sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Gilberto Freyre, Lisboa e Batinas

Sou dos que sentem em Lisboa a falta de padres magros e frades gordos a descerem pacatamente ladeiras, a saírem docemente de igrejas, a atravessarem hieraticamente praças e não apenas a dizerem burocraticamente missas no interior de igrejas e capelas. Padres e frades fazem falta à Lisboa de hoje: aos conventos secularizados e às ruas aburguesadas

Não é que a sua ausência seja absoluta. Aparecem. Mas tão rara é sua presença que também neste particular a Lisboa de hoje nos dá a impressão de vir sofrendo uma reforma suíça nos seus hábitos e nos modos de ser. Uma reforma suíça que fosse também uma Reforma Protestante; e que viesse diminuindo o número de padres católicos nas ruas, depois de ter fechado os conventos e acabado com os frades e as freiras.

Sem frades a saírem dos conventos e sem padres a atravessarem as ruas, Lisboa nos dá a impressão de incompleta, de deformada, de mutilada. Os raros padres que hoje se vêem na capital portuguesa, outrora tão opulenta deles, são poucos para darem a Lisboa a nota pitorescamente clerical que a sua paisagem pede, que sua tradição católica exige.

É que, dos padres que se avistam hoje em Lisboa, quase todos parecem ser padres apenas pela metade, trajados, como são, à maneira protestante. Os tradicionais hábitos talares substituídos por simples sobrecasacas ou mesmo burguesíssimos casacos. Um ar burocrático, e de modo algum teocrático ou sequer clerical, é o desses padres com aparências de semipadres. Só sé excetuam os “inglesinhos”.

Fazem falta a Lisboa boas e completas figuras de padres e de frades. Padres ortodoxamente vestidos de padres. Frades na sua variedade de hábitos e insígnias. 

Gilberto Freyre em "Aventura e Rotina"

domingo, 16 de fevereiro de 2014

"Caçadores de Obras-Primas": imaginação moral paras as massas

O filme “Caçadores de Obras-Primas” é uma ode à imaginação moral, à tradição, à Civilização Ocidental, à Igreja.  É um filme com claros ensinamentos, mas sem caráter panfletário. Tendo como pano de fundo uma história verídica, a produção pretende instigar nos espectadores o despertar para um mundo – tristemente – desconhecido: a cultura ocidental. Alguns talvez esperassem um filme com grandes cenas de ação. Ficarão decepcionados. A história tem até mesmo um ar “monótono”. Para falar da arte ninguém precisa de explosões e carros em alta velocidade. Uma cena na Igreja de Bruges vale mais do que milhares de tonéis em chamas.

Para alguns, “Caçadores de Obras-Primas” pode parecer apenas mais um filme tendo como temática a II Guerra Mundial. O primeiro grande erro é justamente não entender que a história ali retratada é nossa. Qualquer ocidental minimamente consciente deve se apossar dos sentimentos daqueles homens que heroicamente se ofereceram para a nobre missão. A urgência daquele projeto não atinge apenas críticos de arte, arquitetos e escultores, mas todo homem que foi formado sob a égide das instituições e valores da Civilização.

O filme, nesse ponto, é impecável. Ele está muito consciente da sua proposta “civilizatória”. A arte é apresentada não como um capricho de eruditos europeus, mas como o legado perene da humanidade. A sua universalidade é justamente o que faz dessa experiência espiritual-estética atemporal. O que está em jogo não são os museus. O que está em jogo é a identidade ocidental. Esta se mantém viva tanto nas paredes dos grandes acervos, como nas piedosas e antigas imagens que durante séculos foram alvos das fervorosas orações do povo nas igrejas do interior europeu.

Eu aprendi mais sobre a noção de “imaginação moral” lendo as poesias e as peças de T.S. Eliot do que me debruçando sobre livros teóricos (que também são importantes).  Aprendi com o poeta que um soneto ou uma tela podem conter mais reflexão ontológica do que séculos de debates estéreis. Essa comunhão de almas, o “contrato da sociedade eterna” de Burke ou a “democracia dos mortos” de Chesterton, é o que possibilita a vivacidade de uma Civilização. Não me espantaria se descobrisse hoje que Eliot escreveu alguma breve poesia sobre o sequestro e recuperação da Madonna de Bruges. Ele certamente acompanhou com aflição a perversão cultural nazista.

Alguém pode se perguntar o que a destruição do “Políptico de Ghent”, pitado por Jan van Eyck, mudaria em nossas vidas. Olhando do ponto de vista puramente pragmático, e portanto com um olhar moderno, pouco importa se essa obra está inteira ou em ruínas. A nossa existência não seria atingida em nada pelas chamas que arrasariam a pintura. Contudo, quando nos entendemos como parte dessa comunhão de almas e herdeiros de uma tradição viva pelo espírito e pela carne, contemplar o fim de uma obra de arte é assistir o extermínio daquilo que de mais elevado foi produzido pelo homem. Não pelos homens, mas pelo homem, conceito universal, que abarca a todos: eu, o meu vizinho, Jan van Eyck e a senhora do interior do Piauí. Todos são sócios dessa experiência de totalidade, de eternidade.

