Pedro Ravazzano
O grande
pregador da língua portuguesa, Pe. Antonio Vieira (1608 – 1697), e o renomado
poeta da língua inglesa, T.S. Eliot (1888 – 1965), estão separados por séculos
de distância. Contudo, eles têm certas semelhanças em suas biografias: os dois,
por exemplo, tornaram-se célebres no além mar. Vieira, sendo português, fez-se
soteropolitano e Eliot, americano, abraçou o espírito inglês. Entretanto, ainda
sendo um sacerdote jesuíta e um converso anglicano, ambos, fazendo uso da
erudição das palavras, produziram uma literatura sedenta de eternidade. T.S.
Eliot, com os poemas “Quarta-Feira de Cinzas” e “Quatro Quartetos”, se aproxima
da experiência de Pe. Antonio Vieira no seu “Sermão de Quarta-Feira de Cinza”
pregado em Roma, na Igreja de Santo António dos Portugueses, em 15 de fevereiro
de 1673. O que leva, portanto, homens distantes pelo tempo, pela cultura e, até
mesmo, pela religião, a terem uma visão do real tão convergente?
Na obra de T.S.
Eliot temas como morte, vida, tempo e eternidade se repetem em uma dinâmica
constante. Como já havia afirmado Russell Kirk, “Prufock”, “Gerontio”, “The
Waste Land” e “The Hollow Men” são representações do inferno. “Ash Wednesday”,
por sua vez, leva ao purgatório, e “Four Quartets” indica o caminho para o
momento além do tempo. Outras peças como “Murder in the Cathedral”, “The
Cocktail Party” abordam essa tensão entre pecado e consciência, a busca do
próprio eu pela salvação e união com Deus. Destarte, na obra elioteana, assim
como no sermão vieirense, a morte é abertura. O caso onde isso fica mais patente
talvez seja na peça onde se narra a história de Santo Tomás Becket: a sua morte
gera vida, o seu sangue é fecundo.
“Nós te
damos graças pelos Teus dons de sangue, por Tua redenção pelo sangue, porque o
sangue de Teus mártires e santos/Fertilizará a terra, criará lugares sagrados”.
Em Eliot,
portanto, o âmbito limitado
da experiência privada nos impele a sair de nós mesmos, até dos nossos momentos mais intensos e intemporais, para o mundo dos outros e do Outro, como também dos eventos passados. Nenhum indivíduo pode ser autossuficiente,
já que a vida de uma alma não consiste
na contemplação de um mundo consistente, mas na dolorosa tarefa
de unificar. Vale destacar, ademais, que com a sua poesia Eliot
nos ensina a despojar do mundo, enquanto a sua prosa indica a necessidade de salvá-lo através de um contato renovado com
os padrões que tornam a Civilização fecunda. Pode-se
dizer, portanto, que a batalha de idéias aparentemente contraditórias indica que
estamos falando de uma batalha entre a experiência
subjetiva e a necessidade de uma
manifestação da realidade.
“Quarta-Feira de Cinzas” mostra-nos, assim, a
dificuldade do protagonista em tratar a experiência religiosa pessoal como
auto-subsistente. Enquanto o mundo decaído e deserto de “The Waste Land”
tornou-se, em “Ash-Wednesday”, uma parte da viagem para o Absoluto, o clímax do
poema é repleto de ambigüidade e incerteza.
“A irmã
silenciosa em véus brancos e azuis
Por entre os teixos, atrás do deus do jardim,
Cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e persigna-se
Mas sem dizer palavra alguma”
Por entre os teixos, atrás do deus do jardim,
Cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e persigna-se
Mas sem dizer palavra alguma”
No momento em que chegamos à última parte do
poema, a experiência pessoal do poeta da verdade transcendente parece inadequada
e prestes a deslizar para fora do seu alcance, até chamando-o de volta ao mundo
do tempo, o mundo que ele havia tentado, em primeiro lugar, negar e deixar para
trás. Assim, em “Quarta-Feira de Cinzas”, a experiência pessoal da morte mística
é colocada como uma das primeiras
armas que devem ser empregadas na
derrota do reino da vida, com
toda a sua estéril verdade.
Entretanto, apenas em “Quatro Quartetos” consegue T.S. Eliot atingir o cume da
sua caminhada.
Por ser o poema
de um neoconvertido, “Quarta-Feira de Cinzas” carrega toda a tensão própria do
contato primeiro com o Absoluto. T.S. Eliot, por isso, abraça uma via negativa,
isto é, a negação para a conquista.
