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sábado, 21 de novembro de 2009

Celso Pitta para patrono do Movimento Negro!

Celso Pitta morreu no dia da Consciência Negra! O que aprendemos com isso? O esterótipo do negão, de cabelo trançado, tocador de timbal, militante do PT e iniciado no candomblé, como pinta o movimento negro, simplesmente não existe e, se passou a existir, foi conseqüência do lobby racialista financiado com muitos dólares da Fundação Ford.

Negros e mestiços - estes último sim são maioria no Brasil, mas o movimento negro quer transformá-los em estatisticamente pretos - são brasileiros, ou melhor, brasileiros são negros, mestiços e brancos. Portanto, estão propensos aos mesmos pecados dos homens-brancos-opressores-descendentes-de-senhores-de-escravos-e-que-se-perpetuam-no-poder-através-de-partidos-reacionários.

Iniciemos a campanha "Celso Pitta para patrono do movimento negro"; negão - ou "afro-descendente de grande porte", para ser politicamente correto - e corrupto! Isso que é brasilidade!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Welcome to Rwanda...

Pedro Ravazzano

Eu, um tútsi brasileiro, escrevo uma breve reflexão nesse dia da Consciência Hutu. O nosso país caminha para a edificação de uma sociedade bipolar, dividida entre brancos e negros. A começar, bem sabemos que o Brasil jamais foi um Estado racista, com uma política de discriminação oficial. Ademais, devemos pontuar que até mesmo a triste escravidão, com um estudo muito ideologizado hoje em dia diga-se de passagem, não teve motivação racial; brancos não escravizavam negros, dominadores escravizavam subjugados. Além disso, é importante frisar que o alvorecer do racismo cientifico se consolidou apenas no séc. XIX.


O mesmo racismo científico que favoreceu políticas oficiais de discriminação, plantou a semente do que veio a ser, no futuro, o caricato pan-africanismo. Inicialmente liderado por intelectuais americanos que sequer conheciam a África, a utopia da união do continente "negro" refletia, cruelmente, o simplismo assustador do racismo reverso. O pan-africanismo, fadado ao fracasso desde o seu nascimento, desconhecia, ou pretendia desconhecer, a incrível riqueza cultural da África. Os americanos negros, os primeiros pensadores do sonho africanista, formados sobre a ótica do racismo científico, simplificavam e sintetizavam as plurais caraterísticas africanas na cor de pele. A utopia não agüentou a realidade de um continente composto por culturas das mais variadas; foi o fim do pan-africanismo.

Entretanto, mesmo o sonho da unidade africana morrendo, persistiu o espírito racialista da pior forma possível. Na África do Sul, onde a discriminação era institucionalizada, os brancos africâneres impunham um regime de segregação oficial, uma realidade surreal em terras majoritariamente negras. Interessantemente, o delírio de uma nação branca se uniu à promoção do orgulho étnico. A política da África do Sul arquitetava um plano que passava pela independência dos bantustões, zonas tribais criadas pelo regime do apartheid. Entretanto, era essencial que a luta pela liberdade fosse alimentada através da criação do mito da etnia. Assim, etnólogos, geógrafos, historiadores etc, construíram identidades étnicas e raciais. Universidades passaram a ter centros de estudos de cultura africana e institutos foram fundados com o propósito de levantar o edifício do orgulho da raça negra. O projeto não foi eficiente, os bantustões não lutaram pela independência e os negros continuaram fascinados pelas grande metrópoles "brancas", mas conseguiu criar, em laboratório, um mito. Alguma semelhança com o Brasil?

O exemplo mais assustador dos péssimos frutos do pensamento racialista se encarna na triste história de Ruanda, um país encravado no coração da África. A nação, que tinha um reino centralizado, se dividia entre tútsis e hutus. Os primeiros compunham a elite nobiliárquica da nação. Os reis de Ruanda reinavam gloriosamente e, até hoje, perpetuam sua história na figura de Kigeli V que atua em defesa do seu povo e da tradição ruandense. Vale lembrar, por sua vez, que não havia identidade étnica encrustada no espírito social; tútsis pobres eram hutus e hutus ricos eram tútsis. Os belgas, que tomaram posse de Ruanda depois da derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, perpetuaram o poder tútsi e a estrutura monárquica. Não obstante, para consolidar o domínio favoreceu e divulgou o orgulho étnico numa nação que o desconhecia. Pesquisas foram feitas com o propósito de comprovar a origem superior dos tútsis. Estes não eram mais irmãos dos hutus - como relatava o antigo mito de criação nacional - mas sim descendentes dos nobres etíopes. Uma origem tão elevada se confirmava na diferença de porte, estrutura facial etc, dos tútsis comparados aos hutus. Os primeiros eram mais altos, com narizes mais finos, elegantes e garbosos. Entretanto, as diferenças entre ambas as “etnias” simplesmente não existiam. E se, por acaso, tútsis eram maiores estruturalmente que os hutus, isso se devia a alimentação mais balanceada que estes tinham - o que podemos comprovar ao comparar coreanos do norte e do sul.

O mito foi criado pelos belgas e usado como a bandeira do levante hutu. Depois da queda da monarquia, com a morte de Mutara III Charles, e a ascensão da República, o governo, de maioria hutu, deu início às políticas de repressão (expulsão e morte) contra a população tútsi. Tudo era justificado como dentro da aceitada reparação histórica. Os choques entre Frente Patriótica Ruandesa (RPF), composta por tútsis refugiados, e o governo de Habyarimana, se converteram em conflitos com numerosos mortos. Não obstante, no Acordo de Arusha, assinado entre as duas forças, ficou acertado um cessar-fogo e a construção de um governo de transição, composto pelas dois “povos”. Todavia, num atentado que até hoje não se sabe ao certo quem promoveu, o presidente de Ruanda, Habyarimana, foi assassinado. Esse foi o estopim para que a Interahamwe, milícias armadas hutus, lideradas por George Rutaganda, treinadas pelo exército ruandense e estimulada por extremados membros do governo, desse início ao genocídio. Cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas em 100 dias - o número é incerto, alguns falam de 1 milhão ou até 2 milhões - 11% da população e 4/5 dos tútsis - entre eles 300 clérigos e freiras. O genocídio só acabou com a ocupação do país pela RPF, dirigida por Paul Kagame, atual Presidente.

