Mostrando postagens com marcador Pedro Ravazzano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pedro Ravazzano. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Terroristas, Marxistas e Teólogos da Libertação

O fundamentalismo islâmico tem em sua origem histórica o wahhabismo de Muhammad ibn Abd al-Wahhab, e auto-proclamado salafismo. Entretanto, ao longo dos tempos, o radicalismo foi tomando uma feição mais em sintonia com os obstáculos apresentados pelo mundo moderno. O choque com a Civilização Ocidental e a crescente pressão pela adoção de parâmetros democráticos de governo geraram o fortalecimento de grupos fundamentalistas. Neste processo surgem figuras de destaque, como Abul Ala Maududi, fundador do Jamaat-e-Islami, com a sua nova leitura da jihad e do "estado islâmico".

Na sua luta contra o ethos secularizante que invadia a Índia Britânica - lembremos que a divisão do território com a criação do Paquistão ocorreu apenas em 1947 - Maududi buscou repensar o método islâmico de combater a extensão do domínio ocidental nas regiões muçulmanas. Na contestação ao inimigo ele acabara por desenvolver uma leitura da realidade muito similar ao que fora proposto pela "teologia da libertação" na América Latina. A percepção dialética favorecia ainda mais a supervalorização da práxis como método de transformação. O fundamentalismo, de tal modo, era consequência do reconhecimento da primazia na ação. A coroação deste método se deu com a transformação radical da compreensão da jihad na fé islâmica.

Maududi percebeu que os papéis do islamismo e do "estado islâmico" não estavam restritos às nações muçulmanas. Tal sensibilidade se aproximava, ainda que indiretamente, da concepção trotskista da revolução permanente e de caráter internacional. Ainda em sintonia com o pensamento comunista, o califado mundial pensado pelos fundamentalistas, por mais discussões que tivessem ocorrido nos primórdios da expansão islâmica sobre a incompatibilidade entre um califado de caráter monárquico e os ensinamentos de Maomé, assemelhava-se ao "estado proletário" concebido pelos teóricos marxistas.

Para uma transformação tão radical na mentalidade dos muçulmanos Maududi concebeu uma nova noção da jihad e um novo papel para o islamismo no cenário mundial:
"Islam wishes to destroy all states and governments anywhere on the face of the earth which are opposed to the ideology and programme of Islam, regardless of the country or the nation which rules it. The purpose of Islam is to set up a state on the basis of its own ideology and programme, regardless of which nation assumes the role of the standard-bearer of Islam or the rule of which nation is undermined in the process of the establishment of an ideological Islamic State. Islam requires the earth—not just a portion, but the whole planet .... because the entire mankind should benefit from the ideology and welfare programme [of Islam] (...) Towards this end, Islam wishes to press into service all forces which can bring about a revolution and a composite term for the use of all these forces is ‘Jihad’. (...) the objective of the Islamic ‘ jihād’ is to eliminate the rule of an un-Islamic system and establish in its stead an Islamic system of state rule."
Dentro deste cenário o fundamentalismo surge como o instrumento da práxis na transformação do Ocidente e na defesa dos padrões islâmicos. Não há, portanto, nenhuma grande diferença entre a lógica radical e a dinâmica concebida pelos comunistas. Contudo, foi o pensamento wahhabita que criou toda a estrutura de pensamento, como a fragmentação da comunidade islâmica entre bons e maus muçulmanos. O Ayatollah Khamenei, Líder Supremo da Revolução, consciente do longo atrito entre o Irã e a Arábia Saudita, lembrou que "if it [Salafism] is interpreted as prejudice, rigidity and violence among Islamic denominations and different faiths, it will not be compatible with the progressiveness and rationality that form the foundation of Islamic thought and civilization, and it will help promote secularism and irreligion." 

O radicalismo islâmico, destarte, como a "teologia da libertação", leva consigo a transformação da realidade através da ação. Indiretamente se aproximam da percepção marxista, o que justifica a razão pela qual diversos partidos de esquerda desenvolveram um forte apreço pela causa dos fundamentalistas. Entretanto, o que se apresenta é um cenário polarizado onde radicais e secularistas muçulmanos vivem num ciclo de retroalimentação vital para o aumento de suas fileiras. Nesse jogo o islamismo, em sua mais natural e espontânea versão, corre o risco de ser esquecido ou ofuscado em meio ao enorme conflito no qual está inserido.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O anglicanismo ontem e hoje


A Igreja Anglicana hoje, dividida em diversas facções e alturas – Alta, Média e Baixa -, talvez seja o exemplo mais claro da decadência da fé quando não está alicerçada em fundamentos sólidos e verdadeiros. A separação de Roma não apenas foi um ato de supremacia nacional, mas, antes de qualquer coisa, a perda de um foco objetivo de verdade. Sem o reconhecimento da autoridade dada por Deus, isto é, do modelo institucional da Igreja, os ingleses transformaram a sua nova religião no cenário de uma batalha teológica infindável. 

A história do nascimento da Igreja Anglicana é notória. Ainda que hoje em dia os anglicanos busquem respaldar o surgimento da sua igreja oficial em movimentos separatistas pré-Reforma, o dado histórico verdadeiro mostra que o termo Ecclesia Anglicana, como fora usado constantemente para se referir à presença eclesiástica no reino inglês, sempre foi compreendido como sinônimo da Igreja “na Inglaterra” e não “da Inglaterra”, assim como se usava recorrentemente termos como Ecclesia Galicana, para se referir à Igreja na França, ou Ecclesia Hispanica, à Igreja na Espanha. Assim, pois, outorgando-se a alcunha de católica e reformada, a Igreja Anglicana surge da necessidade concreta de Henrique VIII legitimar a sua nova união. Obviamente o cenário favorecera enormemente a ascensão de teólogos e pensadores ligados ao pensamento luterano e, ademais, a devassidão do clero, encabeçado pelo Cardeal Wolsey, alimentava a fúria de muitos nobres inconformados com o poderio material dos bispos. 

Se inicialmente a Igreja Anglicana estava perdida no seu real propósito, sendo unicamente uma versão nacional e reformada da Igreja Católica, mas mantendo a mesma fé sacramental, no reino de Eduardo VI e Isabel I se estruturara mais claramente uma teologia genuinamente inglesa. No reinado do filho varão de Henrique VIII o protestantismo em sua versão mais radical, com claros cortes calvinistas, galgou espaços profundos no poder clerical institucional: vitrais e imagens destruídos, procissões, água benta, incensos proibidos, o celibato revogado, o sentido sacrificial da Santa Missa negado, altares substituídos por mesas moveis. Surge, assim, The Book of Common Prayer, pensado por Cranmer e que sintetiza a teologia anglicana. Tal radicalização possibilitou a estruturação do pensamento puritano que, no reinado de Isabel I, causara enormes divisões internas na Inglaterra. A “Rainha Virgem” conseguira pacificar o anseio reformista, combatera fortemente os levantes das seitas calvinistas e, por fim, destruíra todo o legado católico deixado por sua irmã, Maria I. 

Hoje a Igreja Anglicana surge como o maior exemplo das contradições internas do protestantismo. As igrejas nacionais dos países escandinavos largaram o radical puritanismo e debandaram para o relativismo moral e doutrinal. Entretanto, a Igreja da Inglaterra se orgulha de reunir sob a mesma autoridade a tradição evangélica – Low Church – que enfatiza o aspecto reformado da identidade anglicana, aclamando a autoridade da Escritura ao modo calvinista e reconhecendo a justificação, a tradição católica – High Church – que ressurgiu como o Movimento de Oxford em 1830, e que enxerga a Igreja Anglicana na continuidade da Igreja dos tempos patrístico e medieval, destacando, ademais, o caráter visível da instituição eclesiástica mediante a estrutura hierárquica ministerial de pretensa origem apostólica. Por fim, a tradição liberal – Middle Church – que partindo de princípios teológicos progressistas pretende responder aos questionamentos do homem moderno e que hoje responde por parte considerável da sensibilidade teológica anglicana mainstream. 

Atualmente, contudo, a Igreja Anglicana se fragmenta cada vez mais em siglas que têm percepções práticas da fé cristã totalmente opostas. Aspectos morais, como a ordenação de mulheres e homossexuais, assim como a legitimação da união de parceiros do mesmo sexo, têm instigado feridas profundas dentro da Comunhão Anglicana. Nesse aspecto o pastoreio de Rowan Williams na Cantuária é uma clara amostra da capacidade da Igreja da Inglaterra de conciliar o inconciliável. O Primaz, em sua posição teológica, simpatiza com leituras liberais, mas, ao mesmo tempo, adota um tom em defesa da ortodoxia e da vida sacramental típica das alas anglo-católicas. Ademais, Williams busca pacificar as tensões entre os grupos conservadores e progressistas da sua Igreja. Ao mesmo tempo em que nomeara Drexel Gomez, conhecido bispo conservador anglicano, para a Lambeth Conference e possibilitara a criação do Windsor Report para estudar o caso da sagração episcopal de Gene Robinson, homossexual não-celibatário, e das bênçãos matrimoniais às uniões homossexuais na diocese de Nova Westminster, fora ele mesmo pouco engajado no combate ao crescimento da sensibilidade moral progressista na sua Comunhão. A consequência foi a debandada de bispos conservadores em todo o mundo, o aumento das tensões internas e o fortalecimento do progressismo na Igreja Episcopal dos EUA, na Igreja Anglicana do Canadá e em todas as Igrejas nacionais dos países que compõem o Reino Unido. 

