quinta-feira, 30 de abril de 2009

O VERBO ERA DEUS

Luciana Lachance
***
Abre parênteses:
Já aconteceu comigo algumas vezes: membros do grupo Testemunhas de Jeová batem à minha porta para pregar A Sentinela e ler passagens da sua pastiche ¹ da Bíblia – e, dentre tantas passagens modificadas deliberadamente, a que mais chama atenção é, sem dúvida, João 1,1. Por esta razão, segue uma análise didática sobre a tradução deste trecho, feita por mim, a fins de demonstração. O intuito é ajudar leigos que não tiveram a terceira aula de qualquer curso introdutório da Língua Grega, e também a todos os membros das Testemunhas de Jeová , que, ademais, são todos os leigos citados.
.
O VERBO ERA DEUS
.
Neste artigo, discutiremos a tradução de João 1,1 em contrapartida com a tradução/explicação da denominação soi-disant cristã Testemunhas de Jeová. A partir do grego, demonstraremos ao leitor, passo a passo, a maneira correta de traduzir esta passagem bíblica. A maioria das bíblias [traduções católicas e protestantes] traz:

“No princípio era o Verbo
E o verbo estava com Deus
E o verbo era Deus

João 1,1 é uma das muitas passagens da Bíblia que afirmam a divindade de Jesus Cristo, razão pela qual é foco de interesse das doutrinas que tentam negar esta verdade – e as Testemunhas de Jeová assim negam; são notadamente conhecidas por serem uma das seitas que defendem que Nosso Senhor Jesus Cristo é o Arcanjo Miguel ². Como esta última heresia nos exigiria para muito além de traduções e interpretações, mas representa propriamente o que São João escreveu na segunda epístola, versículo 7, nos restringiremos apenas ao que anunciamos no primeiro parágrafo.
.
Testemunhas de Jeová

As Testemunhas de Jeová utilizam a chamada Tradução do Novo Mundo para a Bíblia, que supostamente teria sido feita a partir dos originais hebraico, aramaico e grego, mas que acabou condenada por todos os estudiosos das línguas citadas. Charles Russell, responsável pela corrupção do texto, conseguiu a façanha de ser levado a julgamento e não conseguir identificar as letras do alfabeto grego, como consta no processo. Na Tradução do Novo Mundo lê-se, onde destacamos em negrito anteriormente:

“E o Verbo era [um] Deus”

A palavra “um” é inserida antes de Deus, de modo que o Verbo Encarnado [João 1,14] não era o próprio Deus, mas “um” Deus. Ora, vejamos que artimanha a seita utiliza como explicação para isto, de acordo com os originais gregos. [As palavras em grego serão transcritas aqui em caracteres latinos, sem os “acentos”, para facilitar o entendimento]
.
Em Grego, João 1,1:

“En arche en o logos
Kai o logos em pros tos Theon
Kai o logos en Theos”

Em negrito, temos a passagem em Grego que nos interessa neste momento, e que foi traduzida pelas Testemunhas de Jeová como “E o verbo era [um] Deus”. Vejamos:

Em grego, não existe artigo indefinido [um, uma]. Quando a palavra não apresenta o artigo [definido], e quando o contexto e as regras exigem, a tradução acrescenta o artigo indefinido na frente. Veja o exemplo nas frases abaixo:
.
“Ego eimi e phone”
[Presença do artigo em negrito: “Eu sou a voz”]
“Ego eimi phone”
[Ausência de artigo: “Eu sou uma voz”]

Desse modo, a Tradução do Novo Mundo nos dá a explicação que, de acordo com esta regra gramatical grega, o correto seria acrescentar o artigo indefinido “um” antes de Deus na passagem “Kai o logos en Theos”, uma vez que antes de “Theos” não viria o artigo definido – e que da mesma forma como ocorre em outras passagens do Novo Testamento, em que os diversos tradutores utilizam esta regra, da mesma forma em João 1,1 esta regra pode ser aplicada. Mas será que isso é verdade? Vejamos:
.
“Kai o logos en Theos”

Em grego, quando o sujeito e o predicativo do sujeito são constituídos por substantivos, deve-se observar a regra de que o sujeito [Logos/Verbo] é acompanhado de artigo definido, enquanto o predicativo do sujeito [Theos/Deus] não é. Desta forma, Theos não deve vir com o artigo. Na língua grega, a posição dos termos de uma oração varia, e não necessariamente determinará a função gramatical da palavra, uma vez que as funções gramaticais são identificadas pelos chamados “casos” - onde uma mesma palavra terá sua grafia modificada de acordo com a função que desempenha na oração. Este exemplo pode também ser visto em João 1,1: “pros tos Theon” e “logos en Theos”, onde os leigos em latim, alemão, grego ou afins, podem observar como isso funciona. Tomemos a seguinte frase:
.
Kai Theos en o logos”

Esta frase, embora traga “Theos” na frente, significa a mesma coisa que “Kai o logos en Theos”. A primeira vista, poderíamos traduzi-la por “E Deus era o Verbo”, mas isto não estaria correto. Muitas frases em grego trazem diferentes “arrumações” de seus termos [assim como em latim], e, no entanto, na hora de traduzir para uma língua, como para o português, teríamos o mesmo significado. “Kai Theos en o logos”, então, significa “E o Verbo era Deus”. No caso de “Kai o logos en Theos” ou “Kai Theos en o Logos”, o que nos permite saber “quem era o quê” é justamente a presença do artigo [neste caso, “o”] antes do sujeito. Há ainda outra possibilidade de escrever esta mesma frase, em grego, sem que nenhum dos termos venha precedido de artigo. No caso das frases nominais cujo sujeito e predicativo do sujeito sejam substantivos, e nenhum deles esteja acompanhado de artigo, o predicativo do sujeito deve vir em primeiro lugar na frase:
.
“Kai Theos en logos”

Igualmente, temos o significado de que “O verbo era Deus”. Poderíamos ainda escrever:

“Kai Theos Logos.”

Nesta última, não temos o artigo e não temos também o verbo [“en”] de ligação explícito. O significado, no entanto, se mantém: “O verbo era Deus”.

