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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O Movimento de Dessacralização

O movimento de dessacralização do mundo moderno, com a natural perda do sentido do sagrado, deve ser compreendido dentro da gênese da derrocada do espírito cristão. O humanismo renascentista, o espírito revolucionário da Reforma Protestante e a queda da ordem cultural vigente com a Revolução Francesa, são os responsáveis pela crise da Civilização Ocidental e pela desconstrução do sentido mais profundo da humanidade.

A Civilização Ocidental, forjada com a assistência atuante da Igreja, foi formada tendo em vista uma compreensão vertical das próprias estruturas sociais. Os estratos e a ordem refletiam a relação de Deus com o homem e os homens compreendiam as distinções naturais entre eles. Entretanto, desde o alvorecer dos princípios revolucionários consolidados na Reforma e na Revolução Francesa, o radical humanismo, com a emancipação do indivíduo de sua essência e sentido mais profundo, deu margem a um movimento de desconstrução do ideal cristão.

O movimento da dessacralização que hoje assola a sociedade ocidental para ser compreendido se faz mister levar em consideração os fortes fatores históricos. Como nos disse Pe. Julio Meneville, sacerdote argentino, “três fortes golpes de marreta hão derrubado este sólido edifício: o protestantismo que acertou golpes contra a Igreja de Roma, depositária da ordem sobrenatural da graça; a revolução francesa que acertou os seus contra a reta ordem da natureza humana; e a revolução comunista que acertado o último golpe contra toda a ordem.”

Hoje em dia o liberalismo moral e a cultura materialista induzem a elaboração de uma humanidade sustentada no relativismo e na total desconstrução da consciência. O mundo moderno forma homens em nada comprometidos com a verdade, mas sim esforçados na obtenção do prazer e da felicidade terrena. Nesse sentido, ideologias como o marxismo revolucionário e o existencialismo ateu brotam do âmago do vazio interior do indivíduo embriagado pelos dogmas da modernidade.

A Igreja, como Mãe e Mestra da Verdade, não tem apenas a função de defender e ostentar o caminho único da salvação como chamar o mundo para que desperte do seu torpor espiritual. A crise que vivemos, como nos diz o grande jesuíta brasileiro Pe. Leonel Franca, é uma crise metafísica, isto é, perda de sentido e total desconhecimento da essência da realidade que nos permeia. A Igreja, nesse sentido, como portadora da Sabedoria, tem a obrigação de, na atualidade, ser mais do que nunca um farol radiante que norteia a Civilização rumo à plenitude da suas potencialidades.

Infelizmente, por outro lado, é sabido que os fiéis, como homens inseridos no seu tempo, são homens e mulheres que carregam os seus pecados e fraquezas. Entretanto, com a crise profunda do mundo moderno, encontramos cada vez mais consciências relaxadas e deformadas, até incapacitadas de entender o espírito de ordem, justiça e paz que a fé cristã vive e prega. Assim, há um choque muito preocupante entre a verdade da doutrina de Nosso Senhor e o espírito moderno que nutre verdadeira ojeriza à obediência, convicção, princípios e entrega absoluta. O relativismo moderno é intransigente e totalitário.

Destarte, o movimento de dessacralização forma-se quando nos omitimos diante da ascensão desse espírito destrutivo dos males modernos, junto aos ambientes eclesiásticos e religiosos, que corroem e enfraquecem os símbolos que dialogam com a alma. Necessitamos, outrossim, resgatar as tradições esquecidas, convidar os homens para a vida de oração e alimentar um amor filial à Igreja, afinal é por meio do seu anúncio que conhecemos a Cristo.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Ideologia "Tradicional"


O espírito do mundo moderno é extremamente destrutivo e assola todas as instituições e o plano divino da existência. Assim, é o grande responsável pela desordem e pela crise espiritual que vivemos. Os seus arautos, aqueles que promovem o liberalismo/secularismo/progressismo nas mais diversas frentes, agem na desconstrução da Tradição e na imposição de um novo paradigma ideológico. O ardor revolucionário é extremamente eficiente por ter um motor romântico e ser norteado por concepções falseadas da realidade.

A primeira realidade, que só é compreendida através da reflexão racional, a partir do entendimento da realidade concreta, é totalmente tolhida em nome da segunda realidade, ou seja, a alternativa forjada pela ideologia, concebida nas mentes insanas de homens tomados pela febre da paixão. Assim, por exemplo, Karl Marx concebe a sua falácia comunista partindo da deformação dos pressupostos filosóficos, históricos e econômicos, ou seja, falseia a primeira realidade tendo em vista o alcance da segunda. A complexidade da questão inicia-se quando toda a sociedade é tomada pela doença espiritual, esmagada pelo choque entre as duas realidades, como foi o caso da Alemanha nazista.

Entretanto, o que quero pontuar nessa breve reflexão não é a postura dos modernistas e seus sequazes. Em relação a eles já temos um amadurecimento suficiente. O perigo, muitas vezes, forma-se na busca pela remediação drástica e rápida dos problemas civilizacionais. De fato, é louvável a ânsia de muitos que buscam, apressadamente, reconstruir aquilo que foi destruído pela sorrateira ação revolucionária. Não obstante, a eficácia e eficiência não podem ser confundidas com rapidez e brutalidade. Ao contrário, quanto mais conhecemos a realidade da crise - a sua amplitude e complexidade - mais percebemos como as soluções devem ser equilibradas, ponderadas e frias. Isso mesmo; frias no sentido de não-passionais, afinal, infelizmente, constata-se a forte presença de um espírito romântico nas atitudes tomadas pelos mais ardorosos defensores da "Contra-revolução."

O maior perigo se faz na construção de uma "ideologia" tradicional, contra-revolucionária, na ereção da segunda realidade utópica. Como qualquer ideologia, incidirá no erro de falsear a realidade, ou enxergá-la de modo parcial e pontual, galgando a adequação ao projeto tão ansiado. Enquanto Marx deformava as teorias históricas mirando o encaixe com as suas pretensões comunistas, alguns tradicionalistas ideologizados restringem o entendimento da realidade buscando o fácil solucionamento da crise do mundo moderno com o alvorecer da sociedade tradicional.

Essa simplificação cria soluções caricaturais que incidem no imediatismo e na brutalidade, além disso, não só transforma questões acidentais em essenciais como sanciona a dinâmica do bode expiatório ao acreditar na vítima sacrificial que, quando exterminada, apazigua toda a sociedade. Destarte, o fundamento é a ideologia, a crença apaixonada que busca, por meio da deformação do real, a realização dos anseios mais profundos e obscuros. Ainda que a iniciativa carregue uma positiva e inocente percepção, outrossim, é obtusa e inadequada, já que incorre na ridicularização da causa. Ademais, a crescente adesão de jovens no mundo virtual ao projeto contra-revolucionário favorece ao rompimento profundo com a realidade. Com isso, encontramos com facilidade soluções pueris aos problemas do mundo moderno, com remédios que passam desde a anulação do Concílio Vaticano II até a retomada da Santa Inquisição.
***
Podemos iniciar a campanha: Pela não banalização tradicional - contra a banalização do cachimbo, do tabaco, das abotoaduras, de Shakespeare, Dostoiévski, Mozart, Hildegard von Bingen, do latim, da filosofia clássica, da história medieval, do gótico, de Santo Tomás, Camões, Chesterton, Dante etc.

terça-feira, 15 de junho de 2010

O senso comum tradicionalista e o Concílio Vaticano II

O Concílio Vaticano II.
O Concílio Vaticano II talvez seja um dos temas mais debatidos no cenário eclesiástico atual. De fato, a realidade espiritual que vivemos é fruto, direta ou indiretamente, desse grande acontecimento. Não obstante, o Concílio é alvo de severas críticas por parte de alas radicais-tradicionalistas que enxergam nele o rompimento formal com 1960 anos de Igreja, de doutrina, de Tradição. Destarte, vale pontuar desde já que tradicionais e progressistas vivem uma relação de mútua dependência; os primeiros necessitam das teorias dos liberais para respaldar o seu radicalismo enquanto os segundos urgem pela mentalidade obscurantista dos “medievais” para justificar a mudança de postura por parte da Igreja.

Dentro desse cenário falar que a virtude está no meio não é clichê. Certamente, as duas posições têm um certo sentido, não obstante erram na forma e no meio. Os radicais-tradicionalistas tomam uma atitude legítima ao defender a Tradição da Igreja e os legados milenares que sempre subsistiram no seio da Esposa de Cristo. Por outro lado, os progressistas acertam quando destacam a importância de modernizar a ação pastoral e a linguagem. Entretanto, tanto uns como os outros se perdem na radicalidade das posições que abraçam com tanta paixão.
Tipo de argumento visual usado pelos "radicais-tradicionalistas"; terrivelmente falacioso e simplista.
No meio desse verdadeiro caos surge a sólida e coesa postura do Santo Padre Bento XVI que enxergando a realidade de forma universal, não pontual como fazem muitos católicos, leva em consideração as reivindicações dos radicais-tradicionalistas e dos progressistas enquanto atesta, categoricamente, que o Concílio Vaticano II jamais aderiu às heresias apontadas pelos “rad-trads” e defendidas pelos modernistas. Assim, o Sumo Pontífice destaca a relevância crucial da “hermenêutica” no entendimento pleno dos documentos conciliares. Trazendo à tona a questão da interpretação do Vaticano II o Papa põe em discussão os anseios do homem capaz, até mesmo, de deformar a sã doutrina exposta no Concílio visando, apenas, a realização dos próprios devaneios teológicos em claro rompimento com o espírito de fidelidade e obediência.