“Porque não mais
espero retornar
Porque não espero
Porque não espero retornar
Porque não espero
Porque não espero retornar
(...)
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego.
Ensinai-nos a estar postos em sossego.
Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa
morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.”
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.”
O poeta é
deixado, finalmente, "no
crepúsculo encruzilhado de sonhos Entre o
nascimento e a Morte",
ou seja, a esfera temporal, a zona de penumbra do tempo onde não há compreensão abrangente de nada. Este é "o lugar de solidão". A última linha do poema , “And let my cry
come unto Thee”, no original, é a versão inglesa do trecho latino – “Et clamor meus
ad te veniat” - da Santa Missa, em resposta ao “Domine exaudi
orationem meam” (“Senhor, ouvi meus rogos”) . Torna-se, portanto,
o grito de um sujeito que descobre a
finitude da experiência pessoal em face do poder do
tempo. Eliot, preso no aqui e
agora existencial, não é nem capaz
de se conectar com a verdade transcendente,
nem de dar mais sentido à esfera temporal.
A mística, entretanto, fez com que T.S. Eliot
caminhasse para outra direção, rumo à plenitude da sua busca. Se, pois, o
homem é o centro de tudo para o qual converge a própria criação, o homem não é
parte do tempo, ele é incitado a transcendê-lo. Assim, pois, o pecado não
existe diante de um Deus que não apenas é amor, mas a onipotência do Amor e que
é capaz de transformar até mesmo o mal numa condição de demonstração do Seu
amor: “Alle shalle be wele”, dizia Juliana de Norwich, e
assim repetirá Eliot em “Four Quartets”. Cleo McNelly Kearns, no artigo
“Religion, Literature, and Society in the Work of T.S. Eliot”, afirmou:
“Durante os anos de sua maturidade, o cristianismo tornou-se
para Eliot a importante fonte de seu
trabalho, permitindo tais brilhantes
realizações como “Ash-Wednesday”,”
Song of Simeon” e “Journey of the Magi”, e inovações como “Murder
in the Cathedral” e “The Family Reunion”. O cristianismo
também gerou “Four Quartets”,
talvez a maior conquista poética de
Eliot, uma experiência sustentada na poesia dialógica e meditativa
que é, ao mesmo tempo, o ponto
culminante de uma certa tradição ocidental
e o potencial ponto de partida
para uma nova forma”.
O cristianismo, portanto, com a sua noção de eternidade e
santidade, construiu a ponte entre os EUA e Portugal, Inglaterra e Brasil. A fé
torna Vieira um Eliot e Eliot um Vieira. Podemos dizer, de forma mais clara,
que se Eliot escrevera sobre a epopéia da alma, Vieira, no alto da sua
sabedoria de fé e da prática da caridade, pregara na serenidade de uma vida
inteiramente consagrada. Ambos, contudo, estão juntos no despontar da
eternidade.
Pe. Antonio Vieira sobressaiu-se como missionário em
terra de Santa Cruz. Ainda nascido em Portugal, chegou ao Brasil, em Salvador,
muito pequeno. O São Paulo lusitano entra no rol das águias da eloquência
cristã, ao lado de Bossuet e Massillon. O Papa Clemente X considerava o
seu “testemunho digno de fé” devido ao seu “zelo religioso”, “pureza de vida e
costumes”, como também pelos “méritos de suas virtudes” e “conhecimento dos
Escritos Sagrados”. Eça de Queirós,
grande nome das letras portuguesas, diz dele:
“Depois de ser confidente dos reis e dos papas, de ter
conhecido as grandezas do mundo e as do alto saber, morreu com a pobreza e a
simplicidade de um místico, na capital da Bahia”.
