo.

Tive de responder a um questionário – achava tratar-se de um teste para ter o privilégio de estudar lá – e algum tempo depois soube que ia me matricular. Como estava contente e satisfeito! A empolgação estava em tudo, na observação da lista de material escolar (sempre gostei disso), nas compras, em tudo que se relacionava à escola. Quanto tempo durou a lua-de-mel? Não sei ao certo, mas nos anos seguintes o desejo do divórcio iria crescer cada vez mais, mas não foi concedido; o que era escolha do livre-arbítrio e alegria se tornaria sentimentos de impotência, decepção, frustração, e a escolha deu lugar à imposição – não só a imposição de permanecer naquele ambiente, mas até a imposição de suportar quieto as violências que lá abundavam. Eu era cristão, e não Cristo! Se se me dá um tapa na cara, o meu desejo é de trucidar o ...desgraçado. Explico: lugares como escolas são espaços de hostilidades. Alunos procuram colegas que tenham características que possam servir de matéria para chacotas, e se divertem à custa do sofrimento alheio. Não é por que a escola é “religiosa” que vai ser diferente, e os alunos se guiarão pelo amor ao próximo. Bom, eu transbordava os limites da ingenuidade, facilitando os engodos e ataques contra mim. Meu temperamento me levava a perdoar facilmente, mesmo quando eu sentia que a ofensa viria de novo amanhã. No meu caso, o que era tão diferente em mim? Eu era (era?) bastante distraído, do tipo que viaja horrores ao ponto de não saber o que o professor esteve falando à sua frente, e um católico inocente demais – que melhor para um lobo do que um cordeiro inocente? Explico mais uma vez. Aqueles meninos de quinta, de sexta série, levavam pornografia para a escola (espero que estejam conseguindo imaginar o clima de imbecilidade que imperava) e eu, recusando-me a olhá-las, tornei-me um tipo ridículo na Escola Sta. Mª Eufrásia, sendo chamado de “viado”, dentre a enorme variedade de agressões que já foram dirigidas contra mim naquele lugar. Nunca fui bom em me aproximar das meninas, e lá tive a oportunidade de aprimorar essa incapacidade – que melhor para aumentar a timidez do que ser o otário da turma, e qual garota vai querer alguma coisa com o otário da turma? Elas devem querer um cara mais esperto, capaz, “miseravão” (soube na própria escola de rapazes brasileiros que transaram com namoradas, filmaram o ato sem que elas soubessem, e que colocaram o vídeo na internet mostrando aos amigos como eles são demais, à custa da imagem das meninas.) Para que menino besta? Sempre fui o besta, bobão, lerdão, conforme já fui informado tantas vezes. Desenvolvi um sentimento de afeição às meninas, via nelas vítimas inocentes de homens, mas não vou comentar esse ponto. Tenho de avançar no artigo.

Fiz a Primeira Eucaristia na 5ª série, mas não senti nada de muito forte na cerimônia – até me distraí muito durante ela. Não que eu tivesse alguma dúvida quanto a Deus; apenas me culpei pela minha falta de compenetração. Na oitava série, no entanto, tive uma grave crise em minha fé. Os pensamentos intensos e constantes a que me dedicava – razão de eu ser considerado do “mundo da lua”, de ser “Da Lua”, naquele contexto que expliquei -, em contraponto com o ensino horrendo de religião que eu tive naquela escola religiosa, me levaram a dúvidas que não conseguia sanar e me traziam grande sofrimento. Não conseguia conciliar a idéia de Deus com a de infinito [1], comecei a imaginar a morte eterna – o que se tornaria motivo de terror, pânico e desespero solitário para mim, e perdi, enfim, a fé. E no seu vácuo, irrompeu o medo, a desesperança, a tristeza pela idéia de que meu avô que morrera dois anos antes poderia ter morrido pela infinitude dos tempos. Era um conjunto de pensamentos e sentimentos novos que não constituíam uma concepção de Universo, era um proto-ateísmo, involuntário, desengajado, introspectivo, que não se apresentava como ateísmo. Mas o sofrimento que esta disposição de espírito me trazia fez com que eu voltasse a me apegar com a fé. Evidentemente, esse nova situação era muito frágil e transitória, bastando apenas as primeiras semanas do ano letivo seguinte pa ra que ela evoluísse e se tornasse uma segunda etapa de minha descrença: era, agora, o ateísmo enquanto tal, consciente de sua condição e que não desejava ser outra coisa. Isso foi no começo do 1º ano do Ensino Médio, e completará portanto oito anos em fevereiro ou março próximos. Tornei-me um “ateu clássico” – iluminista, cientificista, combatente da fé e que me envolvia em polêmicas com meus amigos religiosos procurando derrubar sua posição – justamente a coisa que não imaginava me tornar e que combatia em casa (em minha família há católicos, espíritas e ateus); a palavra “ateu” antes me gerava repulsa, e pensar que havia me tornado um me provocava uma sensação estranha devido à memória daquela repulsa que permanecia em minha mente na forma de uma impressão, de um hábito mental. Eu era algo que estava acostumado a condenar, e só com o tempo fui adequando minhas atitudes externas e internas à minha nova visão das coisas. Foi também o último ano de ensino religioso obrigatório na escola.

Há uma coisa que me esqueci de relatar. Tornei-me comunista na 6ª série. Sei, impressionante a precocidade, mas pelo menos desde a 4ª eu já repetia algumas coisas que meu pai falava. Ele foi militante do PCdoB na época em que estudava na UCSAL, durante a ditadura militar, não na sua fase mais dura mas na que sucede o Gal. Médici e que já caminhava para a abertura. Foi diretor, (alguma coisa assim) do DA de Biologia, sendo colega de curso de Moema Gramacho, atual prefeita de Lauro de Freitas, e que na época nem era envolvida com militância, segundo ele me disse. Nesse ponto, eu procurei segui-lo. Não, eu não via incompatibilidade nenhuma com o catolicismo, muito pelo contrário, achava que era uma luta por justiça e que Jesus me ajudaria nela. Encontrei na biblioteca uma coleção de livretos ao estilo “Primeiros Passos” mas que visava também o público mais jovem, a “Pergunte ao José”, e li, dentre os inúmeros exemplares que li dessa série, os volumes “Comunismo”, “Socialismo” e “Capitalismo”, além de “Poder”, “Política” e “Feminismo”. O Manifesto Comunista de Marx e Engels eu só leria todo seis anos depois, no primeiro semestre da faculdade, mas eu já torcia pelo PT e sonhava com a eleição de Lula, e tinha aversão pela TFP (da qual a única coisa que eu sabia é que era uma organização católica de Direita que combatia a reforma agrária, chefiada por Plinio Corrêa de Oliveira, também um nome que soava muito mal aos meus ouvidos; foi o que eu pude extrair lendo o livro de História de Cotrim) desde aqueles tempos de imberbe. Isso na 6ª série! Da homossexualidade eu não simpatizava não, isso aí teria de esperar a faculdade mesmo, que é onde eu adquiriria uma nova opinião e me tornaria um quase “politicamente correto”, não fosse o fato de eu ter certos problemas com a política de cotas. Eu havia avançado mais para a esquerda.

Em 2003, fiz vestibular para História na UFBA, ingressando no curso no ano seguinte. Esse período ficará para a continuação, na qual eu abordarei o que considero minha terceira etapa ateísta, e minha visão atual sobre sua relação com outros assuntos que nos interessam, como religião e conservadorismo. Mas, por ora, quero justificar a feitura desses artigos.

Justificativa

Não desejo parecer pretensioso por estar tratando de minha pessoa; sei que é muito mais importante falar de Guénon, Ortega Y Gasset, Aristóteles, Confúcio, dos escolásticos, ou de Washington e demais Pais Fundadores, ou de tantos outros que deram contribuições inestimáveis à Civilização, coisa que ela ainda espera de mim. Tampouco posso me comparar a Sto. Agostinho para supor que posso imitá-lo escrevendo confissões com o valor que teve a dele. Sei qual é o meu lugar. Porém, além de minha falta de competência para tratar de tão elevados pensadores, posso alegar uma razão positiva para compartilhar convosco a minha insignificância. Ao relatar-vos essa minha trajetória intelectual, não pretendo tratar em primeiro plano de mim mesmo, mas de assuntos que me preocupam e que são de interesse muito mais geral: creio que interessam a todos os que lêem esse blog, e até a muitos mais, que não o lêem. Li em Olavo de Carvalho textos escritos de acordo com esse método, o de abordar coisas pequenas para discutir as grandes; não que eu tenha primeiramente observado tal uso em seus escritos – ele mesmo defendeu a utilização que faz de tal procedimento, sem o qual certamente não haveria Imbecil Coletivo nenhum, assim como muitas outras coisas que ele escreveu. Ademais, creio que pode interessar aos mais próximos, aos amigos ou aos que lidam pessoalmente comigo saber um pouco mais sobre mim; e mesmo para quem não me conhece, ou nem o deseja, ou seja lá o que for, o presente tipo de relato não carece de utilidade. É só pensar que ao ler ficção, se lê sobre gente que nem existe, apesar das mensagens e informações verdadeiras que hajam nas obras de tal gênero. O leitor tem a opção de encarar esse texto como um artigo com um personagem! Espero, com tudo isto, ter despertado ou mantido o interesse de tantos quantos tenham lido (ou até, só examinado) esse post, ou, pelo menos, do máximo possível dentre esses.
Aguardem o prosseguimento desse escrito.

