sexta-feira, 27 de abril de 2012

Welcome to Rwanda...

Recordar é viver! Artigo publicado faz tempo, mas que persiste em continuar atual.


Pedro Ravazzano

Eu, um tútsi brasileiro, escrevo uma breve reflexão nesse dia da Consciência Hutu. O nosso país caminha para a edificação de uma sociedade bipolar, dividida entre brancos e negros. A começar, bem sabemos que o Brasil jamais foi um Estado racista, com uma política de discriminação oficial. Ademais, devemos pontuar que até mesmo a triste escravidão, com um estudo muito ideologizado hoje em dia diga-se de passagem, não teve motivação racial; brancos não escravizavam negros, dominadores escravizavam subjugados. Além disso, é importante frisar que o alvorecer do racismo cientifico se consolidou apenas no séc. XIX.

O mesmo racismo científico que favoreceu políticas oficiais de discriminação, plantou a semente do que veio a ser, no futuro, o caricato pan-africanismo. Inicialmente liderado por intelectuais americanos que sequer conheciam a África, a utopia da união do continente "negro" refletia, cruelmente, o simplismo assustador do racismo reverso. O pan-africanismo, fadado ao fracasso desde o seu nascimento, desconhecia, ou pretendia desconhecer, a incrível riqueza cultural da África. Os americanos negros, os primeiros pensadores do sonho africanista, formados sobre a ótica do racismo científico, simplificavam e sintetizavam as plurais caraterísticas africanas na cor de pele. A utopia não agüentou a realidade de um continente composto por culturas das mais variadas; foi o fim do pan-africanismo.

Entretanto, mesmo o sonho da unidade africana morrendo, persistiu o espírito racialista da pior forma possível. Na África do Sul, onde a discriminação era institucionalizada, os brancos africâneres impunham um regime de segregação oficial, uma realidade surreal em terras majoritariamente negras. Interessantemente, o delírio de uma nação branca se uniu à promoção do orgulho étnico. A política da África do Sul arquitetava um plano que passava pela independência dos bantustões, zonas tribais criadas pelo regime do apartheid. Entretanto, era essencial que a luta pela liberdade fosse alimentada através da criação do mito da etnia. Assim, etnólogos, geógrafos, historiadores etc, construíram identidades étnicas e raciais. Universidades passaram a ter centros de estudos de cultura africana e institutos foram fundados com o propósito de levantar o edifício do orgulho da raça negra. O projeto não foi eficiente, os bantustões não lutaram pela independência e os negros continuaram fascinados pelas grande metrópoles "brancas", mas conseguiu criar, em laboratório, um mito.

O exemplo mais assustador dos péssimos frutos do pensamento racialista se encarna na triste história de Ruanda, um país encravado no coração da África. A nação, que tinha um reino centralizado, se dividia entre tútsis e hutus. Os primeiros compunham a elite nobiliárquica da nação. Os reis de Ruanda reinavam gloriosamente e, até hoje, perpetuam sua história na figura de Kigeli V que atua em defesa do seu povo e da tradição ruandense. Vale lembrar, por sua vez, que não havia identidade étnica encrustada no espírito social; tútsis pobres eram hutus e hutus ricos eram tútsis. Os belgas, que tomaram posse de Ruanda depois da derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, perpetuaram o poder tútsi e a estrutura monárquica. Não obstante, para consolidar o domínio favoreceu e divulgou o orgulho étnico numa nação que o desconhecia. Pesquisas foram feitas com o propósito de comprovar a origem superior dos tútsis. Estes não eram mais irmãos dos hutus - como relatava o antigo mito de criação nacional - mas sim descendentes dos nobres etíopes. Uma origem tão elevada se confirmava na diferença de porte, estrutura facial etc, dos tútsis comparados aos hutus. Os primeiros eram mais altos, com narizes mais finos, elegantes e garbosos. Entretanto, as diferenças entre ambas as “etnias” simplesmente não existiam. E se, por acaso, tútsis eram maiores estruturalmente que os hutus, isso se devia a alimentação mais balanceada que estes tinham - o que podemos comprovar ao comparar coreanos do norte e do sul.

