sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Enquete sobre caça amadora

Em conexão com o post anterior, escrevo para informar que o site do IBAMA está promovendo uma enquete sobre caça amadora.

Um dos argumentos utilizados pelos anti-caça é que se trata de uma atividade sem "finalidade social", nada mais absurdo, pois, isso levaria a proibir diversas atividades particulares que as pessoas praticam a todo instante desde a criação do mundo.

Estamos vendo a estrutura jurídica do Brasil, por um lado, se voltando contra os cidadãos de bem e, de outro lado, cada vez mais liberal para os reais criminosos. Os marxistas, que são contrários a existência de Estados, tomam o poder apenas para fazer uma espécie de autodemolição do mesmo.

Acesse o link abaixo e vote a favor da caça amadora.

http://www.ibama.gov.br/2008/10/enquete-voce-e-contra-ou-a-favor-a-caca-amadora/

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Para ONG, não há diferença ontológica entre pessoas e animais

A ONG ASSOCIAÇÃO ANIMAL, uma organização não-governamental de “defesa dos direitos fundamentais dos animais não-humanos”, está chocada com o bom senso.

Em uma entrevista ao semanário Sol, o deputado português Paulo Rangel (PSD) criticou o direito dos animais e a tentativa de os igualarem aos seres-humanos.

No blog da ONG, está escrito que o parlamentar revelou uma visão “medieval” e “um assustador trogloditismo pré-científico, racionalmente oco, socialmente atávico e politicamente irresponsável”.

Até mesmo a afirmação de que há uma separação ontológica entre os animais e as pessoas não deixou de receber os protestos caducos da tal ONG.

Segue algumas frases de Paulo Rangel, tão conexas com a realidade, que escandalizaram a ONG:
- “Não faz sentido haver um Dia do Cão.”

- “Também não [faz sentido haver um Dia dos Animais]”.

- “Um cão nunca deixa de ser um cão. Trocaria a vida do meu cão pela vida de qualquer pessoa em qualquer lado do mundo, mesmo não a conhecendo. Uma pessoa vale sempre mais do que um animal.”

- “Os animais merecem protecção mas não são titulares de direitos.”

- “Não são eles que têm esse direito [de ser bem tratados e protegidos]. Nós é que temos essa obrigação.”

- “Para mim essa é uma concepção errada [a de que os animais devem ter direitos]. Acho que só as pessoas devem ser titulares de direitos.”

- “Os animais [também sofrem], mas não sofrem como nós.”

- “A caça ou as touradas, enquanto tradições com determinadas características e determinados limites, são toleráveis. Fazem parte da Cultura.”

- “Muitas tradições não acabaram e estas [caça e touradas] são daquelas que para mim não devem acabar.”

- “Faço uma separação ontológica entre as pessoas e os animais.”

- “Num contexto cultural devidamente integrado, certas tradições [como a caça e as touradas] – ainda que possam chocar algumas pessoas – são admissíveis. É a minha posição.”

- “Não sou contra [a exibição de touradas na RTP].”

- “Desde que devidamente contextualizado [a transmissão de touradas pela RTP, televisão do Estado, expondo as crianças à violência contra os animais], não vejo nisso qualquer problema.”

- “A menos que esteja em causa a extinção de espécies, não acho mal [utilização de peles para confecção de vestuário].”

- “A dignidade humana é um valor superior ao da dignidade dos animais. O Homem é ontologicamente diferente dos restantes animais.”

Após apresentada esta relação dos depoimentos “chocantes” do deputado, a ONG pergunta: “Como é possível alguém poder pensar desta maneira nos dias de hoje?

O Blog oficial da Associação Animal conclama seus aderentes a enviarem e-mails de protestos para o deputado.

Já o Blog “O Povo”, em oposição à ONG, pede “a todos os humanos que se reconhecem ontologicamente diferentes dos outros animais, que também se manifestem, enviando um e-mail de apoio ao bom senso de Paulo Rangel para os seguintes endereços: psd@psd.pt e gp_psd@psd.parlamento.pt"

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

OS QUE NÃO FORAM CONSULTADOS

por Gustavo Corção
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Ouvi hoje contar o caso de um acrobata americano que teve uma idéia. "Brain wave". Uma idéia nova para seu programa de televisão. É assim: em pé no rebordo do telhado de um arranha-céu ele faz cabriolas, não com seu próprio corpo, mas com o corpo de uma criancinha de meses que ele atira para o ar, apanha, equilibra, muda de mão e passa entre as pernas. Como se vê, o espetáculo deve ter sido excitante e gostoso para os pupilas cansadas de outros espetáculos mais rotineiros.

Essa história lembrou-me outra. Estavam duas ou três senhoras de nossa melhor sociedade, dessas que tomam chá de chapéu, a discutir o caso de um desabusado cirurgião (também da melhor sociedade) que provocara um aborto sem consultar ninguém. Dizia, então, uma das senhoras, a do chapéu de lilás: "Eu acho que a família deve ser consultada..." A dama de chapéu cor-de-amora foi mais precisa: "Eu acho que compete à mãe, exclusivamente, resolver o caso". E estava a conversa neste ponto quando um amigo meu, tímido e gago, que nunca consegue ser ouvido por ninguém, sugeriu que quem devia ser consultada era a criança. E é a ausência dessa consulta que me horrorizou na história do acrobata. Por muito menos zangou-se um dia Jack London, numa tourada, porque os touros e cavalos não eram ouvidos. Mas ninguém ouviu a reflexão de meu amigo. Como ninguém ouve a misteriosa linguagem com que os embriões de dois a três meses declaram categoricamente que querem viver. Como também cada dia menos se ouve a linguagem, já menos mistificada, das crianças de dois ou três anos que são energicamente contrárias ao divórcio. O fato é esse: na ginástica, no aborto e no divórcio, há pessoas, personagens, pessoas humanas, vivas, que estão envolvidas e que não são ouvidas.

"Ora, direis, ouvir crianças... certo perdeste o siso!", dirá algum leitor que ainda se lembre dos esplendores do nosso parnaso. Como é possível ouvir um embrião? Como se pode ponderar o que diz uma criança de dois anos?

Digo-te eu, leitor, que foste tu que perdeste o siso. E acrescento: o mundo está como está, e o nosso Brasil chegou onde sabemos que chegou, porque as pessoas (a começar pelas da melhor sociedade) não têm mais ouvidos para ouvir e entender a linguagem dos fetos. Fuzilam-se inocentes, aos milhões, sem remorsos, dada a circunstância supersônica de seus protestos. Vou explicar-te, amigo, mais uma vez, como se pode ouvir o que não fala, e consultar o que não tem a idade da razão. É muito simples: ouvindo e consultando a lei que está gravada na natureza das coisas, a lei que qualquer consciência desobstruída de chás e chapéus pode ouvir e consultar. Uma boa lavadeira, uma honesta cozinheira, sem procurar psicólogos e sociólogos, têm ouvidos para a voz da Inocência perfeita, para a voz que condena o aborto, o divórcio, e outras acrobacias feitas com carne de gente.

* * *

Por falar em aborto, ouvi dizer que na Suíça tornou-se legal. Não sei detalhes. Não sei em circunstâncias, pelos quatro cantões da Suíça, tornou-se admissível matar a criança que teve a impertinência de brotar num ventre de moça. Imagino que os suíços, que são reconhecidamente um povo ordeiro e asseado, e sobretudo muito deferente com os turistas, tenham descoberto excelentes razões para assassinar pequeninos suíços. Uma das razões que imagino seria a seguinte: mata-se a criança excedente pelo bem da pátria e da família. Um pouco como se queima o café, para valorizá-lo. De uma senhora, que tem um Pontiac verde-claro, já ouvi dizer que se justifica "não guardar" para manter o "padrão de vida". Não se guarda a criança para guardar-se o Pontiac. Outra senhora, um pouco menos desvairada, alega que fuzila a criança não nascida em benefício das outras já nascidas. Esses argumentos chegaram aos ouvidos de meu amigo Álvaro Tavares que sugere uma emenda para a teoria dessa senhora que mata um filho em benefício dos outros: admitido que se deva matar um para benefício da família e da sociedade, devemos deixar a criança nascer, e, mais tarde, num conselho de família, escolher a criança mais feia, ou mais bronca na tabuada, ou mais birrenta na mesa, e então executá-la para o maior bem da família e da pátria.

Concordo inteiramente com essa emenda apresentada pelo meu amigo Álvaro Tavares. Em nome da psicologia, da sociologia e da eugenia, acho precipitada a pena de morte que recai sobre a "criança desconhecida". O mundo, entre seus momentos de prolongado desvario, já teve a idéia de honrar o soldado desconhecido; mas nos seus piores momentos ainda não teve a idéia de fuzilar um criminoso desconhecido. E muito menos um desconhecido inocente. Aprovo pois a emenda e aqui acrescento o meu pesponto. Em lugar do conselho de família, eu sugiro que consultem um psicotécnico.

Voltando aos suíços, confesso que não me espantei demais com a notícia. Tenho desconfiança desses países muito ordeiros, muito arrumados. Tenho horror a hotéis. Só me espanto com uma incoerência que vejo nessa lei dos suíços: se a religião daquele pitoresco país é o turismo, se tratam tão bem os que chegam das Américas, porque diacho maltratam assim o pequenino turista que ingressa num dos quatro cantões pela mais antiga das portas?
(Dez Anos. Rio de Janeiro, AGIR, 1957.)
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008

DEM ajuda a derrotar PT em Salvador

Por Reinaldo Azevedo

Recomendo aos leitores que tenham calma. O fato de o novo PCB — Partido dos Comentaristas Brasileiros — cantarem a vitória do PT e a derrota do DEM não tem a menor importância. Não tem porque, como a gente vê, o povo, quando quer, insiste em fazer o contrário do que eles prevêem. Lutar contra os fatos é desmoralizar-se. Perguntem-lhes se não trocariam, caso fossem da direção do PT, as seis capitais em que o partido venceu no primeiro turno por uma única onde venceu o DEM. E não foi uma vitória qualquer: o desempenho de Gilberto Kassab na cidade é inédito. Já escrevi aqui e reitero: se mantiver a boa gestão, estamos falando de um novo líder no estado e no Brasil.

Mas o DEM não atrapalhou os planos do PT apenas em São Paulo. Também em Salvador, o apoio do partido foi fundamental para a reeleição do prefeito João Henrique, do PMDB. O ministro Geddel Vieira Lima é um dos vencedores na cidade? Claro que sim. É o coronel do partido no Estado e adversário histórico do chamado carlismo. Mas não viu empecilhos em fazer um acordo com o deputado ACM Neto (DEM-BA), derrotado no primeiro turno e dono de importantíssimo 28% dos votos. E eles foram, tudo indica, inteiramente transferidos para João Henrique: dos 30% que obteve no primeiro turno, saltou, no segundo, para 58,44%.

Parece que os votos do carlismo em Salvador, menores do que já foram — herdeiros de ACM se dividem hoje em várias legendas —, continuam, no entanto, fiéis à liderança. Quem, para variar, fez bobagem foi o PSDB do estado, que preferiu se juntar ao petista, agora derrotado, Walter Pinheiro (41,56%). O candidato tucano, Antonio Imbassahy (outra cria de ACM), e o dono da legenda no Estado, Jutahy Jr. escolheram o candidato que viria a ser derrotado. É...

O fato é que, circunstancialmente unidos, mas, de fato, adversários desde sempre, Geddel e ACM Neto, herdeiro político de ACM, deram uma tunda na terceira força que se tenta construir na Bahia. O governador Jaques Wagner tem hoje, dado o resultado das urnas, menos influência do que tinha ontem.

