
domingo, 16 de outubro de 2011
O cristianismo hoje

segunda-feira, 16 de maio de 2011
A salvação e a opção pela racionalidade no cristianismo

terça-feira, 5 de abril de 2011
“Deus abençoe os húngaros!”
Segundo o site alemão Kath.net (30/3/2011), a apresentação do projeto de reforma constitucional deixou a oposição esquerdista preocupada – o que em geral é bom sinal -, pois o novo texto dará proteção à vida desde sua concepção e definirá o matrimônio como uma instituição composta entre um homem e uma mulher.
As intenções do governo húngaro não agradaram também a União Europeia, cuja agenda laicista e imoral visa impor o oposto em todos os países integrantes.
“Somos orgulhosos pelo fato de nosso rei Santo Estevão ter criado o Estado húngaro e colocado nossa pátria como parte da Europa Cristã”, lê-se na redação do preâmbulo.
Além de professar diversas vezes sua adesão à Cristandade, a Constituição se refere à “Santa Coroa” (foto acima), que pertenceu a Santo Estevão e com a qual cerca de outros 55 reis foram coroados, como símbolo da nacionalidade.
Com uma maioria de dois terços no Parlamento, o governo pretende implementar a nova constituição a partir da próxima Páscoa.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Todos somos chamados à santidade
Os Santos são cristãos que se despojaram e se abriram de tal forma à ação da graça divina que permitiram ao Espírito de Deus transformar profundamente suas vidas e as realidades da época. Foram (e são) pessoas que pela força do Espírito, passaram pela história deixando suas marcas e sinais visíveis da presença de Deus. Superaram de tal forma suas limitações e pecados atingindo virtudes heróicas que merecem ser chamados de Santos e por isso inseridos no Canon da Igreja.
Baseando-se em concepções erradas, alguns afirmam que os Santos são criaturas iluminadas e espírito evoluído, que através da caridade conseguiram atingir o mais alto grau da perfeição fraterna. Outros ainda, romantizando a personalidade do Santo, consideram que estes são pessoas predestinadas, nascidas com uma disposição interior à santidade, almas puras, dotadas de simplicidade angélica e bondade descomunal.
No entanto, o contato com as biografias dos Santos, nos possibilita constatar que o título que receberam não foi baseado em determinismos congênitos da personalidade. A vida de um Santo, diferentemente do que pensam e dizem alguns, foi profundamente marcada pelo combate não apenas espiritual, mas contra suas próprias tendências e disposições interiores.
Em 1914, Monsenhor Clementi, historiador em serviço no Vaticano, entregara ao Pe. Girolamo Moretti franciscano conventual e conceituado grafólogo, textos de cerca de cinqüenta santos canonizados para serem submetidos à análise grafológica. Monsenhor Clemente intentava desmistificar a ideia errada que havia por trás da imagem que fora construída ao longo da história acerca da figura dos Santos. Por um lado, a iconografia ajudara no surgimento de uma concepção angelical inerente à figura do Santo por ressaltar nas artes tão somente suas virtudes, no entanto, não podemos condenar a iconografia por apresentar a piedade e a seriedade cristãs nas imagens dos Santos. Por outro lado, os fatos extraordinários que acompanharam a vida de muitos santos, fizeram com que a sociedade e, sobretudo alguns cristãos piedosos supervalorizassem os milagres em detrimento das virtudes heróicas dos Santos.
Antes de nos determos nas conclusões do grafólogo Pe. Girolamo Moretti façamos algumas considerações acerca da grafologia.
A grafologia é uma ciência que estuda pontos característicos da personalidade através da letra. Por meio do estudo da letra cursiva, os especialistas podem detectar aptidões, limitações e manifestações de caráter, pois, afirmam que escrever é uma ação inconsciente, e por isto não passível de simulações.
A fundamentação filosófica da grafologia, de acordo com Dom Estevão Bittencourt - OSB está no fato desta técnica considerar o ser humano como um composto de corpo e alma, onde a alma é a parte determinante; o corpo a parte determinada. Apoiando-se na Filosofia Clássica, Dom Estevão destaca:
O ser humano, embora composto de corpo e alma, constitui uma unidade; nessa unidade, o corpo é o espelho da alma; o modo de ser do corpo é o espelho do modo de ser da alma. Donde se segue que a linguagem exterior e sensível de alguém é o espelho do modo como as idéias e os afetos são concebidos no íntimo dessa pessoa. Existem, pois, relações bem definidas entre as modalidades da linguagem exterior, gráfica, e o estilo íntimo ou o caráter próprio da mesma pessoa. Aliás, pode-se dizer que qualquer aspecto de uma personalidade é sempre marcado pelo estilo geral da mesma; o modo de agir corresponde ao modo de ser do sujeito. (DOM ESTEVÃO, 2006, pg. 203).
Desta forma, através do estudo da grafologia, Pe. Girolamo pôde apresentar seu relatório á Igreja. Este relatório, posteriormente publicado em um livro intitulado “I Santi dalla Scrittura” apresenta as conclusões da análise grafológica das letras dos santos conforme podemos ver abaixo:
São João da Cruz (1541-1591) – O exame grafológico mostrou que São João da Cruz podia ter sido um homem sensual, requintado nas concessões à carne; teria dissimulado a sensualidade sob o verniz dos sofismas e do cumprimento do dever com esmero “artístico”. Visto que era sujeito a ser atormentado pelo remorso, teria procurado construir “sua” filosofia para sufocar a consciência, baseando-se em críticas extremadas, no ceticismo e no pessimismo.
