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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Governador mexicano é multado em 2 mil dólares por haver mencionado nome de Deus em campanha eleitoral

No passado, considerava-se delito blasfemar contra o nome de Deus, agora é crime mencioná-lo. Esse foi o caso do atual governador de Sinaloa, México, Mario López Valdez (foto acima) que venceu as recentes eleições para o governador e foi multado por ter, durante sua campanha eleitoral, pronunciado o nome de Deus.

O Tribunal Eleitoral do Poder Judiciário da Federação, órgão máximo na matéria no México, alegou a laicidade do estado e a proibição constitucional que proíbe o uso de expressões religiosas em disputa eleitoral, para justificar a punição.

Os Partidos derrotados ainda se acharam no dever de denunciar ao tribunal que Mario López invocou a proteção de Deus em outras ocasiões.

Como bem alertou o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, em seu livro Revolução e Contra-Revolução, “o laicismo é uma forma de ateísmo. (...) Ele afirma a impossibilidade de se ter certeza da existência de Deus. De onde, na esfera temporal, o homem deve agir como se Deus não existisse. Ou seja, como pessoa que destronou a Deus.” (Parte I, Cap VII, pág 63, Art Press, 1998)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Um caso incomum - as idiossincrasias de um ateu conservador (Parte II)

por Fabrício Oliveira Soares

Introdução à continuação

Expliquei, na parte anterior ( http://acarajeconservador.blogspot.com/2008/12/um-caso-incomum-as-idiossincrasias-de.html ), a evolução de minha mentalidade e da maneira pela qual assuntos que nos interessam estavam nela dispostos, até o período que termina com o final do Ensino Médio e meu ingresso na universidade. Agora, farei o mesmo em relação ao período posterior, da minha entrada na faculdade até a época atual.

Certos textos envelhecem, ou melhor, desatualizam-se mais rápido. Se eu me aventurasse a escrever sobre geografia, mesmo as mudanças ambientais que vêm ocorrendo no planeta não alterariam tão imediatamente a realidade descrita por mim. Mas outra é a situação do que lhes apresento: um relato autobiográfico de alguém aos 22 anos, começando a estudar Filosofia, que ainda conhecerá muitos pensadores, professores, explicações e teorias, que ainda conhecerá tanta coisa que, por me ser ainda desconhecida, não me revela o seu potencial de ação sobre a consciência. Quando faço este alerta, penso na segunda parte desta continuação, onde ficará mais claro o sentido dessas observações.

Mas é necessário dizer que o valor desse texto não reside tanto pelo que ele representa de meu pensamento ou de certa época – passageira? – de minha vida; na verdade, em meu lugar, poderia estar descrito um personagem de ficção, usado apenas como meio para se explicar certas coisas. Embora tenha escrito essas linhas em boa parte pensando nos amigos e pessoas que passam a me conhecer, eu não sou a única nem principal fonte da importância delas. O que mais importa aqui é o conteúdo de certas coisas que vivi e pensei, que poderiam ter acontecido a outro, e que faz com que este trabalho possa interessar a quem nada sabia de mim antes de chegar a este site(sim, isto aqui me deu muito trabalho!). E é natural que assim seja, que num escrito como este haja uma feição particular e outra mais ampla, de interesse mais universal, ligadas, sem que eu distinga bem onde termina uma e começa a outra, o que é, no mínimo, justificado para o autor-persongem.

Este artigo divide-se em duas partes. Na primeira, traço considerações políticas, comento a militância estudantil que eu conheci na faculdade e registro alguns acontecimentos pessoais relativos a esses assuntos. Na segunda, o foco é em considerações de natureza religiosa, i.e, explicarei os meandros de um certo ateísmo que é o meu, discutirei o uso desta palavras, e outras coisas afins.

Na faculdade...

No primeiro dia de aula... Bem, é fato amplamente reconhecido que a primeira vez é sempre especial. Nela, as esperanças ainda não se macularam pela vivência dos fatos concretos, bons ou ruins, de uma experiência cotidiana. O início da vida universitária é algo idílico, repleto das melhores expectativas. Claro, as pessoas fazem pressuposições diferentes, mais ou menos realistas, e muitas entram receosas na UFBA, pensando em greves, em problemas diversos... Sim, também temia as greves, mas, naquele dia, o que eu sentia era um misto de apreensão e de felicidade por estar estreando como estudante de nível superior. As aulas começariam, na verdade, na semana seguinte, devido à Semana do Calouro, evento já “tradicional” que promove uma série de atividades para apresentar a universidade aos que chegam. Lembro que assisti a uma atividade sobre machismo. Já não me lembro bem das datas, se não me engano o semestre letivo começou em abril, e em junho aconteceu uma greve, a última que houve até hoje, a longa greve de 2004.

