segunda-feira, 18 de junho de 2012

"Prometheus" e a busca do homem


Com alguns spoilers!

Desde que vi o trailer de Promotheus sabia que o filme teria um forte aporte filosófico. Ou cairia no niilismo radical, mostrando a vacuidade da existência, ou, todavia, abriria a possibilidade da reflexão a respeito da vida como existência fundamentada em algo inerente ao próprio homem. Estava certo! A obra é marcadamente permeada por tais premissas, entretanto, quem assim quiser, pode apreciá-la como mais um excelente filme de ficção científica, mero entretenimento. A arte tem a capacidade de se abrir para uma diversidade de leituras, muitas delas sequer conjeturadas pelos seus autores.


A busca por respostas que endossavam a existência humana se encontrava na compreensão do mistério da nossa criação. O darwinismo desfavorecia qualquer concepção criacionista, contudo, dentro da teoria pensada pela Dra. Elizabeth Shaw, esta fé que ela escolheu acreditar, o homem era fruto de um encontro extraterrestre, os nossos deuses não eram astronautas, mas eram moradores do universo! Assim, pois, todo o desenvolvimento do filme se fundamenta na mentalidade cientificista-positivista. Por mais estapafúrdia que fosse a tênue crença dos pesquisadores, era uma crença na vacuidade da própria existência; as respostas existiam e estavam em outra galáxia, era só uma questão de tempo, disposição e dinheiro para encontrá-las.

Não obstante, ficou claro que as perguntas não seriam respondidas tão facilmente. O desenrolar do filme, com ações dignas de um grande blockbuster, mostra como os “deuses” não eram tão divinos e que as respostas não eram tão óbvias e facilmente achadas com o grande devotamento cientifico. Mortes assustadoras e a perda de controle são os sintomas do desespero diante da incompreensão da existência e da busca. Resta alguma coisa? A fé na objetividade positivista da humanidade se encontrava em frangalhos, não sobrava outra atitude que não o nada. Peter Weyland, o grande investidor da pesquisa, estava motivado pela busca da imortalidade, reflexo certamente da existência baseada na frieza egoística da imanência. O seu interesse era totalmente distante do nobre anseio da Dra. Shaw, esta sim insuflada pela fé que escolhera nos seus deuses alienígenas, impulsionada pelo ardor de encontrar sentido no existir.

Dentro da dinâmica própria do filme é possível fazer um paralelo entre as duas frases de mais impacto. O ancião Weyland, indo ao encontro do último dos nossos criadores, sobrevivente do aparente extermínio da raça causado pelas armas que estes criaram para nos destruir, pretendera encontrar a cura para a sua morte mais do que iminente. Não obstante, depara-se com um ser raivoso e inflamado de ódio contra os homens, suas criações. Ao ser brutalmente assassinado, jazendo dolorosamente no chão, diz, pois, “que não resta mais nada”. Se o filme acabasse neste instante certamente seria a maior ode niilista já produzido pelo cinema. Fomos criados por seres alienígenas, criados pelo DNA sacrificial dos extraterrestres, como mostra a primeira cena do filme, mas agora somos alvos da fúria “divina”. Há sentido no existir? Há razão para voltar os olhos para o alto ou sequer para si mesmo? Sobra o nada e só há o nada.

Entretanto, na última cena há uma reviravolta totalmente surpreendente e digna de ser meditada. Dra. Shaw, a única sobrevivente depois que a nave Promotheus propositadamente se chocara com a nave alienígena que pretendia destruir a Terra, ao se deparar com o desespero da morte e da solidão, com o fracasso da expedição e o fracasso da sua fé científica, parece redescobrir a razão mais intima da sua essência, isto é, aquilo que de mais profundo e radical habita no coração do homem. Se, pois, os extraterrestres nos criaram, quem os criou? “Eu vou continuar a buscar!”, disse. Esta é, portanto, a vocação humana, esta é a cruz que a Dra. Shaw toma de volta, buscar o sentido do existir, um senso de abertura, de ligação, de religação e, portanto, de religião, que só pode ser saciado quando o nosso ser se reconhece no Outro que nos faz.