O filme retrata justamente esse testamento espiritual que torna cada homem herdeiro daquilo que fez – e faz – de nós homens ocidentais.  Ainda que uma geração inteira seja destruída, ainda será capaz de se levantar. Contudo, se a sua cultura e a sua história são aniquiladas, extingue-se a sua identidade e se incapacita o seu ressurgimento. Esta é a mensagem claramente transmitida em “Caçadores de Obras-Primas”. Ao final do filme, o ancião acompanhado do jovem se encontra diante da Madonna. Valeu a pena tanto esforço, tantos riscos e algumas mortes. Ali, na imagem esculpida pelas mãos delicadas de Michelangelo, eternizava-se o espírito do homem tocado por Deus. 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

A ascensão do xiismo e o nascimento do Irã

Xá Ismail I
O Irã talvez seja um dos países mais presentes no noticiário internacional. Além da compreensão obtusa a respeito da nação persa, há um desconhecimento tamanho sobre o xiismo e como este se estabeleceu na região. A história do surgimento do Império Persa pós-islâmico está atrelada ao nascimento da identidade xiita-iraniana. O reino dos Xás se tornou numa ilha tomada pelo mar sunita, tendo ao seu redor o Império Otomano e os reinos usbeques. Ainda que o xiismo tenha sido em grande medida imposto pela força, foi fator crucial para a criação de uma forte e hegemônica identidade, salvando o Irã do expansionismo turco. 

Antes do triunfo dos safávidas, a maioria da população iraniana era sunita da escola shafi e hanafi.  O Irã era conhecido por ter diversos centros de formação, inclusive acolhendo, ironicamente, Ulemás vindos do Império Otomano, que depois se tornará no seu maior inimigo. O xiismo havia se tornado numa vertente cada vez mais escusa do islã, e mais voltada para a mística e para a reflexão, desde que o Califado Omíada tornou os seus seguidores em cidadãos de segunda classe. Os xiitas também estavam ligados às ordens sufis, muitas das quais tinham no Imam Ali a maior fonte de sabedoria transcendente. O massacre de Karbala, quando do vergonhoso assassinato do Imam Hussein, neto de Muhammad, e sua comitiva, não apenas gerou um rompimento total entre sunitas e xiitas, como criou um trauma histórico.

Quem mudará de vez o cenário religioso iraniano será Ismail I (1487 – 1524), o fundador da dinastia safávida. Nascido no Azerbaijão, de origem azerbaijana, curda, persa, turca a e grega, Ismail cresceu dentro dos paradigmas da poderosa ordem sufi safaviyya , fundada pelo seu ascendente direto, Sheikh Safi-ad-din Ardabili – de onde provém o nome da ordem e da dinastia.  Com a invasão do Azerbaijão Iraniano, o jovem Ismail, depois do assassinato de seu pai, passou alguns anos escondido em Gilan, onde provavelmente teria tido contato com algum erudito xiita. Até hoje não se sabe ao certo como ocorreu o processo de conversão de Ismail. Provavelmente ele se sentiu fortemente impactado com o corpo doutrinário do xiismo e fascinado com a sua rica tradição. Ademais, enxergou na fé xiita uma eficaz ferramenta para a criação de uma identidade persa independente, isto é, islâmica mas ao mesmo tempo desvinculada dos grandes impérios em ascensão. Diz a tradição que a filha do último Imperador Sassânida, Yazdegerd III, casou-se com o quarto Imam do xiismo, Imam Hussein Ibn Ali. Como os safávidas tradicionalmente se proclamavam Sadah, isto é, descendentes de Muhammad, Ismail usou dessa valiosa informação para unificar na nova dinastia iraniana a glória da Pérsia pagã com a fé muçulmana.

Tornando-se guia da Ordem Safaviyya, Ismail a transformou numa poderosa força política e militar, voltando-se contra os reinos que existiam na região do Azerbaijão e do Irã. Em 1501 ele é entronizado como Xá do Azerbaijão e em 1502 toma o título de Xá da Pérsia. Ainda falando uma língua turca, Ismail não quis tomar para si o título de “Khan”, que sempre foi de uso recorrente pelos povos mongóis e em seguida turcos da Ásia Central. Ao retomar o título de “Shahanshah” – Rei dos Reis- Ismail reafirma o seu vínculo com a cultura e identidade persa. Resgatará, inclusive, a tradição imperial do Irã antigo invocando a idéia de “farr” – glória divina – como parte constitutiva do trono. Para os adeptos da Ordem Safaviyya, o Xá Ismail também acumulava o título de “Morshed” – líder espiritual.

