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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O fabuloso mito sueco

No sonho paternalista e/ou social-democrata o estado é o grande promotor do desenvolvimento e farol da economia nacional. A Suécia, durante décadas, levou esse axioma verdadeiramente como fundamento de toda a estrutura econômica sobre a qual construiu o prédio do famoso país escandinavo.

A terra de Sua Majestade, Carlos XVI, tem o crescimento de empregos do setor privado praticamente estagnado desde 1950. Entre o período de 1950-2005 - um intervalo de 55 anos - não houve novos empregos criados na inciativa privada. Em meados da década de 80 a Suécia teve um grande incremento da população basicamente causado pela imigração - os índices de natalidade do país eram baixíssimos. Logicamente, se não há o aumento da oferta de emprego na mesma proporção do crescimento populacional haverá uma onda de desemprego que, se agravada, consolidará uma crise profunda de produção. Não obstante, esse cenário nunca chegou a concretizar-se na Suécia porque entre 1950-1990, por exemplo, o país gerou mais de um milhão de novos postos de trabalho "líquidos", ou seja, o saldo da diferença entre o desemprego e emprego criado.

Entretanto, a aparente bonança sueca foi financiada com a fanfarronice do estado. Todos os novos empregos criados desde 1950 até a década de 1990 se deram exclusivamente pela expansão do setor público. Desde Ernst Wigforss jamais houve, por parte do governo, a mentalidade de priorizar o desenvolvimento de médias e pequenas empresas, até porque o sucesso do empreendedorismo depende quase inversamente do estado, ou seja, da liberalização das estruturas trabalhistas e dos encargos tributários, duas bandeiras que sempre foram assustadoras para o Sveriges Socialdemokratiska Arbetarparti - Partido Operário Social-Democrata da Suécia, que governou o país por quase 70 anos. Assim, em 55 anos o crescimento do emprego no setor privado foi praticamente nulo. Empregos no setor público são custeados pelos impostos "arrecadados". Mais empregos na esfera estatal equivalem a dizer aumento de custos para o estado e, logicamente, maior burocratização estatista das relações econômicas.
A linha vermelha é a população; a linha marrom os empregos do setor público; a linha azul os empregos do setor privado

A crise da década de 90 destruiu o mito da fraternal Suécia keynesiana. Ora, sendo o estado o maior patrão do país e sendo ele o grande afetado pelas intempéries econômicas, naturalmente houve a queda acentuada dos índices de emprego em aproximadamente cerca de meio milhão. Ainda que o setor privado tenha sofrido do mesmo modo, a esfera pública padeceu com extrema severidade o rigor da crise. Após vinte anos os postos de trabalho de outrora foram recuperados, mas o aumento da população tornou esse desenvolvimento lento e incapacitado de acompanhar o crescimento.

A Suécia tem um alto custo com gastos sociais que representaram 29% da renda nacional em 2001, que já são mais baixos do que os 37% na Suécia de 1993. A tributação total foi de 51% do PIB. Além das altas taxas prejudicarem o crescimento criativo e empreendedor, a semana de trabalho do sueco médio é uma das menores do mundo. Os impostos elevados levam uma parte significativa da renda e estimulam a informalidade "do it-yourself"

A solução foi o estado? Não, em 1991 Carl Bildt, do Partido Moderado - Moderata Samlingspartiet, foi eleito e, ainda com dois mandados do Partido Social-Democrata, em 2006 Fredrik Reinfeldt, numa aliança de "centro-direita", não só ganhou com uma vitória acachapante como conseguiu a proeza de, em 2010, levar uma aliança não-esquerdista ao segundo mandado no país.