Dessa forma, fica bastante evidente que a tradução de João 1,1 imposta pelas Testemunhas de Jeová, e por extensão á toda a Bíblia, é imoral, inaceitável, criminosa. Não tem qualquer fundamento. Há exemplos de imoralidades como essa em praticamente todos os versículos da Tradução do Novo Mundo, mas a passagem escolhida aqui é a mais gritante. Há inúmeras explicações disponíveis sobre esta passagem, e na verdade muito melhores do que esta, porém a elaborei pensando que poderiam servir aos leigos de nível 1, ao contrário das explicações que encontrei, que ou serviam aos leigos de nível 2 ou 3 ( regras gramaticais gregas pouco mastigadas) ou eram feitas por pessoas que apenas tinham compilado informações. Há explicações excelentes nos livros (algumas pessoas se deram a esse trabalho, ainda bem). Deduzimos ainda que:

- Se João desejasse escrever que o Verbo não era Deus [se ignorarmos todo o resto da bíblia que afirma que o Verbo era] e quisesse, como alegam as Testemunhas, atribuir ao Verbo uma qualidade divina, ele teria usado o adjetivo Theios.

- Afirmar que existe mais de um Deus é politeísmo.
.
***
Notas

¹ Em literatura, "Pastiche" é uma obra que imita de maneira grosseira o estilo de outra; baseado numa obra já existente, o Pastiche difere na paródia no sentido em que o seu resultado final não beira ao plágio, mas produz um sentido original.

² Afirmar que Jesus Cristo é o Arcanjo Miguel é completamente absurdo; como todas as passagens da Bíblia negam isso, sugerimos ao leitor que abra aleatoriamente a Bíblia em qualquer página e veja por si mesmo.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A Crise Atual e o liberalismo; Uma análise econômica

Pedro Ravazzano
***
A crise já chegou no nosso dia-a-dia. Toda hora ouvimos alguma notícia sobre o colapso do sistema financeiro, a falência de empresas e a intervenção do Estado, dando o dinheiro dos contribuintes, para salvar as companhias destinadas ao fracasso por conta da má gerência e incompetência. Entretanto, outro fato surge junto com a crise; existe um sentimento muito claro de que todos os problemas do mundo se originaram do pensamento liberal, na defesa do Livre-Mercado e na restrição do poder estatal. Pois bem, esse novo paradigma, que já se firmou nas mentes dos indivíduos – agora se junta a tantos outros, como o que diz que o aquecimento global é causado pelo CO2 e que a direita é sinônimo de retrocesso – parte de diversos preconceitos. Na verdade é uma grande ironia, afinal, se os socializantes fazem questão de se distanciar de estereótipos que tentam homogeneizar os movimentos de esquerda, os mesmos lançam mão de uma análise extremamente simplória e distante da realidade sobre o que consideram a “direita” – essa definição é tão vazia. Isso é mais claramente perceptível quando entendemos os meandros e as divisões nos projetos socialistas, principalmente as diferentes maneiras de se entender a práxis revolucionária, entretanto, os membros da esquerda não levam em conta que os mesmos contrastes possam existir dentro da ótica liberal, indo além, enxergam como um bloco sólido e muito bem definido. O princípio polilógico marxista, que tenta reduzir o comportamento dos indivíduos a um condicionamento mental induzido pela classe a qual pertence, cria, dentro do imaginário esquerdista, a idéia de que todo o liberal, enquanto teórico do Livre-Mercado, é um opressor, defensor da exploração dos trabalhadores, da fome do terceiro mundo, da alienação trabalhista e do retrocesso das causas sociais, ou seja, tudo o que pensa e produz teoricamente é para gerar a concentração de capital e o controle dos meios de produção, mesmo que não saiba.

Desse modo, por conta dessa ótica obtusa, liberais e liberais são colocados lado a lado, desde monetaristas, novo clássicos, até austríacos defensores da praxeologia. Ora, a esquerda e os estatólatras sempre se enxergam como os perseguidos e execrados das grandes discussões, mesmo quando estão no controle dos governos, dos centros de pesquisa e das universidades. Além disso, reduzem o que chamam de mainstream ao que consideram, erroneamente, liberalismo, mesmo quando dentro do pensamento liberal pululam correntes que, de maneira heterodoxa, criticam ferozmente os métodos de análise adotados pelos grandes liberais que gerenciam, ou gerenciavam, a economia mundial.

O consenso geral é de que os liberais foram culpados pela crise atual, mesmo quando dentro do considerado clã ‘liberal’ existiam muitos economistas que faziam ardorosa oposição a política econômica americana e, quase como um dom profético, afirmavam a iminente explosão da bolha e a instauração de uma verdadeira crise. Desse modo, torna-se uma enorme injustiça colocar Ron Pauls e Lew Rockwells da vida no mesmo saco dos irresponsáveis monetaristas-governistas. Um problema originado, naturalmente, dessa falta de conhecimento é justamente uma prejulgamento empobrecedor e a criação de um estereótipo de liberais como se, dentro dessa corrente, não existissem diferenças tão radicais que tornam impossíveis as tentativas de homogenização.

A crise se iniciou por conta de uma política intervencionista, com o simples propósito de criar crédito para um mercado estagnado. O FED, através do controle financeiro, promoveu a redução das taxas de juros com a intenção de criar oferta de dinheiro, estimulando a economia, dando vida ao imobiliary market. A indústria do subprime, com americanos tendo acesso irrestrito a empréstimos e hipotecas, aqueceu o mercado imobiliário, leia-se Freddie¹ e Fannie.² É importante frisar que taxas de juros baixas estimulam o consumo em oposição a poupança, que é uma das mais importantes "forças motoras do capitalismo." A alta demanda impulsionada por juros baratos, o perigo do aumento da inflação, a crescente inadimplência, entre outros fatores, obrigaram o FED a elevar a taxa de juros. Maiores taxas geraram maiores parcelas que geraram dívidas. Os títulos podres foram repassados ao Governo que logo tratou de cobrir o rombo. Na verdade essas instituições financeiras nunca tomaram cautela porque sabiam que as transações que envolviam a Freddie e a Fannie (Empresas que aumentaram o crédito na época de Bill Clinton a mando do próprio Presidente), apadrinhadas pelo governo, eram "seguras" como, de fato, se mostrou quando o Estado americano saiu em socorro das suas filhas pródigas.

O forte controle da economia americana – não digo propriamente regulação – era mantido por diversos órgãos governamentais:

Federal Reserve – O Banco Central, tem a incumbência de regular a taxa de juros, a oferta monetária, supervisionar e fiscalizar os Federal Reserve Banks (Bancos de Reserva Nacional), manter a estabilidade do mercado financeiro, responder a necessidade de liquidez etc.

