quinta-feira, 29 de maio de 2014

A metafísica de Mulla Sadra

Mulla Sadra (1572 – 1640) foi um dos maiores nomes da filosofia islâmica e da grande tradição persa. O seu trabalha integra o Renascimento Iraniano, como foi chamado o período no séc. XVII de forte florescimento cultural. Para alguns, Mulla Sadra pode ser considerado o maior pensador islâmico dos últimos séculos A filosofia que desenvolveu, numa síntese entre Avicena, Suhrawardi, Ibn Arabi, Aristóteles e os 12 Imames do islamismo xiita, inaugurou o existencialismo ontológico no espectro do pensamento muçulmano.

Para Mulla Sadra, o filósofo é a testemunha do real, restaurando para Deus a fonte da Sua presença na realidade, vivendo uma autêntica “shahada”. Isto só é possível porque Deus testifica a Si mesmo em todas as suas manifestações, o existente enquanto processão da Sua Luz e do Seu infinito ato de ser. A metafísica, portanto, tem um papel libertador, em imitação à liberdade divina. Esta liberdade é inscrita na natureza mesma da inteligência do homem, diretamente vinculada com Deus, expressando a criativa espontaneidade do imperativo divino: inteligir é libertar-se de todos os grilhões mortais, livrando-se da opressão da matéria e das paixões.

A sabedoria (“hikmah”) é revelação, ou seja, o desvelar da realidade das coisas através do exercício da inteligência. Também é revelação no sentido em que Deus mesmo, em Seu Ser, manifesta-Se na sabedoria humana, tornando possível as epifanias, na contemplação da realidade, da beleza dos Seus mais belos nomes. Ademais, aqui entra um outro aspecto fundamental do pensamento de Mulla Sadra: a sabedoria é revelação já que abre ao homem o caminho do autoconhecimento, que o desperta do esquecimento e o permite realizar a sua vocação essencial, a contemplação. Se a sabedoria, portanto, é transfiguração do sujeito através da atualização das suas maiores potencialidades, então, como afirma Christian Jambet, a sabedoria é o tornar angélico dos homens.

“Aquele que conhece a si mesmo, conheceu ao Seu Senhor”, disse o Profeta Muhammad. Avicena, baseado nesse hadith, dirá que o desvelar do eu é a experiência da existência, justificando a noção de que o conhecimento de si reflete o conhecimento do Ser. Para Sadra, esse conhecimento é uma espécie de exegese do eu que conduz a uma maior proximidade com Deus, através da descoberta da própria natureza espiritual: uma “palavra luminosa” – kalimah nuriyah - , uma “essência espiritual” – dhat ruhaniyah –, uma “chama do Malakut” – shu’lah malakutiyah. A alma é “palavra” na qual a Divina Palavra se expressa, e nessa sua essência espiritual, na concepção de Mulla Sadra, encontra a sua natureza angélica. Destarte, a vocação da metafísica é iluminar a alma para que caminhe no progresso da perfeição, reconciliando-se com a sua verdadeira natureza e verdadeiro fim. Contudo, essa “iluminação” não é irracional, um simples fluxo do mistério, mas, isto sim, é a síntese da atitude mística com o conhecimento inteligível.

"Ele foi Quem estabeleceu as duas massas de água; uma é doce e saborosa, e a outra é salgada e amarga, e estabeleceu entre ambas uma linha divisória e uma barreira intransponível” (Corão 25: 53). De acordo com a leitura dada pela mística islâmica, esse trecho se refere à dualidade entre a vida terrena e a vida celeste. Para Sadra, ainda na mesma linha, o intelecto material é o limite que separa a água “amarga”, a natureza material, da água saborosa, o outro mundo. Nos dizeres de Christian Jambet “o homem é microcosmo que recapitula o macrocosmo”, sendo a “barreira” a sua inteligência material. A metafísica é portanto a descoberta de uma ordem – a ordem da criação. Esta ordem inteligível é atualizada na mente humana, pela qual se assemelha ao Criador. Deste modo, além de ser uma reflexão sobre a ordem, a metafísica, no pensamento de Mulla Sadra, é o caminho para a imitação – tashabbuh - de Deus, o que de certa forma lembra o caminho da mística em Edith Stein. 