Ismail, agora soberano de um vasto império, iniciou um sistemático processo de “xiitização” do território. Com a necessidade de clérigos xiitas para a realização de tamanha incumbência, o Xá importou ulemás vindos da Síria, do Iraque, especialmente depois da invasão de Bagdá em 1508, e até do distante Líbano. Essa luta quase pessoal pelo fim do sunismo na Pérsia era movida por um fidedigno ardor religioso, mas também tendo como fim a criação de uma coesa identidade iraniana. Havia um forte ressentimento étnico, já que no califado árabe os persas eram vistos como escória e impedidos de ter cargos administrativos nas suas próprias províncias, como também um ódio direcionado ao Sultanato Otomano, guardiões do sunismo. Essas duas forças incrementariam a tensão étnica-religiosa entre turcos-sunitas e persas-xiitas. 

Os navegadores europeus, como Ludovico di Varthema e Tomás Pires,  notaram o como na Pérsia de Ismail I os sunitas eram cidadãos de segunda classe, sofrendo duras perseguições.  O navegador português Afonso de Albuquerque, desconhecedor das nuances próprias do islamismo, chegou a acreditar que o Xá da Pérsia era um instrumento de Deus para a destruição do islã, já que presenciou a demolição de mesquitas sunitas. Essa primeira impressão talvez tenha fincado as bases da amistosa relação que se desenrolou durante séculos entre as nações da Europa e o Império Persa, inclusive da própria Igreja, que com o Papa Gregório XIII mostrou-se interessada em ajudar militarmente o Xá, despachando para Tabriz um embaixador. Carlos V da Espanha e Luís II da Hungria também se prontificaram numa aliança iraniana-européia. Havia uma união estratégica contra os avanços otomanos, o inimigo em comum.

Ainda que os clérigos xiitas tivessem um papel importante no comando do império, este não era propriamente uma teocracia. O governo da Pérsia era uma simbiose de tradições políticas do Irã antigo com concepções islâmicas da lei. Ismail não apenas queria tornar a Pérsia numa nação xiita, mas num asilo seguro para todos os seus seguidores espalhados pelo mundo. A participação de ulemás árabes xiitas no processo de construção dessa identidade foi fundamental. Com o Xá Abbas I, o Grande (1571 – 1629), essa importação se incrementa ainda mais com o propósito de espalhar pelo império centros de ensino e educação. Será sob o seu governo que o xiismo se consolidará em todo o Irã, ainda que Nader Shah (1688 – 1747), fundador da dinastia asfharida que derrubou os safávidas do trono persa, tenha tentado décadas depois retomar o sunismo no país através de uma política anti-xiita. Incapaz de atingir o seu objetivo, Nader Shah propôs uma mitigação do xiismo, buscando atingir um ponto de convergência maior com os sunitas, o que possibilitaria que a fé xiita fosse compreendida como apenas uma subdivisão interna do sunismo. Nisso também foi mal sucedido e a sua dinastia só duraria mais três gerações.

O Império Otomano, como guardião da ortodoxia sunita, sempre esteve motivado na luta contra a “heresia” xiita. Esse atrito foi fator importante na formação do espírito nacional iraniano.  Contudo, mais do que as tensões políticas, que apenas refletiam as tensões religiosas, foi o xiismo, acompanhado de suas marcas mais particulares, que tornou o Irã no país que hoje ele é, formando o ethos persa-islâmico. Isso fez com que a Pérsia se tornasse numa nação com características muito próprias. Ao final desse longo processo de disseminação e consolidação do islamismo xiita, toda a população do planalto iraniano já tinha se convertido. A geografia favoreceu o isolamento de minorias sunitas não-persas ao longo das fronteiras e em grande parte os limites entre o Irã e seus vizinhos, como Turquia e Afeganistão, foram demarcados tendo como medida a religião e não a etnia. 

A Pérsia é um país muito singular e com uma história complexa que fez dessa nação a mais diversa do Oriente Médio. Por conta de sua marca religiosa, sempre esteve à margem dos movimentos que se disseminaram pelo resto do mundo islâmico, como a Fraternidade Muçulmana, no Egito, e o wahabismo, na Arábia Saudita. O xiismo fez com que todo o desenvolvimento político do Irã recente, em especial a Revolução Islâmica, transcorresse muito originalmente, vinculada com as suas próprias tradições. Apenas através de tal prisma, partindo da cosmovisão xiita, compreendendo a riqueza teológica, filosófica e humana desse ramo do islamismo somada ao conhecimento da saga histórica da Pérsia antiga e moderna, é possível entender o Irã contemporâneo de modo verossímil, a República Islâmica, o país dos Ayatollahs.