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terça-feira, 15 de setembro de 2009

Entrevista do Acarajé Conservador à Revista Lupa - Facom - Ufba

Segue a entrevista que o Grupo de Estudos do Pensamento Conservador deu à Revista Eletrônica Lupa, mantida pela Faculdade de Comunicação da Ufba, e que se encontra no link. A entrevista foi dada no dia 04 de setembro de 2009, no próprio campus da Universidade.

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Por Rodrigo Aguiar em setembro 14th, 2009

A Lupa Digital entrevistou a quase totalidade dos integrantes do Grupo de Estudos do Pensamento Conservador. Há cerca de um ano, eles mantêm o blog Acarajé Conservador. Confira abaixo os trechos mais importantes do bate papo com Pedro Ravazzano, Ricardo Almeida, Fabrício Soares, Edson de Oliveira, Vinícius Mascarenhas e Vladimir Lachance.

LUPA -Afinal de contas, o que é ser um conservador?

Ricardo Almeida – Conservadorismo é, basicamente, uma vertente política que toma a existência da tradição como um dado positivo. Agora, você tem uma variabilidade muito grande: há conservadores de vertente monarquista, outros são conservadores “liberais”. Todas as vertentes partem da idéia de que se deve reportar a essa tradição, porque ela possui um conhecimento, uma sabedoria que transcende os indivíduos e pode ser acolhida como um cabedal de informações importantes.

L - No texto “Os Dez Princípios Conservadores”, do Russel Kirk, ele defende que o conservadorismo não é propriamente uma ideologia e sim uma tendência, uma disposição, um caráter. Faz sentido falar em uma ideologia conservadora?

Ricardo Almeida – O termo ideologia sugere idéias que são alheias ao conservadorismo. Quando Marx emprega o termo ideologia, ele o faz para designar um conjunto de proposições teóricas que encobrem um determinado interesse de classe, que está ligado a essas proposições. Os conservadores não partem dessa idéia, porque acreditam que, em primeiro lugar, uma teoria pode ser julgada apenas pelo seu próprio valor, independente de qualquer associação política, econômica ou social. Em segundo lugar, nem sempre, aliás muito frequentemente, um indivíduo que defende o conservadorismo não pertence às classes dominantes nem tem nenhum interesse econômico.

L - Frequentemente, os conservadores são acusados de serem intolerantes. Ainda nos “Dez Princípios”, o Russel Kirk fala no princípio da diversidade. Queria que algum de vocês comentasse sobre isso.

Vinícius Mascarenhas – Eu penso que as pessoas confundem muitas vezes o termo “conservador” com palavras que são utilizadas no senso comum. Por exemplo, as pessoas costumam dizer que é conservador qualquer coisa que seja intolerante. Então, o raciocínio é “se é intolerante, é conservador” e não “os conservadores são intolerantes”. Tudo que eles acham ruim chamam de “conservador” ou “de direita”, de maneira pejorativa. Agora, do ponto de vista que o Russel Kirk usa o termo “conservador”, é muito natural falar em diversidade, sobretudo partindo da tradição norte-americana, a qual ele é ligado. Pode-se falar também em pluralismo, que é uma abordagem do filósofo Michael Novak. Então, o conservadorismo não está fechado e o nosso grupo é uma prova disso. Temos pessoas da TFP [Tradição, Família e Propriedade], como é o caso do Sr. Edson. Temos pessoas que não são de religião alguma, tem outros que…
Pedro Ravazzano – São de todas. (risos)

*O grupo faz referência ao fato de Ricardo ser adepto da Filosofia Perene.

Edson de Oliveira – Muitas vezes, as pessoas criticam, por exemplo, que o Papa condene o preservativo e o chamam, num tom pejorativo, de “conservador”. Isso vai na linha de tentar tachar o Papa como um ditador, mas a meu ver o ditador é essa pessoa, porque ela não considera que alguém possa ter uma opinião diferente dela. Ela não quer que o Papa tenha a liberdade de expressar um pensamento da doutrina católica. No fundo, ela quer que o Papa fale o que ela quer ouvir.

L - A defesa de certos valores morais supremos está necessariamente ligada à religião?

Edson de Oliveira – Não, por causa do Direito natural. Através dele, qualquer pessoa (como Aristóteles, que não era católico nem nada) pode defender certos valores como supremos.
Fabrício Soares – Atualmente, isso é pouco comum, mas tradicionalmente muitos filósofos acreditavam na existência do universal, que é algo que transpõe o cultural. Platão, por exemplo, quando pensava em ética, não pensava a ação humana apenas para os gregos. Em diferentes sociedades humanas, é possível constatar comportamentos semelhantes como, por exemplo, a rejeição ao incesto. A existência desses pontos em comum mostra que certas coisas não são apenas convenções de uma dada cultura, mas sim coisas que precisam acompanhar o ser humano em qualquer lugar. Isso é uma prova da existência do Direito Natural, que precede a constituição mesma da sociedade.

L - Muitos críticos do conservadorismo apontam como seu “calcanhar de Aquiles” o fato dele não se constituir como uma ideologia.