Considerando sua biografia, podemos ver facilmente o quanto o grande Místico lutou para superar suas inclinações conforme este relato:
No tocante, à sensualidade, São João da Cruz soube ser inflexível, guardando absoluta fidelidade à sua Regra. Certa noite, estando absorvido em oração, a porta da sua cela abriu-se e uma jovem bela e ricamente vestida aproximou-se; o monge já a conhecia, pois era penitente dele; com palavras apaixonadas, ela lhe exprimiu a sua admiração e o seu amor. Disse-lhe que fugira da casa paterna, porque já não podia resistir à paixão que a devorava. O santo sentiu-se estremecer diante do perigo iminente. Certo de que não venceria sem a graça de Deus, voltou o coração para o Senhor em oração. E a sua prece foi atendida, pois não somente João da Cruz escapou á tentação, mas também conseguiu reconduzir a jovem á consciência dos seus deveres.
São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716) – a sua escrita manifesta a tendência á exterioridade; teria gostado de impressionar os outros para ser admirado. Era também inclinado a dissimular os seus defeitos, o que o faria cair facilmente na hipocrisia. Não tendo grande talento filosófico, podia dar-se ao plágio, a fim de conquistar fama. Ainda no intuito de distinguir-se vaidosamente , era propenso á sátira requintada mediante palavras e sorrisos oportunos.
Os dados biográficos de São Luis mostram que sua tendência à exterioridade se concretizou no cultivo das artes, para as quais tinha habilidade. É considerado o mais prendado poeta religioso da sua época. Exerceu também a escultura, a fim de reproduzir com graça um pouco da beleza ideal de Jesus e Maria que, em sua mente, tinham forma viva e atraente. Além disso, São Luis gostava de viajar a pé e fazia de tudo para não ser reconhecido, ficava incógnito.
LETRA:
Santo Inácio de Loyola (1491 ou 1495-1556). Refere-se que Santo Inácio tinha caráter irredutível, propenso ao comando despótico. Não gostava que os subalternos se justificassem ou fizessem valer razões contrárias às suas. Tendia a se vingar de quem censurasse o seu comportamento inclinava-se à ambição e ao desejo de aparecer ostensivamente.
Sua biografia, narra que depois de eleito Preposto Geral da Companhia de Jesus, empenhou-se especialmente por duas linhas de programa: conservar sempre a simplicidade e a humildade, e só fazer uso da sua autoridade para a maior glória de Deus. A princípio, quis exercer as funções de cozinheiro, as quais ainda acrescentou os mais humildes serviços da casa.
LETRA:
São Felipe Néri (1515-1595) os estudos grafológicos demonstram que São Felipe Neri foi uma personalidade original. Apresentava um misto de autoridade e hilaridade, cuja dosagem dificilmente poderia ser analisada. À primeira vista, a hilaridade parecia prevalecer; mas percebia-se que a sua hilaridade estava a serviço de um plano de renovação da Igreja. Esta foi, sem dúvida, marcada pelo cunho que lhe deu S. Filipe Neri.
A sua alegria inata era muitas vezes o fator que equilibrava as suas emoções religiosas íntimas e profundas. Estas repercutiam fortemente em seu físico, que em conseqüência se agitava como se o santo já não pudesse permanecer no corpo. Sabia descobrir o ponto vulnerável dos outros. Mas, em vez de o explorar para a sátira e o sadismo, procurava dar-lhe o remédio oportuno; dissipava escrúpulos e dúvidas, levando os outros por caminhos estreitos a píncaros elevados.
LETRA:
Santo Afonso Maria de Ligório (1695-1787), que seguiu primeiramente a carreira jurídica além de revelar notável firmeza, manifesta forte propensão ao orgulho e à ambição. Tendia a adular os grandes ceder aos favoritos e a intrigar finoriamente. Em suma sabia tendia a ser hábil para atingir os fins almejados. Era simpático ao sexo feminino, e gozava do poder de sedução.
Sua biografia mostra que foi extremamente austero consigo mesmo, passando muitas vezes as noites deitado no chão quando não se entregava à oração até aurora na igreja ou no quarto. Receava levar vida cômoda!
LETRA:
O contato com as limitações de tantos personagens que constituem a história da piedade cristã Católica nos faz depreender através dos estudos da grafologia, que todos somos chamados à santidade e que os Santos não foram figuras de personalidade privilegiada que fosse favorável à Santidade. A grafologia exclui a possibilidade de que existam traços de personalidade ou humores que favoreçam a conquistas de virtudes heróicas. Haja vista que mesmo Santa Tereza do Menino Jesus, doutora da Igreja, cuja ortografia também foi submetida á análise grafológica, apresentara tendências à vaidades. O que não se observa em sua vida, pois seguiu fielmente o pequeno caminho da ‘infância espiritual’ se humilhando pela penitência.
Os Santos, autênticos modelos de perseverança e combate espiritual, nos ensinam conforme a vontade do Pai, que podemos e devemos chegar à Santidade, sem a qual não se entra na Jerusalém celeste. No entanto, a disciplina, a piedade e o despojamento são requisitos chaves para superar aquilo que em nós impede a ação da graça santificante.
