
Pedro Ravazzano
O estado brasileiro faz jus às suas origens mais positivistas. O lema “Ordem e Progresso” não é outra coisa senão a construção da sociedade política que se impõe antes de converter. Destarte, o positivismo religioso transformou a sociologia na sociolatria sociocrática. Nessa nova realidade não há espaço para Deus, mas apenas para a “Humanidade” e seus novos sacerdotes.
Atualmente vivemos um cenário político bem peculiar. Se outrora parecia que as propostas revolucionárias precisavam, necessariamente, de jogadas constitucionais para galgar espaço institucional, hoje a carta magna se simplificou a uma idéia vaga, rarefeita e difusa de lei, bem-estar, bem comum, sociedade etc, que existem nas cabeças dos nossos legisladores. Assim, a liberação de “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, ainda que seja claramente inconstitucional, torna-se constitucional se parte dos axiomas recorrentes da jurisprudência tipicamente fundada em pressupostos positivistas.
O positivismo, como pensado por Augusto Comte, tem uma metodologia muito peculiar e estruturada. Acredita que a melhor forma para conquistar seus fins é empregar uma disciplina brutal que passa pela tomada do governo e, só em seguida, a conquista dos sujeitos. O novo sistema, como disse o pensador francês, persegue, acima de tudo, a aquisição do poder.
O rechaço de Comte à democracia é reflexo da sua mentalidade totalitária. Contudo, se buscava sequazes entre as classes inferiores era unicamente por acreditar que eram menos infectados pela “cultura escolástica”. Ainda proclamando que a solução positivista geraria maior bem-estar aos trabalhadores que o comunismo, pede dos trabalhadores apenas submissão, tendo em vista que estes não gozariam de nenhum espaço nos negócios públicos. Desta forma defende que o melhor governo é o governo dos fortes – positivistas – contra os débeis, regidos pela razão positivista “que se apresenta de modo exclusivista e não é capaz de perceber algo para além do que é funcional, assemelha-se aos edifícios de cimento armado sem janelas, nos quais nos damos o clima e a luz por nós mesmos e já não queremos receber estes dois elementos do amplo mundo de Deus” (Bento XVI, Discurso ao Parlamento Federal, Berlim, 22 de Setembro de 2011).
Dentro dos devaneios positivistas, com sua religião, seu culto como um decalque mal feito do culto católico, com a adoração do seu triunvirato religioso – “Espaço, Terra e Humanidade” - e do rebaixamento diante da deusa razão, Comte pensava no indivíduo como mera abstração, uma emanação do “Grande Ser”, dirigido pelo “papado positivista”.
Hoje o Brasil não destoa muito das pretensões delirantes comteanas. De fato, há uma inegável influência da mentalidade marxista, entretanto, a forte carga positivista se faz presente na construção do espírito que permeia os fundamentos do estado em todos os seus âmbitos. De tal sorte que os cidadãos se transformam em sujeitos dirigidos pelos homens que já transcenderam – dentro desta ótica particular – e que se consagram ao serviço da “Sociedade”, isto é, uma idéia pouco definida e objetiva da comunidade que forma a nação.
Destarte, o estado não mais se entende, em suas bases, como servidor, mas sim como o sumo condutor que aponta a via pela qual todos os homens devem passar. A inversão da função essencial do estado é a virada positivista que enxerga no governo a missão profética de criar, por meio dessa “metafísica social” e fundamentalmente tirânica, a humanidade sem pessoas, ou seja, homens sem liberdade, sem uma alma feita à imagem e semelhança de Deus.
Nenhum comentário:
Postar um comentário