segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O acontecimento cristão no mundo moderno

Pedro Ravazzano

Como fazer com que o cristianismo volte a ser o evento fundante do homem inserido na modernidade? A urgência da Igreja hoje é fazer com que o evento cristão retorne à sua condição de princípio fundante da cultura, da sociedade, do homem. Não obstante, sofremos atualmente, além de toda a complexa realidade moderna, com uma forte carga interna em certos setores eclesiais que buscam ou reduzir o cristianismo a certo moralismo ou, então, ao espírito que vai além dos caminhos da Igreja. A solução passa, primeiramente e antes de tudo, pela adesão e experiência do eu na pessoa de Jesus Cristo.

O cristianismo corre o risco, no tempo atual, de engessar-se na lei, isto é, num simples aparato normativo que regula as relações do homem consigo, com outros homens e com a Igreja. Ademais, do mesmo modo, existe uma carga ideológica que pretende fazer uma dissociação entre a religião enquanto instituição e o cristianismo pensado como uma mensagem difusa, rarefeita, individual e horizontal. Assim, configuram-se duas facetas das discussões internas; o tradicionalismo e o progressismo. O então Cardeal Ratzinger afirmou que “o cristianismo não é teoria, nem moralismo, nem ritualismo, mas um acontecimento, encontro com uma presença, com um Deus que entrou na história e nela entra continuamente.”

Primeiramente, devemos pensar que a resposta para a "crise" não se encontra em devaneios "contra-revolucionários", projetos de poder “de direita” ou "de esquerda", na mística puritana, muito menos no tradicionalismo, arquelogismo, modernismo etc, mas sim no fazer com que o homem reconheça-se como homem inserido no real e onde, ao se enxergar enquanto um ser fundamentando em, redescobre a este Deus que Se encontra presente na realidade. Aquilo que Henri de Lubac entende como "o problema humano total.” Quanto menos “homem”, quanto mais afastado de Deus, mais desesperadora e angustiante se torna a vida. Chegamos, então, à degradação anunciada por Dostoievski, ao Kirilov que na sua lógica racional niilista descobre no suicídio a verdadeira libertação e divinização do homem, na revolta existencialista de Raskolnikoff, no delírio utópico de Vierkhoviénski etc.

A urgência atual, ou seja, esse redescobrimento da humanidade e, conseqüentemente, do cristianismo, é recolocar Cristo no lugar em que Ele ocupa, de fato, no mais profundo das consciências, da natureza, da realidade. Derrubar a muralha de ilusões onde parece que as "grandes almas" só são grandes quando desprezam a condição humana. O cristianismo precisa voltar a ser vivente. O que Soren Kierkegaard disse - "Que se prepare a estar atento ao Cristianismo não pela leitura de livros nem pelas perspectivas histórico-mundiais, senão pelo aprofundamento na existência." – pode ser entendido dentro da visão de Mons. Luigi Giussani; “o acontecimento cristão faz aflorar e acende toda a dramaticidade da nossa existência” e, assim, por meio do “acontecimento cristão” é possível “um encontro humano no qual Jesus Cristo se revela significativo para o coração da vida e desvela o eu.”

Bento XVI, na sua encíclica Deus Caritas Est, afirmou que “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande idéia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.” Nesse sentido, as duas posições acima colocadas aparecem como distorcidas, fragmentadas e, muitas vezes, além das fronteiras dos ensinamentos cristãos. Não obstante, entender o cristianismo como acontecimento não deve ser visto como sinônimo de subjetivismo, isto é, antípoda à Igreja institucional. Obviamente, as leis e a doutrina são conseqüências do evento fundante, da encarnação do Verbo.

O risco que corremos ao esquecer o caráter novo e atual do cristianismo, que dá início a um novo processo, é cair em percepções bem reduzidas. Ao passo que o tradicionalismo pretende colocar a lei acima de Cristo – ainda que a primeira seja, obviamente, uma emanação do evento cristão – o progressismo insiste em desconstruir o fundamento histórico da pessoa de Jesus e a sua validade enquanto acontecimento. Mediante essa derrocada, torna-se possível a equiparação da fé cristã com qualquer outra religião, já que a encarnação do Verbo é única, inclusive do ponto de vista da estrutura fenomenológica se confrontada com outras percepções do sagrado.

Destarte, “O homem de hoje, dotado de possibilidades operativas como nunca antes na história, tem grande dificuldade em perceber Cristo como resposta clara e certa para o significado do seu próprio engenho.”, como disse Giussani. Entretanto, o homem, unido ao evento cristão, deve redescobrir-se como dependente e consciente da sua necessidade humana e, a partir da constatação da realidade, miserável da graça de Deus. Apenas nessa experiência pessoal com Cristo é possível construir a “Civilização do Amor”, anunciada pelo Servo de Deus Paulo VI, em plena modernidade.

4 comentários:

Anônimo disse...

Este blog é pedra de tropsso, ele formenta apostasia pós-consiliar mordenista. Grande Dom Lefebvre, grande Bispo da Igreja Católica!
Esse sim um Bispo de VENERÁVEL memória.
A tragédia pós-conciliar prova que ele estava certíssimo, Este mundo pagão e impio que abandonou a Deus e também foi abandonado pelo pós-concílio.

Francisco Luis disse...

Pedro, manera nas citações e visões no próximo texto. Esse texto tá bom, gostei e concordo, mas tem tanta citação, tanto ponto de vista alheio que ficou pouco espaço pra tu mesmo escrever.

No mais, parabéns por ter se encontrado.

Rodrigo disse...

Oi Pedro, desculpe a crítica, mas vc escreve com o mesmo estilo de um fenomenólogo, o que para quem não está acostumado com este estilo de exposição torna a mensagem muito ininteligível. Por favor volte a escrever com um estilo mais claro.

Unknown disse...

O que devemos entender por "devaneios contra-revolucionários"?