Perdeu de novo.



por Luciana Lachance

O problema com o PT de Salvador é pessoal. Na eleição anterior para prefeito, tínhamos César Borges [antigo PFL], Pelegrino [PT] e um improvável João Henrique do PDT na disputa. Ninguém queria César Borges, pois ele representava demais ACM (e nisso Imbassahy terminou mais ileso). Parecia que o que estava em jogo era a aversão a César Borges – ACM, ou seja, era o momento em que Pelegrino teria a vitória certa, já que era o nome mais forte dentre os concorrentes. Se, por um lado, as pessoas não estavam muito certas sobre o que queriam, sabiam muito bem que não iriam votar no homem que largou o Senado pelo município por ordem de Antônio Carlos Magalhães. E por que Pelegrino não assumiu a disputa? Por que ele simplesmente não aproveitou a situação e ganhou a liderança? Por que um vereador apagado como João Henrique, com um discurso de fantasia [vale-transporte para desempregados], e cara de ressaca saiu na frente e ganhou a eleição de lavada? O que esse cara tinha feito além de encher o saco na Câmara de Vereadores com aquela história de estacionamento gratuito nos shoppings? Ora, João Henrique ganhou porque ninguém ia com a cara de Pelegrino. E essa aversão aos candidatos do PT que concorrem à prefeitura foi comprovada na eleição 2008. Pois Pinheiro [PT] só entrou na briga porque teve a grande sacada de isolar-se numa arena com João Henrique [que mudou para o PMDB no meio do mandato]: os dois se engalfinharam desde o início, tornando a disputa só deles, restando para o eleitor tomar partido de algum lado. E quando tudo o que o PT tinha que enfrentar era uma administração duvidosa, o que acontece? Perde de novo. Alguns perguntam: por que? Por que se os comícios estavam lotados, se as estrelas do partido estavam coladas em carros, camisas e testas das pessoas da rua? E eu respondo: porque Pinheiro é igualmente antipático, eis a explicação. Sei que pessoas irão desenvolver teorias muito melhores, a partir de pesquisas e estudos realmente sérios e que irão mencionar o “racha” do PT municipal nessa eleição; que alguns dirão que é porque Lula não veio, que a culpa é do ministro Geddel, que os camelôs é que deram a vitória a João Henrique, mas eu discordo. A única explicação possível para Pelegrino ter perdido a eleição de 2004 e Pinheiro ter perdido esta, é que suas respectivas caras combinadas com a moldura vermelha do PT são igualmente intragáveis. Talvez essa hipótese não possa ser confirmada com números, mas todas as vezes em que eu olho para os panfletos de Pinheiro, ou quando eu vejo as propagandas em que ele está fazendo seu discurso, eu penso: não dá com essa cara.

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Tomei a liberdade de publicar o comentário de Pedro Ravazzano deste texto, quase um outro texto, um complemento:

Exatamente! Pinheiro tinha um ranço muito forte. Sua figura não era carismática, não agregava. Ao contrário, João com sua cara de bobo-irônico gerava mais confiança do que os olhos esbugalhados e a fala minuciosamente construída do candidato petista.O mais engraçado foi que Pinheiro teve o apoio da maioria da classe média e dos cidadãos com ensino superior, enquanto João era soberano em Cajazeiras e no Subúrbio Ferroviário, ou seja, o Partido das massas só movimentava a burguesia. Isso não é de estranhar! A classe média proletarizada vota no PT acreditando no discurso popular que nem o povo carente, que seria o mais beneficiado, acredita.O PT de Salvador queria ganhar pelo susto. Para isso colocava nas ruas seu exército de idiotas úteis, os doutrinados e iludidos, assim como ligou o ON dos movimentos sociais controlados direta e indiretamente pelo Partido. Agora, depois da eleição, o Governador que só anda sóbrio veio dizer que a vitória de João também é a vitória da base governista. Que o fato do PMDB e do PT terem ido juntos ao segundo turno comprovava o poder do lulismo. Ora, me bata um abacate. Só na cabeça alcoolizada de alguém que acompanhou a campanha para isso ser verdade. O PT e o PMDB vão nutrir seqüelas até 2010. Essa campanha foi desgastante, dura, muito agressiva. Não tem como a vitória de João ser a vitória do governo. Ao contrário, nas atuais circunstâncias a vitória de João é o início da derrota de Wagner em 2010, o início do período do geddelismo (bem melhor que o wagnerismo), o início da doce, e venenosa, aliança PMDB - Democratas!

sábado, 25 de outubro de 2008

Acarajé Conservador?

Eu ainda fico perplexo com a total falta de honestidade dessa gente “progressista” e “moderna” (Coloco entre aspas porque esse povo representa o que de mais torpe existe na modernidade, rechaçando os seus melhores frutos). O nome do nosso blog tem causado boa impressão em grande parte dos leitores. Todos acharam engraçado e pertinente, ainda mais por se tratar do Grupo de Estudos do Pensamento Conservador – BA.

De fato, acarajé é uma comida com origens religiosas, especificamente na adoração do orixá Iansã. Àkàrà quer dizer bola de fogo, adicionando o sufixo je, que quer dizer comer, nasce, por fim, o acarajé, ou “comer bola de fogo”.

Um conservador, enquanto tal, defende a Tradição, os antigos costumes que trazem com eles um legado e aprendizado, a continuidade das instituições sociais, assim como a defesa da mais genuína Liberdade e Democracia. O acarajé é um velho hábito alimentício herdado dos nossos antepassados, uma grande, e gostosa, herança deixada por um povo que, querendo ou não seus atuais descendentes, ajudou a formar o Brasil, é um elemento cultural que, junto com outras tradições, ajudava a desenvolver o ethos baiano, não essa caricatura atual, mas o espírito da Bahia quando ainda havia uma produção intelectual de grande destaque nacional, com heranças no movimento monárquico ou um republicanismo sincero e bem fundamentado, tudo arrematado por uma filosofia liberal ou pela teologia católica.

Em suma, o Acarajé é sim conservador, o Acarajé deve sim ser conservado. Não obstante, como a cultura negra foi seqüestrada pelos adeptos de movimentos sociais, o candomblé foi supervalorizado pelos descendentes dos africanos, essa herança negra, que já se encontrava em alto estágio de fusão com o legado europeu, passou a vivenciar um verdadeiro apartheid cultural.

Se nós fôssemos de Minas Gerais, provavelmente nosso blog se chamaria “Pãozinho de Queijo Conservador”, em São Paulo poderia se chamar “Pizza Conservadora” ou “Bauru Conservador”, mas somos baianos, estamos na Bahia, e nada melhor do que reverenciar nosso legado cultural.

Pouco nos importa se o Acarajé era, inicialmente, uma comida ritualística. Primeiramente não somos puritanos. Tenho certeza que muitos aqui até comeriam com gosto um delicioso prato de bozó (rsrsrs). Em segundo lugar, a Europa é rica nessas heranças pagãs que foram cristianizadas, a priori, ou perderam as bases religiosas sacrificiais. O fato de achar uma contradição um Acarajé Conservador mostra, mais uma vez, como esse pessoal apenas favorece o isolacionismo cultural negro, e, como de fato se comprova, o atraso e letargia do continente africano, que fica a mercê de ONGs socializantes, doações de Fundações abortistas e, principalmente, refém do (falso) Aquecimento Global.

Pedro Ravazzano

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Tragédias em Série

Em que medida somos influenciaveis? Quando estudamos o comportamento humano e suas relações com o grupo, essa é uma pergunta que elicia muitos debates. De um lado a noção de que somos senhores plenos de nós mesmos, capazes de medir com precisão cada ação externa que nos desafia e agir diante dela com serenidade e firmeza tal qual nos ensina Aristoteles na sua justa medida. Na outra mão do debate, encontramos a idéia de que somos altamente influenciaveis, e que somos manipulados a todo o tempo ou pelo ambiente (reducionismo externo do behaviorismo) ou por processos inconscientes formatados na nossa primeira infância (reducionismo interno da psicanálise). Sem querer entrar neste debate, ou propor o clichê básico das ciências humanas como solução, qual seja, "é uma relação dialética onde temos certa dose de controle mas somos também influenciáveis", quero apenas refletir sobre umas poucas evidências científicas a luz de alguns acontecimentos recentes. Passado o caso Lindemberg começam agora a surgir casos similares de crimes passionais. A primeira pergunta que surge é: esses casos estão surgindo agora ou a mídia está cavando esses casos, que sempre ocorreram, e aproveitando a onda do caso famoso para fazer reportagens? É possível que assim seja. E, então, me vem a memória as crianças que cairam da janela após o caso Isabela, a série de crianças abandonadas em rios e lagoas anos atrás. Ainda mais recente foi o caso de policiais matando pessoas inocentes em seus carros, foram bem uns três casos em todo Brasil, numa mesma semana... A lista é grande, e pode ser que seja um viés da mídia, adimitamos até, uma coincidência. Mas existe um entrave nesta argumentação. Quando um avião cai, não há como não ser noticiado, a mídia não pode "esconder", nem manipular a divulgação dessas tragédias. E podem reparar que um avião nunca cai sozinho. Um grande tragédia de avião é sempre seguida de outras tragédias, como no caso recente do avião espanhol em Madrid, que foi seguido de outras quedas ao redor do globo. Como explicar? A divulgação de acidentes de avião pode influênciar o desempenho dos pilotos? Em que medida somos senhores absolutos de nossas ações? Existe uma série de estudos em psicologia social, mostrando que nós somos muito mais influenciaveis do que supomos ou gostariamos de ser, como nas famosas estratégias de manipulação utilizadas por vendedores e profissionais da retórica. No entanto ainda sobram muitas interrogações acerca da medida exata das diversas influências á que uma pessoa esta sujeita, sobretudo da mídia. Não estou certificando que divulgação de tragédias pela mídia é pressuposto para tragédias subsequentes, mas a mera possibilidade de que seja, é condição suficiente para que exista uma cobertura mais discreta. Que eufemismo. Essas tragédias são trasmitidas como verdadeiras novelas, jornalismo tornou-se fofoca globalizada. Qual a importância dessas reportagens? E eu com isso?