A militância estudantil

De que forma, e com que intensidade eu participei do movimento estudantil? Participei apenas esporadicamente, de maneira muito circunstancial e sem me encaixar em algum grupo político; eu sentia certo peso na consciência por não participar de maneira constante e intensa como outros tantos faziam, e situava meu estudo acima das atividades de militância política, o que era uma atitude ocasionalmente censurada. Uma vez, alguém me dirigiu um comentário dizendo que “Fabrício não perde aula se for preciso para participar de movimento”, alguma coisa com esse significado. Foi uma leve crítica, leve mesmo, bem amena e cordial, aliás eu era visto como amigo e, afinal, cada um tem seu jeito; o meu era aquele e, de todo modo, eu estava do lado deles. Eu queria participar mais e por outro lado a disposição me faltava, não havia um ânimo arrebatador, embora eu gostasse daquilo e desejasse fazê-lo para “dar minha contribuição” para a sociedade, para o mundo. De vez em quando, eu tomava uma atitude no sentido de me adentrar mais no ME (movimento estudantil, para quem não estiver habituado), como uma vez em que dei a participar das reuniões do CA (Centro Acadêmico, que poderia se chamar Centro Revolucionário, CR), quando a “Atitude e Resistência” se reelegeu em 2005 ( quando entrei, já era ela quem estava na gestão, e só perdeu em 2007, sendo que a eleição se dá perto do final de ano, de forma que ela conduziu o CA por 5 ou 6 anos – há divergências); embora sejam abertas aos estudantes, não é comum que mais alguém além dos que participam desse negócio de CA se interesse em freqüenta-las, e eu as freqüentei por várias semanas, mais do que a grande maioria dos componentes da chapa.

Preciso contar que já tinha minhas divergências com a militância, e talvez sejam elas que instauraram um fosso providencial entre mim e a ala radical do ativismo do curso de História. Sim, a “ala radical” é tão radical, mas tão radical, que é uma coisa medonha que espanta e afugenta até as mentalidades “politicamente corretas” ( uma expressão cretina para designar os hábitos mentais da esquerda cultural incutidos a todas as pessoas cotidianamente) que lotam um lugar como São Lázaro (como é conhecido o nosso campus). Vejam bem, uma enorme parcela, se não quase todo mundo nesse lugar é de algum tipo de esquerda. Alguns votam no PSTU, muitos outros no PT, embora a maioria com críticas; é muito nítida a intersecção de valores e referências entre eles. Eu era de acordo com o espírito geral dos estudantes – eu nunca pertenci a um partido, embora os partidos que eu tinha afinidade fossem aqueles aos quais pertenciam os estudantes que militavam em partidos, nisso sendo parecido com os demais estudantes, que não são militantes e são de esquerda, de forma mais passiva ou menos; na penúltima eleição municipal, votei em Pelegrino/PT no 1º turno, e no PV para a Câmara; em 2006, andei com uns adesivos de Lula e Wagner na camisa, e na última hora, mudei de idéia e votei em Antônio Eduardo/PCO (coisa que quase ninguém sabe; no entanto, vibrei com aquela vitória de Wagner), que fora meu professor, e em Lula – ou seja, votei em Lula, co-fundador de Foro de São Paulo e amigo de terroristas, na última presidencial que tivemos. O que quero mostrar, talvez de forma muito prolixa, julgue o leitor, é que eu não era muito diferente da maioria das pessoas, que elegem o PT, e muito menos diferente do teor geral dos estudantes de ciências humanas, que é, tristemente, “progressista”, como se gosta de chamar. Então, contarei como a tal militância radical gera desconforto mesmo em estudantes que tendem à esquerda, no mínimo, e como fazia isso comigo, particularmente.

“Essas pessoas dos movimentos são as mais preconceituosas”; esse foi o tipo de frase que eu tive o prazer de ouvir nos últimos tempos antes de me formar, em reuniões entre colegas e entre colegas e professores. Escutei comentários muito críticos sobre os militantes políticos universitários, sobre o fato de criticarem tanto e serem “os mais preconceituosos”, sobre o fato de alguns terem sido vistos maltratando cães no campus, sobre o fato até de terem preconceitos que condenam.


Vinícius Mascarenhas – uma amizade e novas perspectivas

Nas nossas vidas, passamos por lugares, como escolas, trabalho, ou inúmeros outros ambientes, que são onde conhecemos as pessoas com quem manteremos relações, sejam nossos amigos, a pessoa com quem podemos vir a casar, aquela com quem teremos alguma oportunidade, seja profissional ou de alguma outra espécie, enfim, as pessoas que serão importantes para nós, dentre um conjunto muito maior de pessoas. No 3º semestre, as circunstâncias tiveram a bela idéia de colocar juntos, eu e um dos vários colegas que ingressaram comigo no curso, que até então não representava a mim mais do que isso; nós nos matriculamos numa disciplina vespertina e, por mecanismo natural dos estudantes, procuramos quem tinha feito o mesmo: eu e Vinícius Mascarenhas seríamos os únicos da turma a cursarem a disciplina e, portanto, passaríamos a almoçar juntos para irmos à aula. As aulas eram normalmente de visitação, e íamos juntos ao local; com isso, tivemos muita ocasião de conversar e de nos tornarmos próximos.

Nas férias que sucederam esse semestre, meus pais compraram o computador onde escrevo esse artigo; passei a usar orkut, e Vinícius foi um dos primeiríssimos a me adicionar, uma prévia do que seria o período das férias. Conversamos no MSN longas horas da noite, e foram os momentos mais agradáveis da época, e que deixam saudades (já que o infeliz está sem internet e não consegue consertar isso nunca). Vinícius aproximava-se cada vez mais do conservadorismo, desde que entrou na faculdade, e manifestava-se contra as idéias comumente veiculadas naquele ambiente, tornando-se um caso alegórico, posso dizer; ele era o “diferentão”, havia até quem achasse que ele falava certas coisa só para perturbar, e alguns demonstravam acha-lo “engraçado”. (Mas é melhor que ele mesmo preste o seu depoimento nesse blog – cobremos!) Creio que nenhum deles achará engraçado ter em mente o que ele fez com a sua capacidade de ação que vem trazendo e trará conseqüências notáveis para a causa conservadora em Salvador: foi ele quem, em junho do ano seguinte, me apresentou ao Sr. Edson Carlos, da TFP (a verdadeira, não a oficialmente representada pelos Arautos do Evangelho), primeiramente pela internet, e depois providenciou meu encontro com o Sr. Edson e o Sr. Márcio; foi ele quem foi conhecendo e aglutinando pessoas com algumas tendências ou simpatias conservadoras. Completarei esse raciocínio mais para frente.