É amigos, havia algo de podre no reino da...Suécia!

terça-feira, 27 de julho de 2010

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A Crise Atual e o liberalismo; Uma análise econômica

Pedro Ravazzano
***
A crise já chegou no nosso dia-a-dia. Toda hora ouvimos alguma notícia sobre o colapso do sistema financeiro, a falência de empresas e a intervenção do Estado, dando o dinheiro dos contribuintes, para salvar as companhias destinadas ao fracasso por conta da má gerência e incompetência. Entretanto, outro fato surge junto com a crise; existe um sentimento muito claro de que todos os problemas do mundo se originaram do pensamento liberal, na defesa do Livre-Mercado e na restrição do poder estatal. Pois bem, esse novo paradigma, que já se firmou nas mentes dos indivíduos – agora se junta a tantos outros, como o que diz que o aquecimento global é causado pelo CO2 e que a direita é sinônimo de retrocesso – parte de diversos preconceitos. Na verdade é uma grande ironia, afinal, se os socializantes fazem questão de se distanciar de estereótipos que tentam homogeneizar os movimentos de esquerda, os mesmos lançam mão de uma análise extremamente simplória e distante da realidade sobre o que consideram a “direita” – essa definição é tão vazia. Isso é mais claramente perceptível quando entendemos os meandros e as divisões nos projetos socialistas, principalmente as diferentes maneiras de se entender a práxis revolucionária, entretanto, os membros da esquerda não levam em conta que os mesmos contrastes possam existir dentro da ótica liberal, indo além, enxergam como um bloco sólido e muito bem definido. O princípio polilógico marxista, que tenta reduzir o comportamento dos indivíduos a um condicionamento mental induzido pela classe a qual pertence, cria, dentro do imaginário esquerdista, a idéia de que todo o liberal, enquanto teórico do Livre-Mercado, é um opressor, defensor da exploração dos trabalhadores, da fome do terceiro mundo, da alienação trabalhista e do retrocesso das causas sociais, ou seja, tudo o que pensa e produz teoricamente é para gerar a concentração de capital e o controle dos meios de produção, mesmo que não saiba.

Desse modo, por conta dessa ótica obtusa, liberais e liberais são colocados lado a lado, desde monetaristas, novo clássicos, até austríacos defensores da praxeologia. Ora, a esquerda e os estatólatras sempre se enxergam como os perseguidos e execrados das grandes discussões, mesmo quando estão no controle dos governos, dos centros de pesquisa e das universidades. Além disso, reduzem o que chamam de mainstream ao que consideram, erroneamente, liberalismo, mesmo quando dentro do pensamento liberal pululam correntes que, de maneira heterodoxa, criticam ferozmente os métodos de análise adotados pelos grandes liberais que gerenciam, ou gerenciavam, a economia mundial.

O consenso geral é de que os liberais foram culpados pela crise atual, mesmo quando dentro do considerado clã ‘liberal’ existiam muitos economistas que faziam ardorosa oposição a política econômica americana e, quase como um dom profético, afirmavam a iminente explosão da bolha e a instauração de uma verdadeira crise. Desse modo, torna-se uma enorme injustiça colocar Ron Pauls e Lew Rockwells da vida no mesmo saco dos irresponsáveis monetaristas-governistas. Um problema originado, naturalmente, dessa falta de conhecimento é justamente uma prejulgamento empobrecedor e a criação de um estereótipo de liberais como se, dentro dessa corrente, não existissem diferenças tão radicais que tornam impossíveis as tentativas de homogenização.

A crise se iniciou por conta de uma política intervencionista, com o simples propósito de criar crédito para um mercado estagnado. O FED, através do controle financeiro, promoveu a redução das taxas de juros com a intenção de criar oferta de dinheiro, estimulando a economia, dando vida ao imobiliary market. A indústria do subprime, com americanos tendo acesso irrestrito a empréstimos e hipotecas, aqueceu o mercado imobiliário, leia-se Freddie¹ e Fannie.² É importante frisar que taxas de juros baixas estimulam o consumo em oposição a poupança, que é uma das mais importantes "forças motoras do capitalismo." A alta demanda impulsionada por juros baratos, o perigo do aumento da inflação, a crescente inadimplência, entre outros fatores, obrigaram o FED a elevar a taxa de juros. Maiores taxas geraram maiores parcelas que geraram dívidas. Os títulos podres foram repassados ao Governo que logo tratou de cobrir o rombo. Na verdade essas instituições financeiras nunca tomaram cautela porque sabiam que as transações que envolviam a Freddie e a Fannie (Empresas que aumentaram o crédito na época de Bill Clinton a mando do próprio Presidente), apadrinhadas pelo governo, eram "seguras" como, de fato, se mostrou quando o Estado americano saiu em socorro das suas filhas pródigas.