Antes que alguém alegue que a dita “hermenêutica da continuidade” é invenção de S.S Bento XVI se faz mister destacar que, mesmo que não houvesse uma unidade em torno dessa questão, já havia por parte de muitos teólogos, Cardeais, Bispos, a clara noção da problemática pós-conciliar fundamentada na indevida interpretação do Concílio. Nesse sentido, friso a obra do Mons. Francisco Bastos “Abusos e Erros sobre a fé à sombra do Vaticano II” a qual o ilustre sacerdote paulistano de feliz memória aborda toda a complexidade das discussões conciliares, destacando, com sabedoria, a ação orquestrada de ala progressista, centralizada na “Aliança Européia”, na sua apaixonada tentativa de fazer aprovar as insanidades pensadas nas mentes modernistas dos teológicos que a dava assistência. Além do relato histórico de grande valor – Mons. Francisco Bastos participou como observador do Concílio a pedido do Cardeal Motta – é interessante como o autor jamais coloca em questão a legitimidade do Vaticano II e a autoridade do Beato João XXIII e de S.S Paulo VI ao longo das sessões. Concretamente, ao presenciar cenas lamentáveis e deprimentes, como a do Cardeal Ottaviani, o mais poderoso Cardeal da Cúria romana, ser boicotado ao ter o seu microfone desligado pelo Cardeal Alfrink, a pedido do Cardeal Tisserant, deão dos presidentes do Concílio, debaixo dos aplausos e gargalhadas de muitos dos Padres Conciliares, depois de intervir em oposição às propostas de total descaracterização do rito romano, Mons. Francisco Bastos teria todos os motivos e razões para desacreditar no Concílio e nas suas definições.
O que foi o Concílio para os progressistas.
Não obstante, em oposição a atitude “esperada” o autor mostra o espírito de amor à Igreja e obediência ao Sumo Pontífice. Ademais, destaca que, mesmo com as mais ferozes iniciativas modernistas, os documentos do Concílio, ainda que deixando algumas janelas abertas, jamais romperam com a doutrina da Igreja e nem sancionaram as teorias progressistas com a autoridade conciliar. O autor, assim, pontua a sapiência dos Papas – João XXIII e Paulo VI – ao longo das sessões e das aulas conciliares.

Além de Mons. Francisco Bastos recordo-me da posição do grande salesiano Cardeal Stickler, de feliz memória, que mesmo fazendo críticas à reforma litúrgica pós-conciliar, de S.S Paulo VI, defendia o Concílio Vaticano II alegando que este não rompeu com a Tradição milenar da Igreja; “O Concílio solicitou repetidas vezes que a reforma aderisse à tradição.”

As duas atitudes citadas nos são modelos de amor filial à Igreja e de respeito ao Vigário de Cristo. Infelizmente, muitos são os católicos – leigos, consagrados, seminaristas, sacerdotes etc – que embriagados com o discurso envolvente do radical-tradicionalismo incidem numa desobediência formal, quando não num sedevacantismo prático. Não podemos cair em leituras simplistas da realidade, quase sempre norteadas pela paixão. Dessa ação surgem os casos esdrúxulos de católicos que pretendem viver a “verdadeira” catolicidade no fundo de seus quartos, nos blogues, orkuts da vida, no máximo em algum grupo que se considera mais fiel e tradicional do que a Santa Sé, com líderes que alegam amar o Santo Padre mas rasgam o seu Magistério sempre que se recusam a obedecê-lo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Breve reflexão

Constatar a situação do mundo moderno é confirmar a sua vocação de cristão e arauto da Verdade. Um homem que busca vivenciar integralmente a mensagem de Nosso Senhor deve ter a obrigação de, ao enxergar a sociedade atual, constatar a decadência interna – que reflete na exterioridade – do homem. De fato, a crise atual é uma crise metafísica, espiritual, civilizacional.

Andar de metrô, ir ao sebo, comprar um remédio na farmácia, é uma verdadeira experiência antropológica. Não quero aqui parecer essencialmente pessimista – mesmo sabendo que o sou parcialmente. Concretamente, o homem é capaz de alçar vôos colossais e de, na sua grandiosidade, reduzir-se ao estado de animal. Nesse sentido, nós somos frutos das revoluções; o Renascimento absolutizou o homem, a Reforma deu a ele a autonomia espiritual e a “liberdade” definitiva e a Revolução Francesa - a Reforma no Estado, como dizia Dr. Plínio - exterminou as estruturas “medievais” e inaugurou, definitivamente, a nova sociedade do novo homem.

Lutero disse não à Igreja, Voltaire disse não a Cristo e Nietzsche, por fim, decretou a morte de Deus!

O homem está “livre”, mas na sua liberdade vive a mais profunda angústia! Inicia-se a sua auto-destruição!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Hedonismo, Relativismo e Liturgia

Não sei vocês, mas eu sempre fico perplexo quando vejo, mesmo que seja pela TV, Missas que mais parecem ensaios de Carnaval. Infelizmente, o problema litúrgico atual é uma bola de neve; Sacerdotes mal formados - ou deformados - transmitem os seus erros aos fiéis. Obviamente, tudo começa numa mentalidade revolucionária, de origem relativista e individualista. Explico-me. O relativismo surge sempre que pretendem modificar e transformar a doutrina da Igreja tendo como propósito a adaptação ao mundo, num rebaixamento completo da Revelação; nada é perene e tudo é relativo. Do mesmo modo, a Tradição é atacada, vista como exageros medievais que impedem o acesso do povo aos modos mais comunitários da fé - usei aqui a novilíngua politicamente correta. Já o individualismo, que se une ao relativismo, incita a supervalorizarão do ego, dos prazeres individuais; a Missa tem que ser como EU gosto, a doutrina só é boa quando EU aceito, o Papa só é Papa se EU, assim, o considero.

Não precisa ser um grande gênio para concluir o resultado do individualismo-relativismo na Igreja; fiéis que não ligam para os ensinamentos Magisteriais, outros que pouco se importam com o significado mais profundo da Liturgia etc. Nesse ponto quero frisar a lastimosa contradição entre a fé e a sua prática junto aos muitos católicos que compactuam - direta ou indiretamente - com a revolução. A fé é confirmada e fortalecida através da correta externalização, por meio de atos de adoração, contemplação, piedade, reverência. Por exemplo, nós cremos na Presença Real e, por isso, a Eucaristia é adorada e honrada com grandes e gloriosos gestos. Entretanto, infelizmente, hoje configuramos um atrito muito maléfico que, de fato, destrói a fé. Teoricamente alguns católicos professam a crença na Eucaristia quando, na prática, a tratam como se fosse um simples pedaço de pão. Recordo-me da Missa de Primeira Comunhão que assisti; as crianças passaram dias tendo aulas de catequese onde o Santíssimo Sacramento era louvado e glorificado, não obstante, na Celebração Eucarística, no momento onde a teoria das aulas tomaria corpo, o testemunho dos catequistas e do Padre foi o oposto; descaso em toda Missa, barulho, conversa, músicas inapropriadas, desordem, mau gosto, o contrário de tudo aquilo que seria naturalmente lógico para os crentes da Eucaristia.

Infelizmente, esse choque não é apenas uma particularidade, é comum em muitas Missas pelo Brasil e pelo mundo. Até mesmo quando tais fiéis são confrontados com ensinos fidedignos e ortodoxos se colocam em franca oposição, defendendo vigorosamente a algazarra litúrgica e a falta de sobriedade, alegando ser a forma "moderna" de celebrar. Obviamente, estão infectados pela doença revolucionária que impõe falácias como verdades absolutas. Assim, confundem a alegria gloriosa da Santa Missa com a alegria escandalosa do mundo, com gestuais que mais se assemelham a uma festa de Carnaval do que, propriamente, a uma celebração religiosa.