Pode-se considerar, portanto, que a situação atual do anglicanismo reflete a sua gênese histórica. A intencional busca pela descaraterização do clero, como pensada principalmente por Cromwell e diversos outros “humanistas” da época, gerou consequentemente a desconstrução da identidade que marca a vida consagrada. Ademais, a influência da teologia católica, luterana e calvinista, e o modo como cada uma delas ascendia e caia a depender do entusiasmo dos bispos e dos monarcas, fez com que a Igreja Anglicana jamais pudesse organizar uma unidade de pensamento. Diante deste histórico a teologia liberal encontrou o habitat ideal para se proliferar. Além disso, mediante a íntima relação com o poder secular, pôde canalizar todas as tensões do mundo para dentro da vida eclesial, perdendo, portanto, o caráter missivo e transformador do Evangelho.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O Papa no Líbano: fundamentalismo e indiferentismo


Pedro Ravazzano

A visita do Santo Padre ao Líbano é muito sugestiva e simbólica. Estamos tratando do país mais tradicionalmente ocidentalizado do Oriente Médio, não só pela sua forte história cristã, mas como, e principalmente, por ter sido o porto da França na Ásia. Assim, pois, a nação libanesa se orgulha do seu desenvolvimento social reflexo, em muitos aspectos, das concepções ocidentais de sociedade.

Entretanto, se o Líbano sempre fora o país mais pluralista do Oriente Médio, com uma população composta por 54% de muçulmanos (27% sunita e 27% xiita), 5% de drusos e 41% de cristãos (católicos orientais e ortodoxos, basicamente), hoje sofre com o crescente perigo do aumento do fundamentalismo. Desde o ínicio dos conflitos Israel-Palestina, o sul do país tem se tornado numa região de tensões entre a OLP e o exército israelense. Ademais, o grande número de refugiados palestinos no país favorece ainda mais o incremento das tensões internas e externas. Nesse contexto, contudo, surge outro perigo iminente, talvez mais destrutivo que o próprio fundamentalismo; o indiferentismo.

Países como Turquia, Marrocos, Tunísia, Argélia etc, todos muçulmanos, vem passando por um processo de desconstrução dos paradigmas tradicionais. Mediante o combate às heranças religiosas - na Turquia chegou-se a tal ponto que a suprema corte pretendera proibir o uso do hijab (o véu islâmico) em imitação à decisão tomada pelo laicista estado francês - se estrutura uma sociedade antitética, isto é, o discurso dos arautos do secularismo fortalece a propaganda fundamentalista. O Egito, por exemplo, ao iniciar a "Primavera Árabe" tendo como força motriz a busca pela democracia e liberdade, epítetos que poderiam ser encontrados em qualquer plataforma política ocidental, abrira espaço para a fúria de radicais da Irmandade Muçulmanas e, mais perigosamente, salafistas wahabbitas.

Portanto, numa realidade social em chamas, surge Bento XVI como o arauto da Paz! Em seu discurso aos membros do governo o Papa lembrou que "O mal, o demónio, passa através da liberdade humana, através do uso da nossa liberdade; procura um aliado, o homem: o mal precisa dele para se espalhar. E assim, depois de ter violado o primeiro mandamento, o amor a Deus, vem para perverter o segundo, o amor ao próximo." e, em seguida, disse que "A chamada tolerância não elimina as discriminações; antes, por vezes até as reforça. E, sem a abertura ao transcendente que permite encontrar resposta para os interrogativos do próprio coração sobre o sentido da vida e sobre como viver de forma moral, o homem torna-se incapaz de agir segundo a justiça e comprometer-se em prol da paz."

Ai, pois, se encontra a solução para os problemas do Oriente Médio, já que o Sumo Pontífice nos fala dos problemas do homem em sua universalidade. A resposta não se encontra na defesa propagandística da tolerância como se fosse o remédio ocidental paras as mentes fideístas islâmicas. No coração das dificuldades se encontra o sujeito que, incapaz de alçar voos mais altos, buscando a Deus na sua autotranscendência, usando um termo muito caro a Bernard Lonergan, volta-se contra o seu irmão. A solução, portanto, está na conscientização do aspecto transcendente da própria condição individual. Assim, mediante o reconhecimento da dependência ao Outro que nos faz, ao cumprimento desse "destino original", dessa vocação natural, pode o homem construir, finalmente, a Civilização do Amor.

domingo, 12 de agosto de 2012

A Tradição e a Arte


Todos os seres têm o transcendental beleza, mas é a arte que, por excelência, externaliza a grandeza desse aspecto ontológico das coisas. Entretanto, a arte é forjada através das experiências morais e pessoais do autor. Desse modo, é unicamente por meio da forte carga subjetiva que a beleza se expressa seja numa poesia, numa pintura ou numa composição musical. Infelizmente, contudo, vivemos numa era onde todas as expressões artísticas foram atingidas pela horizontalização da vocação essencial da arte.

Se a arte expressa a riqueza da alma, e se vivemos numa época onde o aspecto espiritual do homem se encontra em profunda degeneração, a consequência natural é que a própria arte se perceba desorientada no seu real propósito. O espírito do homem o movimenta e o anima. Talvez, nesse sentido, a religião e a arte sejam os dois grande produtos desse atributo inerente ao sujeito. Entretanto, também seria uma completa falácia pensar na tradição na arte como alguma característica engessada em modelos temporais. É, pois, belo um quadro de Caravaggio? Sim, mas é necessário pensar na tradição como o reconhecimento da pessoa que o produz, e não na sua redução aos modelos e métodos definidos.

T.S Eliot afirmou que "the poets and dramatists of our day have dug into the most perverse of human complexes, exposing them with the scalpel of a surgeon rather than of a philosopher." Ora, o exemplo elioteano é muito sintomático e rico. O próprio poeta fora colocado dentro da poesia modernista, trazendo consigo novidades para uma literatura que se encontrava em frangalhos por ainda se achar tipicamente vitoriana. Eliot, ao seu modo, ainda sendo conservador, não se encontrava alienado pela cultura moderna. Desse modo, conseguira redimir o tempo por meio da arte como expressão do próprio sujeito na modernidade, seja no horror ou na apatia na qual a alma se encontrava.

Como colocado pelo Prof. Gregory Wolfe, tanto Eliot quanto Picasso partiram do dado real fornecido pelo mundo moderno e, então, a partir da experiência moral íntima fizeram arte expressando a imagem do homem. A fronteira entre o belo e o mau gosto é muito tênue, e se encontra na percepção verdadeira e espiritual da própria realidade. Todavia, se Eliot conseguira completar a sua peregrinação, indo d'A Terra Devastada até os Quartos Quartetos, o pintor espanhol persistira no triste quadro dos horrores de uma sociedade em decadência. Wolfe diz, portanto, que "they wanted art to be able to do more than describe the surface of things or provide uplifting images of an ideal world. They wanted to shock, not merely to be sensational, but in the sense that the artist can help us see the world anew, as if the for first time, with a shock of recognition."

O grande perigo, portanto, é confundir o essencial e o não essencial, "the real and the sentimental", como diz Eliot, entre aquilo que permanece e atravessa a própria história com os frutos gerados ao logo dos tempos. O que é mais tradicional é, portanto, a valorização da vida que produziu a própria tradição. Justamente por isso a arte deve sempre recordar do seu aspecto transcendental no sentido mais ontológico possível, comunicando ao homem de qualquer geração as verdades que se encarnam através da beleza e do horror das eras.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Solus cum Solo: Santa Teresa de Lisieux e Beato John Henry Newman

Pedro Ravazzano

Ao longo da história da Igreja é possível contemplar uma diversidade de relacionamentos de Deus com os Seus filhos. Desde as arrebatadoras experiências místicas até a mais profunda aridez espiritual, o Senhor age de maneiras inexplicáveis e desconhecidas. Entretanto, no outro lado se encontra uma alma sedenta da água viva e que responde aos desígnios do alto. Santa Teresinha do Menino Jesus e o Beato John Henry Newman são dois grandes testemunhos de como a intimidade pessoal com Cristo também acontece na solidão do abismo. Solus cum solo!

