sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Uma nova Palestina?

Com a elevação da Palestina de órgão observador para "Estado observador não-membro" se complicou as discussões sobre o conflito no Oriente Médio. A posição tomada por Israel e pelos EUA foi uma ação de desespero diante da movimentação da comunidade internacional e da possibilidade concreta da Palestina entrar com ações no Tribunal Penal Internacional contra as incursões israelenses na Cisjordânia e em Gaza. Entretanto, infelizmente, a causa da Palestina foi sequestrada pelos partidos de esquerda que, desde o início do conflito armado, lançaram suas influências nos braços seculares com a OLP e as diversas siglas que a compunham. 

Historicamente o Oriente Médio sempre foi uma região de trânsito entre diversos povos. De fato, faz parte do processo de amadurecimento cultural a dinâmica migratória. Se olharmos com todo o rigor nenhuma nação é natural da sua localidade, mas, isto sim, foi formada ao longo da construção da identidade pelo tempo. Judeus são migrantes, assim como os árabes se lançaram para além dos limites do deserto da península arábica. Até mesmo os milenares persas (iranianos) migraram para o Grande Irã por volta de 2000 a.C. O caso dos turcos, hoje estabelecidos por toda a Anatólia, é ainda mais enigmático: saíram da Ásia Central, o local natural de todos os povos turcomanos, e entraram no Império Seljúcida (também com laços étnicos com os turcos) galgando altos postos na estrutura hierárquica. Com a decadência e a derrota do império só restou o Sultanato de Rum, que foi minado internamente através da ascensão do principado encabeçado pelos Osmanoglu, ou seja, Otomanos.    

O Oriente Médio, portanto, foi o local do choque entre diversos povos, culturas e religiões. Isso é fundamental para reconhecer que a reivindicação de algum direito natural sobre as terras palestinas, como é feito corriqueiramente pelos israelenses, é um absurdo histórico sem precedentes. Assim como é prejudicial esse tipo de argumentação, não há mais espaço para a crítica feita por facções radicais que protestam contra a existência do estado de Israel por ter sido criado através da ingerência da ONU já no séc. XX. As duas nações, portanto, devem aprender a conviver pacificamente dentro de dois estados distintos que estão inseridos em fronteiras historicamente conturbadas. 

Entretanto, o que se destacou com a elevação da Palestina ao status de "Estado observador" foi a reação do Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Para ele isso "terá consequências", usando de um claro tom ameaçador contra o povo palestino. Que o governo israelense tenha medo dos ataques do Hamas contra as cidades do país, é um sentimento lícito. Contudo, o que temos visto é a intromissão completa de Israel nas decisões internas da Palestina. Israel, inclusive, ameça bloquear os impostos que recolhe para a Autoridade Palestina na Cisjordânia. 

Israel, diante da nova categoria internacional da Palestina, não terá a mesma liberdade com que sempre tratou o povo palestino em suas ações. De fato, diante dessa lógica a paz se torna ainda mais distante já que Israel não teria o completo poder de barganha como sempre ocorreu. A tensão se complica quando as duas nações passam a ser vistas pelas ideologias vigentes como os reinos do capitalismo ou da resistência coletivista. Que os dois estados se consolidem, entretanto, que não seja por meio da polarização entre povos e culturas, mas através da conscientização do direito de auto-determinação. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Três pontos esquecidos quando falam do conflito Israel-Palestina

Tenho acompanhado com muito interesse os debates sobre o conflito Israel X Palestina. Ontem mesmo assisti duas discussões que, curiosamente, incidiam em três erros que acredito são cruciais para a acertada compreensão dos problemas no Oriente Médio e do mundo árabe e muçulmano. 