Quero frisar que os argumentos usados na defesa da "aeróbica de Cristo" não tem qualquer fundamento magisterial, tradicional, patrístico, bíblico, histórico e até mesmo sociológico. Vejamos. A Igreja prima pelo desenvolvimento orgânico da Liturgia, isso é um fato inconteste. Entretanto, os arautos da carnavalização litúrgica alegam que as baterias, guitarras e palmas representam a forma jovem e moderna de ser católico. Grande falácia! A Igreja passou 1970 anos rezando com silêncio, sacralidade, piedade para, repentinamente, acordar com um novo olhar e uma nova visão de mundo e da fé?! Não existiu sequer um tempo de transição que justificasse a radical transformação. Muitíssimo ao contrário, passamos dos Padres de batina para os Padres de calça jeans e camisas baby-look, saímos das Missas decorosas para as Missas-afro-sertaneja-crioula-carismática, num processo visivelmente revolucionário, de rompimento integral, propositado e articulado.

O individualismo prático e a fé relativista fazem com que os fiéis, quando confrontados, sequer se sensibilizem. De nada adianta falar que a Missa é Sacrifício, fazer uma abordagem histórica e comparada, mostrando o espírito de sobriedade de outras famílias litúrgicas, citar textos Magisteriais ou fazer uma reflexão meramente lógica. Para eles tudo se resume a uma compressão hedonista e romanceada da fé; me faz bem, me é prazeroso, fico feliz, então pronto. Aqui entra um déficit abissal; a falta da mais básica catequese se une a uma postura mundana que, por não ser combatida por Sacerdotes também infectados, gera a dessacralização da Liturgia.

Não vou aqui me estender falando que a Santa Missa é Sacrifício, que a nossa postura deve ser de silêncio e contemplação, que os grande santos, desde São João Crisóstomo, passando por São Leonardo de Porto Maurício, até o recente São Pio de Pietrelcina, frisam o correto espírito litúrgico, e que dentro da Tradição milenar da Igreja não há precedentes para esse tipo de irreverência. Muita vezes nada disso adianta para despertar os fiéis que transformam a Santa Missa num celebração horizontal.

Quando da Reforma Protestante, as igrejas tomadas pelas propostas luteranas - onde ainda havia a celebração da "Ceia" - iniciaram a desconstrução do rito litúrgico. Com isso, naturalmente, cada paróquia criou uma forma própria e particular de celebrar, com variações diversas, dignas da liberdade descontrolada corada pelos reformistas. Hoje, assim como nas regiões protestantes do séc. XVI, muitas paróquias se tornaram verdadeiras ilhas, com dioceses tendo Missas de todos os gostos; tradicionais, carismáticas, afros, populares, ecumênicas etc, numa feira livre onde o freguês tem sempre razão. Tanto é verdade que, quando alguém critica a Liturgia paroquial, quase sempre é convidado a migrar para uma paróquia que tenha uma Missa que o "agrade" ou que, então, passe a assistir a Liturgia com o Padre Fulano, como se tudo fosse uma questão de escolha. Assim, o rito romano é totalmente descaracterizado e os fiéis se impregnam ainda mais com o seu hedonismo e com o absurdo antropocentrismo "litúrgico". A Celebração passa a ser horizontal, voltada para o povo e não para Deus, e tudo se resume ao prazer gerado, ao sentir-se bem.

De fato, a Igreja deve sim dialogar com o mundo moderno tendo consciência, obviamente, dos males que hoje, através da decadência espiritual, são entronizados como verdades absolutas. Entretanto, a própria modernização interna da Igreja, por meio das necessidades que se colocam e, principalmente, de forma natural, não tem como fim a adaptação da doutrina, sempre professada, ao mundo que, cada vez mais, se escandaliza com a mensagem cristã. Afinal, se a doutrina é verdadeira, no sentido de divina, é perene, já que reflete a imutabilidade de Deus, logo, se esta é modificada é porque quem a transmitiu, Deus, também se modificou, entretanto, Deus não muda, e se muda não é Deus.

Os defensores dos abusos litúrgicos, quer queiram quer não, estão ligados ao pensamento revolucionário, carregando uma alta dose de falácias relativistas e concepções individualistas da fé. A única forma de tratar e corrigir tamanhos erros é se colocando em humilde e devotada obediência a Cristo através da Sua Igreja, afinal foi a ela que Nosso Senhor deu o múnus de apascentar e guiar o Seu rebanho.
"Missa afro"

"Missa crioula"

"Missa sertaneja"

"Missa carismática"

"Missa libertadora"

"Missa missa ou rito romano celebrado corretamente"

sábado, 14 de novembro de 2009

Bispos de São Paulo em Roma

Os Bispos de São Paulo, na visita ad limina, celebraram Missa na Basílica de Santa Maria Maior, no altar de Nossa Senhora Salus Populi Romani. O celebrante foi D. Raymundo Damasceno, Arcebispo de Aparecida. O mais "curioso" da celebração foi a sua posição; versus Deum. Deve ser culpa dos ares romanos!

Versus Deum, casulas, mitras, CNBB! É muita novidade para uma pessoa só!



domingo, 24 de maio de 2009

Shakespeare, uma caminhada espiritual

Pedro Ravazzano
***
Qualquer leitor da magnânima obra “Otelo, o Mouro de Veneza”, de Shakespeare, percebe, com clareza, a profundidade e plenitude dos personagens. O ilustre dramaturgo inglês simboliza na sua peça o conflito espiritual dos homens, a luta contra o mal, a luta contra a própria essência decaída. Claro que, para os olhos desavisados, Otelo não passa de mais uma tragédia shakespeariana com um pomposo final trágico. Tomo a liberdade de afirmar, posso até ser leviano, que nessa peça o Bardo de Avon se aproxima de um simbolismo quase escancarado, rompendo o véu do mistério, onde os personagens atuam não como personagens, mas sim como representações verdadeiras da epopéia sobrenatural da humanidade. Assim, baseados na definição usada por Martin Lins, em A Arte Sagrada de Shakespeare, enxergamos em Otelo a alma, o “peregrino purgatorial”, em Desdêmona o Espírito, a imaculada pureza, em Iago o diabo em toda a sua plenitude, apaixonado pelo mal, desprovido de virtude, em Emília a caminhada espiritual, mulher divida entre a santidade e a perdição e, por fim, Rodrigo, a inocência cega do homem decaído, ludibriado pelo demônio na tentativa de fazer triunfar o humanismo antitradicional.
Otelo e Desdêmona; a alma e o Espírito

Ademais, é importante levarmos em conta que Shakespeare é uma testemunha ocular do início da decadência da Cristandade, logo do Ocidente. Na sua época já ocorre uma mudança radical nas mentes, nas construções intelectuais, a transformação do homem medieval no homem renascentista. Shakespeare, talvez tenha sido o último grande nome do medievo, era, “à diferença de muitos dos seus colegas dramaturgos, o continuador e o recapitulador do passado, o último sentinela de uma época que desaparecia rapidamente” (Martin Lings) O humanismo trazido pelo Renascimento carregava consigo uma antitradicionalismo arraigado, uma aversão ao sobrenatural, ao entendimento metafísico da Verdade triunfante. A arte da Renascença rompe com a noção estética da Idade Média, tomando como norte o belo pelo belo, sem o sentido transcendental da própria retratação artística; “Se a arte renascentista carece desta abertura para o universal e é totalmente limitada à sua própria época, é porque sua perspectiva é humanista; e o humanismo, que é uma revolta da razão contra o intelecto, considera o homem e outros objetos terrenos inteiramente por si mesmos, como se não houvesse nada além deles”. (Martin Lings) Desse modo, percebemos como a arte pode ser profeta de uma nova sociedade, como nela homens se reúnem e repesam a realidade através da expressão estética; a arte, como forma de cultura, pode indicar, através da sua transformação, o nascimento de uma nova era. Claro que não necessariamente fazemos referência a uma benéfica transformação, ao contrário, quase sempre essas cisões com o passado e com a Tradição se dão por meio de um processo revolucionário. O Renascimento inaugurou, assim, a mentalidade moderna com seu excessivo individualismo e mundanização da realidade e da Religião, sedimentando a relativização dos valores e das instituições, exaltando e banalizando a sensualidade e, por fim, criando um paganismo artificial. O Renascimento estabeleceu o naturalismo e o humanismo, “nesse período, não ocorre apenas uma mudança no pensamento filosófico, mas também, em geral, em toda a vida do homem, em todos os seus aspectos: sociais, políticos, morais, literários, artísticos, científicos e religiosos.” (Giovanne Reale - História da filosofia: Do Humanismo a Kant).

A arte tradicional, cerne da estética medieval, se baseia em princípios metafísicos, num simbolismo universal que remete a uma Tradição primeira, a mesma que alimenta o próprio motor civilizacional. O Renascimento, por sua vez, abriu espaço para a degradação desses valores estéticos, chegando ao seu ápice no entendimento moderno da arte, através do triunfo de uma ótica informal e revolucionária, enquanto distante da ordem. A arte tradicional bebe da fonte religiosa, espiritual, sobrenatural, está intimamente ligada a uma perspectiva transcendentalista. Esse rompimento fez com que o homem atual não mais entendesse a grandeza de obras que carregam uma profundidade simbólica e sagrada imensurável. Umberto Eco até mesmo chegou a criticar Dante, chamando-o de pretensioso, por acreditar que a Divina Comédia, sendo fundamentada sobre uma forte base cristã, era nada mais do que a misteriosa epopéia do homem frente ao Divino.