A MÁFIA VERDE, precedido por uma reflexão sobre o Acarajé Conservador

por Luciana Lachance
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Este artigo é para atender ao pedido de alguns amigos meus, que me enviaram e-mails desde a segunda até ontem pela manhã, para que eu transcrevesse uma parte dos textos que denunciam A Máfia Verde, juntamente com algum comentário meu sobre estas questões. Uma segunda parte [Considerações sobre o veganismo] está postada abaixo e foi escrita por Vladimir Lachance. Quem acompanha o blog sabe o quanto tem sido de interesse o texto de Vladimir “I Congresso Mundial de Bioética e Direito Animal: A arte de desconhecer” - minha caixa de mensagens do hotmail está lotada com comentários a respeito, inclusive recebi um com o título “A arte de Deturpar”, da autoria de Túlio Xavier, e não conheço quem me mandou isso. O texto, aliás, tenta ser bem explicadinho, e isso é justificado logo no início pelo autor, que se dirige àqueles que ainda não se converteram à causa vegan ¹. O pregador se define como um “vegan ativista que só come acarajé de candomblé”, o que eu acho ótimo, uma vez que o candomblé sacrifica animais; imagino o cara comendo esse acarajé depois de, sei lá, ver uma galinha ou um bode sendo mutilado. Para alguém soi-disant ativista, encontramos aqui um paradoxo, pois certamente o autor virá em defesa do candomblé, arrumando rapidamente uma desculpa para o sacrifício animal dentro dele – não por se tratar de uma religião, mas por se tratar de uma religião afro-brasileira; nesse sentido, o militante de hoje tenta levantar as bandeiras, simultaneamente, de causas como o veganismo, o homossexualismo, feminismo e movimento negro. É precisamente por isso que encontramos esse tipo de problema no texto de Túlio (condenação brusca da violência contra os animais, seguida de vinculação com uma religião que os sacrificam): não existe nenhuma lealdade, e, portanto, ele nunca poderá ser verdadeiramente um revolucionário. E isso o atrapalha quando ele tenta fazer uma denúncia, pois procura conscientizar as pessoas do sofrimento desnecessário imposto aos pobres bichos, ao mesmo tempo em que se orgulha de compartilhar com o candomblé. Aí está o limite de seu ativismo vegan: ele termina quando o terreiro chega – mas conheço vegans que não têm esses limites, e continuam sofrendo pelo bode morto no ritual, da mesma maneira como choram pelos elefantes torturados no circo. O homem moderno em estado de revolta tornou-se praticamente inútil para qualquer propósito da revolta. Rebelando-se contra tudo, ele perdeu o direito de rebelar-se contra qualquer coisa específica.² Túlio quase se esquece de “responder” o texto sobre o congresso, com pedantismos do nível de "(...) o que mostra total falta de ignorância do [Vladimir Lachance] sobre o tema”.³ Foi a única coisa com a qual eu concordei: realmente, é muita falta de ignorância mesmo. Este blog tem causado muita polêmica, e eu atribuo isso ao fato de que tanto as pessoas conservadoras, quanto as não-conservadoras se interessam por ele; a situação é de certo modo tão glorificante para mim, que sou colaboradora, que as pessoas que lêem passam para os amigos, comentam, acham um absurdo, fingem que não lêem – e isso foi particularmente engraçado: ver uma pessoa dizer que “nem lê o Acarajé Conservador”, que só leu uma vez de nada, mas poder saber que esta é precisamente uma daquelas pessoas que lêem, repassam, copiam e colam trechos dos nossos posts. Isso é apenas uma amostra do nosso primeiro trimestre, e embora saibamos que este formato não é para sempre, como boa parte desses projetos não o é (sabe-se lá qual será a melhor ferramenta de comunicação daqui há 10 anos), levar uma pessoa a mentir de forma despretensiosa, apenas para não dar o braço a torcer que acompanha o Acarajé, é (depois de engraçadíssimo) uma daquelas máximas do egocentrismo humano: eu não me apaixono, eu não vejo novela, eu nunca votei no Lula, eu odeio Che Guevara, e eu não leio o Acarajé Conservador.

Para a minha surpresa, há mais pessoas interessadas no conservadorismo do que se imagina. A maioria das pessoas que luta contra uma posição conservadora ou tradicional não sabe muito bem o que atinge; essa “direita” é tão abstratamente diluída no discurso esquerdista que se torna o que o termo “neofascista” se tornou nos últimos tempos: algo completamente esvaziado, sem qualquer significado real, que pode representar tanto uma pessoa que, contemporaneamente, segue o pensamento de Mussolini, quanto [e mais frequentemente] qualquer um que discorde de uma posição ou não endosse o politicamente correto. O conservador é, nessa abstração, algo desconhecido, é o sujeito rico e de terno e gravata cujo objetivo é dominar todas as pessoas passíveis de exploração. Nesse contexto, tudo é arquétipo: para as feministas, o inimigo é o homem opressor ou a sociedade cujo falo gigante penetra os espaços abertos [perdoem a ambigüidade]; para um militante do movimento negro, em primeira instância, qualquer um é racista, e vemos frequentemente essa “feridinha” ser aberta, de maneira totalmente deslocada: quantos de vocês discutiam um tema (por exemplo, a exploração ou não exploração das baleias) e foram acusados, quase que amigavelmente, de não se preocuparem com a questão dos afro-descendentes? Como você pode simplesmente jogar xadrez com uma pessoa quando ela está usando as regras do Ludo? Como alguém quer ser levado a sério num debate quando se está falando de política e grita “Panquecas!”? Poderia Alice responder por que um corvo se parece com uma escrivaninha?

Vou dar um exemplo da tamanha abstração que muitas vezes acompanha as posições anti-conservadoras: qualquer pessoa que discuta politicamente e pretensamente de forma embasada a questão do aborto, sabe da existência do Dr. Nathanson e de sua luta pela legalização da prática nos Eua, e do depoimento do mesmo sobre como se deu esse processo, etc, etc. Uma pessoa leiga, e que certamente possui seu posicionamento quanto a isso, talvez não saiba, mas aqueles que de forma organizada discutem a questão, seja dentro de um movimento pró-vida, ou de uma organização feminista pró-aborto, devem conhecer esse depoimento. Não necessariamente devem concordar com ele, ou acreditar mesmo ser verdade que esse doutor, tão empenhado outrora em legalizar o aborto, hoje diga que manipulou os dados de pesquisa para que o projeto de lei passasse. Mas o que é inconcebível, na minha opinião, é que uma pessoa possua ou participe de um grupo pró-aborto e tenha um total desconhecimento sobre quem é Nathanson, e isto não apenas porquê a sua figura é essencial para compreender o processo de legalização do aborto no mundo, mas porque isso mostra, claramente, que pessoas estão tomando posicionamentos ferrenhos sobre uma questão que nem sequer estão por dentro; mostra que há toneladas de militantes prontos para nos convencer de que a legalização do aborto é uma questão de saúde pública, um direito da mulher e por aí vai, mas que não se deram nem ao trabalho de saber o que existe do lado de fora da caverna, estão olhando as sombras e nos apontando monstros.
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Notas

¹ O aviso de Túlio no início do texto “A arte de Deturpar” é este: “Para alguns o veganismo soa como algo extremista, uma verdadeira pregação de pessoas radicais desesperadas por atenção. Para outras aparenta ter uma certa coerência, mas ainda assim se constitui em um discurso irreal e impraticável. É para essas pessoas que se destina o presente texto

² G. K. Chesterton no capítulo “O suicídio do pensamento” de seu livro Ortodoxia. O autor inspirou todo o parágrafo.

³ Citação do texto de Túlio: “Até porque o mínimo de conhecimento sobre o funcionamento da ALF descartaria essa possibilidade, o que mostra total falta de ignorância do autor sobre o tema, e pior ainda, a total indisposição (pra não dizer coisa pior) em pesquisar antes de escrever sobre o que não sabe”.

Agora sabemos, no entanto, que dá pra se dizer coisa pior.
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Segue comentário meu, para os amigos já citados, assim como para todos, por extensão, sobre as questões ecológicas mundiais, que têm sido o foco de interesse de uma parcela das pessoas que visita o Acarajé Conservador. Em seguida, transcrevo algumas citações de links que já foram disponibilizados aqui.

A Máfia Verde

Estou convencida de que existe uma conspiração ecológica no mundo. Não é apenas o paroxismo da propaganda verde do século XX, onde as pessoas sensíveis vinham nos oferecer sementes de girassóis e se amarravam simbolicamente em árvores, mas trata-se de um verdadeiro culto á natureza, em que a velhinha de xale foi sinistramente substituída por uma garota andrógina de vinte e poucos anos e a árvore perdeu o lugar para o personal computer. O Greenpeace foi desmoralizado, a WWF Brasil censura livros que denunciam a indústria da ecologia (ver o livro A Máfia Verde, Lyndon La Rouche) e o aquecimento global está na moda, mas é igualmente uma farsa (veja o documentário A farsa do aquecimento global). Aos poucos essas ONGs e manifestos em favor da causa verde são desmascarados, a exemplo do Grupo PETA (Pessoas pelo tratamento ético com os animais), que hoje sabemos exercer a conduta ética de exterminar mais de 80% dos animais que acolheram nos últimos dez anos (Segundo o site Peta Kills Animals, dos 22.896 animais que o PETA acolheu entre os anos de 1998 e 2007, 19.215 foram assassinados pelo grupo). Há ainda a batalha travada entre o Greenpeace e Charles Lagrave: ele denuncia as mentiras contadas pelo grupo, a lavagem de dinheiro, e que embora no momento de sua fundação o Greenpeace fosse uma organização mais ou menos séria, após o enfraquecimento do comunismo no mundo a entidade passou a ser o alvo dos militantes, que se infiltraram e acentuaram cada vez mais o caráter polítco-ideológico do movimento. Há vinte anos, a militância juvenil era em sua maioria adepta do discurso comunista panfletário; hoje, não há mais sentido e é até mesmo ridículo ver alguém vestindo a camisa da foice e do martelo (é caricato demais), no entanto, a ideologia comunista se diluiu de tal maneira que permeia os campos de praticamente todos os chamados “discursos de minoria” (A revolução cultural de Gramsci já previa tudo isso, como ele escreve nos seus cadernos do cárcere). Os militantes de hoje são politicamente corretos, são cheios de boas intenções e querem salvar os bichos, as mulheres, os homossexuais e os negros; só não querem salvar as crianças porque são a favor do aborto. Os partidos comunistas do nosso país [PT, PCdoB e PSTU] querem combater “principalmente a homofobia capitalista”, enquanto em todos os países comunistas os homossexuais foram fuzilados, como ainda o são em Cuba, na China, na Coréia do Norte.
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Comunismo, Ecologia e o Paraíso na Terra
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As promessas do comunismo convergem para uma sociedade igualitária, em que a classe burguesa será extinta, a propriedade privada desaparecerá e será estabelecido o “paraíso na terra”. O presidente da Cruz Verde Internacional, Gorbatchev, afirma que a ecologia é um veículo revolucionário, e não por acaso esse mesmo Gorbatchev foi secretário geral do comitê central do partido comunista da URSS. Vou colocar aqui algumas citações de textos que ajudam a esclarecer as ligações entre o desaparecimento do comunismo, a militância ecológica e o socialismo sempre presente. As pessoas que nos escreveram parecem ignorar que existe um debate extenso sobre o assunto, e ficam até mesmo surpresas de ver alguém fazer tal analogia. Sugiro que estas pessoas, assim como eu fiz no passado, passem a investigar mais essas questões, para que não sejam simplesmente massa de manobra, acreditando na velha cartilha de que “ricos e doutores” não fazem parte da ideologia socialista, quando é exatamente o que ocorre. Muitas pessoas comentaram que não é possível uma ligação da ideologia vegan com o socialismo. Túlio, no seu texto A arte de deturpar, diz que qualquer um que afirma esta ligação é medíocre, apenas porque acha a questão extremamente nova, julgando que foi pela primeira vez formulada no Acarajé Conservador. Era de se esperar que ele pelo menos conhecesse os argumentos e dissesse não concordar com eles, mas ficou claro que ele se viu diante de uma novidade, resolvendo a questão dizendo que a ligação do veganismo com o socialismo seria improvável porque “Muitos dos próprios palestrantes são advogados ou professores e doutores universitários, e com certeza muitos deles não gostariam de voltar a um passado utópico de socialistas e comunistas” [sic]. De qualquer forma, ele mostrou também no texto que conhece o Google, de modo que poderá recorrer a ele para buscar novos horizontes [Duro vai ser se ele pretender dar outra resposta como se já soubesse da coisa toda]. O filósofo Olavo de Carvalho, em introdução à tradução da conferência de Pascal Bernardin [de 1999] sobre A Face Oculta do Mundialismo Verde, afirmou:

Desde o fim do comunismo, o socialismo bate em retirada ao conceder mais espaço aos mecanismos que deixam uma maior margem de liberdade aos comportamentos individuais. Contudo, a ameaça não desapareceu. Embora não se trate de grandes leis históricas que fariam do Proletariado o instrumento e o veículo do Progresso, trata-se da Ecologia – mais precisamente, das elites científicas e ecológicas que se autodenominaram os messias dos novos tempos – que pretendem impor seus objetivos como elementos reguladores da liberdade dos indivíduos”.¹

A conferência de Pascal Bernardin é uma síntese do seu trabalho minucioso sobre a ligação entre o socialismo e ativismo ecológico. Na transcrição da conferência, ele define a perestroika (termo que significa reestruturação), cujo mentor foi Antonio Gramsci: “A revolução ecológica formará a ossatura das revoluções — ideológica, religiosa, ética e cultural — veiculadas pela ditadura pedagógica. As idéias de Gramsci são portanto indispensáveis para toda compreensão do mundialismo e da perestroika”.