[1] O problema era o seguinte: quantos seres vivos poderiam existir? Se fosse possível permitir a reprodução dos seres vivos, que existem aos bilhões, indefinidamente, o processo jamais terminaria, e sempre haveriam seres por surgir. Não conseguia, então, imaginar a possibilidade, a capacidade de Deus de dar origem a toda a vida que poderia existir, pois sempre faltaria uma infinidade dela por nascer. Se Deus é conformado com isso, então ele não é tão misericordioso assim – e sim, aliás, cruel; eu, por sofrer com isso, teria muito mais misericórdia. Pior ainda era tentar imaginar que o conjunto infinito de potenciais seres a existir existisse com inteligência, como era o justo para mim. Então passei a pensar e sentir a vida – a vida como categoria absoluta sobre a qual me debrucei nesse raciocínio filosófico - como algo precário.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O Natal e o Relativismo

Natal de 2032; a decoração natalina invade as ruas, os shoppings e as casas; renas, ursos, papai noel, duendes, gnomos, neve, pinheiros, bolas e vermelho, muito vermelho. As famílias se reúnem no dia 24, fazem a ceia, comem, bebem, se divertem, trocam presentes. As crianças ficam felizes porque ganham os brinquedos que tanto queriam, os pais já gozam da tranqüilidade do final do ano.

D. Maricota, por um acidente de percurso, encontra no fundo do armário a imagem de um menino na manjedoura, ela então pensa: “Esse deve ser o tal Jesus!”. Pronto, esse é o Natal do futuro!

Esse construção hipotética não é tão impossível quanto se pensa. Hoje vivemos numa sociedade onde reina o relativismo religioso, moral, ético, cultural. A perda de tradição destrói de forma avassaladora os legados do Ocidente, e aqui me refiro as tradições familiares, religiosas e culturais. Reina de forma pujante o simplismo, o empobrecimento, o orientalismo artificial. O ethos civilizacional cristão, base fundamental de toda uma sociedade, é substituído por um espírito Nova Era, a construção de uma Nova Ordem Mundial. Ao mesmo tempo em que as heranças cristãs são destruídas, se fortalece a supervalorização caricata de “tradições” Orientais, coloco propositalmente entre aspas porque essas ditas tradições são falsas criações oriundas, justamente, do relativismo religioso ocidental; sufismo e budismo, nas formas popularmente conhecidas, feng-shui, até o espiritismo – o hinduísmo tradicional rechaça a idéia reencarnacionista do kardecismo.

Essa decadência tradicional do Ocidente abre espaço para a ascensão de um caldeirão de tendências religiosas onde reina o espírito modernista – não confundir com a sadia modernidade -, o esvaecimento e a perda de identidade, uma falta de fidelidade com a Verdade. O relativismo apenas permite a consolidação psicológica, social, desse oba-oba generalizado. As pessoas não mais se assustam, não mais se sentem estimuladas a buscar a Verdade. Essa falta de honestidade, interna (consigo mesmo) e externa (com o mundo no qual se insere), legitima atitudes, no mínimo, engraçadas. Quem não riria ao ver a Rainha da Inglaterra, soberana de um país construído sobre um sólido fundamento cristão e, para melhorar, chefe da Igreja Anglicana, omitir o nome de Cristo no seu discurso de Natal em "respeito" aos muçulmanos? Que falso respeito é esse que tolhe o próprio respeito ao povo inglês, a Inglaterra, ao Ocidente? Esse relativismo que assola essa banda do mundo já chegou nos países muçulmanos, por lá causa os mesmos estragos, é só ver a triste realidade na Turquia, Marrocos e Jordânia.

Não se trata de um choque de Civilizações, mas um vírus que invade os mundos, destrói as mentes, os costumes, a religião, a cultura, criando um espírito multicultural, híbrido, relativista, onde as positivas diferenças entre os homens se reduzem a um simplismo assustador.

Pedro Ravazzano

domingo, 30 de novembro de 2008

Católicos reclusos

Às 6 horas da manhã, uma sirene toca na chácara que abriga a Comunidade Luz da Vida, nos arredores de Goiânia. Os 37 moradores deixam suas casas e caminham para a capela. Nas duas horas seguintes, eles assistem à missa e rezam as 220 orações do rosário. A seguir, começa uma pesada maratona de missões assistenciais e de evangelização. Um grupo trata de dependentes químicos que buscam fugir do vício trabalhando no campo. Outra equipe se dedica a acompanhar mães que foram dissuadidas de abortar seus filhos. A principal tarefa levada a cabo na chácara é a produção de programas de rádio e TV com conteúdo católico. O Futebol Show, na Luz da Vida FM, combina a narração de jogos com mensagens religiosas. As atividades só terminam às 10 e meia da noite, quando todos se recolhem. Na Comunidade Luz da Vida vivem homens e mulheres que decidiram abandonar o burburinho da cidade para se dedicar integralmente à oração, ao trabalho missionário e à vida comunitária de acordo com a doutrina católica. Na chácara eles se pautam pelos princípios monásticos da pobreza, obediência, castidade e vida fraterna. Não recebem salário. Vivem do que chamam de "providência divina" – ou, em linguagem laica, doações. Até mesmo as roupas que vestem são doadas.

A Luz da Vida é uma das 450 comunidades de católicos criadas em vários estados nos últimos dez anos. Chamadas de Novas Comunidades, elas normalmente nascem de grupos de oração da Renovação Carismática Católica, o movimento que reúne elementos culturais modernos à tradição religiosa para atrair fiéis, principalmente os jovens. Estima-se que haja 12 milhões de católicos carismáticos no Brasil, que se encontram regularmente em 23 000 grupos de oração e celebram missas festivas embaladas por ritmos pop. Calcula-se que 10 000 católicos carismáticos morem nas Novas Comunidades. A pioneira delas é a Canção Nova, em Cachoeira Paulista, a 195 quilômetros de São Paulo, fundada em 1978, que reúne 1 200 fiéis. Há um mês, o papa Bento XVI concedeu o reconhecimento oficial à Canção Nova. Uma delegação da comunidade foi recebida pelo pontífice no Vaticano. No ano passado, a Comunidade Shalom, de Fortaleza, obteve a mesma distinção.

Uma vida dedicada à religião pode ter uma aura de romantismo, mas não é nada fácil. Na Comunidade Luz da Vida, apenas um de cada dez internos permanece por mais de cinco anos. As regras internas incluem submeter todas as decisões pessoais à avaliação coletiva. Um exemplo dessa interferência está nos relacionamentos amorosos. As regras variam entre as comunidades, mas, em geral, nos três primeiros anos é proibido namorar. Após esse período, dois internos que desejem iniciar um relacionamento amoroso precisam submeter sua intenção à apreciação do conselho da comunidade, formado por membros graduados. Caso seja autorizado, o namoro será casto, já que vale a orientação da Igreja Católica de que o sexo só deve ocorrer após o casamento. Rafael Leal e Lílian de Castro, diretor de jornalismo e apresentadora da TV Canção Nova, esperaram quatro meses entre o pedido formal, feito por carta, e a aprovação pelo conselho. Mas, logo após a autorização para o namoro, Rafael foi transferido para atividade missionária em Israel, onde passou um ano e meio. Só depois desse período o casal pôde, enfim, ficar junto. Eles dizem não guardar mágoa pela separação imposta. "Aqui somos consagrados a Deus. Tudo o que fazemos, todo o tempo, é para Ele", diz Lílian.

Quem busca as comunidades católicas costuma se declarar farto daquilo que vê como valores efêmeros – os mais citados são a valorização da aparência e o consumismo. Antes de entrar para a Canção Nova e se tornar superintendente de eventos da entidade, Róbson Alves, de 32 anos, era líder de torcida organizada no Rio de Janeiro e usava drogas. "Procurava me preencher nas drogas, no sexo, nas baladas e na bebida. Meu time era o meu deus. Mas, quando colocava a cabeça no travesseiro, só sentia um grande vazio", ele diz. O maranhense Luciano Parga Lobo, de 28 anos, dono de uma rede de lojas e distribuidoras de material de construção e de uma fábrica de tintas, também viveu uma crise de valores. "Lá fora eu tinha apartamento à beira-mar, casa de praia, lancha, jet ski e um carro de 200 000 reais", conta. Hoje, Lobo vive na Canção Nova e se alterna com os outros moradores em tarefas como limpeza, poda da grama, plantio da horta e manutenção do chiqueiro e do galinheiro. "Eu tinha tudo e não tinha nada. A cada dia, naquela vida, sentia que ia perdendo os meus valores numa existência desregrada", ele diz.

As normas para ingressar nas comunidades católicas são rígidas e exigem renúncias. Em primeiro lugar, é preciso interromper os estudos, o trabalho e os namoros. A partir do segundo ano, o contato com a família é restrito. Nessa fase de adaptação, os chamados noviços só deixam a comunidade em alguns dias da semana, para ir à missa e ao grupo de oração. Apenas nessas ocasiões eles se encontram com os familiares. O recebimento de telefonemas é limitado a um a cada quinze dias. É permitido telefonar uma vez por mês. A opção por esse tipo de vida, que simula a dos monges reclusos, nem sempre é aceita pela família e pelos amigos dos que ingressam nas comunidades. Em 1998, aos 18 anos, a goiana Wanessa Lôbo decidiu abandonar o curso de administração de empresas e mudar para a Luz da Vida. "Minha mãe foi falar até com o bispo para que me tirassem daqui", diz ela. Para o padre Luiz Augusto Ferreira, co-fundador da Luz da Vida, o espanto com que muitas famílias vêem a opção pela vida nas comunidades católicas reflete os valores da sociedade atual. "Vivemos num tempo em que, se é para tentar a vida ilegalmente nos Estados Unidos, os pais arrumam a passagem. Se o filho quer ir para Deus, eles se escandalizam", ele pondera.