O coração fala ao coração, já dizia o lema do Cardeal Newman, também no deserto da alma ávida por Deus. A vida desse convertido é uma clara amostra dos frutos que podem ser colhidos no homem que ruma em direção à Verdade. Ademais, dentro da experiência do beato inglês é notório como as provações e a aridez foram claros instrumentos pelos quais pôde ele se aproximar do Senhor. Pensar que a relação com Deus se faz exclusivamente através das erupções sentimentais é desconhecer a grandeza da oração que brota da alma enamorada e que independe da resposta do Amado. O processo de busca de Newman, que teve como coroa a sua conversão, refletiu não apenas a busca intelectual, mas, principalmente, a dinâmica espiritual na qual ele, solitariamente, sem o auxílio direto dos artifícios eclesiais, identificou a sua incapacidade de fazer-se a si mesmo. Apenas no Outro, naquele que o faz, pode a vida gozar de pleno sentido.
It is face to face, "solus cum solo,"Only this I know full well now, and did not know then, that the Catholic Church allows no image of any sort, material or immaterial, no dogmatic symbol, no rite, no sacrament, no Saint, not even the Blessed Virgin herself, to come between the soul and its Creator. It is face to face, "solus cum solo," in all matters between man and his God. He alone creates; He alone has redeemed; before His awful eyes we go in death; in the vision of Him is our eternal beatitude.”
Santa Teresinha, do mesmo modo, encontrou o Senhor na aridez do Carmelo e na corrida pela perfeição dentro da pequena via. No convento, a infância espiritual, como inspirada por Deus, foi alvo de incompreensões e dificuldades. Quando finalmente encontrou alguém que a compreendera, Pe. Alexis Prou, tivera que se afastar por conta das proibições da Superiora. Assim entende-se a razão pela qual as próprias irmãs da santa reconheciam a sua secura em certos hábitos recorrentes na vida carmelitana; Exercícios Espirituais, orações vocais, penitências e até mesmo o rosário. Santa Teresinha repetidamente falara que não tendo a compreensão de confessores e diretores espirituais, fora justamente na solidão com Deus – “o Diretor dos diretores” – onde encontrara repouso para o seu coração. Estava, pois, sozinha com o seu querido, a sós com o Só.

Tanto o Beato John Henry Newman como Santa Teresa de Lisieux, cada um com experiências únicas, buscaram o encontro com Cristo mediante o silêncio da vida interior. A Doutora da Igreja ensinava que através da solidão da interioridade era possível contemplar a Deus; “Take silence, for example, what good it does to the soul, what failures in charity it prevents, and so many other troubles of all kinds.” Assim, entende-se a visão pequena – mas não inferior - que Santa Teresinha tinha da santidade. A aparente dialética entre “águias” e “passarinhos”, “grande via” e “pequena via”, “pequena santidade” e “grandes santos”, não era reflexo de um olhar distorcido, quiçá herético porque quietista, mas, na oposição a qualquer heterodoxia, partia do senso de que o homem poderia, lançando mão da vida como louvor de glória, buscar a santidade através de gestos e atos de pouco valor, mas agora totalmente providos de razão em Cristo: "Sanctity does not consist in performing such and such acts; it means being ready at heart to become small and humble in the arms of God, acknowledging our own weaknesses and trusting in His fatherly goodness to the point of audacity."

John Henry Newman, pois, com o seu “solus com solo” não apenas vai compreender a profundidade desse encontro “face-a-face”, apenas a alma com Deus, como vai tornar essa experiência o substrato da sua reflexão a respeito da consciência. No livro “Authority,Dogma and History : The Role of Oxford Movement Converts and the Infallibility Debates of the Nineteenth Century,1835 – 1875” Jay Hammond III diz que “It was from the foundational experience of solus cum solo that Newmans emphasis on conscience throughout his works can be traced. Conscience was the compass that guided Newmans actions; to act against his conscience was simply inconceivable.” Ora, a consciência que encontra o Seu Criador se lapida e cresce na sua capacidade de olhar a realidade com a pureza e equilíbrio. A pequena via de Santa Teresinha do mesmo modo entende que o homem, ainda – e principalmente - se reconhecendo pecador, pode e deve encher os pequenos gestos com o olhar dirigido ao céu, como “gritos de gratidão e de amor”.

Hars Urs Von Balthasar, grande devoto e entusiasta de Santa de Lisieux, afirmara que a pequena via, continuamente acusada de incidir no quietismo protestante, afastava-se totalmente do rigorismo recorrente e das premissas adotadas pelos Reformadores. “Therese's little way is a way to perfection, a way for those who have courageously resolved to love and to do nothing else but love. And the faults of which she speaks are not the sins which Luther had in mind; they are ‘faults which do not offend God’” Assim, pois, em Teresinha, diferentemente de Lutero, “ the drama of sin never entwines itself round her soul.” Ademais, “she recognizes the drama of God's descending into the nothingness of the creature and the flame of love with which the Absolute, God, unites himself to his creature's nothingness.”

“Um abismo invoca outro abismo” O nada do homem se encontra com a totalidade abissal que é Cristo numa relação que em Newman e Teresinha realizou-se na solidão da interioridade. O Cardeal e a Doutora da Igreja, de maneiras distintas, puderam reconhecer a pequenez da condição pecadora através da contemplação da grandeza de Deus. O Outro que o faz é confessado quando o homem distingue que não é capaz de se fazer. Teresinha, na vida claustral, compreendera que a estrutura carmelitana muitas vezes se tornava num obstáculo para a superação da vaidade espiritual. John Henry Newman, por sua vez, com a sua caminhada intelectual, descobriu que o conhecimento da Verdade só seria possível com a ciência da condição pecadora e imperfeita do homem que, mediante uma árdua virada, remete ao reconhecimento do amor de Deus. Ambos, pois, numa vida espiritual aparentemente insossa, sem arrebatamentos místicos e luzes esplendorosas, conseguiram descobrir a beleza da existência permeada pelo amor ao Senhor em todos os atos e gestos. Deus, então, escolhera um simples reverendo anglicano e uma pequena garota francesa, e fez deles em vida atores coadjuvantes e incompreendidos para que, na glória celeste, gozassem da contemplação da Sua face! Solus cum solo!

sábado, 5 de maio de 2012

Eu e o Cardeal

“Cor ad cor loquitur”! Esta é a frase escolhida pelo Cardeal John Henry Newman como o seu lema pessoal. Entretanto, tomo a liberdade, reconhecendo a grande audácia do que faço, de dizer que fora através, justamente, do coração desse gigante que Cristo falou ao meu coração. Através de Newman a minha conversão se consolidou; larguei o agnosticismo/ateísmo e retornei ao catolicismo real, não apenas fruto de certo idealismo juvenil.

Quando li pela primeira vez Apologia Pro Vita Sua estava em processo de conversão. A procura pela Verdade já me impulsionava na busca do Outro onde quer que se encontrasse. Recordo-me que depois de passar um tempo considerável flertando com o islamismo, deparei-me com o enorme prédio cristão construído no coração da Civilização Ocidental. Não estava mais diante da caricatura que parecia o cristianismo liberal hodierno, mas o oposto, ou seja, um legado concreto e transmitido pelas gerações. Seria verdade que a fé desses Apóstolos incultos no Cristo morto e ressuscitado foi capaz de converter o mundo? E se tudo procedia, esta era a mesma fé dos tempos atuais? Neste ínterim me aproximei da Igreja Ortodoxa, buscando viver, e não apenas teorizar, a experiência relatada nos Evangelhos, defendida pelos Santos Padres e testemunhada pelos mártires.

A Igreja Católica, contudo, sempre me parecera tristemente decadente e perdida em seu afã pela adaptação ao mundo moderno. Se o cristianismo me era atraente, certamente não tinha como razão a sua eterna capacidade de atualização. Até então a fé se confundia com um anseio de reconstruir o mundo patrístico e medieval. Não havia, pois, a compreensão de que Cristo, quando realmente experimentado como Deus encarnado, não se limitava pelo tempo e que a Sua mensagem, vivida como real, deveria justamente se tornar atual.

Na época da leitura do livro Apologia Pro Vita Sua a minha proximidade com o catolicismo era iminente. Ao final de tal processo se encontrava o ápice da minha procura; a confissão – a segunda da minha vida – seguida da comunhão, Cristo! O importante, e isto me lembro bem, é que através da obra do Cardeal Newman compreendi o percurso que passara, um caminho extremamente fatigante, mas recompensador. A conversão deste que fora fellow do Oriel College mostrou a profundidade da fidelidade da consciência à Verdade. Não importava o preço que deveríamos pagar, se encontramos o que buscamos, a quem buscamos, o Outro, tudo deve ser entregue; o orgulho próprio, a vida, a amada Oxford.