O forte controle da economia americana – não digo propriamente regulação – era mantido por diversos órgãos governamentais:

Federal Reserve – O Banco Central, tem a incumbência de regular a taxa de juros, a oferta monetária, supervisionar e fiscalizar os Federal Reserve Banks (Bancos de Reserva Nacional), manter a estabilidade do mercado financeiro, responder a necessidade de liquidez etc.

United States Department of the Treasury (Treasurer of the United States, United States Mint, Bureau of Engraving and Printing, Under Secretary for Domestic Finance, Assistant Secretary for Financial Institutions, Assistant Secretary for Financial Markets, Assistant Secretary for of Fiscal Service, Financial Management Service, Bureau of Public Debt, Under Secretary for International Affairs, Assistant Secretary for International Affairs, Under Secretary for Terrorism and Financial Intelligence, Assistant Secretary for Terrorist Financing, Assistant Secretary for Intelligence and Analysis, Financial Crimes Enforcement Network, Assistant Secretary for Economic Policy, Assistant Secretary for Legislative Affairs, Assistant Secretary for Management/Chief Financial Officer, Assistant Secretary for Public Affairs/Director of Policy Planning, Assistant Secretary for Tax Policy, Internal Revenue Service, Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau, Inspector General for Tax Administration, General Counsel, Office of Thrift Supervision) – É o responsável por implementar a política econômica, fiscal e monetária, regular as exportações e importações, vigiar todas as instituções financeiras dos Estados Unidos.

Office of the Comptroller of the Currency – Assegura o sistema bancário nacional regulando todos os bancos dos EUA.

Securities and Exchange Commission – Regula todas as matérias referentes ao mercado de valores mobiliários.

Federal Deposit Insurance Corporation – É quem garante o seguro do depósito, assegura os depósitos feitos em bancos comerciais.

Federal Home Loan Bank Board – Agência que acompanha todos os empréstimos hipotecários dos EUA.

Esse discurso socializante, ou seja, que parte de uma concepção idílica e caricata do liberalismo, lança mão de uma simplória estereotipização para que assim, através vez desse reducionismo, o complexo pensamento liberal seja visto como um apanhado de desejos egoísticos. Essa tentativa de uniformizar a diversidade libertária não leva em conta que dentro do Free-Market existem diversidades e oposições bem determinadas. Por exemplo, não há como conciliar as teorias austríacas e neoclássicas; um autor do porte de Von Mises, mestre de diversos economistas, gastou anos de sua vida escrevendo contra o equilíbrio walrasiano, ou seja, inexiste essa aliança tão firme como pinta a esquerda. Na verdade o liberalismo maistream é alvo de críticas e ataques por parte da periferia intelectual da mesma corrente. De certo modo, o pensamento econômico se torna refém de uma triste redução, como se existissem três grandes grupos, fechados em si mesmos; marxistas, keynesianos e neoclássicos, quase sempre entendidos de maneira obtusa e, por falta de conhecimento, vistos de maneira absoluta. No caso dos neoclássicos ainda há o agravante que normalmente são entendidos como sinônimos de liberais e como se o liberalismo fosse necessariamente as teorias neoclássicas. Isso é tão absurdo que a Escola Austríaca, por exemplo, se assemelha ao marxismo quando percebe que qualquer mudança social radical necessita, obrigatoriamente, de condições objetivas e subjetivas. Inclusive ambas as concepções acreditam que as contradições do sistema atual – o estatismo e o capitalismo, respectivamente – conduzirão ao verdadeiro colapso.

Com a crise econômica atual os socializantes e amantes do Estado – “O Estado é meu pastor e nada me faltará” rezam os estatólatras enquanto incensam e invocam a intercessão de São Keynes – fazem malabarismos teóricos para anatemizar todo o pensamento liberal. Na verdade é uma oportunidade única de “comprovar” a ineficiência do modelo de Livre-Mercado. O mais irônico é que, ao mesmo tempo em que uniformizam o liberalismo, colocando todas as suas escolas dentro do mesmo balaio, condenam como se todas fossem comparsas e defensoras de similares doutrinas. Não sei se é falta de conhecimento ou a velha desonestidade intelectual, mas o fato é que economistas austríacos – apenas me refiro a eles porque foi essa a Escola que com mais vigor combateu não só o marxismo mas a tentativa de objetivar a economia – não só criticavam a política econômica atual – sim, austríacos são liberais mas sempre se encontraram na periferia dos projetos de governo – como previam a quebra por meio da teoria dos ciclos econômicos de Mises.