O mito foi criado pelos belgas e usado como a bandeira do levante hutu. Depois da queda da monarquia, com a morte de Mutara III Charles, e a ascensão da República, o governo, de maioria hutu, deu início às políticas de repressão (expulsão e morte) contra a população tútsi. Tudo era justificado como dentro da aceitada reparação histórica. Os choques entre Frente Patriótica Ruandesa (RPF), composta por tútsis refugiados, e o governo de Habyarimana, se converteram em conflitos com numerosos mortos. Não obstante, no Acordo de Arusha, assinado entre as duas forças, ficou acertado um cessar-fogo e a construção de um governo de transição, composto pelas dois “povos”. Todavia, num atentado que até hoje não se sabe ao certo quem promoveu, o presidente de Ruanda, Habyarimana, foi assassinado. Esse foi o estopim para que a Interahamwe, milícias armadas hutus, lideradas por George Rutaganda, treinadas pelo exército ruandense e estimulada por extremados membros do governo, desse início ao genocídio. Cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas em 100 dias - o número é incerto, alguns falam de 1 milhão ou até 2 milhões - 11% da população e 4/5 dos tútsis - entre eles 300 clérigos e freiras. O genocídio só acabou com a ocupação do país pela RPF, dirigida por Paul Kagame, atual Presidente.

As rádios conclamavam a expulsão dos tútsis, alegando que, como ocupantes da nação, descendentes dos etíopes, deveriam ser exterminados; “matem as baratas!” Os corpos de centenas de milhares de tútsis eram jogados no rio Nyabarongo que flui até o Lago Vitória, na nascente do Nilo; os tútsis, supostamente imigrantes abissínios, deveriam voltar para o vale do Rio Nilo, vivos ou mortos.

O mito da raça foi criado em Ruanda e promoveu uma cadeia de ódio e rancor que refletiu no genocídio. Tanto a triste história ruandense como a edificação da dialética racial no Brasil partem da mesma ótica desatualizada. O que triunfa é a predestinação; o indivíduo é condicionado pela sua cor de pele, pela sua ascendência. Dentro dessa mentalidade a cultura é genética, um polilogismo racial digno do nazismo. O tútsi tinha que ser exterminado porque, sendo tútsi, e condicionado pela cultura "tútsi", era um artífice da prevaricação e opressão contra os hutus. Assim como o judeu deveria ser massacrado porque, sendo judeu, estava fadado a fabricar a usura. Do mesmo modo, no Brasil, alguém que é fenotipicamente negro, mestiço, é obrigado a carregar uma carga cultural pré-fabricada, com direito a cabelos trançados, iniciação no candomblé e engajamento em políticas raciais.

Triste mundo moderno. Triunfa a predestinação racial; o homem não é mais aquilo que ele quer ser, mas aquilo que o seu antepassado foi.

Tútsis brasileiros, corram que os hutus vem aí!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A crise da cultura no Nordeste Profundo


Pedro Ravazzano

Até que ponto o local do nosso nascimento influencia na formação da nossa personalidade? A questão pode ser resolvida mediante a compreensão de como a cultura – aqui entendida de modo elioteano, ou seja, que abarca tudo aquilo que muitas vezes é visto como segmentos culturais; educação, erudição, música, arte etc – forja a experiência íntima de cada homem consigo e com a sociedade. Infelizmente, contudo, a grandeza cultural do Nordeste, da Bahia e de Salvador, no meu caso particular, vem sendo sistematicamente desconstruída pelo ethos do liberalismo e do materialismo atuais. Não obstante, essas regiões trazem em si uma marcada herança que as transformam em baluartes das “coisas permanentes” que criaram o Brasil.