Naquelas conversas de MSN, ele foi me mandando artigos do Mídia Sem Máscara e de Olavo de Carvalho, de quem eu nutria uma desconfiança terrível. Lia nos seus artigos coisas extremamente destoantes do que eu conhecia, e que não tinham o respaldo da “formação acadêmica”. Sempre me incomodou ele não colocar referência para cada coisa diferente que ele dizia, e em alguns momentos me sentia diante de um autor genial, e em outros, me sentia sem confiança diante de alguma passagem ou afirmação que me parecia pouco rigorosa e cuidada. Mas se às vezes tinha esse segundo tipo de sentimento, a lembrança das demonstrações nítidas de capacidade e competência dele me fazia sentir uma forte necessidade de lê-lo mais para conhecê-lo com mais inteireza e entender o porquê de certos trechos e argumentos me parecerem poucos seguros; nunca, porém, me pareceu que eu pudesse tirar uma conclusão definitiva de pronto, especialmente se negativa, e descartar o exame de um autor tão complexo que leitores superficiais aos quais só interessam certos aspectos – os mais políticos – reduzem de forma tão deformante. Descobri que ele não fornecia provas ou evidências de algo que ele defendia num momento, mas as fornecia em outros em que afirmava a mesma tese; percebi como alguns textos iluminam outros, e que só um estudo sincero e paciente poderia me facultar compreender Olavo de Carvalho – e, ainda hoje, o meu conhecimento sobre ele é básico, ou talvez pouco mais que isso.

Nesse período, em 2007, eu ainda não tinha deixado de ser esquerdista, nem havia aderido à Direita. O convívio com ambas as formas de pensamento instaurou um conflito em mim, uma ligação psicológica com uma e outra (já que eu não conseguia mais descartar de pronto alguma das duas), uma grande dúvida, um problema que eu pretendia resolver pela confrontação de um com o outro. Quando o meu contato era com a Direita, eu me sentia mal com as suas críticas; quando era com a Esquerda, eu me sentia constrangido com uma certa intolerância à minha inclinação e necessidade de conhecer aquela que é tão condenada e comentada, mas que jamais deve ser conhecida. Estranha situação, em que eu me ofendia com uma ou com outra, quando cada uma atacava sua rival com a qual eu tinha algum laço. Mas a intolerância e “raivosismo” peculiares que eu pude experimentar nos meus colegas da Esquerda, que eu não notava direito quando estava em concordância com eles, fez com que eu me apegasse mais ao que eles queriam jogar no lixo antes que eu julgasse tê-lo examinado satisfatoriamente, e me fez dar razão a certas avaliações direitistas sobre a Esquerda e sua militância. Quanto mais eu me sentia acuado por ler Olavo de Carvalho e MSM (abreviação costumeira para o “Mídia Sem Máscara”), mas eu desejava lê-los avidamente antes que eu fosse privado desta leitura, eu sentia um estranho desejo de absorver seus argumentos o mais rápido possível como se eu estivesse prestes a ter de explicar a relevância do que eu lia inclusive para poder continuar lendo.

Eu já estava decidido a estudar o pensamento conservador, e já compartilhava com Vinícius anseios idênticos de ver considerações relativas ao nosso tema de interesse se manifestarem na faculdade, desejávamos ver no estudo de História discussões que extrapolassem o que de costume é levado em conta, ansiávamos por ver presente nos debates algo mais que perspectivas revolucionárias das ciências humanas. Fizemos juntos um trabalho sobre a Revolução Francesa que nos deu oportunidade de procurar caminhar nesse sentido e de termos um diálogo com cumplicidade. Estava patente que íamos criar um grupo de estudos do pensamento conservador, isto já era algo natural no decorrer desse período; eu já pensava em falar com Vinícius da criação desse grupo no semestre seguinte, sabia também que mais cedo ou mais tarde ele ia chegar com essa proposta, e foi o que aconteceu. Um certo dia ele veio falar comigo sobre isso e, se me lembro bem, eu já adivinhava a idéia dele enquanto ele me contava. Foi um momento muito cativante! Inaugural, com os sentimentos inerentes a uma situação em que pessoas se articulam para fazer juntas um projeto importante para elas.

Surge o Grupo de Estudos do Pensamento Conservador

Vinícius foi o grande articulador: a formação inicial do grupo era ele, Ricardo Almeida, Marcelo Couto, Fernando Fidalgo, eu, uma amiga de Ricardo que, se não me engano, chamava-se Adriana, e um colega de Marcelo que passou a freqüentar pouco tempo depois, Tiago. Eu havia falado para Vinícius de um estudante de Filosofia chamado Ricardo, mas foi Vinícius quem o conheceu primeiro e o chamou para o grupo. Também foi ele quem conheceu Marcelo e Fernando, que não participaria mais do grupo no ano seguinte. Não narrarei a história do grupo, pois não convém no momento (e é melhor que fique por enquanto na tradição oral!). Apenas queria contar o começo de tudo. Nossa primeira reunião se deu na quarta-feira da primeira semana de volta às aulas, portanto em 15 de agosto de 2007, e comemoramos nosso primeiro aniversário no 15 de agosto de 2008.