Confesso que apenas as citações não são suficientes para compreender toda a questão e a leitura dos textos sugeridos, e de outros textos mais, é importante. Estas citações são apenas para fins de demonstração, para instigar a curiosidade das pessoas. Ele termina a conferência dizendo que o objetivo de sua obra é “descrever a etapa atual da Revolução, que deve desembocar na edificação do Império ecológico, da Cidade terrestre; e mostrar como esta, querendo se elevar até o céu, busca realizar neste mundo a Cidade celeste”. ²

Notas

¹ O texto completo está em http://www.olavodecarvalho.org/convidados/bernardin2.htm

² Outras leituras e sites:
http://www.olavodecarvalho.org/convidados/empeco.htm
http://www.petakillsanimals.com/

Considerações sobre o veganismo.

Vladimir Lachance
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Já que o texto do I Congresso Mundial de Bioética e Direito Animal levou algumas pessoas a tecerem considerações interessantes acerca do assunto, sinto a necessidade de escrever uma defesa de como penso o vegetarianismo – veganismo, ou qualquer ramificação do tipo – e suas implicações. Como Luciana Lachance mencionou, um texto da autoria de Túlio Xavier chegou às nossas mãos, e o título da “réplica” apresentada por ele foi: “A arte de deturpar”, onde dizia que aquilo que presenciei não havia acontecido de tal forma, mas ele só poderia saber disso se não tivesse aparecido apenas no momento das perguntas; durante o período em que os trabalhos foram apresentados, ele passou a maior parte do lado de fora da sala, conversando. Como ele mesmo não se fez presente, foi incapaz de refutar os pontos que não tem certeza se realmente aconteceram, de maneira que sua ressalva defendia o congresso como um todo, cheio de “doutores, mestres, e graduandos”, impossíveis de serem medíocres, em sua opinião, graças ao “santo” diploma, como se isso fosse atestado de competência ou legitimidade. Peço a Túlio maior atenção aos links que recomendei no texto anterior, pois o site é de um filósofo brasileiro que não tem formação acadêmica alguma, mas que é o melhor filósofo brasileiro vivo, na minha opinião, e de muitos outros; aí também ele poderá encontrar “de onde eu tirei” que o veganismo “é uma ideologia a serviço de um socialismo absoluto e universal”. O ato em si de não comer alimentos de origem animal não torna ninguém melhor ou pior, nem eu me incomodaria com a dieta de quem quer que seja, a menos que eu fosse um nutricionista. Não há problema algum em São Francisco de Assis ter decidido que não devia comer nada que viesse de animais, assim como também não há nada de errado em São João Batista comer gafanhotos. O problema é transformar uma escolha dessas numa ideologia que pretende ser mais que uma simples decisão de não colocar na boca um pedaço de carne, e transformar quem o faz em algoz.

Olhar um pouco para essa discussão é importante, até porque eu não sou a única pessoa que faz criticas ao movimento. Fui vegetariano por quase um ano, e o que me incomodava constantemente era a incoerência do discurso verde, o fato de que o veganismo não se sustenta. Túlio defende que “veganismo e ativismo são coisas diferentes, dizer o contrário é papo furado, qualquer pessoa pode ser, e muitas são, vegans sem serem ativistas políticas”. Segundo sua própria definição o vegetariano é aquele que não come nenhum derivado de animal, ao passo que vegan surgiu como contraponto a vegetariano, pois além de compartilhar a mesma dieta “abstêm-se do consumo de qualquer coisa que implicou ou implique em sofrimento a animais – carnes, ovos, leite, mel, lã, couro, produtos testados em animai, rodeios, etc”. Ora, se o vegan não é apenas aquele que decide adotar certa postura alimentar, mas quem, através das ações pretende eliminar a exploração animal como um todo, este é o momento em que se torna muito tênue a linha que separaria o veganismo do ativismo político. Alguém cujo paladar é bastante peculiar pode não se interessar por nenhum alimento de origem animal, mas considero política a decisão de se abster destes, tendo em vista uma posição pretensamente moral (defesa dos animais). Quando um vegan decide não comprar um determinado produto porque a empresa faz teste em animais, esta conduta é necessariamente política. Acho que Túlio confundiu o termo ativista político com terrorista. O ativismo, qualquer que seja, é uma forma de engajamento, e os vegans são engajados - eles defendem a causa que abraçaram. A definição de vegan, aliás, como alguém que se abstêm do consumo de qualquer coisa que implique sofrimento aos animais acaba se esgotando, uma vez que é impossível ao ser humano atingir tal plenitude: Túlio teria que abrir mão do próprio computador em que digitou esta resposta. Levando isso em conta, talvez os vegetarianos estejam em melhor situação.

Meu texto sobre o congresso também foi discutido na lista de e-mails “Veg-Brasil”, e lá não foi encarado como um manifesto anti-vegetariano, e nem as pessoas se sentiram ofendidas por ele, pelo contrário, os vegetarianos de lá concluíram que o congresso deveria ter sido mesmo “borocochô”, para usar um termo do membro Claudiney Morais (vejam os comentários aqui). As pessoas desta lista conseguiram fazer a diferenciação entre o quão caricato um congresso pode ser e o que poderia ser algo contra elas enquanto indivíduos. A julgar pela frase de Túlio no texto - “É praticamente impossível viver sob o sol capitalista sem infligir dano ao mundo em que vivemos”-, nós já sabemos para quem as barracas com camisas de Che Guevara foram montadas no evento. Seu discurso didático o levou a um reducionismo simplório da palavra radical remetendo seu significado apenas a etimologia, propondo que hoje o termo seja interpretado como era antes de Cristo: algo como ir à raiz, “que busca a origem do problema”. Partindo do pressuposto que radical realmente significa apenas isso, podemos representar a raiz da civilização ocidental remontando às origens do Cristianismo. Nesse sentido, posso ser radical, posto que busco ir até esta raiz para regá-la a fim de que ela se expanda e possa se firmar, mantendo a árvore, que é o Ocidente, de pé. Já radicais como Túlio querem ir até a raiz para cortá-la, como se se tratasse da origem do problema, sem perceber que cortando a raiz ele derruba a árvore inteira. Túlio ignora o próprio didatismo ao afirmar que “Gandhi era radicalmente contra a violência”. E não é mesmo necessário que eu faça uma biografia do movimento vegan – como ele nasceu, se desenvolveu, etc. -, mesmo porque eu não preciso ir na raiz deste problema, pois como ensina Nosso Senhor: é conhecendo os frutos que se conhece a árvore.

Para Koji e Dona, que deixaram comentários no meu texto anterior, espero ter esclarecido alguns pontos com o que expus acima. Agradeço as contribuições, e considerei suas opiniões pessoais sobre o congresso – na verdade cada pessoa pode ter interpretado de uma maneira diferente e aquela foi a minha. Para Edu, que também deixou um comentário, sugiro a leitura do texto: Patrulha Ideológica, pois sua mensagem tem alguns pontos parecidos. O texto de Luciana acima do meu, aliás, poderia ajudá-lo quando ele se refere às preocupações de negros, brancos, mulheres, empregados, patrões.

* Quando estava na cozinha começando a elaborar este texto ocorreu um fato engraçado: na sala, uma criança, vizinha daqui, fazia o dever de casa e lia para minha sogra a Declaração Universal dos Direitos dos Animais presente no seu livro didático. Pedi o livro para averiguar uma suspeita: pois bem, minha suspeita foi confirmada quando, ao olhar o índice do livro, descobri que essa criança estava aprendendo primeiro que os animais tinham direitos, para só depois vir a descobrir que ela também tinha algum.

Brasil conservador reclama da baixaria na TV

De acordo com a Agência Câmara (2/10/2007), a desvalorização da família, a banalização dos valores morais, a exibição de pornografia, entre outros, estão na lista das principais reclamações das pessoas em relação aos programas de TV. Isso comprova como o mundo da mídia se divorciou do Brasil real.

Segue a tabela fornecida pela agência:

Pacto de Metz: A Igreja Católica se aliou ao comunismo?

O Pacto de Metz teria sido um acordo, assinado em Metz, na França, entre a Igreja, representada pelo Cardeal Tisserant (que tinha junto consigo o então Cardeal Montini, futuro Paulo VI) e a URSS, através do Patriarca de Moscou, Nikodim, testa de ferro do regime comunista. Com a formalização desse pacto, ficaria acordado que a igreja cismática enviaria observadores ao Concílio e, em contrapartida, haveria total silêncio acerca do comunismo. Da mesma forma, com o mesmo espírito conspiratório, rumores afirmam que na verdade o Pacto de Metz não passou de uma invenção da KGB para denegrir a Igreja.

A excomunhão ao comunismo é reflexo do ateísmo e materialismo que fazem parte da essência dessa doutrina. Destarte, aqueles que se encaixam no decreto de S.S Pio XII são os que aderem ao marxismo enquanto concepção filosófica anti-cristã, revolucionária, anti-natural, totalitária etc, ou seja, apóstata. Como bem sabemos, a excomunhão latae sententiae se faz em casos de apostasia, heresia, cisma etc. Mesmo com a existência de tal pacto, nenhum dos envolvidos, João XXIII, Cardeal Tisserant, Cardeal Montini, tinham a intenção de criar um cisma, muito menos apostatar da fé. Era um acordo, assinado entre dois Sucessores dos Apóstolos, afinal Nikodim foi ordenado validamente, que tinha como objetivo o silêncio, não a defesa inconteste do comunismo ateu. Ainda vale lembrar que o Papa, enquanto supremo legislador eclesiástico, pode suprimir a lei temporariamente, quando achar oportuno. Ademais, a excomunhão é automática para os que aderem ao comunismo enquanto doutrina filosófica materialista e atéia, o que gera apostasia, daí a excomunhão latae sententiae. Quem se diz socialista, crendo que socialismo é justiça social, não cai em excomunhão automática. O que deve ser levado em questão não é a filiação nominal, mas a profundidade ideológica. Desse modo, o Concílio foi legítimo, tanto com o Beato João XXIII, de onde teria partido a ordem, e com Paulo VI, que teria participado do acordo ainda como Cardeal. Entretanto, é pertinente relembrar que há uma grande diferença entre assinar um documento defendendo o comunismo, com consciência da incongruência entre o materialismo dialético e o cristianismo, com total condescendência ao erro marxista, e um acordo que tinha como objetivo não relembrar as condenações ao comunismo no Concílio. Até porque, como o tal pacto envolveria diretamente um Papa, João XXIII, o mesmo que proibiu católicos de se aliarem a partidos e políticos comunistas, e dois Cardeais, é legítimo concluir que eles sabiam que mesmo com a omissão do comunismo no Vaticano II, isso em nada modificaria os anátemas já feitos, logo, mesmo com a existência do Pacto, não teriam a inocência de acreditar que esse silêncio revogaria anos de ensinamentos.