Cardeal Newman, então, foi um dos claros sinais que Cristo colocou em minha vida, um meio pelo qual Ele pôde mostrar até que ponto chega o homem apaixonado pela Verdade. O caminho não apenas se confunde com Ele, o caminho é o próprio Verbo feito carne, e quem se encontra diante dessa belíssima estrada deve conscientemente iniciar o percurso que tem como fim último a contemplação da Sua face. Newman, com a sua vida, mostrou como a Verdade não nos cobra nada, mas a consciência quando a encontra não tem outra reação a não ser despojar-se totalmente diante da grandeza da Sua majestade.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A crise da cultura no Nordeste Profundo


Pedro Ravazzano

Até que ponto o local do nosso nascimento influencia na formação da nossa personalidade? A questão pode ser resolvida mediante a compreensão de como a cultura – aqui entendida de modo elioteano, ou seja, que abarca tudo aquilo que muitas vezes é visto como segmentos culturais; educação, erudição, música, arte etc – forja a experiência íntima de cada homem consigo e com a sociedade. Infelizmente, contudo, a grandeza cultural do Nordeste, da Bahia e de Salvador, no meu caso particular, vem sendo sistematicamente desconstruída pelo ethos do liberalismo e do materialismo atuais. Não obstante, essas regiões trazem em si uma marcada herança que as transformam em baluartes das “coisas permanentes” que criaram o Brasil.

O Nordeste é uma região extremamente heterogênea. Obviamente há em todos os estados um fio condutor que torna possível a identificação, entretanto, a uniformidade nordestina atual é muito mais fruto de certo simplismo “sulista” ao enxergar a região. Até mesmo dentro de um estado como a Bahia a identidade “estadual” é complicada. O que une o baiano de Salvador e do Recôncavo ao baiano sertanejo do interior? Certamente o segundo tem muito mais vínculo cultural com o pernambucano do Sertão do que com o seu conterrâneo da capital. Não obstante, o vínculo é real e é fruto do denso e vivo legado deixado pelo 2 de Julho, a luta pela independência da Bahia que, de certo modo, unificou o território que sempre foi marcadamente diverso.

O Nordeste tem características comuns que perpassam os nove estados; diversas manifestações artísticas, uma elevada produção intelectual, o reconhecimento da sabedoria popular, ou seja, a clara compreensão de que a cultura não se reduz à pomposa erudição. Se a cultura é a encarnação da religião, como dissera T.S Eliot, no Nordeste essa máxima é facilmente compreendida. Se há certa unidade nordestina é porque esta é fruto da fé. Assim, pois, o Nordeste é o Nordeste Profundo, católico, aberto ao infinito porque confiante na ação de Deus e reconhecedor de que tudo aquilo que nos faz agora é herança. Os poetas, escritores, pintores, escultores, músicos etc, que surgiram nas nossas terras também são tomados por esse mesmo espírito que é maior do que os limites visíveis de uma paróquia ou de uma piedosa procissão de Corpus Christi. Vale frisar, ademais, que a grandeza nordestina está nessa abertura contagiosa que torna tanto o erudito da capital como a senhora devota do sertão unidos porque, cada um a seu modo, contemplam a realidade com o mesmo olhar, enxergam-se como herdeiros de algo.

Desde o alvorecer da sociedade técnica o Nordeste se encontra invadido por certa mentalidade materialista. O ethos liberal vem sistematicamente arrasando tudo aquilo que de mais caro há em nossas cidades. Alguns preferem reduzir o problema afirmando que é culpa do “american way of life” propagado pela música e pelo cinema. Isso não é totalmente verdadeiro. A questão mais profunda se encontra na desconstrução das elites culturais, isto é, sem paradigmas de erudição cultural o corpo todo perde o seu referencial. A solução não é fazer com que todos os nordestinos leiam Castro Alves ou apreciem as esculturas de Frei Agostinho da Piedade, isso seria cair no erro da educação moderna que confunde cultura com erudição de massa e onde se pressupõe que aquilo que emana do povo não tem valor cultural próprio. Entretanto, se nem todos precisam ser eruditos, é necessário que haja quem seja para que assim os outros consigam captar esse mesmo olhar de reconhecimento diante daquilo que foram a eles legados, seja o barroco baiano ou os sapientes conselhos da avó. Só assim, ou seja, através da retomada da cultura em sua totalidade, poderá o Nordeste manter viva não apenas a sua força como celeiro de manifestações artísticas, como também perpetuar para as próximas gerações a marcada sabedoria popular que resiste nos mais distantes rincões dos nove estados.

terça-feira, 10 de abril de 2012

As pontes destruídas na terra devastada


Pedro Ravazzano

O mundo moderno destruiu as pontes que se ligavam ao passado e que, consequentemente, possibilitavam o seu auto-reconhecimento. A crise da civilização ocidental é reflexo inevitável do rechaço sistemático ao passado que leva, naturalmente, à relação fetichista com o futuro e o progresso. Redescobrir, contudo, a grandeza do homem através da sua natural vocação é a forma pela qual a terra devastada pode ser semeada e reconstruída.

A experiência moral é o fundamento do intrínseco senso ético do homem. Entretanto, é obviamente impossível que um homem tenha acumulado todos os juízos possíveis no confrontamento com a realidade. Assim, ainda que seja a experiência moral a base do olhar crítico perante o real, esta bagagem não é estritamente individual, mas, isto sim, transmitida e legada pelos pais, antepassados, tradição. Destarte, o homem que se faz só se realiza mediante a experiência moral herdada. O se voltar para o passado livra, então, o indivíduo do moralismo enrijecido – que pretere a moral enquanto princípio aplicado – e possibilita a fuga de qualquer devaneio pelo qual o presente se simplifica na ante-sala do futuro.

A Civilização Ocidental sempre existiu nos corações dos homens por ela educados. O valor da experiência moral comunicada por todos os séculos sempre foi formativa. Assim, ainda que apenas um seletíssimo grupo tivesse acesso aos nomes mais eruditos e clássicos produzidos, todo o corpo da civilização bebia da força da experiência. A dinâmica interna do funcionamento da pedagogia civilizatória sempre precisou da clara distinção cultural e da sua especialização nos variados segmentos. Destarte, para que senhoras piedosas no interior do país tenham um forte senso moral, é necessário que na capital haja um grupo de eruditos que se reúna para debater a vivacidade experiencial da poesia de Ezra Pound e das telas de Gauguin.

Obviamente seria um total absurdo acreditar que a Civilização seria sinônimo de erudição universal. Isso, além de confundir cultura com uma das suas facetas, rebaixa a verdade contida nas manifestações culturais e morais que emanam de segmentos com pouco ou nenhum acesso ao arcabouço clássico. A grandeza civilizatória não se encontra, então, num projeto nonsense, mas sim no fato de que, ainda que apenas uma elite tenha formação erudita, todos os homens se reconhecem como dependentes das experiências transmitidas, herdadas, sejam de seus sábios avós ou da literatura grega.

Desta forma, salvar a Civilização não é um projeto a ser construído através de cartilhas ideológicas, sejam de “direita” ou “esquerda”. Em todos esses casos há, no máximo, a instrumentalização do passado sem nenhum reconhecimento da sua força atual, presente. Assim, o Ocidente precisa ir além de proteger as obras antigas, os altares barrocos e as telas renascentistas. Sem o vínculo realista – no sentido mais filosófico possível, ou seja, como a adequação do intelecto à realidade – o homem não consegue fazer a virada onde a contemplação transforma-se em experiência vivida no agora. Destarte, salvar a Civilização Ocidental é reconstruir as pontes que ligam o presente ao passado, por meio dessas verdades atemporais que fazem o eu.

sábado, 31 de março de 2012

T.S Eliot e Perseu

Pedro Ravazzano

Hoje assisti ao filme “Fúria de Titãs 2”, realmente muito bom como entretenimento e diversão. Entretanto, é interessante pensar como os mitos gregos, com mais de 2000 anos de existência, perduram na fantasia do homem moderno, ainda que este mesmo homem venha sistematicamente destruindo tudo aquilo que o liga ao seu passado. O sucesso do filme, além de consequência da excelente produção, se deve principalmente ao modo como atinge a imaginação mediante uma história que, ainda estando restrita a um determinado contexto histórico e cultural, impõe-se ao homem atual como realidade presente.

“Fúria de Titãs 2”, muito ao seu modo, trabalha a favor daquilo que T.S Eliot chamava de “coisas permanentes,” ou seja, realidades atemporais que unem o passado e o presente. Contudo, não seria correto compreendê-las como saudosismo nostálgico ou romantismo idílico. As coisas permanentes nos ajudam a conhecer o nosso eu porque através do reconhecimento do passado nos entendemos como homens. Assim, a partir do tempo – um segundo, um minuto, uma hora, um ano, um século – nos enxergamos como parte da comunidade de almas que lega aos seus filhos as experiências dos antigos. Tanto a “democracia dos mortos”, de G.K Chesterton como o pacto entre os mortos, os vivos e os que ainda nascerão, de Edmund Burke, partem da mesma constatação.

Hoje, infelizmente, vivemos numa era onde o passado é preterido pelo progresso. Esse rechaço leva consequentemente a uma vida marcadamente melancólica porque fundada no futuro inalcançável. A grandeza das coisas permanentes, ou da tradição quer queiram, é perceber que esses legados foram e são fundamentais na construção da civilização na qual nos encontramos. Assim, tanto o Velho e o Novo Mundo se unem naquilo que são as heranças comuns a todos os ocidentais. Como disse o Prof. Carlos Ramalhete “Tradição" é o que é trazido. E isso inclui o pagão Cícero, o luterano, Bach, o jansenista Pascal, o agnóstico Ortega y Gasset. Tudo isso é *trazido*, "traditum", pela nossa civilização, que foi construída pela Igreja e que é nosso patrimônio.” Ora, através da identificação do homem presente com o Perseu cinematográfico há, justamente, a superação do tempo, uma ponte é construída e o indivíduo em pleno século XXI se sente moralmente unido ao mítico herói grego.