Pode parecer estranho que as Novas Comunidades floresçam no Brasil depois de duas décadas de queda acelerada no número de fiéis católicos. A explicação para isso parece estar num fenômeno maior: a atual corrente de busca pela espiritualidade. Num mundo cada vez mais complexo e repleto de desafios, e no qual a família tradicional se acha em crise, mais e mais gente encontra conforto no âmbito do transcendental. Os livros e palestras de auto-ajuda espiritual se multiplicam em velocidade espantosa. Não por acaso, Paulo Coelho se tornou o escritor mais lido do mundo com sua sabedoria de porta de igreja. "No caso das comunidades católicas, a sensação de falta de vínculos e de apoio afetivo é preenchida por essa proposta de vida fraterna", diz a socióloga Cecília Mariz, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

O crescimento das comunidades é também resultado da reação da Igreja Católica diante da perda acelerada de fiéis para as igrejas evangélicas. Os sinais visíveis dessa reação estão nas missas campais para multidões, nos megatemplos católicos construídos nas últimas décadas e até nos adesivos com a frase "Sou feliz porque sou católico". A Renovação Carismática, que lidera esse movimento, recuperou também elementos do catolicismo tradicional, como a reza do rosário. Também passou a disputar fiéis com os evangélicos ao enfatizar as curas espirituais e falar com mais liberdade em milagres, algo que caíra em desuso desde o Concílio Vaticano II, nos anos 60. Outras práticas populares, como a bênção da água, de velas e até de objetos pessoais – as chaves da casa e do carro, por exemplo –, foram resgatadas. Tudo isso reveste a Igreja de uma nova imagem, distante daquela que vigorou entre os anos 60 e 80, impregnada do ideário esquerdista. Diz a socióloga Brenda Carranza, da PUC de Campinas, especialista em religiões: "Nos anos 80, participar da Igreja era estar engajado em obras sociais. Hoje, é ir com mais freqüência à missa, participar de vigílias e grupos de oração. Naquela época, o padre era visto como agente de transformação social. Agora, ele é um agente de transformação pessoal e espiritual". É essa transformação que move o rebanho das novas comunidades católicas.

EM NOME DA FAMÍLIA

Em 1998, o administrador de empresas Ângelo Heitor Longhi, 34 anos, e sua esposa, Ana Paula, se mudaram para a Comunidade Oásis, no Rio Grande do Sul. Lá nasceram os três filhos do casal. Longhi acha que atualmente a família é minada por valores contrários aos do Evangelho e que a vida comunitária facilita a vivência dos princípios cristãos, como a partilha, o amor ao próximo, o perdão e a fidelidade. "Em que lugar do mundo eu teria um ambiente mais propício a viver um ideal da família cristã?", ele questiona.

OPÇÃO PELO CELIBATO

O paulista de Aparecida João Carlos do Nascimento, 25 anos, está há seis na Comunidade Shalom, em Fortaleza. Embora não pretenda ser padre, ele fez a opção pelo celibato — e, portanto, pela castidade. Seu objetivo é dedicar-se inteiramente à religião. "Descobri que Deus quer isso de mim. O celibato não é uma prisão nem um peso. Afinal, a gente não é homem apenas no contexto de um relacionamento com uma mulher", diz ele.

ADEUS, NOIVO E EMPREGO

Há cinco anos, a fonoaudióloga Weslaine Cardoso, de Goiás, tinha tudo o que uma jovem pode desejar. Ganhava até 4 000 reais por mês entre o consultório particular e um emprego público e estava prestes a ficar noiva. Uma semana antes de anunciar o noivado, resolveu abandonar tudo e se mudou para a Comunidade Luz da Vida, em Goiânia. Enfrentou forte oposição da família, mas não se arrepende da mudança. "Lá fora eu tinha muito, mas aqui dentro sinto que tenho muito mais", diz Weslaine, que trabalha como produtora na rádio Luz da Vida.

O SEXO PODE ESPERAR

Quando Rafael Leal e Lílian de Castro, ambos missionários da Canção Nova, em Cachoeira Paulista, resolveram namorar, tiveram de enviar uma carta pedindo a aprovação do conselho da comunidade. Foram quatro meses de espera até receber a aprovação. O relacionamento é casto, de acordo com a orientação da Igreja Católica de que o sexo só deve ocorrer após o casamento. "É claro que sentimos atração um pelo outro, mas vivemos o amor de Deus sobre todas as coisas", diz Lílian.

FÉ NO LUGAR DAS DROGAS

O fluminense Róbson Alves, 32 anos, é superintendente de eventos no braço paulistano da Canção Nova. Antes, foi líder de torcida organizada de futebol no Rio de Janeiro e usava drogas. "Procurava me satisfazer com sexo, baladas e bebida, mas, quando colocava a cabeça no travesseiro, só sentia um grande vazio", afirma. Hoje, em vez de lotar ônibus com torcedores para ir ao Maracanã, Alves os atrai para as missas e shows católicos que promove. "Eu buscava o amor que me preencheria nas coisas erradas", diz.

MISSÃO D'ALÉM-MAR

Luísa Lima, 32 anos, e Shahir Rahemane, 21, são portugueses e descobriram a Canção Nova graças ao sinal de TV da comunidade, que chega à Europa. Ambos enfrentaram a oposição da família antes de se tornarem missionários no Brasil. "Achavam que eu estava fanatizada", conta Luísa. Rahemane teve de superar barreiras culturais. Filho de pai moçambicano e muçulmano, ele se converteu ao catolicismo. "Meu pai chorou ao se despedir de mim. Disse que preferia que eu fosse muçulmano, mas me abençoava", conta.


quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O Marxismo e a Religião: Exemplos Práticos

O marxismo por onde passou deixou destruição e chagas muitas vezes irreversíveis. A China, desde os primórdios da revolução, vive uma realidade dura e cruel onde a liberdade é perseguida e, junto com ela, as religiões, com mais força o cristianismo que tão naturalmente estimula e incita a luta dos homens contra o totalitarismo, em defesa da real vivência dos ideais Verdadeiros. Já a Venezuela sofre com a força de um governo que persegue e manipula a sociedade, um Estado que lança mão da sua máquina para gerir os movimentos e controlar a opinião pública. A religião não fica de fora. As Igrejas são alvos de ataques jurídicos e até policiais, tudo para reduzir a influência da mensagem cristã junto ao povo venezuelano. Para isso, Chávez propaga, aliado aos teólogos da libertação, o relativismo e modernismo, tão eficientes na destruição do senso religioso e da honestidade lógica do homem. Nada disso espanta a qualquer pessoa que conheça o marxismo e sua relação com a religião, desde Marx e sua ortodoxia até as novas tendências modernas.

Marx disse; "Se conheço a religião como autoconsciência humana alienada, a minha autoconsciência não é confirmada na religião, mas na abolição e superação da religião." [1] Como pontuei em outro texto, para ele a religião é simplesmente um elemento do mundo da ideologia, conseqüência da atividade da consciência dos homens na história. Logo não tem consistência própria, existência real, não tem essência, é apenas um produto histórico, o reflexo de um modo de produção. A essência da religião não se encontra nela, mas no mundo material dos homens. Por fim, a Revolução, que para ele é o rompimento, o alvorecer do Novo Homem, impede a alimentação da religião através da alienação. Não obstante, a união da religião com o marxismo ocorre justamente no ideal da redenção revolucionária, mesmo isso colocando o sacrifício de Cristo na Cruz, a única e verdadeira redenção para os cristãos, em total segundo plano. Qual seria o papel da Igreja então? Ela se tornaria um instrumento da luta de classes, e sua tomada por ideais marxistas, por se tratar de uma “superestrutura” que produz discurso e desenvolve a cultura e o pensamento, a transformaria na principal promotora da revolução cultural. Gramsci e Lukács entrariam em êxtase.

Marx ainda vai além ao dizer:
Quanto mais o trabalhador se desgasta no trabalho, mais poderoso se torna o mundo de objetos por ele criado em face dele mesmo, tanto mais pobre se torna a sua vida interior, e tanto menos ele pertence a si próprio. Quanto mais de si mesmo o homem atribui a Deus, tanto menos lhe resta. [2]
Ainda afirma:
Tal como na religião, onde a atividade espontânea da fantasia do cérebro e do coração humanos reage independentemente como uma atividade alheia de deuses ou demônios sobre o indivíduo, assim também a atividade do trabalhador não é sua própria atividade espontânea. É atividade de outrem e uma perda de sua própria espontaneidade. [3]
Percebe-se claramente que Marx relaciona a religião como mais um fator de alienação, ou seja, quando o resultado do trabalho do homem, que é determinante na definição dos valores dos bens, o objeto produzido, se torna alheio ao próprio homem, gozando de identidade própria. O produto do trabalho se volta contra o seu criador, o trabalhador, de forma hostil. A religião, por sua vez, é, para o filósofo alemão, mais um fator de esvaziamento do homem, distanciando de sua essência humana. Da mesma forma que a alienação econômica, a religiosa cria um produto com identidade estabelecida; Deus, que sacrifica o próprio homem. Ou seja, Deus, produto da fantasia do homem, invade e se torna dono do seu criador, o escravizando, o submetendo a um mundo de privações e pesares. Vale lembrar que para Marx a religião ainda é mais um artificio de dominação de classes, um produto histórico que surgiu para alienar e impossibilitar o rompimento das classes proletárias aos grilhões da exploração. Para Marx, de forma resumida, nas palavras de Giuseppe Staccone, “Deus é para o homem o que a mercadoria é para o trabalhador: um produto que passa a dominar o produtor.” [4]

Vejam que desde já fica clara a impossibilidade de conciliação entre o marxismo e a religião, em especial o cristianismo. Não obstante, desde a maturação do ideal da revolução cultural, se estabeleceu uma nova forma de relação dos ideais materialistas histórico-dialéticos com a fé, em especial devido a ação da psicologização do marxismo através da Escola de Frankfurt, e o fortalecimento da ideologização por meio de métodos mostrados por Gramsci e, posteriormente, por Lukács.