Dois pontos de grande relevância; o Concílio optou por utilizar um método positivo, sem anatemizar e recondenar o que já havia sido condenado. Ora, com pacto ou sem pacto, o Vaticano II não faria uma taxativa condenação ao comunismo, vale lembrar que milhares de instituições religiosas foram questionados sobre os assuntos que queriam que fossem abordados no Concílio; o comunismo nem apareceu na lista. Outra questão que não podemos nos esquecer, o Magistério da Igreja é contínuo, infalível nos seus ensinamentos, não se anula nem entra em contradição. O comunismo já via sido condenado desde o Beato Pio IX, logo, mesmo com o Concílio não relembrando a anatemização do materialismo dialético, este continuaria execrável. Mesmo existindo esse Pacto de Metz, esqueceram de avisar ao então Arcebispo de Cracóvia, Karol Józef Wojtyla, afinal, S.S João Paulo II, o Papa que colocou na prática o Concílio, era abertamente anticomunista e fez da derrubada dos regimes genocidas totalitários socialistas sua bandeira pessoal.

Não obstante, é pertinente recordar que o comunismo foi lembrado no Concílio e condenado, não da forma “syllabica” que alguns queriam, mas dentro da metodologia conciliar;

O ateísmo moderno apresenta muitas vezes uma forma sistemática, a qual, prescindindo de outros motivos, leva o desejo de autonomia do homem a um tal grau que constitui um obstáculo a qualquer dependência com relação a Deus. Os que professam tal ateísmo, pretendem que a liberdade consiste em ser o homem o seu próprio fim, autor único e demiurgo da sua história; e pensam que isso é incompatível com o reconhecimento de um Senhor, autor e fim de todas as coisas; ou que, pelo menos, torna tal afirmação plenamente supérflua. O sentimento de poder que os progressos técnicos hodiernos deram ao homem pode favorecer esta doutrina.

Não se deve passar em silêncio, entre as formas actuais de ateísmo, aquela que espera a libertação do homem sobretudo da sua libertação económica. A esta, dizem, opõe-se por sua natureza a religião, na medida em que, dando ao homem a esperança duma enganosa vida futura, o afasta da construção da cidade terrena. Por isso, os que professam esta doutrina, quando alcançam o poder, atacam violentamente a religião, difundindo o ateísmo também por aqueles meios de pressão de que dispõe o poder público, sobretudo na educação da juventude.” (GS, 20)

“Fiel quer a Deus e quer aos homens, a Igreja não pode deixar de reprovar com firmeza, como reprovou até agora, aquelas doutrinas e atividades perniciosas que contradizem à razão e à experiência humana universal e privam o homem de sua grandeza inata.” (GS, 21)

Com pacto ou sem pacto, nós nunca iremos saber se o Concílio condenaria nominalmente o comunismo. O tal acordo em Metz seria muito inócuo, afinal o Vaticano II escolhera uma metodologia positiva, ou seja, uma taxativa anatemização entraria em contradição com a própria organização conciliar. Sem o pacto, na concepção dos seus defensores, o Concílio faria uma concessão metodológica ao condenar o materialismo dialético. Não obstante, vale frisar, que mesmo com essa taxativa excomunhão, o desenrolar da história nos leva a crer que nada se modificaria na corrupção de partes do clero pela doutrina comunista, assim como a infiltração de agentes socializantes na Igreja. O ataque a institucionalização, a hierarquia, a estrutura clerical, se tornou a bandeira dos socialistas ditos cristãos. Ora, com a recordação dos anátemas, apenas se consolidaria o discurso dos defensores do materialismo, criando uma realidade bipolar, se melhor ou pior do que o a que se formou, não saberemos.

Pedro Ravazzano

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Gnose, heresia e ortodoxia

"O gnosticismo é uma proliferação de heresias que, apesar de sua diversidade, tem alguns pontos em comum. O termo é muito ambíguo, porque não todas as escolas englobadas sobre essa denominação se qualificaram como gnósticas, porque ignoramos todas as influências que os doutores gnósticos experimentaram e as fontes primeiras de onde sacaram suas idéias. Sem embargo, o termo é tradicional e ademais, no fundo, todas as seitas gnósticas tem muitos contatos, surgidos de necessidades análogas e seguindo uma direção paralela.

(...) Não se trata de um simples saber e de uma ciência a secas, senão de conhecer a Deus, ver-lo, possui-lo. Mas esse conhecer, ver e possuir não se adquire pela dialética nem pela fé. A princípio se trata, pois, de um conhecimento místico.

[Com o contato com a filosofia, especialmente a platônica, os doutores gnósticos se aproximaram das religiões orientais, reflexo da necessidade de confeccionar um sistema religioso], a dialética filosófica foi portanto substituída por uma mitologia abstrata e sentimental, artificialmente criada, onde entra a astrologia e magia. (...) O gnosticismo, diz-se, é a "helenização do cristianismo levada ao ponto mais alto" (Harnack) (...) Existe também uma gnose cristã completamente ortodoxa, gnose que aceita a influência da filosofia, especialmente de Platão e do neoplatonismo, em tudo aquilo que não era oposto aos dogmas cristãos.

[Ao falar de Clemente de Alexandria, o autor comenta] A gnose não contradiz a fé; não solamente a sustenta e esclarece em alguns pontos, senão que a eleva a uma esfera mais alta; do domínio da autoridade ao domínio da ciência lúcida e da adesão íntima, espiritual, que emana do amor de Deus. A fé e a gnose estão unidas entre si porque as duas extraem seu conteúdo da Sagrada Escritura; a fé é conhecimento breve e compendioso das coisas necessárias; a gnose é demonstração das coisas tomadas pela fé; daí que uma seja estado elemental e preparatória da outra."

Luis M. de Cadiz (Pe. Antonio Ulquiano-Murga) em Historia de la Literatura Patristica (1954).

Tradução: Pedro Ravazzano

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Sagrado Coração

Em 1981, o decreto da Congregação dos Ritos proclamava que a Festa do Sagrado Coração, que este mesmo decreto instituía, não era uma novidade, senão "a síntese de todas as festas em que se celebram diferentes mistérios de nossa salvação". É uma recapitulação e, poderia se dizer, uma condensação de todo o Mistério cristão. E é que, em efeito, o coração é o centro, fonte da vida, do amor e da inteligência, e por conseguinte de identificação. Como dissemos, no coração do homem reside a "imagem de Deus", que há nele, o Ser, pois "o reino de Deus está dentro de vós" (Lc 17,21). É evidente, portanto, que o coração humano é feito a imagem do Coração divino, "centro de todos os corações" e "em quem resida a plenitude da Divindade". Toda a espiritualidade, na expressão dos Padres, consiste em passar da imagem à semelhança ou similitude (homéôsis). Como disse Nicolau Cabasilas, os cristãos são "membros de Cristo...sempre na comunicação com um Coração vivo", este "Coração bem-aventurado" (makaria cardia), centro ontológico da Pessoa de Cristo, se identifica só no "santo altar" (hieron thysiasterion) do sacrifício não sangrento. Por este Coração sagrado de Cristo, a virtude do altar atrai a verdadeira vida para as transmitir" (Nicolau Cabasilas, la Vida en Cristo)

Essa doutrina mistica, repetimos, se remete a própria origem do cristianismo, mas em certo modo foi revivida, e logo amplamente difundida, a partir do séc. XII e XIII, e apareceu finalmente a plena luz em Paray no séc. XVII. Entre os devotos do Sagrado Coração, esta união com o Coração divino, que em alguns chega a identificação, se operou de duas formas; seja mediante um refugiar-se no Coração, seja mediante uma "troca de corações".

O primeiro modo é o que se denominou "Viver espiritualmente no Coração de Jesus". Está descrito num comentário místico da passagem do Cântico dos Cânticos, em que o Esposo convida a amada (ou seja, a alma), nestos termos; "levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem. Minha pomba, oculta nas fendas do rochedo, e nos abrigos das rochas escarpadas, mostra-me o teu rosto, faze-me ouvir a tua voz. Tua voz é tão doce, e delicado teu rosto!" As "fendas" e os "abrigos das rochas" se assemelham a ferida do Coração do Esposo e ao interior do mesmo Coração; assim é, por exemplo, para Santo Antônio de Lisboa (1195-1497). O simbolismo se precisa e passa a se identificar, muito significativa, do Coração com a Caverna: " «Ven, paloma mía..., vena los agujeros de la piedra, a la caverna abierta en medio de la muralla... Esta caverna es la abertura del costado de Nuestro Señor. El alma tiene que refugiarse en la caverna profunda, a saber en la llaga del costado de Jesús y en su Corazón».

Assim, Santa Matilde, no curso de uma visão do Coração Luminoso, viu seu próprio coração sumido no de Cristo. (..) Em tal processo se opera uma reintegração do batizado no estado do Paraíso terreno, como assinala com razão René Guénon: "Esse é - escreve - o significado de "viver espiritualmente" no Coração de Cristo, pois o Coração de Cristo, como o Paraíso, é o Centro do mundo".

O outro modo dessa via espiritual do Sagrado Coração é a experiência curiosa e relativamente difundida da "troca de corações", por exemplo em Santa Catarina de Sena e em Santa Lutgarda (séc. XIII), cujo coração Cristo tomou e deu o Seu, coisa que Tomás de Cantimpré, teólogo e confidente da santa, explicava de modo muito pertinente nesses temos: "Era a união do Espirito incriado e o espirito criado pela excelência da Graça; é o mesmo que disse o Apostolo: "Quem se une a Deus se converte em um só espirito com Ele" (I Cor. 6,17).

É inevitável estabelecer aqui um paralelo entre esta devoção ao Coração de Cristo na vida espiritual oriental do hesicasmo, com sua prática da "Oração do Coração". Ela busca fazer com que Jesus habite no coração do fiel e, em última instancia, identificar os dois corações; o meio empregado, como se sabe, é a invocação repetitiva do Nome de Jesus. Pois bem, é muito sintomática que a Igreja, no Ocidente, instituísse uma "Festa do Santo Nome de Jesus", quase na mesma época em que se estendia a devoção ao Sagrado Coração (séc. XIV), como complemento desta; mais ainda quando, na liturgia dessa festa, se canta o celebre hino Jesus dulcis memoria, Dat vera cordis gaudia, Sed super mel et omnia, Ejus dulcis paesentia; hino em que a palavra memória, "recordação", é totalmente característica como termo técnico para designar muito exatamente o método da invocação repetitiva destinada precisamente a atrair a "presença". Agreguemos finalmente que alguém disse que esta invocação do Nome de Jesus, o mesmo que a devoção ao Seu coração, tinha caráter escatológico; que estava particularmente reservado aos "últimos tempos", durante os quais a invocação do Nome seria um modo privilegiado para conseguir a salvação (...) Essa devoção autentica ao Sagrado Coração segue estado a disposição do cristão como uma das vias espirituais mais elevadas, e sem dúvida a mais simples e mais direta: a contemplação assídua do Coração irradiante, Sol espiritual, faz com que o contemplativo se vá tornando pouco a pouco apto para receber a revelação da Luz transcendente que arranca do salmista esse grito assombroso: "Em Tua luz vemos a Luz" (Sal. 35, 10) (Jean Hani - Mitos, Ritos y Símbolos)

A diferença entra a "mística do Coração" do hesicasmo ortodoxo e a "mística do Coração" da Igreja Católica é paralela as diferenças que distinguem a espiritualidade das Igrejas orientais e ocidentais.