O filme acaba estupendamente com o Prelúdio Op. 28, No. 15, de Chopin, esta obra que Mons. Luigi Giussani, ao comentar sobre a nota constante que persiste em toda a obra, diz; “A nota que domina desde o início ao fim e decide o sentido da toda a peça de Chopin, esta é a nota do começo ao fim que decide o que é a vida humana: é a sede de felicidade. (…) Havia uma nota que permanecia intacta, embora com alguma mutação ligeira, do começo ao fim permanece intacta na sua profundidade e na sua simplicidade absoluta, e, na sua singularidade, domina a vida: a sede de felicidade”

O titã Promoteu deu aos homens o fogo e, com isto, possibilitou que fossem superiores aos animais. Entretanto, fora punido pelos deuses e sofreu todos os dias enquanto esteve preso no Monte Cáucaso onde seu fígado era continuamente dilacerado pelo corvo. Entretanto, muito além da humana mitologia grega, devemos reconhecer que o homem só encontra sentido na sua existência ao perceber a força que o move, ao reconhecer a presença de quem nos fez e nos faz, daquele que não apenas nos deu fogo, mas nos deu vida e redenção, que nos deu o seu sangue.

domingo, 10 de junho de 2012

A UFBA e a sua eterna paixão pela esquerda


A UFBA, como boa parte das UFs, já se tornou num circo anárquico onde não há mais uso da racionalidade. Tive a curiosidade de ler a carta aberta escrita pelos estudantes reunidos em Assembleia Geral. Tirando o fato de me perder diversas vezes por conta da multiplicidade de palavras dignas da novilíngua orweliana e das construções frasais inclusivistas - pelos/pelas, dos/das etc, o fato é que o pandemônio está mais do que estabelecido. Se uma educação livre, como pensava o poeta T.S Eliot, era destinada a responder às perguntas últimas do homem, a educação moderna tem como grande pretensão a reformulação da própria humanidade.

A UFBA, esta que um dia foi a minha Universidade, vive uma relação fetichista com o que de mesquinho há na mentalidade esquerdista. Não só as diversas facções socialistas combatem entre si, desde petistas das não sei quantas tendências até marxianos sociais-democratas, como pretendem construir o cenário dialético como se realmente existissem forças obscuras do capitalismo-burguês-conservador na espreita. Entretanto, não só vivemos num estado que segue a cartilha petista, mas estudamos numa Universidade onde o princípio da educação liberal é totalmente preterido pelos ditames da educação de inclusão ou da educação para todos.

A carta escrita pelos estudantes em Assembleia, isto é, alguns poucos militantes engajados e mais preocupados com a politicagem do que com a reflexão, é uma amostra do alto grau da doença esquerdista que assola as mentes da juventude brasileira. Os paradigmas estão tão tomados de totalitarismo e delírios de poder que eles sequer sabem diferenciar reivindicações honestas de motivações partidárias. Obviamente a Universidade deve ser um espaço de discussão e é mais do que saudável que haja posições destoantes. Não obstante, o pensamento socialista não concebe a possibilidade de conviver com posições diversas, nem mesmo diversas dentro do espectro socialista. O ódio, o argumentum ad hominem e a agressão se tornam nas pontas da lança da incursão pelo poder.

A carta é a síntese do delírio. Vai desde a abertura para o uso dos "nomes sociais" dos/das/de/ travestis e transformistas - afinal Samanthas e Kymberlhys têm seus direitos - até as velhas críticas contra a privatização da Universidade, em oposição às fundações privadas parceiras de algumas faculdades - não ironicamente são estas as mais eficientes e capazes na formação dos seus estudantes. Todavia, como a Universidade moderna é tudo menos lugar de produção de saber, é compreensível que esta instituição se encontre totalmente tolhida em sua real vocação.