Uma nova identificação surge de um novo autoconhecimento

Não me considerava conservador enquanto participava desse grupo, que aliás existe para todo aquele que queira estudar o que nós estudamos, desde que seja civilizado nas reuniões. Mas, tendo lido os “Dez princípios conservadores” de Russel Kirk, não vi um só que me parecesse equivocado, com o qual eu discordasse. O que faltava para que eu me assumisse conservador? Gostei do texto seguinte, e do outro, e do outro. Por que então a demora? Mudar uma forma de encarar a realidade sempre é difícil, pois mantemo-nos apegados a formas de pensar anteriores que continuam presentes e claras em nossa memória. Vejam, não se trata de “mudar de opinião”, mudar a forma de pensar é algo muito maior, que afeta inumeráveis opiniões particulares do indivíduo. E mudar, nesse caso, era tornar-se “conservador”, algo visto como radicalmente ofensivo, e contra que eu mesmo me habituei a condenar, introjetando firmemente esse preconceito em mim. E mudanças tão radicais dão a sensação de que seremos tidos como levianos e superficiais, e contra isso nem a frase de Pascal “Não tenho vergonha de mudar de opinião, pois não tenho vergonha de pensar”[1] nos protege totalmente. Embora eu tenha refletido muito demoradamente antes de me tornar um conservador – mais do que qualquer jovem ao se tornar de Esquerda, coisa que acontece na alfabetização – posso parecer volúvel para alguns. Isto tudo é motivo de vacilação e de demora. Mas, tendo conhecido Olavo de Carvalho, conheci muito mais que meras considerações sobre economia e política, sobre estrutura do Estado, da produção e da sociedade. Conheci uma intimação à sinceridade, aprendi a conhecer minha consciência, embora o aprendizado da autoconsciência ainda prossiga; o conhecimento verdadeiro não se dá somente com a apreensão de dados externos, ele exige coragem, exigem certos sentimentos e disposições espirituais.[2] Foi assim que eu revelei a mim mesmo que já era um conservador e que só me cabia assim me identificar. E há mais jovens que precisam “sair do armário”! Mas o sujeito tem de estar disposta a abrir mão da falsamente confortável boiolice, no sentido olaviano do termo: ser covarde para agradar aos outros.

A questão do ateísmo em seus novos termos

Na parte precedente deste artigo, eu expliquei como me tornei ateu; mas, carece de atenção muito especial a questão sobre como esse ateísmo se conformou com a outra mudança radical que descrevi na presente secção, a de esquerdista para direitista, na concepção olaviana dos termos. Os conservadores comumente são religiosos, e acreditam numa ordem terrestre de alguma forma relacionada a uma ordem celeste, e inspirados pela religião combatem projetos políticos que vão de encontro a instituições como igrejas e família, e de encontro a concepções religiosas. A maioria dos que conheço são católicos, mas os demais têm alguma outra fé; isso vale para todos que eu conheço pessoalmente, e para os que eu já li.

Em primeiro lugar, é preciso analisar a questão em termos de “Deus” e “Natureza”;
muitos invocam o ateísmo ou o laicismo como desculpa para eliminar a distinção entre certo e errado e se justificar qualquer coisa, como o aborto, p.ex.[3] Na tradição judaico-cristã, há Deus, o Criador, e o Universo e os seres, a criação; segundo o livro do Gênesis, Deus havia criado “tudo o que se move sobre a terra”, o ser humano e os animais que seriam preservados pela arca, cujo modo de construção Êle instruiu a Noé. Hoje, muitos não acreditam em Deus; porém, isso não é desculpa para mais nada. Explico; quem irá contestar que o mundo é habitado “por seres viventes”, pelas plantas, peixes e seres humanos? A negação do Criador não autoriza a negação da realidade do mundo, apenas introduz uma divergência em relação à Origem: discorda-se sobre a origem das coisas, mas tem de se acreditar na existência das mesmas coisas; um ateu, por não acreditar em Deus, deixa também de acreditar que existe o homem, que as Escrituras apresentam como criatura? Ora, CACETE!, que legitimidade tem alguém para defender um niilismo contrário a toda ordem e toda moral por ser ateu?! Esse ceticismo de ateu estúpido implicaria, se levado às reais conseqüências que derivam logicamente de sua forma de pensar, nisso: “Deus disse “Não matarás”; eu não acredito em Deus, então eu posso matar.” Digo por pungente experiência própria, há pessoas cuja demência é de tal grau que não conseguem entender um posicionamento contra o aborto fora de um sistema religioso, ou seja, não conseguem ou não querem me entender[4]. Entendo que não se creia em Deus, mas não dá pra entender alguém não crer na natureza. E é do Direito Natural, que antecede ao Estado, que o ser humano tem direitos inalienáveis como
à vida, à alguma propriedade e autonomia. Sem o Direito de Natureza, só vejo restarem a arbitrariedade e a convenção pura: a força, enfim, a força bruta e destruidora que é o âmago do espírito revolucionário.
Assim, considero ter resolvido o pseudo-problema acerca do conservadorismo e do ateísmo.[5]

Que ateu sou eu?