Submetamos, pois as nossas limitações à ação do Espírito Santo e da piedade cristã para que o homem novo, nascido das águas do batismo, suplante as más inclinações do homem velho que insiste em bater as portas da nossa vida incitando fraqueza de caráter e desobediência aos mandamentos de Deus.
Referência bibliográfica:
BITTENCOURT, D. Estevão - OSB. Curso de Espiritualidade - Escola Mater Ecclesiae.2006.
BITTENCOURT, D. Estevão - OSB. Curso de Ocultismo - Escola Mater Ecclesiae.2003.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Oremus et pro Iudaeis: A Nova Aliança e os Judeus
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Nos tempos atuais existe uma grande confusão a respeito da Antiga Aliança e o caráter salvífico do judaísmo pós-cristão. Sem dúvida essa dificuldade no conhecimento de uma ótica ortodoxa, pautada nos perenes ensinos da Igreja, é devido a má vontade de religiosos que preterem a Tradição, o Magistério e a interpretação correta da Sagrada Escritura por opiniões pessoais, tendências teológicas particulares e, como sempre, uma hermenêutica obtusa de documentos eclesiásticos.
O Catecismo da Igreja diz que “Ao invés das outras religiões não cristãs, a fé judaica é já uma resposta à Revelação de Deus na Antiga Aliança”, assim como repete uma antiga máxima cristã “Novum in Vetere latet et in Novo Vetus patet (o Novo Testamento está escondido no Antigo, ao passo que o Antigo é desvendado no Novo)”, como interpretar tais afirmações à luz da Tradição? A Igreja realmente assegura que a Antiga Aliança é válida, mas se guiando na perenidade do Antigo Testamento, dos ensinamentos ali contidos e revelados por Deus através dos Profetas. Ademais, a religião judaica tem em sua continuidade a Igreja Católica que, desse modo, passou a exercer o papel que o judaísmo tinha antes da Encarnação. O Catecismo ensina que “§69 Deus revelou-se ao homem, comunicando-lhe gradualmente seu próprio Mistério por meio de ações e de palavras.”, ou seja, a revelação retilínea do Antigo Testamento desaguou naturalmente no cristianismo, fruto das vontades do Pai, da encarnação do Verbo, na plenitude dos Tempos, já que o “O Filho é a Palavra definitiva do Pai”. A novidade em caracterizar a Antiga Aliança como eterna e completa nos tempos de Cristo é um erro de grandes conseqüências. Existe a impressão de que a revelação de Deus no Antigo Testamento se sustenta sem o Verbo. Ora, Cristo é o Filho Unigênito e, desde o momento em que o Senhor agiu junto a Abraão, a Encarnação da Palavra e a consumação da revelação na Nova e Eterna Aliança estava traçada.
Na vanguarda dessa novidade doutrinal se encontra Franz Mussner, um teólogo alemão que escreveu um livro chamado “Tratado sobre os Judeus”, onde, entre outras coisas, afirma que o judaísmo é meio de salvação e que a Igreja não é a Nova Israel, que é a "extensão do povo de Deus, que junto com Israel forma o único povo de Deus". E nessa Israel inclui, obviamente, os judeus que rejeitaram Cristo que, para ele, são salvos por um "caminho especial". Diz que a Igreja e a sinagoga tem "tarefas e objetivos em comum" que poderão ajudar na "shalomitização do mundo". Ainda afirma que era o tempo dos cristãos trocarem os tratados dos tempos medievais e patrísticos contra os judeus por um tratado para os judeus. Claro que tudo isso é embebido em interpretações pessoais da Sagrada Escritura e desvencilhamento dos ensinamentos da Igreja.
Quando Mussner afirma que “Atrás deste livro (Tratado sobre os judeus) está um processo de aprendizagem de muitos anos, uma verdadeira mudança de mentalidade", ele esquece que essa transformação não modifica apenas uma forma de pensar, mas ataca de forma violenta a Tradição da Igreja e seu Magistério. Teólogos da mesma linha afirmam que a Igreja não substituiu Israel, mas passou a compartilhar dos seus privilégios. Concluem, então, que existe a Nova Israel e a Velha Israel, a Antiga Aliança e a Nova Aliança, e mesmo a Nova Aliança completando o que se iniciou na Antiga Aliança, com a Plenitude dos Tempos na Encarnação do Verbo, dizem que a Antiga Aliança e a Velha Israel continuaram com o mesmo grau de comunhão com Deus, mesmo depois do fim da Revelação. Nesse pensamento a Nova Israel não é vista como desenvolvimento da mesma religião, Igreja hebraica, que com a vinda do Verbo originou a Igreja de Cristo, mas como distinta da Velha Israel.
Eles esquecem do fato de que Israel é uma prefigura da Igreja. Desde o Logos, Jesus Cristo, que tinha com Deus desde a Criação, a Igreja teve a sua origem na mente divina, e foi revelada pelas ações de Cristo uma vez Encarnado. Deus criou Israel pela Sua promessa feita pelos anjos na tenda e logo confirmada a Abraão em Moriá, no sacrifico de Isaque. Deus primeiro revelou a Israel, onde Ele criou pela Sua promessa a Abraão. Então, na plenitude dos tempos, Ele revelou a Igreja. E, de acordo com os Padres, a Nova Aliança foi renovada e fora da Igreja, a Nova Israel e continuação da religião hebraica, nenhuma aliança passou a existir. São João Crisóstomo diversas vezes usou o termo "Arca de Noé" como referência à Igreja.