United States Department of the Treasury (Treasurer of the United States, United States Mint, Bureau of Engraving and Printing, Under Secretary for Domestic Finance, Assistant Secretary for Financial Institutions, Assistant Secretary for Financial Markets, Assistant Secretary for of Fiscal Service, Financial Management Service, Bureau of Public Debt, Under Secretary for International Affairs, Assistant Secretary for International Affairs, Under Secretary for Terrorism and Financial Intelligence, Assistant Secretary for Terrorist Financing, Assistant Secretary for Intelligence and Analysis, Financial Crimes Enforcement Network, Assistant Secretary for Economic Policy, Assistant Secretary for Legislative Affairs, Assistant Secretary for Management/Chief Financial Officer, Assistant Secretary for Public Affairs/Director of Policy Planning, Assistant Secretary for Tax Policy, Internal Revenue Service, Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau, Inspector General for Tax Administration, General Counsel, Office of Thrift Supervision) – É o responsável por implementar a política econômica, fiscal e monetária, regular as exportações e importações, vigiar todas as instituções financeiras dos Estados Unidos.

Office of the Comptroller of the Currency – Assegura o sistema bancário nacional regulando todos os bancos dos EUA.

Securities and Exchange Commission – Regula todas as matérias referentes ao mercado de valores mobiliários.

Federal Deposit Insurance Corporation – É quem garante o seguro do depósito, assegura os depósitos feitos em bancos comerciais.

Federal Home Loan Bank Board – Agência que acompanha todos os empréstimos hipotecários dos EUA.

Esse discurso socializante, ou seja, que parte de uma concepção idílica e caricata do liberalismo, lança mão de uma simplória estereotipização para que assim, através vez desse reducionismo, o complexo pensamento liberal seja visto como um apanhado de desejos egoísticos. Essa tentativa de uniformizar a diversidade libertária não leva em conta que dentro do Free-Market existem diversidades e oposições bem determinadas. Por exemplo, não há como conciliar as teorias austríacas e neoclássicas; um autor do porte de Von Mises, mestre de diversos economistas, gastou anos de sua vida escrevendo contra o equilíbrio walrasiano, ou seja, inexiste essa aliança tão firme como pinta a esquerda. Na verdade o liberalismo maistream é alvo de críticas e ataques por parte da periferia intelectual da mesma corrente. De certo modo, o pensamento econômico se torna refém de uma triste redução, como se existissem três grandes grupos, fechados em si mesmos; marxistas, keynesianos e neoclássicos, quase sempre entendidos de maneira obtusa e, por falta de conhecimento, vistos de maneira absoluta. No caso dos neoclássicos ainda há o agravante que normalmente são entendidos como sinônimos de liberais e como se o liberalismo fosse necessariamente as teorias neoclássicas. Isso é tão absurdo que a Escola Austríaca, por exemplo, se assemelha ao marxismo quando percebe que qualquer mudança social radical necessita, obrigatoriamente, de condições objetivas e subjetivas. Inclusive ambas as concepções acreditam que as contradições do sistema atual – o estatismo e o capitalismo, respectivamente – conduzirão ao verdadeiro colapso.

Com a crise econômica atual os socializantes e amantes do Estado – “O Estado é meu pastor e nada me faltará” rezam os estatólatras enquanto incensam e invocam a intercessão de São Keynes – fazem malabarismos teóricos para anatemizar todo o pensamento liberal. Na verdade é uma oportunidade única de “comprovar” a ineficiência do modelo de Livre-Mercado. O mais irônico é que, ao mesmo tempo em que uniformizam o liberalismo, colocando todas as suas escolas dentro do mesmo balaio, condenam como se todas fossem comparsas e defensoras de similares doutrinas. Não sei se é falta de conhecimento ou a velha desonestidade intelectual, mas o fato é que economistas austríacos – apenas me refiro a eles porque foi essa a Escola que com mais vigor combateu não só o marxismo mas a tentativa de objetivar a economia – não só criticavam a política econômica atual – sim, austríacos são liberais mas sempre se encontraram na periferia dos projetos de governo – como previam a quebra por meio da teoria dos ciclos econômicos de Mises.

Ron Paul, Congressista Republicano pelo Texas, assessorado por Lew Rockwell, presidente do Instituto Von Mises, disse, em 2002, num grande artigo por ele publicado que: “Quando a bolha está inflando, não há qualquer reclamação. Quando ela estoura, o jogo de culpas começa. Isso é especialmente válido nessa época de vitimização -- em que ninguém quer assumir responsabilidades --, e tudo é feito em grande escala. Rapidamente, tudo se transforma em uma questão filosófica, partidária, social, geracional e, até mesmo, racial. Além de não se atacar a verdadeira causa, toda essa delação e "jogo de empurra" torna mais difícil a resolução da crise e enfraquece ainda mais os princípios sobre os quais se sustentam a liberdade e a prosperidade.

(...)

Bolhas especulativas e tudo o que temos visto são a conseqüência de enormes quantias de crédito fácil, que são criados do nada pelo Federal Reserve. Praticamente não criamos poupança, mecanismo este que é uma das mais significativas forças motoras do capitalismo. A ilusão criada pelas baixas taxas de juros perpetua a bolha e tudo de ruim que lhe é inerente. E isso não é culpa do capitalismo. O problema é que estamos lidando com um sistema de inflacionismo e intervencionismo que sempre produz uma bolha econômica que necessariamente sempre acaba mal.”

O site Vermelho.org colocou no ar um artigo do pesquisador Fábion Amico, publicado no semanário Nuestra Propuesta, do Partido Comunista da Argentina. Entre diversas “pérolas” uma se destaca; “O governo norte-americano estimulou empresas e consumidores a se endividar e a consumir para estimular, por sua vez, uma economia declinante. E o fez como se não houvesse risco algum." O engraçado, para não dizer cômico, é que mesmo conseguindo entender as estruturas econômicas governamentais, com o estimulo ao Mercado através da promoção de crédito, o artigo concluiu que a crise americana era reflexo do neoliberalismo opressor. Ora, como pode haver verdadeiro liberalismo ao mesmo tempo em que são aplicadas políticas intervencionistas? Se trata de duas óticas econômicas excludentes.