Serei eu um ateu? Minha aproximação com pessoas religiosas e com pontos de vista tradicionalmente concernentes a elas tornam inverossímil meu ateísmo, meu suposto ateísmo, digamos assim. Fui questionado sobre se eu já não seria hoje um “agnóstico”, portanto mais próximo de Deus que um ateu. Discussões terminológicas sempre são complicadas; e, preciso dizer, sinto-me aprisionado pelo rótulo “ateu”, embora não veja motivo para descartá-lo em favor de “agnóstico”. Tive uma vez oportunidade de consultar um dicionário de religiões, e no verbete sobre ateísmo tinha descrições que coincidiam com o que eu conhecia por agnosticismo. Dizia, por exemplo, que há certos ateus que não se sentem capazes de resolver o problema da existência de Deus, ou de sua interferência no mundo. Costuma-se tomar por ateu quem é convicto da inexistência de Deus, e por agnóstico, quem não tem uma resposta tão peremptória sobre essa questão, quem não tem tanta certeza assim. Mas é apenas um hábito. Vejamos o uso de “ateu” e “ateísmo” em Olavo de Carvalho; ele se diz inimigo do ateísmo militante, não do ateísmo em si. Não entendi isso logo – posso ter uma opinião ateísta mas não posso defende-la? Porém, naturalmente eu me encaminhei a esse tipo de ateísmo que ele descreve em “Ateus e ateus” como o de quem não acredita em Deus, em contraposição ao ateísmo de quem “acredita piamente que Deus não existe.” Deixei de ser aquele ateu iluminista clássico, de cunho cientificista – para quem isso é o modelo preciso de ateísmo, eu não sou ateu mesmo. Não sinto mais a antiga vontade de discutir com crentes – coisa que vira uma espécie de esporte, como o foi para mim – para dissuadi-los de ter sua fé. Por quê?

Vejam bem. Nós somos seres humanos e temos uma vida finita. Evidentemente, precisa-se levar isso em consideração ao se viver, e o fazemos quando procuramos planejar carreira, e quando procuramos trabalhar para acumular bens para que fiquem para os nossos filhos – aí está embutido a previsão de nossa morte mesmo quando conscientemente estamos pensando apenas na vida de nossos filhos. Cada pessoa deve encontrar um sentido para sua vida, e quem é religioso já aderiu a uma resposta formulada, que pode ser correta ou errada. Quem é ateu, tem uma dificuldade maior de encontrar esse sentido: e qual o “sentido” de atacar a resposta dos outros em vez de se tentar resolver o problema? Isso não é uma condenação à discussão em si mesma: apenas penso que as pessoas têm um desafio para suas existências, e que podem debater os caminhos que estão encontrando para enfrenta-lo, com um objetivo de colaboração; isso é muito diferente de se combater sistematicamente tais ou quais respostas apresentadas.

Voltando ao debate de termos sobre “ateísmo” e “agnosticismo”; este segundo não se refere somente à indecisão sobre a existência de Deus. Refere-se à afirmação da permanência dessa indecisão; ninguém é agnóstico por não saber se Deus existe ou não, mas por pensar que não se pode saber isso. Quem não acredita em Deus, nem desacredita, pode ser considerado ateu, já que não admitiu a existência divina; se ele acha possível responder à essa questão, mesmo sendo um cético hesitante, pode ser considerado ateu.

Para completar essa descrição sobre em que ponto eu estou presentemente, falto apenas acrescentar uma breve apresentação sobre o que direciona minha atenção relativa a assuntos espirituais, transcendentais etc. Em primeiro lugar, devo dizer que eu busco entendimento sobre essas coisas, o que não contradiz minha caracterização como ateu, que, ademais, é pouco importante, tratando-se apenas de uma rotulação para apresentar, de forma resumida, abreviada e imperfeita o meu ponto de vista. Ademais, ateu é o que eu sou hoje, e que continuarei sendo enquanto me parecer que as razões para sê-lo sejam melhores que as razões para não sê-lo.

Quanto a esse ponto, aliás, talvez o meu conflito com a idéia de Deus se deva a exposições inadequadas deste, que consistem na atribuição de características ontológicas que nos são mais acessíveis – como características humanas, por exemplo – a um ser considerado absoluto e infinito. Descrições que afirmam a inteligência, a vontade, a ira, a escolha, enfim, que resultam implicitamente na “consciência” divina, me parecem remeter a uma impossibilidade clara e flagrante. Nenhuma “consciência” pode se estender pelo infinito; a vida não me parece um atributo de Deus, e características como essas são de seres vivos, limitados. Para se afirmar se algo existe, tem de se explicar o que é esse algo, e verificar se as condições são absurdas ou plausíveis.

Voltando ao que eu dizia, se me constato como ateu, não quero ficar preso a nenhum compromisso de agir conforme as pessoas esperem que um ateu aja. Eu sou ateu não por acreditar no ateísmo, mas por não ter fé, por não ter a crença de que Deus existe. O meu compromisso é com a verdade, não com uma convicção particular: já abandonei algumas antes. Apenas apresentei aqui a minha opinião atual e o meu procedimento intelectual.

Poderia insistir mais nesse ponto, mas em vez de fornecer uma argumentação exaustiva e que explique perfeitamente as minhas concepções sobre o assunto, pararei por aqui e acrescentarei o que for preciso à medida em que isso me seja requerido. Não me demorei pouco nesse texto, e desejo terminá-lo. Não obstante meu perfeccionismo, apresento esta alegação para não me estender demasiadamente – procedimento, aliás, semelhante aos que usa Descartes, me encorajando a fazê-lo também (filósofo que estou estudando na faculdade e cujo próximo texto que lerei é a terceira meditação: “De Deus; que ele existe”). Concluirei dizendo a minha principal motivação que me faz querer pesquisar sobre questões transcendentais – estou com dificuldades na expressão, e me pareceu por bem nesse momento usar essa palavra – é uma angústia que sinto quando penso a relação entre o particular e individual – nós mesmos – em relação ao infinito, que não pode ser satisfeito (vide a nota de rodapé da Parte I desse texto), à eternidade. E meu grande interesse se dirige à metafísica tal como apresentada por Guénon, autor que já fez uma grande diferença para minha vida, que me mostrou coisas que preciso procurar conhecer e entender. Quanto ao que seja essa metafísica que tanto me interessa, não será comentado agora. Sugiro que se busque artigos nesse blog sobre perenialismo ou Guénon.