O nosso estado totalitário - porque começar com letra maiúscula só Deus! - tem como grande projeto o controle da educação, pela qual poderia criar uma cultura de massa pensada e mantida pelo governo. Entretanto, a educação na concepção clássica é muito mais um “treino da mente” e uma “disciplina intelectual” do que um mero projeto estatal de finalidade utilitarista. O utilitarismo educacional destrói a verdadeira cultura, reduz a reflexão ao aspecto prático, material e com o sonho igualitarista arrasa com a diversidade tão fundamental para a nossa civilização.

O maior perigo dessa modelo de Universidade é a onipotência do coletivo em total oposição à liberdade individual. A padronização da educação só se torna possível através do reconhecimento da capacidade do governo de gerir o grande pressuposto que alicerça este paradigma; a igualdade de oportunidade. Tendo como chave a “consciência social”, o estado transfere para si a responsabilidade, até então própria do sujeito, de responder à vocação de cada homem. Assim, em nome de um ideal de sociedade abstrato e rarefeito, justifica-se a transformação da educação na mais ineficiente fábrica de tediosos cidadãos.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A imaginação moral em "Branca de Neve e o Caçador"


Com spoilers

Depois de escutar bons comentários a respeito do filme "Branca de Neve e o Caçador" resolvi assisti-lo. Não vou ao cinema buscando reflexões filosóficas ou existenciais, muitas vezes um bom e simples entretenimento é necessário e oportuno para viver equilibradamente. De fato, no quesito aventura o filme é animador. Entretanto, consegui perceber, não sei até que ponto colocado ali de forma explícita, uma referência clara ao imaginário moral cristão.


No aspecto externo são claras as manifestações cristãs do filme. Não havia nenhuma necessidade, por exemplo, em ambientar a produção num aparente reino medieval. O conto, em sua versão original, tanto na tradição oral alemã como fora consolidado pelos Irmãos Grimm, se passa num cenário fantástico, povoado por anões, fadas e monstros. Não obstante, "Branca de Neve e o Caçador" faz uso de certo realismo e constrói uma história com traços que remetem à história do Medievo. Também não havia nenhuma razão fundamental em colocar "Snow White" rezando o Pai-Nosso ou Bispos celebrando o casamento e coroando a bela Rainha ao final, cenas irrelevantes no que se referem ao entendimento da obra. Assim, pois, é sim lícito pensar que estes sinais foram plantados propositadamente, tendo como finalidade atingir o imaginário cristão. É importante lembrar que uma vez li em algum lugar o dado estatístico de que os filmes que mais arrecadavam em Hollywood tinham temáticas conservadoras.

Além de tais referências claras ao cristianismo, o filme consegue abordar as virtudes sem cair em certo maniqueísmo tão recorrente. Obviamente há uma distinção entre bem e mal, verdade e mentira, beleza e feiura. Entretanto, a própria Branca de Neve, ao matar a Rainha Má, a contempla com o olhar da bondade, isto é, da compaixão. A personagem principal, num diálogo com o Caçador, comentara que o ódio que nutria pela madrasta havia se transformado em pena, piedade.

Ainda é possível pensar no bosque das fadas como uma simbolismo da realidade sem pecado original, com homens e criaturas vivendo em perfeita harmonia e em ordem. Ademais, a presença majestosa da árvore, mesma árvore que aparece no escudo real, possibilita a reflexão a respeito. Interessante, contudo, a forma como o filme entende o triunfo do mal na proporção em que o bem se enfraquece. A própria força da floresta negra vinha do medo daqueles que nela entravam. Do mesmo modo a frágil resistência contra a bruxa era incapaz de se organizar porque incapaz de reconhecer a grandeza dos seus valores.

Todavia, mais importante do que procurar referências diretas ou indiretas ao cristianismo, é entender como a nossa imaginação moral é rica em sua diversidade e extensão. A Civilização nos formou de tal modo que anões, fadas, bruxas e princesas nos falam de virtudes e princípios universais, ensinamentos e contos que antecedem ao cristianismo, mas que encontraram a sua plenitude na mensagem evangélica.