Dante Alighieri afirmava que o texto carregava quatro sentidos: “A um chama-se literal (...) Ao outro chama-se alegórico (...) O terceiro sentido chama-se moral (...) O quarto sentido chama-se anagógico” (Convívio, II, 1). Esse entendimento não é, nem nunca foi, estranho ao mundo, ao contrário, faz parte da própria estruturação do conhecimento do texto bíblico, norte das letras ocidentais. Assim diz o Catecismo da Igreja Católica: “§115 Segundo uma antiga tradição, podemos distinguir dois sentidos da Escritura: o sentido literal e o sentido espiritual, sendo este último subdividido em sentido alegórico, moral e analógico. A concordância profunda entre os quatro sentidos garante toda a sua riqueza à leitura viva da Escritura na Igreja.”, sabedoria que sempre compôs o conteúdo teológico cristão, como ensinava Hugo de São Vitor; “as palavras do oráculo celeste podem ser entendidas em seu sentido histórico, alegórico, moral ou anagógico.” (Sermo XCV) e Nicolau de Lira: "A letra ensina os fatos, a alegoria, no que deves crer, o sentido moral no que deves fazer e o anagógico ao que deves tender."

O sentido anagógico é o mais profundo, ele possibilita o conhecimento total do texto. Esse supra-sentido “ocorre quando se expõe espiritualmente um escrito, o qual, pelas coisas significadas, significa as sublimes coisas da glória eterna.” (Convívio, II, 1) . Entretanto, o sentido literal não pode ser desmerecido, ao contrário, a passagem por ele é obrigatória para o entendimento pleno do conteúdo. A literalidade da palavra é a base sobre a qual os outros sentidos são erguidos, a casa que contém dentro de suas paredes o mistério e o simbolismo metafísico. “Sendo o sentido literal sempre sujeito e matéria dos outros, principalmente do alegórico, é impossível chegar ao conhecimento dos outros sem o seu conhecimento” (Convívio, II, 1).

Emília com Desdêmona; entre a santidade e o pecado

O que tudo isso tem a ver com Shakespeare? O dramaturgo inglês, como qualquer grande intelectual formado dentro de paidéia civilizacional – medieval e cristã –, tinha conhecimento dos quatto sensi da literatura, coroados com Dante, na sua Divina Comédia, que, por sua vez, os absorveu do pensamento escolástico. Shakespeare, assim como o poeta florentino, se preocupava com a purificação do homem, a sua santificação última, desse modo, cobrava de seus personagens a perfeição que representava a integridade do Espírito, a própria santificação e imortalidade:

“O porteiro do Portão do Purgatório, isto é, o portal da salvação, é, por definição, de incomensurável misericórdia. (…) Mas o porteiro da Porta do Paraíso, isto é, a porta da santificação, é implacavelmente exigente; e, para seus heróis e heroínas, Shakespeare representa esse porteiro. Ele não deixará passar nada exceto a perfeição (…) Sente-se que os personagens, um após o outro, são desenvolvidos e levados a um estado de virtude que chega aos próprios limites da natureza humana”

A sua obra, assim, reproduz essa busca pela perfeição humana, um mergulho dentro da essência decaída e maculada do homem, mas que inspirado pela Verdade, procura o seu aprimoramento espiritual, aspira alcançar o topo da montanha do purgatório no encontro místico com a sua Beatriz depois da desventurosa saga num mundo dominado pela ação demoníaca, força essa que incentiva não apenas a entrega à natureza primitivamente pecadora, mas, também, estimula a destruição de toda a Tradição.

Eu, obviamente, não sou nenhum grande mestre da dramaturgia shakespeariana, mas o que me levou a escrever esse breve artigo foi a profundidade dos personagens e da própria tragédia de Otelo. Sem dúvida alguma, Iago é aquele que mais nos assusta, seja pelo seu amor ao ódio, ou até mesmo pela clareza no seu significado simbólico; o demônio. Com ele, talvez, Shakespeare tenha se aproximado o máximo possível da adoção de uma linguagem sagrada não mais estética, mas teológica. Tirando dessa tragédia a própria trama e, em seguida, resgando o véu do mistério forma-se, claramente, uma obra de espiritualidade cristã. Na peça, como um todo, enxergamos em Iago a representação factual do diabo, essa percepção do leitor é reflexo da postura adotada pelo personagem, aderindo radicalmente ao mal, disseminando a discórdia, corrompendo os homens, atiçando neles o que de mais podre existe na natureza decaída. Entretanto, no final da tragédia Shakespeare nos confirma, categoricamente, a essência da vilania, o dramaturgo revela o personagem por detrás do personagem. Otelo diz, em referência à Iago; “Eu olhei para baixo, em direção a seus pés; mas isto é uma fábula”, fazendo alusão ao lendário conto que dizia que Lúcifer tinha pés rachados. Em seguida, na tentativa de vingar a desgraça fomentada pelo seu alferes, tenta matá-lo com um golpe de espada, dizendo; “Se isto que és é um diabo, não tenho o poder de matar-ter”. Iago, ferido, responde ao parente do Senador Brabâncio, Ludovico; “Estou sagrando, senhor, mas não estou morto”, em claro escárnio, ironia erguida sobre a sua imortalidade demoníaca.

O Demônio e Santo Antão e Otelo e Iago; tentação diabólica

Outro fato que pode passar desapercebido na leitura de muitos é a ação maliciosa de Iago sobre Rodrigo. De acordo com Martin Lings, o “gentil-homem” representa o próprio homem decaído, embrigado com o pecado, impotente, sempre suscetível ao domínio satânico. Iago, atuando como o diabo, incita os mais decadentes sentimentos, estimula os mais podres pensamentos, entretanto, sua ascendência sobre Rodrigo vai além dessa clara influência. O alferes do Mouro, adotando o discurso humanista, combatendo a tradição medieval, representante do discurso renascentista - “Virtude? Uma figa! Está em nós mesmos o poder de sermos assim ou assado. Nossos corpos são nossos jardins, e nossas vontades são jardineiros” - busca em Rodrigo, o homem, o triunfo de uma humanidade limitada pela razão e pela natureza, destruindo a Civilização, derrubando a sua sólida base de sustentação; a Cristandade, através da corrupção da consciência sobrenatural.

Ainda vale frisar que Emília, assim como Otelo, é uma peregrina purgatorial, uma alma divida entre a santidade e a pureza, representadas em Desdêmona, e a morte e o pecado, encarnados em Iago. Enganada por seu marido, ela se converte em peça fundamental nas arquitetações diabólicas. A sua expiação e purificação resultam do próprio sofrimento oriundo da constatação do seu grau de culpa, mesmo que indireta, no assassinato da amada senhora. A sincera aflição, o terror do remorso e a percepção da sua inércia frente ao mal, fomentaram em Emília uma contrição perfeita, coroada com a sua morte.

A purificação de Otelo, necessária para que, no final, houvesse a união entre a alma e o Espírito, se deu através de um processo de descoberta imediata. O mouro vive seu inferno no momento em que, enganado por Iago, desce às profundezas das trevas. Longe da luz, não distingue a verdade da falsidade, é guiado pelos olhos do seu alferes, os olhos demoníacos da vingança e da mentira. Não obstante, a sabedoria dos fatos, que ele só adquire no final da peça, ilumina o seu entendimento, possibilita a compreensão universal da realidade. Otelo ascende à etapa purgatorial quando, devidamente purificado das máculas infernais, se torna digno da união com a amada Desdêmona. A morte do Mouro, enquanto reparatória, é convertida na própria consolidação da sua expiação. Assim, no leito onde a “pérola” repousa eterna e santamente, Otelo se deita e descansa; a alma e o Espírito entram numa imortal comunhão.

