
Pedro Ravazzano
Hoje assisti ao filme “Fúria de Titãs 2”, realmente muito bom como entretenimento e diversão. Entretanto, é interessante pensar como os mitos gregos, com mais de 2000 anos de existência, perduram na fantasia do homem moderno, ainda que este mesmo homem venha sistematicamente destruindo tudo aquilo que o liga ao seu passado. O sucesso do filme, além de consequência da excelente produção, se deve principalmente ao modo como atinge a imaginação mediante uma história que, ainda estando restrita a um determinado contexto histórico e cultural, impõe-se ao homem atual como realidade presente.
“Fúria de Titãs 2”, muito ao seu modo, trabalha a favor daquilo que T.S Eliot chamava de “coisas permanentes,” ou seja, realidades atemporais que unem o passado e o presente. Contudo, não seria correto compreendê-las como saudosismo nostálgico ou romantismo idílico. As coisas permanentes nos ajudam a conhecer o nosso eu porque através do reconhecimento do passado nos entendemos como homens. Assim, a partir do tempo – um segundo, um minuto, uma hora, um ano, um século – nos enxergamos como parte da comunidade de almas que lega aos seus filhos as experiências dos antigos. Tanto a “democracia dos mortos”, de G.K Chesterton como o pacto entre os mortos, os vivos e os que ainda nascerão, de Edmund Burke, partem da mesma constatação.
Hoje, infelizmente, vivemos numa era onde o passado é preterido pelo progresso. Esse rechaço leva consequentemente a uma vida marcadamente melancólica porque fundada no futuro inalcançável. A grandeza das coisas permanentes, ou da tradição quer queiram, é perceber que esses legados foram e são fundamentais na construção da civilização na qual nos encontramos. Assim, tanto o Velho e o Novo Mundo se unem naquilo que são as heranças comuns a todos os ocidentais. Como disse o Prof. Carlos Ramalhete “Tradição" é o que é trazido. E isso inclui o pagão Cícero, o luterano, Bach, o jansenista Pascal, o agnóstico Ortega y Gasset. Tudo isso é *trazido*, "traditum", pela nossa civilização, que foi construída pela Igreja e que é nosso patrimônio.” Ora, através da identificação do homem presente com o Perseu cinematográfico há, justamente, a superação do tempo, uma ponte é construída e o indivíduo em pleno século XXI se sente moralmente unido ao mítico herói grego.
Essa dinâmica só se torna possível através da “imaginação moral” como pensada por Russell Kirk e Edmund Burke. Destarte, como um ser moral, consegue o homem estruturar, por meio da consciência, metáforas que se relacionam com as suas experiências morais. As coisas permanentes são fatores basilares na construção dessa apreensão através do legado dos antigos. A origem natural do homem na família e na sociedade é um sinal da sua condição comunitária, isto é, membro de uma ordem na comunidade que reflete a mesma ordem que há na sua alma. Assim, zelar e perpetuar a memória de Perseu, Hades e Zeus é, como bem já sabiam os gregos, um modo de imortalizá-los. Entretanto, tal eternidade, que une o passado com presente, se torna real quando o homem se identifica com a força moral dessa herança. Compreender o valor da música de Bach, das obras de Ovídio, dos escritos de Dostoievski e das telas de Caravaggio, é, pois, a maneira de eternizar a experiência que as criaram e a forma pela qual os nossos filhos e netos conseguirão se reconhecer como homens integrados.