Na verdade vivemos um período de sombras e desonestidade, não há mais fidelidade para com a verdade, tudo fica submetido ao sofisma e aos mais absurdos argumentos falaciosos. Aqui não só me refiro ao esquerdismo que, em peso, analisa de maneira simplória e simplista o pensamento liberal, mas também aos próprios libertários que, muitas vezes, tentam reduzir a diversidade de doutrinas socialistas a um padrão preestabelecido. Captar a essência da oposição, aquilo que os outros defendem, deve ser essencial não só para melhor combate-los, mas para se auto-conhecer. Como bom eram os tempos medievais quando triunfava o método escolástico-tomista, ao menos assim os estudantes entendiam e reconheciam os argumentos e contra-argumentos e, logicamente, não ficavam presos nas armadilhas dos sofismas que, atualmente, imperam.

¹: Federal National Mortgage Association, criada em 1938 por Roosevelt no ápice do New Deal. Se tornou corporação privada em 1968 (isso mesmo, passou 30 anos como monopolista do setor hipotecário) como forma de reduzir o agigantamento do Estado que precisava conter os déficits. Tinha como propósito fornecer liquidez ao mercado imobiliário.

²: Federal Home Loan Mortgage Company, criada em 1970 pelo escandaloso Nixon. Seu propósito era expandir o mercado de hipotecas e servir como mais uma instituição de fornecimento de empréstimos, assim como a Freddie.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Bispo brasileiro apóia presidente paraguaio

por Marcelo Coelho

http://cooperadordaverdade.wordpress.com/

Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás, escreveu uma carta aberta ao presidente do Paraguai, Fernando Lugo. Para os mais desavisados, Lugo era bispo e foi reduzido ao estado laical após ser eleito presidente do Paraguai (embora tenha se candidatado em desobediência ao Vaticano, que não permite que sacerdotes sejam políticos). Nas últimas semanas assumiu a paternidade de um filho concebido quando ainda era bispo e mais duas mulheres alegam que Lugo também é o pai de seus filhos.

Tanto Dom Balduíno como o presidente Lugo são exponentes da Teologia da Libertação e não é outro o motivo pelo qual o bispo brasileiro escreve uma carta em apoio a Lugo. A carta mostra muito bem um dos males da Teologia da Libertação: a politização de tudo.

Dom Balduíno já começa argumentando que a imprensa brasileira repercutiu o fato fazendo coro ao Partido Colorado (oposição a Lugo), como se o fato de noticiar tal absurdo fosse um ato oposicionista ao presidente paraguaio. Talvez criticar o presidente de uma das nações mais auspiciosas no processo de libertação, nas palavras do bispo, seja pecado…

Absurdo é o bispo brasileiro congratular o presidente paraguaio pelo ato de valentia e sinceridade. Que valentia? Que sinceridade? Valentia em violar o celibato clerical? Sinceridade em ter relações sexuais fora do matrimônio? Valentia em assumir o filho só depois que o caso foi parar na imprensa? Com efeito, Fernando Lugo violou não apenas suas obrigações de bispo, mas também de simples católico.

Dom Tomás Balduíno critica, ainda, os bispos paraguaios por terem pedido perdão pelos pecados da Igreja paraguaia, numa referência implícita ao caso de Lugo. Segundo Dom Balduíno, a Igreja não teria perdido perdão por suas supostas omissões aos anos de tirania dos governos paraguaios (anteriores a Lugo, é claro) e essa declaração pode ser usada pela oposição para desestabilizar o governo por meio de um moralismo hipócrita.

O pressuposto implícito desses argumentos é que muito mais importante que os pecados pessoais que cometemos são os pecados sociais, as estruturas de injustiça que oprimem o povo. E a redenção não se alcança buscando a santidade (ao menos como ela é entendida ordinariamente), mas lutando pela revolução. Proselitismo socialista puro. Ou defender o cumprimento de um mandamento virou moralismo hipócrita?

Infelizmente, não posso dizer que estou surpreso com a carta de Dom Tomás Balduíno. Na luta pelo socialismo vale tudo e todos os erros são desculpados em favor da causa.

Santo Cura D´Ars, padroeiro do clero, rogai por nós!

terça-feira, 21 de abril de 2009

Miss California condena a união homossexual no maior concurso de beleza do país

O melhor é a cara que o militante gay faz depois da resposta da Miss. Obviamente, ele esperava que houvesse um elogio rasgado ao "casamento" homossexual, afinal, além da maioria da casta artística ser liberal, a probabilidade de alguém ter coragem de condenar a sodomia no maior concurso de beleza do país era bem remota. Acabou que o tal Hilton criou uma heroína conservadora.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Partido Republicano e a Escravidão

Pedro Ravazzano
***
Hoje, a grande maioria dos analistas políticos, submersos na ideologia, quando olham para os EUA enxergam no Partido Republicano a encarnação de um conservadorismo doentio. Dois pontos devem ser levados em consideração; primeiramente, essa leitura parte de um princípio dialético que busca compreender a história como um processo de constante conflito existente na sociedade, desse modo, como o Partido Democrata – desde a década de 50 – passou a adotar um espírito muito mais progressista – na versão mais depreciativa do termo – sobrou para os Republicanos o papel dos representantes da opressão e retrocesso. Em segundo lugar, e não menos importante, vale frisar que o GOP (Grand Old Party) foi criado sustentado em princípios considerados eternos e intrínsecos a própria existência humana. Claro que o modus operandi se transforma ao longo do tempo, entretanto, quando há uma sólida base moral, ética, filosófica, que sustenta uma grande construção, não é de se estranhar que não haja grandes diferenças entre o que é crido por um Republicano atual – excluindo os inebriados com o mais radical neoconservadorismo – e um Republicano da época da fundação do partido, como Abraham Lincoln e John Fremont. O mundo adotou uma postura relativista, de rompimento com os princípios morais e existenciais que externamente atrelavam os homens a um fundamento cristão, não obstante, aqueles que criticam os tais "reacionários" e "antiguados" esquecem que toda a idéia de Ocidente e sua concepção de direito, valores, humanidade, justiça, universalidade, refletem o próprio cristianismo.