A experiência da oratória vieirense se abre para a mesma
dinâmica arrebatadora da personagem poética elioteana. A negação de si em vida
leva à eternidade ou, em linguaguem mais espiritual, à santidade. Obviamente
que não falamos de uma via estritamente negativa, mas sim do enamoramento pelo
Bem Maior que conduz, de modo natural, ao repúdio sistemático a tudo que
disperça. Assim dissera o jesuíta lusitano:
"Sabeis
quais são os mortos que morrem? São aqueles que acabaram a vida antes de
morrer; aqueles que morreram ao mundo antes que a morte os tire do mundo: Qui
prius moriuntur mundo, postea carne. Estes são os mortos que morrem; estes são
os que morrem em o Senhor; estes são os que a voz do Céu canoniza por
bem-aventurados: Beati mortui"
T.S. Eliot concordaria com tamanha
impressão. O
poeta estava consciente de que em “Four Quartes”, especialmente em “Little
Gidding”, ele atingira o cume daquilo que havia começado trinta anos antes com
“The Love Song of J. Alfred Prufock”. Para Eliot o tempo inclui dois aspectos:
tempo, ou o temporal, que se move dentro do mundo dos fenômenos, e o
intemporal, ou eternidade, que é transcendente e absoluto. Os dois aspectos do
tempo existem simultaneamente. O mundo do tempo fenomenal se move
horizontalmente num nível baixo, no espaço. O mundo do tempo da eternidade,
noumenal, é sempre presente num alto nível, possível ao homem em momentos
transcendentes. O sujeito, destarte, vive no tempo se esforçando
teleologicamente para a compreensão do seu fim, buscando alcançar a harmonia e
a intersecção entre o tempo e a eternidade. Nessa luta dialética se encontra a
transcendência da personalidade de caráter espiritual. A morte, portanto, é o
começo da vida e o fim do sofrimento, mas essa compreensão só existe na medida
em que o homem, na realidade, volta-se para Deus e reconhece a sua vocação mais
íntima:
“O
que chamamos o começo é muitas vezes o fim
E fazer um fim é fazer um começo.
O fim é de onde nós partimos.”
E fazer um fim é fazer um começo.
O fim é de onde nós partimos.”
E
diz Vieira:
"O instante da morte não é como os instantes da
vida. Os instantes da vida, ainda que não têm partes, unem-se com partes;
porque unem a parte do tempo passado com a parte do futuro. O instante da morte
é um instante que se desata do tempo que foi, e não se ata com o tempo que
há-de ser, porque já não há-de haver tempo."
O “acabar a vida
antes que a vida se acabe” de Pe. Antonio Vieira é como o fim que se torna
começo de T.S Eliot em “Four Quartets”. Eles não estão aqui fazendo apologia ao
suicídio ou à negação da carne, mas, outrossim, exaltando a existência voltada
para o Bem, este “caminho do despojamento” dito por Eliot em explícita alusão
ao seu estimado São João da Cruz., onde o que “possuis é o que não possuis”. A
morte, como desfecho da vida terrena, torna-se porta de entrada para a
eternidade. Entretanto, a morte em vida, a via da santidade apontada por Vieira
e a senda da mística indicada pelo poeta, já nos faz experimentar o antegozo
daquilo que se terá na glória.
“Nossa
saúde é tão-só nossa doença
Se
contentarmos a enfermeira à morte
Que
jamais em desenfastiar-nos pensa
Mas
lembrar-nos da nossa, e de Adão, sorte,
Que
há-de o mal, para saramos, ser mais forte.”
E completaria Pe. Antonio Vieira
dizendo:
"Este
é o único antídoto contra o veneno da morte este é o único e só eficaz remédio
contra todos seus perigos e dificuldades: acabar a vida antes que a vida se
acabe. Se a morte é terrível por ser uma, com esta prevenção serão duras; se é
terrível por ser incerta, com esta prevenção será certa; se é terrível por ser
momentânea, com esta prevenção será tempo, e dará tempo. Desta maneira faremos
da mesma víbora a triaga, e o mesmo pó que somos, será o correctivo do pó que
havemos de ser: Pulvis es, in pulverem reverteris."
Ao final, em
“Little Gidding”, Eliot afirma que “nascemos com os mortos”. Obviamente aqui a
referência primeira é ao caráter atemporal do funcionamento da comunidade de
almas, como a “democracia dos mortos” chestertoniana. Contudo, sabendo da
primazia da mística em seu pensamento, especialmente na sua poesia mais madura,
é lícito ler essa passagem à luz da noção vieirense da morte. Esse patamar,
isto é, quando chegamos “ao ponto de onde partimos”, é descrito na poesia elioteana como o olhar
profundo e simples da própria realidade, “uma condição de completa
simplicidade”, contemplando “as crianças na macieira”. Em tal experiência, e
aqui entram as palavras da Beata Juliana de Norwich, “alle shalle be wele –
tudo sairá bem”. Só assim, como diz Eliot, “o fogo e a rosa” serão um fazendo
com que “por benefício do pó que somos não temeremos o pó que havemos de ser”, completa
Vieira.