As rádios conclamavam a expulsão dos tútsis, alegando que, como ocupantes da nação, descendentes dos etíopes, deveriam ser exterminados; “matem as baratas!” Os corpos de centenas de milhares de tútsis eram jogados no rio Nyabarongo que flui até o Lago Vitória, na nascente do Nilo; os tútsis, supostamente imigrantes abissínios, deveriam voltar para o vale do Rio Nilo, vivos ou mortos.

O mito da raça foi criado em Ruanda e promoveu uma cadeia de ódio e rancor que refletiu no genocídio. Tanto a triste história ruandense como a edificação da dialética racial no Brasil partem da mesma ótica desatualizada. O que triunfa é a pré-destinação; o indivíduo é condicionado pela sua cor de pele, pela sua ascendência. Dentro dessa mentalidade a cultura é genética, um polilogismo racial digno do nazismo. O tútsi tinha que ser exterminado porque, sendo tútsi, e condicionado pela cultura "tútsi", era um artífice da prevaricação e opressão contra os hutus. Assim como o judeu deveria ser massacrado porque, sendo judeu, estava fadado a fabricar a usura. Do mesmo modo, no Brasil, alguém que é fenotipicamente negro, mestiço, é obrigado a carregar uma carga cultural pré-fabricada, com direito a cabelos trançados, iniciação no candomblé e engajamento em políticas raciais.

Triste mundo moderno. Estamos regredindo, decaindo. Triunfa a pré-destinação racial; o homem não é mais aquilo que ele quer ser, mas aquilo que o seu antepassado foi.

Tútsis brasileiros, corram que os hutus vem aí!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A Fundação Ford e o multiculturalismo

Edsel Bryant Ford, filho de Henry Ford, o fundador da Ford Motor Co., presidiu a gigante de Detroit entre 1919 e 1943. Em 1936, ele e seu pai, na tradição filantrópica americana, estabeleceram a FF e definiram como sua missão administrar fundos para o desenvolvimento científico e educacional e para a caridade. Após a morte dos dois fundadores, em 1947, a presidência passou a Henry Ford II, filho de Edsel, a FF recebeu uma fortuna em ações da Ford Motor. Em 1955, por decisão do conselho de curadores, a Fundação começou a vender suas ações da montadora automobilística e, em meados da década de 1970. já não mantinha nenhuma relação com a Ford Motor.

O ensaísta americano Dwight Macdonald descreveu, em 1956, a FF como “um grande corpo de dinheiro totalmente circundado por pessoas que querem algum”. O patrimônio financeiro legado pelos fundadores transformou a Fundação na maior entidade filantrópica do mundo, e sua missão foi redefinida em torno das metas de promover internacionalmente a liberdade, a democracia, a paz e a educação.

Nos anos da aurora da Guerra Fria, a FF funcionou como um tentáculo oculto da política externa americana. Paul Hoffman, um dos mais destacados arquitetos do Plano Marshall na Europa, deixou o governo americano para presidir a FF entre 1950 e 1953, quando ela iniciou a sua expansão no exterior. Richard M. Bissell Jr. Trabalhou como alto- executivo da Fundação logo depois de servir na administração do Plano Marshall e pouco antes de ingressar oficialmente na CIA. John J. McCloy foi secretário da Guerra entre 1941 e 1945 e depois, sucessivamente, presidente do Banco Mundial, alto-comissário dos EUA na Alemanha ocupada, CEO do Chase Manhattan Bank e CEO da FF. Nos sete anos que dirigiu a Fundação, a partir de 1958, manteve o hábito de definir, em visitas informais e conversas com membros do Conselho de Segurança Nacional, os projetos no exterior que seriam agraciados com os maiores financiamentos da FF.

McGeorge Bundy tinha apenas 30 anos quando participou, com Bissell, de um grupo de formuladores de política externa que procurava articular o Plano Marshall à ajuda da CIA a grupos anticomunistas na França e Itália. Ele chegou ao governo junto com a equipe de acadêmicos montada por John Kennedy e serviu como conselheiro de Segurança Nacional nos governos Kennedy e Johnson, até 1966, quando se tornou presidente da FF. Nos treze anos de presidência de Bundy, a Fundação descobriu as minorias, desempenhando um papel crucial na difusão das políticas de raça nos EUA e na arena internacional. A reorientação não podia ser mais radical: em 1960, o item “direitos das minorias” representava 2,5% dos financiamentos; em 1970, atingia 40%.

No fim da década de 1960, a FF estava diante de um cenário de crise política que se agravou ao longo do primeiro mandato de Nixon, quando as coalizões sociais articuladas no movimento pelos direitos civis voltavam-se para a luta contra a Guerra do Vietnã. O núcleo dirigente da Fundação interpretou a radicalização dos protestos como um sintoma de funcionamento defeituoso do pluralismo político e formulou o conceito de multiculturalismo como uma ferramenta para restabelecer a normalidade nas engrenagens da democracia. De acordo com a lógica do multiculturalismo, as amplas coalizões sociais deveriam dar lugar a organinazações e movimentos específicos, delineados em função dos interesses de cada minoria. A Fundação ajudaria a esculpir esses movimentos, oferecendo-lhes plataformas políticas e fundos capazes de sustentar grupos de pressão.

A introdução das “políticas da diferença” – ou da “diversidade”, na linguagem oficial da FF – teve um poderoso efeito de cooptação de lideranças e intelectuais. Investigando as fundações filantrópicas, o sociólogo Craig Jenkins registrou que elas funcionam como “porteiros”, financiando os movimentos e as iniciativas que, por essa via, conseguem converter suas bandeiras em políticas públicas. “No processo, elas também selecionaram as novas organizações que se tornaram traços permanentes da paisagem política.” É precisamente o que ocorreu nos EUA a partir da intervenção da FF.

A estratégia foi deflagrada por meio da advocacia de interesse público voltada para minorias. A FF financiou fundos para litigância em defesa dos mexicanos-americanos (Maldef), dos porto-riquenhos (PR-LDEF), dos povos indígenas (Native-American LDEF) e das mulheres (WLF). Essas organizações, que não têm uma base de associados, dependem inteiramente de doações oferecidas por empresas e fundações, em especial a FF. Como é natural, seus dirigentes são ativistas ligados à Fundação. Contudo, esses ativistas se apresentam na esfera pública como representantes dos interesses das respectivas “minorias” e, em virtude dos recursos financeiros de que dispõem, exercem significativa influência institucional. Previsivelmente, todas as organizações criadas nessas bases engajaram-se na promoção das políticas de discriminação reversa, funcionando como grupos de pressão profissionalizada.