Adendo 1: na parte de cima desse artigo, eu apresentei alguma coisa sobre o que vivi como aluno de História. Mas, para atualizar quem me lê, informo que hoje sou aluno do curso de Filosofia na UFBA, na graduação, e sou novamente calouro.

Adendo 2: é normal que pontos que não tratei como principais pareçam mais importantes para alguns, ou que algumas considerações estejam insuficientemente desenvolvidas para outros tantos, ou pouco claras, etc. Mas urge a publicação deste texto, e mais perfeccionismo atrasaria ainda mais a publicação, ainda mais tendo em conta o seu tamanho e a demora em rever todos os parágrafos deste longo escrito. Quem desejar, pode entrar em contato comigo e, ou, comentar meu post; responderei diretamente ou, se me parecer matéria de interesse mais geral, posso abordá-la numa futura postagem.

Imagens: a primeira, a do chamado "Casarão" de São Lázaro, bonito embora danificado, eu encontrei no site problemasfilosoficos.blogspot.com ; a segunda me mostra no dia de minha formatura e foi tirada por minha irmã.

[1] APUD COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia, Saraiva.
[2] Essa valorização da consciência individual permeia todo o pensamento de OdeC, mas vou aqui só citar algumas referências que eu já conhecia: o True Outspeak de 26 de fevereiro de 2007 é iniciado com esse assunto; o texto “Notas para uma introdução à filosofia”, lido nesse mesmo programa; e um que não consegui encontrar agora, no qual ele compara as Confissões de St. Agostinho com a autobiografia de um pensador contemporâneo, inglês se me lembro bem.
[3] Vi em janeiro um caso cuja absurdidade ultrapassou todos os limites que eu havia imaginado até o doloroso momento. Na sala de espera de uma clínica, eu lia uma meteria de uma “Época” velha sobre uma polêmica que aconteceu quando um carnavalesco quis colocar, no desfile de sua escola de samba, um carro alegórico representando o Holocausto, com bonecos representando os judeus mortos, a até com pessoas fantasiadas de nazistas e um Hitler; uma federação israelita conseguiu vetar esse carro na justiça, e houve quem condenasse isso como censura, e quem ficasse ofendido com a idéia do carnavalesco. Um psiquiatra entrevistado pela revista e um dos defensores de tal carro, comemorou algo equivalente a “no Brasil, o Estado é separado da religião”. Ou seja, numa grave questão envolvendo os sentimentos de tantos judeus, para os quais o Holocausto é fato de memória recente, havendo até no Brasil quem passou por Auschwitz, um super-imbecil consegue fazer um comentário completamente desvinculado do que se discutia, confirmando um fato já óbvio de que no Brasil os que acusam a religião de interferir em tudo são na verdade pessoas que introduzem a religião em todas as discussões para conseguir aprovar o que existir de maior agressão ao ser humano.
Esse aí deveria ser enviado a um campo de concentração, e a Igreja não deveria fazer nada a respeito, nem mesmo dizer uma só palavra contra. Deveria só declarar: “religião não deve se envolver em nada, e não me cabe intervir em assuntos políticos. Nós só podemos rezar. Nada faremos se pegaram você, pois nada nos cabe no campo social, nada nos cabe fora do templo.”
[4] Seria inconveniente à militância abortista admitir que compreendeu um argumento não-religioso contra o aborto, pois a estratégia deles consiste somente em atacar a religião, e nada mais lhes restaria depois disso.
[5] Sobre o Direito Natural, leia “Com que direito se nega o Direito Natural?”, que foi publicado no site da Frente Universitária Lepanto, de autoria de um prof. de Filosofia.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Um caso incomum – as idiossincrasias de um ateu conservador (Parte I)

por Fabrício Oliveira

História de sete anos numa escola religiosa – ou, Tudo começa quando somos pequeninos...


Como a maioria dentre nós, fui batizado na Igreja Católica Apostólica Romana e fiz, com gosto, catequese na Paróquia de Brotas, onde moro a quase quinze anos, desde que minha família voltou para Salvador, depois de morarmos em Seabra. Após terminar a 4ª série na Gente Miúda, tivemos de procurar uma escola que oferecesse ensino ginasial, como se chamava o da 5ª a 8ª série. Uma das opções foi o Colégio Nossa Senhora da Conceição, possibilidade que me empolgava bastante, mas que não se cumpriu. As outras duas, que foram efetivamente as alternativas dentre as quais eu escolhi, foram o IECB (onde hoje funciona o EEMBA) e a Escola Santa Maria Eufrásia, anexa ao Instituto Bom Pastor. A primeira, a laica, próxima à minha residência, oferecia aulas de natação, o que não me atraía pouco. Eu amava piscina, amava água – me encantava ver água nos programas esportivos, só bem depois que o futebol se tornaria mais interessante aos meus olhos; era sinônimo de alegria para mim, poucas coisas representavam tão bem os sentimentos de conforto e prazer, e visitamos a escola para conhecê-la. A segunda, a religiosa, católica, “escola de freira”, mais longe de minha casa, era, porém, uma perspectiva muito, mas muito fascinante para mim; eu teria aulas de religião e me prepararia para a Primeira Eucaristia, a se realizar no final do ano. Eu era uma criança, mas, no fim das contas, esta opção foi a que mais me seduziu: aquela primeira perdeu, e escolhi, com convicção, estudar na ESME: o desejo de religião, de fé, significava muito mais. Teria aulas de religião! Faria a Primeira Comunhão! Sem ter uma consciência clara da doutrina, obedecia eu naquela circunstância, entretanto, obedecia eu naquele momento da infância, ao primeiro mandamento. Será que me dei conta disso? Acho que não, mas a minha escolha foi a que relatei, foi por Deus, foi por conhecê-Lo, por segui-Lo.