Pedro Ravazzano – Eu não acho. Pelo contrário, acho que isso é um ponto positivo do conservadorismo. Existe uma base estrutural essencial pra qualquer pessoa que se considere conservadora, mas sobre ela cada um tem liberdade de pensamento. Veja o nosso grupo, por exemplo. Tem ateus, tem católicos, tinha protestantes…

L - Ateus no grupo?

Pedro Ravazzano – Fabrício é ateu. Tem Ricardo… (risos)
Ricardo Almeida – Deixa eu explicar. Em termos de religião, eu sigo uma vertente muito estranha pra maior parte das pessoas, que é o tradicionalismo, chefiado por René Guénon, Frithjof Schuon… Basicamente, o tradicionalismo é uma teoria de explicação das religiões que parte da ideia de que o que unifica todas as tradições é a base metafísica comum. Cada uma tem as suas particularidades dogmáticas, culturais e simbólicas, mas todas elas se referem a uma mesma estrutura metafísica da realidade e é esta estrutura que permite dizer que todas as religiões, se ortodoxas, conduzem ao mesmo lugar.

L - E dentro daquele espectro direita-esquerda, todo direitista é um conservador?

Ricardo Almeida – Não. A direita abriga pessoas das mais variadas formações. Liberais, anarco-capitalistas… Nem todo direitista é conservador, embora a direita abrigue o conservadorismo. Mas há um problema em definir alguém como de direita ou esquerda, porque esses termos não têm uma definição muito clara, são palavras usadas a esmo…

L - Mas vocês usam no blog. Esquerdismo, esquerdista….

Ricardo Almeida – O meu uso ainda é um pouco vago. Eu já li bons textos que tratam dessa dicotomia direita-esquerda, mas não cheguei a ter uma definição clara.
Fabrício Soares – O termo “esquerdismo” é muito mais definido do que “direitismo”. “Esquerda” é uma expressão cuja conotação foi atribuída principalmente pelos que se colocam dentro dessa denominação.

L - E a esquerda “inventou” a direita pra colocar tudo que era contrário a ela?

Fabrício Soares – De certa forma, sim.
Pedro Ravazzano – Como eu estava comentando com Ricardo, hoje a esmagadora maioria das pessoas que se auto-intitulam “de direita”, como se isso fosse um caráter de distinção, são defensores de um conservadorismo ou de um liberalismo infantil, que acha que votar no PSDB é ser de direita. É aquele direitismo que não tem nenhuma base. Além disso, esse esvaziamento do que é ser conservador ou ser de direita aqui no Brasil foi basicamente uma conseqüência do regime militar. Como a esquerda se auto-intitulava defensora da liberdade e do povo e o regime militar era visto como algo conservador, então o conservadorismo foi visto como esse monstro autoritário. Só que isso não existe, porque nós sabemos muito bem que os movimentos terroristas do regime militar não queriam derrubar a ditadura, queriam trocar uma ditadura por outra, muito mais cruel.

L - Existe partido de direita no Brasil?

Pedro Ravazzano – É uma pergunta complicada, porque no Brasil não existe uma fidelidade ideológica partidária. Os partidos de esquerda são muito mais ideologizados do que os partidos de “direita”, como o PSDB e o DEM. O PSDB é visto como o baluarte da direita conservadora no Brasil, mas, pelo amor de Deus, quem em sã consciência crê nisso? O próprio presidente Lula, em visita a Argentina, declarou que estava feliz porque todos os possíveis candidatos à presidência eram de esquerda. O único partido que talvez tenha uma sintonia a mais é o DEM, não o atual, mas o antigo PFL. Se você lesse a carta de apresentação do PFL, havia um viés liberal. Não um liberalismo convicto, mas mitigado. Depois que o PFL virou DEM e praticamente se tornou uma sucursal do PSDB, as coisas mudaram. O partido saiu da centro-direita e virou um partido de centro; centro que vai pela maré, de acordo com a situação.
Edson de Oliveira – No Brasil, existe político de direita, mas não partido. Por exemplo, o Lael Varella, do DEM. E tem também aquele da Polícia Militar de São Paulo, o Coronel Paes de Lira.
Pedro Ravazzano – Que entrou no lugar de Clodovil. E Clodovil, por incrível que pareça – pra você ver como o Brasil é uma caricatura – despontava como um conservador. (Risos). Foi vaiado pelo movimento gay. Era criticado pelo movimento negro.

L - Uma crítica muito comum da esquerda é a de que os meios de comunicação são dominados pela direita. Qual a visão que vocês têm do jornalismo, em particular o brasileiro?

Ricardo Almeida – Sobre essa questão, eu acho que deveria ser feito o que uma vez sugeriu o professor Olavo de Carvalho [filósofo brasileiro], faz uma centimetragem. Pega os arquivos dos principais jornais e mede o conteúdo escrito. Faça isso de maneira casual e você vai ver que a imensa maioria das matérias tem viés claramente esquerdista. Todo mundo diz que a mídia é de direita, mas eu peço que listem os jornalistas de direita.