O envolvimento da FF com os negros iniciou-se pelo financiamento de uma organização histórica, que desempenhou papéis relevantes nas lutas pelos direitos civis. A NAACP ganhou um fundo jurídico e educacional, mas perdeu sua independência. Apesar de manter mais de seiscentos mil filiados, passou a depender essencialmente das grandes entidades filantrópicas e engajou-se nas políticas de raça. O processo culminou em 1994, quando a venerável organização, que enfrentava situação falimentar, foi resgatada por duas contribuições da FF, num total de seiscentos mil dólares, depois de substituir seu diretor-executivo pelo pretendente indicado pela Fundação.

A FF não se limitou a financiar as organizações previamente existentes. Com o seu patrocínio, movimentos militantes de “chicanos” foram transformados numa organização étnica. O Conselho do Sudoeste de La Raza (SWCLR) nasceu em Phoenix, Arizona, em 1968, a partir da contratação de três lideranças comunitárias pela FF. Cinco anos depois. O SWCLR tornou-se uma organização nacional, mudou sua sede para Washington e seu nome para Conselho Nacional de La Raza (NCLR). Logo depois, a Fundação entrou em atrito com o sindicalista Henry Santiestevan, que presidia o NCLR, e exigiu a sua substituição, ameaçando suspender os financiamentos. Raul Yzaguirre assumiu a presidência, alinhou por completo a organização à agenda política do doador original e converteu-a numa poderosa instituição, financiada pelo governo federal, além de grandes empresas e diversas entidades filantrópicas.

O discurso da vitimização e os recursos financeiros da FF uniram-se para gerar o que o jornalista George Will caracterizou, apropriadamente, como “a proliferação de grupos acalentando mágoas e reinvidicando direitos”. Como registrou Joan Roelofs, um dos resultados do processo foi a cooptação em massa de lideranças independentes: “ativistas de movimentos sociais são desse modo transformados em pesquisadores, administradores e litigantes; e os movimentos são fragmentados em ‘políticas identitárias’.

Na sua origem, a FF já representava as tendências modernas da filantropia, que não pretende oferecer donativos aos pobres, mas fazer uso das ciências sociais para reformar as sociedades. Desde a revisão de sua missão, no pós-guerra, a Fundação havia se fixado na meta de influenciar as políticas públicas e promover reformas institucionais não só a partir do convencimento dos governos, mas, especialmente, pela mobilização de base. A aventura multiculturalista nas universidades americanas derivou da combinação dos dois paradigmas.

A abordagem básica da Fundação consistiu em incentivar a adoção de sistemas de admissão orientados por preferências para “grupos minoritários”. O instruumento pragmático utilizado foi oferecer vultosas doações, condicionando-as à implantação de cotas para minorias. Contudo, as ambições da FF ultrapassavam em muito a mera mudança dos sistemas de admissão. A finalidade era reformar de alto a baixo as perspectivas acadêmicas, as atitudes políticas, os currículos e as práticas nas universidades. Tratava-se, no fim das contas, de incutir o princípio do multiculturalismo no código genético do fazer acadêmico. Mais uma vez, a ferramenta de persuasão seria a oferta condicional de generosas doações.

Os relatórios anuais da FF descrevem, às vezes com minúcias, o modus operandi do assalto às universidades. Um único exemplo em 1989, duzentas universidades e faculdades foram convidadas a concorrer por doações de cem mil dólares “para revisar ou desenvolver programas acadêmicos voltados a dar uma máxima atenção à cultura e experiência de minorias étnicas e a fazer as perspectivas multiculturais pesarem em todos os aspectos do currículo”. Uma das 19 instituições agraciadas, a Universidade Brandeis, de Massachusetts, comprometeu-se a organizar um curso de verão sobre as tradições orais na África e na “diáspora africana” e, mais amplamente, a incorporar materiais africanos e “derivados da África” no núcleo de seu currículo.

O cientista político Harold Laski (1893-1950), com sua longa experiência em Harvard, Yale e na London School of Economics, conhecia o impacto das fundações sobre as universidades: “As fundações não controlam, simplesmente porque, no significado direto e simples da palavra, não há necessidade de fazerem isso. Elas têm apenas que indicar a inclinação momentânea de suas mentes para todo o mundo universitário descobrir o sentido apontado e tender rapidamente para aquele ângulo do compasso intelectual”. Entretanto, Laski não viveu o suficiente para apreciar a ousada operação da FF no mundo universitário americano. A Fundação não se limitou a distribuir doações institucionais condicionadas, mas criou vastos programas de bolsas de pesquisas, destinados a professores, e de especialização, destinados a pós-graduados e graduandos. Para ter mais mais chances de sucesso na conquista das bolsas, os pretendentes deviam formar “equipes multiculturais” e definir temas e abordagens multiculturalistas.

Do ponto de vista teórico , o multiculturalismo assenta-se sobre um primeiro pressuposto que não é dramaticamente distinto do artigo de fé do “racismo científico”. Esse pressuposto pode ser expresso como a noção de que a humanidade se divide em “famílias” discretas e bem definidas, denominadas etnias. O “racismo científico” fazia as suas “famílias” - as raças – derivarem da natureza. O multiculturalismo faz as etinias derivarem da cultura. O segundo pressuposto do multiculturalismo é que a cultura corresponde a um atributo essencial, imanente e ancestral de cada grupo étnico. Essa naturalização da cultura evidencia que o conceito de etnia, na narrativa multiculturalista, ocupa um nicho metodológico paralelo àquele do conceito de raça na narrativa do “racismo científico”.