Otelo e Desdêmona e Dante e Beatriz; santificação

quinta-feira, 30 de abril de 2009

O VERBO ERA DEUS

Luciana Lachance
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Abre parênteses:
Já aconteceu comigo algumas vezes: membros do grupo Testemunhas de Jeová batem à minha porta para pregar A Sentinela e ler passagens da sua pastiche ¹ da Bíblia – e, dentre tantas passagens modificadas deliberadamente, a que mais chama atenção é, sem dúvida, João 1,1. Por esta razão, segue uma análise didática sobre a tradução deste trecho, feita por mim, a fins de demonstração. O intuito é ajudar leigos que não tiveram a terceira aula de qualquer curso introdutório da Língua Grega, e também a todos os membros das Testemunhas de Jeová , que, ademais, são todos os leigos citados.
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O VERBO ERA DEUS
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Neste artigo, discutiremos a tradução de João 1,1 em contrapartida com a tradução/explicação da denominação soi-disant cristã Testemunhas de Jeová. A partir do grego, demonstraremos ao leitor, passo a passo, a maneira correta de traduzir esta passagem bíblica. A maioria das bíblias [traduções católicas e protestantes] traz:

“No princípio era o Verbo
E o verbo estava com Deus
E o verbo era Deus

João 1,1 é uma das muitas passagens da Bíblia que afirmam a divindade de Jesus Cristo, razão pela qual é foco de interesse das doutrinas que tentam negar esta verdade – e as Testemunhas de Jeová assim negam; são notadamente conhecidas por serem uma das seitas que defendem que Nosso Senhor Jesus Cristo é o Arcanjo Miguel ². Como esta última heresia nos exigiria para muito além de traduções e interpretações, mas representa propriamente o que São João escreveu na segunda epístola, versículo 7, nos restringiremos apenas ao que anunciamos no primeiro parágrafo.
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Testemunhas de Jeová

As Testemunhas de Jeová utilizam a chamada Tradução do Novo Mundo para a Bíblia, que supostamente teria sido feita a partir dos originais hebraico, aramaico e grego, mas que acabou condenada por todos os estudiosos das línguas citadas. Charles Russell, responsável pela corrupção do texto, conseguiu a façanha de ser levado a julgamento e não conseguir identificar as letras do alfabeto grego, como consta no processo. Na Tradução do Novo Mundo lê-se, onde destacamos em negrito anteriormente:

“E o Verbo era [um] Deus”

A palavra “um” é inserida antes de Deus, de modo que o Verbo Encarnado [João 1,14] não era o próprio Deus, mas “um” Deus. Ora, vejamos que artimanha a seita utiliza como explicação para isto, de acordo com os originais gregos. [As palavras em grego serão transcritas aqui em caracteres latinos, sem os “acentos”, para facilitar o entendimento]
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Em Grego, João 1,1:

“En arche en o logos
Kai o logos em pros tos Theon
Kai o logos en Theos”

Em negrito, temos a passagem em Grego que nos interessa neste momento, e que foi traduzida pelas Testemunhas de Jeová como “E o verbo era [um] Deus”. Vejamos:

Em grego, não existe artigo indefinido [um, uma]. Quando a palavra não apresenta o artigo [definido], e quando o contexto e as regras exigem, a tradução acrescenta o artigo indefinido na frente. Veja o exemplo nas frases abaixo:
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“Ego eimi e phone”
[Presença do artigo em negrito: “Eu sou a voz”]
“Ego eimi phone”
[Ausência de artigo: “Eu sou uma voz”]

Desse modo, a Tradução do Novo Mundo nos dá a explicação que, de acordo com esta regra gramatical grega, o correto seria acrescentar o artigo indefinido “um” antes de Deus na passagem “Kai o logos en Theos”, uma vez que antes de “Theos” não viria o artigo definido – e que da mesma forma como ocorre em outras passagens do Novo Testamento, em que os diversos tradutores utilizam esta regra, da mesma forma em João 1,1 esta regra pode ser aplicada. Mas será que isso é verdade? Vejamos:
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“Kai o logos en Theos”

Em grego, quando o sujeito e o predicativo do sujeito são constituídos por substantivos, deve-se observar a regra de que o sujeito [Logos/Verbo] é acompanhado de artigo definido, enquanto o predicativo do sujeito [Theos/Deus] não é. Desta forma, Theos não deve vir com o artigo. Na língua grega, a posição dos termos de uma oração varia, e não necessariamente determinará a função gramatical da palavra, uma vez que as funções gramaticais são identificadas pelos chamados “casos” - onde uma mesma palavra terá sua grafia modificada de acordo com a função que desempenha na oração. Este exemplo pode também ser visto em João 1,1: “pros tos Theon” e “logos en Theos”, onde os leigos em latim, alemão, grego ou afins, podem observar como isso funciona. Tomemos a seguinte frase:
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Kai Theos en o logos”

Esta frase, embora traga “Theos” na frente, significa a mesma coisa que “Kai o logos en Theos”. A primeira vista, poderíamos traduzi-la por “E Deus era o Verbo”, mas isto não estaria correto. Muitas frases em grego trazem diferentes “arrumações” de seus termos [assim como em latim], e, no entanto, na hora de traduzir para uma língua, como para o português, teríamos o mesmo significado. “Kai Theos en o logos”, então, significa “E o Verbo era Deus”. No caso de “Kai o logos en Theos” ou “Kai Theos en o Logos”, o que nos permite saber “quem era o quê” é justamente a presença do artigo [neste caso, “o”] antes do sujeito. Há ainda outra possibilidade de escrever esta mesma frase, em grego, sem que nenhum dos termos venha precedido de artigo. No caso das frases nominais cujo sujeito e predicativo do sujeito sejam substantivos, e nenhum deles esteja acompanhado de artigo, o predicativo do sujeito deve vir em primeiro lugar na frase:
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“Kai Theos en logos”

Igualmente, temos o significado de que “O verbo era Deus”. Poderíamos ainda escrever:

“Kai Theos Logos.”

Nesta última, não temos o artigo e não temos também o verbo [“en”] de ligação explícito. O significado, no entanto, se mantém: “O verbo era Deus”.

Dessa forma, fica bastante evidente que a tradução de João 1,1 imposta pelas Testemunhas de Jeová, e por extensão á toda a Bíblia, é imoral, inaceitável, criminosa. Não tem qualquer fundamento. Há exemplos de imoralidades como essa em praticamente todos os versículos da Tradução do Novo Mundo, mas a passagem escolhida aqui é a mais gritante. Há inúmeras explicações disponíveis sobre esta passagem, e na verdade muito melhores do que esta, porém a elaborei pensando que poderiam servir aos leigos de nível 1, ao contrário das explicações que encontrei, que ou serviam aos leigos de nível 2 ou 3 ( regras gramaticais gregas pouco mastigadas) ou eram feitas por pessoas que apenas tinham compilado informações. Há explicações excelentes nos livros (algumas pessoas se deram a esse trabalho, ainda bem). Deduzimos ainda que:

- Se João desejasse escrever que o Verbo não era Deus [se ignorarmos todo o resto da bíblia que afirma que o Verbo era] e quisesse, como alegam as Testemunhas, atribuir ao Verbo uma qualidade divina, ele teria usado o adjetivo Theios.

- Afirmar que existe mais de um Deus é politeísmo.
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Notas

¹ Em literatura, "Pastiche" é uma obra que imita de maneira grosseira o estilo de outra; baseado numa obra já existente, o Pastiche difere na paródia no sentido em que o seu resultado final não beira ao plágio, mas produz um sentido original.

² Afirmar que Jesus Cristo é o Arcanjo Miguel é completamente absurdo; como todas as passagens da Bíblia negam isso, sugerimos ao leitor que abra aleatoriamente a Bíblia em qualquer página e veja por si mesmo.

domingo, 1 de março de 2009

Terere as a way of life - lo and behold!

Por Júlio Lemos

O que é mais perigoso em qualquer tipo de tradicionalismo é o acomodamento.

Um sinal lateral disso é o próprio uso da palavra 'tradição': em épocas históricas em que as pessoas naturalmente valorizam a entrega dos valores e 'modos de estar-no-mundo' às próximas gerações (a idéia é de um filósofo basco), ninguém menciona a 'tradição' e nem funda movimentos tradicionalistas. É algo natural. A tradição é apenas uma das características da civilização, e por isso não deve ser defendida como um valor desencarnado, esteticamente aprazível.

Por isso, parte do tradicionalismo é movido exclusivamente pela vaidade. As pessoas se sentem como que revolucionárias, partidárias de um novo modo de vida, e aquela coisa toda. O mero tradicionalismo religioso é uma forma decadente, exterior, de relação com Deus. Aqui, é mais 'católico' quem mais fala da Tradição, quem mais tem cara de reacionário, quem parece mais piedoso, andando por aí com terços à mão e com cara de beato,
pissing around holy water. É decadência pura. A solidez não tem lugar num esquema estético desse tipo. Nesse sentido, os vitorianos eram grandes tradicionalistas, fariseus que usavam casacas e fumavam cachimbo e ficavam escandalizados.

Qualquer tradição só se afirma quando é implícita em um discurso e está ligada a um comportamento autêntico, não estereotipado e não nostálgico, aberto ao mundo, ao diálogo, ao intercâmbio, como ocorre com as boas tradições (culinárias, esportivas, tecnológicas, científicas, filosóficas, etc).

O perigo do acomodamento está mais diretamente ligado à idéia de que basta aderir a uma tradição e tudo está resolvido. Que nada. Se se trata, por exemplo, da ética das virtudes, aderir a ela é apenas um começo, que não garante absolutamente nada. O cristianismo, da mesma forma, abomina o acomodamento, a passividade, o pessimismo "nós
versus o mundo corrompido", a 'humildade' do camponês que fica na sua terrinha e não alimenta nenhuma ambição. As tradições autênticas são modos de estar-no-mundo inseparáveis do heroísmo, inimigos da mediocridade.