O amadurecimento espiritual foi essencial para o desenvolvimento de uma percepção política cada vez mais libertária em essência. Claro que com isso não queremos afirmar que todos os homens que se engajaram na luta da Liberdade, nos EUA, tenham sido religiosos conscientes, entretanto, e isso é inegável, o espírito, o ethos que norteava desde os atos corriqueiros até as mais elaboradas discussões filosóficas, na América, era sim fundamentado sobre um forte princípio cristão, daí que Tocqueville falasse que a primeira instituição política dos Estados Unidos fosse a religião. A própria questão escravista, nos EUA, era discussão também religiosa; sulistas e nortistas baseavam as suas defesas em passagens bíblicas e no conhecimento teológico. Os quacres – famosos cristãos pacifistas e filantropos que quando perseguidos pela Igreja Anglicana emigraram em massa para os EUA e fundaram a colônia da Pensilvânia - foram os primeiros que se opuseram a escravidão, seguidos dos protestantes evangélicos das igrejas do noroeste do país. Como disse Dinesh D’Souza “o que é notável é um grupo se opor à escravidão em princípio”, ou seja, não havia, por detrás desse feroz discurso abolicionista, um interesse secular, muitos sequer tinham tido contato com negros, mas lutavam contra a escravidão por conta da sua formação moral, ética e filosófica. O movimento anti-escravista tomou força com o Segundo Grande Despertar – uma onda de avivamento religioso, de grande efervescência da fé – encabeçado pelo advogado presbiteriano Charles Finney, que desaguou no “novo nascimento da liberdade”

Aqueles cidadãos que lutavam contra a expansão da escravidão, vindos de uma diversidade partidária e política, se reuniram em encontros organizados em Ripon - Wisconsin e Jackson - Michigan. Entre eles havia um forte desejo de criar um novo partido político, com um novo nome, congregando whigs e democratas ressentidos, mas que, acima de tudo, trouxesse em sua essência um radical espírito de liberdade. Todos reunidos sob uma única bandeira; “todos cooperaremos e seremos conhecidos como republicanos”. Oficialmente, em convenções realizadas em Wisconsin e Vermont, foi adotado o nome de Republicanos.

O Partido Republicano nasceu congregando ex-democratas – revoltados com a Lei de Nebraska – know-nothings [1] e free soilers [2]. Entretanto, quem mais fortaleceu as fileiras republicanas foram os membros do Partido Whig, fundado por Henry Clay, em alusão ao Partido Whig inglês; um partido conservador em princípios – o que era comum a todos os partidos americanos – mas liberal em métodos – dividido internamente entre os Old Whigs e New Whigs, os últimos mais próximos de uma visão francesa do liberalismo. Um grande nome do old wingism foi Edmund Burke. Enquanto Democratas não só defendiam a escravidão como insuflavam a sua extensão, whigs, e mais tarde republicanos, lutavam ardorosamente em defesa da Liberdade.

A Lei de Kansas-Nebraska, apoiada amplamente pelo Senador Democrata Stephen Douglas, de Illinois, regulava sobre a criação de dois novos estados americanos. Entretanto, esse Act tornou-se responsável por disseminar uma discussão que acelerou a crise interna na sociedade americana; anti-escravistas X pró-escravistas. Como esclarecido pelo Compromisso de Missouri, que procurando instaurar um equilíbrio entre os estados escravocratas e livres, determinou, em 1820, que os novos territórios, criados com a aquisição da Louisiana, ao norte do paralelo 36 o 30 ‘ seriam abolicionistas e os ao sul escravistas; Kansas e Nebraska deveriam ser estados livres, ou seja, anti-escravistas, não obstante, a proximidade com regiões escravocratas, assim como a própria articulação política de Douglas, que procurava não se indispor com os sulistas, fez com que a legalidade da escravidão fosse definida por um processo democrático, onde a “soberania popular” seria exercida. Com essa Lei o Compromisso de Missouri foi anulado e, mesmo o Kansas não se tornando escravista, mas sim livre – Nebraska só entrou na União como Estado depois da Guerra Civil – conseguiu acirrar os ânimos e aumentar o choque entre o Norte e o Sul; “Vamos a caminho de ver esse pais de jactanciosa liberdade convertido realmente em terra de escravidão”, dizia Lincoln. Infelizmente, durante todo o processo, se instaurou no Kansas um verdadeiro banditismo escravista, com constantes ataques a cidadãos e a propriedades de homens que defendiam a abolição, tudo muito bem orquestrado pelos senhores do estado “sulista” do Missouri; bem antes da Guerra Civil se iniciar sangue de americanos já era derramado.

Aqui vale uma breve análise; a democracia não é o fim, mas o meio. Ainda que seja supervalorizada, a democracia não passa de um “instrumental utilitário para salvaguardar a paz interna e a liberdade" (Hayek). O processo democrático não é perfeito, muito menos infalível. Na discussão escravista, os Republicanos argumentavam que a escravidão não era um tema meramente terceiro, muito menos era um assunto que só cabia a própria individualidade do cidadão americano – protegida pelas leis dos Estados escravocratas –, afinal a liberdade do homem branco se esbarrava na própria humanidade do homem negro que se encontrava tolhida. A escravidão sequer se encontraria dentro da esfera de decisões dos Estados da Federação; por ser uma imoralidade tamanha deveria ser extirpada de toda a nação, simplesmente afrontava os princípios libertários que fizeram os Estados Unidos e fizeram dos Estados unidos. Não havia, por parte dos anti-escravistas, nada mais do que uma legítima posição liberal; a soberania popular não transformaria a perversidade escravocrata em lícita e legal. Como disse Hayek “É injustificado supor que, enquanto o poder for conferido pelo processo democrático, ele não poderá ser arbitrário” e como falou Lincoln “Não importa de que maneira se apresente, quer saía dos lábios de um rei que intente subjugar seu próprio povo e viver de fruto de seu trabalho, quer de uma raça de homens, como desculpa para escravizar a outra, é sempre o mesmo princípio tirânico”

O Partido Republicano nasceu em defesa da Liberdade do homem negro, na radical vivência do espírito americano, o mesmo ethos que produziu os Pais Fundadores e norteou a Revolução. A grande ironia da eleição de Obama não é o fato dele ser negro, afinal os membros do GOP abriram as portas para que que um dia um afro-americano galgasse o mais alto degrau da política nacional, a piada pregada pelo Destino é fazer Barack Obama ser justamente eleito pelo partido que no passado defendeu ardorosamente a manutenção da escravidão e até pouco tempo contava com membros racistas, como os do Klu Klux Klan, dentre os seus filiados.

1 - Os know-nothings, que compunham o American Party, eram anti-escravistas e extremamente nativistas. Faziam radical oposição a presença estrangeira no país e, principalmente, aos católicos na política. Tinham influência na articulação nacional, mas não ao ponto de manter um partido político com vida longa, a grande maioria dos know-nothings foi absorvida no Partido Republicano.

