domingo, 31 de agosto de 2008

Para rir

Isso que é exemplo de burguesia consciente, burguesia que quebra os grilhões da ideologia e se alia ao proletariado na luta. Quase igual ao filho do advogado Hirschel Marx, o também Doutor em Direito Karl Marx, aquele que era casado com a Baronesa von Westphalen, primo de Anton Philips (o fundador da Philips) e amigo do industrial Engels. Só gente do povo, como percebem!

Pedro Ravazzano

Educação Liberal e Cultura Universitária

Ricardo Almeida

Não se entenda por educação liberal uma pedagogia tributária do conjunto heterogêneo de doutrinas que recebem o título algo apologético de “liberalismo”(1). E não vamos confundi-la, pelo lado oposto, com alguma coisa vagamente relacionada à esquerda dos EUA, onde a palavra liberal significa esquerdista. Sem ser um privilégio da esquerda ou da direita, e, aliás, tendo sido defendida justamente por um esquerdista e por um conservador irmanados em torno da mesma idéia, a educação liberal paira acima dos partidos e das convenções ideológicas. Para além do esquematismo dogmático, a educação liberal apresenta-se, sobretudo, como proposta aberta e livre de preconceitos, como método de estudo integral e compreensão do mundo que se realiza precisamente na consciência de uma personalidade bem formada e sadia.


Apenas há de se saber que a educação liberal serve perfeitamente aos objetivos da democracia. A idéia de sociedade democrática supõe a livre discussão entre seus membros; sem esta liberdade de discussão que se concretiza na liberdade de ação política dentro da órbita do justo e racional admitido pelo Estado de Direito, não há e nem poderia haver democracia. A democracia está intrinsecamente ligada à livre discussão. Por outro lado, sem uma forma de discriminar entre um ponto de vista superior e um ponto de vista inferior, entre uma opinião mais razoável e outra menos razoável, a discussão democrática perderia o sentido, pois cada qual reivindicaria a razão para si e afirmaria seu próprio ponto de vista como superior aos demais pelo simples fato de ser o seu ponto de vista. A inexistência de alguma forma de arbitragem racional da discussão retira da discussão todo o seu sentido e propósito e a transforma numa disputa de egos onde vale apenas o discurso mais sedutor e agradável. Como cada qual acha a princípio o seu próprio discurso o mais sedutor e agradável de todos e apenas se convence do discurso alheio porque considera algum critério capaz de validá-los, então a conseqüência rigorosa do relativismo epistemológico total é a dissolução do propósito da discussão e o próprio fim da democracia que nela se apóia.

Contrapondo-se a esta dissolução perigosa, a educação liberal pode proporcionar uma base para a discussão racional numa sociedade democrática e livre. Neste sentido, pode-se falar num significado político da educação liberal que enraíza-se na noção clássica de política como atividade em busca do bem comum da polis. Esta atividade, independente do conteúdo doutrinário que a dirija, será tanto mais exitosa quanto mais estiver apoiada na visão adequada dos problemas contemporâneos e de suas soluções possíveis. E é justamente este entendimento do mundo contemporâneo, onde o aspecto político é apenas um entre tantos, o que esta nova paidéia nos vem possibilitar. Por isso mesmo pode e deve ser aproveitada por todas as escolas e todos os partidos, embora alguns pontos básicos de sua proposta examinados à luz dos pressupostos filosóficos mais gerais que lhes sustentam, dificilmente poderão ser conciliados com certas doutrinas e ideologias.(2)

Como dizíamos, por educação liberal entendemos certo projeto pedagógico bastante amplo, aplicável em princípio a toda e qualquer realidade política. Acrescentaremos que uma tal pedagogia pode ser aplicada a qualquer realidade educativa, mesmo as mais afastadas dos moldes anglo-saxônicos onde ela nasceu. Foi este projeto, desde sua criação, coroado por sucesso nos mais diversos contextos sócio-políticos e culturais para os quais o trouxeram - o que basta para confirmar a tese de sua universalidade. E foi ainda o principal baluarte da resistência da cultura universitária norte-americana à queda na barbárie tecnicista e na especialização imbecilizante – suficiente para considerá-lo uma novidade auspiciosa em nosso país, tradicionalmente avesso ao pensamento sistêmico e a interdisciplinaridade nas universidades. As principais universidades americanas têm “Colleges of Liberal Arts”, onde os estudantes se detêm em investigações gerais orientados por este método e adquirem a visão retrospectiva das tradições intelectuais do Ocidente. Tornam-se, assim, capazes de manter a alta conversação da cultura universal, em cujo lastro se apóiam todas as demais atividades da civilização.

Não estamos falando de uma fórmula como a demagógica “educação para a cidadania”, seja lá o que isso queira dizer no vocabulário dos ideólogos do dia, mas sim um projeto bem definido de alguém que estudara num programa de leitura dos clássicos e recebera neste programa uma formação incomparavelmente mais refinada do que a ministrada nas universidades da época. Este homem, Mortimer J. Adler(3), havia notado a decadência das instituições de ensino americanas. Então, baseando-se na sua experiência pessoal de leitura dos clássicos, Mortimer J. Adler resolveu elaborar um vasto programa de estudos cuja idéia básica era transmitir ao aluno o conhecimento dos grandes problemas científicos, filosóficos e artísticos do Ocidente mediante a leitura dos autores essenciais da civilização ocidental. Naturalmente, a leitura destas obras se aprofundava mais e mais, em vários níveis descritos por Adler minuciosamente no famoso livro How to Read a Book, alargando-se em esferas concêntricas até abarcar todo o horizonte da cultura dos séculos passados. Com isso, abriam-se os olhos do aluno à realidade vivente de sua própria tradição.