O tradicionalismo faz capelinhas, grupinhos, panelas. Transforma pessoas naturalmente modestas em pedantes que não querem falar com ninguém que esteja 'de fora', a não ser que seja para convertê-los (em que? em tomadores de tereré?).

Bem, mas isso não é novidade, esse
to be, and not just appear to be. Leiam Chesterton e deixem esse escândalo de lado.

* * *

Para algo completamente diferente, eu digo que
existem múmias.

Publicado em: http://julio-lemos.blogspot.com/2009/02/terere-as-way-of-life-lo-and-behold.html

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O Liberalismo e a Direita

Nota biográfica:

Arnaud Guyot-Jeannin


Tradução: Pedro Ravazzano

Grande figura aristocrática da direita tradicionalista italiana, Giulio Césare Andréa Evola (que adotou o nome de Julius por admiração a Roma antiga) nasceu no seio de uma família da pequena nobreza siciliana. Iniciou os estudos de engenharia, mas rapidamente renuncia para se consagrar as artes e ao estudo das grandes doutrinas filosóficas. Aos 16 anos, com o começo da Primeira Guerra Mundial, Evola parte para a frente de combate para ocupar o posto de oficial de artilharia. Aproveita esses breves momentos de tempo livre para estudar a obra de Nietzsche, Otto Weininger, Carlo Michelstaedter, sem se esquecer dos filósofos franceses - Blonder, Lagneau, Lachelier. Terminada a guerra passa a frequentar, de forma apaixonada, diversos movimentos culturais italianos onde se misturam pontores, poetas etc

O período artístico (1915 - 1923) se sucede o período filosófico (1923 - 1927). É desta forma que, em 1925, surge seu primeiro ensaio "Ensaio sobre o idealismo mágico", seguido de "O Homem como potência", em 1926 (rebatizado em 1949 para "O yôga tântrico", a respeito do qual Marguerite Yourcenar disse: "Compreu uma daquelas obras que durante anos nos alimentos e, por um certo ponto, nos transporta"). Evola consagra duas obras a sua visão antropológica do mundo: "Teoria do indivíduo absoluto" (1927) e "Fenomenologia do indivíduo absoluto" (1930). Entre as duas publicações aparece "Imperialismo pagão" (1928). Obra violentamente anti-cristã¹ e editada no momento em que Benito Mussolini e o regime fascista estavam tendo fortes e conturbadas relações com a Igreja que culminaram no acordo de Latrão, em 1929.

¹ - N. do T. - O tradicionalismo evoliano reconhece na Roma Antiga, pagã, os mesmos poderes espirituais e civilizacionais que, comumente, os tradicionalistas enxergam na Igreja, por exemplo.

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Resulta sumamente sintomático e humorístico o facto de que hoje em dia se considere o liberalismo como uma doutrina de Direita quando em épocas anteriores os homens da Direita viram-no como um ardil, como uma força subversiva e desagregadora, da mesma maneira que na actualidade – os mesmos liberais – vêem o marxismo e o comunismo. Com efeito, a partir de 1848, o liberalismo, o nacionalismo revolucionário e a ideologia maçónica anti-tradicional, aparecem na Europa como fenómenos estritamente vinculados entre si e é sempre interessante revisitar os antigos exemplares da publicação Civilitá Católica para ver como esta se expressava relativamente ao liberalismo daquela época.

Mas nós deixaremos de lado tal circunstância para fazer uma breve menção, necessária para os nossos fins, em relação às origens do liberalismo. É sabido que tais origens há que procurá-las em Inglaterra, e pode dizer-se que os antecedentes do liberalismo foram feudais e aristocráticos: há que fazer referência a uma nobreza local zelosa dos seus privilégios e das suas liberdades, a qual, desde o Parlamento, tratou de defender-se de qualquer abuso da Coroa. Depois, simultaneamente com o avanço da burguesia, o liberalismo reflectiu-se na ala Whig do parlamento, opondo-se aos conservadores, os Tories. Mas há que referir que o partido desenvolveu a função de "oposição orgânica", mantendo-se firme a lealdade face ao Estado, de tal modo que pôde falar-se em His Majesty's most loyal opposition (a lealíssima oposição de Sua Majestade). A oposição exercia no sistema bi-partidário uma simples função de freio e controlo.

O factor ideológico de esquerda não penetrou no liberalismo senão num período relativamente recente, e não sem relação com a primeira revolução espanhola, de tal modo que a designação originária dos liberais foi a espanhola, é dizer, "liberales" (e não "liberals", como em inglês). E é aqui que começa o declive. Deve ressaltar-se, pois, que o primeiro liberalismo inglês teve um carácter aristocrático: foi um liberalismo de gentleman, isto é, um liberalismo de classe. Não se pensou em liberdades que qualquer um pudesse reivindicar indistintamente. Subsiste ainda hoje em Inglaterra este aspecto são e, no fundo, apolítico do liberalismo: o liberalismo não como uma ideologia político-social, mas como a exigência de que, para além da forma particular do regime político, o sujeito possa gozar de um máximo de liberdade, que a esfera da sua "privacy", da sua vida pessoal privada, seja respeitada e seja evitada a intromissão de um poder estranho e colectivo. Desde o ponto de vista dos princípios este é um aspecto aceitável e positivo do liberalismo que deveria diferenciá-lo da democracia, pois que na democracia o momento social e colectivista predomina sobre o da liberdade individual.

Mas aqui achamo-nos também perante uma mudança de direcção, posto que um liberalismo generalizado e indiscriminado, ao assumir vestimentas ideológicas, fundiu-se no continente europeu com o movimento iluminista e racionalista. Alcançou aqui o primeiro plano o mito do homem que, para ser livre e verdadeiramente fiel a si mesmo, deve desconhecer e recusar toda a forma de autoridade, deve seguir somente a sua razão, não deve admitir outros vínculos para além dos extrínsecos, os quais devem ser reduzidos ao mínimo, pois, ainda assim, sem eles nenhuma vida social seria possível. Em tais termos o liberalismo converteu-se em sinónimo de revolução e de individualismo (mais um passo e chega-se à ideia de anarquia). O elemento primeiro é visto no indivíduo, no sujeito. E aqui são introduzidas duas pesadas consequências sob a direcção daquilo que Croce denominou a "religião da liberdade" mas que nós denominaríamos melhor como fetichismo da liberdade.

A primeira consequência é que o indivíduo já se encontra " evoluído e consciente" e portanto capaz de reconhecer por si mesmo ou de criar qualquer valor. A segunda é que do conjunto dos sujeitos humanos deixados em estado de total liberdade (laissez faire, laissez aller) possa surgir de maneira milagrosa uma ordem sólida e estável: haveria que recorrer à concepção teológica de Leibniz da denominada "harmonia preestabelecida" (pela Providência), de modo tal que, para usar uma comparação, ainda que as engrenagens do relógio funcionassem cada uma por sua conta, o relógio no seu conjunto marcaria sempre a hora exacta. A nível económico, do liberalismo deriva a "economia de mercado" que pode descrever-se como a aplicação do individualismo ao campo económico-produtivo, afectado por uma idêntica utopia optimista a respeito de uma ordem que nasce por si mesma e que é capaz de tutelar verdadeiramente a proclamada liberdade (bem sabemos onde vai parar a liberdade do mais fraco num regime de piratagem e concorrência desenfreada, tal como acontece nos nossos dias, não só entre indivíduos, mas também entre nações ricas e pobres). O espectáculo que hoje nos mostra o mundo moderno é um cru testemunho da arbitrariedade dessas posições.

Chegados a este ponto podemos tirar algumas conclusões. O liberalismo ideológico nos termos recém mencionados é evidentemente incompatível com o ideal de um verdadeiro Estado de Direita. Não pode aceitar-se a premissa individualista, nem a fundamental recusa de todo o tipo de autoridade superior. A concepção individualista tem um carácter inorgânico; a pretensa reivindicação da dignidade do sujeito resulta, no fundo, num menosprezo da mesma através de uma premissa igualitária e niveladora. Assim, nos tempos mais recentes, o liberalismo não colocou qualquer objecção ao regime do sufrágio universal da democracia absoluta, onde a paridade de qualquer voto, que reduz a pessoa a um simples número, é uma grave ofensa ao indivíduo no seu aspecto pessoal e diferenciado. Logo, em matéria de liberdade, descuida-se a distinção essencial entre a liberdade face a algo e a liberdade para algo ( isto é, para fazer algo). Tem muito pouco sentido a manifestação de zelo a respeito da primeira liberdade, da liberdade externa, quando não se sabem indicar ideais e fins políticos superiores em função dos quais o uso da mesma adquira um verdadeiro significado. A concepção básica de um verdadeiro Estado, de um Estado de Direita, é "orgânica" e não individualista.