Essa dinâmica só se torna possível através da “imaginação moral” como pensada por Russell Kirk e Edmund Burke. Destarte, como um ser moral, consegue o homem estruturar, por meio da consciência, metáforas que se relacionam com as suas experiências morais. As coisas permanentes são fatores basilares na construção dessa apreensão através do legado dos antigos. A origem natural do homem na família e na sociedade é um sinal da sua condição comunitária, isto é, membro de uma ordem na comunidade que reflete a mesma ordem que há na sua alma. Assim, zelar e perpetuar a memória de Perseu, Hades e Zeus é, como bem já sabiam os gregos, um modo de imortalizá-los. Entretanto, tal eternidade, que une o passado com presente, se torna real quando o homem se identifica com a força moral dessa herança. Compreender o valor da música de Bach, das obras de Ovídio, dos escritos de Dostoievski e das telas de Caravaggio, é, pois, a maneira de eternizar a experiência que as criaram e a forma pela qual os nossos filhos e netos conseguirão se reconhecer como homens integrados.

terça-feira, 27 de março de 2012

Quando Stálin louvou a "liberdade de expressão"


Pedro Ravazzano

A discussão a respeito do secularismo da PUC-SP está em alta e cresceu em proporção por conta do pronunciamento do Bispo emérito de Garulhos, Dom Luiz Bergonzini. Este defendeu que a Universidade, por ser católica, deve se fundamentar nos princípios cristãos. Não poucos foram os arautos da “liberdade” que se levantaram contra aquilo que consideraram a fala totalitária e anti-reflexiva do Prelado.

Para compreender as nuances e a profundidade dessa discussão devemos nos livrar do típico preconceito secularista que, direta ou indiretamente, toma conta da consciência do homem moderno. Antes de atentarmos para a famigerada “liberdade de expressão”, é crucial reconhecer que, de modo coerente, o catolicismo é parte integral e fundante da PUC. Assim, pois, como alguém em sã consciência pretende criticá-la por querer ser católica?

A liberdade de expressão não é “unidirecional”, do contrário estaríamos falando do sonho dos totalitários, ou seja, da liberdade de alguns poucos se pronunciarem enquanto muitos outros são sistematicamente taxados de “reacionários”, “fascistas”, “medievais” etc. Que qualquer homem comum goza de liberdade para defender o aborto, o casamento homossexual, eutanásia, é algo óbvio e cristalino. Não obstante, a realidade mostra-se terrivelmente deformada quando tais propostas não apenas são defendidas dentro de uma Universidade Católica como quando os seus defensores se sentem no direito de atentar contra a coerência mesma da Instituição. E tudo em nome da liberdade.

Em um dos artigos do estatuto da PUC-SP se diz que o cumprimento da sua missão “orienta-se, fundamentalmente, pelos princípios da doutrina e moral cristãs” e que “dentro desse espírito, assegura a liberdade de investigação, de ensino e de manifestação de pensamento, objetivando sempre a realização de sua função social, considerada a natureza e o interesse público de suas atividades.” Ora, estamos falando, portanto, de uma instituição católica e que se alicerça em claros paradigmas cristãos. Vale frisar, contudo, que o que é proposto não é a transformação da sacralidade acadêmica numa aula de catequese paroquial, mas sim que o ethos que sustenta a vida universitária é, obviamente, cristão.

Os revoltosos secularistas afirmam que se a PUC aderisse ao que a ela é pedido se distanciaria da essencial liberdade de expressão. Entretanto, a PUC-SP não é a única Universidade do mundo e, ao que me consta, ninguém ingressou nela sem saber o que representam as letras “P” e “C” que aparecem na sua sigla. Ademais, nunca haverá um ambiente universitário livre de influências externas, sejam elas políticas, religiosas, ideológicas – as nossas Universidades Federais que o digam. Assim, é natural que os homens que constroem as Academias – não, elas não caem do céu e nem brotam por partenogênese – estejam unidos por um projeto comum. Foi assim que surgiram as Universidades historicamente – criadas pela Igreja, diga-se de passagem – e foi assim que nasceram diversas instituições acadêmicas das mais variadas matizes; comunistas, luteranas, católicas, liberais, umbandistas etc.

Destarte, é assustador perceber como um grande número de jovens e pensadores não percebe a gravidade de tamanha incoerência. Tal grupo advoga o direito de estudar e lecionar numa instituição católica e de defender uma agenda moral que vai de encontro com aquilo que é defendido, racionalmente, pela Igreja, mas sequer aceita o direito da mesma instituição católica de querer ser católica e de se posicionar no mesmo aspecto. Trata-se, então, de uma liberdade de expressão enviesada e assustadoramente ideologizada. Devemos, entretanto, buscar viver realisticamente, só assim será possível nos afastar do desejo idealista que sempre ronda o coração.

sábado, 10 de março de 2012

Os modernamente tradicionais

Todos já sabem da polêmica carta que alguns sacerdotes escreveram contra Pe. Paulo Ricardo! Todos também sabem que essa iniciativa é tão baixa quanto desprovida de qualquer lógica - como se acusa um sacerdote unicamente por ser...ortodoxo? Entretanto, o que realmente não esperava foram algumas reações de jovens católicos no - ou de - facebook.

Não poucos conclamaram uma revolta em frente à cúria da Arquidiocese de Cuiabá. Pera lá! A Igreja agora é uma democracia? Mas não fora este o pressuposto usado pelos Padres revoltosos que escreveram a carta? Não tinham, justamente, como intenção pressionar o episcopado para punir Pe. Paulo Ricardo? Ora, a mentalidade revolucionária se mostra tão fortemente presente nos paradigmas atuais que para defender aquilo que de bom, justo e verdadeiro Pe. Paulo Ricardo fala a favor alguns seguidores repetem os mesmos métodos antitradicionais, isto é, revolucionários, dos seus contrários.

Infelizmente, contudo, não é uma situação atípica, mas, ao contrário, recorrente. Um número considerável de católicos, especialmente na internet, tem uma crença terrivelmente estranha na "Tradição" - entendida como uma idéia vaga, quase sempre simplificada ao que, de fato, é a tradição (com T minúsculo) - porque infalsificável. Explico-me! A pessoa que se coloca contrária, ou ao menos não simpatizante, com as causas "da Tradição", é reduzida rapidamente a inimigo da Igreja e de Cristo. O tradicionalismo, assim, se transforma numa doutrina irrefutável como o marxismo e a psicanálise. Qualquer um que se opõe a tal paradigma, e não ao que de fato é a Tradição, é acusado de ser hereticamente modernista. Com isso há o cenário adequado para se edificar o típico pensamento de seita, que é, do mesmo modo, moderno. Surgem disso jovens que tradicionalmente defendem a doutrina, mas que modernamente defendem o protesto na Cúria!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O real e o ideal na Teologia da Libertação

Pedro Ravazzano

A Teologia da Libertação (TL) tem algo de bom? Existe alguma faceta própria dela que seja realmente digna de ser valorizada? Essas são perguntas que, muitas vezes, passam longe da cabeça da maioria dos católicos comprometidos e conscientes da problemática da Igreja na América Latina nos últimos trinta anos. Entretanto, são questionamentos que devem nos levar a buscar aquilo que é dado pela realidade, isto é, abrir mão de visões distorcidas, quiçá românticas do que seja o cristianismo na sua mais profunda natureza. Desse modo, compreendendo de forma honesta o desenrolar desse pensamento teológico é possível construir uma crítica sincera e honesta.

A Teologia da Libertação entendeu corretamente a importância real do cristianismo na vida concreta do homem. Jesus deixa de ser apenas uma figura ideal, sem objetividade efetiva na existência do cristão, e passa a ter uma função essencial já que Ele se torna o transformador e catalisador do destino mesmo deste. Esta característica é marcante em todos os pressupostos que permeiam os paradigmas da Teologia da Libertação. Entretanto, a grande virada “libertadora” foi a sua grande decepção, isto é, o uso da leitura marxista.