Dizia Hutchins (parceiro de Adler no projeto e o primeiro a levá-lo para uma universidade) que um homem que lesse todos os livros em sua juventude e não retornasse a eles na idade madura nada haveria compreendido. Pois a educação liberal não é um método de pedagogia escolar, embora possa e deva ser oferecido aos estudantes desde idade noviça. Apenas não deve parar na juventude, mas prosseguir durante o resto da vida de um homem. Insuflado pelo espírito dos séculos o sábio conduz a si mesmo por todas as épocas sem que sinta-se preso a esta ou àquela época em especial. Assemelha-se a tal sábio o indivíduo que tenha realizado plenamente o ideal de educação liberal. Sondando todas as épocas com o olhar agudo de quem jamais se surpreende porque tudo contempla, o homem plenamente educado deixa-se enamorar-se pelo espetáculo deslumbrante do espírito humano em suas construções mais finas e em seus abismos vertiginosos. Educação para a sensibilidade profunda e para a comunhão com a sensibilidade dos homens de todas as épocas, a educação liberal também guarda um valor sólido como escudo às alternativas espúrias que a contemporaneidade pode vir a oferecer, e acostuma o indivíduo a buscar a solução dos problemas não na superfície da atualidade, mas por entre os veios profundos da História Universal. É, pois, uma educação da sensibilidade histórica.

Tal método, contudo, tem por objetivo formar no aluno a capacidade de discutir com mais inteligência os problemas contemporâneos, uma vez encaixados no panorama histórico maior da civilização. Evidentemente, este método tem alguns pressupostos básicos bem razoáveis. 1) Ele dá por pressuposto que a maioria das discussões importantes é mais antiga do que todos nós e remonta há séculos e milênios atrás. 2) Toma como certo o fato de que as tais discussões importantes haviam sido tratadas por homens importantes, que a importância destes homens residia justamente em havê-las pensado com especial rigor e originalidade e, finalmente, que as contribuições fornecidas por estes homens eminentes à história do pensamento podiam de algum modo ser compreendidas em nossa época, malgrado a distância temporal separando o aluno daqueles cujas contribuições deveria absorver e interpretar à luz das artes liberais. 3) Acredita que o cânone ocidental, salvo exceções raríssimas, está em perfeito acordo com a importância real dos autores do passado 4) Considera possível assimilar e converter em conhecimento personalizado o saber de várias áreas científicas. 5) E, finalmente, enxerga nestas artes liberais, reunidas no trivium (gramática, dialética e lógica) e no quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia) os instrumentos necessários para que o indivíduo realize a análise e a síntese dos conhecimentos adquiridos na leitura dos clássicos.(4) Estes pressupostos lastreiam todo o esforço do estudante universitário em conquistar patamares cada vez mais altos na compreensão e na personalização dos clássicos.

A universidade é desde há muito o locus privilegiado da formação da elite culta, da intelectualidade mundana que hoje orienta os destinos culturais e, conseqüentemente, sociais e políticos das nações e da civilização como um todo. Daí a importância pragmática imensa da formação de uma verdadeira elite intelectual, formação que só é possível através da compreensão em perspectiva da sua própria tradição, sem a qual o indivíduo se perde nas malhas da história e não é capaz de elevar-se ao cosmopolitismo mental do homem versado nas várias tradições e nos vários saberes. O provincianismo dificulta a solução dos problemas da sua própria época, pois estes problemas exigem uma visão ampla e panorâmica da sociedade. Por outro lado, o indivíduo ignorante do exato ponto em que as discussões sobre um dado tema estão dificilmente conseguirá responder às perguntas que exigem um conhecimento para além da realidade mais imediata.

Com efeito, as universidades já não são mais capazes de fornecer uma elite intelectual. O estudante universitário, bem viu Adler, é acrítico num sentido mais profundo que o político. Ao estudante falta-lhe a consciência da dimensão histórica de sua missão, cujo malogro resulta, em última análise, no enrijecimento da cultura em ideologias simplórias e em certos modismos lúdicos típicos das civilizações crepusculares como o eram os jogos florais entre os últimos romanos. Perdido o laço que une cultura e vida, que se expressa sempre por aquela sacra reverência em relação às grandes realizações do passado bem como pela aspiração à mesma grandeza futura, não resta no altar da Inteligência sacrificada à ideologia senão os restos mortais de uma ciência cujo desenvolvimento mais lustroso em nada poderá compensar a perda do espírito filosófico que animava seus antigos cultores. Realmente, uma só censura não será feita quanto ao progresso das ciências, progresso digno do maior apreço. Mas quem o celebra não se esqueça, por favor, de medir o que perdemos em espírito filosófico e em unidade das ciências, todo o vasto saber dos séculos reunidos nas obras clássicas que hoje passam por leitura difícil e insípida. Restaurar o sentido da tradição ocidental, recobrar o espírito filosófico que se dirigia à compreensão integral das ciências realizada na unidade consciente de uma personalidade tornada espelho do mundo, e capacitar o indivíduo para a alta conversação da cultura - eis o conjunto de finalidades da educação liberal e, a rigor, a medida exata da sua importância e grandeza.

Notas:

1 Apesar de não estar vinculada por princípio a nenhuma ideologia política determinada e tendo sido inclusive defendida por dois homens de ideologias opostas, Mortimer J.Adler e Robert Hutchins, o primeiro conservador e o segundo liberal - na acepção americana do termo –, concretamente, pode-se verificar convergências entre o projeto pedagógico de Adler e o liberalismo, tal como ele foi teorizado por sua principal vertente desde o século XVIII. Em primeiro lugar, dos três grandes modelos universitários da nossa época, os que melhor se encaixam na proposta de Adler são obra de liberais e conservadores-liberais. Logo temos como exemplo a Universidade de Berlim, fundada pelo teórico liberal Wilhelm von Humboldt, onde predominava o casamento tipicamente alemão entre pesquisa e magistério, com amplo espaço para a formação variada de uma intelectualidade ainda acostumada com certos privilégios medievais que a modernização conservaria. O outro modelo é o das universidades britânicas e tem por idealizador o clérigo John Henry Newman, figura de proa do conservadorismo inglês, cujas idéias pedagógicas aproximam-se em diversos pontos das de Adler. Newman encontrava-se igualmente empenhado em restaurar a formação integral, desinteressada, do estudante. Esta formação científica, mas sobretudo artística e filosófica, visava ao mesmo ideal de Mortimer Adler, - a formação de uma elite culta e profundamente identificada com tudo o que é do espírito e da civilização. Por fim, o terceiro modelo, proveniente da reforma da Universidade de Paris em 1814, já se encontra a léguas de distância do ideal de educação liberal, pois submete a atividade universitária aos critérios de eficiência do Estado e, posteriormente, aos critérios ainda mais estreitamente utilitários das corporações privadas. Se acreditarmos com F.Hayek que o liberalismo genuíno contrapõe-se ao racionalismo construtivista, o qual teve na Revolução Francesa seu marco histórico mais vultuoso, dificilmente poderíamos considerar a reforma estatista da educação francesa como uma reforma liberal, sobretudo quando se conhecem as convicções ideológicas autoritárias do autor das tais reformas: ninguém menos que o próprio Napoleão Bonaparte. Para nosso grande infortúnio, foi este o modelo universitário adotado pelo Brasil, onde há notória influência francesa na educação.