A metafísica de Mulla Sadra está totalmente centrada no existente enquanto tal, fiel à herança de Aristóteles e Avicena. Para o pensador iraniano, o conhecimento do existente é a cognição da sua realidade (haqiqah), do seu ato de ser (wujud). Com o termo “al-haqiqah”, Sadra se refere à realidade do existente, já que o existente existe na realidade e pela realidade. De certo modo, essa sua concepção se assemelha à idéia de essência da coisa. Contudo, no pensamento de Mulla Sadra, a realidade essencial deriva da divina essência, que é o real por excelência, a constituição e o constitutivo de todo o existente. Destarte, conhecer a essência significa conhecer o seu fundamento em Deus, na qual a coisa encontra a sua realidade. Nesse ponto é interessante perceber a semelhança com o “realismo radical” de Xavier Zubiri: Deus como a realitas fundamentalis da realidade das coisas reais.

Assim, o ponto de partida da ontologia é o conhecimento do existente e o seu destino e fundamento em Deus, que já é o sujeito da teologia. O pensamento de Mulla Sadra, portanto, sintetiza, em grande medida, a herança metafísica da tradição islâmica, somada a outras influências, em especial à reflexão espiritual dos 12 imames do xiismo e ao rico conteúdo místico que deles provêm. Mulla Sadra desenvolve essa ontologia centrada na “luz do ser” e na gradual perfeição do homem através da sabedoria, num processo “revolucionário” de ensimesmamento que conduz ao centro, ao Ser mais íntimo que o próprio ser do homem. 

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Unidade na diversidade

Quase sempre nos círculos católicos ouvimos falar da “unidade na diversidade”. Essa idéia é boa em si mesma. Expressa a catolicidade da Igreja, a multiplicidade de carismas e espiritualidades. Contudo, quase sempre esta frase é acompanhada de um outro pressuposto. “Unidade na diversidade” se converte num modo prático de endossar o relativismo doutrinal, transformando o essencial, isto é, a fé católica naquilo que é mais constitutiva, em aspectos acidentais, passiveis de discordância. Nesse cenário, a “unidade” nada mais é do que um sentimento rarefeito, sem coesão objetiva, portanto incapaz de gerar união. 

Não é do meu interesse fazer reflexões teológicas. A primeira crítica que deve ser dirigida a esse posicionamento é de cunho puramente lógico. O que faz de alguém católico? O que permite que um homem, do ponto de vista prático, se identifique como membro da Igreja Católica? Ninguém é coagido a ser católico. Se o é, o é na liberdade. A Igreja, como qualquer “organização” – destaco mais uma vez que estou excluindo toda a questão teológica – necessita de uma estrutura interna. Contudo, mais do que mera burocracia, é fundamental que tenha notas e características que permitam a consolidação de sua identidade. 

O catolicismo, como qualquer outra religião, é constituído por um corpo doutrinal e moral que torna possível a unidade. Nas mais diversas variedades de culturas, a mesma fé se faz presente em sua totalidade. Entretanto, dentro do paradigma relativista, a unidade nada mais é do que um vínculo desprovido de objetividade. O que possibilita que um católico chinês e um católico brasileiro se reconhecem como irmãos de um mesmo credo? Não é a expressão dessa fé, que depende da encarnação nas culturas locais, mas sim é o corpo doutrinal, a base sobre a qual a diversidade se realiza.

Como é possível falar de “unidade na diversidade” se não há nem mesmo concepções convergentes a respeito de Cristo e de Sua Igreja? A diversidade é possível na vida de piedade, nas inculturações da fé, e não nos parâmetros fundantes da experiência religiosa. Não há unidade quando alguém acredita que a Eucaristia é simbólica e outro professa a sua crença na Presença Real. Não há unidade quando alguém acredita que a Igreja é um mal necessário e outro afirma que é o Sacramento Universal da Salvação. Não há unidade quando alguém dissocia o Jesus histórico do Cristo da fé e o outro não. Em nenhum desses casos há nada que possibilite a união. Ao contrário, as divergências entre estas posições estão mais similares aos abismos que separam a Igreja Católica, por exemplo, das centenas de denominações protestantes. 

Em tal cenário, o que é a unidade? Onde está a unidade? Para que esta seja possível é necessária a convergência de fatores essenciais, deixando aos aspectos acidentais a possibilidade da diversidade. Nessa equação entra a liberdade, permitindo que aqueles que, por algum motivo, se incomodam com a crença professada pela Igreja, sintam-se livres para deixá-la. Contudo, o que presenciamos é justamente uma heterogeneidade naquilo que deveria ser basilar e unitário. Sem essa concepção, o catolicismo se torna numa Babilônia doutrinal, incapaz de professar uma mesma fé sem que esta receba recortes e adaptações em cada consciência. De certo modo experimentamos a “protestantização” da fé católica, isto é, a desconstrução da experiência comunitária da fé em prol de parâmetros individuais que alçados à dignidade de dogmas simplesmente acabam com o caráter universal da crença que professamos.