L - Num balaio de gato, costumam citar Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi…

Pedro Ravazzano – Daqui a pouco, William Bonner é de direita.
Ricardo Almeida – Tudo bem, ainda vai. Mas Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi representam a imensa maioria?
Pedro RavazzanoJoão Pereira Coutinho.
Ricardo Almeida – Mas esses se destacam justamente porque fogem da regra. O foco incide sobre eles porque tem alguma coisa ali saindo do normal. Ora, se sai do normal, é porque o normal é o esquerdismo. Essa visão de que a mídia, o jornalismo é de direita se baseia no fato de que a esquerda parte da idéia de que existe uma classe que comanda os jornais e que esses donos dos jornais são de direita. Acontece o seguinte: embora você tenha essas famílias que comandam o jornalismo, como os Mesquita [Estadão], os Frias [Folha de S. Paulo], os Marinho [Globo], o que se escreve nos jornais não está de acordo com uma ideologia que porventura os donos desses jornais tivessem.

L - Que autores vocês lêem, discutem?

Vladimir Lachance – Edmund Burke, que é considerado o pai do conservadorismo moderno. Curiosamente, ele não era considerado um conservador porque fazia parte do Partido Liberal inglês. Mas o princípio das idéias dele é o que deu origem a teoria do conservadorismo moderno, retomada por Russel Kirk. Tem T.S.Elliot. No Brasil, Olavo de Carvalho. Chesterton é outro que lemos bastante. Hilaire Belloc, um católico que se dizia de esquerda, mas que tinha idéias que iam de encontro ao que a gente considera de esquerda hoje.
Pedro Ravazzano – Michael Oakeshott. O Roger Scruton, eu leio o blog dele. E tem algumas leituras complementares, que não são autores propriamente conservadores. Em economia, tem os economistas da Escola Austríaca: Hayek [Friedrich Hayek], von Mises [Ludwig von Mises]…
Vladimir Lachance – Mais ligado à tradição católica tem o Dr. Plínio [Plínio Corrêa de Oliveira, fundador da organização católica Tradição, Família e Propriedade (TFP)].
Fabrício Soares – Olavo de Carvalho, além da contribuição pessoal importante, nos apresenta vários autores que não ouvimos falar em sala de aula.

L - Por quê o nome do blog é Acarajé Conservador?

Edson de Oliveira – Na época em que estávamos discutindo o nome, surgiram várias sugestões, inclusive “Zero à direita”. Daí alguém sugeriu que fosse “Café Conservador”, mas café é coisa do Sul. Tinja que ser alguma coisa da terra, daí veio a idéia do acarajé.
Pedro Ravazzano – Tá vendo? Defendemos a tradição baiana. (risos).
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Segue o link da apresentação da entrevista:

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Extrato de uma conversa filosófica

"Evidentemente, estas considerações não valem para a lógica aristotélico-escolástica, que não é um "mecanismo de representação", nem uma função específica das estruturas lingüísticas (como queria um R.Carnap, por exemplo). Reduzi-la a algo assim é retirar dela a sua própria essência. A lógica em Aristóteles enuncia as leis de encadeamento dos princípios supremos da realidade, os quais são por sua vez apreendidos pela intuição intelectual. Ora, a possibilidade de se dizer algo do mundo que efetivamente saia da esfera das representações subjetivas ou da mecânica da linguagem, desaparece quando cortamos o laço entre pensamento e mundo, entre alma e realidade exterior.

Decerto, este afastamento dos dois polos não foi mera obra do acaso histórico, mas tem uma bem traçada linha de desenvolvimento, cuja culminância e cintilação mais vultuosa nós hoje assistimos. Os espíritos conventuais, ainda apegados à tradição, recuam horrorizados ante a idéia de esposar esta dualidade trágica. A certeza lógica e ontológica em Aristóteles provêm da estrita homologia que é possível estabelecer entre pensamento e mundo. Sem esta homologia, a lógica nada nos diz sobre o real, mas apenas sobre as condições do discurso possível acerca do real.

Em Aristóteles, interior e exterior, mundo e discurso se interpenetram e se resolvem da unidade de uns quantos princípios comuns - eis aí a raiz e a possibilidade mesma do conhecimento, uma possibilidade que Kant não percebeu quando, movido pelo afã de tudo reduzir às representações do sujeito, esvaziou a lógica do seu alcance ontológico e com isso abriu a possibilidade para a queda no formalismo puro da lógica moderna - instrumento maravilhoso, que faríamos bem em conservar abdicando dos pressupostos epistemológicos que lhe servem de base. Mas, mesmo sem entrar em toda esta controvérsia, ainda assim você não estaria mais respaldado para concluir, como você conclui, que a validade da lógica reduz-se a uma espécie de "legitimidade" socialmente condicionada.

Ora, isto é confundir dois planos distintos. Uma coisa é falar acerca das condições históricas que tornaram este ou aquele método de conhecimento preponderante numa determinada época ou cultura. Outra, bem diferente, é especular sobre a validade de um saber considerado em sua estrutura interna. Quando dizemos que um silogismo é válido, estamos nos referindo a uma ordem de realidade que não depende em nada das "convenções" sociais ou das suposições de qualquer indivíduo, mas que depende da apreensão de certos princípios universais, que podem estar na realidade, no entendimento puro ou nas estruturas linguísticas do gênero humano. Em suma, seja derivada da natureza das coisas, seja derivada de estruturas maiores comuns a todo homem, a legitimidade da lógica não é "convencionada" arbitrariamente.