O marxismo enquanto método fundamental da interpretação da realidade, como pensado pelos grandes arautos da TL, levou de modo sistemático ao fim do olhar transcendente diante do mundo. Ou seja, se Cristo era presença na existência mais íntima e plena do homem, Ele certamente humanizava-se de tal modo que perdia a Sua divindade. Essa crescente descristianização de Cristo é acompanhada da desconstrução da imagem do Jesus real, isto é, do Deus feito homem, restando apenas um famigerado “Jesus histórico”, morto por ser uma ameaça a ordem social estabelecida. Assim, por exemplo, Pe. Ignacio Ellacuría, um dos célebres adeptos deste pensamento, chega a defender, em nome da historicidade de Cristo, o Reino de Deus imanente, construído concretamente na luta contra o mundo estruturalmente contraditório. Nessa leitura a fé se torna comprometimento político e viver a experiência cristã se transforma em batalhar pela efetivação do ideal. Justamente na continuidade lógica desse raciocínio, Sacerdotes como Manuel Pérez Martínez e Camilo Torres Restrepo pegaram em armas e comandaram o Exército de Libertação Nacional, uma das mais violentas guerrilhas colombianas.

Os discursos “libertadores”, embebidos no materialismo histórico, não enxergavam o povo de Deus como homens e mulheres que carregavam uma riqueza própria. Assim, o natural espaço da individualidade era esmagado pela massificação do real. Enquanto Cristo buscava um relacionamento pessoal com cada homem, a Teologia da Libertação se fundamentava nos paradigmas coletivistas onde a realidade mesma da existência era transformada em meros reflexos das estruturas de poder. Por mais apocalípticos que soassem as traduções que a Teologia da Libertação fazia dos clamores do povo estas não passavam, em sua maioria, de simplórios devaneios ideológicos. Dizer, por exemplo, que a vida dos camponeses católicos do interior do Brasil só iria melhorar quando os modelos burgueses de domínio fossem destruídos poderia soar até profundamente real e acertado, entretanto isso seria uma saída muito mais cômoda – na mesma proporção que falsa – do que assumir a gravidade dos problemas pessoais e que concernem às experiências concretas e aparentemente banais de Dona Maria e Seu Zé.

Em nome de uma compreensão até correta da presença de Cristo junto ao homem na realidade a Teologia da Libertação criou o ideal e, em nome desse mesmo ideal, pretendeu modificar a realidade. Usando a chave de leitura dada por Eric Voegelin podemos então compreender que o abandono da realidade, a primeira, surge com a estruturação da segunda realidade, mediante um sistema ideológico que abarca absolutamente tudo. Como fruto desse processo surgem homens que não vivem mais na realidade, mas sim numa falsa imagem desta. Nascem, então, Padres que, em nome de Cristo, pegam em armas e criam guerrilhas. Não há mais cristianismo, resta apenas a paixão da ideologia!

*Na foto Pe. Camilos Torres Restrepo

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O jovem alienígena e alguns católicos

Pedro Ravazzano

Um jovem alienígena marciano cai na terra e em seus tempos livres acessa a rede mundial de computadores. Lá, então, ele conhece alguns terráqueos que, ainda sendo separados por questões sociais, raciais e geográficas, se apresentam todos como cristãos católicos, membros de uma tal Igreja Católica Apostólica Romana. O nosso caríssimo E.T, que chamaremos de Zezinho para proteger o seu anonimato, como um bom estudioso dos povos atrasados de outras galáxias, resolve se inteirar a respeito do que estes católicos professam.

Em conversas com alguns jovens humanos o viajante estelar toma contato com um idioma exótico chamado latim. Ainda que a maioria dos atuais habitantes desconheça esta língua e os poucos que gostam sequer saibam usá-la, o certo é que para alguns grupos entre os católicos que conheceu este idioma exerce uma atração irresistível, ele acredita que seja reflexo de algum poder mental. Em seguida mandaram que o nosso querido E.T fosse num sebo – assim é como os atrasados humanos chamam lojas que vendem livros, algo muito rudimentar, diga-se de passagem - para arranjar um breviário, fundamental para que ele acompanhasse aquilo que os habitantes terráqueos nomeiam de Missa Tridentina. Ele ainda não entendeu o que seria propriamente isso, mas soube que tinha algo relacionado com a sua condenação, almas, fogo do inferno, redenção, sacrifício incruento da cruz e um homezinho de costas – esta última parte é muito importante para os humanos, percebera rapidamente o marciano.

Zezinho, então, continuando a sua investigação, se aproximou de outros jovens católicos, mas foi seriamente repreendido pelos primeiros que conheceu. Estes acusaram os novos amigos do extraterrestre de serem modernistas. O nosso estimado E.T não compreendeu muito bem o que seria o modernismo, concluiu que tivesse algo a ver com bom humor, calças jeans e cervejas. Mantendo a sua proximidade com os católicos, descobriu que deveria rapidamente mudar os seus indecorosos trajes extra-planetários; o seu pescoço estava exposto e poderia ser razão do pecado de delicadas moças que só saiam de suas casas às 18:20 para tomarem banho de sol acompanhadas pelos seus irmãos e esposos e vestidas com longos pedaços de tecido.

Persistindo na sua investigação e ganhando a confiança dos seus novos companheiros, Zezinho conseguiu ser iniciado nos sumos mistérios. Recebeu em suas mãos um exemplar do grande livro que os humanos denominavam de “Suma Teológica”. O seu uso pareceu um pouco esquisito. Quase todos a citavam, mas poucos eram os que de fato a conheciam. Em seguida recebeu uma cartilha de recomendações que abarcavam quase todos os aspectos do ser. Deveria tradicionalizar os seus gostos musicais, artísticos, visuais e devocionais, do contrário seria grosseiramente moderno para acompanhar os encontros em que debatiam as multifacetadas colorações douradas usadas por Fra Angelico em suas obras ou a indecorosa sensualidade contida nas telas do barroco tardio do noroeste dos Países Baixos.

O jovem E.T estava achando interessante, ainda que exótica, essa religião humana. Contudo se assustou quando descobriu que já organizavam uma “Cruzada do séc. XXI; Per Conversionem Marcianorum et Hereticorum Extraplanetaria Contritio”. Foi aí que soube que tais católicos o chamavam de herege e servo de Satanás, o que não demorou a perceber que se tratavam de adjetivos nada positivos tendo em vista as caras de repulsa que os acompanhavam quando proferiam. Zezinho, portanto, temendo a sua segurança física parte para casa acreditando que os católicos não passavam de humanos mal humorados que viviam uma religião tão chata quanto eles próprios.

Ah, quando o nosso viajante estelar estava pronto para partir, ouviu alguém gritar de longe; “Fica com Deus, que Cristo o abençoe”. Não entendeu muito bem o que essa amistosa despedida queria dizer, “seria Cristo o Deus dos humanos?!”, pensou. Acabou declinado desse mesmo pensamento, afinal convivera com os carrancudos católicos e tal nome jamais havia sido citado, muito mais de modo tão cordial.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A crise da fidelidade fundacional


Pedro Ravazzano

As Ordens e Congregações religiosas vêm sofrendo com uma grave crise não apenas vocacional, mas estrutural. O número de religiosos é cada vez mais escasso e os conventos e mosteiros cada vez mais se aproximam da falência. Nessa problemática se destaca, contudo, a desconstrução da figura dos fundadores, quase sempre esquecidos ou ofuscados em meio a uma radical contextualização das suas vidas e ensinamentos.

Os carismas apresentados por Deus aos fundadores são vivos e dinâmicos no seio da Igreja. Obviamente não estão fechados dentro dos limites históricos e culturais próprios da época da fundação. Não obstante, na essência de qualquer família religiosa deve haver a vivência sincera da espiritualidade apontada pelo Espírito Santo. Os fundadores, assim, são exemplos claros e objetivos do modo de experimentar o carisma. Ademais, os seus ditames apontam o norte da vida comunitária reunida na proposta fundacional e “precisamente nessa fidelidade à inspiração dos fundadores e fundadoras, dom do Espírito Santo, se descobrem mais facilmente e se revivem com maior fervor os elementos essenciais da vida consagrada.” (Vita Consecrata)

Infelizmente, com a crise pós-Vaticano II, fruto da errônea compreensão dos documentos conciliares, as Congregações e Ordens buscaram, num grande afã, a atualização diante das necessidades do mundo moderno. Nesse processo, além de hábitos arrancados, de devoções mutiladas e de apostolados deformados, também se encontraram os fundadores renegados. A famigerada contextualização, partindo de leituras imprecisas, os transformaram em idéias vagas, sem qualquer objetividade concreta. As suas vidas exemplares e os seus ensinamentos tornaram-se escravos do tempo, presos ao momento histórico preciso e sem qualquer influência na existência real dos seus filhos “modernos”. Portanto, opõem-se claramente ao que fora dito na exortação apostólica pós-sinodal Vita Consecrata, que diz que são os fundadores “exemplos a que as pessoas consagradas devem constantemente fazer referência, para resistirem aos impulsos centrífugos e desagregadores, hoje particularmente activos.”

A relativização mesma do legado dos fundadores é reflexo da anterior entrada de princípios estranhos na mentalidade cristã. A Igreja, até como herdeira do humanismo clássico, sempre compreendeu o saber como transmissão e expansão fundamentado na tradição recebida e comunicada, algo totalmente diverso da razão utilitarista e técnica atual. Contudo, nesse processo crítico os carismas e todo o legado fundacional padeceram com a obrigatoriedade de adesão às “necessidades dos tempos”, convertidos numa práxis difusa ostentada esta, por sua vez, através de uma leitura horizontal da realidade cristã e da linguagem vazia e desespiritualizada muito similar à novilíngua orwelliana.