2 - Os membros do Free Soil Party faziam radical oposição a expansão da escravidão nos novos territórios do Oeste. Diziam que um sistema com homens livres num solo livre era moralmente e economicamente superior ao escravocrata. Além da luta abolicionista, seus membros se engajaram na derrubada de leis que discriminavam os negros libertos. Foram rapidamente integrados ao Partido Republicano.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Um caso incomum - as idiossincrasias de um ateu conservador (Parte II)

por Fabrício Oliveira Soares

Introdução à continuação

Expliquei, na parte anterior ( http://acarajeconservador.blogspot.com/2008/12/um-caso-incomum-as-idiossincrasias-de.html ), a evolução de minha mentalidade e da maneira pela qual assuntos que nos interessam estavam nela dispostos, até o período que termina com o final do Ensino Médio e meu ingresso na universidade. Agora, farei o mesmo em relação ao período posterior, da minha entrada na faculdade até a época atual.

Certos textos envelhecem, ou melhor, desatualizam-se mais rápido. Se eu me aventurasse a escrever sobre geografia, mesmo as mudanças ambientais que vêm ocorrendo no planeta não alterariam tão imediatamente a realidade descrita por mim. Mas outra é a situação do que lhes apresento: um relato autobiográfico de alguém aos 22 anos, começando a estudar Filosofia, que ainda conhecerá muitos pensadores, professores, explicações e teorias, que ainda conhecerá tanta coisa que, por me ser ainda desconhecida, não me revela o seu potencial de ação sobre a consciência. Quando faço este alerta, penso na segunda parte desta continuação, onde ficará mais claro o sentido dessas observações.

Mas é necessário dizer que o valor desse texto não reside tanto pelo que ele representa de meu pensamento ou de certa época – passageira? – de minha vida; na verdade, em meu lugar, poderia estar descrito um personagem de ficção, usado apenas como meio para se explicar certas coisas. Embora tenha escrito essas linhas em boa parte pensando nos amigos e pessoas que passam a me conhecer, eu não sou a única nem principal fonte da importância delas. O que mais importa aqui é o conteúdo de certas coisas que vivi e pensei, que poderiam ter acontecido a outro, e que faz com que este trabalho possa interessar a quem nada sabia de mim antes de chegar a este site(sim, isto aqui me deu muito trabalho!). E é natural que assim seja, que num escrito como este haja uma feição particular e outra mais ampla, de interesse mais universal, ligadas, sem que eu distinga bem onde termina uma e começa a outra, o que é, no mínimo, justificado para o autor-persongem.

Este artigo divide-se em duas partes. Na primeira, traço considerações políticas, comento a militância estudantil que eu conheci na faculdade e registro alguns acontecimentos pessoais relativos a esses assuntos. Na segunda, o foco é em considerações de natureza religiosa, i.e, explicarei os meandros de um certo ateísmo que é o meu, discutirei o uso desta palavras, e outras coisas afins.

Na faculdade...

No primeiro dia de aula... Bem, é fato amplamente reconhecido que a primeira vez é sempre especial. Nela, as esperanças ainda não se macularam pela vivência dos fatos concretos, bons ou ruins, de uma experiência cotidiana. O início da vida universitária é algo idílico, repleto das melhores expectativas. Claro, as pessoas fazem pressuposições diferentes, mais ou menos realistas, e muitas entram receosas na UFBA, pensando em greves, em problemas diversos... Sim, também temia as greves, mas, naquele dia, o que eu sentia era um misto de apreensão e de felicidade por estar estreando como estudante de nível superior. As aulas começariam, na verdade, na semana seguinte, devido à Semana do Calouro, evento já “tradicional” que promove uma série de atividades para apresentar a universidade aos que chegam. Lembro que assisti a uma atividade sobre machismo. Já não me lembro bem das datas, se não me engano o semestre letivo começou em abril, e em junho aconteceu uma greve, a última que houve até hoje, a longa greve de 2004.

A militância estudantil

De que forma, e com que intensidade eu participei do movimento estudantil? Participei apenas esporadicamente, de maneira muito circunstancial e sem me encaixar em algum grupo político; eu sentia certo peso na consciência por não participar de maneira constante e intensa como outros tantos faziam, e situava meu estudo acima das atividades de militância política, o que era uma atitude ocasionalmente censurada. Uma vez, alguém me dirigiu um comentário dizendo que “Fabrício não perde aula se for preciso para participar de movimento”, alguma coisa com esse significado. Foi uma leve crítica, leve mesmo, bem amena e cordial, aliás eu era visto como amigo e, afinal, cada um tem seu jeito; o meu era aquele e, de todo modo, eu estava do lado deles. Eu queria participar mais e por outro lado a disposição me faltava, não havia um ânimo arrebatador, embora eu gostasse daquilo e desejasse fazê-lo para “dar minha contribuição” para a sociedade, para o mundo. De vez em quando, eu tomava uma atitude no sentido de me adentrar mais no ME (movimento estudantil, para quem não estiver habituado), como uma vez em que dei a participar das reuniões do CA (Centro Acadêmico, que poderia se chamar Centro Revolucionário, CR), quando a “Atitude e Resistência” se reelegeu em 2005 ( quando entrei, já era ela quem estava na gestão, e só perdeu em 2007, sendo que a eleição se dá perto do final de ano, de forma que ela conduziu o CA por 5 ou 6 anos – há divergências); embora sejam abertas aos estudantes, não é comum que mais alguém além dos que participam desse negócio de CA se interesse em freqüenta-las, e eu as freqüentei por várias semanas, mais do que a grande maioria dos componentes da chapa.