O racionalismo mitigado de Kant não entra em questão, pois ele de fato não criticou a razão em si mesma, o que seria uma pura e simples impossibilidade de acordo com o seu método. Ele criticou certas pretensões filosóficas que levavam a razão a enredar-se em controvérsias irresolvíveis. Conforme estudos mais recentes no kantismo, o que Kant propunha era uma espécie de semântica transcendental, na qual certas perguntas seriam recusadas in limine: ao notar que as questões metafísicas mais apaixonantes eram questões "sem objeto" - pois apoiavam-se em proposições sem sentido - o que Kant faz não é impor limites à razão ou coisa do tipo, mas tão só discriminar entre as questões que realmente fazem "sentido", as questões cujo objeto pode ser dado na representação, e as que não fazem. Naturalmente, a imagem que você me sugere ao falar desta crítica da lógica através da lógica, é sumamente paradoxal, mas correta. Lembra uma imagem de um filósofo analítico, não me recordo quem foi agora... Ele dizia que a epistemologia assemelhava-se a tentativa de desarmar e reconstruir um barco enquanto se está navegando.

A arte não pode demonstrar coisa alguma. Na arte não existem os mecanismos para se passar da irresolução de uma idéia à sua certeza apodítica. A arte é por essência um meio de "apreensão" - nisto você está certíssimo. Mas, se ela apreende algo - uma impressão exteriorizada, vamos supor - é precisamente porque sua natureza lhe indica a função de captar certas realidades e não de demonstrá-las. Demonstrar é revelar a necessidade de algo ser exatamente o que é. Assim, demonstramos que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa quando, por certos mecanismos apropriados, o entendimento é levado a tomar a conclusão como necessária. No entanto, se a arte nos permite captar certas realidades, estas realidades podem, evidentemente, ser diferentes do que são. Nada há nestas realidades artísticas, e na sensação de beleza que elas nos provocam, de "demonstrável", quanto mais de "demonstrado".

Mas esta é uma mudança ociosa. A distinção entre demonstração e apreensão, entre a certeza lógica e a impressão, a certeza que a arte nos provoca - uma "certeza", cum grano salis - corresponde a uma adequada diferenciação de processos de conhecimento. No caso, o excesso logicista estaria em desprezar a apreensão artística como forma de conhecimento, em considerá-la uma forma menor de saber, quando na realidade ambas as coisas, lógica e arte, são as duas faces de Jano: a arte enquadra-nos numa perspectiva simbólica, quando nos fornece certas experiências interiores sem as quais estaríamos confinados permanentemente na baixa animalidade; ao fazê-lo, a arte nos dá uma imagem em miniatura de um "mundo possível" e, portanto, nos estende um horizonte de possibilidades anímicas e sensitivas.

O acúmulo de impressões variadas desta mesma ordem se traduz no aumento progressivo da capacidade de estruturas sub-realidades com as quais, imaginativamente, reproduzimos a estrutura de um mundo possível, cujas leis sempre serão o reflexo, ainda que retorcido, das leis do nosso próprio mundo (leia-se aí o conceito da mímese aristotélica). Ora, projetar imaginativamente modelos estruturais de realidade é uma atividade artística comum à ciência, com a diferença que na ciência busca-se o real com tais modelos, enquanto que o domínio da arte é o domínio do possível. Se a arte situa-se no domínio do possível, então é um contra-senso falar em "demonstração", pois o sentido mais óbvio do termo "demonstrar", é: mostrar algo como não podendo ser senão o que é demonstrado. Daí a pertinência da distinção: a atividade científica supõe outras condições que não estão presentes na arte, as quais constituem os requisitos particulares e diferenciadores dessa atividade."

terça-feira, 11 de novembro de 2008

René Guénon e a Unidade Metafísica das Tradições I

A obra de René Guénon se constitui no exemplo mais perfeito de intelectualidade espiritual no Ocidente do século XX. Este juízo grandiloquente dificilmente poderia ser contestado por quem lesse a totalidade dos 27 volumes saídos da lavra do ilustre autor.

Francês de nascimento, tendo sido educado por família católica devota, Guénon desde cedo mostrou aptidões notáveis para as matemáticas. Mais tarde, quando afastado do estudo das disciplinas lógicas a que era afeiçoado e dedicando-se por completo a exposição das doutrinas tradicionais, este caráter matemático do seu espírito revelar-se-ia no estilo escolástico e complexo dos seus escritos.

Este estilo, naturalmente, tem um encanto ambíguo. Pode afastar leitores menos afeitos a intrincadas distinções e ao mesmo tempo seduzir aqueles que, a despeito das dificuldades encontradas, buscam uma fonte extremamente precisa de dados tradicionais. Pois de fato o intuito de Guénon não foi jamais destacar-se por sua originalidade, muito menos atiçar a sensibilidade de seus leitores com belas metáforas e floreados estilísticos. O rigor matemático da exposição, aliada a erudição invejável mas nunca louvada como fim em si, recomenda Guénon como o expositor por excelência da Sophia Perennis.