O Nordeste é uma região extremamente heterogênea. Obviamente há em todos os estados um fio condutor que torna possível a identificação, entretanto, a uniformidade nordestina atual é muito mais fruto de certo simplismo “sulista” ao enxergar a região. Até mesmo dentro de um estado como a Bahia a identidade “estadual” é complicada. O que une o baiano de Salvador e do Recôncavo ao baiano sertanejo do interior? Certamente o segundo tem muito mais vínculo cultural com o pernambucano do Sertão do que com o seu conterrâneo da capital. Não obstante, o vínculo é real e é fruto do denso e vivo legado deixado pelo 2 de Julho, a luta pela independência da Bahia que, de certo modo, unificou o território que sempre foi marcadamente diverso.

O Nordeste tem características comuns que perpassam os nove estados; diversas manifestações artísticas, uma elevada produção intelectual, o reconhecimento da sabedoria popular, ou seja, a clara compreensão de que a cultura não se reduz à pomposa erudição. Se a cultura é a encarnação da religião, como dissera T.S Eliot, no Nordeste essa máxima é facilmente compreendida. Se há certa unidade nordestina é porque esta é fruto da fé. Assim, pois, o Nordeste é o Nordeste Profundo, católico, aberto ao infinito porque confiante na ação de Deus e reconhecedor de que tudo aquilo que nos faz agora é herança. Os poetas, escritores, pintores, escultores, músicos etc, que surgiram nas nossas terras também são tomados por esse mesmo espírito que é maior do que os limites visíveis de uma paróquia ou de uma piedosa procissão de Corpus Christi. Vale frisar, ademais, que a grandeza nordestina está nessa abertura contagiosa que torna tanto o erudito da capital como a senhora devota do sertão unidos porque, cada um a seu modo, contemplam a realidade com o mesmo olhar, enxergam-se como herdeiros de algo.

Desde o alvorecer da sociedade técnica o Nordeste se encontra invadido por certa mentalidade materialista. O ethos liberal vem sistematicamente arrasando tudo aquilo que de mais caro há em nossas cidades. Alguns preferem reduzir o problema afirmando que é culpa do “american way of life” propagado pela música e pelo cinema. Isso não é totalmente verdadeiro. A questão mais profunda se encontra na desconstrução das elites culturais, isto é, sem paradigmas de erudição cultural o corpo todo perde o seu referencial. A solução não é fazer com que todos os nordestinos leiam Castro Alves ou apreciem as esculturas de Frei Agostinho da Piedade, isso seria cair no erro da educação moderna que confunde cultura com erudição de massa e onde se pressupõe que aquilo que emana do povo não tem valor cultural próprio. Entretanto, se nem todos precisam ser eruditos, é necessário que haja quem seja para que assim os outros consigam captar esse mesmo olhar de reconhecimento diante daquilo que foram a eles legados, seja o barroco baiano ou os sapientes conselhos da avó. Só assim, ou seja, através da retomada da cultura em sua totalidade, poderá o Nordeste manter viva não apenas a sua força como celeiro de manifestações artísticas, como também perpetuar para as próximas gerações a marcada sabedoria popular que resiste nos mais distantes rincões dos nove estados.

terça-feira, 10 de abril de 2012

As pontes destruídas na terra devastada


Pedro Ravazzano

O mundo moderno destruiu as pontes que se ligavam ao passado e que, consequentemente, possibilitavam o seu auto-reconhecimento. A crise da civilização ocidental é reflexo inevitável do rechaço sistemático ao passado que leva, naturalmente, à relação fetichista com o futuro e o progresso. Redescobrir, contudo, a grandeza do homem através da sua natural vocação é a forma pela qual a terra devastada pode ser semeada e reconstruída.

A experiência moral é o fundamento do intrínseco senso ético do homem. Entretanto, é obviamente impossível que um homem tenha acumulado todos os juízos possíveis no confrontamento com a realidade. Assim, ainda que seja a experiência moral a base do olhar crítico perante o real, esta bagagem não é estritamente individual, mas, isto sim, transmitida e legada pelos pais, antepassados, tradição. Destarte, o homem que se faz só se realiza mediante a experiência moral herdada. O se voltar para o passado livra, então, o indivíduo do moralismo enrijecido – que pretere a moral enquanto princípio aplicado – e possibilita a fuga de qualquer devaneio pelo qual o presente se simplifica na ante-sala do futuro.