2 Aqui não é lugar de argumentar contra o reducionismo ideologizante de alguns. Apenas observamos, de passagem, que os argumentos de que estes mestres da malícia se utilizam contra filosofias e teorias alheias jamais são contrapostos às suas próprias teorias por eles mesmos como seria de se esperar. Assim, o pensador que identifica em teorias adversas a expressão subjetiva das fraquezas e ressentimentos do indivíduo que as criou, raramente fará esta sondagem psicológica demolidora contra as suas próprias concepções ou fará apenas em relação às idéias que tinha e superou. A um observador imparcial lhe surpreende a pressa indecente com que certas concepções são postas de lado em razão da suspicácia maliciosa que tudo reduz a um jogo de forças para além da consciência individual, ao determinismo de classe ou às pulsões do inconsciente, ou ainda pior, aos ressentimentos e às neuroses do defensor da teoria x ou y, como se houvesse um meio de saber com segurança qual o estado psicológico do indivíduo que defende a teoria x ou y. E como se o raciocínio que tem por objetivo investigar estes estados pudesse, mesmo quando correto, elevar-se acima de um raciocínio meramente probabilístico.

3 Perda irreparável para o mundo, sua morte há alguns anos passou quase despercebida no Brasil, exceto por algumas breves notas cronológicas e dois ou três artigos de maior fôlego celebrando-lhe a memória. É um sintoma de quanto o país está afastado das principais referências teóricas e se compraz no louvor de figuras menores. Embora desconhecido do público geral, é dele a coleção magnífica da Enciclopédia Britânica “Great Books of Western World”. E é justamente esta coleção de livros a base da educação cívica proposta por Adler.

4 As artes liberais não subsistiam exatamente em sua formação original, mas haviam sido adaptadas para a realidade moderna pelo próprio Adler com a finalidade de dar ao aluno o suporte intelectual para compreender os clássicos. Essenciais á cultura da época, elas habilitavam o homem medieval a pensar na base das realidades numérica e verbal para que, superando-as pela meditação religiosa e pela teologia, ele pudesse ir além delas chegando à realidade transcendente. Sem este sentido transcendentalista já as encontramos na antiga Grécia e sua formulação organizada deve-se aos sofistas.

Da célula-tronco ao aborto à eutanásia à eugenia‏

Não passa de uma sequência inevitável: o raciocínio, externado pelo Excelentíssimo Ministro do Supremo, de que existem vidas "improváveis" ou "indesejadas", e que devem ser "discutidas", e quem sabe, eliminadas, nos permite aceitar, de início, o sacrifício de células-tronco embrionárias, depois, o aborto de anencéfalos, depois o aborto por "conveniência"; depois, a eutanásia. Por fim, chegaremos ao raciocínio final: não existiriam, também, características de comportamento, criminais, sociais, políticas, que sejam igualmente "inconvenientes" ou "indesejadas" à sociedade? Por que não eliminá-las?

Na prática, a liberação aparentemente bem-intencionada de sacrificar embriões em prol da pesquisa científica (qualquer semelhança com o sacrifício de bebês aos deuses da antiguidade não é mera coincidência: nesse caso, ao deus Ciência) não passava do início planejado de uma cadeia de decisões judiciais (que, na prática, são novas leis, e que deveriam, por isso, estar sendo discutidas no plenário, e não em tribunais) que culminará, se não for interrompida, na legalização da eugenia: só os fortes, saudáveis, "completos", "desejáveis", sobreviverão.

Adilson Boson

Salvador - Bahia

O mistério e a moralidade do mercado – explicados!

por Fr. Robert A. Sirico

Uma mãe pede ao filho para ir ao mercado e comprar um pouco de pão. Um banqueiro de investimentos pede ao colega para informar como está o mercado de ações. Um fabricante pergunta ao consultor se há um mercado para um determinado produto novo. Dados os diferentes usos da palavra mercado, não é de se admirar que as pessoas sempre se confundam com o significado do termo “o mercado”?

Ronald Nash (professor de filosofia no Seminário Teológico Reformado em Orlando, na Flórida), no livro Pobreza e riqueza, define o mercado como “um conjunto de procedimentos ou arranjos que prevalecem numa sociedade que permite as trocas voluntárias”. Explicado de outro modo, segundo Nash, “o mercado é a estrutura de hábitos e regras na qual cada troca voluntária específica, em cada mercado específico, acontece”. O mercado não é “um lugar ou uma coisa específica”, nem é “simplesmente a coletânea de mercados particularesnos quais os bens e serviços são trocados”. Em vez disso, segundo Nash, aquilo que chamamos de “o mercado” é uma “ordem espontânea e impessoal na qual os seres humanos individuais fazem escolhas econômicas”.