Por Sophia Perennis entende-se o núcleo metafísico das tradições cuja unidade essencial se atesta precisamente pela convergência neste plano: apenas no plano da Sophia Perenis pode haver identidade das tradições. Malgrado as diferenças de ritos, moral, dogmas e outras diferenças de forma, a concepção metafísica da Realidade deve necessariamente ser compartilhada pelas religiões. No plano dos princípios supremos e universais não pode haver distinção entre as várias formas tradicionais. Todas as tradições, por exemplo, seja sob véus de mitologias politeístas, seja afirmando um monoteísmo irredutível, compreendem a realidade como sendo, em última instancia, unitotalidade espiritual. A impossibilidade de um dualismo metafísico incontornável é um daqueles pontos nos quais a unidade metafísica das tradições mostra-se mais facilmente visível.

Do mesmo modo, a convergência manifesta-se quanto ao aspecto operativo dos métodos ascéticos empregados pelas distintas tradições. Existem técnicas de ascese que tem rigorosamente seus similares em diversas tradições conhecidas. Um dos métodos de iluminação mais difundidos é a repetição de um nome sagrado. Encontramos a técnica entre os místicos cristãos, em especial São Bernardino de Siena famoso por suas jaculatórias inspiradas e pelas pregações recomendando a eficácia deste método. Entre os cristãos ortodoxos lembramos a tradicional repetição do nome de Jesus, um dos métodos centrais da ascese do monte athos. Na mesma linha, o budismo Sukhavati (Terra Pura) centraliza sua devoção em torno da repetição do nome do Buda, enquando o hinduísmo traz a mesma técnica no japa yoga.

Este é apenas um exemplo entre tantos outros que podiam ser citados. O prof. W. Perry forneceu uma extensa lista de semelhanças deste tipo no seu livro Treasures of Traditional Wisdom. Em contrapartida, as diferenças entre os métodos explicam-se por caraterísticas específicas a cada tradição. Assim, nas tradições iconodúlicas[1] há uma veneranda transmissão de práticas vinculadas à contemplação dos ícones, cujo caráter sacramental é incontestável[2]; ao contrário, as religiões iconoclastas dispensaram todo aparato figurativo para a contemplação. Analogamente, enquanto o zen coloca todo o acento da sua prática nos koans e no zazen, o budismo tibetano traz os upayas e as recitações salmodiadas dos mantras unem-se a uma liturgia na qual os movimentos e os mudras (gestos simbólicos) são imprescindíveis e tradicionais.

Basta-nos dizer que as semelhanças dificilmente poderiam ser atribuídas a influências históricas recíprocas entre estas civilizações, uma vez que os métodos em questão se apresentam desde épocas remotas nas quais não havia contato registrado entre algumas destas civilizações.

A semelhança repousa, em realidade, na eficácia objetiva destes métodos espirituais. Isto significa que, ao contrário das hipóteses subjetivistas e relativistas que grassam na modernidade, as tradições têm um componente objetivo inequívoco. Este componente reside nos princípios metafísicos supremos os quais se refletem na adequação de certos métodos cuja prática servirá para alcançar a religação com a Fonte divina, seja esta religação concebida como Identidade Suprema com o Princípio (at-tawhid, yoga) ou estado Absoluto e Incondicionado (nirvana, sahaja nirvikalpa samadhi), seja a meta mais modesta dos exoterismos de matriz abraâmica: a felicidade imaculada num reino de bem-aventurança celestial.
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[1] O termo iconodúlico foi introduzido na literatura especializada ao que consta pela primeira vez pelo prof. William Stodart. Iconodúlica é uma tradição na qual os ícones são objeto de veneração.

[2] Um velho costume dos artistas ortodoxos do medievo indica significativamente o caráter sacramental dos ícones. Misturava-se na tinta em que eram pintados os ícones um pouco do pó das relíquias. Em outro contexto, e num plano menos material, por assim dizer, os textos de arte hindús salientam a necessidade do artista em dedicar-se à disciplina espirtual e à dhyana (contemplação).

Ricardo Almeida

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Peyrefitte e Sísifo: a dialética do sentido (I)

Sob a regência de Peyrefitte tudo é luz e harmonia na História. É como se o sentido da História no fundo estivesse se desvelando da forma mais improvável possível: sem uma orientação determinada, sem leis férreas a reger seu desenvolvimento, este sentido ainda assim, ou talvez por isso mesmo, subjaz a cada uma das decisões individuais que compõe sua tessitura e concorre, no desenlace fatal, para o equilíbrio das sociedades humanas. É com esta impressão que eu leio a Sociedade de Confiança.

Livro instigador e complexo, nele seu autor, onze vezes ministro e viajante incansável pelos quatro cantos do mundo, analisa o fenômeno do deselvolvimento capitalista. Desenvolvimento a um só tempo inpirador e problemático: quantos não foram os que previram seu fim, quantos não foram os que anunciaram sua glória perpétua. Profetas, profetas... e é privilégio dos profetas da História, dos profetas sem deus, serem desmentidos pelos fatos.

