quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A crise européia e a redescoberta do homem

Pedro Ravazzano

Parece que a crise econômica européia fortaleceu o discurso que anunciava a falência do capitalismo e das estruturas “neoliberais” de mercado. Não obstante, a realidade parece ser bem diferente. O Estado com o seu famigerado poder sempre foi um problema constante dentro das discussões políticas da modernidade. Hoje em dia a reflexão a respeito das suas funções e do seu fim se torna atual, ainda mais quando no centro se encontra o homem.

A presente crise, dentro da perspectiva da escola austríaca de economia, está longe de ser contabilizada na conta do capitalismo. Não obstante, é importante ter em vista que no seio dessa problemática se encontra o homem muitas vezes esquecido. Se, por um lado, a individualidade – não confundamos com o individualismo – humana é esmagada pelos desmandos do Estado, por outro o “sujeito” é transformado numa variante dentro do cálculo integral e transformado em um dos pontos do gráfico, dentro do paradigma neoclássico de economia.

Partindo da perspectiva da escola austríaca de economia a crise só pode ser definida como reflexo das ações do Estado. Este é responsável, então, por criar artificialmente uma euforia no mercado ao decidir os rumos da economia mediante a injeção de moeda e através da redução de juros, simples movimento de projetos de poder político, criando, conseqüentemente, para os agentes econômicos, a impressão de que existe mais poupança para o investimento. Destarte, tais medidas governamentais, usadas pela máquina burocrática, impulsionam o crescimento econômico de modo artificial, gerando um falso entusiasmo. Assim, ainda continuando dentro da perspectiva econômica, estas atividades acarretarão o aumento do acesso ao crédito, isto é, o barateamento do dinheiro. Desse modo, o crescimento do índice de emprego, consumo e de riquezas exprimem as medidas do governo, porém, com a manutenção dessas políticas artificiais a economia inicia a ruína por meio da perda do valor da moeda, gerando incerteza para os “agentes econômicos”. A solução, nesse ponto, se encontra em optar pela continuação das medidas de outrora ou, buscando remediar a crise, a adoção de projetos restritivos com o aumento de juros e redução dos gastos públicos. Surgem, por fim, as falências e a depressão.

Entretanto, o risco que corremos é que, ainda compreendendo corretamente as origens da crise européia, reduzamos tudo a uma dinâmica estritamente econômica. Nesse sentido é crucial entender não apenas a relevância e protagonismo do homem, mas sim que, inclusive dentro da ciência econômica, é este o único capaz de, usando as suas potencialidades, criar um mundo e cumprir o seu desígnio fundamental que é a felicidade. Apenas com tal olhar conseguimos encontrar o homem perdido em meio aos discursos políticos nos parlamentos e ofuscado pelos cálculos matemáticos que o transforma numa máquina programada. A escola austríaca de economia, ao nos oferecer o homem e suas escolhas, e a Doutrina Social da Igreja, ao apresentar o homem e sua liberdade, apontam para este princípio fundante da sua existência.

Obviamente a crise européia só poderá ser solucionada através de ferramentas do saber econômico, da correta compreensão e captação das estruturas de mercado. No entanto, a sabedoria só é possível de ser entendida pela intervenção da inteligência humana, isto é, nos deparamos com o homem e aquilo que realiza. Com isso frisamos a necessidade do mundo, e principalmente a Europa, se reencontrar com a humanidade, ou seja, com o que de mais fundamental existe na sua natureza, o princípio basilar sobre o qual se realiza e se entende enquanto tal.

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