Gramsci percebeu a necessidade de uma revolução cultural por meio da qual se destruiria os velhos paradigmas de forma silenciosa, preparando o terreno para o advento do socialismo, não mais com armas, mas uma conseqüência quase imediata das radicais transformações sociais. Essa subversão do centro de valores, a destruição do ethos tradicional da civilização ocidental, passou a ser vista como o ponto determinante. Lukács, posteriormente, percebeu que os pilares mais sólidos, sobre os quais se erguera o Ocidente, eram o direito romano, a filosofia grega e, sustentando os primeiros, a moral cristã. Justamente dessa compreensão, muito sábia, devemos reconhecer, nasceu a necessidade de renovação dos métodos marxistas ortodoxos. Não mais uma veemente condenação e rechaço à religião, mas sim a conversão da fé em instrumento de propagação do ideal revolucionário. A Igreja, por exemplo, por ser uma construtora de discurso e pensamento, assim como baluarte da cultura, ao virar meio de difusão da luta de classes faz com que toda a sua potencialização contra-revolucionária seja revertida, com a mesma ênfase, em farol da destruição das bases fundamentais do homem ocidental. Desse modo, de forma resumida, podemos dizer que se entendeu que a derrubada das “superestruturas” poderia ser substituída pela tomada silenciosa das “superestruturas”. Estas, por sua vez, são definidas por Marx desse modo:
Na produção social da sua existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes da sua vontade; essas relações de produção correspondem a um grau de desenvolvimento dado as suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. [5]
Contextualizando nossa abordagem, podemos comparar a aplicação desses métodos distintos com o que hoje vemos na China e na Venezuela. A China não conheceu os princípios de Liberdade e Democracia, nem tinha em sua essência basilar o espírito cristão, tão determinante no fracasso dos ideais socialistas. Desse modo não fica difícil perceber que a aplicação da ortodoxia marxista em relação a religião não foi problemática num país agrário, com pouco desenvolvimento econômico e social, com religiões distantes de uma conscientização política fruto do amadurecimento doutrinal e histórico. A Igreja Católica na China, muito diminuta, não era um obstáculo ideológico a ponto de ser determinante em um possível fracasso comunista. Desse modo, sem um espírito contra-revolucionário intrínseco a formação social, o Estado marxista lançou mão de sua força totalitária para perseguir e reprimir todos aqueles que pudessem subverter a nova ordem, incluindo instituições. Mesmo o cristianismo sendo pouco presente em terras chinesas, as Igrejas em seu solo poderiam servir como canais de propulsão de um ideal de liberdade e fé, uma combinação muito explosivo para os comunistas. As Igrejas não precisavam do apoio dos países capitalistas ocidentais para que fossem justificadas as perseguições pelo regime, o simples fato de ensinar o Evangelho, que carrega no seu âmago uma mensagem de esperança, tornaria a presença de Cristo perigosa.

O governo chinês, de forma estratégica, percebeu que aliciando, aproximando a Igreja do regime, fazendo com que necessitasse do Estado para manter sua vida apostólica, enfim, criando um vinculo muito estreito com o poder político, poderia controlar e gerenciar os passos do clero, fazendo com que perdesse força e influência, o que, naturalmente, acarretaria a diminuição dos fiéis e a extinção da Igreja. Para tanto foi desenvolvida a “Tríplice Autonomia”, que afirmava que a Igreja na China deveria gozar de total “autonomia” perante as outras nações a tudo que envolvesse a evangelização, custeamento e coordenação. Com isso foi exigido relatórios mensais com o discernimento das contribuições recebidas e, posteriormente, foi proibido por lei qualquer contato com outras nações, endossando juridicamente a expulsão de religiosos estrangeiros. Desse modo se cortava toda a relação da Igreja chinesa com o mundo, fazendo dela uma presa fácil ao poderio do Estado, assim como fechando as torneiras que alimentavam e subsidiavam os trabalhos missionários no país.

Alguém pode se perguntar; por que todo o clero se submeteu ao poder do Estado chinês? Não, um grupo de religiosos e fiéis se manteve integro e devoto da ortodoxia católica, esses sofreram com as acusações de serem servos do capitalismo e do imperialismo, sofreram com as perseguições, martírios, prisões, torturas, confisco de bens, destruição de igrejas e mosteiros etc. Outro grupo, composto por homens e mulheres que se aliaram ao governo, enxergando nessa aliança a única forma de professar sua fé, mesmo que fosse as custas da corrupção da doutrina, acabou gerando o que se chama Igreja Patriótica. Eles sucumbiram depois que viram as enormes impossibilidades impostas pelo governo aos católicos ligados a Roma. Trocaram a fidelidade por uma falsa liberdade. A "Associação patriótica dos católicos chineses" nasceu fundamentada na estreita ligação com o partido comunista chinês a ponto de permitir nas suas normas as orientações e nomeações do PCC. Além disso tem como obrigação estatutária fazer com que a Igreja Católica marche rumo ao futuro socialista e goza, em Direito, de independência, autonomia e autogestão, ou seja, sem interferência da Santa Sé.

Não obstante, na Igreja patriótica existe uma busca pelo reconhecimento de Roma, um sentimento muito sincero e puro. Os fiéis e o clero tentam retornar a plena comunhão com a Santa Sé. Interessante é o esforço para validar canonicamente os Bispos patrióticos; quando o Estado seleciona os nomes para as dioceses eles são enviados secretamente a Roma e, posteriormente, são estudados e escolhidos pelo Papa que os reenvia a China. Só aparecem para a ordenação aqueles que tiveram a autorização do Santo Padre. Eles sabem que ordenação sem aval do Sumo Pontífice incide em excomunhão automática (como ocorreu com Lefevbre).

A situação da igreja patriótica, hoje, não é melhor do que a das catacumbas, a verdadeira Igreja Católica da China. Na época da revolução cultural ambas foram proibidas e tiveram seus bens confiscados. Os Bispos e padres eleitos e ordenados, apenas com a permissão do Estado, sabem da triste situação em que se encontram, ainda sofrem porque os religiosos ordenados licitamente não concelebram com eles e os fiéis não aceitam seus sacramentos. Cardeal Zen, Arcebispo de Hong Kong, a maior voz em defesa da liberdade da Igreja, disse que cerca de 85% dos Bispos da Igreja patriótica foram aprovados secretamente pelo Papa (muitas vezes os nomes que os fiéis mandam para a aprovação pelo governo são de religiosos já escolhidos pelo Papa). O governo não sabe como reverter essa situação.

Na Venezuela as coisas mudam de figura. Estamos falando de um país ocidental, criado nas bases que sustentam toda nossa civilização, erguido sobre valores e princípios cristãos, e nascido com um espírito de Liberdade por meio de Simão Bolívar que, diferentemente do que pintam, não tinha ideais coletivistas e igualitaristas, até porque se tratava de um aristocrata e maçom, ou seja, submerso nas novas tendências filosóficas que, por sua vez, passavam longe de um cripto-socialismo. Dessa modo percebemos desde já que a perseguição a religião em terras venezuelanas não se aplica do mesmo modo como na China, diferentemente da ortodoxia, ou da tentativa de ortodoxia, do maoísmo, o chavismo se esforça para aliciar a Igreja, força que se corrompida, por criar e sustentar um discurso, se torna instrumento de ampla ideologização e doutrinação.

A Igreja Católica Reformada da Venezuela é a fusão do anglicanismo, catolicismo e modernismo. Ironicamente, a nova denominação não defende o casamento homossexual nem ordena mulheres, mas, por andar lado a lado com o relativismo, é apenas uma questão de tempo para que o arcabouço doutrinal se adapte as novas “necessidades”. Outra coisa interessante é que a Igreja Católica Reformada recebeu um taxativo não da Comunhão Anglicana ao pedido de reconhecimento, mais interessante ainda é que teve o apoio da Igreja Anglicana Conservadora da América do Norte, comandada do Texas, que surgiu por se recusar a se submeter ao liberalismo reinante na Igreja Episcopal que, inclusive, ordenou um gay.

De fato, a Igreja Reformada da Venezuela não é oficial nem oficialmente representante da crença do líder máximo do país. Entretanto se diz solidária e sensível aos projetos e reformas do Presidente, compartilhando dos planos socialistas e revolucionários de Chávez, como deixou claro Enrique Albornoz, um ex-ministro luterano que é o principal bispo, o líder, da Igreja Católica Reformada. E vejam que engraçado; Alvarado, que era um Padre católico, celebrou seu próprio casamento com sua ex-assistente. Certo estava D Jorge Cardeal Urosa, Arcebispo de Caracas, ao dizer que essa igreja era "uma espécie de canja de galinha, uma salada verde, algo que não terá qualquer coerência interna".

Percebam que o objetivo da Igreja Reformada da Venezuela é minar o catolicismo internamente através da corrupção do clero, da difusão de um espírito relativista e liberalizante. Desse modo, adotando um discurso populista e socialista, em plena comunhão com os métodos panfletários de Chávez e sua poderosa máquina totalitária e publicitária, que inventa um paraíso bem diferente da fome e das filas tão comuns no país, essa denominação pega carona no tal “sucesso” do chavismo. Como disse D. Roberto Luckert, Vice-presidente da Conferência Episcopal Venezuelana, "Eles se vestem como padres, ministram batismos e crismas - tudo pago pelo governo - enquanto as pessoas passam fome" e "O que eles querem fazer é colocar um fim à Igreja Católica, mas não tiveram sucesso". Sem o catolicismo, sem a vivência do verdadeiro Evangelho, sem a defesa da Liberdade, o aspirante a sumo ditador tem o caminho livre para instaurar o regime de terror.