Sob o influxo dos milionários financiamentos da FF, as universidades imitaram os padrões de segregação urbana e criaram seus próprios guetos, na forma de novos campos de estudo – Black Studies, depois African-American Studies, Mexican-American Studies, Native-American Studies, os estudos de race relations, os “estudos femininos” e incontáveis estudos étnicos específicos. Nos cinco anos iniciais, implantaram-se mais de quinhentos programas de Black Studies nos EUA. Desse modo, os pressupostos multiculturalistas adquiriam vida e realidade, como componentes do saber acadêmico consagrado. Mas, não satisfeita em produzir objetos de estudo, a “transformação curricular” injetou a raça, a etnia e o gênero em todos os departamentos e disciplinas, investigando, por exemplo, o “olhar afro-americano” das paisagens urbanas, os temas feministas na arte conteporânea e a misoginia inscrita na Nona Sinfonia de Beethoven.

Universidades em busca de dinheiro e acadêmicos em busca de prestígio definirtam suas prioridades acadêmicas nos termos sugeridos pelo doador. A Universidade de Chicago, seguindo as tendências gerais, implantou um Centro para o Estudo da Raça, Política e Cultura que, no início de 2005, recebeu da FF de de outras entidades filantrópicas mais de um milhão de dólares em doações. Cathy Cohen, diretora do Centro, explicou que o “recebimento das doações mostra que pesquisa inovadora está sendo realizada”, um raciocínio amparado na curiosa idéia de que os donos do dinheiro são os melhores avaliadores da pertinência de um saber.

A maior das doações recebidas naquele ano pelo Centro dirigido por Cohen, proveniente da FF, no valor de seiscentos mil dólares, destinava-se à linha de pesquisa “Os jovens afro-americanos e seu empoderamento sexual: sexo, política e cultura”. É claro que a linha de pesquisa não existiria sem a intervenção da Fundação. Mas há algo de maior relevância: a mera enunciação do programa acadêmico significa que, de acordo com o saber institucional adventício, “afro-americanos” constituem um grupo perfeitamente identificável e distinto dos demais por feições culturais relacionadas ao sexo e à política.

A marcha do multiculturalismo pelos campi universitários nem sempre contou com a adesão voluntária dos acadêmicos, mas a Fundação soube manejar com eficácia seus meios de persuasão. Robert Steele, professor de Psicologia na Universidade Wesleyan, de Connecticut, que cumpriu o papael de coordenador de uma das sessões da conferência “Intensificação da diversidade cultural”, patrocinada pela FF em Pasadena, Califórnia, em 2004, explicitou o receituário: “As pessoas não serão pacificamente assimiladas ao multiculturalismo por meio da verdade, através do diálogo. Você lhes dá assistentes de pesquisa, você oferece orientadores de pós-graduação.” A meta não é apenas inncutir idéias, mas colocar os acadêmicos ligados à Fundação nos postos de comando e, efetivamente, assumir o controle de departamentos e universidades inteiras: “Nós teremos mudado a universidade quando mulheres e pessoas de cor possam se ver dirigindo o lugar.”

Henry Ford II deixou a presidência da FF em 1950, mas permaneceu envolvido com a sua direção durante mais um quarto de século, como CEO e depois como curador. Contudo, ele experimentou uma desilusão crescente com os rumos da entidade filantrópica e, em 1977, renunciou à sua posição no conselho. “A Fundação é uma criatura do capitalismo”, observou, mas tornou-se difícil identificar algum traço de capitalismo “em qualquer coisa que ela faz. É ainda mais difícil encontrar uma compreensão disso em muitas das instituições, particularmente as universidades, que são beneficiárias do programa de subvenções da Fundação”.

O herdeiro dos fundadores era um conservador da velha estirpe e não entendia o sentido das políticas conduzidas pela FF desde o final da década de 1960. Mas, pela perspectiva de Bundy e de seus sucessores, o multiculturalismo era um remendo vital para o sistema político do capitalismo – e não apenas nos EUA.

(...)

A FF participou de todos os aspectos do empreendimento multiculturalista nos EUA. Mas, sobretudo, ela funcionou como o nó mais importante de articulação entre a universidade, as organizações de pressão e os órgãos da administração pública. Por intermédio da Fundação, acadêmicos encontraram os caminhos rumo a postos na direção das organizações de minorias e a cargos governamentais encarregados de programas de ação afirmativa. No sentido inverso, ativistas foram inseridos em programas universitários de pós-graduação, sob a orientação de professores financiados pela Fundação. Como consequência dessa “circulação de cérebros”, configurou-se uma rede multiculturalista tentacular, organicamente descentralizada, mas que compartilha a mesma visão de mundo.

Desde as origens, a FF viu-se a si mesma como um ator global. O poderio financeiro da Fundação conferia-lhe uma capacidade de projetar influência muito além das fronteiras americanas e ela organizou-se para atuar agressivamente no exterior. Em 1952, inaugurou seu primeiro escritório regional, em Nova Délhi, na Índia, logo seguido pelo de Jacarta (Indonésia) e, em 1957, pelo do Ciro (Egito). No início da década de 1960, surgiram os escritórios africanos de Lagos (Nigéria) e Nairóbi (Quênia) e os latino-americanos da Cidade do México, Rio de Janeiro e Santiago (Chile). Numa fase posterior, com a abertura chinesa, o encerramento da Guerra Fria e o colapso do apartheid, implantaram-se escritórios em Pequim (China), Moscou (Rússia), Hanói (Vietnã) e Johannesburgo (África do Sul). Em 2005-2006, as doações dos escritórios regionais representavam 30% dos desembolsos totais da Fundação.

A sede mundial, em Nova York, base do conselho de curadores de 13 membros, e os escritórios regionais do exterior empregam um corpo permanente de seis centenas de funcionários. Dinheiro nunca foi problema. No ano fiscal de 2007, a FF estava entre as cinco entidades filantrópicas mais ricas, com patrimônio total de 13,7 bilhões de dólares. Ao longo de sete décadas, ela distribuiu mais de 15 bilhões em doações para milhares de instituições e indivíduos. Em 2001, na maior subvenção singular de sua história, usou 280 milhões de dólares para criar um programa de bolsas de pós-graduação destinadas a “lideranças emergentes de comunidades marginalizadas fora dos EUA”. Trata-se, evidentemente, de uma ferramenta de cooptação de lideranças comunitárias em larga escala. Com cerca de 4,3 mil bolsistas espalhados pelo mundo, o programa recebeu, em 2006, 75 milhões adicionais e foi estendido até 2004.