No Sermão 4 de Santo Agostinho ele diz; “Agora por Igreja, irmãos, vocês devem entender não só aqueles que começaram a ser santos depois do Advento do Senhor e natividade, mas todos que foram santos pertencem a mesma Igreja. Você não pode dizer que o nosso o pai Abraão não nos pertence, somente porque ele viveu antes de Cristo ser carregado pela Virgem. ”
Karl Rahner e J. N. D. Kelly atestam respectivamente; "A Igreja está consciente que vive em continuidade com Israel, cuja história foi interpretada na luz do evento central da.....morte e ressurreição de Jesus Cristo." Encyclopedia of Theology. p.217, "A Igreja é considerada como a nova, a autêntica Israel, que herdou as promessas que Deus fez a Velha." Christian Doctrines, p.190
A imagem de Moisés com um véu por cima de seu rosto quando ele volta do Sinai é uma alegoria do véu suspenso sobre o Antigo Testamento. Ele contém verdades veladas que não podem ser apreciadas sem conhecimento de Cristo. "Enquanto Moisés era lido, o véu estava sob seu coração? Pois o véu não foi removido, porque Cristo ainda não veio" (Tratado de Agostinho 24,5 em João)
Quando o Evangelho de São Mateus versa que o véu do Templo se rasgou em dois após a morte de Jesus, isso pareceu, para alguns leitores patrísticos, significar que a obscuridade acerca do verdadeiro sentido do Antigo Testamento fora removida. "A Escritura era fechada? Ninguém a entendeu? O Senhor foi crucificado, e Escritura se derreteu como cera, para que assim todos os fracos pudessem entendê-la" (Augustine Enerr in Psalmos 21, II, 15)
Tertuliano também ensinou; "E, de fato, primeiro devemos perguntar se é esperado um Doador da Nova Lei, e um herdeiro do Novo Testamento, e um sacerdote dos novos sacrifícios, e um purificador da nova circuncisão, e um observador do sábado eterno, para suprimir a Velha Lei, e instituir o Novo Testamento, e ofertar os novos sacrifícios, e reprimir as cerimônias antigas, e suprimir a velha circuncisão em conjunto com o próprio sábado, e anunciar o novo reino que não é corruptível.
Digo, se o Doador da nova lei, o observador do sábado espiritual, o sacerdote dos sacrifícios eternos, o eterno soberano do eterno reino, já veio ou não: isto é, se ele já veio, o serviço deveria ser dado a ele; se ele ainda não veio, ele deveria ser esperado, e pelo seu advento onde será manifesto, os preceitos da velha Lei serão suprimidos, e o começo da nova lei deve surgir. E, principalmente, temos que deixar a opinião de que, com a Sua vinda, a lei antiga e os profetas não podiam ter cessado, aquele que foi constantemente anunciado através da mesma Lei e dos mesmos profetas, para vir.
(...)
Portanto, já que as propiciações da primeira aliança eram obscurecidas por figuras secundárias, e contaminadas de toda desonra, a segunda (que fora profetizada) manifestou a dignidade de Deus, e resultou como conseqüência a obrigação de acreditarmos e entendermos que a primeira (isto é, a segunda em honra e glória) foi desmerecida com ainda mais obscuridade – todos os seus acontecimentos feitos ainda mais indignos – por causa da primeira em honra e glória. E então até o presente momento eles afirmam que Cristo não veio, pois Ele não veio em majestade, enquanto são ignorantes do fato d’Ele ter vindo primeiro em humildade."
Na carta de Teodoreto aos Monges de Eufratensian, Orshoene, Síria, Fenícia e Silícia, ele diz; “Ó Senhor, não conhecemos nada além de Ti. Clamamos pelo Teu nome, ‘Faça-nos unos e inquebráveis dentre a parede de divisão’, chamada de iniqüidade que tem aumentado. Reúna-nos um a um, a Tua Nova Israel, construindo a Jerusalém e reunindo os renegados de Israel. Faça-nos cada vez mais Teu rebanho alimentado por Ti: pois Tu és o Bom Pastor ‘que dá a vida pelo rebanho’. Despertai, porque dormes Senhor, levanta-se, não nos abandone para sempre. Apascente os ventos e mar, dê a Tua Igreja tranqüilidade e segurança das ondas.”
Recordando que essa teoria, ao sustentar a Velha Israel e a Antiga Aliança com funções perenes e eternas, mesmo fora de Cristo, fornece validade aos sacramentos da antiga Lei, beirando a uma equiparação com os sacramentos da Nova e Eterna Aliança, idéia essa já condenada pelo Concílio de Trento: "Se alguém disser que estes sacramentos da nova lei, não são diferentes da lei antiga, senão nos ritos cerimoniais externos, seja excomungado" (D 845). É claro que no conteúdo patrístico, doutrinário, Tradicional, não há nada, nenhuma possibilidade da aliança com os judeus ter continuado e persistido fora da Igreja de Cristo.