A Vita Consecrata diz que “nos fundadores e fundadoras, aparece sempre vivo o sentido da Igreja, que se manifesta na sua participação plena da vida eclesial em todas as suas dimensões e na pronta obediência aos Pastores, especialmente ao Romano Pontífice”. Entretanto a atualizada vida religiosa, influenciada por teologias estranhas que pretendem polarizar, através da dialética moderna, a Igreja institucional e hierárquica do povo de Deus romanticamente idealizado, nivela todos os carismas a uma práxis “libertadora”, desprovidos de identidade e relação direta com a experiência íntima do fundador. Não obstante, ainda em meio a esse cenário, devemos ter em mente a importância fundamental da vida religiosa na manutenção e expansão da fé não só no passado, mas como no presente e no futuro. Desse modo, repetindo as palavras do Beato João Paulo II, sabemos que “a vida consagrada, profundamente arreigada nos exemplos e ensinamentos de Cristo Senhor, é um dom de Deus Pai à sua Igreja, por meio do Espírito.”

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A crise da Universidade e a crise do espírito

Pedro Ravazzano

Como bem disse Otto Maria Carpeaux “das universidades depende a vida espiritual das nações”. Infelizmente vivemos uma grave crise da Academia, crise esta que vai muito além de conteúdos normativos. A união do pensamento iluminista com a idéia do progresso material positivista transformou as Universidades numa fábrica do pensamento técnico, “útil”. Assim, dentro do espaço acadêmico onde outrora havia uma densa reflexão e a produção de uma cultura espiritual, resta apenas certo ranço utilitarista e desprovido de qualquer convicção profunda.

As Universidades têm uma função basilar na construção e constituição das nações. No ambiente acadêmico as gerações atuais alcançam a maturidade necessária para refletir acerca da realidade e pensar nas veredas que guiarão os seus filhos e netos. Contudo, a partir do alvorecer iluminista, com a estruturação do repúdio formal a qualquer pensamento tradicional – tradição aqui entendida num contexto muito particular -, a Universidade perdera o sentido histórico mais profundo, isto é, a responsável por perpetuar aos novos o mundo interior legado pelos seus antigos.

O filósofo Alasdair MacIntyre afirmou a necessidade de recuperar “uma concepção de pesquisa racional incorporada numa tradição; uma concepção de acordo com a qual os próprios padrões da justificação racional avultem e façam parte de uma história na qual eles sejam exigidos pelo modo como transcendem as limitações e fornecem soluções para as insuficiências de seus predecessores, dentro da história dessa mesma tradição.” Entretanto, os ouvidos modernos tremem quando ouvem falar de tradição. A pedagogia humanística entra, então, em decadência quando morre no homem a sua união espiritual com o passado, com a herança recebida de seus pais. O homem sem espírito, sem o nous metafísico, limita a sua própria capacidade racional. Assim, na mentalidade materialista e utilitarista engendrada desde o iluminismo, resta apenas o espaço para a produção de um saber meramente técnico, sem qualquer pretensão que não seja a melhoria imediata e sensível da sociedade. Vivemos, desse modo, a ditadura do progresso onde, logicamente, o passado é necessariamente visto como o reduto da obscuridade e atraso.

Se a Universidade não deve ser compreendida como nostalgia, não tem muito menos como finalidade a educação para um conteúdo útil e profissional. Na sua constituição mesma está como destino último o cultivo do intelecto. O “hábito filosófico da mente”, como colocara John Henry Newman, era fruto justamente do refinamento e enriquecimento das capacidades intelectuais. Assim, a ansiada busca da verdade, sentido da reflexão e da discussão, encontra-se integrada ao amplo conhecimento cultural transmitido e recebido por meio da tradição, da família e da religião.

No prefácio do seu livro “The Idea of a University”, o Cardeal Newman, definindo a noção de Universidade, diz; “That it is a place of teaching universal knowledge. This implies that its object is, on the one hand, intellectual, not moral; and, on the other, that it is the diffusion and extension of knowledge rather than the advancement. If its object were scientific and philosophical discovery, I do not see why a University should have students; if religious training, I do not see how it can be the seat of literature and science.” Ora, se o iluminismo tirou da racionalidade o seu natural espaço tradicional, o positivismo a trancafiou dentro da mentalidade material e técnica, subtraindo da razão a sua capacidade de, através de um olhar atento, contemplar a realidade de modo universal.

A gênese moderna da Academia tende a reduzi-la a uma instituição profissional e, na esteira de tal transformação, num centro altamente politizado onde o conhecimento encontra-se assimilado aos ditames ideológicos. Não obstante, a Universidade tem como função a preservação e ampliação do conhecimento, a constituição de um centro de saber e reflexão. Isso precisa ser redescoberto para que o homem possa, no futuro, reconhecer-se como tal e integrado numa cultura espiritual que o torna apto a compreender a sua existência de forma ampla, além dos limites estipulados pelo momento presente.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Quem é Rick Santorum?


Quem é Rick Santorum? Até então parecia que nos ambientes conservadores e liberais dois nomes Republicanos transitavam, o de Mitt Romney e o de Ron Paul, entretanto eis que aparece o senador pela Pensilvânia.

Santarum e sua família assistem regularmente a Santa Missa na forma extraordinária numa paróquia na diocese de Arlington. Juntamente com a sua esposa são Cavaleiro e Dama da Graça Magistral da Ordem de Malta. Foi ele o autor da Santorum Amendment que promove o ensino do design inteligente nas escolas públicas dos EUA ao mesmo tempo que questiona o status dogmático da teoria da evolução. A emenda, acima de tudo, incita a liberdade intelectual. Dizem que o Senador teve um papel atuante na conversão ao catolicismo do também então Senador Sam Brownback, atual governador do Kansas, que largou o protestantismo por meio do apostolado do Pe. C. John McCloskey, da Prelazia do Opus Dei. Além de um constante testemunho de fé, Santorum viajou em 2002 a Roma para discursar no centenário da celebração do nascimento de São Josemaria Escrivá. Disse, nessa oportunidade, que admirava o fundador do Opus Dei e mostrou não concordar com a separação entre religião no âmbito privado e responsabilidades públicas, chegando a criticar a famosa afirmação de Kennedy. Disse:

“All of us have heard people say, ‘I privately am against abortion, homosexual marriage, stem cell research, cloning. But who am I to decide that it’s not right for somebody else?’ It sounds good,” Santourm said. “But it is the corruption of freedom of conscience.”

Como nem tudo são flores, Santorum tem um discurso muito forte quando o assunto é política externa. Advoga a democratização do Irã como solução para a pacificação do Oriente Médio e a proteção de Israel. Foi um dos defensores do Iran Freedom and Support Act, que não apenas autorizou sanções econômicas e bloqueios, como destinou 100 milhões de dólares a grupos pró-democracia iranianos. O perigo é saber até que ponto custa a "liberdade" persa para as consciências americanas. O esboço de uma futura guerra parece se formar nas entrelinhas do discurso do Senador.

Santorum, ainda combatendo hoje a Sarbanes-Oxley - “We must repeal the burdensome Sarbanes-Oxley law that not only did not prevent the financial crisis, but chased capital overseas.” - foi um dos defensores da lei que regulou ainda mais os mercados financeiros. Convenhamos que no afã da crise econômica todo o Senado se uniu na sua aprovação. Parece, contudo, que se redimiu ao propor um plano de trabalho que inclui a redução do tamanho do governo, a reforma tributária, a reforma regulatória e energética. Não defende, como Ron Paul, a extinção do FED, porém considera de crucial importância a sua despolitização. Ainda afirmando que o Banco Central deverá ter como incumbência apenas o cuidado com a inflação, na prática pode ser acusado de dar uma resolução tímida aos problemas econômicos. Esta execução ainda pode continuar causando a mesma artificial euforia nos mercados por meio do controle da moeda e dos juros. Dentre as suas políticas econômicas se encontram:

Reduce the Size of Governmentrn
Return size of government to historical norm of 18%
Cap future spending
Pass a balanced budget amendment
Tax Reformrn
Cut the corporate tax rate in half
Cut the tax rate to zero for all manufacturers
Permanently extend the Bush tax cuts rates for Capital Gains and Dividend Tax rates
Repeal the Death Tax
Repatriate taxable income outside the United States at a rate of 5%
Reduce the tax code for all by making the system flatter, fairer, and simpler
Regulatory Reformrn
Repeal ObamaCare
Remove CO2 regulations of the EPA
Reign in the National Labor Relations Board (NLRB)
Streamline the patent process
Reform the transparency of the Food and Drug Administration's approval process
Repeal the burdensome Sarbanes-Oxley law
Repeal Dodd-Frank
End "too big to fail"
Energy Reformrn
Put aside our dreams of "green jobs," and focus on the great domestic resources at our disposal
Utilize oil, natural gas, coal, and nuclear energy
Eliminate the Obama Administration's roadblocks to oil exploration in the Gulf of Mexico, along the Outer Continental Shelf, and onshore - including in ANWR
Ensure that no new natural gas regulations are enacted

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O equilíbrio real

Pedro Ravazzano

As diferenças profundas e marcadas entre os homens refletem a carga subjetiva e íntima que forja a identidade de cada ser humano. Por mais que todos estejam fundamentados na realidade, o olhar particular é o responsável pela estruturação de percepções muito próprias. Contudo, hoje em dia em especial, parece que as posições adotadas nas diversas áreas, com destaque para o cenário eclesiástico, são defendidas num campo de trincheiras. Ademais, devemos fugir do tão comum e recorrente equilíbrio diplomático que, certamente, mais parece um arranjo mal feito do que o sensato posicionamento perante o real.