Mas se o liberalismo, remetendo-se à sua tradição pré-ideológica e pré-iluminista, se limitasse a preconizar a maior liberdade possível da esfera individual privada, a combater toda a abusiva ou desnecessária intromissão na mesma dos poderes públicos e sociais, se o mesmo servisse de obstáculo às tendências "totalitárias" em sentido negativo e opressivo, se defendesse o princípio de liberdades parciais (se bem que o mesmo deveria defender também a ideia de corpos intermédios, dotados justamente de autonomias parciais, entre o vértice e a base do Estado, que levaria a um corporativismo), se estivesse disposto a reconhecer um Estado omnia potens, mas não omnia facens (W.Heinrich), isto é, que exerce uma autoridade superior sem intrometer-se por todo o lado, a contribuição "liberal" seria positiva. Em especial, se levamos em conta a actual situação italiana, poderia ser também positiva a separação, propugnada pelo liberalismo ideológico, da esfera política face à eclesiástica, sempre que isso não signifique a laicização materialista da primeira. Contudo, aqui encontrar-se-ia um obstáculo insuperável, já que o liberalismo tem uma fobia a tudo o que possa assegurar à autoridade estatal um fundamento superior e espiritual e professa um fetichismo pelo denominado "Estado de direito": isto é, um Estado da legalidade abstracta, como se a legalidade existisse por fora da História, e como se o Direito e a Constituição caíssem do céu e com um carácter de irrevocabilidade.

O espectáculo da situação a que conduziu a partidocracia neste regime de massas e de demagogia deveria fazer-nos reflectir sobre a antiga tese liberal ( e democrática) de que o pluralismo desordenado dos partidos seja garantia verdadeira de liberdade. E a respeito da liberdade reivindicada a qualquer preço e em qualquer plano, por exemplo no da cultura, seria necessário fazer hoje em dia uma série de precisões oportunas, se é que não se quer que tudo entre em colapso de forma acelerada. Hoje em dia pode ver-se muito bem de que coisas o homem moderno, convertido finalmente em "adulto e consciente" (de acordo com o liberalismo e a democracia progressista), se tornou capaz com a sua "liberdade", a qual resultou muitas vezes na produção de vírus ideológicos e culturais que estão conduzindo à dissolução toda uma civilização.

Mas a esse respeito o discurso seria demasiado longo e tirar-nos-ia do marco da nossa análise. Supomos que com estas notas, ainda que de maneira extremamente sumária, foi colocado em evidência desde o ponto de vista da Direita tudo aquilo que de positivo e negativo possa apresentar-nos o liberalismo.

Julius Evola, Il Borghese, 10-10-1968

domingo, 11 de janeiro de 2009

Da guerra justa em tempos de Hamas

Edgard Freitas
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(AVISO: o artigo é longo.....)


As recentes operações militares conduzidas pelas forças armadas israelenses (IDF) na Faixa de Gaza, que têm por objetivo neutralizar a capacidade combativa do grupo terrorista palestino Hamas, causaram de imediato a reação de pacifistas de todas as matizes[1], invariavelmente exigindo que Israel cesse de imediato a operação e sente para negociar com os facínoras. Acusa-se Israel de não preservar as vidas de civis inocentes (que seriam, supostamente, a maioria dos mais de 800 mortos e de usar força desproporcional. Um Cardeal, Roberto Martino, chegou a afirmar que "As condições em Gaza: cada vez mais, parece um grande campo de concentração" [2], comparando objetivamente os israelenses aos nazistas[3].

O objetivo proclamado é, evidentemente louvável: a proteção das vidas de inocentes de ambos os lados, a percepção de que a paz é preferível à guerra.


A questão que se descortina é: Dentro da tradicional Teoria da Guerra Justa, Israel está travando o bom combate? A saber: Israel tem o direito de travar esta guerra (jus ad bello)? Israel está conduzindo corretamente esta guerra (jus in bello)?

A Guerra Justa, dentro dos ensinamentos de Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, condensados no Catecismo constitui-se quando se verificam que:

“a) o dano infligido pelo agressor à nação ou à comunidade de nações seja durável, grave e certo;
b) todos os outros meios de pôr fim a tal dano se tenham revelado impraticáveis ou ineficazes;
c) estejam reunidas as condições sérias de êxito;
d) o emprego das armas não acarrete males e desordens mais graves do que o mal a eliminar. O poderio dos meios modernos de destruição pesa muito na avaliação desta condição”.
[4]

Ora:

1. Quanto ao item “a”, é sabido que o Hamas, cuja carta de intenções prega explicitamente a destruição do Estado de Israel [5]. Para tanto, o Hamas lança mão de terroristas suicidas, inclusive contra alvos eminentemente civis, e o disparo de foguetes não guiados contra cidades israelenses, alia-se a nações declaradamente inimigas de Israel (tal como o Irã) além de promover extensa propaganda antissemita na região. Tal constitui, sem dúvida, dano e perigo durável, grave e certo;

2. Quanto ao item “b”, desde o ano 2000 Israel tem promovido concessões aos Palestinos, como a desocupação de Gaza em 2005 e o desmantelamento de assentamentos. Como não cessassem os ataques terroristas, Israel se viu forçado a impor limitações à circulação de palestinos para dentro do território israelense, aumentando a fiscalização sobre armas clandestinas. Por fim, tentou-se uma trégua, prontamente desrespeitada pelo Hamas, que seguiu lançando foguetes contra Israel. Assim, pode-se perceber que os meios pacíficos de dissuasão restaram impotentes para a ameaça;

3. Quanto ao item “c”, a campanha desenrolada em 2006 contra o Hezbollah, no sul do Líbano, mesmo conduzida sem um esforço coordenado de inteligência prévia como a guerra atual, foi capaz de esmigalhar a capacidade operacional do grupo terrorista, que de lá para cá não tornou a ameaçar a integridade física de Israel. A operação em Gaza visa bombardear a capacidade do Hamas de lançar foguetes contra Israel, e eliminar sua liderança ideológica e militar, algo tecnicamente possível;

4. Resta, por fim, o último ponto. Os opositores das operações israelenses que se lastreiam na Teoria da Guerra Justa alegam que Israel frequentemente desrespeita este último ponto, ao conduzir operações em zonas densamente povoadas, sem levar em consideração o uso, pelo Hamas, de escudos humanos. Veremos.

Pelas imagens que nos chegam pela televisão, podemos perceber que Israel tem adotado a estratégia de bombardear alvos em terra a partir de aviões e helicópteros com o uso de mísseis e bombas guiadas a laser. Os alvos são, principalmente, prédios da infraestrutura do Hamas – estações de televisão e rádio, subestações de energia elétrica, quartéis, bunkers, túneis, paióis, esconderijos de líderes, acantonamento de tropas, linhas de trincheiras, veículos e peças de artilharia (rampas lançadoras de foguetes Qassam e Katyusha e morteiros).

Além disso, tropas da IDF incursionaram em diversos pontos de Gaza com o objetivo de cortar a comunicação física entre diversas frações de tropa do Hamas e a fronteira do Egito, donde provém armamento e munição para o grupo Terrorista, estabelecendo um “cordão sanitário” que tem por escopo esgotar a capacidade combativa do Hamas em bolsões.

Tal campanha conduziu a um número aproximado (até o momento em que escrevo este artigo) de 800 mortos do lado palestino (com no mínimo 30% de civis) e 14 mortes de israelenses (3 civis e 3 mortos por fogo amigo).

A julgar o poderio bélico utilizado por Israel, não é cinismo afirmar que o número de mortos do lado palestino, até o presente momento, é baixo. Durante a Segunda Guerra Mundial bombardeios em cidades como Coventry, Londres, Varsóvia e Roterdã (pelos alemães) e Berlim, Dresden e Nuremberg (pelos aliados) matavam dezenas de milhares de civis num espaço de poucas horas. Recordemos que a carga ofensiva transportada por um Caça F-16 ou F-15 é superior à dos Bombardeiros He-111, B-17 e B-24 da última guerra.

O uso de munições “inteligentes” (i.e., bombas e mísseis de precisão) decerto minimiza o risco para populações civis, mas não o elimina. O piloto tem como eliminar um alvo específico, como um prédio, mas não tem como saber se há inocentes dentro do mesmo do mesmo. Também não tem como evitar os chamados efeitos colaterais das explosões, isto é, a extrapolação do alvo que eventualmente atinge civis.
No documento Gaudium et Spes, a Igreja atenta que "Toda a acção bélica que tende indiscriminadamente à destruição de cidades inteiras ou vastas regiões e seus habitantes é um crime contra Deus e o próprio homem, que se deve condenar com firmeza e sem hesitação."[6]. Assim, somente a ação indiscriminada é condenável. A ação contida e moderada que, apesar disso, acarreta em perdas civis não pode ser equiparada ao ataque generalizado, este sim crime contra a Humanidade.

A presença de civis inocentes e escudos humanos deve obstar a condução de operações militares terrestres ou aéreas?