Ron Paul, Congressista Republicano pelo Texas, assessorado por Lew Rockwell, presidente do Instituto Von Mises, disse, em 2002, num grande artigo por ele publicado que: “Quando a bolha está inflando, não há qualquer reclamação. Quando ela estoura, o jogo de culpas começa. Isso é especialmente válido nessa época de vitimização -- em que ninguém quer assumir responsabilidades --, e tudo é feito em grande escala. Rapidamente, tudo se transforma em uma questão filosófica, partidária, social, geracional e, até mesmo, racial. Além de não se atacar a verdadeira causa, toda essa delação e "jogo de empurra" torna mais difícil a resolução da crise e enfraquece ainda mais os princípios sobre os quais se sustentam a liberdade e a prosperidade.

(...)

Bolhas especulativas e tudo o que temos visto são a conseqüência de enormes quantias de crédito fácil, que são criados do nada pelo Federal Reserve. Praticamente não criamos poupança, mecanismo este que é uma das mais significativas forças motoras do capitalismo. A ilusão criada pelas baixas taxas de juros perpetua a bolha e tudo de ruim que lhe é inerente. E isso não é culpa do capitalismo. O problema é que estamos lidando com um sistema de inflacionismo e intervencionismo que sempre produz uma bolha econômica que necessariamente sempre acaba mal.”

O site Vermelho.org colocou no ar um artigo do pesquisador Fábion Amico, publicado no semanário Nuestra Propuesta, do Partido Comunista da Argentina. Entre diversas “pérolas” uma se destaca; “O governo norte-americano estimulou empresas e consumidores a se endividar e a consumir para estimular, por sua vez, uma economia declinante. E o fez como se não houvesse risco algum." O engraçado, para não dizer cômico, é que mesmo conseguindo entender as estruturas econômicas governamentais, com o estimulo ao Mercado através da promoção de crédito, o artigo concluiu que a crise americana era reflexo do neoliberalismo opressor. Ora, como pode haver verdadeiro liberalismo ao mesmo tempo em que são aplicadas políticas intervencionistas? Se trata de duas óticas econômicas excludentes.

Na verdade vivemos um período de sombras e desonestidade, não há mais fidelidade para com a verdade, tudo fica submetido ao sofisma e aos mais absurdos argumentos falaciosos. Aqui não só me refiro ao esquerdismo que, em peso, analisa de maneira simplória e simplista o pensamento liberal, mas também aos próprios libertários que, muitas vezes, tentam reduzir a diversidade de doutrinas socialistas a um padrão preestabelecido. Captar a essência da oposição, aquilo que os outros defendem, deve ser essencial não só para melhor combate-los, mas para se auto-conhecer. Como bom eram os tempos medievais quando triunfava o método escolástico-tomista, ao menos assim os estudantes entendiam e reconheciam os argumentos e contra-argumentos e, logicamente, não ficavam presos nas armadilhas dos sofismas que, atualmente, imperam.

¹: Federal National Mortgage Association, criada em 1938 por Roosevelt no ápice do New Deal. Se tornou corporação privada em 1968 (isso mesmo, passou 30 anos como monopolista do setor hipotecário) como forma de reduzir o agigantamento do Estado que precisava conter os déficits. Tinha como propósito fornecer liquidez ao mercado imobiliário.

²: Federal Home Loan Mortgage Company, criada em 1970 pelo escandaloso Nixon. Seu propósito era expandir o mercado de hipotecas e servir como mais uma instituição de fornecimento de empréstimos, assim como a Freddie.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Aprendendo a ser consumidor

É fato que os consumidores exercem uma função muito mais relevante no Livre Mercado do que em qualquer outro sistema. Numa economia onde não há uma forte regulação e a estatolatria as escolhas dos indivíduos, a praxeologia, a ação humana, são artifícios determinantes no aprimoramento das estruturas do Mercado. Desse modo, as empresas melhoram, modificam seus princípios, se adaptam as condições impostas pelos consumidores. Não obstante, no nosso país, os consumidores não sabem agir como consumidores. Isso mesmo! Em terras brasileiras dois fatores atrapalham a construção de um pensamento liberal; em primeiro lugar a inércia dos indivíduos e, em segundo lugar, a falta de competitividade, um déficit no espírito concorrencial, principalmente devido as grandes empresas estatais e a monopolização do Estado em diversos setores.