Enfim, percebemos a total incongruência entre o marxismo e a religião, compreendemos como os ideais de Marx, assim como as diversas correntes que posteriormente surgiram, tendem a destruir e minar a fé ou, no máximo, torná-la uma ferramenta de luta de classes, um instrumento muito valioso na corrupção das bases fundamentais da nossa Civilização. Exterminar a religião cristã no Ocidente é corromper e derrubar o pilar mais seguro que mantém uma história de séculos e séculos, é acender um fogo que transformará em pó um legado de milênios. A demolição das pilastras abrirá as portas do inferno no mundo, portas essas que jamais irão prevalecer sobre a Igreja.

[1] MARX, Karl, Manuscritos Econômicos e Filosóficos p. 162

[2] MARX, Karl, Manuscritos Econômicos e Filosófico, p. 97

[3] MARX, Karl, Manuscritos Econômicos e Filosóficos p. 93

[4] STACCONE, Giuseppe, Filosofia da Religião O Pensamento do homem ocidental e o problema de Deus, p. 137

[5] MARX, Karl, Prefácio à Introdução à Contribuição para a Crítica da Economia Política

Pedro Ravazzano

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Maior jornal italiano cita pensador contra-revolucionário brasileiro

Segundo informa o site Plinio Corrêa de Oliveira, um dos maiores jornais italianos, o esquerdista "La Repubblica", fez referência à obra "Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza Romana" de Plínio Corrêa de Oliveira, nos seguintes termos:
"Juntamente com outros (nobres) descendentes dos Colonna, Massimo, Orsini, Torlonia, Chigi, Boncompagni, poderiam ser encaixados nos esquemas nos quais um autêntico mestre do pensamento contra-revolucionário como Plinio Corrêa de Oliveira os inseriu na obra “Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao patriciado e à nobreza romana” (“La Repubblica”, 28-9-2008, edição dominical, p. 34).
O site acima citado comenta sobre o artigo: "Oxalá certos órgãos da imprensa nacional, até por uma questão de eqüidade, soubessem tirar proveito do prestígio de que goza o pranteado líder católico e intelectual brasileiro nos meios intelectuais do exterior, mesmo quando não concordem com todas as suas idéias."


E concluí: "No próximo dia 13 de dezembro, comemorar-se-á o centenário de nascimento daquele que foi merecidamente qualificado como o “Cruzado do século XX”. Talvez certa imprensa brasileira esteja aguardando tal ocasião para fazer comentários objetivos a seu respeito. Seja como for, aproveitamos o ensejo para sugerir que os simpatizantes da figura de Plinio Corrêa de Oliveira escrevam aos órgãos de comunicação (escrita, falada, ou na Internet) que costumam utilizar-se para informá-los de tal efeméride, a fim de que eles possam atender ao direito de saber que todos seus leitores têm."

sábado, 1 de novembro de 2008

Opus Dei, Modernidade e Relativismo

Eu resolvi escrever esse artigo depois que constatei a total corrupção, para não dizer alienação, das pessoas a respeito do Opus Dei. Claro que o caso da Obra (Opus Dei é Obra de Deus em latim) serve para exemplificar o alto grau de deturpação, decadência, que se encontra os homens e mulheres que vivem na sociedade ocidental. A total inversão e destruição do centro de valores, do tradicional ethos civilizacional, acabou por gerar uma situação, no mínimo, engraçada; o que ontem era moderno hoje é visto como radicalmente conservador.

Vejamos o caso do Opus Dei. A Obra surgiu sustentada na modernidade, um espírito de vanguarda, até precursor do aggionarmento do Concílio Vaticano II. Dentre os traços mais caraterísticos da Prelazia podemos citar a filiação divina, oração e sacrifício, unidade de vida, liberdade, caridade e santificação do trabalho. Aqui entra a sadia novidade trazida por São Josemaría Escrivá; o leigo como semeador do Evangelho, a vida cotidiana como um apostolado contínuo. Aquele jovem Padre que tanto repetia as palavras do cego; Domine, ut sit!, Domine, ut videam!, percebeu a importância do cristão comum, a relevância da personificação do cristianismo no dia-a-dia através desses homens e mulheres que sofriam as amarguras da vida e gozavam das felicidades do mundo. Essa novidade foi muito bem vista por Roma, mas sofreu com uma certa animosidade dos setores mais arqueológicos do clero. De fato, São Josemaría foi visto como um progressista. Na verdade sua mensagem era sim moderna, não modernista, mas apenas colhia os bons frutos dos novos tempos e, vale frisar, não rechaçava o legado Tradicional e magisterial, ao contrário, confirmava e via essa herança tão valiosa como instrumento de reafirmação.

Esse é o Opus Dei. Vejam que surgiu e cresceu com um espírito arejado, carregando o frescor do alvorecer católico do séc. XX. Juntamente com outros movimentos que nasceram, como Comunhão e Libertação, Legionários de Cristo etc, defendia a santidade, a fidelidade ao milenar Depósito da Fé, mas sem perder a jovialidade. Outro grande teólogo, que nos meados do século passado foi de grande importância no debate teológico, se chamava Ratzinger. O futuro Bento XVI era moderno mas não renegava os ensinamentos tradicionais, via com grande entusiamo a modernização da Igreja, sem que para isso ela tivesse que sucumbir aos erros progressistas e modernistas.

Percebam que estamos falando de tendências religiosas que até ontem eram vistas como arejadas, já hoje são taxadas de radicalmente tradicionais. Primeiramente é bom frisar que conservador todo católico é, ou ao menos deveria ser, já que o cristianismo se fundamenta em conhecimentos que são transmitidos e conservados. Como então explicar essa forte mudança de percepção em relação aos casos citados? Simples! Houve uma transformação muito acentuada na estruturação do pensamento do homem ocidental. O relativismo passou a reinar de forma pujante. A fidelidade a Verdade, ou a busca pela Verdade, tornou-se supérflua.

O Concílio Vaticano II, que teve seu espírito desenvolto graças a homens como Ratzinger, e até Cardeal Newman, e movimentos novos que traziam aspirações modernas, como o Opus Dei, foi vilipendiado na sua correta hermenêutica. O clero modernista seqüestrou a interpretação conciliar, difundido no término do CVII uma ótica perceptivelmente herética, mesquinha, simplista, sem continuidade com o legado eclesial.

Somando essa crise pós-conciliar com o triunfo de um espírito relativista na sociedade, onde se supervalorizava o multiculturalismo, o coletivismo-apaixonado, o materialismo igualitarista, não fica difícil concluir que os antigos modernos viraram os novos antiquados na visão do homem comum, homem que passou a ser bombardeado por uma avalanche de novidades, desde a relativização do que até ontem era Verdade, a deturpação dos ideais de democracia e liberdade, a "flexibilidade" do centro de valores, a destruição dos símbolos e da mística.

A redução da religião a questões morais e éticas, o enrijecimento da Igreja, ao encontrar o relativismo que justificava intelectualmente a recusa ao legado tradicional do Magistério, sancionou, por exemplo, a união da religião com o marxismo, se desenvolvendo a Teologia da Libertação. Marx disse: "Se conheço a religião como autoconsciência humana alienada, a minha autoconsciência não é confirmada na religião, mas na abolição e superação da religião." Ou seja, a religião é simplesmente um elemento do mundo da ideologia, conseqüência da atividade da consciência dos homens na história. Logo não tem consistência própria, existência real, não tem essência, é apenas um produto histórico, o reflexo de um modo de produção. A essência da religião não se encontraria nela, mas no mundo material dos homens. Por fim, a Revolução, que seria o rompimento, o alvorecer do Novo Homem, impediria a alimentação da religião através da alienação. Não obstante, a união da religião com o marxismo ocorreria justamente no ideal da redenção revolucionária, mesmo que isso colocasse o sacrifício de Cristo na Cruz, a única e verdadeira redenção para os cristãos, em total segundo plano. Qual seria o papel da Igreja então? Ela seria um instrumento da luta de classes, e sua tomada por ideais marxistas, por se tratar de uma “superestrutura” que produz discurso e desenvolve a cultura e o pensamento, a tornaria a principal promotora da revolução cultural. Gramsci e Lukács entrariam em êxtase.

Percebam que essa dita aliança, religião – marxismo, se fundamenta no mais genuíno relativismo. Só para lembrar, Bento XVI, na Spe Salvi, lembrou que Marx “esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de facto, o homem não é só o produto de condições económicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições económicas favoráveis.”

A mentalidade moderna se tornou extremamente pobre e simplista. Aqui vale um adendo, eu não acho que a mentalidade mais amplamente difundida seja revolucionária politicamente, mas sim espiritualmente, culturalmente. De acordo com Olavo de Carvalho ““Mentalidade revolucionária” é o estado de espírito, permanente ou transitório, no qual um indivíduo ou grupo se crê habilitado a remoldar o conjunto da sociedade – senão a natureza humana em geral – por meio da ação política; e acredita que, como agente ou portador de um futuro melhor, está acima de todo julgamento pela humanidade presente ou passada, só tendo satisfações a prestar ao “tribunal da História”.” Considero que o homem médio atual é de fato propenso a um relativismo doentio, uma desonestidade e combate ferrenho a tudo que se diga autêntico e verdadeiro. Acho que o modo de pensar da modernidade, como vemos hoje, alimenta e estimula o ideal revolucionário, na verdade é resultado da ação revolucionária. Hoje podemos distinguir os homens entre aqueles que carregam esse discurso de ação política, e os outros, a grande maioria, que trazem consigo o vocabulário da ação cultural, que considero mais avassaladora, já que age de forma difusa e silenciosa, servindo a interesses que nem mesmo sabe que existe. E é justamente dessa movimentação cultural que se desenvolve a idéia de que tudo é relativo e de que não existe certo e errado. Ora, se tudo é relativo, "tudo é relativo" é relativo. Se "tudo é relativo" é relativo logo nem tudo é relativo, ou seja, dizer que "tudo é relativo" não se sustenta. A mesma coisa vale para o “não existe certo e errado”. Se não existe certo e errado como se pode dizer que “não existe certo e errado” se o “não existe certo e errado” se considera certo? São essas contradições, essas falácias, esses argumentos que não se mantém, ilógicos, refutados com a mais modesta contra-argumentação, que povoam o imaginário simplório dos homens atuais.