Nash explica que o mercado é como um modelo de tráfego urbano. Ao longo do tempo a cidade cresce, e o modelo de tráfego emerge, na medida em que os motoristas respondem às grades postas nas ruas, aos sinais de trânsito, às placas de sinalização, dentre outros. É algo impessoal, se considerarmos que se aplica a todos igualmente,contudo, é espontâneo, pois envolve um processo de erros e acertos. Além disso “ao passo que o padrão de tráfego estabelece regras, as pessoas ainda têm um certo grau de liberdade na forma como e para onde dirigem”. Dessa forma o padrão de tráfego produz ordem, previne acidentes e permite a liberdade. O mercado funciona da mesma forma. Certas regras – proibindo a coerção, a força, a fraude, o roubo, dentre outros – estabelecem o contexto das transações econômicas, e o mercado desenvolve na medida dem que as pessoas compram e vendem.

Raramente se compreende de forma clara o que significa uma economia de mercado. O mercado, ainda que possua virtudes práticas, permanece moralmente neutro em essência, e assim, precisa de uma estrutura moral maior para operar de modo ético. O termo “o mercado” na realidade é uma metáfora. A rede de trocas que chamamos de mercado é, na verdade, um processo enraizado na ação e escolha humanas, e reflete a variação e os valores subjetivos que os atores do mercado possuem.

Dessa forma, o mercado se torna uma ferramenta potente para a difusão do conhecimento ao comunicar os verdadeiros custos dos bens e serviços. No entanto, seria um erro pensá-lo como detentor de uma ética própria.

João Paulo II expressa tal compreensão do relacionamento entre moral e mercado na carta encíclica Centesimus Annus. Explica o papa “a atividade econômica, em particular a da economia de mercado, não se pode realizar num vazio institucional, jurídico e político” (48). Dessa maneira o papa afirma um “sistema econômico que reconhece o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no setor da economia”, mas rejeita categoricamente “um sistema onde a liberdade no setor econômico não está enquadrada num sólido contexto jurídico que a coloca ao serviço da liberdade humana... cujo centro seja ético e religioso” (42). Em outras palavras, o livre mercado, para permanecer adequado à pessoa humana deve ser mediado por uma ordem política e uma cultura saudável.

É fundamental para os defensores do livre mercado entenderem essa conexão entre cultura e mercado. O mercado não funciona no vácuo. Requer um contexto jurídico, cultural e social. Por exemplo, muitos críticos advertiram a respeito do perigo da libertinagem numa sociedade de livre mercado. Em geral, esses críticos apontam que vivemos numa época em que tudo está à venda, até mesmo coisas como o corpo humano – e isso não deveria ocorrer. Essa libertinagem, contudo, não deriva da natureza do mercado, mas de nossa situação cultural e histórica particular. Assim, a aparente aliança entre livre mercado e libertinagem pode ser substituída por uma aliança entre o livre mercado e uma filosofia adequada da pessoa humana – que leve em conta a dimensão valorativa moral e espiritual da pessoa humana.

Por definição, não podemos escolher viver num mundo sem mercados. Mas podemos escolher que tipo de mercados iremos desenvolver. Serão livres ou planejados? Promoverão um ambiente favorável para a virtude ou oferecerão oportunidade para a violência e a corrupção? Responder a tais questões e esforçar-se para estabelecer mercados que sejam livres e virtuosos são tarefas válidas para todos os cristãos preocupados com a justiça e a correção dos mercados, da política e da cultura.

Pedro Ravazzano

sábado, 30 de agosto de 2008

Todo mundo quer o Lula

A corrida pela prefeitura de Salvador tem gerado uma Lulofilia nos candidatos. Todo mundo quer o Presidente, todo mundo quer ser compadre do homem. João Henrique, do PMDB, e Walter Pinheiro, do PT, praticamente concentram a campanha em repetir como mantra o nome do Presidente, reafirmar que o Governo Federal e a futura prefeitura serão mais do que aliados (No caso do petista Pinheiro você até acredita que Lula vai governar Salvador). Até mesmo Imbassahy, o candidato do PSDB, entra na folia. Talvez para não escadalizar, afinal é necessária manter a aparência (os tucanos devem parecer que são oposicionistas, direitistas conscientes, defensores do Livre-Mercado ("neoliberalismo"), do conservadorismo moral etc) o ex-prefeito Antonio Imbassahy só dispute a imagem do Governador. Também pudera, Jaques Wagner subiu em todos os palanques dizendo que ficaria muito feliz com a eleição de Pinheiro/João/Imbassahy. De todo modo isso reflete a inteligência do PT; sabe que Pinheiro não é forte e reconhece que ACM Neto, do DEM, já se encontra no segundo turno, ou seja, precisam trabalhar as futuras alianças. Acho que só não esperavam que a tônica da disputa por um lugar ao sol fosse tão enfaticamente lulista.

Enquanto isso todo mundo canta: "Eu quero Hilton 50! Na capital da resistência! Salvador!"

Pedro Ravazzano

Eleições americanas

Eis a Vice-Presidente de McCain, a mui guapa Sarah Palin, Governadora do Alasca. Dizem por aí que os Democratas a acusaram de inexperiente, afirmando que os EUA estariam em mãos inseguras caso McCain tivesse alguma complicação de saúde. Ora, será que eles esquecem quem é o showman do Partido do Burrinho? Obama por acaso é exemplo de experiência política? De qualquer jeito agora é esperar. De um lado McCain Sangue-no-olho, aquele que pode enfiar os EUA em mais um conflito armado embebido em neoconservadorismo, e que ainda pode prosseguir com a catástrofe "bushiana", dando continuidade aos aumentos de déficits, das intervenções federais e da regulamentação de diversos setores, mas que ao menos não será o Presidente do abortismo, gayzismo, etc. Do outro lado Barack Hussein Osam, ops, Obama, o ex-muçulmano que se envergonha do seu passado e insiste em dizer que nunca professou o islã (Não há nenhum mal em ter sido islâmico, mas há muito problema quando se mente para encobrir o passado), o Senador do lobby ecoverde, da cultura pink, das abortistas de plantão, do protecionismo ultrapassado e do show business, se duvidar vai seguir o estilo Lula de governar; viajar e inaugurar obra!