1 - Existe uma certa má vontade no entendimento das nuances próprias do islamismo e, em especial, do islamismo xiita (shia). Desde o alvorecer da Revolução Islâmica do Irã em 1979 o xiismo passou a ser visto como a facção islâmica que mais profundamente encarnava o ideal da sharia. Ademais, esse imaginário foi alimentado pela resistência do Hizbollah aos ataques israelenses no Líbano. Entretanto, tal leitura é desprovida de sentido prático. Historicamente o xiismo sempre foi a ala mais crítica ao islamismo autocrático que se consolidou no califado omíada. A defesa radical pelo primado da Ahl al-Bayt, isto é, pelo governo muçulmano encabeçado pelos descendentes diretos de Maomé através da união de seu primo Ali com a sua filha Fatimah, transformou os xiitas em ardorosos combatentes dos desmandos do governo central. O ostracismo da comunidade shia ainda possibilitara que esta tivesse contato mais amigável com outras minorias, como os cristãos. Isso foi muito profundamente marcado durante a Revolução Iraniana, onde minorias religiosas - judeus, zoroastristas, católicos, cristãos armênios e assírios - passaram a gozar de respaldo constitucional. Obviamente algo muito distante da liberdade religiosa ocidental, já que não há legalidade para o apostolado externo, mas ainda assim uma clara amostra de respeito aos outros credos que fazem parte da nação persa. Ademais, o islamismo xiita, por não ter incindido na distinção entre a jurisprudência e a mística, como ocorrera com os sunitas, sempre foi mais reflexivo e aberto ao diálogo.

2 - Existe uma total ignorância quanto ao papel fundamental de Muhammad ibn Abd al-Wahhab e do seu salafismo na fundação do radicalismo islâmico como conhecemos. A Arábia Saudita, antes parceira da Inglaterra e hoje fiel aliada dos EUA na região, nasceu, justamente, da junção do pensamento reformista de Wahhab com a família Saud, orquestrada pelos agentes britânicos na região. O salafismo, como fora auto-proclamado, tenta se remeter às primeiras gerações de muçulmanos, resgatando a pureza primitiva que havia na fé islâmica. A novidade trazida por esse espírito reformista minou a filosofia e a arte islâmica, combateu sistematicamente tradições próprias do islam, dividiu a Ummah (comunidade islâmica) ao permitir o juízo privado sobre a fé alheia e, ainda sendo condenada pelas quatro escolas de jurisprudência islâmicas, se outorgou o supremo poder de definir os parâmetros essenciais da prática religiosa. O wahhabismo saudita, baseado nos petrodólares, disseminou a ideologia radical por vastas áreas muçulmanas. Dessa influência surgiram os grupos terroristas e movimentos como o deobandi, que originou o Talebã no Afeganistão. A aproximação da Arábia Saudita com os EUA, entretanto, fez com que o radicalismo saudita se focasse em perseguições internas, tornando-se menos interessado pelo controle do mundo islâmico. Ainda sendo considerado sunita, o salafismo wahhabita persegue nas fronteiras sauditas as escolas de jurisprudência que não se alinham com a sua cartilha. O xiismo, obviamente, sequer é considerado islamismo e não tem legalidade. Por anos os muçulmanos shias estavam proibidos de participar do hajj em Meca. A repulsa da Arábia Saudita ao Irã é integral e totalmente violenta. Qualquer analista do Oriente Médio que não compreende a gênese histórica do wahhabismo exclui da equação uma variante essencial. Assim, portanto, se o terrorismo islâmico moderno tem no salafismo a sua raiz primeira, não existe possibilidade deste ratificar uma união concreta com a nação que ostenta orgulhosamente o islamismo xiita, o Irã.

3 - A terceira questão que é muito pessimamente compreendida, talvez pelo desconhecimento do islamismo, é o papel do secularismo nas crises atuais. A Primavera Árabe levou aos países que antes viviam sob a dureza de regimes totalitários a esperança democrática. Contudo, a abertura ao sistema ocidental de governo levou consigo parâmetros liberais extremamente perigosos para a sociedade muçulmana. O secularismo ocidental possibilitará a desconstrução dos paradigmas religiosos, como já ocorre na Turquia, o que, por sua vez, alimentará o discurso dos radicais muçulmanos. Neste sentido o liberalismo e o radicalismo vivem num ciclo de retroalimentação, criando uma tensão viciosa entre ambas as forças. Se o cristianismo praticamente perdeu a sua batalha em defesa do estado confessional, como fora defendido pela Igreja, o islamismo corre o sério perigo de abrir espaço para a ardilosa filosofia iluminista com o seu trator anticlerical e secularizante. Ademais, o fanatismo religioso enxerga no alvorecer da democracia o combustível da sua árdua crítica contra a ingerência ocidental nos problemas internos das nações árabes. Assim, é necessário se alegrar com a queda de regimes totalitários, mas ao mesmo tempo se precaver da ilusão de que o remédio para o mundo se encontra na supremacia da democracia-liberal e seus frutos imediatos, como a perseguição sistemática à religião como fator concreto das decisões de um povo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O incrível poder da Ummah