Tive de responder a um questionário – achava tratar-se de um teste para ter o privilégio de estudar lá – e algum tempo depois soube que ia me matricular. Como estava contente e satisfeito! A empolgação estava em tudo, na observação da lista de material escolar (sempre gostei disso), nas compras, em tudo que se relacionava à escola. Quanto tempo durou a lua-de-mel? Não sei ao certo, mas nos anos seguintes o desejo do divórcio iria crescer cada vez mais, mas não foi concedido; o que era escolha do livre-arbítrio e alegria se tornaria sentimentos de impotência, decepção, frustração, e a escolha deu lugar à imposição – não só a imposição de permanecer naquele ambiente, mas até a imposição de suportar quieto as violências que lá abundavam. Eu era cristão, e não Cristo! Se se me dá um tapa na cara, o meu desejo é de trucidar o ...desgraçado. Explico: lugares como escolas são espaços de hostilidades. Alunos procuram colegas que tenham características que possam servir de matéria para chacotas, e se divertem à custa do sofrimento alheio. Não é por que a escola é “religiosa” que vai ser diferente, e os alunos se guiarão pelo amor ao próximo. Bom, eu transbordava os limites da ingenuidade, facilitando os engodos e ataques contra mim. Meu temperamento me levava a perdoar facilmente, mesmo quando eu sentia que a ofensa viria de novo amanhã. No meu caso, o que era tão diferente em mim? Eu era (era?) bastante distraído, do tipo que viaja horrores ao ponto de não saber o que o professor esteve falando à sua frente, e um católico inocente demais – que melhor para um lobo do que um cordeiro inocente? Explico mais uma vez. Aqueles meninos de quinta, de sexta série, levavam pornografia para a escola (espero que estejam conseguindo imaginar o clima de imbecilidade que imperava) e eu, recusando-me a olhá-las, tornei-me um tipo ridículo na Escola Sta. Mª Eufrásia, sendo chamado de “viado”, dentre a enorme variedade de agressões que já foram dirigidas contra mim naquele lugar. Nunca fui bom em me aproximar das meninas, e lá tive a oportunidade de aprimorar essa incapacidade – que melhor para aumentar a timidez do que ser o otário da turma, e qual garota vai querer alguma coisa com o otário da turma? Elas devem querer um cara mais esperto, capaz, “miseravão” (soube na própria escola de rapazes brasileiros que transaram com namoradas, filmaram o ato sem que elas soubessem, e que colocaram o vídeo na internet mostrando aos amigos como eles são demais, à custa da imagem das meninas.) Para que menino besta? Sempre fui o besta, bobão, lerdão, conforme já fui informado tantas vezes. Desenvolvi um sentimento de afeição às meninas, via nelas vítimas inocentes de homens, mas não vou comentar esse ponto. Tenho de avançar no artigo.

Fiz a Primeira Eucaristia na 5ª série, mas não senti nada de muito forte na cerimônia – até me distraí muito durante ela. Não que eu tivesse alguma dúvida quanto a Deus; apenas me culpei pela minha falta de compenetração. Na oitava série, no entanto, tive uma grave crise em minha fé. Os pensamentos intensos e constantes a que me dedicava – razão de eu ser considerado do “mundo da lua”, de ser “Da Lua”, naquele contexto que expliquei -, em contraponto com o ensino horrendo de religião que eu tive naquela escola religiosa, me levaram a dúvidas que não conseguia sanar e me traziam grande sofrimento. Não conseguia conciliar a idéia de Deus com a de infinito [1], comecei a imaginar a morte eterna – o que se tornaria motivo de terror, pânico e desespero solitário para mim, e perdi, enfim, a fé. E no seu vácuo, irrompeu o medo, a desesperança, a tristeza pela idéia de que meu avô que morrera dois anos antes poderia ter morrido pela infinitude dos tempos. Era um conjunto de pensamentos e sentimentos novos que não constituíam uma concepção de Universo, era um proto-ateísmo, involuntário, desengajado, introspectivo, que não se apresentava como ateísmo. Mas o sofrimento que esta disposição de espírito me trazia fez com que eu voltasse a me apegar com a fé. Evidentemente, esse nova situação era muito frágil e transitória, bastando apenas as primeiras semanas do ano letivo seguinte pa ra que ela evoluísse e se tornasse uma segunda etapa de minha descrença: era, agora, o ateísmo enquanto tal, consciente de sua condição e que não desejava ser outra coisa. Isso foi no começo do 1º ano do Ensino Médio, e completará portanto oito anos em fevereiro ou março próximos. Tornei-me um “ateu clássico” – iluminista, cientificista, combatente da fé e que me envolvia em polêmicas com meus amigos religiosos procurando derrubar sua posição – justamente a coisa que não imaginava me tornar e que combatia em casa (em minha família há católicos, espíritas e ateus); a palavra “ateu” antes me gerava repulsa, e pensar que havia me tornado um me provocava uma sensação estranha devido à memória daquela repulsa que permanecia em minha mente na forma de uma impressão, de um hábito mental. Eu era algo que estava acostumado a condenar, e só com o tempo fui adequando minhas atitudes externas e internas à minha nova visão das coisas. Foi também o último ano de ensino religioso obrigatório na escola.

