
Por Diego dos Anjos
Seminarista estudante de filosofia no Mater Ecclesiae
A jovem estudante Srta. Stein, que buscava sinceramente a verdade na filosofia, fez dessa sinceridade o diferencial nas suas discussões nos mais diversos campos, entre eles, a dignidade da mulher, “a estrutura da pessoa humana”, o sentido religioso do homem e a contemplação mística, e é desse último um dos que mais tratou uma vez convertida ao cristianismo.
Católica, e mais tarde carmelita, Edith preocupou-se em disseminar nos escritos filosóficos a experiência com Deus, utilizando de sua bagagem husserliana-fenomenológica, tomista e também carmelita – baseada nos doutores da Igreja São João da Cruz e Teresa D’Ávila.
Para ela, essa experiência não se trata de nada parecido às experiências com as quais o homem está acostumado. Trata-se de algo que se dá acima da inteligência humana, algo puro, delicado e espiritual: trata-se de uma “contemplação mística”.
O caminho para essa contemplação é traçado por ela no exemplo do Amado cumpridor da vontade do Pai: o Abandono. Nele, o homem cede ao uso pretensioso da razão para “entrar nas trevas da fé”, onde o conhecimento humano já não será o mesmo, mas será obscuro, ainda que certo, já que quem vive a experiência tem certeza a respeito dela.
A partir disso se dará a definição que a filósofa carmelita dá à “contemplação mística” como “sabedoria secreta de Deus, conhecimento obscuro e geral”; “obscuro porque oposto às atividades naturais do entendimento e geral porque nesse conhecimento não há mais lugar para distinções e particularidades”.
Quem possibilita essa experiência, segundo Stein, não é uma escalada arrogante da razão, mas sim Deus, que age diretamente tocando a alma humana. Uma fez vivida essa experiência, o homem entra nessa absoluta escuridão da fé. Nesse momento, porém, o homem faz uso da razão para conhecer a fé, mas não abarcá-la, reconhecer-la como mistério e reconhecer também os “lampejos da escuridão” – metáfora de Pseudo-Dionísio usada por Stein – no qual Deus tem experiência com o homem e vice-e-versa, sem, porém, iluminar a totalidade da escuridão.
Portanto, a contemplação mística que caracteriza a experiência de Deus para Edith Stein, longe de se tratar de experiências pietistas tomadas de movimentos extraordinários nos quais a razão é menosprezada, é um estado no qual todo o crente se encontra, fazendo uso da razão sem tirar da fé a soberania de caminhar nas trevas. Trata-se da metáfora citada em que, ainda que haja lampejos de luz, a escuridão do abandono é maior.
A credibilidade que uma doutora em filosofia pela Universidade de Göttingen dá ao falar da experiência de Deus é grande e digna de ser seguida porque é dupla: fala do sentido religioso ao qual todo o homem tende naturalmente e trata dele exprimindo racionalmente sua experiência e apontando a razão como sensível à fé, ainda que tendo que reconhecer-se limitada diante de sua meta.
REFERÊNCIAS:
FILHO, J.S.. O toque do inefável: Apontamentos sobre a experiência de Deus em Edith Stein. Bauru, SP: EDUSC, 2000.
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