Em 1981, o decreto da Congregação dos Ritos proclamava que a Festa do Sagrado Coração, que este mesmo decreto instituía, não era uma novidade, senão "a síntese de todas as festas em que se celebram diferentes mistérios de nossa salvação". É uma recapitulação e, poderia se dizer, uma condensação de todo o Mistério cristão. E é que, em efeito, o coração é o centro, fonte da vida, do amor e da inteligência, e por conseguinte de identificação. Como dissemos, no coração do homem reside a "imagem de Deus", que há nele, o Ser, pois "o reino de Deus está dentro de vós" (Lc 17,21). É evidente, portanto, que o coração humano é feito a imagem do Coração divino, "centro de todos os corações" e "em quem resida a plenitude da Divindade". Toda a espiritualidade, na expressão dos Padres, consiste em passar da imagem à semelhança ou similitude (homéôsis). Como disse Nicolau Cabasilas, os cristãos são "membros de Cristo...sempre na comunicação com um Coração vivo", este "Coração bem-aventurado" (makaria cardia), centro ontológico da Pessoa de Cristo, se identifica só no "santo altar" (hieron thysiasterion) do sacrifício não sangrento. Por este Coração sagrado de Cristo, a virtude do altar atrai a verdadeira vida para as transmitir" (Nicolau Cabasilas, la Vida en Cristo)
Essa doutrina mistica, repetimos, se remete a própria origem do cristianismo, mas em certo modo foi revivida, e logo amplamente difundida, a partir do séc. XII e XIII, e apareceu finalmente a plena luz em Paray no séc. XVII. Entre os devotos do Sagrado Coração, esta união com o Coração divino, que em alguns chega a identificação, se operou de duas formas; seja mediante um refugiar-se no Coração, seja mediante uma "troca de corações".
O primeiro modo é o que se denominou "Viver espiritualmente no Coração de Jesus". Está descrito num comentário místico da passagem do Cântico dos Cânticos, em que o Esposo convida a amada (ou seja, a alma), nestos termos; "levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem. Minha pomba, oculta nas fendas do rochedo, e nos abrigos das rochas escarpadas, mostra-me o teu rosto, faze-me ouvir a tua voz. Tua voz é tão doce, e delicado teu rosto!" As "fendas" e os "abrigos das rochas" se assemelham a ferida do Coração do Esposo e ao interior do mesmo Coração; assim é, por exemplo, para Santo Antônio de Lisboa (1195-1497). O simbolismo se precisa e passa a se identificar, muito significativa, do Coração com a Caverna: " «Ven, paloma mía..., vena los agujeros de la piedra, a la caverna abierta en medio de la muralla... Esta caverna es la abertura del costado de Nuestro Señor. El alma tiene que refugiarse en la caverna profunda, a saber en la llaga del costado de Jesús y en su Corazón».
Assim, Santa Matilde, no curso de uma visão do Coração Luminoso, viu seu próprio coração sumido no de Cristo. (..) Em tal processo se opera uma reintegração do batizado no estado do Paraíso terreno, como assinala com razão René Guénon: "Esse é - escreve - o significado de "viver espiritualmente" no Coração de Cristo, pois o Coração de Cristo, como o Paraíso, é o Centro do mundo".
O outro modo dessa via espiritual do Sagrado Coração é a experiência curiosa e relativamente difundida da "troca de corações", por exemplo em Santa Catarina de Sena e em Santa Lutgarda (séc. XIII), cujo coração Cristo tomou e deu o Seu, coisa que Tomás de Cantimpré, teólogo e confidente da santa, explicava de modo muito pertinente nesses temos: "Era a união do Espirito incriado e o espirito criado pela excelência da Graça; é o mesmo que disse o Apostolo: "Quem se une a Deus se converte em um só espirito com Ele" (I Cor. 6,17).