Pedro Ravazzano

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Pacto de Metz: A Igreja Católica se aliou ao comunismo?

O Pacto de Metz teria sido um acordo, assinado em Metz, na França, entre a Igreja, representada pelo Cardeal Tisserant (que tinha junto consigo o então Cardeal Montini, futuro Paulo VI) e a URSS, através do Patriarca de Moscou, Nikodim, testa de ferro do regime comunista. Com a formalização desse pacto, ficaria acordado que a igreja cismática enviaria observadores ao Concílio e, em contrapartida, haveria total silêncio acerca do comunismo. Da mesma forma, com o mesmo espírito conspiratório, rumores afirmam que na verdade o Pacto de Metz não passou de uma invenção da KGB para denegrir a Igreja.

A excomunhão ao comunismo é reflexo do ateísmo e materialismo que fazem parte da essência dessa doutrina. Destarte, aqueles que se encaixam no decreto de S.S Pio XII são os que aderem ao marxismo enquanto concepção filosófica anti-cristã, revolucionária, anti-natural, totalitária etc, ou seja, apóstata. Como bem sabemos, a excomunhão latae sententiae se faz em casos de apostasia, heresia, cisma etc. Mesmo com a existência de tal pacto, nenhum dos envolvidos, João XXIII, Cardeal Tisserant, Cardeal Montini, tinham a intenção de criar um cisma, muito menos apostatar da fé. Era um acordo, assinado entre dois Sucessores dos Apóstolos, afinal Nikodim foi ordenado validamente, que tinha como objetivo o silêncio, não a defesa inconteste do comunismo ateu. Ainda vale lembrar que o Papa, enquanto supremo legislador eclesiástico, pode suprimir a lei temporariamente, quando achar oportuno. Ademais, a excomunhão é automática para os que aderem ao comunismo enquanto doutrina filosófica materialista e atéia, o que gera apostasia, daí a excomunhão latae sententiae. Quem se diz socialista, crendo que socialismo é justiça social, não cai em excomunhão automática. O que deve ser levado em questão não é a filiação nominal, mas a profundidade ideológica. Desse modo, o Concílio foi legítimo, tanto com o Beato João XXIII, de onde teria partido a ordem, e com Paulo VI, que teria participado do acordo ainda como Cardeal. Entretanto, é pertinente relembrar que há uma grande diferença entre assinar um documento defendendo o comunismo, com consciência da incongruência entre o materialismo dialético e o cristianismo, com total condescendência ao erro marxista, e um acordo que tinha como objetivo não relembrar as condenações ao comunismo no Concílio. Até porque, como o tal pacto envolveria diretamente um Papa, João XXIII, o mesmo que proibiu católicos de se aliarem a partidos e políticos comunistas, e dois Cardeais, é legítimo concluir que eles sabiam que mesmo com a omissão do comunismo no Vaticano II, isso em nada modificaria os anátemas já feitos, logo, mesmo com a existência do Pacto, não teriam a inocência de acreditar que esse silêncio revogaria anos de ensinamentos.

Dois pontos de grande relevância; o Concílio optou por utilizar um método positivo, sem anatemizar e recondenar o que já havia sido condenado. Ora, com pacto ou sem pacto, o Vaticano II não faria uma taxativa condenação ao comunismo, vale lembrar que milhares de instituições religiosas foram questionados sobre os assuntos que queriam que fossem abordados no Concílio; o comunismo nem apareceu na lista. Outra questão que não podemos nos esquecer, o Magistério da Igreja é contínuo, infalível nos seus ensinamentos, não se anula nem entra em contradição. O comunismo já via sido condenado desde o Beato Pio IX, logo, mesmo com o Concílio não relembrando a anatemização do materialismo dialético, este continuaria execrável. Mesmo existindo esse Pacto de Metz, esqueceram de avisar ao então Arcebispo de Cracóvia, Karol Józef Wojtyla, afinal, S.S João Paulo II, o Papa que colocou na prática o Concílio, era abertamente anticomunista e fez da derrubada dos regimes genocidas totalitários socialistas sua bandeira pessoal.

Não obstante, é pertinente recordar que o comunismo foi lembrado no Concílio e condenado, não da forma “syllabica” que alguns queriam, mas dentro da metodologia conciliar;

O ateísmo moderno apresenta muitas vezes uma forma sistemática, a qual, prescindindo de outros motivos, leva o desejo de autonomia do homem a um tal grau que constitui um obstáculo a qualquer dependência com relação a Deus. Os que professam tal ateísmo, pretendem que a liberdade consiste em ser o homem o seu próprio fim, autor único e demiurgo da sua história; e pensam que isso é incompatível com o reconhecimento de um Senhor, autor e fim de todas as coisas; ou que, pelo menos, torna tal afirmação plenamente supérflua. O sentimento de poder que os progressos técnicos hodiernos deram ao homem pode favorecer esta doutrina.

Não se deve passar em silêncio, entre as formas actuais de ateísmo, aquela que espera a libertação do homem sobretudo da sua libertação económica. A esta, dizem, opõe-se por sua natureza a religião, na medida em que, dando ao homem a esperança duma enganosa vida futura, o afasta da construção da cidade terrena. Por isso, os que professam esta doutrina, quando alcançam o poder, atacam violentamente a religião, difundindo o ateísmo também por aqueles meios de pressão de que dispõe o poder público, sobretudo na educação da juventude.” (GS, 20)

“Fiel quer a Deus e quer aos homens, a Igreja não pode deixar de reprovar com firmeza, como reprovou até agora, aquelas doutrinas e atividades perniciosas que contradizem à razão e à experiência humana universal e privam o homem de sua grandeza inata.” (GS, 21)

Com pacto ou sem pacto, nós nunca iremos saber se o Concílio condenaria nominalmente o comunismo. O tal acordo em Metz seria muito inócuo, afinal o Vaticano II escolhera uma metodologia positiva, ou seja, uma taxativa anatemização entraria em contradição com a própria organização conciliar. Sem o pacto, na concepção dos seus defensores, o Concílio faria uma concessão metodológica ao condenar o materialismo dialético. Não obstante, vale frisar, que mesmo com essa taxativa excomunhão, o desenrolar da história nos leva a crer que nada se modificaria na corrupção de partes do clero pela doutrina comunista, assim como a infiltração de agentes socializantes na Igreja. O ataque a institucionalização, a hierarquia, a estrutura clerical, se tornou a bandeira dos socialistas ditos cristãos. Ora, com a recordação dos anátemas, apenas se consolidaria o discurso dos defensores do materialismo, criando uma realidade bipolar, se melhor ou pior do que o a que se formou, não saberemos.

Pedro Ravazzano

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Gnose, heresia e ortodoxia

"O gnosticismo é uma proliferação de heresias que, apesar de sua diversidade, tem alguns pontos em comum. O termo é muito ambíguo, porque não todas as escolas englobadas sobre essa denominação se qualificaram como gnósticas, porque ignoramos todas as influências que os doutores gnósticos experimentaram e as fontes primeiras de onde sacaram suas idéias. Sem embargo, o termo é tradicional e ademais, no fundo, todas as seitas gnósticas tem muitos contatos, surgidos de necessidades análogas e seguindo uma direção paralela.

(...) Não se trata de um simples saber e de uma ciência a secas, senão de conhecer a Deus, ver-lo, possui-lo. Mas esse conhecer, ver e possuir não se adquire pela dialética nem pela fé. A princípio se trata, pois, de um conhecimento místico.

[Com o contato com a filosofia, especialmente a platônica, os doutores gnósticos se aproximaram das religiões orientais, reflexo da necessidade de confeccionar um sistema religioso], a dialética filosófica foi portanto substituída por uma mitologia abstrata e sentimental, artificialmente criada, onde entra a astrologia e magia. (...) O gnosticismo, diz-se, é a "helenização do cristianismo levada ao ponto mais alto" (Harnack) (...) Existe também uma gnose cristã completamente ortodoxa, gnose que aceita a influência da filosofia, especialmente de Platão e do neoplatonismo, em tudo aquilo que não era oposto aos dogmas cristãos.

[Ao falar de Clemente de Alexandria, o autor comenta] A gnose não contradiz a fé; não solamente a sustenta e esclarece em alguns pontos, senão que a eleva a uma esfera mais alta; do domínio da autoridade ao domínio da ciência lúcida e da adesão íntima, espiritual, que emana do amor de Deus. A fé e a gnose estão unidas entre si porque as duas extraem seu conteúdo da Sagrada Escritura; a fé é conhecimento breve e compendioso das coisas necessárias; a gnose é demonstração das coisas tomadas pela fé; daí que uma seja estado elemental e preparatória da outra."

Luis M. de Cadiz (Pe. Antonio Ulquiano-Murga) em Historia de la Literatura Patristica (1954).