Agora me lembro de uma história interessante! Enquanto todo o mundo fazia embargo aos produtos franceses, o motivo não me recordo, acho que era por causa da guerra na Argélia, no Brasil apenas um homem segurava um cartaz na porta da Embaixada da França. Esse caso é bastante interessante, ele exemplifica a incapacidade, dos consumidores brasileiros, de compreender que o poder da escolha, que a preferência individual é o fator determinante na saúde empresarial. Essa é a ferramenta que decreta falências e solidifica marcas e companhias; o melhor selo de qualidade.

Os consumidores brasileiros reclamam vigorosamente dos serviços, mas poucos são os que trocam de empresas. Ademais, esbarram em outro problema; as Estatais e setores monopolizados pelo Estado. O que irá fazer alguém que acha o serviço dos Correios terrível? Infelizmente as empresas privadas são super taxadas - isso quando não existe um total e completo controle estatal no setor que impede o desenvolvimento da iniciativa privada -, para que não haja concorrência. A mesma coisa em setores como luz, água, saneamento básico, em regiões onde não houve privatização. Nesses casos as críticas dos consumidores não conseguem ultrapassar a burocracia, a péssima qualidade de atendimento, a letargia e inércia estatal.

As escolhas dos consumidores guiam a lapidação mercadológica, servem como a base de sustentação de um darwinismo econômico onde apenas os mais fortes sobrevivem, e quem seriam esses? Aqueles que conseguem conquistar, seja por meio de uma publicidade bem feita ou através de produtos e serviços com qualidades insuperáveis, a confiança dos consumidores. Entretanto, enquanto as pessoas continuarem sem saber a força exercida pelas suas escolhas nas estruturas de Mercado, ou seja, o terrível vício da apatia, persistirá existindo empresas que prestam serviços de péssima qualidade e ofertam produtos duvidosos.

Pedro Ravazzano

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Sismondi e os Ricardianos

David Ricardo, terceiro filho de uma família neerlandesa descendente de judeus portugueses, se tornou um dos nomes mais importantes da economia. Seu legado foi de grande importância para a estruturação do pensamento econômico. Interessante é que tanto neoclássicos quanto marxistas bebem da fonte ricardiana, atestado da total relevância de suas teorias e descobertas.

A teoria do valor-trabalho, a teoria da distribuição, o comércio internacional, renda da terra, etc, são temas comumente presentes nos trabalhos do ilustre pensador inglês.

O grande economista britânico, como é de fácil percepção, foi uma figura essencial no desenvolvimento da economia. Desse modo, como qualquer pensador, conquistou um séqüito de seguidores e críticos. Nesse texto iremos nos focar em Sismondi, opositor do liberalismo clássico, e em ricardianos como McCulloch e Torrens.

Jean-Charles Léonard Sismonde Sismondi, historiador e economista, nasceu na Suíça de uma família vinda da França mas que originalmente descendia da Itália. Inicialmente foi um defensor do pensamento de Adam Smith. Entretanto, se voltou contra a Escola Clássica tornando-se um radical crítico. Para alguns ele é o fundador das duas principais escolas que se opuseram, posteriormente, a Economia Clássica: a Escola Histórica e Socialista. Em “Nouveaux Principes d’Économie Politique ou de la Richesse dans ses rapports avec la Population” Sismondi expõe suas próprias idéias contra a teoria econômica vigente, a chamando de “ortodoxa”, alcunha essa que chegou até os tempos atuais. É considerado, desse modo, o primeiro dos "socialistas ricardianos" e precursor direto de Karl Marx.

Vale frisar que Marx considerava Sismondi o expoente do socialismo pequeno-burguês, “o chefe dessa literatura, não somente na França, mas também na Inglaterra.” (MARX, 2006). Esse se caracterizava por ser reformista não-revolucionário, visava;
Restabelecer os antigos meios de produção e de troca e, com eles, as antigas relações de propriedade e toda a sociedade antiga, ou então fazer entrar à força os meios modernos de produção e de troca no quadro estreito das antigas relações de propriedade que forram destruídas e necessariamente despedaçadas por eles. (MARX, 2006).