Pedro Ravazzano

Um dos frutos do relativismo

Pedro Ravazzano

O sincretismo surgiu de uma mentalidade indiferentista e empobrecedora, reflexo do relativismo religioso, defensor da unidade (sentimentalista) de todas as religiões. Muitas vezes é também ratificado usando como pressuposto o respeito à cultura, como atestado de caridade com a diversidade. O modernismo, com suas arquitetações maquiavélicas, conseguiu deformar o conteúdo da inculturação, que evangeliza e dissemina a fé, numa positiva absorção de elementos culturais compatíveis com a Verdade, transformando-a no sincretismo que tende a banalizar e profanar.

A Igreja sempre foi consciente a respeito da diversidade cultural, dessa forma, de forma sapiente, instituiu os moldes da inculturação. Os trabalhos missionários em países submersos na escuridão teriam o direito de utilizar facetas das características nativas como método prático de evangelização. Esses meios autóctones deveriam passar pelo crivo da fé cristã, sendo execrado tudo que fosse oposto ao lícito e aceitável. Tais ferramentas não tendem ao sincretismo, ao contrário, santificam as culturas, levam a Revelação que “se encarna nelas, superando os elementos culturais das mesmas que são incompatíveis com a fé e a vida cristã e elevando os seus valores ao mistério da salvação que provém de Cristo.” (Pastores dabo vobis, n. 55)

A história da Igreja nos mostra muitos exemplos dessa mentalidade, por exemplo a evangelização dos povos pagãos. Os beneditinos, de forma impecável, conseguiram utilizar as próprias características da cultura nativa como meios de conversão. Muitas vezes os templos idólatras eram transformados em Igrejas, depois da devida purificarão, e festas pagãs substituídas por dias de santos. O próprio canto gregoriano nasceu da fusão das melodias judaicas com as utilizadas pelos gentios de Roma. De forma similar, os missionários jesuítas nas colônias espanholas utilizaram com constância a arte indígena para confeccionar imagens e Igrejas com certa similaridade visual. Aqui no Brasil religiosos como Pe. Antônio Vieira e Beato José de Anchieta, foram mestres na conversão de índios porque conseguiam transmitir a universalidade da Boa Nova, não um Deus "estrangeiro", mas o Pai daqueles povos.

O sincretismo usa como premissa a homogeneidade e compatibilidade da fé, igualando crenças e doutrinas diametralmente opostas. Dessa forma, cultos e ritos incongruentes com a Verdade são colocados ao lado da crença cristã, de forma agressiva e destrutiva, “como se tivessem o mesmo valor, pondo em perigo a identidade da fé católica” (Ad Limina Apostolorum. n. 7)

A caridade é utilizada muitas vezes como argumento para a defesa desse hibridismo. É claro “que devemos estima e respeito às legítimas tradições religiosas, como por exemplo, às autenticamente africanas” (Ad Limina Apostolorum, n.4), mas sem “nivelar (...) num sincretismo empobrecedor” (Bento XVI). As culturas desenvolvidas numa sociedade não-católica devem ser purificadas e exaltadas na fé, utilizando aquilo que de cristão existe na sua riqueza própria, excluindo as características incongruentes com a Religião. João Paulo II disse aos Bispos do Brasil, em 1990, referente a essa problemática e as tradições africanas, que “Nelas podemos encontrar excelentes valores, como o são o respeito pela vida e pela natureza e um amplo sentido do mundo do além, constante ponto de referência da própria vida diária” mas que “é necessário purificar devidamente todos os elementos que forem claramente incompatíveis, por exemplo, com o Mistério da unicidade e transcendência absolutas de um Deus pessoal, ou com aquele relacionado com a Economia da Salvação, em que Cristo é o único Caminho para a redenção do homem; é bom lembrar também todo o tema relacionado com as exigências da Lei moral cristã.”

O sincretismo não pode ser interpretado como resposta à globalização ou como uma dívida reparatória que a Igreja teria com os negros por exemplo, dessa forma estamos negociando a Verdade. A origem dessa mentalidade se encontra no relativismo religioso, que interpreta a doutrina como uma constante reinvenção, “constituindo uma ditadura (...) que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades.” (Card. Ratzinger). Essa banalização do sagrado concede espaço para o multiculturalismo empobrecedor e ao sincretismo. A visão progressista da fé, o seu trato com a cultura, deu abertura para o “perigo concreto de relativismo e de indiferentismo, de um "ecumenismo barato", que acaba por se tornar supérfluo (...) que tendem a banalizar tudo” (Card. Kasper).

É necessária a consciência a respeito dos limites da fé que se professa, o conhecimento da fronteira entre o aceitável e o degradante, só com tal embasamento é possível combater a “ignorância religiosa endêmica [que] favorece diferentes formas de sincretismo” (Conselho Pontifício da Cultura). Da mesma forma é pertinente uma mudança na mentalidade moderna, que ratifica de forma maciça a destruição de tudo que se considere absoluto e verdadeiro, justamente a raiz da crise atual.

Pedro Ravazzano

Querem que o Brasil tenha pena de morte para um crime em especial

Edson Carlos de Oliveira


Eis, ao lado, a gravura de um ser que querem colocar no banco dos réus.

O crime hediondo que ele cometeu foi o de ter sido gerado. Crime este que será passível de pena de morte e sem direito a ter um advogado.

Sua sentença será dada por um tribunal popular; e este constituir-se-á por:

1) Juíz: sua própria progenitora, esta será aquela que terá o "direito de decidir";

2) Membros do Júri: parentes (especialmente uma tia solteirona "da moda"), representantes de diversas ONG´s, as "Católicas" pelo Direito de Decidir, o homem que se diz "Inri Cristo" e demais grupos interessados, que não deixarão de fazer pressão para a aplicação da pena máxima, considerando a priori o réu como culpado.

Do lado de fora do tribunal popular, estarão grupos e movimentos subversivos de pró-vidas, piqueteros que ousam ser fiés defensores do revolucionário Direito Natural e que, através dele, tentam distorcer a legislação para defender o direito à vida de criminosos como esse.