O multiculturalismo organizou praticamente todos os aspectos da atuação da FF nos EUA a partir dos anos 1970. No exterior, o novo paradigma teve que ser adaptado aos variados cenários nacionais e a outras prioridades na agenda da Fundação. Na Índia, o escritório regional definiu a “diversidade” nos termos postos pelo antigo sistema de castas, que havia sido reativado pelas políticas coloniais britânicas, e dirigiu recursos para os defensores da ação afirmativa em benefício das “castas desfavorecidas”. No México e na América Central, a FF concentrou-se na promoção de identidades étnicas de grupos ameríndios, que foram classificados como minorias marginalizadas.

Na África, os escritórios de Lagos e Nairóbi subvencionaram organizações de proteção de direitos de minorias, o que em diversos casos, mas não sempre, significa a promoção de interesses exclusivistas de elites étnicas e regionais. Com o fim do apartheid, a política de black empowerment conduzida pelo governo sul-africano evidenciou-se mais de uma vez pela presença de “homens da Ford” em ministérios e na alta administração governamental. O caso mais notório é o da Nigéria, cujo ex-ditador Olusegun Obasanjo tornou-se membro do conselho de curadores da Fundação, dirigindo seu Comitê de Assuntos Internacionais, cargo do qual renunciou para se eleger presidente do seu país pelo voto popular, em 1999. Após a posse de Obasanjo, a FF ajudou a subvencionar a comissão oficial encarregada de redigir uma nova Cosntituição.

A difusão internacional do multiculturalismo, foi interpretada pelos sociólogos franceses Bourdieu e Wacquant como “uma verdadeira ‘globalização’ das problemáticas americanas”. A ação da FF no Brasil atesta a agudeza desse diagnóstico. As subvenções da Fundação replicaram nas universidades brasileiras os modelos de estudos étnicos e de “relações raciais” aplicados nos EUA e consolidaram uma rede de organizações racialistas que começaram a reproduzir os discursos e demandas das similares afro-americanas. Por essa via, a polaridade branco/preto, que se coagulou nos EUA com a regra da gota de sangue única, foi exportada para os ativistas no Brasil, um país atravessado por desigualdades sociais muito diferentes e cuja tradição identitária articulou-se em torno da idéia de mestiçagem.

Da inauguração do escritório brasileiro até 2001, a FF desembolsou em doações 347 milhões de dólares, em valores ajustados à inflação. Na década inicial, os valores anuais de subvenções giraram em torno de 11 milhões. A partir de 1975, as doações caíram dramaticamente, até 2,1 milhões em 1978 e, em 2001, o valor doado atingiu 16 milhões de dólares. No decênio iniciado em 1995, os valores médios alcançaram o patamar de 13 milhões.

O perfil dos financiamentos no Brasil conheceu uma mudança de outra natureza, expressa na nítida tendência histórica de aumento do número anual de doações, que saltou de menos de uma dezena nos anos iniciais para mais de uma centena desde o final dos anos 1990. a estratégia original de concentração das doações em grandes donatários institucionais, especialmente universidades, deu lugar a uma orientação de pulverização do dinheiro por inúmeras pequenas organizações não governamentais (ONGS). Os números atestam a escala da mudança de rota: as ONGS brasileiras, que receberam 4% das subvenções totais na primeira década, saltaram para 54% no início do século XXI.

O “giro popular” da Fundação acompanhou a sua “decisão de privilegiar uma definição mais instrumental das Ciências Sociais” e beneficiou, em especial, as “organizações de ativistas afro-brasileiros” engajadas nas políticas de raça e na demanda de iniciativas de discriminação reversa. Num movimento complementar, as doações destinadas a universidades, embora continuassem a fornecer recursos para os mais variados programas, passaram a privilegiar instituições que figuraram como modelos para a difusão dos sistemas de admissão por cotas raciais.*

No Brasil, não existiam organizações tradicionais como a NAACP, com uma ampla base social entre os negros. Inexistiam também organizações militantes de relevância, com exceção do Movimento Negro Unificado, que tendia a rejeitar o modelo americano do black capitalism. Por isso, o “giro popular” da FF resultou, basicamente, no surgimento de uma rede de ONGS racialistas constituídas ao redor de ativistas acadêmicos. As novas ONGS cultivaram as suas relações com a Fundação e importaram utilitariamente a linguagem multiculturalista elaborada nos EUA.

Entretanto, a doutrina multiculturalista incorporou-se ao código genético do escritório regional da FF e foi convertida num eixo transversal de articulação do conjunto das subvenções. O sociólogo Edward Telles, chefe do programa de Direitos Humanos da Fundação no Brasil entre 1996 e 2000, explicou a metodologia utilizada para a seleção de donatários desde o final dos anos 1990:

A Ford-Brasil requer uma”tabulação da diversidade” e uma explicação de todos os seus financiados em todos os campos de atuação. Isto inclui mais de cem apoios por ano, dos quais menos de vinte são, principalmente, sobre questões raciais. Esta tabulação enumera toda a equipe em diferentes níveis, de acordo com critérios de gênero (...), de raça (brancos/não brancos) , e a explicação induz os financiados e explicarem por que eles refletem, ou não, a diversidade local com respeito a gênero e cor e o que eles pretendem fazer para melhorar isto.
* A Universidade Estadual do Rio de Janeiro recebeu uma doação de US$1,3 milhão, que figura na lista das maiores da história do escritório, em 2001, quando implantou seu programa pioneiro de cotas raciais. A Universidade de Brasília implantou seu programa em 2004 e nos anos seguintes recebeu sucessivas doações. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul resistiu até 2007, quando instituiu cotas raciais e recebeu US$ 130 mil. A Universidade Federal de São Carlos, outra “retardatária”, foi contemplada com uma doação excepcional de U$S 1,5 milhão em 2007, ano em que aderiu ao sistema de cotas.

(Retirado do livro "Uma Gota de Sangue" de Demétrio Magnoli e transcrito por Graça Maria Ravazzano)

terça-feira, 12 de maio de 2009

A Dialética das Raças

Pedro Ravazzano
***
O nazismo é criminalizado no Brasil, mas por aqui triunfa uma análise sociológica genuinamente nacional-socialista; o polilogismo racial. Os nazistas, influenciados pelo polilogismo de classes dos marxistas, afirmavam que um não-ariano era condicionado, na sua essência, à produção de opressão e alienação, ou seja, o destino era determinado desde a infância, simplesmente pela “cor de pele”. Dentro da análise nazista não havia espaço para um política social; não importava se o judeu era rico ou pobre, se o eslavo era da elite alemã ou um miserável coitado do subúrbio de Berlim, qualquer raça ou cultura que não fosse “legitimamente” alemã trazia consigo a semente da dominação e da opressão – tinha que ser combatida.