Tradução: Pedro Ravazzano

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Sagrado Coração

Em 1981, o decreto da Congregação dos Ritos proclamava que a Festa do Sagrado Coração, que este mesmo decreto instituía, não era uma novidade, senão "a síntese de todas as festas em que se celebram diferentes mistérios de nossa salvação". É uma recapitulação e, poderia se dizer, uma condensação de todo o Mistério cristão. E é que, em efeito, o coração é o centro, fonte da vida, do amor e da inteligência, e por conseguinte de identificação. Como dissemos, no coração do homem reside a "imagem de Deus", que há nele, o Ser, pois "o reino de Deus está dentro de vós" (Lc 17,21). É evidente, portanto, que o coração humano é feito a imagem do Coração divino, "centro de todos os corações" e "em quem resida a plenitude da Divindade". Toda a espiritualidade, na expressão dos Padres, consiste em passar da imagem à semelhança ou similitude (homéôsis). Como disse Nicolau Cabasilas, os cristãos são "membros de Cristo...sempre na comunicação com um Coração vivo", este "Coração bem-aventurado" (makaria cardia), centro ontológico da Pessoa de Cristo, se identifica só no "santo altar" (hieron thysiasterion) do sacrifício não sangrento. Por este Coração sagrado de Cristo, a virtude do altar atrai a verdadeira vida para as transmitir" (Nicolau Cabasilas, la Vida en Cristo)

Essa doutrina mistica, repetimos, se remete a própria origem do cristianismo, mas em certo modo foi revivida, e logo amplamente difundida, a partir do séc. XII e XIII, e apareceu finalmente a plena luz em Paray no séc. XVII. Entre os devotos do Sagrado Coração, esta união com o Coração divino, que em alguns chega a identificação, se operou de duas formas; seja mediante um refugiar-se no Coração, seja mediante uma "troca de corações".

O primeiro modo é o que se denominou "Viver espiritualmente no Coração de Jesus". Está descrito num comentário místico da passagem do Cântico dos Cânticos, em que o Esposo convida a amada (ou seja, a alma), nestos termos; "levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem. Minha pomba, oculta nas fendas do rochedo, e nos abrigos das rochas escarpadas, mostra-me o teu rosto, faze-me ouvir a tua voz. Tua voz é tão doce, e delicado teu rosto!" As "fendas" e os "abrigos das rochas" se assemelham a ferida do Coração do Esposo e ao interior do mesmo Coração; assim é, por exemplo, para Santo Antônio de Lisboa (1195-1497). O simbolismo se precisa e passa a se identificar, muito significativa, do Coração com a Caverna: " «Ven, paloma mía..., vena los agujeros de la piedra, a la caverna abierta en medio de la muralla... Esta caverna es la abertura del costado de Nuestro Señor. El alma tiene que refugiarse en la caverna profunda, a saber en la llaga del costado de Jesús y en su Corazón».

Assim, Santa Matilde, no curso de uma visão do Coração Luminoso, viu seu próprio coração sumido no de Cristo. (..) Em tal processo se opera uma reintegração do batizado no estado do Paraíso terreno, como assinala com razão René Guénon: "Esse é - escreve - o significado de "viver espiritualmente" no Coração de Cristo, pois o Coração de Cristo, como o Paraíso, é o Centro do mundo".

O outro modo dessa via espiritual do Sagrado Coração é a experiência curiosa e relativamente difundida da "troca de corações", por exemplo em Santa Catarina de Sena e em Santa Lutgarda (séc. XIII), cujo coração Cristo tomou e deu o Seu, coisa que Tomás de Cantimpré, teólogo e confidente da santa, explicava de modo muito pertinente nesses temos: "Era a união do Espirito incriado e o espirito criado pela excelência da Graça; é o mesmo que disse o Apostolo: "Quem se une a Deus se converte em um só espirito com Ele" (I Cor. 6,17).

É inevitável estabelecer aqui um paralelo entre esta devoção ao Coração de Cristo na vida espiritual oriental do hesicasmo, com sua prática da "Oração do Coração". Ela busca fazer com que Jesus habite no coração do fiel e, em última instancia, identificar os dois corações; o meio empregado, como se sabe, é a invocação repetitiva do Nome de Jesus. Pois bem, é muito sintomática que a Igreja, no Ocidente, instituísse uma "Festa do Santo Nome de Jesus", quase na mesma época em que se estendia a devoção ao Sagrado Coração (séc. XIV), como complemento desta; mais ainda quando, na liturgia dessa festa, se canta o celebre hino Jesus dulcis memoria, Dat vera cordis gaudia, Sed super mel et omnia, Ejus dulcis paesentia; hino em que a palavra memória, "recordação", é totalmente característica como termo técnico para designar muito exatamente o método da invocação repetitiva destinada precisamente a atrair a "presença". Agreguemos finalmente que alguém disse que esta invocação do Nome de Jesus, o mesmo que a devoção ao Seu coração, tinha caráter escatológico; que estava particularmente reservado aos "últimos tempos", durante os quais a invocação do Nome seria um modo privilegiado para conseguir a salvação (...) Essa devoção autentica ao Sagrado Coração segue estado a disposição do cristão como uma das vias espirituais mais elevadas, e sem dúvida a mais simples e mais direta: a contemplação assídua do Coração irradiante, Sol espiritual, faz com que o contemplativo se vá tornando pouco a pouco apto para receber a revelação da Luz transcendente que arranca do salmista esse grito assombroso: "Em Tua luz vemos a Luz" (Sal. 35, 10) (Jean Hani - Mitos, Ritos y Símbolos)

A diferença entra a "mística do Coração" do hesicasmo ortodoxo e a "mística do Coração" da Igreja Católica é paralela as diferenças que distinguem a espiritualidade das Igrejas orientais e ocidentais.

Assim, enquanto que para os monges do Monte Athos, o Coração venerado é o de Jesus na Glória da Transfiguração, Coração que habita no coração dos monges os iluminando, para os místicos ocidentais, o coração adorado é o coração amante, sofredor e sangrante do Crucificado, contemplado fora deles e que desejam substituir com os seus próprios. Uma mística do coração centrada sobre o simbolismo da luz e a participação na glorificação, se diferencia portanto de uma mística do coração centrada sobre o simbolismo do sangue e a participação no sofrimento. É a mesma distinção entre uma Igreja mais orientada para o mistério da Ressurreição e uma Igreja orientada para o mistério da Paixão.

É assim como se diferenciam ambas Igrejas, como Oliver Clemente comenta quando escreve que "a alegria pascoal da Ressurreição (...) nunca foi ocultada na Ortodoxia magnifica da Sexta-Feira Santa". Outra diferença entre as místicas é que a do Hesicasmo foi codificado, regularizado, sido metodicamente transmitido no meio monacal por mestres espirituais inspirados, e perdurado até nossos dias através de todos os santos nomes da Filocalia. Enquanto que a mística do coração católica se tornou uma experiência espiritual singular, rara, espontânea se se pode dizer, presença de pura graça quase exclusivamente centrada em conventos femininos, ao menos desde as revelações de Paray-le-Monial. (...)

Ademais, enquanto que a "mística do coração", na ortodoxia, tem conta suas diferenças específicas, segue reservada ao mundo monacal, ao retiro silencioso e solitário da cela dos monastérios, e permanecido sempre abaixo do controle dos mestres espirituais, santos, doutores, higúmenos e staretz. Entre os católicos, essa mística se queria pública, aberta a todos, clero, leigos, homens, mulheres, crianças, sem direção espiritual séria, e na qual as suscripcões, tômbolas, substituíram os exercícios espirituais da Filocalia (Roger Parisot - Connaissance des Religions nº 57-58-59 - Lumières sur la Voie du Coeur)

Tradução: Pedro Ravazzano

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Os Prédios dos Maristas

Em Salvador não se fala de outra coisa. A antiga casa do Colégio Marista foi vendida para uma construtora, tudo será derrubado e três torres irão subir. Fico consternado, mas além da minha preocupação com a bela história que ali pulsa de forma vibrante, percebo esse desleixo e falta de caridade como conseqüência de uma crise espiritual contida no seio da Congregação.

A Congregação dos Irmãos Maristas, Fratres Maristae Scholarum, é sem dúvida uma das mais belas da Igreja, carregando um grande carisma e uma espiritualidade muito particular. A Congregação foi fundada em La Vallà-em-Gier, em La Loire, na França, por São Marcelino Champagnat. Os Irmãozinhos de Maria, Petits Fréres de Marie, tendo Marcelino a frente, surgiram para suprir uma carência na França revolucionária e pós-revolucionária. Champagnat percebia a crise no sistema educacional francês, era sensível aos horrores que a juventude passava ao ser educada por fanfarrões que semeavam o ateísmo e o anti-clericalismo. O seu chamado a ser Fundador nasceu da indignação e, principalmente, do amor aos jovens, amor que seria simbolizado através da construção de uma casa espiritual na qual as crianças pudessem receber uma educação íntegra, humanística, cristã e devota.

Foi com esse espírito fundacional que a Congregação Marista se estabeleceu. Daí ganhou o mundo, indo aos países e criando dignos colégios e institutos de ensino. Tanta caridade instigava o ódio nos inimigos. Os Maristas foram expulsos da França e lutaram na Primeira Guerra forçosamente. Na Guerra Civil Espanhola os irmãos maristas foram assassinados, martirizados por não compactuarem com a barbárie comunista. É até bom refletir as palavras de Ir. Laurentino, um dos quarenta e sete mártires da Espanha; “Agora, mais do que nunca, nós devemos afastar tudo o que é política de nossas casas, como tudo o que pode fomentar divisões e grupos. Que triste espetáculo faria o religioso que se declarasse simpatizante de algum setor político... O religioso, pelo menos um irmão Marista, não deve ter outra política que a de Cristo!” Ah se todo religioso seguisse essa máxima, ah se todo Irmão não corrompesse os ensinamentos bíblicos para encaixar um discurso materialista histórico-dialético. Na China o sangue marista também foi derramado, destaco Ir. Joche Albert, santo missionário que era engajado no combate ao ateísmo dos marxistas chineses, pregando o Evangelho e distinguindo a Verdade do erro.