Preciso contar que já tinha minhas divergências com a militância, e talvez sejam elas que instauraram um fosso providencial entre mim e a ala radical do ativismo do curso de História. Sim, a “ala radical” é tão radical, mas tão radical, que é uma coisa medonha que espanta e afugenta até as mentalidades “politicamente corretas” ( uma expressão cretina para designar os hábitos mentais da esquerda cultural incutidos a todas as pessoas cotidianamente) que lotam um lugar como São Lázaro (como é conhecido o nosso campus). Vejam bem, uma enorme parcela, se não quase todo mundo nesse lugar é de algum tipo de esquerda. Alguns votam no PSTU, muitos outros no PT, embora a maioria com críticas; é muito nítida a intersecção de valores e referências entre eles. Eu era de acordo com o espírito geral dos estudantes – eu nunca pertenci a um partido, embora os partidos que eu tinha afinidade fossem aqueles aos quais pertenciam os estudantes que militavam em partidos, nisso sendo parecido com os demais estudantes, que não são militantes e são de esquerda, de forma mais passiva ou menos; na penúltima eleição municipal, votei em Pelegrino/PT no 1º turno, e no PV para a Câmara; em 2006, andei com uns adesivos de Lula e Wagner na camisa, e na última hora, mudei de idéia e votei em Antônio Eduardo/PCO (coisa que quase ninguém sabe; no entanto, vibrei com aquela vitória de Wagner), que fora meu professor, e em Lula – ou seja, votei em Lula, co-fundador de Foro de São Paulo e amigo de terroristas, na última presidencial que tivemos. O que quero mostrar, talvez de forma muito prolixa, julgue o leitor, é que eu não era muito diferente da maioria das pessoas, que elegem o PT, e muito menos diferente do teor geral dos estudantes de ciências humanas, que é, tristemente, “progressista”, como se gosta de chamar. Então, contarei como a tal militância radical gera desconforto mesmo em estudantes que tendem à esquerda, no mínimo, e como fazia isso comigo, particularmente.

“Essas pessoas dos movimentos são as mais preconceituosas”; esse foi o tipo de frase que eu tive o prazer de ouvir nos últimos tempos antes de me formar, em reuniões entre colegas e entre colegas e professores. Escutei comentários muito críticos sobre os militantes políticos universitários, sobre o fato de criticarem tanto e serem “os mais preconceituosos”, sobre o fato de alguns terem sido vistos maltratando cães no campus, sobre o fato até de terem preconceitos que condenam.


Vinícius Mascarenhas – uma amizade e novas perspectivas

Nas nossas vidas, passamos por lugares, como escolas, trabalho, ou inúmeros outros ambientes, que são onde conhecemos as pessoas com quem manteremos relações, sejam nossos amigos, a pessoa com quem podemos vir a casar, aquela com quem teremos alguma oportunidade, seja profissional ou de alguma outra espécie, enfim, as pessoas que serão importantes para nós, dentre um conjunto muito maior de pessoas. No 3º semestre, as circunstâncias tiveram a bela idéia de colocar juntos, eu e um dos vários colegas que ingressaram comigo no curso, que até então não representava a mim mais do que isso; nós nos matriculamos numa disciplina vespertina e, por mecanismo natural dos estudantes, procuramos quem tinha feito o mesmo: eu e Vinícius Mascarenhas seríamos os únicos da turma a cursarem a disciplina e, portanto, passaríamos a almoçar juntos para irmos à aula. As aulas eram normalmente de visitação, e íamos juntos ao local; com isso, tivemos muita ocasião de conversar e de nos tornarmos próximos.

Nas férias que sucederam esse semestre, meus pais compraram o computador onde escrevo esse artigo; passei a usar orkut, e Vinícius foi um dos primeiríssimos a me adicionar, uma prévia do que seria o período das férias. Conversamos no MSN longas horas da noite, e foram os momentos mais agradáveis da época, e que deixam saudades (já que o infeliz está sem internet e não consegue consertar isso nunca). Vinícius aproximava-se cada vez mais do conservadorismo, desde que entrou na faculdade, e manifestava-se contra as idéias comumente veiculadas naquele ambiente, tornando-se um caso alegórico, posso dizer; ele era o “diferentão”, havia até quem achasse que ele falava certas coisa só para perturbar, e alguns demonstravam acha-lo “engraçado”. (Mas é melhor que ele mesmo preste o seu depoimento nesse blog – cobremos!) Creio que nenhum deles achará engraçado ter em mente o que ele fez com a sua capacidade de ação que vem trazendo e trará conseqüências notáveis para a causa conservadora em Salvador: foi ele quem, em junho do ano seguinte, me apresentou ao Sr. Edson Carlos, da TFP (a verdadeira, não a oficialmente representada pelos Arautos do Evangelho), primeiramente pela internet, e depois providenciou meu encontro com o Sr. Edson e o Sr. Márcio; foi ele quem foi conhecendo e aglutinando pessoas com algumas tendências ou simpatias conservadoras. Completarei esse raciocínio mais para frente.

Naquelas conversas de MSN, ele foi me mandando artigos do Mídia Sem Máscara e de Olavo de Carvalho, de quem eu nutria uma desconfiança terrível. Lia nos seus artigos coisas extremamente destoantes do que eu conhecia, e que não tinham o respaldo da “formação acadêmica”. Sempre me incomodou ele não colocar referência para cada coisa diferente que ele dizia, e em alguns momentos me sentia diante de um autor genial, e em outros, me sentia sem confiança diante de alguma passagem ou afirmação que me parecia pouco rigorosa e cuidada. Mas se às vezes tinha esse segundo tipo de sentimento, a lembrança das demonstrações nítidas de capacidade e competência dele me fazia sentir uma forte necessidade de lê-lo mais para conhecê-lo com mais inteireza e entender o porquê de certos trechos e argumentos me parecerem poucos seguros; nunca, porém, me pareceu que eu pudesse tirar uma conclusão definitiva de pronto, especialmente se negativa, e descartar o exame de um autor tão complexo que leitores superficiais aos quais só interessam certos aspectos – os mais políticos – reduzem de forma tão deformante. Descobri que ele não fornecia provas ou evidências de algo que ele defendia num momento, mas as fornecia em outros em que afirmava a mesma tese; percebi como alguns textos iluminam outros, e que só um estudo sincero e paciente poderia me facultar compreender Olavo de Carvalho – e, ainda hoje, o meu conhecimento sobre ele é básico, ou talvez pouco mais que isso.