Peyrefitte não é profeta. Esquiva-se de traçar um destino às sociedades humanas. Seu ceticismo de observador arguto dos costumes humanos - esteve em diversos países cumprindo funções oficiais - talvez lhe sugira a sobriedade que lhe é própria e transparece em suas análises. Sobriedade, porém, matizada por otimismo realista. Não se surpreendam com o paradoxo aparente. Como nos diz Olavo de Carvalho, no admirável posfácio que ele consagrou a edição brasileira da Societé de Confiance, o otimismo de Peyreffite decorre da constatação de um fato: a liberdade de agir.

(continua dos próximos capítulos)

domingo, 31 de agosto de 2008

Educação Liberal e Cultura Universitária

Ricardo Almeida

Não se entenda por educação liberal uma pedagogia tributária do conjunto heterogêneo de doutrinas que recebem o título algo apologético de “liberalismo”(1). E não vamos confundi-la, pelo lado oposto, com alguma coisa vagamente relacionada à esquerda dos EUA, onde a palavra liberal significa esquerdista. Sem ser um privilégio da esquerda ou da direita, e, aliás, tendo sido defendida justamente por um esquerdista e por um conservador irmanados em torno da mesma idéia, a educação liberal paira acima dos partidos e das convenções ideológicas. Para além do esquematismo dogmático, a educação liberal apresenta-se, sobretudo, como proposta aberta e livre de preconceitos, como método de estudo integral e compreensão do mundo que se realiza precisamente na consciência de uma personalidade bem formada e sadia.


Apenas há de se saber que a educação liberal serve perfeitamente aos objetivos da democracia. A idéia de sociedade democrática supõe a livre discussão entre seus membros; sem esta liberdade de discussão que se concretiza na liberdade de ação política dentro da órbita do justo e racional admitido pelo Estado de Direito, não há e nem poderia haver democracia. A democracia está intrinsecamente ligada à livre discussão. Por outro lado, sem uma forma de discriminar entre um ponto de vista superior e um ponto de vista inferior, entre uma opinião mais razoável e outra menos razoável, a discussão democrática perderia o sentido, pois cada qual reivindicaria a razão para si e afirmaria seu próprio ponto de vista como superior aos demais pelo simples fato de ser o seu ponto de vista. A inexistência de alguma forma de arbitragem racional da discussão retira da discussão todo o seu sentido e propósito e a transforma numa disputa de egos onde vale apenas o discurso mais sedutor e agradável. Como cada qual acha a princípio o seu próprio discurso o mais sedutor e agradável de todos e apenas se convence do discurso alheio porque considera algum critério capaz de validá-los, então a conseqüência rigorosa do relativismo epistemológico total é a dissolução do propósito da discussão e o próprio fim da democracia que nela se apóia.

Contrapondo-se a esta dissolução perigosa, a educação liberal pode proporcionar uma base para a discussão racional numa sociedade democrática e livre. Neste sentido, pode-se falar num significado político da educação liberal que enraíza-se na noção clássica de política como atividade em busca do bem comum da polis. Esta atividade, independente do conteúdo doutrinário que a dirija, será tanto mais exitosa quanto mais estiver apoiada na visão adequada dos problemas contemporâneos e de suas soluções possíveis. E é justamente este entendimento do mundo contemporâneo, onde o aspecto político é apenas um entre tantos, o que esta nova paidéia nos vem possibilitar. Por isso mesmo pode e deve ser aproveitada por todas as escolas e todos os partidos, embora alguns pontos básicos de sua proposta examinados à luz dos pressupostos filosóficos mais gerais que lhes sustentam, dificilmente poderão ser conciliados com certas doutrinas e ideologias.(2)

Como dizíamos, por educação liberal entendemos certo projeto pedagógico bastante amplo, aplicável em princípio a toda e qualquer realidade política. Acrescentaremos que uma tal pedagogia pode ser aplicada a qualquer realidade educativa, mesmo as mais afastadas dos moldes anglo-saxônicos onde ela nasceu. Foi este projeto, desde sua criação, coroado por sucesso nos mais diversos contextos sócio-políticos e culturais para os quais o trouxeram - o que basta para confirmar a tese de sua universalidade. E foi ainda o principal baluarte da resistência da cultura universitária norte-americana à queda na barbárie tecnicista e na especialização imbecilizante – suficiente para considerá-lo uma novidade auspiciosa em nosso país, tradicionalmente avesso ao pensamento sistêmico e a interdisciplinaridade nas universidades. As principais universidades americanas têm “Colleges of Liberal Arts”, onde os estudantes se detêm em investigações gerais orientados por este método e adquirem a visão retrospectiva das tradições intelectuais do Ocidente. Tornam-se, assim, capazes de manter a alta conversação da cultura universal, em cujo lastro se apóiam todas as demais atividades da civilização.