Eu vejo essa venda do Colégio Marista de Salvador como um retrato muito claro da triste situação na qual se encontra não só a Congregação, mas como boa parte da sociedade. Existe uma invasão maciça do relativismo, do simplismo, do mais genuíno indiferentismo. Se São Marcelino sonhava com instituições que formariam “bons cristãos e honrados cidadãos”, cairia para trás se assistisse uma aula num colégio de sua Congregação. Os inimigos que combateram Champagnat nos primórdios do seu chamado, os inimigos que mataram seus filhos na Espanha, os inimigos que mataram seus filhos na China, são os mesmos que invadem as escolas e ensinam as mais ultrapassadas idéias socializantes (Temo que chegue o dia em que ser Professor e ser Petista seja redundância), que difundem um cristianismo água com açúcar.

Ora, eu não estou pedindo que o Colégio Marista pare no tempo, mas que seja fiel ao espírito do seu fundador, que seja íntegro e siga os ensinamentos milenares da Igreja que pertence, ensinamentos que perpassam por homens que formaram as bases da Civilização Ocidental; Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino, Teresa de Ávila, Antônio de Lisboa, Francisco Suarez etc. A modernidade, cada vez mais, clama os ensinamentos passados, aqueles conhecimentos que caminharam por todas as gerações, carregando consigo grande maturidade, até chegar nos tempos atuais. O Colégio de São Bento, do Rio de Janeiro, que só é masculino, é a prova viva da eficácia de uma educação clássica; estudantes que tem uma genuína formação, com ensinamentos que passam longe de uma mera norma curricular com o objetivo de aprovação em vestibulares. Mesmo sem esse foco, que é o que movimento as instituições de ensino atualmente, o Colégio é um dos maiores aprovadores. Um estudante de São Bento é conhecido por sua cultura e bela retórica.

O prédio visível dos Maristas foi vendido, mas antes dele o prédio invisível já se encontrava invadido pelos erros que São Marcelino tão ardorosamente combateu!

São Marcelino Champagnat, rogais por nós!

Ad Jesum per Mariam!

Pedro Ravazzano

Nossa Senhora do Rosário da Vitória de Lepanto

Recordando Lepanto
por Michael Novak
Publicado em 06 de outubro de 2006

O futuro autor da obra “Dom Quixote”, Miguel de Cervantes (1547-1616), serviu num dos navios cristãos no que chamou da maior batalha naval da história e a mais importante, naquela época, para a segurança de Europa.

Os turcos reuniram uma frota enorme para invadir a Itália. As preparações começaram a ser relatadas muitos meses antes. Era o ano 1571, quando uma frota turca reuniu-se próximo a um porto da Grécia, não muito longe do golfo de Lepanto.

Por mais de um ano, o Papa Pio V tentou alertar os poderosos da Europa da eminente ameaça. Mas a Inglaterra, a França, e os poderes regionais do que mais tarde se transformou na Alemanha estavam preocupados com os tumultos da Reforma Protestante.Somente Dom Juan da Áustria (1547-1578), filho bastardo do rei da Espanha, ficou agitado com o perigo. Apesar da juventude e da posição modesta, Dom Juan enviou para outros reinos requisições urgentes para reunir uma frota resistente, equipada com as novas tecnologias de guerra inventadas no ocidente – produzidas em massa rapidamente por estaleiros e pela incipiente indústria de armamentos do que posteriormente passou a ser chamado “capitalismo ocidental”.

Reuniu frotas de Veneza e de Gênova, da Espanha, e dos Cavaleiros de Malta. Com determinação, e abençoada pelo Papa Pio V, esta pequena frota saiu pelos mares para alcançar a armada turca antes dela deixar as águas da Grécia.Os venezianos, no flanco esquerdo da linha de batalha, foram especialmente passionais. Não muito antes, os turcos atacaram um porto de ilha mantido pelos venezianos (e outros) de modo tal que o comandante veneziano, Marcantonio Bragadino, pediu trégua.

Os turcos prometeram a ele e a seus homens passagem segura – fizeram-lhe prisioneiro, bateram-no, cortaram seu nariz e as orelhas, puseram-lhe coleira, e o fizeram rastejar como um cão diante do exército conquistador. Numa pequena gaiola, ele foi içado acima no mastro do navio de modo a que todos na frota e em terra o pudessem ver. Então, foi abaixado, esfolado sem dó, e a pele foi tirada de seu corpo com cuidado enquanto morria (mais tarde sua pele foi preenchida com palha e mandada para Constantinopla como um troféu).

Os milhares de venezianos e os outros foram assassinados no local, ou mantidos em cativeiro para o serviço nos navios turcos ou em haréns.Mas outros elementos das frotas cristãs também estavam irritados. Por décadas, os turcos tinham usado sua quase supremacia no Mediterrâneo para realizar constantes invasões nas comunidades cristãs próximas ao mar, carregando jovens mulheres e homens para os haréns, bem como levavam os homens mais fortes para os navios.

Certamente, muitos dos escravos dos navios remavam os navios da frota turca que navegavam orgulhosos e confiantes no golfo de Lepanto eram cristãos capturados desta e de outras maneiras. Viviam com fome, eram espancados, e ficavam em meio aos próprios excrementos, mas continuavam fortes o bastante para puxar os grandes remos a que estavam acorrentados. Com furor, abaixo das plataformas, alguns destes escravos dos navios tentavam romper as correntes uma vez que a batalha começasse. Alguns finalmente conseguiram, e saíram do convés inferior balançando as correntes, ferindo ainda mais os marinheiros muçulmanos que já estavam em batalha.

Duas das maiores forças navais jamais reunidas – duzentos e oitenta navios na armada turca, e uns duzentos e doze navios do lado cristão – se avistaram na brilhante manhã do dia 7 de outubro. O almirante turco, Ali Pasha Moezzin, estava tão confiante que navegava orgulhosamente no centro de sua armada, trazendo em embarcações menores toda a sua fortuna e até mesmo uma parte de seu harém.

Os historiadores dizem que por toda a Europa pairou uma sombra de morte. Poucos tinham esperanças de que a frota cristã pudesse evitar a fatalidade que parecia rondar a Itália. O Papa Pio V tinha incitado todos os cristãos à recitação diária do rosário em benefício da brava tripulação dos navios cristãos. O rosário é uma prece simples que pode ser feita em quase todos os lugares, e já tinha alcançado alguma popularidade entre povos humildes. Em cada dezena de Ave-Marias ensinaram-lhes a refletir sobre um evento diferente da vida de Jesus. As contas corriam pelos dedos, como o sangue corre pelo corpo, tão regular quanto o bater do coração e o ar nos pulmões.

Para encurtar a história, Don Juan apontou seu próprio navio diretamente no coração da armada turca, mirou nas velas coloridas do navio de Ali Pasha Moezzin, que tinha uma grande bandeira verde com o nome de Alá inscrito vinte e oito mil vezes em ouro. As embarcações venezianas avançavam ferozmente pela direita turca, e com a ajuda dos escravos revoltosos dos navios destruíram esse flanco. Seis das maiores embarcações cristãs tinham sido equipadas com uma plataforma elevada acima dos níveis normais, onde foram postas fileiras de canhões devastadores. As explosões destes canhões novos intimidavam, e em minutos eles afundaram dúzias de navios turcos. O mar, segundo testemunhas, ficou coberto de marinheiros mortos, turbantes flutuando, bem como pedaços de madeira e de velas.

A paixão para defender a própria civilização contra os cruéis invasores também fortaleceu os músculos daqueles que se empenharam numa luta sangrenta, violenta e com os punhos, quando as embarcações emparelhavam. Mas foi principalmente o novo poder de fogo da frota cristã que, apesar de ser menor, afundou rapidamente navio após navio até, que poucas horas depois, o centro da frota turca desmoronou completamente. O navio do almirante foi capturado, juntamente com duzentos e quarenta outros navios turcos. Somente no outro flanco algumas embarcações cristãs hesitaram, aproximaram-se do inimigo sem entusiasmo, e ainda assim ocorreram deserções das outras embarcações. Embora tenham ocorrido alguns atos de heroísmo, um grande número de embarcações turcas escapou por uma falha na linha de batalha.

A vitória cristã foi mais completa do que qualquer um tinha sonhado. A vitória pareceu a muitos, miraculosa, e a vitória foi atribuída imediatamente a Nossa Senhora Rainha do Rosário – que logo viria a ser chamada por um título novo, Nossa Senhora Rainha da Vitória. Por toda a Europa, de cidade em cidade, os sinos das igrejas soaram incessantemente quando chegou a notícia da impressionante vitória. Desde então, o dia 7 de outubro é comemorado pela igreja católica como um dia da festa.

Os enormes cômodos dos palácios da Europa meridional ficaram abarrotados de imensas pinturas comemorando os episódios dessa batalha épica. Toda a Europa, dizem os historiadores, suspirou de alívio e gratidão. Era como se uma nuvem opressiva tivesse sido levantada, escreveram alguns. O jornalista e escritor G. K. Chesterton (1874-1936) escreveu um vigoroso poema épico sobre o grande evento, uma magnífica obra para ser lida pelos jovens – e mesmo pelos adultos.

Já que Osama bin Laden e outros citam frequentemente estas batalhas, para a qual ainda está buscando vingança, não é de todo mal que os povos do ocidente as recordem. Além do dia 7 de outubro de 1571 – a grande vitória do calvário polonês de Jan Sobieski (1629-1693) sobre os turcos, às portas de Viena, em 11 e 12 de setembro de 1683, merece ser lembrada. Mas houve outras grandes batalhas – algumas vitórias e algumas derrotas – num período de mil anos que ainda estão vivos na memória do ocidente, ou deveriam estar.

Tradução de Márcia Xavier de Brito