A Civilização Ocidental sempre existiu nos corações dos homens por ela educados. O valor da experiência moral comunicada por todos os séculos sempre foi formativa. Assim, ainda que apenas um seletíssimo grupo tivesse acesso aos nomes mais eruditos e clássicos produzidos, todo o corpo da civilização bebia da força da experiência. A dinâmica interna do funcionamento da pedagogia civilizatória sempre precisou da clara distinção cultural e da sua especialização nos variados segmentos. Destarte, para que senhoras piedosas no interior do país tenham um forte senso moral, é necessário que na capital haja um grupo de eruditos que se reúna para debater a vivacidade experiencial da poesia de Ezra Pound e das telas de Gauguin.

Obviamente seria um total absurdo acreditar que a Civilização seria sinônimo de erudição universal. Isso, além de confundir cultura com uma das suas facetas, rebaixa a verdade contida nas manifestações culturais e morais que emanam de segmentos com pouco ou nenhum acesso ao arcabouço clássico. A grandeza civilizatória não se encontra, então, num projeto nonsense, mas sim no fato de que, ainda que apenas uma elite tenha formação erudita, todos os homens se reconhecem como dependentes das experiências transmitidas, herdadas, sejam de seus sábios avós ou da literatura grega.

Desta forma, salvar a Civilização não é um projeto a ser construído através de cartilhas ideológicas, sejam de “direita” ou “esquerda”. Em todos esses casos há, no máximo, a instrumentalização do passado sem nenhum reconhecimento da sua força atual, presente. Assim, o Ocidente precisa ir além de proteger as obras antigas, os altares barrocos e as telas renascentistas. Sem o vínculo realista – no sentido mais filosófico possível, ou seja, como a adequação do intelecto à realidade – o homem não consegue fazer a virada onde a contemplação transforma-se em experiência vivida no agora. Destarte, salvar a Civilização Ocidental é reconstruir as pontes que ligam o presente ao passado, por meio dessas verdades atemporais que fazem o eu.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Zeus na Semana Santa

Detalhe de "O Rapto de Proserpina", de Bernini, obra exposta na Galleria Borghese, local construído pelo Cardeal Scipione Caffarelli-Borghese que reúne a sua coleção de arte

O poderoso Zeus, vencedor da guerra contra os Titãs e vingador do ódio de seu pai Cronos, só foi destronado de sua fortaleza olímpica quando galileus incultos aportaram nas grandes cidades da Grécia. A queda olimpiana foi proporcional ao empenho dos cristãos em proclamar e testemunhar o Evangelho de Nosso Senhor. Ao mesmo tempo, o amor pela verdade, beleza e bondade, como ensinado pela Igreja a mando de Cristo, fez com que no cristianismo as heranças helênicas não sobrevivessem como velharias antigas, mas, isto sim, tivessem um espaço importante na formação do homem presente. Destarte, reconhecendo que só somos no hoje quando nos reconhecemos como membros de uma continuidade histórica, cultural, civilizacional, a Igreja é e sempre foi a grande protetora e promotora do legado clássico.

O que isso tem a ver com Semana Santa? Aparentemente quase nada, mas devemos pensar que tudo aquilo que somos, temos, sabemos, desde as obras de Hesíodo, passando pelas composições de Mozart, pelas telas de Rembrandt e, porque também não, até pelos escritos de Marx, Sartre e Nietzsche, se deve a força da experiência profunda que os primeiros discípulos de Cristo tiveram com a Sua morte e gloriosa Ressurreição! A Igreja conservou e construiu a Civilização não porque considerava o mundo antigo "feio" e "imoral", ou porque se sentia impelida por algum ideal utópico. Nós somos filhos da Ressurreição e foi esse evento que permitiu que os homens fossem plenamente homens!