Eis as formas que serão utilizadas para a aplicação da pena capital a esse crime hediondo:

Sucção (*)

Será utilizado um tubo oco que estará conectado a uma bomba de sucção com uma capacidade 29 vezes superior à de um aspirador caseiro.

A sucção desmembrará o criminoso em pedaços e o absorverá, sacando-o do útero como se fosse lixo. Como a cabeça do delinquente não conseguirá passar através do tubo, será introduzido na matriz um instrumento que comprimirá a cabecinha e a extrairá.

Dilatação ou curetagem

Da sétima à duodécima semana de gestação se utilizará um método que consiste em cortar o autor do crime em pedaços com uma faca cirúrgica e posteriormente se fará uma raspagem.

O pessoal médico que aplicará a pena capital deverá unir novamente os pedaços do criminoso para certificar-se de que o útero estará vazio. Ao bebezinho, ops, ao delinquente se lhe cortará uma perninha, depois a outra e assim se vai cortando em partes todo o seu corpo. Os sofrimentos do bebê, ops, desse criminoso serão intoleráveis. Algo cruel.

Cesariana

Será igual a uma cesariana até ao ponto de lhe ser cortado o cordão umbilical, mas em vez de levarem a criança, digo, o autor do crime à sala de cuidados intensivos para salvar-lhe a vida, será deixado num caixote de lixo até morrer. Algumas vezes os sentenciados se mexerão, respirarão e alguns até chorarão. Este método será utilizado quando a doença chamada gravidez - causada pelo réu - estiver muito avançada.

Dispositivo intra-uterino ou Anel (Abortivo)

Será um dispositivo de formas variadas que se colocará dentro do útero. Não evitará a concepção senão que modificará o revestimento interno do útero para que a criança, ou melhor, o criminoso em desenvolvimento, que vêm da Trompa de Falópio, não possa estabelecer-se e morra, eliminando os seus restos já desfeitos com a menstruação.
_________
(*) Os dados foram extraídos do site:
http://www.anael.org/portugues/aborto/index.htm

Onde há minério, há reserva de índio! Pura coincidência em Roraima?

Caro leitor, a imagem ao lado retrata o mapa do Estado de Roraima. Atente-se para a coincidência...

(Clique aqui para ampliar e ver o mapa original no site do Governo Estadual de Roraima)

As partes em retícula são as reservas generosamente demarcadas para alguns poucos índios.

E os pontinhos vermelhos?

Serão tribos índígenas? Malocas étnicas?

Não! São reservas de minérios como Nióbio, Tântalo, Ouro, Urânio, Tório e Diamante.

Com certeza são os principais "índios" protegidos em Roraima!...

(Fonte: Blog GPS do Agronegócio)

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Pobreza e Violência

Rafael Oliveira

Existe um tipo de idéia bastante comum, principalmente nas faculdades de ciências humanas e na mídia de um modo geral, de que os crimes cometidos no Brasil decorrem da relação entre pobreza e violência (nas faculdades a explicação superficial ganha contornos bibliográficos). O pressuposto básico para fundamentar a relação pobreza e violência é o de que as pessoas que cometem crimes tiveram uma vida sofrida, sem oportunidades, sem perspectiva de futuro devido a uma sociedade injusta e opressora, restando a elas somente a única e compulsiva opção de se tornarem infratores da lei.

De nenhum ângulo que seja analisada essa hipótese se sustenta.

Quando comparamos países com os mesmos níveis sócio-econômicos do Brasil não encontramos a mesma taxa de violência, como é o caso da Índia e da Romênia que pelo contrário tem índices muito baixos. Outro dado interessante é que as regiões mais ricas como São Paulo e Rio de Janeiro são também as mais violentas, pela lógica as regiões Norte e Nordeste deveriam ser as campeãs em violência já que são as mais pobres.

Não é a pobreza que gera a violência no Brasil nem em lugar nenhum.

Antes de dizer que um sujeito merece ser perdoado porque roubou um pão para comer, devemos nos perguntar porque outros milhares de sujeitos não tem o que comer e nem por isso saem por ai matando e roubando.

O leitor mais distraído percebe as conseqüências imediatas dessa nefasta hipótese: uma atenuação, quando não, isenção da culpa dos criminosos pelos seus delitos e uma transferência da responsabilidade do crime para a “sociedade que o oprimiu”. As vítimas é que são culpadas pelos crimes de seus algozes. Os psicólogos já descobriram que culpar a vítima é o primeiro passo para desumanizá-la e para justificar qualquer violência cometida contra ela como aceitável. Ainda não chegamos a esse ponto, mas na medida em que a sociedade se tornar “responsável” pelos crimes cometidos contra ela, a violência sofrida por cada um de nós será cada vez mais tolerada.

Algumas considerações a respeito dos atuais debates sobre o perenialismo

Pedro Ravazzano

Olavo de Carvalho, ilustre pensador brasileiro, abordou no seu artigo de 8 de maio de 2008, no Jornal do Brasil, a influência de Schuon e Guénon no que ele considera o projeto de islamização da Europa.

Primeiramente, é muito relevante conhecer ambas as figuras. René Guénon (ou Sheikh Abdul-Wahid Yahya, depois de sua conversão ao islamismo), que sem dúvida é o mais destacado na filosofia perene, nasceu em Blois, na França, e faleceu no Cairo. Frithjof Schuon, nasceu na Basiléia, Suíça, numa família católica, inclusive seu irmão se tornou monge da Trapa. Faleceu em Bloomington, como muçulmano, não mais se chamando Schuon, mas Sheikh Issa Nureddi.

Ambos trataram da Unicidade metafísica das religiões tradicionais, mas foi Schuon que se tornou mais famoso com a "Unidade Transcendental das Religiões" (nome de uma de suas obras). De forma sucinta, o perenialismo ensina que a Verdade metafísica, perene e universal, é exposta de diversas maneiras pelas religiões tradicionais, todas tendendo para um ponto comum. Hoje, muitas vezes, o perenialismo serve como porta de entrada para o relativismo (mesmo Guénon tendo sido um árduo opositor do relativismo moderno), não obstante, passado pelo crivo da ortodoxia cristã, guiada pelo Magistério, expurgando os erros contidos, que não são poucos, pode ser deveras proveitoso para a compreensão da Tradição religiosa-espiritual.