Ademais, mesmo Sismondi desenvolvendo uma teoria contendo todas as particularidades da teoria da exploração, ele se distanciava por não anatemizar o juro de capital. Do mesmo modo aceitava a tese smithiana de que o trabalho era a única fonte de riqueza. Para ele o objeto da economia não era a riqueza em si, mas o homem que se sacrificava em sua produção e desfrutava com seu consumo, frutos do trabalho. Böhm-Bawerk afirmou que “Sismondi virtualmente levara a efeito a teoria da exploração, sem, contudo, orientá-la para o terreno político-social. A ele segue-se aquela força maciça (...) socialismo e comunismo” ( BÖHM-BAWERK, 1987).

Sismondi dizia que o liberalismo clássico consistia de abstrações, que por detrás de um discurso retórico e uma estruturada teoria econômica existia a dominação da classe capitalista sobre os trabalhadores, além disso diagnosticou o que ele considerava as crises inerentes ao sistema capitalista e concluiu que a livre concorrência criava monopólios, proletarizava as massas e gerava subconsumo. Para ele a economia deveria ser interpretada de forma concreta e não abstrata, além disso tinha aversão a objetivização, dogmatização, da economia por meio de leis gerais. O economista genebrino defendia que a concorrência obrigava os produtores a reduzirem os custos para baratear o preço final e ganhar mercado. Entretanto, sem a expansão da demanda, rivais na concorrência iriam atrás da redução de custos para manter competitividade e vender o que produziram, desse modo demitiriam trabalhadores, economizariam materiais afim de diminuir o preço de venda, reproduzindo o valor final do concorrente. Ou seja, a livre concorrência gerava desemprego. Em continuação, Sismondi afirmou que a manutenção da diferença entre oferta e demanda, o prosseguimento do espírito competidor concorrencial, assim como a concentração de fortunas nas mãos de poucos proprietários, obrigaria a busca por mercados externos, já que o interno estaria saturado, dando origem a uma luta com duras conseqüências; desempregos, falências etc. Ou seja, um abarrotamento geral dos mercados.

Sismondi ainda foi além ao elaborar uma análise a respeito do impacto do desenvolvimento de maquinário nas indústrias. A grande quantidade de capital estimularia o aperfeiçoamento do processo produtivo através da adoção de novas ferramentas. Essa evolução tecnológica, de acordo com o economista suíço, gerava o aumento de oferta e se, por sua vez, se deparava com uma demanda inerte, propiciava a queda dos preços, redução dos lucros, cortes salariais e desemprego.

Com o estruturação teórica e prática a respeito dos males causados pela ação das forças competitivas liberais, Sismondi via como essencial a reforma institucional através da adoção de um governo voltado para a promoção do bem-estar social;
O objetivo do Estado é, ou deveria ser, a felicidade dos homens, unidos em sociedade; busca o modo de assegurar o maior grau de felicidade compatível com sua natureza e, al mesmo tempo, permitir que o o maior número possível de indivíduos participem dessa felicidade (...) A felicidade moral do homem, enquanto dependente do seu governo, está intimamente ligada a perfeição desse governo e constitui o objetivo da política (SISMONDI, 1969)

A reação ricardiana as críticas de Sismondi foi áspera e direta nas condenações as exposições do economista suíço. McCulloch rechaçou por completo a idéia regulatória do genebrino; o controle da concorrência pelo Estado era perigoso para o progresso econômico. Para o pensador escocês os problemas causados pela competição devem ser combatidos não por meio da destruição do processo concorrencial, mas sim pelo barateamento dos artigos de consumo. Entretanto, na visão de McCulloch, a melhor forma de recuperar essa classe trabalhadora era através do aprimoramento das máquinas e o seu uso intensivo. Ou seja, o progresso tecnológico acarretaria a diminuição dos preços de artigos oriundos de um processo industrial. A queda dos valores desses bens aumentaria a demanda e, por conseqüência, aumentaria a produção que, por sua vez, reabsorveria a mão-de-obra parada. Destarte, McCulloch era um árduo defensor das máquinas e do aprimoramento dos equipamentos industriais, para ele esses fatores propulsionariam e elevariam o crescimento econômico e beneficiariam capitalistas e trabalhadores - os últimos teriam incrementos salárias reais através da redução do valor dos bens essenciais. Ademais, o economista escocês não via a solução da saturação dos mercados perpassar pela redução da produção, mas sim pelo estímulo de maior produção em outros setores.