No Brasil essa é a mentalidade difundida pelos movimentos e ONGs que discursam em defesa de cotas raciais – seguem piedosamente os ensinamentos de Stálin, que dizia que todos os conflitos de raça deveriam ser transformados em luta de classes. Obviamente, para qualquer pessoa sensata, o problema brasileiro é social em sua origem; 42% da população se diz parda, enquanto 7% se diz negra. Os populistas líderes “afro-brasileiros” acreditam que falam por uma comunidade preta, entretanto, vale frisar, essa identidade racial inexiste no país, e é isso que significa o fato da maioria da nação se considerar mestiça. Não obstante, chega a ser caricato ouvir militantes da causa negra construindo uma idéia de “povo negro” quando o dito “povo negro” sequer se entende como um povo distinto de todo a brasilidade e sequer elegeu seus porta-vozes raciais. Desse modo, hoje podemos refletir o questionamento lançado por Gilberto Freyre, ilustre sociólogo brasileiro: “A raça estará, então - raça, não no seu sentido justo mas como aquela super-realidade exaltada de modo mítico e místico pelos nazistas como a força física e mental com específica missão política e cultural - tomando o lugar de classe, como fator na política contemporânea?”

O cerne da argumentação do tais líderes raciais é que as políticas de afirmação negra surgem para reparar anos de escravidão. Pois bem, vamos relevar o fato de que a sociedade atual, com toda a sua complexidade, é totalmente diferente daquela do séc. XIX, o que eles pretendem é retomar uma percepção racial para dizer que o branco, no Brasil, representa o português escravista e que o negro brasileiro representa o africano escravizado. Primeiramente, é importante lembrar, ao longo da história nunca houve sucesso quando da adoção de parâmetros raciais por parte do Estado, seja quando o Estado nazista instaurou os campos de concentração, quando o Estado Sul-africano criou o apartheid ou quando o Estado americano estipulou a segregação e, posteriormente, obrigou a união forçada. O interessante do discurso dos populistas negros é que eles partem de um entendimento extremamente obtuso; a escravidão não foi construída sobre uma identidade racial, não havia a dicotomia de brancos X negros. Ora, os portugueses sequer capturavam os africanos, quase sempre compravam os escravos nas mãos dos grandes reinos e cidades negras que já nutriam uma cultura escravista. No próprio Brasil pré-abolicionista ex-escravos e mulatos tinham os seus escravos. Quem foi o maior traficante de escravos da nossa história? Francisco Félix de Sousa, um mulato que fez enorme fortuna, tornou-se extremamente poderoso e acabou morrendo em Uidá, no Benim, com o título de Chachá – possivelmente uma corruptela do seu próprio apelido – dado pelo Rei de Daomé. Hoje seus familiares africanos ainda gozam de prestígio político e cultural.

Existe uma crucial necessidade, por parte dos tresloucados líderes negros, de transformar a história brasileira numa história de raças. Obviamente, a maior facilidade de entendimento do processo dialético da luta de classes dentro de uma realidade dicotômica incentiva a deformação do conteúdo histórico do Brasil. Vamos supor que esse absurdo, esse pecado mortal intelectual, tem alguma validade, as tais políticas reparatórias iriam reparar o que? O negro que fenotipicamente parece descender do africano escravizado? Mas se esse jovem negro descende não de um negro escravizado, mas de um negro escravizador? E se, por acaso, o jovem branco carrega genotipicamente uma herança africana? Já que o modelo imposto parte da necessidade de uma reparação histórica, os beneficiados são os que descendem diretamente dos escravos, mas como saber quem são esses senão por uma profunda pesquisa historiográfica, documental e até genética? Afinal, se o jovem de pele clara carrega os genes do africano do Sudão escravizado ele tem os mesmo direitos do jovem de pele escura que, visivelmente, descende de negros – que não necessariamente eram escravos, vale frisar. Vamos deixar mais claro; os líderes dos movimentos e ONGs pretas afirmam, categoricamente, que as cotas, por exemplo, são justas por resgatarem a dignidade do negro em séculos de escravidão. Tudo bem! Agora vejamos, se o centro da discussão é a escravidão, de fato, apenas através de uma pesquisa profunda podemos reconhecer os herdeiros dos escravos do passado, e aqui, obviamente, serão colocados brancos e negros fenotipicamente. Se tal análise não é feita, a identidade negra escravizada é definida simplesmente por um concílio racial, embebido em ideologia, que constata a origem histórica da “raça” unicamente pelo tom de pele – pobre Mendel!

Claro que tais pesquisas não são feitas! Os chefes de ONGs e os caciques dos movimentos políticos estão pouco se importando se o jovem branco é geneticamente filho de um escravo do Golfo da Guiné ou se o jovem negro é geneticamente herdeiro de um senhor de escravos. A desonestidade aparece em dois pontos; primeiro quando criam uma falácia racial num país que não se identifica por etnias, é só perceber que nas grandes pesquisas a grande maioria dos brasileiros se diz parda. E, em segundo lugar, e não menos importante, se encontra esse absurdo de reparação; além de desconheceram a genética os hipócritas da raça criam uma nova história; os brancos de hoje são descendentes dos brancos do passado e os negros de hoje são descendentes dos negros do passado, além disso acreditam piamente – ou parecem acreditar – que predestinadamente os brancos do passado eram opressores e os negros do passado eram oprimidos. Querem “dar por implícito que todo branco é culpado pelos atos dos senhores de escravos, mesmo quando não tenha um só deles entre os seus antepassados e mesmo que tenha chegado ao Brasil, como imigrante, décadas depois do fim da escravidão.”(CARVALHO, Olavo de). Haja polilogismo, haja dialética – e Marx era racista, vamo que vamo!