Trata-se de um nó moral, que não é facilmente resolvido. A morte de inocentes é um fato indesejado e trágico, e deve ser evitado ao máximo na condução da guerra.

Ocorre que tal não se confunde com abdicar das operações de guerra caso a morte de inocentes não puder ser evitada em absoluto, ponto bastante sensível se considerarmos que o Hamas, nas suas práticas, se mistura à população civil de maneira deliberada, e incentiva civis a se interporem na linha de tiro. Seus cadáveres são válidos na guerra de propaganda contra Israel.

Ora. Se entendêssemos que Israel deveria se abster de atacar ante a impossibilidade de abater alvos do Hamas sem atingir inocentes[7], estaríamos dizendo, simplesmente, que não há resposta possível para combater a imoralidade do Hamas sem se rebaixar ao mesmo nível dos facínoras. Tertium non datur. A guerra de defesa de Israel contra o terrorismo nunca poderá ser justa – na medida em que o inimigo sempre vai expor civis ao fogo – somente lhe restando bombardear os alvos que o seu inimigo lhe permitir – o que aniquila as chances de vitória, um dos requisitos da guerra justa.

Não estamos, obviamente, a seguir a idéia de Arnaud Amalric, enviado do Papa Inocêncio III durante a Cruzada Albigense, que instruiu aos cruzados para que não se preocupassem em separar os católicos dos hereges dizendo "Mate-os todos. Deixe que Deus reconhecerá os Seus".
Lembremos, entretanto, do que nos avisa São Tomás:

“É por isso que Agostinho escreve: 'É preciso agir fortemente, mesmo com aqueles que resistem, a fim de dobrá-los por uma certa dureza benevolente. Aquele que é privado do poder de fazer o mal sofre uma proveitosa derrota. De fato, nada mais infeliz do que o feliz sucesso dos pecadores, pois a impunidade é alimentada, e sua má vontade, como um inimigo interior, é fortificada.'"[8] (grifo nosso)

Temos assim que não pode ser justa uma ação ou omissão que permita o fortalecimento dos maus. Israel, em não respondendo ao fogo inimigo para preservar seus civis, estará somente fortalecendo moral e materialmente ao seu inimigo, mantendo assim intacta sua capacidade ofensiva contra os próprios civis israelenses.

Note-se que a Conveção IV de Genebra, que trata da proteção da população civil em conflitos não absolutiza essa proteção, estabelecendo, em seu Art. 28:

“A presença de uma pessoa protegida pode não tornar certos pontos ou áreas imunes de operações militares” [9]

Conclusão

Soldados existem para garantir a vida, segurança, propriedade e liberdade dos súditos de um Estado. É para com eles que ele tem o seu principal dever, sendo os fiéis depositários de suas esperanças. Segundo o Catecismo, "Se realizam corretamente sua tarefa, colaboram verdadeiramente para o bem-comum da nação e para a manutenção da paz "[10]

O risco à população inocente é parte inerente da guerra. Sendo inerente à guerra, não pode constituir óbice para a condução de operações de combate desde que os civis não sejam o alvo destas operações. Do contrário, a guerra justa, possível em Teoria, jamais o poderia ser na prática.

O dever do soldado em relação aos inocentes inimigos é o de não agravar desnecessariamente o seu risco. Não implica em exigir que abandone a sua missão primária de proteger seus inocentes para proteger o inocente inimigo mais que o próprio soldado inimigo que os expõe ao invés de protegê-los. E nem que abdique de retornar o fogo quando se vir em combate terrestre, eis que “o amor a si mesmo permanece um princípio fundamental da moralidade. Portanto, é legítimo fazer respeitar seu próprio direito à vida. Quem defende sua vida não é culpável de homicídio, mesmo se for obrigado a matar o agressor (...)”[11]

A responsabilidade moral pela morte de inocentes usados como escudos diretos ou indiretos pertence a quem os utiliza, pois a lei moral – e a Lei Positiva Internacional – exige dos beligerantes que cada qual proteja a sua população civil, preservando o seu status de não-combatente. Assim, não pratica ato contrário às leis da guerra o soldado que, sem ter a intenção de matar inocentes o faz por culpa de ardil do inimigo que torna tais mortes inevitáveis.

É lícita a exigência de moderação para os beligerantes. O que vemos, entretanto, mesmo entre muitos cristãos, é uma atitude francamente hostil ao exercício mesmo do direito de defesa do Estado judeu. O mundo silenciou aos mais de três mil foguetes disparados desde Gaza contra cidades israelenses, mas iniciou um berreiro no exato momento que Israel, após semanas de aviso prévio, reagiu.

O próprio número de vítimas do atual conflito em Gaza mostra que Israel não tem procedido além do necessário para a consecução da missão. Israel não está procedendo bombardeios aleatórios, estilo “carpet bombing”, e nem há provas de que esteja visando em inocentes[12]. A morte dos inocentes é um fato a ser lamentado, mas a exigência de que Israel aborte as operações militares e negocie com um grupo terrorista que prega abertamente a sua destruição e islamização global é uma exigência francamente injusta.

Israel hoje se põe como a linha de frente da civilização ocidental. Os “pacifistas” que exigem um cessar fogo francamente desfavorável a Israel não buscam senão uma paz maligna[13]. Os inimigos de Israel são os mesmos inimigos da Cristandade, portanto o que é bom para os inimigos de Israel não pode ser bom para os cristãos.

Por isso, tendo em vista que a questão levantada no início deste artigo acaba respondida afirmativamente, rezo pelas vidas dos inocentes no conflito ao mesmo tempo em que rezo pela vitória completa do Exército de Israel.

[1] Vide o recente artigo “Conflito na Palestina: Sangue, Fé e Ideologia”, do Pedro Ravazzano, publicado aqui no Acarajé
[2] http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI3433448-EI308,00-Gaza+e+campo+de+concentracao+diz+cardeal+do+Vaticano.html
[3] O Cardeal, posteriormente alegou que suas palavras não era antiisraelenses, mas para bom entendedor, elas se bastam. Comparando Gaza a um campo de concentração – onde os nazistas cercavam gente inocente e indefesa, especialmente judeus, para posterior extermínio – o Cardeal chamou os israelenses de nazistas pela via oblíqua, apesar da comparação não caber senão na retórica antiisraelense. Por esta razão a Chancelaria de Israel, acertadamente, emitiu nota em que afirma "O vocabulário da propaganda do Hamas, vindo de um membro do Colégio de Cardeais, é um fenômeno chocante e frustrante”. Resposta deveras elegante, se a comprarmos com a de Kruschev quando dos protestos do Vaticano à invasão da Hungria: "De quantas divisões dispõe o Vaticano?" (http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,fala-de-cardeal-gera-tensao-entre-vaticano-e-israel,304514,0.htm )
[4] Catecismo da Igreja Católica, § 2309
[5] http://www.mideastweb.org/Hamas.htm. Explicitamente: "Israel will exist and will continue to exist until Islam will obliterate it, just as it obliterated others before it."
[7] Posso argumentar, ainda, que o civil que voluntariamente se dispõe a proteger com o próprio corpo uma instalação militar abandona ipso facto sua condição de não-combatente, o mesmo ocorrendo com crianças armadas. Claro que, para fins de propaganda do Hamas, cadáveres sem uniforme sempre serão civis inocentes, sem que a mídia ocidental perca tempo tecendo tais considerações "impertinentes".
[8] Questão 40 da segunda parte da segunda parte da Suma Teológica. http://www.newadvent.org/summa/3040.htm . Tradução livre nossa. Neste sentido, São Bernardo de Clairvaux: "Os pagãos até não deveriam ser mortos, se se pudesse impedir dalguma outra maneira as suas grandíssimas vexações e retirar-lhes os meios de oprimir os fiéis. Mas atualmente é melhor que sejam mortos a fim de que, desse modo, os justos não se dobrem à iniqüidade das mãos deles, pois do contrário certamente se manterá a chibata dos pecadores sobre a classe dos justos" ( http://br.geocities.com/worth_2001/bernardmel.html ).
[9] http://www.unhchr.ch/html/menu3/b/92.htm . Tradução livre nossa.
[10] Catecismo da Igreja Católica, §2310
[11] Catecismo da Igreja Católica, § 2264
[12] Sábado, 10/01, Israel lançou panfletos instruindo a população civil a permanecer longe dos Terroristas, de suas armas e instalações. Seria este o padrão de um exército equiparado injustamente ao nazista? - http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL950569-5602,00.html
[13] “Aqueles que conduzem a guerra justa visam à paz, portanto não são opostos à paz, mas senão à paz maligna, a que o Nosso Senhor não veio trazer à Terra (MT. 10:34)”. São Tomás de Aquino, Summa Theologica, Q40, II-II, Art. 1, resposta à objeção 3. Tradução livre nossa do inglês - http://www.newadvent.org/summa/3040.htm