Não estamos falando de uma fórmula como a demagógica “educação para a cidadania”, seja lá o que isso queira dizer no vocabulário dos ideólogos do dia, mas sim um projeto bem definido de alguém que estudara num programa de leitura dos clássicos e recebera neste programa uma formação incomparavelmente mais refinada do que a ministrada nas universidades da época. Este homem, Mortimer J. Adler(3), havia notado a decadência das instituições de ensino americanas. Então, baseando-se na sua experiência pessoal de leitura dos clássicos, Mortimer J. Adler resolveu elaborar um vasto programa de estudos cuja idéia básica era transmitir ao aluno o conhecimento dos grandes problemas científicos, filosóficos e artísticos do Ocidente mediante a leitura dos autores essenciais da civilização ocidental. Naturalmente, a leitura destas obras se aprofundava mais e mais, em vários níveis descritos por Adler minuciosamente no famoso livro How to Read a Book, alargando-se em esferas concêntricas até abarcar todo o horizonte da cultura dos séculos passados. Com isso, abriam-se os olhos do aluno à realidade vivente de sua própria tradição.

Dizia Hutchins (parceiro de Adler no projeto e o primeiro a levá-lo para uma universidade) que um homem que lesse todos os livros em sua juventude e não retornasse a eles na idade madura nada haveria compreendido. Pois a educação liberal não é um método de pedagogia escolar, embora possa e deva ser oferecido aos estudantes desde idade noviça. Apenas não deve parar na juventude, mas prosseguir durante o resto da vida de um homem. Insuflado pelo espírito dos séculos o sábio conduz a si mesmo por todas as épocas sem que sinta-se preso a esta ou àquela época em especial. Assemelha-se a tal sábio o indivíduo que tenha realizado plenamente o ideal de educação liberal. Sondando todas as épocas com o olhar agudo de quem jamais se surpreende porque tudo contempla, o homem plenamente educado deixa-se enamorar-se pelo espetáculo deslumbrante do espírito humano em suas construções mais finas e em seus abismos vertiginosos. Educação para a sensibilidade profunda e para a comunhão com a sensibilidade dos homens de todas as épocas, a educação liberal também guarda um valor sólido como escudo às alternativas espúrias que a contemporaneidade pode vir a oferecer, e acostuma o indivíduo a buscar a solução dos problemas não na superfície da atualidade, mas por entre os veios profundos da História Universal. É, pois, uma educação da sensibilidade histórica.

Tal método, contudo, tem por objetivo formar no aluno a capacidade de discutir com mais inteligência os problemas contemporâneos, uma vez encaixados no panorama histórico maior da civilização. Evidentemente, este método tem alguns pressupostos básicos bem razoáveis. 1) Ele dá por pressuposto que a maioria das discussões importantes é mais antiga do que todos nós e remonta há séculos e milênios atrás. 2) Toma como certo o fato de que as tais discussões importantes haviam sido tratadas por homens importantes, que a importância destes homens residia justamente em havê-las pensado com especial rigor e originalidade e, finalmente, que as contribuições fornecidas por estes homens eminentes à história do pensamento podiam de algum modo ser compreendidas em nossa época, malgrado a distância temporal separando o aluno daqueles cujas contribuições deveria absorver e interpretar à luz das artes liberais. 3) Acredita que o cânone ocidental, salvo exceções raríssimas, está em perfeito acordo com a importância real dos autores do passado 4) Considera possível assimilar e converter em conhecimento personalizado o saber de várias áreas científicas. 5) E, finalmente, enxerga nestas artes liberais, reunidas no trivium (gramática, dialética e lógica) e no quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia) os instrumentos necessários para que o indivíduo realize a análise e a síntese dos conhecimentos adquiridos na leitura dos clássicos.(4) Estes pressupostos lastreiam todo o esforço do estudante universitário em conquistar patamares cada vez mais altos na compreensão e na personalização dos clássicos.

A universidade é desde há muito o locus privilegiado da formação da elite culta, da intelectualidade mundana que hoje orienta os destinos culturais e, conseqüentemente, sociais e políticos das nações e da civilização como um todo. Daí a importância pragmática imensa da formação de uma verdadeira elite intelectual, formação que só é possível através da compreensão em perspectiva da sua própria tradição, sem a qual o indivíduo se perde nas malhas da história e não é capaz de elevar-se ao cosmopolitismo mental do homem versado nas várias tradições e nos vários saberes. O provincianismo dificulta a solução dos problemas da sua própria época, pois estes problemas exigem uma visão ampla e panorâmica da sociedade. Por outro lado, o indivíduo ignorante do exato ponto em que as discussões sobre um dado tema estão dificilmente conseguirá responder às perguntas que exigem um conhecimento para além da realidade mais imediata.

Com efeito, as universidades já não são mais capazes de fornecer uma elite intelectual. O estudante universitário, bem viu Adler, é acrítico num sentido mais profundo que o político. Ao estudante falta-lhe a consciência da dimensão histórica de sua missão, cujo malogro resulta, em última análise, no enrijecimento da cultura em ideologias simplórias e em certos modismos lúdicos típicos das civilizações crepusculares como o eram os jogos florais entre os últimos romanos. Perdido o laço que une cultura e vida, que se expressa sempre por aquela sacra reverência em relação às grandes realizações do passado bem como pela aspiração à mesma grandeza futura, não resta no altar da Inteligência sacrificada à ideologia senão os restos mortais de uma ciência cujo desenvolvimento mais lustroso em nada poderá compensar a perda do espírito filosófico que animava seus antigos cultores. Realmente, uma só censura não será feita quanto ao progresso das ciências, progresso digno do maior apreço. Mas quem o celebra não se esqueça, por favor, de medir o que perdemos em espírito filosófico e em unidade das ciências, todo o vasto saber dos séculos reunidos nas obras clássicas que hoje passam por leitura difícil e insípida. Restaurar o sentido da tradição ocidental, recobrar o espírito filosófico que se dirigia à compreensão integral das ciências realizada na unidade consciente de uma personalidade tornada espelho do mundo, e capacitar o indivíduo para a alta conversação da cultura - eis o conjunto de finalidades da educação liberal e, a rigor, a medida exata da sua importância e grandeza.