Essa criação do mito da raça no Brasil, ainda mais quando pretendem que na mesma escola pública filhos de pais pobres sejam divididos entre negros e brancos, irá favorecer a consolidação do mais genuíno racismo. O Estado entrará nas escolas públicas e afirmará que os jovens de tez clara são descendentes de portugueses senhores de escravos e, por isso, não terão direitos às cotas, enquanto os seus colegas negros, por serem descendentes de africanos escravizados, gozarão de benefícios na entrada na Universidade. Detalhe a ser frisado, o jovem branco e o jovem negro não apenas dividem a mesma classe, mas o mesmo bairro e a mesma renda. Maldita história!

Um ponto que merece ser frisado; o Brasil se encontra no grupo dos poucos países que nunca aprovaram leis raciais, que nunca identificaram a cidadania com a etnia e a cor de pele. Esse fato é tão característico que a interferência do Estado na própria noção de raça, além de um grande contra-senso, se opõe ao processo de desenvolvimento do país. A nossa nação realmente não é racista, claro que com isso não quero dizer que ninguém tenha atitudes e pensamentos racistas, mas que inexiste uma estruturada rede discriminatória, com partidos, facções, ações populares etc, como em outras lugares do mundo. É fato que a instituição do papel social de brancos e negros é favorecida quando já existe uma dicotomia natural ou, então, quando já houve, na história nacional, um cultura de segregação pensada. Destarte, o estrago feito pelos líderes negros tem muito mais mérito, sejamos sinceros; eles conseguiram transformar – ou pretendem transformar – uma nação de pardos numa nação de brancos e negros. Claro que essa mudança de paradigma é feita com uma complexa e planejada tática a la terra arrasada; eles não deixam nada de pé. Qualquer um é acusado de racista, ultrapassado, opressor, desse modo instituem o patrulhamento ideológico - aquele mesmo, o do velho e embalsamado Lênin - que atinge desde as Universidades Federais até o Senado Federal. Tudo é muito bem financiado por grandes Fundações, como a Ford, que entra com milhões e milhões de dólares. A construção de uma identidade racial consolida um grupo político que se forma sobre essa comunidade que, a partir de então, se pensa de forma coesa e com interesses comuns. Os “novos líderes políticos na Ásia, África, América, (..) [demonstram] atualmente certa tendência, não para pôr a Raça a serviço de uma ideologia de Classe rígida, com ênfase total numa guerra de Classes, mas para por uma ideologia de Classe a serviço de uma mística racial revolucionária” (FREYRE, Gilberto)

Como bem frisou o sociólogo Demétrio Magnoli, as elites – negras e brancas – estão fora dessa realidade, elas têm renda para financiar uma educação internacional aos seus filhos. Essas políticas de cotas atingem a classe média e a classe pobre, aquelas que usam as Universidades e escolas públicas. A questão que não é levada em conta é a essência das leis. Pouco importa se na África do Sul o Estado definiu raças para segregar ou que no Brasil atual o Estado legisle sobre a cor de pele para agregar, as duas formas trazem intrinsecamente a idéia de uma “fronteira natural” entre negros e brancos e “Na hora em que os filhos dos trabalhadores não puderem mais olhar uns aos outros como irmãos e colegas, terá emergido um Brasil diferente daquele que conhecemos.”(MAGNOLI, Demetrio)

A América é um continente que, tirando os indígenas, foi construído por povos imigrantes; europeus e africanos. Entretanto, o grande diferencial, é que os fenotipicamente euro-descendentes não mais cantam saudades do Velho Continente, apenas mantém certos costumes culturais enquanto se identificam como brasileiros. Por outro lado, os tais “afro-brasileiros” choram a África e criam diversos entraves para a integração cultural no país. Hoje, qualquer um que experimente criticar alguma faceta da cultura africana - que não existe com essa unidade “africana” como pretendem certos líderes negros - será taxado de racista, no mínimo. Essa relação intrínseca que fazem entre raça e sociedade parte de uma identificação inseparável entre o homem e a cultura étnica, desse modo, cada raça tem um cultura específica, cada indivíduo, enquanto membro de uma raça, passa a ser destinado a viver atrelado ao arcabouço cultural da sua etnia. Esse estúpido determinismo é o tipico retrocesso sociológico que deságua no totalitarismo; um negro não pode personificar a cultura francesa, um judeu não pode representar a nação alemã, um polonês não pode encarnar o espírito americano?

Os movimentos negros têm conseguido transformar a questão racial em mais um tema da cartilha politicamente correta. Além disso, os seus militantes já se instalaram no poder, inclusive mantendo uma secretária federal só para tratar da temática. O triste dessa história é que o triunfo da ótica das raças estabelece uma sociedade que se enxerga por meio da cor de pele. Claro que existem brasileiros racistas, mas o país, como um todo, nas suas bases civilizacionais, jamais nutriu sentimentos discriminatórios organizados. Entretanto, com a ascensão do discurso vitimista, anti-histórico, hipócrita e simplório das causas raciais haverá, ao mesmo tempo, a transformação de uma sociedade mestiça numa sociedade bicolor – negros e brancos – mesmo quando sempre foi estranho ao povo brasileiro o sectarismo étnico. Hoje em dia a questão racial, com as tais “políticas públicas”, é discutida diariamente, além disso ganha força e poder dentro do sistema governamental. Agora mesmo o Senado já se prepara para votar a lei de cotas raciais nas universidades e escolas técnicas federais. Se aprovada será a primeira lei racial de segregação, com brancos e pretos separados pelo Direito.