É inevitável estabelecer aqui um paralelo entre esta devoção ao Coração de Cristo na vida espiritual oriental do hesicasmo, com sua prática da "Oração do Coração". Ela busca fazer com que Jesus habite no coração do fiel e, em última instancia, identificar os dois corações; o meio empregado, como se sabe, é a invocação repetitiva do Nome de Jesus. Pois bem, é muito sintomática que a Igreja, no Ocidente, instituísse uma "Festa do Santo Nome de Jesus", quase na mesma época em que se estendia a devoção ao Sagrado Coração (séc. XIV), como complemento desta; mais ainda quando, na liturgia dessa festa, se canta o celebre hino Jesus dulcis memoria, Dat vera cordis gaudia, Sed super mel et omnia, Ejus dulcis paesentia; hino em que a palavra memória, "recordação", é totalmente característica como termo técnico para designar muito exatamente o método da invocação repetitiva destinada precisamente a atrair a "presença". Agreguemos finalmente que alguém disse que esta invocação do Nome de Jesus, o mesmo que a devoção ao Seu coração, tinha caráter escatológico; que estava particularmente reservado aos "últimos tempos", durante os quais a invocação do Nome seria um modo privilegiado para conseguir a salvação (...) Essa devoção autentica ao Sagrado Coração segue estado a disposição do cristão como uma das vias espirituais mais elevadas, e sem dúvida a mais simples e mais direta: a contemplação assídua do Coração irradiante, Sol espiritual, faz com que o contemplativo se vá tornando pouco a pouco apto para receber a revelação da Luz transcendente que arranca do salmista esse grito assombroso: "Em Tua luz vemos a Luz" (Sal. 35, 10) (Jean Hani - Mitos, Ritos y Símbolos)
A diferença entra a "mística do Coração" do hesicasmo ortodoxo e a "mística do Coração" da Igreja Católica é paralela as diferenças que distinguem a espiritualidade das Igrejas orientais e ocidentais.
Assim, enquanto que para os monges do Monte Athos, o Coração venerado é o de Jesus na Glória da Transfiguração, Coração que habita no coração dos monges os iluminando, para os místicos ocidentais, o coração adorado é o coração amante, sofredor e sangrante do Crucificado, contemplado fora deles e que desejam substituir com os seus próprios. Uma mística do coração centrada sobre o simbolismo da luz e a participação na glorificação, se diferencia portanto de uma mística do coração centrada sobre o simbolismo do sangue e a participação no sofrimento. É a mesma distinção entre uma Igreja mais orientada para o mistério da Ressurreição e uma Igreja orientada para o mistério da Paixão.
É assim como se diferenciam ambas Igrejas, como Oliver Clemente comenta quando escreve que "a alegria pascoal da Ressurreição (...) nunca foi ocultada na Ortodoxia magnifica da Sexta-Feira Santa". Outra diferença entre as místicas é que a do Hesicasmo foi codificado, regularizado, sido metodicamente transmitido no meio monacal por mestres espirituais inspirados, e perdurado até nossos dias através de todos os santos nomes da Filocalia. Enquanto que a mística do coração católica se tornou uma experiência espiritual singular, rara, espontânea se se pode dizer, presença de pura graça quase exclusivamente centrada em conventos femininos, ao menos desde as revelações de Paray-le-Monial. (...)
Ademais, enquanto que a "mística do coração", na ortodoxia, tem conta suas diferenças específicas, segue reservada ao mundo monacal, ao retiro silencioso e solitário da cela dos monastérios, e permanecido sempre abaixo do controle dos mestres espirituais, santos, doutores, higúmenos e staretz. Entre os católicos, essa mística se queria pública, aberta a todos, clero, leigos, homens, mulheres, crianças, sem direção espiritual séria, e na qual as suscripcões, tômbolas, substituíram os exercícios espirituais da Filocalia (Roger Parisot - Connaissance des Religions nº 57-58-59 - Lumières sur la Voie du Coeur)
Tradução: Pedro Ravazzano