segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A epopéia do homem e a “Árvore da Vida”

Pedro Ravazzano

O filme “Árvore da Vida” se mostrou uma grata surpresa. De fato, sempre tive certa desconfiança com filmes “cults”, até porque não sabia onde começava o real conteúdo e onde acabavam os devaneios delirantes dos seus diretores. Entretanto, o filme de Terrence Malick se destaca pela marcada coesão da abordagem, pela estética profunda e pela visão perspicaz acerca da condição humana.

A obra pode ser dividida em três partes centralizadas em momentos específicos. O primeiro questionamento lançado ao início; “Senhor, onde estavas?” tem como resposta a epopéia da criação, o ato de amor de Deus ao pensar o mundo, as criaturas e o homem. Não obstante, a vida do ser humano, a sua condição enquanto inserido na realidade, como colocado pelo enredo, é, do mesmo modo, uma clara alusão ao amor de Deus. E, por que não como um contínuo ato de criação? O amor do Senhor, destarte, encarna-se na gênese do mundo e do homem. Creio que, nessa visão, o filme se aproxima muito da percepção zubiriana a respeito da presença de Deus na realidade, isto é, enquanto modo fundante das coisas reais. Assim, toda coisa real é realidade justamente por ser fundada em Deus. Do mesmo modo, o homem sustenta-se nesse princípio fundante. A busca do fundamento não se inicia a partir de uma saída de si, mas sim de acatar desde onde viemos no que se refere à aceitação da realidade humana. A deidade, o poder do real, é poder “transcendente”, abarca todas as coisas e as transcende. Assim diz Zubiri; “El descubrimiento de la deidad no es el resultado de una experiencia determinada del hombre, sea histórica, social o psicológica, sino que es el principio mismo de toda esa posible experiencia.”

Em seguida, refletindo sobre a angústia da alma, na retrospectiva da vida e da história, o garoto encontra-se confrontado com um estado polarizado, a luta entre a natureza – o pai – e a graça – a mãe. O filme coloca na boca do rapaz uma passagem quase literal de São Paulo. Diz o Apóstolo dos Gentios; “Não entendo, absolutamente, o que faço, pois não faço o que quero; faço o que aborreço.” (Rom 7, 15) enquanto a personagem “O que gosto não faço, mas faço o que odeio”. A angústia é a antípoda do amor conhecido por meio da graça e apenas amando a vida se torna plena no sentido de que, assim, realiza-se a vocação do homem; “Para quem não ama a vida passa como um raio.”

Uma das últimas falas do filme é um convite à eternidade; “Siga-me”. O encontro com Deus passa pela compreensão da história, aquilo que Mons. Luigi Giussani colocara do seguinte modo; “Tudo o que Deus permite é para um desenvolvimento, para uma vida, para uma história, para um destino; das Suas mãos tudo sai como semente, como promessa.”. A promessa do homem é, então, a sua vocação à existência absoluta com o Senhor. A epopéia da vida, paralela à epopéia da criação, é onde o homem, enxergando os sinais divinos na realidade, entende a sua condição e, portanto, necessitado da graça. O filme faz uma reflexão pertinente, lançando mão de um belo jogo de imagens, emolduradas com composições pontuais que elevam o espírito, mostrando a presença de Deus nas consciências e na natureza. Nesse sentido, levando em consideração não apenas o enredo em si, mas até o modo como Terrence Malick contextualiza e apresenta, fica-se clara a incursão em prol da apresentação da alma que descansa e encontra o seu alento unicamente junto ao Senhor.

2 comentários:

Anônimo disse...

amem!!!
alma que descansa e encontra o seu alento unicamente junto ao Senhor.

Francisco Luis disse...

Sim, o filme é muito bom e bastante, como posso dizer, "místico".

Enxergo seu ponto de vista dentro do filme.

Para mim a melher parte é o início em que são mostrados vários fenômenos naturais extraordinários e exuberantes. Esse momento, acho eu, serve para cada um se fazer uma pergunta: "o simples acaso é capaz de tamanha complexidade?"