Sempre que eclode conflitos no Oriente Médio a comunidade internacional se surpreende com a comoção gerada em toda as nações islâmicas pelo mundo. Esse efeito emocional quase automático é consequência do incrível poder da Ummah, isto é, da comunhão prática dos muçulmanos mediante uma fraternidade que transcende os limites territoriais. Tão grande novidade trazida por Muhammad numa península arábica violentamente dividida em tribos, possibilitou a coesão dos fiéis da nova crença fazendo com que pouco tempo após a sua morte uma grande parte do mundo conhecido estivesse sob o poder dos minaretes.


Muhammad sabia que para a sobrevivência da sua fé era necessária a profunda mudança de mentalidade por parte dos árabes convertidos. A primeira Ummah que se consolidou em Medina foi marcadamente simbolizada pelo espírito de paz e comunhão. Entretanto, após a morte de Maomé e com o fim do califado dos rashidun, isto é, quando este fora guiado pelos quatros companheiros de Muhammad,  Abu Bakr, Umar ibn al-Khattab, Uthman ibn Affan e, por fim, o grande Ali ibn Abi Talib, iniciou-se um período de expansão ainda mais amplo com os omíadas. Durante essa etapa as conversões ao islamismo eram desencorajadas entre os dhimmis - os judeus e cristãos que viviam no território islâmico - e os muçulmanos viviam em cidades quase inteiramente cristãs, como Jerusalém. As conversões, quando ocorriam, ainda tinham um forte caráter étnico. Havia, de certa forma, uma confusão entre islamismo e arabismo. Os neo-convertidos eram, portanto, associados a alguma tribo árabe acarretando que fossem, quase naturalmente, ainda vistos como cidadãos de segunda classe. A discussão terminou com o fim do regime omíada e a ascensão dos abássidas que levavam com ele todas os clamores dos muçulmanos xiitas contra o regime dos descendentes de Abu Sufyan.

No mundo recente a Ummah foi fundamental para a proteção do mundo islâmico quando da chegada das nações europeias. Os ingleses enfrentaram duras dificuldades na sua tentativa de tomar a Índia e o Irã. Os seus esforços se chocavam com a força da comunidade muçulmana que se unia contra os invasores. Os britânicos buscaram, então, minar a comunhão através da fé, com o financiamento de dois movimentos reformistas, como o bahaísmo e ahmadiyya. Mirza Ghulam Ahmad e Mirza Husayn Ali tentaram instaurar crenças que desconstruiriam a capacidade da Ummah de se unir contra os kuffar, os incrédulos, mas foram incrivelmente ineficientes. Na península arábica os ingleses também custearam outro movimento reformista. A doutrina de Muhammad ibn Abd al Wahhab foi rapidamente taxada pelos mais eruditos jurisprudentes islâmicos como herética. A sua novidade estava no seu afã de purificar o islamismo de versões corrompidas: o muçulmano poderia sim emitir um takfir, um julgamento sobre a fé do outro. Esse tipo de comportamento atacava o cerne da Ummah, da comunhão entre os fiéis. Se era permitido dizer quem era bom ou mau muçulmano, a comunidade islâmica corria o risco de entrar em profunda crise. Ademais, para Muhammad al Wahhab os turcos, senhores do Oriente Médio e de Meca e Medina, eram exemplos máximos da degeneração do islamismo. Assim, era fundamental que os bons muçulmanos se levantassem contra os otomanos. Quão feliz foi para a Inglaterra essa novidade. Da junção de Wahhab com a família Saud, que na época era salteadora de caravanas, surgiu a moderna Arábia Saudita. 

A Ummah, entretanto, ainda hoje mostra o seu poder e eficiência. Para o muçulmano de fé a agressão da comunidade islâmica é proporcional aos sacrilégios eucarísticos para o católico. Esse senso de pertença protegeu o islamismo ainda na época de Maomé e foi o fator de unificação das tribos árabes. Através desse processo a crença de Muhammad se expandiu e conquistou a Ásia, a África e chegou até a Espanha e no ápice do Império Turco-Otomano em terras austríacas. A Ummah foi historicamente fundamental e até hoje é o que possibilita aos muçulmanos se unirem quase automaticamente quando uma parte dessa grande comunidade é agredida.