Notas:

1 Apesar de não estar vinculada por princípio a nenhuma ideologia política determinada e tendo sido inclusive defendida por dois homens de ideologias opostas, Mortimer J.Adler e Robert Hutchins, o primeiro conservador e o segundo liberal - na acepção americana do termo –, concretamente, pode-se verificar convergências entre o projeto pedagógico de Adler e o liberalismo, tal como ele foi teorizado por sua principal vertente desde o século XVIII. Em primeiro lugar, dos três grandes modelos universitários da nossa época, os que melhor se encaixam na proposta de Adler são obra de liberais e conservadores-liberais. Logo temos como exemplo a Universidade de Berlim, fundada pelo teórico liberal Wilhelm von Humboldt, onde predominava o casamento tipicamente alemão entre pesquisa e magistério, com amplo espaço para a formação variada de uma intelectualidade ainda acostumada com certos privilégios medievais que a modernização conservaria. O outro modelo é o das universidades britânicas e tem por idealizador o clérigo John Henry Newman, figura de proa do conservadorismo inglês, cujas idéias pedagógicas aproximam-se em diversos pontos das de Adler. Newman encontrava-se igualmente empenhado em restaurar a formação integral, desinteressada, do estudante. Esta formação científica, mas sobretudo artística e filosófica, visava ao mesmo ideal de Mortimer Adler, - a formação de uma elite culta e profundamente identificada com tudo o que é do espírito e da civilização. Por fim, o terceiro modelo, proveniente da reforma da Universidade de Paris em 1814, já se encontra a léguas de distância do ideal de educação liberal, pois submete a atividade universitária aos critérios de eficiência do Estado e, posteriormente, aos critérios ainda mais estreitamente utilitários das corporações privadas. Se acreditarmos com F.Hayek que o liberalismo genuíno contrapõe-se ao racionalismo construtivista, o qual teve na Revolução Francesa seu marco histórico mais vultuoso, dificilmente poderíamos considerar a reforma estatista da educação francesa como uma reforma liberal, sobretudo quando se conhecem as convicções ideológicas autoritárias do autor das tais reformas: ninguém menos que o próprio Napoleão Bonaparte. Para nosso grande infortúnio, foi este o modelo universitário adotado pelo Brasil, onde há notória influência francesa na educação.

2 Aqui não é lugar de argumentar contra o reducionismo ideologizante de alguns. Apenas observamos, de passagem, que os argumentos de que estes mestres da malícia se utilizam contra filosofias e teorias alheias jamais são contrapostos às suas próprias teorias por eles mesmos como seria de se esperar. Assim, o pensador que identifica em teorias adversas a expressão subjetiva das fraquezas e ressentimentos do indivíduo que as criou, raramente fará esta sondagem psicológica demolidora contra as suas próprias concepções ou fará apenas em relação às idéias que tinha e superou. A um observador imparcial lhe surpreende a pressa indecente com que certas concepções são postas de lado em razão da suspicácia maliciosa que tudo reduz a um jogo de forças para além da consciência individual, ao determinismo de classe ou às pulsões do inconsciente, ou ainda pior, aos ressentimentos e às neuroses do defensor da teoria x ou y, como se houvesse um meio de saber com segurança qual o estado psicológico do indivíduo que defende a teoria x ou y. E como se o raciocínio que tem por objetivo investigar estes estados pudesse, mesmo quando correto, elevar-se acima de um raciocínio meramente probabilístico.

3 Perda irreparável para o mundo, sua morte há alguns anos passou quase despercebida no Brasil, exceto por algumas breves notas cronológicas e dois ou três artigos de maior fôlego celebrando-lhe a memória. É um sintoma de quanto o país está afastado das principais referências teóricas e se compraz no louvor de figuras menores. Embora desconhecido do público geral, é dele a coleção magnífica da Enciclopédia Britânica “Great Books of Western World”. E é justamente esta coleção de livros a base da educação cívica proposta por Adler.

4 As artes liberais não subsistiam exatamente em sua formação original, mas haviam sido adaptadas para a realidade moderna pelo próprio Adler com a finalidade de dar ao aluno o suporte intelectual para compreender os clássicos. Essenciais á cultura da época, elas habilitavam o homem medieval a pensar na base das realidades numérica e verbal para que, superando-as pela meditação religiosa e pela teologia, ele pudesse ir além delas chegando à realidade transcendente. Sem este sentido transcendentalista já as encontramos na antiga Grécia e sua formulação organizada deve-se aos sofistas.