McCulloch enxergava a poupança, a divisão do trabalho, a fundamental defesa da propriedade e o livro comércio como os pilares incontestáveis do progresso econômico. Numa sociedade onde essas bases não fossem defendidas com radicalidade, seja através do triunfo de uma compreensão heterodoxa, ou por meio da ação estatal, se colocaria em risco a prosperidade.
Robert Torrens, economista inglês e oficial da Marinha, ao desenvolver suas críticas aos projetos assistencialistas de Robert Orwen deixou claro seu posicionamento econômico. Seguindo a linha ricardiana ele, o árduo defensor da colonização australiana, explicava a taxa de lucro partindo da qualidade dos solos de cultivo, da capacidade de produção da mão-de-obra agrícola e manufatureira e, por último, do salário real dos trabalhadores. Não obstante, Torrens não esquecia de mencionar o livre comércio e o peso da tributação. Vale lembrar que sua posição sobre o comércio internacional foi pioneira ao rejeitar o livre comércio unilateral. O militar, assim como McCulloch, também defendia a mecanização como forma de aumentar a produção e beneficiar capitalistas e trabalhadores.

Destarte, o que norteou a discussão entre Sismondi e os ricardianos foi a diferente compreensão a respeito da existência da superprodução. A construção argumentativa se fundamentava na análise da concorrência, mecanização e intervenção do Estado. De um lado o economista genebrino que enxergava o espírito competitivo como destrutivo, o triunfo das máquinas como avassalador e o Livre-Mercado falacioso. Já McCulloch e Torrens defendiam a concorrência como forma de aprimorar e inovar a produção, diminuir os custos. O avanço tecnológico industrial também reduziria custos e, por sua vez, aumentaria a demanda, forçando a reabsorção da mão-de-obra. Entretanto, Sismondi se opôs a essa argumentação afirmando que o tempo, ou seja, o lag entre a demissão e recontratação, não era levado em conta. Desse modo defendia a intervenção do Estado para administrar o ritmo das inovações e conter, através de ações regulatórias da livre concorrência e por meio de políticas públicas, as crises de superprodução.

McCulloch e Torrens eram opositores da idéia sismondiana de superprodução, para eles as ofertas excessivas ocorriam em determinados setores da economia, entretanto, eram contrabalançadas por sub-ofertas, ou seja, ofertas aquém da demanda existentes em outros setores. Os dois economistas britânicos estavam em sintonia com a Lei de Say.

De forma sucinta podemos afirmar que Sismondi era um opositor do Livre-Mercado e defensor do intervencionismo do Estado, enquanto McCulloch e Torrens se opunham ao intervencionismo do Estado e defendiam o Livre-Mercado. Como percebemos, essa discussão extrapola os tempos, os séculos. Ontem e hoje o debate continua sendo atual, pena que não há a mesma honestidade intelectual em ambos os lados...

Pedro Ravazzano

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Subjetividade e Objetividade

Todas as questões que interferem no consumo, na capacidade de escolha dos indivíduos, perpassam, obrigatoriamente, pela subjetividade, já que ela é latente a existência e a condição humana. Viver é escolher, fazer julgamentos, selecionar caminhos. Esses desejos particulares não podem se resumir a equações e teoremas matemáticos, mas devem ser compreendidos como ações individuais motivadas pelos próprios interesses que maximizam o bem-estar da sociedade.

A matematização, ou melhor, a objetivização da economia, se iniciou com a Escola Marginalista; Walras, Menger* e Jevons, mas também foi impulsionada por Keynes e keynesianos, assim como Neoclássicos, Monetaristas. Desse modo, se inculcou na cabeça dos estudantes e pensadores da economia que todos os Liberais, tirando o estatólatra Keynes, são essencialmente matemáticos, e que as idéias de Equilíbrio, assim como a análise histórica e a excessiva metodologia quantitativa, muitas delas vistas como utópicas e ilusórias pelos críticos, são devaneios dos defensores do Livre-Mercado e do Estado minimo.