Há uma coisa que me esqueci de relatar. Tornei-me comunista na 6ª série. Sei, impressionante a precocidade, mas pelo menos desde a 4ª eu já repetia algumas coisas que meu pai falava. Ele foi militante do PCdoB na época em que estudava na UCSAL, durante a ditadura militar, não na sua fase mais dura mas na que sucede o Gal. Médici e que já caminhava para a abertura. Foi diretor, (alguma coisa assim) do DA de Biologia, sendo colega de curso de Moema Gramacho, atual prefeita de Lauro de Freitas, e que na época nem era envolvida com militância, segundo ele me disse. Nesse ponto, eu procurei segui-lo. Não, eu não via incompatibilidade nenhuma com o catolicismo, muito pelo contrário, achava que era uma luta por justiça e que Jesus me ajudaria nela. Encontrei na biblioteca uma coleção de livretos ao estilo “Primeiros Passos” mas que visava também o público mais jovem, a “Pergunte ao José”, e li, dentre os inúmeros exemplares que li dessa série, os volumes “Comunismo”, “Socialismo” e “Capitalismo”, além de “Poder”, “Política” e “Feminismo”. O Manifesto Comunista de Marx e Engels eu só leria todo seis anos depois, no primeiro semestre da faculdade, mas eu já torcia pelo PT e sonhava com a eleição de Lula, e tinha aversão pela TFP (da qual a única coisa que eu sabia é que era uma organização católica de Direita que combatia a reforma agrária, chefiada por Plinio Corrêa de Oliveira, também um nome que soava muito mal aos meus ouvidos; foi o que eu pude extrair lendo o livro de História de Cotrim) desde aqueles tempos de imberbe. Isso na 6ª série! Da homossexualidade eu não simpatizava não, isso aí teria de esperar a faculdade mesmo, que é onde eu adquiriria uma nova opinião e me tornaria um quase “politicamente correto”, não fosse o fato de eu ter certos problemas com a política de cotas. Eu havia avançado mais para a esquerda.

Em 2003, fiz vestibular para História na UFBA, ingressando no curso no ano seguinte. Esse período ficará para a continuação, na qual eu abordarei o que considero minha terceira etapa ateísta, e minha visão atual sobre sua relação com outros assuntos que nos interessam, como religião e conservadorismo. Mas, por ora, quero justificar a feitura desses artigos.

Justificativa

Não desejo parecer pretensioso por estar tratando de minha pessoa; sei que é muito mais importante falar de Guénon, Ortega Y Gasset, Aristóteles, Confúcio, dos escolásticos, ou de Washington e demais Pais Fundadores, ou de tantos outros que deram contribuições inestimáveis à Civilização, coisa que ela ainda espera de mim. Tampouco posso me comparar a Sto. Agostinho para supor que posso imitá-lo escrevendo confissões com o valor que teve a dele. Sei qual é o meu lugar. Porém, além de minha falta de competência para tratar de tão elevados pensadores, posso alegar uma razão positiva para compartilhar convosco a minha insignificância. Ao relatar-vos essa minha trajetória intelectual, não pretendo tratar em primeiro plano de mim mesmo, mas de assuntos que me preocupam e que são de interesse muito mais geral: creio que interessam a todos os que lêem esse blog, e até a muitos mais, que não o lêem. Li em Olavo de Carvalho textos escritos de acordo com esse método, o de abordar coisas pequenas para discutir as grandes; não que eu tenha primeiramente observado tal uso em seus escritos – ele mesmo defendeu a utilização que faz de tal procedimento, sem o qual certamente não haveria Imbecil Coletivo nenhum, assim como muitas outras coisas que ele escreveu. Ademais, creio que pode interessar aos mais próximos, aos amigos ou aos que lidam pessoalmente comigo saber um pouco mais sobre mim; e mesmo para quem não me conhece, ou nem o deseja, ou seja lá o que for, o presente tipo de relato não carece de utilidade. É só pensar que ao ler ficção, se lê sobre gente que nem existe, apesar das mensagens e informações verdadeiras que hajam nas obras de tal gênero. O leitor tem a opção de encarar esse texto como um artigo com um personagem! Espero, com tudo isto, ter despertado ou mantido o interesse de tantos quantos tenham lido (ou até, só examinado) esse post, ou, pelo menos, do máximo possível dentre esses.
Aguardem o prosseguimento desse escrito.

[1] O problema era o seguinte: quantos seres vivos poderiam existir? Se fosse possível permitir a reprodução dos seres vivos, que existem aos bilhões, indefinidamente, o processo jamais terminaria, e sempre haveriam seres por surgir. Não conseguia, então, imaginar a possibilidade, a capacidade de Deus de dar origem a toda a vida que poderia existir, pois sempre faltaria uma infinidade dela por nascer. Se Deus é conformado com isso, então ele não é tão misericordioso assim – e sim, aliás, cruel; eu, por sofrer com isso, teria muito mais misericórdia. Pior ainda era tentar imaginar que o conjunto infinito de potenciais seres a existir existisse com inteligência, como era o justo para mim. Então passei a pensar e sentir a vida – a vida como categoria absoluta sobre a qual me debrucei nesse raciocínio filosófico - como algo precário.