Tamanhas invencionices se sustentam na má compreensão do fato de que a religião de Deus é una e, sua origem, é uma evolução em consonância com a Revelação. Assim como na Antiga Aliança era o judaísmo o herdeiro das promessas do Pai, com a importância de preparar a comunidade para a chegada do Messias, com a plenitude dos tempos, a realização das profecias, a Encarnação do Verbo, naturalmente do judaísmo floresceu o cristianismo que, sustentado no Antigo e Novo Testamento, gozou da graça de seguir a totalidade da revelação do Senhor. Os judeus que aderiram a Cristo continuaram na promessa, os que repudiaram saíram dela, o fato de persistirem na Antiga Aliança não caracterizou certeza alguma. O Antigo Testamento foi revelado preparando os homens para a encarnação da Palavra (“Pelos profetas preparou este povo a acolher a salvação destinada à humanidade inteira.”), e com a consumação desta (“Cristo Senhor, em quem se consuma a revelação do Sumo Deus”), o seu seguimento sem a luz da plenitude tornou-se inócuo, porque “Deus "quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade" (1Tm 2,4), isto é, de Jesus Cristo.”
O Servo de Deus João Paulo II, numa alocução à comunidade judaica de Mainz, na Alemanha, disse que a Antiga Aliança nunca tinha sido “revogada por Deus”, mas, numa audiência em 1999, o próprio Santo Padre esclareceu essa questão que, infelizmente, foi interpretada como a abertura para um relativismo religioso. O Pontífice Romano ao repetir essa afirmação continuou: “embora este adquira o seu sentido pleno à luz do Novo Testamento e contenha promessas que se cumprem em Jesus.”
Ademais, no passado os judeus viviam as revelações dos Profetas preparando-se para a chegada do Messias, enquanto hoje, a Esposa de Cristo, zela pela plenitude do conteúdo dado por Deus aos homens, em sua totalidade, tanto o Antigo Testamento quanto o Novo Testamento e a herança deixada por Nosso Senhor.
O Concílio de Florença ensinou que; "A sacrossanta Igreja Romana ... crê firmemente, professa, e ensina que a matéria pertencente ao Velho Testamento, da Lei Mosaica, dividida em cerimônias, ritos sagrados, sacrifícios e sacramentos, porque foram estabelecidos para significar algo no futuro, embora fossem adequados ao culto divino naquele tempo, depois da vinda de Nosso Senhor, que eles significavam, cessaram, e os sacramentos do Novo Testamento começaram; ... Todos aqueles, portanto, que a partir desta altura observam a circuncisão e o dia de Sábado e as demais obrigações da lei, [a Igreja Romana] declara-os afastados da Fé Cristã e de modo algum capazes de participar na salvação eterna, a não ser que um dia abandonem estes erros." (D.S. 1348) Ora, como entender a atual visão de certos religiosos relativistas com a compreensão que a Igreja sempre teve e tem de si mesma? Como encaixar tamanhas novidades teológicas na Sagrada Escritura e na Sagrada Tradição? Sem dúvida é através da interpretação da ruptura do Vaticano II que tentam endossar suas novas teorias. Dessa forma eles chegam a uma conclusão infantil ao acreditar que a Igreja até 1964 considerava os judeus fora da Aliança com Deus e que, ao final do Concílio, em 1965, os judeus já gozavam da comunhão com o Pai, não necessitando de contrição e conversão. Ora, nem se Cristo aparecesse em pleno Vaticano II os Padres Conciliares modificariam com tanta radicalidade a doutrina da Igreja. Transformar um ponto tão importante da nossa fé, afinal envolve a plenitude dos tempos e a consolidação da Nova e Eterna Aliança, seria atacar a Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério, os séculos de vivência no depósito da fé.
A tentativa de modificar essa compreensão que a Igreja sempre teve a respeito da Revelação de tão radical não encontra sustentação nos ensinamentos cristãos. Para tanto, se baseiam em interpretações erradas de pronunciamentos papais e conciliares, assim como numa hermenêutica pessoal da Tradição e da Bíblia. Considerar que tais religiosos estão certos é afirmar que a Igreja errou durante mais de mil anos ao ensinar o contrário, conseqüentemente, ao cogitar essa possibilidade de defetibilidade, estamos dizendo que o Depósito da Fé foi mal utilizado pelo Magistério. Isso sem levar em consideração os graves problemas teológicos causados por estas afirmações
Quem coloca tanto coisa em risco para endossar tamanhos erros doutrinários?
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Pedro, a Pedra
Aqui mesmo eu publiquei [Veritatis Splendor] uma tradução livre que fiz de ditos de Santos e Patriarcas Orientais que endossam o papado e sua supremacia, soando bem diferente da primazia de honra que os cismáticos tanto defendem. Será que algum bizantino teria a coragem de lançar anátemas a São Máximo o Confessor, um dos Padres mais exaltados pelos orientais, por ter dito que “sem medo, mas com toda a confiança sagrada e conveniente, aqueles ministros (os Papas) são da rocha realmente firme e imóvel, que é da Igreja mais grandiosa e Apostólica de Roma." (Santo. Maximus, em JB Mansi editor Amplissima Collectio Conciliorum, volume 10), ou então a São Teodoro Estudita, chefe do mais importante Mosteiro de Constantinopla, que escrevendo a São Leão Magno disse; “oh mais divina Cabeça das Cabeças, o Chefe Pastor da Igreja do Céu." (Santo. Theodore, Reserve I, Epístola 23)”. O que não faltam são citações que confirmam a universalidade e supremacia de Roma, mas que combatidas de maneira mesquinha por ardilosos religiosos orientais, fomentou o cisma. Fócio, que é santo lá por aquelas bandas, e um dos grandes responsáveis pela queda dos bizantinos, escreveu ao Papa; “Se mandares venerar o meu nome numa só igreja de Roma, eu me comprometo a mandar venerar o teu em todo o universo’’, provavelmente não sabia que essa sua presunção nada cristã o daria a “santidade” e a alcunha de “o Grande”. Realmente, só se for padroeiro da picaretagem.