Aqui vale um adendo, Keynes, aluno do neoclássico Marshall, o defensor da teoria objetiva do valor (mesmo tentando sintetizar a idéia clássica do custo de produção com o princípio da utilidade marginal) e grande promotor do método analítico-matemático, colocou um verniz matemático, um formalismo exato, objetivo, "simplificante" (não se leia simplista), adotando um "jargão algébrico e geométrico", ou como diria Von Mises "simplesmente traduziu seus sofismas para a duvidosa linguagem da economia matemática" Exatamente! Keynes, como é de fácil constatação, produziu poucas equações, mas sua simples equações trazem simples relações como se os eventos fossem...simples, e na verdade são complexos, como a EA mostra ao se basear no individualismo metodológico, com a combinação das capacidades individuais movidas pela ação humana, diferentemente do Lord que, como disse Rothbard, "reduz os motivos subjetivos à organização econômica vigente, costumes, padrões de vida, etc., e os assume como dados (...) Keynes simplesmente afirma sem discussão que esse fator [mudanças futuras de renda que alteram o consumo individual, por exemplo] “acabará se homogeneizando na comunidade como um todo”." Enquanto austríacos levam em conta a relação entre os indivíduos, a praxeologia, a inerente ação humana como determinante no processo econômico, keynesianos, assim como monetaristas, só enxergam os agregados econômicos como a maneira mais confiante de se analisar as estruturas da economia.

Ainda vale lembrar que os Novos Clássicos, ao partirem da premissa de que a ação dos agentes econômicos se fundamenta numa racionalidade a ponto de criar uma expectativa (racional) sobre o desenvolvimento futuro da economia, quase com poderes premonitórios, extingue e lança para escanteio o caráter subjetivo tão relevante na compreensão do real funcionamento da economia, descartando o método dedutivo e apriorística da Escola Austríaca. As tais Expectativas Racionais, consolidadas por Robert Lucas foram, por sua vez, criticadas por Hayek. Realmente, os teóricos das expectativas racionais usam pontos iluminados pelo ilustre vienense, mas se distanciam completamente dele já que o economista austríaco argumenta que a eficiência dos mercados se encontra na descentralização e dispersão dos conhecimentos, enquanto os Novos Clássicos se pautam em previsões mecânicas a respeito do comportamento do individuo de forma totalmente racionalizada, excluindo o caráter subjetivo, inerente a escolha, assim como a criatividade dos agentes, as inovações, o empreendedorismo etc. De um lado a metodologia empírica, e com um ranço cientificista, dos monetaristas, do outro a lógica dedutiva dos austríacos.

Nesse ponto ele, Hayek, mostra sua herança miseana tão ardorosamente defensora da praxeologia, teoria geral da ação humana, que, entre outras coisas, argumenta que inexiste uma homogeneidade, constantes quantitativamente mensuráveis no comportamento do indivíduo, logo da sociedade, o que acaba também endossando a natureza subjetivista do equilíbrio, a clara antipatia austríaca pelo doentio estudo do equilíbrio (Von Mises e sua ferrenha crítica ao equilíbrio walrasiano), diferentemente da sadia valorização que fazem dos processos de tendência ao equilíbrio, ou seja, as tendências equilibrativas servindo como processo de descoberta dos empreendedores, como diria Kirzner! Retornando, a homogeneidade, tanto do conjunto de conhecimentos quanto dos conhecimentos dos agentes em relação a estrutura econômica, que inexiste em Hayek, é essencial na fundamentação do pensamento dos teóricos das expectativas racionais, os Novos Clássicos.

* O nome de Menger só aparece nessa relação por ter sido ele um dos marginalistas, de fato, seu peso na racional objetivização da economia foi muito pequeno, nulo, até porque suas mais valiosas heranças; a teoria da utilidade marginal e a subjetivização das escolhas individuais, foram essenciais para a estruturação do pensamento Liberal e o florescimento da Escola Austríaca com Von Mises, Hayek, Haberler, Kirzner, Rothbard etc.