Nos diversos campos do saber as posições contrárias favorecem a reflexão que provém da saudável dialética. Não obstante, é importante destacar que desde a derrocada da metafísica os parâmetros fundamentais que endossavam o discurso filosófico ruíram. Assim, a discussão racional sequer parte, hoje em dia, de bases comuns, sendo, muitas vezes, reflexão que antecede a reflexão mesma. Entretanto, no campo eclesiástico o cenário é totalmente distinto. Obviamente há espaço para divergências, mas que se fazem dentro dos limites naturais da crença, ou melhor, a fé como a plena realização do espírito.

Logicamente, em todos os variados espectros – progressismo, modernismo, tradicionalismo etc – há uma tenra fidelidade ao que é proposto. Isso é algo louvável quando entendemos como a consequência óbvia da adesão racional a alguma coisa. Contudo, a impressão que fica é que na atualidade cada vez mais a experiência religiosa fica dividida dentro de tais segmentos, não só inexistindo equilíbrio como até mesmo reflexão entre as alas citadas.

O equilíbrio, entretanto, é também alvo de certa incompreensão. Este não é um remendo de posições contrárias que abrem mão de algumas particularidades em busca da unidade. O equilíbrio tem relação direta com a realidade e não com política. Quanto mais equilibrada a posição mais abrangente, mais universal, menos subjetiva. Um dos males do mundo moderno é o individualismo, sendo o responsável pela doença que parece perverter o real em nome do que de mais subjetivo há no homem. Óbvio que, como disse, a carga subjetiva sempre haverá, mas hoje ela pretere a realidade mesma e, consequentemente, se fecha numa infalível convicção de uma pessoa.

Almejar o equilíbrio é se esforçar para enxergar a realidade por mais subjetivo que seja o olhar. Falar de visão é falar daquilo que a antecede, o ser humano. Assim, na leitura do real sempre existirá o homem. Os variados espectros se esforçam para dissertar sobre o mundo que as mentes construíram, num debate rarefeito que não reflete aquilo que de concreto existe. Por isso, buscar o equilíbrio na adversidade é, simplesmente, buscar a serenidade do olhar perante o real.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Novo Ano e Novo Homem

Pedro Ravazzano

A comemoração do Ano Novo sempre me pareceu emblemática. De fato é interessante tirar um momento para avaliar os frutos colhidos durante o tempo que passou, contudo o que parece é que o homem se esforça para nutrir a crença gnóstica de que o novo ano representa um novo tempo. O cristianismo, por sua vez, rompeu com qualquer noção cíclica das eras, inaugurou, isto sim, o tempo enquanto realidade progressiva e contínua. O homem é chamado a contemplar a realidade e transformar-se além dos marcos que são colocados.

A crença popular, ainda que não tenha um objetivo pressuposto gnóstico, parece que reflete certa mentalidade obscura e ultrapassada. O novo ano é um novo tempo, ou melhor, o tempo das mudanças e das reformulações. Obviamente não há nenhuma imoralidade em usar tais festejos como saudáveis pretextos para refazer as prioridades e repensar os sonhos. Entretanto, o preocupante é saber que o homem, esmagado pela complexidade do mundo materialista atual, se encontra impossibilitado de refazer-se conscientemente no hoje. A grande sacada do Réveillon é o tempo universal que a sociedade concede a si mesma para festejar o ano que nasce.

Não obstante, o então 2012 não difere em nada do velho 2011. Trata-se do mesmo mundo com os mesmos problemas e do mesmo homem inserido na mesma realidade. Infelizmente o Novo Ano se transforma em Ano Novo e, nessa crença quase gnóstica de um tempo zerado, o homem sequer consegue confrontar-se com si mesmo. Sustenta-se, contudo, na vã confiança de que os tempos que se iniciam carregam o vigor do renascimento. Não! Se algo deveria ser comemorado não seria o tempo, mas sim o homem, entretanto este não precisa dos limites do calendário para refletir sobre o sentido da existência.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O nosso lado humano e o yorkshire


A morte do pequeno yorkshire foi tema de muitas publicações no facebook. O que me causou interesse foram as posições radicais e opostas. Infelizmente parece que o equilíbrio está cada vez mais distante da estrutura mesma do homem. Entretanto, vale destacar que o equilíbrio como aqui coloco não é um simples remendo diplomático entre pareceres opostos, mas sim reflexo da constatação serena da realidade.

Muitos transformaram a morte do yorkshire num crime comparável apenas às grandes barbaridades realizadas pelos homens. Claro que aqui partimos dos pressupostos eco-chatos e, ao mesmo tempo, do radical rompimento com as mais fundamentais noções de natureza. Contudo, os que se colocaram do outro lado, isto é, pasmos com os clamores desesperados, pareciam que no protesto contra tão grande perplexidade transformavam a gravidade do acontecimento em uma simples história do cotidiano.

O interessante em ambos os lados é a banalização e a perda da consciência do homem em relação à realidade. Obviamente existe um abismo moral instransponível, por exemplo, entre o aborto e o assassinato de cães, contudo, o segundo é sim um ato assustador ainda mais quando conseqüência dessa cultura de morte onde o ódio e a violência tornam-se banais e ordinários, a tal ponto de, num “mau dia”, um pequeno cachorrinho ser bizarramente espancado.

Sejamos equilibrados, simplesmente! Que a morte de um yorkshire não se transforme em crime contra a humanidade, mas que também não seja vista como um mero evento da vida da gente. O que é infeliz é saber como a violência vem tornando-se gratuita e corriqueira e como, por outro lado, o homem moderno se encontra tão anestesiado pela morte da humanidade que apenas um cachorro consegue despertar o seu lado...humano.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Santo André, rogai por nós!

Naquele tempo, 18quando Jesus andava à beira do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores. 19Jesus disse a eles: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. 20Eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram. 21Caminhando um pouco mais, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João. Estavam na barca com seu pai Zebedeu, consertando as redes. Jesus os chamou. 22Eles imediatamente deixaram a barca e o pai, e o seguiram.
Quando a Sagrada Escritura deixa de incomodar ou é porque todo o mundo já vive a mensagem evangélica ou porque o homem se encontra apático diante da Boa Nova. De fato o que é nela anunciado e proclamado foi, é e sempre será uma novidade para todos os que não experimentam a vocação mais profunda que Deus colocou em seus corações. O Evangelho da festa de Santo André, contudo, é um convite a meditar sobre o absurdo.

Pedro e André não tinham nem sequer 1/3 do conhecimento a respeito de Jesus Cristo que hoje nós temos. Questõ
es a respeito das naturezas humana e divina, da complexa e sublime realidade do Verbo feito carne, da sua concepção miraculosa etc. Todo esse aparato teológico-ontológico se deu organicamente a partir da necessidade da Igreja de estruturar os fundamentos da fé, então minada pelos hereges e romanos. Não obstante, o chamado de Nosso Senhor foi prontamente atendido.

O que leva, então, dois homens que levavam aparentemente uma vida pacífica, dentro da normalidade contextual da Galiléia, a largar tudo IMEDIATAMENTE, para seguir àquele que diz que os transformará em “pescadores de homens”? A beleza da Escritura está em compreendê-la também mediante o olhar do homem comum, daquilo que de mais humano existe em nós. Ora, quem em sã consciência abriria mão da seguraça coditiana pelo seguimento de um homem? O que tinha naquele olhar? O que de diferente existia naquele chamado? Algo de divino? Certamente, mas para Pedro e André ali estava o seu destino, isto é, a realização da vocação mais íntima e profunda, a plenitude. A rapidez e a força com que aquela Pessoa os fascinou refletiram na imediata abnegação de si. Não que, com isso, Cristo nos peça a autonegação. Muito ao contrário! A Pessoa de Cristo, que é justamente onde a fé se finca, no seu reconhecimento hoje, nos abre para nós mesmos, nos eleva através da busca pela santidade. A força do primeiro encontro plantou a semente da qual brotou o madeiro onde os dois irmãos pregados derramaram o sangue por esse Homem!

Pedro e André foram os primeiros de muitos homens que largaram tudo por Ele!