Um dos pontos relevantes no pensamento perenialista é a definição sobre o exoterismo e esoterismo. O primeiro, para Guénon, é tudo que dilata e se espalha. A moral, rito, dogma, os "pequenos mistérios", são as bases do exoterismo, logo, ele trata do indivíduo e sua salvação. Já o esoterismo é tudo que se eleva e aprofunda, não é nada mais que o aspecto mais íntimo da Tradição, que não obstante, se reduz a pequenos grupos de iniciados, que por sua vez se diferem em graus de conhecimento. Tudo isso é a conseqüência da dificuldade de compreensão dos mistérios. O esoterismo, como um um mergulhar-se no saber Tradicional, é a sublimação das capacidades individuais. Indo além das particularidades pessoais, mas entrando no profundo dos mistérios, no profundo das coisas. Em suma, esoterismo é contemplação, exoterismo ação. De imediato, essa definição em nada influi diretamente na concepção guenoniana sobre a cristandade ocidental, todavia, para Guénon, o cristianismo perdera seu caráter esotérico, ou no mínimo o reduzira. Para o metafísico francês o exoterismo é pleno como meio de salvação, mas é através do esoterismo, restrito a alguns, que o estado suprainvidiual é conquistado, livre de toda forma individual de manifestação e dualidade. [1] Com essa premissa, a extinção, ou esquecimento do esoterismo cristão, propiciara a crise espiritual no Ocidente, já que causa a eliminação da própria liberação. [2] Vale frisar que para Guénon o protestantismo é a total negação da Tradição.

Essa compreensão sobre o esoterismo não é tão fixa quanto se pensa, o próprio cristianismo não se encaixa, afinal, para Guénon, os sacramentos perderam seu caráter esotérico iniciático, mas como foi exposto por Borella, os sacramentos se mantiveram espiritualmente os mesmos com o advir das eras, desde Cristo até os tempos modernos. Ademais, o islamismo, para eles, é a religião que mais acomoda essa tese, pois nele existe de forma nítida e clara uma divisão entre o conteúdo exotérico, comum a todos os crentes, e outros, esotéricos, restritos a grupos iniciados. De acordo com Ali Ibn Abi Táleb, primo de Maomé, casado com sua filha Fátima, primeiro Imam do xiismo, e um dos herdeiros dos ensinamentos esotéricos de Muhammad "não há no Corão versículo que não tenha quatro sentidos: o exotérico (zâhir), o esotérico (bâtin), o limite (hadd), o projeto divino (mottala'). O exotérico é para recitação oral; o esotérico é para a compreensão interior; o limite são os enunciados que estatuem o lícito e o ilícito; o projeto divino é o que Deus se propõe realizar no homem por meio de cada versículo".Como se percebe, a compreensão islâmica engloba de maneira nítida a distinção exotérica X esotérica e, justamente, é essa visão clara, tão cara para Guénon, que torna o islamismo uma religião sedutora para todos que estudam o perenialismo.

Qual seria então a relação entre a islamização, exposta por Olavo de Carvalho, e a "descristianização" da Europa? De acordo com as teorias perenialistas, o cristianismo ocidental entrara numa fase de triunfo do exoterismo, com a perda de toda a busca espiritual individual. O desconhecimento do esoterismo transformara a Igreja numa instituição legalista, reduzida a questões morais. A própria liturgia, o dogma, pontos exotéricos, mas meios esotéricos, teriam dispersado seu caráter místico-espiritual, restringindo-se a sentimentalismo. Com essa crise, a civilização cristã ocidental iniciara uma era de deteriorização, uma época desfocada e totalmente desnorteada, uma época sem santos. E o Vaticano II, para eles, seria a prova inconteste do reducionismo da Igreja, se fixando numa preocupação pastoral sem nenhuma dimensão espiritual.

Como já foi sobredito, o islamismo, para os perenialistas, ainda retém de forma clara esse legado espiritual vivo e ardente, que por sua vez tornaria a religião de Maomé a crença mais capacitada para restaurar a espiritualidade e o esoterismo no Ocidente. Nesse tocante, muitos pontos se divergem no entendimento do legado de Guénon. O filósofo falava do restabelecimento da cristandade ocidental, mas alguns acreditam que isso era apenas a fachada do seu projeto islamizador.


Nesse ponto é importante uma breve explicação sobre a tariqa de Schuon, fundada em Lausanne. A tariqa de Sheikh Issa englobava religiosos de diversas crenças, "agentes islamizadores". A discussão se inicia em torna da ortodoxia e heterodoxia desta. Dentro do islamismo tradicional, uma permissividade tal, que ratificasse crentes e descrentes, partindo da premissa das divergências religiosas, e irrelevando as Verdades metafísicas, é um absurdo. A discussão se prolonga quando se trata da concordância de Guénon com Schuon e sua tariqa. Não obstante, tudo leva a crer que o filósofo francês alimentava suas esperanças no estabelecimento da loja maçônica "A Grande Tríade", de Rito Escocês Antigo, voltada para criar a elite intelectual do Ocidente, mesmo fim da tariqa de Schuon, mas que tinha como meio a islamização dessa casta.