Os cismáticos deformam a promessa de Cristo feita a São Pedro. Eles a interpretam dizendo que a Pedra não era Pedro, mas sim sua fé. Um grande erro, Pedro é a Pedra, só que esta procede de Cristo. Pedro não é pedra por si só, mas em função de Cristo e de sua fé ortodoxa, a qual sempre está no Príncipe dos Apóstolos, a fim de que confirme seus irmãos.
Falar que Cristo é Rocha, que Pedro é feito pedra em função da fé em Cristo não tira em nada o entendimento que Pedro é a pedra sobre a qual é edificada a Igreja, em função de Cristo e não de si mesmo. Alguns chegam ao extremo, utilizando teses protestantes para afirmar que o termo usado por Nosso Senhor para designar Simão não era o mesmo que Ele utilizou para chamar a Pedra.
São João Crisóstomo, considerado pelos cismáticos o maior Padre da Igreja, ajuda a colocar um ponto final nessa questão. Ele diz:
Jesus disse [a Pedro] ‘Alimenta minhas ovelhas’. "Por que Jesus não leva em conta os demais Apóstolos e fala do rebanho somente a Pedro? "Porque ele foi escolhido entre os Apóstolos, ele foi a boca de seus discípulos, o líder do coro. Foi por essa razão que Paulo foi procurar a Pedro antes que os demais. E também o Senhor fez isso para demonstrar que ele devia ter confiança uma vez que a negação de Pedro havia sido perdoada. Jesus lhe confia o governo sobre seus irmãos... Se alguém perguntar "Por que então foi Santiago quem recebeu a Sé de Jerusalém?", eu lhe responderia que Pedro foi constituído mestre não de uma Sé, mas do mundo todo” (Homilia 88 (87) in Joannem, I. Cf. Orígenes, “In epis. Ad Rom.”, 5, 10; Efrém da Síria “Humn. In B. Petr.”, en “Bibl.Orient. Assema.)
Eles poderiam rebater citando por exemplo São Cipriano de Cartago, que disse; “Este Trono de Pedro é mantido por todo episcopado, de modo que cada bispo é sucessor de Pedro” (mesmo santo que escreveu; "A cátedra de Roma é a cátedra de Pedro, a Igreja principal, de onde se origina a unidade sacerdotal" (Cipriano, +258, Epístola 55,14), o que confirma o fato de que é a interpretação obtusa dos cismáticos que deforma o conteúdo patrístico), ora, aí eles entram num erro de interpretação. São João Crisóstomo é claro, ele se refere especificamente a Pedro e a promessa feita por Cristo, frisando a relevância do Príncipe dos Apóstolos perante os outros irmãos. Tão ilustre Padre grego ainda salienta a supremacia de Pedro e a universalidade de seu primado, que mesmo não se localizando em Jerusalém, Sé Apostólica chamada de "Mãe de todas as Igrejas", tem sua maestria fincada em todo o mundo.
Foi a falta de humildade de certos religiosos orientais que deu início ao cisma do oriente, e hoje, o mesmo déficit persiste em estender suas influências nas mentes cismáticas.
Pedro Ravazzano
sábado, 13 de dezembro de 2008
Marcadas diferenças entre o Ocidente e Oriente cristão
Para se convencer disso, é suficiente olhar as idéias de Tertuliano, que faz ressoar os acentos mais originais da nova psicologia cristã em antítese ao pensamento grego. Para afirmar a existência de Deus invoca o testemunho da alma, juntamente com a Escritura; " Para que tu possas crer em Deus e na natureza, crê na alma e crerás também em ti mesmo. A alma é tudo para ti, não só como testemunho mas também como partícipe; tu podes aprecia-la pelo que ela faz de ti, e ainda no erro, tu a encontrarás como reu e como testemunha; reu do erro enquanto és ao mesmo tempo testemunho da verdade".
O abandono progressivo da língua grega e o impulso irresistível dos ocidentais em expressar em latim e ao modo latino as idéias teológicas, impulsiona a literatura latina cristã, talvez com o Papa Victor I, mas certamente com Tertuliano de maneira mais explosiva. (...) A separação ocorre principalmente no séc. IV, e seguirá se expandindo cada vez mais; primeiro a causa de Constantino, que estabeleceu a capital do Império em Bizâncio; depois, pela perda e abandono das possessões bizantinas na Itália posterior a queda do Império do Ocidente; mais adiante pela questão do culto das imagens, o que finalmente gerou a separação definitiva de todo vínculo pelo cisma do Oriente, que ainda perdura.
