
Pedro Ravazzano
O homem é, como pensara Xavier Zubiri, a sua própria realidade. Entretanto, é somente por meio dos seus atos que vai fazendo a figura do Eu, atualizando-o enquanto realidade substantiva. Por isso, o pensador espanhol entendera o Eu como um ser absoluto, não obstante, adquirido e cobrado, então relativamente absoluto. Assim, dentro dessa condição aparentemente paradoxal, brota a inquietude do homem que está fundamentada na própria realidade pessoal e dá origem à voz da consciência.
Enquanto realidade vital, isto é, baseada na “suidade” do sujeito, o homem não é absolutamente absoluto – apenas Deus o é. Contudo, pode ser, então, pensado como absoluto diante da realidade outra, por isso relativamente. Nesse sentido Xavier Zubiri entende o homem como destinado a ter uma abertura à realidade e, conseqüentemente, a Deus. Ora, ao pensá-lo como absoluto, isto é, “soluto”, “solto” – “ab-soluto” – não o faz numa absolutez em si mesma - “Frente a toda realidad en cuanto realidad soy Yo quien soy. En su virtud, el ser del hombre, su Yo, es un ser “ab-soluto” . Absoluto porque es mio, y porque está determinado em función de “la” realidad simpliciter.” - Ao contrário, essa condição se faz mediante a um absoluto frente ao cosmos e ao mundo, portanto um momento relativo a.
Nesse sentido, Zubiri retoma uma reflexão filosófica que abarca a transcendência dentro da realidade, isto é, o reconhecimento da condição religada mediante o anterior reconhecimento do caráter humano e da sua incapacidade de repousar em si mesmo. Ou seja, existe essa realidade apoiada na qual há o que faz que haja. Assim, podemos falar da abertura do homem à realidade na qual, inexoravelmente, descobre-se como religado.
Este ser absoluto que es el Yo, es, sin embargo, algo cobrado. En su virtud, diremos que el Yo es el ser “relativiamente absoluto”. Relativamente, porque es un ser cobrado; pero absoluto en el sentido que acabamos de explicar. Y como lo cobrado es absoluto resulta que el hombre está radicalmente inquieto en la vida. Y como esta inquietud se halla constitutivamente inscrita en mi realidad en cuanto realidad, resulta que es esta realidad la que clama en aquella inquietud. Este clamor es la viz de la conciencia. La voz de la conciencia es el clamor de la realidad camino del ser absoluto. La realidad se me hace presente como noticia em la voz de conciencia.
A inquietude radical do homem é reflexo dos questionamentos que tomam o mais profundo do ser, perguntas que abarcam a completa existência e se formam a partir desse caráter relativamente absoluto, isto é, da necessidade de moldar a sua realidade vital pessoal de modo relativamente absoluto, já que “la vida personal del hombre consiste em poseerse haciendo su Yo, su ser, que es un ser relativamente absoluto, um absoluto cobrado.”
Contudo, no contexto histórico-cultural moderno, essa condição é ofuscada pelos devaneios ideológicos e pela força do sentimento que impede a correta maturação do juízo. O ateísmo, indiferentismo religioso, consumismo, individualismo, vem minar a estrutura fundante do Eu, ou seja, tais projetos desconstroem o caráter aberto da racionalidade, o aspecto transcendente da realidade.
O Outro que me faz, deste modo, quando não expurgado da sociedade atual é reduzido a um papel de total distanciamento da realidade. Assim, a modernidade tende para o secularismo indiferentista de caráter deísta/ateísta ou, então, às filosofias e pensamentos de sabor gnóstico que buscam, mediante a afirmação das misérias do mundo, reformular, repensar e reordenar a realidade partindo dos pressupostos e preconceitos. Consequentemente a inquietude intrínseca à condição humana é anestesiada e a voz da consciência tolhida. Destarte, redescobrir o Outro, ou seja, reconhecer a nossa condição de homens abertos à realidade, é despertar do sono letárgico do mundo moderno.