Assim, enquanto que para os monges do Monte Athos, o Coração venerado é o de Jesus na Glória da Transfiguração, Coração que habita no coração dos monges os iluminando, para os místicos ocidentais, o coração adorado é o coração amante, sofredor e sangrante do Crucificado, contemplado fora deles e que desejam substituir com os seus próprios. Uma mística do coração centrada sobre o simbolismo da luz e a participação na glorificação, se diferencia portanto de uma mística do coração centrada sobre o simbolismo do sangue e a participação no sofrimento. É a mesma distinção entre uma Igreja mais orientada para o mistério da Ressurreição e uma Igreja orientada para o mistério da Paixão.

É assim como se diferenciam ambas Igrejas, como Oliver Clemente comenta quando escreve que "a alegria pascoal da Ressurreição (...) nunca foi ocultada na Ortodoxia magnifica da Sexta-Feira Santa". Outra diferença entre as místicas é que a do Hesicasmo foi codificado, regularizado, sido metodicamente transmitido no meio monacal por mestres espirituais inspirados, e perdurado até nossos dias através de todos os santos nomes da Filocalia. Enquanto que a mística do coração católica se tornou uma experiência espiritual singular, rara, espontânea se se pode dizer, presença de pura graça quase exclusivamente centrada em conventos femininos, ao menos desde as revelações de Paray-le-Monial. (...)

Ademais, enquanto que a "mística do coração", na ortodoxia, tem conta suas diferenças específicas, segue reservada ao mundo monacal, ao retiro silencioso e solitário da cela dos monastérios, e permanecido sempre abaixo do controle dos mestres espirituais, santos, doutores, higúmenos e staretz. Entre os católicos, essa mística se queria pública, aberta a todos, clero, leigos, homens, mulheres, crianças, sem direção espiritual séria, e na qual as suscripcões, tômbolas, substituíram os exercícios espirituais da Filocalia (Roger Parisot - Connaissance des Religions nº 57-58-59 - Lumières sur la Voie du Coeur)

Tradução: Pedro Ravazzano

Liberty behind bars!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Jerônimo Savonarola

Esse artigo já começa com um questionamento; quem foi Jerônimo Savonarola? Um reformador moral, o primeiro protestante, um herege, um incompreendido, um santo ou um excomungado? O fato é que a figura desse dominicano é polêmica, rodeada de discussões e dúvidas. Ele nasceu em Ferrara, mas viveu e morreu na gloriosa Florença. Sua história tornou o Quattrocento um período mais singular, seja graças aos seus sermões apocalípticos, ou suas atitudes controversas de luta contra a cultura pagã na Renascença. Savonarola era oriundo de uma tradicional família de Ferrara. Foi um entusiasta do estudo da filosofia e medicina. O seu chamado religioso se deu por ação de um fervoroso sermão proferido por um agostiniano. Jerônimo então se retirou do mundo, entrando na ordem de São Domingos, em Bolonha. Ao longo de sua vida Savonarola atuou com as figuras mais marcantes do período; Médicis e Bórgias, Papa Alexandre VI, Miguel Ângelo e os artistas florentinos.

Desde já é extremamente pertinente levar em conta o Papa da época, Alexandre VI. Outra questão essencial na compreensão dos acontecimentos posteriores na vida do religioso é a relação que tinha com Carlos VIII, da França. Para o dominicano o monarca francês era instrumento divino de regeneração da Itália e reforma da Igreja. O próprio chegou a conclamar o rei a se guiar na Providência. Com o regresso do monarca a França, os estados italianos se rebelaram, mas Savonarola defendeu para Florença a manutenção de sua aliança com Carlos VIII, o que acarretou a sua subida ao poder. Foi aí que Savonarola lançou para a história, talvez, a cena mais marcante de sua vida; a fogueira de livros e quadros.

Alexandre VI tinha aversão a Carlos VIII, e a aliança do dominicano com o monarca francês fincou as antipatias do Papa ao Monge, que já vinha fazendo sermões contra os erros morais da sociedade italiana, incluindo a família Bórgia (Antes de se tornar um fenômeno nacional Savonarola já havia irritado os então senhores de Florença; os Médicis. Atacados pelo dominicano por promoverem a arte pagã e a vida frívola). O Papa chamou diversas vezes o religioso a Roma para prestar satisfação, sua negativa se dava por motivos de saúde ou indisponibilidade. O Papa Bórgia, consternado, o proibiu indefinidamente de pregar e, posteriormente, o excomungou. O mais interessante foi que no espaço de tempo entre o decreto e sua chegada até Florença Savonarola escreveu uma carta pedindo perdão pelas eventuais faltas cometidas. Ele e seus aliados até tentaram revogar a excomunhão junto a Roma, sem sucesso. O dominicano mandou, por sua vez, uma carta desafiando o Papa e projetou um Concílio que julgasse e depusesse o Pontífice.

O que se seguiu foi a prisão de Frei Jerônimo e sua morte na fogueira pelas mãos da justiça civil de Florença.

O que se alega é que a excomunhão de Savonarola não tinha fundamento teológico-jurídico, mas sim foi norteada pela antipatia de Alexandre VI ao reformismo moral do religioso, sua relevância política em Florença e sua estreita relação com Carlos VIII.

Os erros de Savonarola são claros; milenarismo e sentimentos apocalípticos. É fato que esses seus “métodos” foram essenciais no fortalecimento da fé em Florença, ultrajada e combatida pela intensa presença pagã renascentista. Quanto aos combates de Jerônimo a Igreja e ao Papado, fica a dúvida se ele se referia a Esposa de Cristo e ao Primado Petrino, ou era uma crítica dura a corrupção do clero e a libertinagem que reinava no pontificado de Alexandre VI. Para muitos, e até para os dominicanos que sonham com sua possível canonização, o religioso não se opunha ao Magistério, a Tradição e a Sagrada Escritura, ao contrário, seria sua fidelidade a Cristo e a Sua Igreja que o levaria a lutar pelo restabelecimento da santidade. O que fica claro é que Savonarola não era um criptoprotestante, na verdade esse seqüestro da imagem do dominicano se deu em períodos tardios, com protestantes que queriam endossar os seus posicionamentos como já existentes na história.

Quanto a sua dita aversão a arte, isso é uma falácia. Savonarola combatia o paganismo presente na Renascença, mas foi um defensor, e até influente, na concepção artística cristã, principalmente em Botticelli e Miguel Ângelo, ambos admiradores de Savonarola.

Carpeaux, em História da Literatura Ocidental Vol. 1, fala de Savonarola;

"Mas Savonarola não era inimigo da alta cultura. A profunda influência que o monge exerceu na mente de Botticelli e Miguel Ângelo basta para refutar a acusação, e o convento de San Marco, em que Savonarola viveu, é um santuário da arte. Savonarola é representante máximo, não da hostilidade contra a Renascença, mas da outra Renascença, cristã e popular, que com os monges de S. Francisco começara e com esse monge de S. Domingos acabou."

O que Carpeaux afirma é que o caso Savonarola foi essencial para a união da Igreja com o Humanismo;

"A ameaça do povo cristão estava dirigida contra duas forças até então inimigas ou separadas; a Igreja e o humanismo. O caso Savonarola acabou com a rivalidade entre elas. A Igreja e os humanistas, igualmente ameaçados, concluirão uma aliança".

Nunca saberemos se de fato Savonarola foi realmente um herege digno de excomunhão ou uma vítima da perseguição de Alexandre VI. A verdade é que sua figura enriqueceu a Renascença!

Pedro Ravazzano

Considerações sobre o caso do sequestro e assassinato no ABC

Mudei o assunto do artigo que ia publicar hoje: as circunstâncias podem maximizar o desejo de abordar tal ou qual tema, e o artigo que eu vinha escrevendo, que não é o que eu queria redigir agora, ficará para depois, apesar de ser relacionado não apenas a idéias, mas também a um fato, que inclusive antecede os que abordo agora. Mas me marcou bastante o desfecho do seqüestro das meninas Eloá Cristina e Nayara; a primeira ficou 101 horas nas mãos de um louco imbecil, Lindenberg Alves, que, conforme ameaçava, disparou contra a garota, que morreu no hospital e cujos órgãos estão, se não me engano, sendo retirados nesse momento para doação.

Confesso que não andei acompanhando muito o caso durante os dias de seqüestro e, embora tenha ficado apreensivo com o que acontecia – ou melhor, com o que não acontecia, que era a tão desejada libertação das reféns – apenas aguardava o desfecho para ficar aliviado, pois este haveria de ser bom. Que infortúnio... pois terminou em final triste.

Se é que é necessário justificar o porquê de se comentar esse episódio neste blog, eu explico: ele é revelador de ânimos e tendências de nossas épocas, e os fatos diretamente ligados a ele são muito relevantes por este mesmo motivo. Analisarei diversas reações observadas no suceder da última sexta-feira em diante. Referirei ao que ocorreu, e ao que se fez, se diz, se pensou e se sentiu em relação a isso.

Ontem, na TV - estive ouvindo trechos de programas que falavam sobre o seqüestro, bastava eu perceber sobre o que se tratava que eu ia para frente da televisão – um psicólogo dizia o seguinte sobre o assunto: em casos como esse, o sujeito rejeitado é tomado de um grande impulso, um sentimento que o tornava imediatista e incapaz de pensar no futuro de suas ações, e ele age sob arrebatamento. Embora ele possa ter lido isso nos manuais de psicologia, não me parece de forma alguma uma observação inteligente sobre o que aconteceu. Embora seja evidente que um indivíduo que cometeu um crime destes esteve sob efeito de paixões – no sentido negativo, conforme o uso por filósofos e religiosos – há outros aspectos fundamentais que precisam ser considerados. Durante o longo tempo em que se desenrolou a ação, Lindenberg alternou entre momentos de frieza e de aparente descontrole; levou um ou dois revólveres e um saco de mun
ição, demonstrando sua preparação para o que fazia; procurou em vários momentos demonstrar controle da situação, e fez questão de desmentir explicitamente a idéia de que ele estava nervoso; sim, podia estar também, mas sabia bem o que fazia. A sua ação não se deveu apenas a um estado anormal de sua mente, como dão a entender certas explicações psicológicas que parecem servir apenas para “aliviar o lado” do criminoso estúpido, sugerindo que ele estava “confuso” ou coisa parecida; e, nesse ponto, ponho em questão um mito que aparece nos depoimentos de entrevistados que conheciam o rapaz, e que se repete a todo o momento na TV quando se fala sobre o “adolescente” assassino de 22 anos: o de que ele “era uma boa pessoa” que nunca teve antecedente criminal antes e que, portanto, não dava a menor pinta de que chegaria a fazer algo como o que fez, tão surpreendente em se tratando de alguém como ele, um jovem que trabalhava. Não: ao ver alguém fazer o que ele fez nos mais de quatro dias, pode procurar conhecer a sua vida pregressa que você vai encontrar sinais de seu mau-caráter.