Retirado do livro "Historia de la Literatura Patristica" de Luis M. de Cadiz (Pe. Antonio Ulquiano-Murga)
Tradução: Pedro Ravazzano
domingo, 30 de novembro de 2008
Católicos reclusos
A Luz da Vida é uma das 450 comunidades de católicos criadas em vários estados nos últimos dez anos. Chamadas de Novas Comunidades, elas normalmente nascem de grupos de oração da Renovação Carismática Católica, o movimento que reúne elementos culturais modernos à tradição religiosa para atrair fiéis, principalmente os jovens. Estima-se que haja 12 milhões de católicos carismáticos no Brasil, que se encontram regularmente em 23 000 grupos de oração e celebram missas festivas embaladas por ritmos pop. Calcula-se que 10 000 católicos carismáticos morem nas Novas Comunidades. A pioneira delas é a Canção Nova, em Cachoeira Paulista, a 195 quilômetros de São Paulo, fundada em 1978, que reúne 1 200 fiéis. Há um mês, o papa Bento XVI concedeu o reconhecimento oficial à Canção Nova. Uma delegação da comunidade foi recebida pelo pontífice no Vaticano. No ano passado, a Comunidade Shalom, de Fortaleza, obteve a mesma distinção.
Uma vida dedicada à religião pode ter uma aura de romantismo, mas não é nada fácil. Na Comunidade Luz da Vida, apenas um de cada dez internos permanece por mais de cinco anos. As regras internas incluem submeter todas as decisões pessoais à avaliação coletiva. Um exemplo dessa interferência está nos relacionamentos amorosos. As regras variam entre as comunidades, mas, em geral, nos três primeiros anos é proibido namorar. Após esse período, dois internos que desejem iniciar um relacionamento amoroso precisam submeter sua intenção à apreciação do conselho da comunidade, formado por membros graduados. Caso seja autorizado, o namoro será casto, já que vale a orientação da Igreja Católica de que o sexo só deve ocorrer após o casamento. Rafael Leal e Lílian de Castro, diretor de jornalismo e apresentadora da TV Canção Nova, esperaram quatro meses entre o pedido formal, feito por carta, e a aprovação pelo conselho. Mas, logo após a autorização para o namoro, Rafael foi transferido para atividade missionária em Israel, onde passou um ano e meio. Só depois desse período o casal pôde, enfim, ficar junto. Eles dizem não guardar mágoa pela separação imposta. "Aqui somos consagrados a Deus. Tudo o que fazemos, todo o tempo, é para Ele", diz Lílian.
Quem busca as comunidades católicas costuma se declarar farto daquilo que vê como valores efêmeros – os mais citados são a valorização da aparência e o consumismo. Antes de entrar para a Canção Nova e se tornar superintendente de eventos da entidade, Róbson Alves, de 32 anos, era líder de torcida organizada no Rio de Janeiro e usava drogas. "Procurava me preencher nas drogas, no sexo, nas baladas e na bebida. Meu time era o meu deus. Mas, quando colocava a cabeça no travesseiro, só sentia um grande vazio", ele diz. O maranhense Luciano Parga Lobo, de 28 anos, dono de uma rede de lojas e distribuidoras de material de construção e de uma fábrica de tintas, também viveu uma crise de valores. "Lá fora eu tinha apartamento à beira-mar, casa de praia, lancha, jet ski e um carro de 200 000 reais", conta. Hoje, Lobo vive na Canção Nova e se alterna com os outros moradores em tarefas como limpeza, poda da grama, plantio da horta e manutenção do chiqueiro e do galinheiro. "Eu tinha tudo e não tinha nada. A cada dia, naquela vida, sentia que ia perdendo os meus valores numa existência desregrada", ele diz.
As normas para ingressar nas comunidades católicas são rígidas e exigem renúncias. Em primeiro lugar, é preciso interromper os estudos, o trabalho e os namoros. A partir do segundo ano, o contato com a família é restrito. Nessa fase de adaptação, os chamados noviços só deixam a comunidade em alguns dias da semana, para ir à missa e ao grupo de oração. Apenas nessas ocasiões eles se encontram com os familiares. O recebimento de telefonemas é limitado a um a cada quinze dias. É permitido telefonar uma vez por mês. A opção por esse tipo de vida, que simula a dos monges reclusos, nem sempre é aceita pela família e pelos amigos dos que ingressam nas comunidades. Em 1998, aos 18 anos, a goiana Wanessa Lôbo decidiu abandonar o curso de administração de empresas e mudar para a Luz da Vida. "Minha mãe foi falar até com o bispo para que me tirassem daqui", diz ela. Para o padre Luiz Augusto Ferreira, co-fundador da Luz da Vida, o espanto com que muitas famílias vêem a opção pela vida nas comunidades católicas reflete os valores da sociedade atual. "Vivemos num tempo em que, se é para tentar a vida ilegalmente nos Estados Unidos, os pais arrumam a passagem. Se o filho quer ir para Deus, eles se escandalizam", ele pondera.