O Brasil pode se tornar o primeiro país do mundo a realizar uma centrifugação racial, transformado uma nação de pardos na nação dos pretos e dos brancos, duas cores separadas pelo sentido da existência – os primeiros seriam oprimidos em essência e os segundos opressores em essência – e segregados pela legislação estatal. O movimento negro tenta fazer triunfar os seus paradigmas infantis de sociedade, partindo de um princípio determinista e polilógico que, em nada, se distancia das conclusões nazistas. Dessa modo, sobre essa base, constroem um discurso de vitimização e patrulhamento ideológico-racial, transformado um problema social em racial a partir do momento em que pensam que pretos são pobres porque brancos são burgueses. A balela de reparação histórica não faria sentido em nenhum país sério, mas por aqui não só é louvada como já se tornou ponto pacífico em qualquer discussão sociológica. Sendo sincero, eu vou achar engraçado quando daqui a dez ou vinte anos esses coitados do movimento negro estiverem protestando em oposição aos grupos realmente racistas, de identidade branca, engajados na luta contra a presença preta em seus bairros e escolas. Realmente, quem pariu Mateus que balance, quem criou as raças que agüente o racismo.

sábado, 15 de novembro de 2008

Zumbi era dono de escravos

O enigma de Zumbi

Estudos recentes sobre o herói da luta contra a escravidão mostram que ele próprio pode ter sido dono de escravos no quilombo dos Palmares


Leandro Narloch

Na próxima quinta-feira, 262 cidades brasileiras comemoram o Dia da Consciência Negra, data que evoca a morte de Zumbi dos Palmares. Último líder do maior dos quilombos, os povoados formados por negros fugidos do cativeiro no Brasil colonial, Zumbi foi morto em 20 de novembro de 1695, quase dois anos depois de as tropas do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho praticamente destruírem Palmares. Ao longo dos séculos, Zumbi se tornou uma figura mítica, festejado como o herói da luta contra a escravidão. O que realmente se sabe dele, como personagem histórico, é muito pouco. Seu nome aparece apenas em oito documentos da época, incluindo uma carta do governador de Pernambuco anunciando sua morte. Como ocorre com Tiradentes e outros heróis históricos que servem à celebração de uma causa, a figura de Zumbi que passou à posteridade é idealizada. Ao longo do século XX, principalmente nos anos 60 e 70, sob influência do pensamento marxista, Palmares foi retratada por muitos historiadores como uma sociedade igualitária, com uso livre da terra e poder de decisão compartilhado entre os habitantes dos povoados. Uma série de pesquisas elaboradas nos últimos anos mostra que a história de Zumbi e do quilombo dos Palmares ensinada nos livros didáticos tem muitas distorções. Muito do que se conta sobre sua atuação à frente do quilombo é incompatível com as circunstâncias históricas da época. O objetivo desses estudos não é colocar em xeque a figura simbólica de Zumbi, mas traçar um quadro realista, documentado, do homem e de seu tempo.

Biblioteca Nacional

Idéia exótica Negro retratado no Brasil do século XVII pelo pintor holandês Albert Eckhout: na época, o conceito de igualdade entre os homens não existia na África

Os novos estudos sobre Palmares concluem que o quilombo, situado onde hoje é o estado de Alagoas, não era um paraíso de liberdade, não lutava contra o sistema de escravidão nem era tão isolado da sociedade colonial quanto se pensava. O retrato que emerge de Zumbi é o de um rei guerreiro que, como muitos líderes africanos do século XVII, tinha um séquito de escravos para uso próprio. "É uma mistificação dizer que havia igualdade em Palmares", afirma o historiador Ronaldo Vainfas, professor da Universidade Federal Fluminense e autor do Dicionário do Brasil Colonial. "Zumbi e os grandes generais do quilombo lutavam contra a escravidão de si próprios, mas também possuíam escravos", ele completa. Não faz muito sentido falar em igualdade e liberdade numa sociedade do século XVII porque, nessa época, esses conceitos não estavam consolidados entre os europeus. Nas culturas africanas, eram impensáveis. Desde a Antiguidade e principalmente depois da conquista árabe no norte da África, a partir do século VII, os africanos vendiam escravos em grandes caravanas que cruzavam o Deserto do Saara. Na época de Zumbi, a região do Congo e de Angola, de onde veio a maioria dos escravos de Palmares, tinha reis venerados como se fossem divinos. Muitos desses monarcas se aliavam aos portugueses e enriqueciam com a venda de súditos destinados à escravidão.

"Não se sabe a proporção de escravos que serviam os quilombolas, mas é muito natural que eles tenham existido, já que a escravidão era um costume fortíssimo na cultura da África", diz o historiador carioca Manolo Florentino, autor do livro Em Costas Negras, uma das primeiras obras a analisar a história do Brasil com base nos costumes africanos. Zumbi, segundo os novos estudos sobre Palmares, seria descendente de uma classe de guerreiros africanos que ora ajudava os portugueses na captura de escravos, ora os combatia. Quando enviados ao Brasil como escravos, os nobres africanos freqüentemente formavam sociedades próprias – uma delas pode ter sido Palmares. Para chegar a esse novo retrato de Zumbi e do quilombo, os historiadores analisaram as revoltas escravas partindo de modelos parecidos que ocorreram em outros lugares da América e da África. Também voltaram às cartas, relatos e documentos da época, mostrando como cada historiografia montou o quilombo que queria.

Reprodução/Biblioteca Nacional e Museu Paulista

A caça e o caçador Zumbi e o bandeirante Domingos Jorge Velho, que destruiu Palmares: a escassez de documentos favoreceu versões romantizadas de como era a vida no quilombo

O principal historiador a reinterpretar o que ocorreu nos quilombos é o carioca Flávio dos Santos Gomes. Ele escreve no livro Histórias de Quilombolas: "Ao contrário de muitos estudos dos anos 1960 e 1970, as investigações mais recentes procuraram se aproximar do diálogo com a literatura internacional sobre o tema, ressaltando reflexões sobre cultura, família e protesto escravo no Caribe e no sul dos Estados Unidos". Atendo-se às fontes primárias e ao modo de pensar da época, os historiadores agora podem garimpar os mitos de Palmares que foram construídos no século XX.

O novo quilombo dos Palmares

Estudos recentes mudam a visão que predominou
no século XX sobre os povoados

O que se pensava
• O quilombo era uma sociedade igualitária, com uso livre da terra e poder de decisão compartilhado
• Zumbi lutava contra a escravidão
• Zumbi foi criado por um padre, recebeu o nome de Francisco e aprendeu latim
• Ganga-Zumba, líder que antecedeu Zumbi, traiu o quilombo ao fechar acordo com os portugueses

O que se pensa hoje
• Havia em Palmares uma hierarquia, com servos e reis tão poderosos quanto os da África
• Zumbi e outros chefes tinham seus próprios escravos
• As cartas em que um padre daria detalhes da infância de Zumbi provavelmente foram forjadas
• Ao romper o acordo com Portugal, Zumbi pode ter precipitado a destruição do quilombo

http://veja.abril.com.br/191108/p_108.shtml