Depoimentos de amigas da vítima – não o Lindenberg, dessa vez me refiro a Eloá, (não se assuste se você for uma pessoa normal, é que hoje há pessoas que aparentam não saber distinguir entre criminoso e vítima)– falaram que ele era um ciumento possessivo e que BATIA NA GAROTA. Isso, o cretino era um machista demente, que se sentia o proprietário da menina e não suportou que sua propriedade o desapropriasse, julgando a propriedade pertencer a si mesma e não a seu verdadeiro dono, o ex-namorado sete anos mais velho que ela. O idiota que batia na ex-namorada refém – pois é, ela apanhou lá dentro nos seus últimos dias (http://oglobo.globo.com/sp/mat/2008/10/19/em_depoimento_policia_nayara_conta_que_lindemberg_bateu_em_eloa-586017124.asp ) - batera nela tempos antes. Mas, disseram as amigas, a família de Eloá não acreditou quando esta contou que apanhava de Lindenberg. Aí vemos porque o vagabundo era tido como um bom sujeito! Porque estava rodeado por cegos, e por surdos que não escutavam a própria filha. Sei que nesse momento a dor da família é enorme, e não tenho o desejo de ficar fustigando ninguém ( a não ser o próprio Lindenberg, que eu gostaria de humilhar e espancar), mas é preciso chamar a atenção para certas coisas, para que certos comportamentos sejam corrigidos. Eu tive uma amargura que não vou conseguir esquecer por não ter conseguido, em casa, dar a minha versão sobre o que professores e outros “profissionais da educação” falaram sobre mim em reuniões de pais e professores. Para poder proteger alguém, é preciso prestar atenção. Sim, prestar atenção no que ela tenta dizer, e prestar atenção nas pessoas que nos rodeiam, que podem não ser as pessoas que muitos dizem ser. No caso de Lindenberg, a violência era um traço mesmo da sua personalidade, e foi muito lindo acontecer um fato inusitado: o seu advogado o abandonou. Isso porque o delinqüente não cumpriu com o que prometeu, não fez sua parte para que tudo terminasse bem. Perfeito seria ver esse cara ser abandonado por todos os que tem qualquer coisa a ver com ele. Ele tem de terminar sozinho: é um louco homicida, uma ameaça às outras pessoas, à sociedade.

Outro aspecto muito importante relacionado ao ocorrido é a questão da “cobertura da imprensa”, criticada por Reinaldo Azevedo no seu blog, no post “A TRAGÉDIA DE SANTO ANDRÉ: E NÓS COM ISSO?”. O jornalista questiona sobre que postura a imprensa deve adotar nessas ocasiões, que seja mais séria que a atual. Ele escreve: “Será que não é hora de a imprensa rever o seu papel em casos como este? Não sou especialista em comportamento — nada além de algum bom senso. Mas indago: o que será que alguém como Lindebergue pretende? Durante cinco dias, este rapaz ligou a televisão e se viu como a estrela de um filme longuíssimo, de um drama que mobilizou o país, que levou especialistas em comportamento à televisão para aquelas digressões entre irresponsáveis e irrelevantes sobre o comportamento humano. Um rapaz pobre, da periferia, que decide se vingar da ex-namorada, vê-se, subitamente, no centro de uma verdadeira comoção nacional.” Interessantíssimo notar que, de sexta para sábado, mais dois casos de seqüestros por motivos passionais aconteceram, um em Mato Grosso do Sul (http://www.midiamax.com/view.php?mat_id=346500 ) e outro em São Paulo, noticiado na TV. Contento-me em apenas mencionar esse relevante debate aqui, pois se nem o “Tio Rei” tem idéias bem definidas de como se pode resolver esse problema, não sou eu quem o fará. Mas faço questão de subscrever a crítica à Sonia Abrão por seu programa, da rede TV, ter entrevistado o seqüestrador. Que competência ela se atribui para fazer isso? Ninguém de cabeça no lugar poderia se intrometer sem consultar o GATE, que cuidava da operação. O pior é que, segunda Datena, um homem da polícia falou que essa interferência atrapalhou o trabalho policial. Procurem os vídeos relacionados a essa confusão no youtube e vejam. Que coisa...

Quanto aos erros e acertos da polícia, as perícias, investigações e, sobretudo, o depoimento de Nayara, que estava na cena do crime quando tudo terminou, vão trazer esclarecimentos que nos permitirão ter uma visão mais consistente sobre a ação da polícia. Não pretendo comentar essa questão aqui, sobre a qual muito se está sendo pronunciado – espero que não por causa de um certo sentimento anti-policial que existe no Brasil, difundido por pessoas de mentalidade “progressista”. Reinaldo Azevedo demonstra bastante esse temor, e vale citar o seu post “O NOME DO CRIMINOSO”

para que se lembre bem de algo: o bandido é Lindenberg. Outros podem ter errado, mas ele é o delinqüente. O que eu quero avisar a vocês, para concluir esse artigo, é um certo aspecto relativo à repercussão do caso, que não poderia ser pequena. Sim, muita gente está abalada com o que aconteceu, e a tristeza e a revolta são os sentimentos normais que as pessoas podem ter em circunstâncias como essa. Não é sobre isso que eu queria escrever: quero registrar a lamentável atitude de pessoas sociopáticas que procuram calcar a dor, a tristeza e a revolta daqueles que são seres humanos e por isso estão chocados com tudo o que houve.

Antes de Eloá morrer, foram criadas comunidades no orkut onde se manifestava solidariedade pelas vítimas, e se pedia a Deus por elas, e se escrevia coisas comovidas. A comunidade mais importante foi infestada por gente postando coisas odiosas e agressivas em relação à garota que morria, tornando o seu ambiente insuportável. É visível que os que freqüentam a comunidade em peso são os adolescentes, como aquelas garotas, e são sumamente desrespeitados. Visitar o perfil de Eloá e Nayara é impactante – principalmente quanto à primeira, por seu destino; vejo um estilo de se escrever, cheio de emoticons e apelidos, vejo expressões de carinho entre amigas (de amizade sincera, de quem não consegue deixar a amiga sozinha num momento desesperador), iguais a como se vê no orkut de qualquer menina adolescente; é a mesma coisa de se visitar o profile de uma colega de escola de minha irmã; vejo comunidades das quais minha irmã participa. É muito diferente de se ver a notícia na TV, onde também se transmite novelas, filmes, onde a realidade e a ficção parecem misturar-se; é sentir a própria realidade da tragédia junto a você, é ver que morreu uma menina como nossas irmãs. Aquelas atitudes doentias dos que substituem a reverência pelo deboche e pela ofensa são sinais onde vivemos. Onde vivemos? Onde as pessoas não se preocupam umas com as outras e não sofrem com o mal impingido ao próximo, não há sociedade, há um conjunto de pessoas que são obrigadas a morar em tal lugar, mas não uma sociedade verdadeira, coesa, unida por laços de comprometimento e de apoio mútuo; sociedade requer solidariedade.

Que sejamos capazes de existir como humanos!


Fotos: no alto, sendo levado pela polícia o egocêntrico assassino: "Eu sou o cara"; "Eu não tenho nada a perder"; depois, o monstro chora na cadeia: "Eu quero Eloá"

Na de baixo, as duas grandes amigas separadas por aquele degenerado: união até no perigo e nos maus-tratos impostos a ambas no cativeiro

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

I Congresso Mundial de Bioética e Direito Animal: A arte de desconhecer

Vladimir Lachance

“A revolução ecológica formará a ossatura das revoluções — ideológica, religiosa, ética e cultural — veiculadas pela ditadura pedagógica”. [Pascal Bernardin]

Não sei se damos a devida atenção às questões ambientais, referentes à chamada ética ecológica e ao ativismo animal. Assistimos a uma intensa manifestação desses supostos valores, integrantes do discurso politicamente correto, a uma defesa exacerbada e aparentemente inocente de protetores dos bichos indefesos. O veganismo é um problema central nesse debate – e eu voltarei a ele em outros artigos onde isto será colocado em evidência –, eu mesmo tendo feito parte dele. Basta pontuarmos que enquanto ativismo político é uma ideologia a serviço de um socialismo absoluto e universal.

Para melhor compreensão da relação entre ecologia/ideologia/religião/política, recomendo a leitura:

A Face Oculta do Mundialismo Verde: http://www.olavodecarvalho.org/convidados/bernardin2.htm

O Império Ecológico e o Totalitarismo Planetário: http://www.olavodecarvalho.org/convidados/empeco.htm

O relato abaixo é apenas um comentário acerca do evento ocorrido na Ufba (entre os dias 8 e 10 de outubro de 2008), I Congresso Mundial de Bioética e Direito Animal. Como era de se esperar, esteve presente o costumeiro amadorismo que permeia as pesquisas acadêmicas relacionadas aos temas da Escola do Ressentimento. Trata-se da política do “feriu o meu bucho”: questionamentos encarados como ofensas pessoais e, principalmente, intimidação dos palestrantes devido à própria falta de conteúdo – resultando numa má vontade ad infinitum.

Não era minha pretensão participar deste evento. Mas, na quinta-feira, após a reunião do Grupo de Estudos Conservadores, na Biblioteca da Ufba, resolvi dar uma olhada rápida no que estava sendo debatido no congresso.

Parte I: Incentivo ao Terrorismo.

Assim que entrei no auditório em que estava ocorrendo as palestras, me deparei com uma diversidade enorme de slogans estampados em camisas e tatuagens. A maioria das pessoas parecia já participar de algum grupo ativista ou coisa parecida, com algumas raríssimas exceções.

Sentei na última cadeira e tentei me concentrar no que o primeiro palestrante dizia. Do que pude decifrar de suas falas consegui concluir que este fazia parte da Animal Liberation Front, um grupo de “ativismo animal” – leia-se terrorismo –, e sua fala ia nesse sentido: incentivando aos defensores dos animais a praticar “ecoterrorismo”.

Isso mesmo, terrorismo. Uma das falas mais distinguíveis foi: “se você puder colocar um bilhete na mochila do filho do vivissector*, dizendo que se ele não mudar de emprego vai seqüestrar a criança, será maravilhoso”. Outra: “Não podemos praticar ações que causem danos a animais humanos e não-humanos. Por exemplo, destruir os laboratórios durante a noite, quando não houver ninguém no local é uma boa opção, afinal a propriedade não sente dor”. Esquece-se que os seguranças destes locais trabalham durante a noite, e num provável incêndio que venham a praticar seriam estes as possíveis vítimas. Esquece-se também que ainda é crime no Brasil violar a propriedade alheia – falando disso de forma tão banal que parece que já vivemos numa espécie de coletivismo onde violar a propriedade não constitui nenhum tipo de dano. Ainda comentou uma ação terrorista em que os ativistas envenenaram grandes quantidades de um remédio para impotência, fazendo a ressalva de que a ação tinha sido amplamente divulgada e ninguém corria risco. Vocês acreditam mesmo que não havia risco nenhum?

Comentou também, indignado, sobre algumas ações terroristas “mal-feitas” em que bombas foram colocadas em áreas residenciais. Mas, quando se tratou destas ações o palestrante disse defender a tese de que foram “plantadas pela própria indústria para nos incriminar”. Um fato curioso foi o argumento que o palestrante usou para defender a libertação de animais que vivem em cativeiro. Foi o seguinte: “É melhor que esses animais tenham a oportunidade de viver a liberdade, mesmo que eles possam, por acaso, ser atropelados e morrer”. Digo curioso porque no mesmo congresso havia quase que consenso em favor da legalização do aborto, e o argumento usado pelo palestrante foi muito parecido com o das pessoas contrarias a legalização. A apresentação deste palestrante fechou com “chave de ouro”, mostrando um vídeo de uma ação terrorista em que não se dava para enxergar nada. A única coisa perceptível era que alguém estava tremendo muito com uma câmera na mão e num local muito escuro. Assim, encerrou-se o primeiro ato.