Pode parecer estranho que as Novas Comunidades floresçam no Brasil depois de duas décadas de queda acelerada no número de fiéis católicos. A explicação para isso parece estar num fenômeno maior: a atual corrente de busca pela espiritualidade. Num mundo cada vez mais complexo e repleto de desafios, e no qual a família tradicional se acha em crise, mais e mais gente encontra conforto no âmbito do transcendental. Os livros e palestras de auto-ajuda espiritual se multiplicam em velocidade espantosa. Não por acaso, Paulo Coelho se tornou o escritor mais lido do mundo com sua sabedoria de porta de igreja. "No caso das comunidades católicas, a sensação de falta de vínculos e de apoio afetivo é preenchida por essa proposta de vida fraterna", diz a socióloga Cecília Mariz, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
O crescimento das comunidades é também resultado da reação da Igreja Católica diante da perda acelerada de fiéis para as igrejas evangélicas. Os sinais visíveis dessa reação estão nas missas campais para multidões, nos megatemplos católicos construídos nas últimas décadas e até nos adesivos com a frase "Sou feliz porque sou católico". A Renovação Carismática, que lidera esse movimento, recuperou também elementos do catolicismo tradicional, como a reza do rosário. Também passou a disputar fiéis com os evangélicos ao enfatizar as curas espirituais e falar com mais liberdade em milagres, algo que caíra em desuso desde o Concílio Vaticano II, nos anos 60. Outras práticas populares, como a bênção da água, de velas e até de objetos pessoais – as chaves da casa e do carro, por exemplo –, foram resgatadas. Tudo isso reveste a Igreja de uma nova imagem, distante daquela que vigorou entre os anos 60 e 80, impregnada do ideário esquerdista. Diz a socióloga Brenda Carranza, da PUC de Campinas, especialista em religiões: "Nos anos 80, participar da Igreja era estar engajado em obras sociais. Hoje, é ir com mais freqüência à missa, participar de vigílias e grupos de oração. Naquela época, o padre era visto como agente de transformação social. Agora, ele é um agente de transformação pessoal e espiritual". É essa transformação que move o rebanho das novas comunidades católicas.
EM NOME DA FAMÍLIA
Em 1998, o administrador de empresas Ângelo Heitor Longhi, 34 anos, e sua esposa, Ana Paula, se mudaram para a Comunidade Oásis, no Rio Grande do Sul. Lá nasceram os três filhos do casal. Longhi acha que atualmente a família é minada por valores contrários aos do Evangelho e que a vida comunitária facilita a vivência dos princípios cristãos, como a partilha, o amor ao próximo, o perdão e a fidelidade. "Em que lugar do mundo eu teria um ambiente mais propício a viver um ideal da família cristã?", ele questiona.
OPÇÃO PELO CELIBATO
O paulista de Aparecida João Carlos do Nascimento, 25 anos, está há seis na Comunidade Shalom, em Fortaleza. Embora não pretenda ser padre, ele fez a opção pelo celibato — e, portanto, pela castidade. Seu objetivo é dedicar-se inteiramente à religião. "Descobri que Deus quer isso de mim. O celibato não é uma prisão nem um peso. Afinal, a gente não é homem apenas no contexto de um relacionamento com uma mulher", diz ele.
ADEUS, NOIVO E EMPREGO
Há cinco anos, a fonoaudióloga Weslaine Cardoso, de Goiás, tinha tudo o que uma jovem pode desejar. Ganhava até 4 000 reais por mês entre o consultório particular e um emprego público e estava prestes a ficar noiva. Uma semana antes de anunciar o noivado, resolveu abandonar tudo e se mudou para a Comunidade Luz da Vida, em Goiânia. Enfrentou forte oposição da família, mas não se arrepende da mudança. "Lá fora eu tinha muito, mas aqui dentro sinto que tenho muito mais", diz Weslaine, que trabalha como produtora na rádio Luz da Vida.
O SEXO PODE ESPERAR
Quando Rafael Leal e Lílian de Castro, ambos missionários da Canção Nova, em Cachoeira Paulista, resolveram namorar, tiveram de enviar uma carta pedindo a aprovação do conselho da comunidade. Foram quatro meses de espera até receber a aprovação. O relacionamento é casto, de acordo com a orientação da Igreja Católica de que o sexo só deve ocorrer após o casamento. "É claro que sentimos atração um pelo outro, mas vivemos o amor de Deus sobre todas as coisas", diz Lílian.
FÉ NO LUGAR DAS DROGAS
O fluminense Róbson Alves, 32 anos, é superintendente de eventos no braço paulistano da Canção Nova. Antes, foi líder de torcida organizada de futebol no Rio de Janeiro e usava drogas. "Procurava me satisfazer com sexo, baladas e bebida, mas, quando colocava a cabeça no travesseiro, só sentia um grande vazio", afirma. Hoje, em vez de lotar ônibus com torcedores para ir ao Maracanã, Alves os atrai para as missas e shows católicos que promove. "Eu buscava o amor que me preencheria nas coisas erradas", diz.
MISSÃO D'ALÉM-MAR
Luísa Lima, 32 anos, e Shahir Rahemane, 21, são portugueses e descobriram a Canção Nova graças ao sinal de TV da comunidade, que chega à Europa. Ambos enfrentaram a oposição da família antes de se tornarem missionários no Brasil. "Achavam que eu estava fanatizada", conta Luísa. Rahemane teve de superar barreiras culturais. Filho de pai moçambicano e muçulmano, ele se converteu ao catolicismo. "Meu pai chorou ao se despedir de mim. Disse que preferia que eu fosse muçulmano, mas me abençoava", conta.