Olavo de Carvalho, a respeito disso, diz que "A assimilação é um processo complexo, que exige, como condição fundamental, que as forças espirituais restantes no Ocidente não sejam destruídas, mas "assimiladas", isto é, colocadas sutilmente sob a direção da elite "oriental". A relação entre as Tariqas e seus simpatizantes e colaboradores não-islâmicos é exatamente essa. Eles conservam exteriormente a lealdade à sua igreja cristã de origem, ao mesmo tempo que, espiritualmente, se submetem à orientação de um sheikh islâmico em todas as questões espirituais substantivas e colaboram com a estratégia geral do sheikh sem jamais questiona-la, precisamente porque sentem que ela preserva a pureza do seu compromisso religioso pessoal. (...) qualquer discípulo católico de Guénon ou Schuon é infinitamente mais leal a eles do que ao Papa. A atuação de Rama Coomaraswammy ilustra isso da maneira mais patente" [3]

Em contrapartida, o Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais, em esclarecimento, diz que "jamais reconheceu em Schuon (falecido em 1998 ) uma legítima autoridade espiritual", e que "Sequer merecem comentários , a nosso ver, as propaladas "adaptações", confortáveis e circunstanciais, dos ritos islâmicos e os ditos "sincretismos" (há testemunhos de danças representando o "estado edênico" com todos os participantes nus) envolvendo diferentes formas tradicionais, que teriam sido, segundo relatos em livros e na própria Internet, levados a cabo por Schuon e seu grupo de seguidores." Ao tratar de um missionário schuoniano que receberam em sua casa, relatou que ele disse "amavelmente que Guénon "já havia cumprido seu papel" , isto é, desbravado a "trilha inicial com imperfeições e alguns buracos" que , "felizmente, já há décadas, havia se transformado, sob a liderança de Schuon, numa ampla estrada"." [4]

Como se percebe pela posição do IRGET (Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais), Schuon, para eles, não pode ser colocado como um digno sucessor e real herdeiro de Guénon, e os erros cometidos pela sua tariqa não podem "cair na conta" de Sheikh Abdul-Wahid Yahya. [5]

Quanto a Rama Coomaraswamy, amigo de Lefebvre e professor dos Bispos sagrados ilicitamente, que o Olavo diz ser um agente islamizador infiltrado, existem diversas opiniões contrárias ao explanado pelo pensador brasileiro. Eu, pessoalmente, não teria nenhum motivo para defender Rama, pois me oponho severamente a ele nos seus posicionamentos sobre a Igreja (se trata de um sedevacantista). Não obstante, muitos testemunhos atestam a real veracidade da fidelidade de Rama à Igreja (o que já seria discutível pelo seu sedevacantismo), sem o caráter islamizador exposto por Olavo. Vale frisar que Rama Coomaraswamy, convertido vindo do hinduísmo [6], próximo ao fim da vida foi ordenado Sacerdote por Lopez-Gaston, da sucessão de Ngô Thuc.

O que o Olavo coloca em discussão é o projeto islamizador, até que ponto ele tem origem direta e integral em Guénon, e não é apenas uma desvirtuação do seu legado. O metafísico, como já foi dito acima, via com mais esperança a loja maçônica "A Grande Tríade" do que a tariqa de Schuon, muito desmerecida por ele por sinal, como ferramenta para restabelecer a elite intelectual. É pertinente frisar que o combate a missão islamizadora não ocorre através de incursões "religiosas-democráticas", ao contrário, a "liberdade" e a "democracia" tão caras ao Ocidente moderno, para Guénon, são justamente atestados de decadência. A luta pela sobrevivência do cristianismo no Ocidente ocorre através do restabelecimento da busca espiritual e da piedade cotidiana, que produzem a verdadeira vivência religiosa, bem diferente de um simples legalismo moral e ético.


Pedro Ravazzano
Membro do Grupo de Estudos do Pensamento Conservador - BA

[1] É um conceito comum no Advaita Vedanta e no sufismo Ahl i Wahdat. Tal perspectiva é melhor explica em "Os Estados Múltiplos do Ser" (http://www.euskalnet.net/graal2/estados.zip), "O Homem e Seu Devir Segundo O Vedanta" (http://www.euskalnet.net/graal2/devenir.zip) e "Iniciação e Realização Espiritual" (http://www.euskalnet.net/graal2/realizacion.zip). Nota de Rafael Daher

[2] Mais informações em "Considerações sobre o Esoterismo Cristão"( http://www.euskalnet.net/graal2/rgcritiano.zip), onde Guénon cita um ditado sufi "para sufi o paraíso é uma prisão". Nota de Rafael Daher

[3] Orkut Olavo de Carvalho do B - http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=42033749&tid=2599133383101506894&na=3&nst=221&nid=42033749-2599133383101506894-2600018556406312921

[4] Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais - http://www.reneguenon.net/autorestradicionais.html

[5] O rompimento de Guénon com Schuon, e a retirada da baraka (benção) para que Schuon agisse é fato. E ao contrário do que afirma Olavo, não foi apenas porque Schuon discordou de Guénon quanto ao esoterismo cristão, mas porque Guénon desgostou do sincretismo adotado pela tariqat de Schuon e sua práxis pouco islâmica. Guénon escreveu em 1950, do Cairo: "[...] [that] in Lausanne, the ritual observances have been reduced to the strict minimum, and that most even don't fast anymore during Ramadân; I did not think that it had reached this point, and I see now that I was only too right when I said that soon it would not be a tarîqah at all anymore, but a vaguely "universalist" organisation, more or less like that of the disciples of Vîvêkânanda![1] Most cordially yours, René Guénon." In other letters Guénon also distanced himself from Schuon's disciples, Burckhardt and Lings: "On the other hand, I have received a letter from Burckhardt, who, concerning my replies to M.L. [Martin Lings], says "that the violence of these letters has struck him painfully, and that he cannot reconcile this impression with the circumstances that evoked my severe remarks"; however, it seems to me that it's not so hard to understand!... admire how bad faith can be pushed so far. (http://www.sunniforum.com/forum/archive/index.php?t-21201.html) Nota de Rafael Daher

[6] Convertido porque, segundo as palavras do próprio Rama, ele não encontrara nenhuma forma para continuar hindu no Ocidente, e viu na Igreja Católica como algo idêntico ao hinduísmo. Tanto que Pe. Rama jamais deixou de usar seu colar de brahmanê. Fonte: http://www.svabhinava.org/friends/JoaquinAlbaicin/RamaCoom-Spanish-frame.php Nota de Rafael Daher

Pedro Ravazzano