A segunda palestra foi dada por uma integrante do grupo Gato Negro**, de Minas Gerais. Esta conseguia ser mais radical que o nosso primeiro companheiro. A garota passou boa parte da apresentação mostrando slides com frases de efeito do tipo: “Você gostaria que fosse com você?” ou “Todos são contra a escravidão humana. E quanto a escravidão animal?”. Quando não era isso, as frases eram polêmicas, mas a palestrante fazia questão de passar rapidamente dizendo que não entraria em discussão (um simples botão “delete” enquanto organizava a própria apresentação teria nos poupado). No tema “animais domésticos”, a palestrante deu um show nos dizendo que era preciso castrar todos eles o quanto antes, pois eram fruto de um “erro histórico” [sic]. Ao contrário do nosso primeiro palestrante, ela não defendia que era melhor que esses animais tivessem oportunidade de viver, mas sim de morrer, o quanto antes, pois haviam sidos criados para fins humanos, e por isso nem deveriam existir. Foi realmente um espetáculo!

Ademais as palestras foram pura propaganda do veganismo. “Seja vegan você também” e coisas do gênero.

Parte II: Mudança de Hábito.

Depois das duas apresentações abriu-se espaço para “debate” e “questionamentos”. Interessante que os palestrantes possuíam posições antagônicas em relação aos animais domésticos e de cativeiro, mas nenhum dos dois fez questão de defender seu posicionamento. Depois de alguns segundos de silêncio, um rapaz, fardado com uma roupa camuflada, aparentando ser agente do Ibama - junto com muitos outros vestidos da mesma forma - levantou a mão para fazer uma pergunta. Dirigiu-se à integrante do Gato Negro: “Você realmente está dizendo que devemos extinguir os animais domésticos?”. A resposta monossilábica foi: “Sim”. O rapaz prosseguiu: “Existem animais em nossa fauna, atualmente, que não faziam parte da fauna nativa, mas que foram inseridos aqui por humanos, o que podemos caracterizar também como erro histórico, pois deveriam estar num habitat mais apropriado à sua espécie. Sendo assim, você acha que devemos matar esses animais também?”. A garota ficou desconcertada, dizendo que essa medida seria um “mal necessário”, pois a situação não poderia se perpetuar eternamente. O rapaz ficou bastante espantado com o tipo de argumentação que a palestrante usava, achando, ingenuamente, que ele é que estava ouvindo errado ou que tinha feito a pergunta de maneira incorreta, e a repetia. E de novo a resposta hedionda. O rapaz se cansou, mas então um senhor próximo a ele disparou uma metralhadora de palavras contra os palestrantes, chamando-os de radicais, dizendo que tudo aquilo era absurdo, que não fazia sentido, e pedia maiores esclarecimentos da parte deles. Ao que o primeiro palestrante, disse, não percebendo que estava se contradizendo: “É necessário que esses animais deixem de existir”. O senhor perguntou novamente: “E não existe outro jeito?”. Réplica: “Não, não existe”. E de repente, o palestrante diz que as perguntas estão encerradas e coloca um vídeo para passar sem que o debate se conclua. E foi assim que, em menos de meia hora, mais um ativista “pró-animais” resolveu que era certo matá-los.

Mas no campus, eles bem sabiam com o que estavam lidando; eles, os comerciantes, que encheram as barracas com camisas de Lula, de grandes ícones da Revolução Sexual dos anos 60 e bottons do PT; produtos alimentícios caros destinados aos rebentos da classe média alta que insistem em posar de oprimidos (os herdeiros legítimos do proletariado); e tudo o que puder ser confeccionado com a imagem de Che Guevara – e olha que o cara nem de hispânicos gostava, que dirá de animais!

*Vivissector - No jargão vegan significa: indivíduo que trabalha nos laboratórios que testam diversos produtos em animais.

**Gato Negro – Grupo pró-vegan de Minas Gerais.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Breve reflexão: O Silogismo e a Crise Americana

Eu ainda me impressiono com a estupidez de algumas pessoas. Quanto mais eu leio a respeito da crise econômica mais eu fico perplexo com a falta de noções básicas de lógica. É o reino do mais ignorante silogismo. Já virou “consenso” que essa crise é a crise do “neoliberalismo”, é o fim do Livre-Mercado, é a constatação da necessidade do intervencionismo estatal.

Aí eu pergunto; quem foi que disse que o Governo Americano é liberal? Quem foi que disse que os banqueiros americanos são reais defensores do Livre-Mercado? Ninguém pode fazer essas constatações porque são mentirosas. Primeiro que, como já disse, essa é a crise da incompetência estatal. A economia americana é regulamentada, a presença do governo é total e completa;

Federal Reserve – O Banco Central, tem a incumbência de regular a taxa de juros, a oferta monetária, supervisionar e fiscalizar os Federal Reserve Banks (Bancos de Reserva Nacional,) manter a estabilidade do mercado financeiro, responder a necessidade de liquidez etc.

United States Department of the Treasury (Treasurer of the United States, United States Mint, Bureau of Engraving and Printing, Under Secretary for Domestic Finance, Assistant Secretary for Financial Institutions, Assistant Secretary for Financial Markets, Assistant Secretary for of Fiscal Service, Financial Management Service, Bureau of Public Debt, Under Secretary for International Affairs, Assistant Secretary for International Affairs, Under Secretary for Terrorism and Financial Intelligence, Assistant Secretary for Terrorist Financing, Assistant Secretary for Intelligence and Analysis, Financial Crimes Enforcement Network, Assistant Secretary for Economic Policy, Assistant Secretary for Legislative Affairs, Assistant Secretary for Management/Chief Financial Officer, Assistant Secretary for Public Affairs/Director of Policy Planning, Assistant Secretary for Tax Policy, Internal Revenue Service, Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau, Inspector General for Tax Administration, General Counsel, Office of Thrift Supervision) – É o responsável por implementar a política econômica, fiscal e monetária, regular as exportações e importações, vigiar todas as instituições financeiras dos Estados Unidos.

Office of the Comptroller of the Currency – Assegura o sistema bancário nacional regulando todos os bancos dos EUA.

Securities and Exchange Commission – Regula todas as matérias referentes ao mercado de valores mobiliários.

Federal Deposit Insurance Corporation – É quem garante o seguro do depósito, assegura os depósitos feitos em bancos comerciais.

Federal Home Loan Bank Board – Agência que acompanha todos os empréstimos hipotecários dos EUA.

Ora, há liberalismo? Por acaso dizer que a política econômica americana é regulamentada é algum exagero? Em hipótese alguma!

Agora entra o silogismo. A esquerda foi muito eficiente ao criar no imaginário popular a idéia de que os EUA representam a encarnação do liberalismo mais selvagem e desumano possível. Na verdade bem sabemos que essa construção é típica de políticas populistas, aquelas que necessitam justificar seus métodos em cima de um clima de terror. Seria como um Bode Expiatório Girardiano às avessas, afinal a própria tensão que teria fim com o sacrifício é instaurada com a auto-vitimização, tendo o Estado o papel de provedor paternalista, acalmando os corações dos incautos.

Desse modo "Governo Americano" passa a ser sinônimo de liberalismo, banqueiros se tornam mais liberais que Hayek, von Mises, Kirzner etc. Como dizer a alguém com essa mentalidade que não vivenciamos a crise do “neoliberalismo” se para ele os EUA, suas instituições, seus empresários, vivem em plena sintonia com os princípios libertários?

Banqueiros são burgueses, burgueses são liberais, logo Banqueiros são liberais. Se o Governo é americano, e os EUA são liberais, logo o Governo americano é liberal!

Durma com um barulho desse?

Pouco me importa se banqueiros são burgueses ou não, o fato é que eles querem lucro com ou sem Estado. O Governo americano não é liberal, além dos argumentos expostos tanto aqui como no outro artigo, vale lembrar que os Institutos e políticos realmente libertários faziam e fazem críticas vorazes ao andamento da política econômica do país.

Ron Paul, Congressista Republicano pelo Texas, assessorado por Lew Rockwell, presidente do Instituto Von Mises, disse, em 2002, num grande artigo por ele publicado que: “O capitalismo não deve ser condenado simplesmente porque ainda não tivemos capitalismo [Falando dos EUA]. Um sistema capitalista pressupõe uma moeda forte, não um papel-moeda fiduciário e de curso forçado, manipulado por um banco central (instituição listada por Marx como indispensável para se criar um regime comunista). O capitalismo aprecia contratos voluntários e taxas de juros determinadas pela poupança, e não pela criação aleatória de moeda por um banco central. Não se trata de capitalismo quando temos um sistema que é flagelado por regras incompreensíveis sobre fusões, aquisições e vendas de ações, bem como controles salariais, controle de preços, protecionismo, controles burocráticos sobre o comércio internacional, subsídios corporativos, impostos corporativos complexos e punitivos (sim, o governo subsidia e ao mesmo tempo taxa as corporações), contratos governamentais privilegiados para o complexo industrial-militar, e uma política externa controlada pelos interesses das grandes corporações e dos grandes investidores internacionais. Adicione a tudo isso o (des)controle federal centralizado sobre a agricultura, a educação, a medicina, os seguros, o sistema bancário e todo o sistema assistencialista. Isso não é capitalismo!”

E comprovando a veracidade dos Ciclos Econômicos de von Mises, descreveu o que acontecia no seu tempo, que, não por menos, se encaixa com perfeição na atual crise “Quando a bolha está inflando, não há qualquer reclamação. Quando ela estoura, o jogo de culpas começa. Isso é especialmente válido nessa época de vitimização -- em que ninguém quer assumir responsabilidades --, e tudo é feito em grande escala. Rapidamente, tudo se transforma em uma questão filosófica, partidária, social, geracional e, até mesmo, racial. Além de não se atacar a verdadeira causa, toda essa delação e "jogo de empurra" torna mais difícil a resolução da crise e enfraquece ainda mais os princípios sobre os quais se sustentam a liberdade e a prosperidade.

(...)

Bolhas especulativas e tudo o que temos visto são a conseqüência de enormes quantias de crédito fácil, que é criado do nada pelo Federal Reserve. Praticamente não criamos poupança, mecanismo este que é uma das mais significativas forças motoras do capitalismo. A ilusão criada pelas baixas taxas de juros perpetua a bolha e tudo de ruim que lhe é inerente. E isso não é culpa do capitalismo. O problema é que estamos lidando com um sistema de inflacionismo e intervencionismo que sempre produz uma bolha econômica que necessariamente sempre acaba mal.”

Vejam como as coisas são, num dos artigos publicados no site Vermelho.Org se diz, entre outras coisas, que “O governo norte-americano estimulou empresas e consumidores a se endividar e a consumir para estimular, por sua vez, uma economia declinante. E o fez como se não houvesse risco algum." Essa é uma verdade, mas mesmo percebendo a intromissão do governo na economia e sua destrutiva conseqüência, eles “constatam” que vivenciamos a crise do liberalismo. Como há verdadeiro liberalismo com intervencionismo eu não sei!

Esse é o reinado do falso silogismo, "tempo do nosso bom e velho conhecido sofisma". Que argumentação que nada! O que vale é uma conclusão apaixonada e inflamada, recheada de marxismo, mesmo que inconscientemente, onde até mesmo as políticas estatólatras são vistas como liberais e, por sua vez, os lucros dos banqueiros graças ao intervencionismo como a constatação do capitalismo selvagem da burguesia norte-americana!

Pedro Ravazzano