Nesse período, em 2007, eu ainda não tinha deixado de ser esquerdista, nem havia aderido à Direita. O convívio com ambas as formas de pensamento instaurou um conflito em mim, uma ligação psicológica com uma e outra (já que eu não conseguia mais descartar de pronto alguma das duas), uma grande dúvida, um problema que eu pretendia resolver pela confrontação de um com o outro. Quando o meu contato era com a Direita, eu me sentia mal com as suas críticas; quando era com a Esquerda, eu me sentia constrangido com uma certa intolerância à minha inclinação e necessidade de conhecer aquela que é tão condenada e comentada, mas que jamais deve ser conhecida. Estranha situação, em que eu me ofendia com uma ou com outra, quando cada uma atacava sua rival com a qual eu tinha algum laço. Mas a intolerância e “raivosismo” peculiares que eu pude experimentar nos meus colegas da Esquerda, que eu não notava direito quando estava em concordância com eles, fez com que eu me apegasse mais ao que eles queriam jogar no lixo antes que eu julgasse tê-lo examinado satisfatoriamente, e me fez dar razão a certas avaliações direitistas sobre a Esquerda e sua militância. Quanto mais eu me sentia acuado por ler Olavo de Carvalho e MSM (abreviação costumeira para o “Mídia Sem Máscara”), mas eu desejava lê-los avidamente antes que eu fosse privado desta leitura, eu sentia um estranho desejo de absorver seus argumentos o mais rápido possível como se eu estivesse prestes a ter de explicar a relevância do que eu lia inclusive para poder continuar lendo.

Eu já estava decidido a estudar o pensamento conservador, e já compartilhava com Vinícius anseios idênticos de ver considerações relativas ao nosso tema de interesse se manifestarem na faculdade, desejávamos ver no estudo de História discussões que extrapolassem o que de costume é levado em conta, ansiávamos por ver presente nos debates algo mais que perspectivas revolucionárias das ciências humanas. Fizemos juntos um trabalho sobre a Revolução Francesa que nos deu oportunidade de procurar caminhar nesse sentido e de termos um diálogo com cumplicidade. Estava patente que íamos criar um grupo de estudos do pensamento conservador, isto já era algo natural no decorrer desse período; eu já pensava em falar com Vinícius da criação desse grupo no semestre seguinte, sabia também que mais cedo ou mais tarde ele ia chegar com essa proposta, e foi o que aconteceu. Um certo dia ele veio falar comigo sobre isso e, se me lembro bem, eu já adivinhava a idéia dele enquanto ele me contava. Foi um momento muito cativante! Inaugural, com os sentimentos inerentes a uma situação em que pessoas se articulam para fazer juntas um projeto importante para elas.

Surge o Grupo de Estudos do Pensamento Conservador

Vinícius foi o grande articulador: a formação inicial do grupo era ele, Ricardo Almeida, Marcelo Couto, Fernando Fidalgo, eu, uma amiga de Ricardo que, se não me engano, chamava-se Adriana, e um colega de Marcelo que passou a freqüentar pouco tempo depois, Tiago. Eu havia falado para Vinícius de um estudante de Filosofia chamado Ricardo, mas foi Vinícius quem o conheceu primeiro e o chamou para o grupo. Também foi ele quem conheceu Marcelo e Fernando, que não participaria mais do grupo no ano seguinte. Não narrarei a história do grupo, pois não convém no momento (e é melhor que fique por enquanto na tradição oral!). Apenas queria contar o começo de tudo. Nossa primeira reunião se deu na quarta-feira da primeira semana de volta às aulas, portanto em 15 de agosto de 2007, e comemoramos nosso primeiro aniversário no 15 de agosto de 2008.

Uma nova identificação surge de um novo autoconhecimento

Não me considerava conservador enquanto participava desse grupo, que aliás existe para todo aquele que queira estudar o que nós estudamos, desde que seja civilizado nas reuniões. Mas, tendo lido os “Dez princípios conservadores” de Russel Kirk, não vi um só que me parecesse equivocado, com o qual eu discordasse. O que faltava para que eu me assumisse conservador? Gostei do texto seguinte, e do outro, e do outro. Por que então a demora? Mudar uma forma de encarar a realidade sempre é difícil, pois mantemo-nos apegados a formas de pensar anteriores que continuam presentes e claras em nossa memória. Vejam, não se trata de “mudar de opinião”, mudar a forma de pensar é algo muito maior, que afeta inumeráveis opiniões particulares do indivíduo. E mudar, nesse caso, era tornar-se “conservador”, algo visto como radicalmente ofensivo, e contra que eu mesmo me habituei a condenar, introjetando firmemente esse preconceito em mim. E mudanças tão radicais dão a sensação de que seremos tidos como levianos e superficiais, e contra isso nem a frase de Pascal “Não tenho vergonha de mudar de opinião, pois não tenho vergonha de pensar”[1] nos protege totalmente. Embora eu tenha refletido muito demoradamente antes de me tornar um conservador – mais do que qualquer jovem ao se tornar de Esquerda, coisa que acontece na alfabetização – posso parecer volúvel para alguns. Isto tudo é motivo de vacilação e de demora. Mas, tendo conhecido Olavo de Carvalho, conheci muito mais que meras considerações sobre economia e política, sobre estrutura do Estado, da produção e da sociedade. Conheci uma intimação à sinceridade, aprendi a conhecer minha consciência, embora o aprendizado da autoconsciência ainda prossiga; o conhecimento verdadeiro não se dá somente com a apreensão de dados externos, ele exige coragem, exigem certos sentimentos e disposições espirituais.[2] Foi assim que eu revelei a mim mesmo que já era um conservador e que só me cabia assim me identificar. E há mais jovens que precisam “sair do armário”! Mas o sujeito tem de estar disposta a abrir mão da falsamente confortável boiolice, no sentido olaviano do termo: ser covarde para agradar aos outros.

A questão do ateísmo em seus novos termos

Na parte precedente deste artigo, eu expliquei como me tornei ateu; mas, carece de atenção muito especial a questão sobre como esse ateísmo se conformou com a outra mudança radical que descrevi na presente secção, a de esquerdista para direitista, na concepção olaviana dos termos. Os conservadores comumente são religiosos, e acreditam numa ordem terrestre de alguma forma relacionada a uma ordem celeste, e inspirados pela religião combatem projetos políticos que vão de encontro a instituições como igrejas e família, e de encontro a concepções religiosas. A maioria dos que conheço são católicos, mas os demais têm alguma outra fé; isso vale para todos que eu conheço pessoalmente, e para os que eu já li.

Em primeiro lugar, é preciso analisar a questão em termos de “Deus” e “Natureza”;
muitos invocam o ateísmo ou o laicismo como desculpa para eliminar a distinção entre certo e errado e se justificar qualquer coisa, como o aborto, p.ex.[3] Na tradição judaico-cristã, há Deus, o Criador, e o Universo e os seres, a criação; segundo o livro do Gênesis, Deus havia criado “tudo o que se move sobre a terra”, o ser humano e os animais que seriam preservados pela arca, cujo modo de construção Êle instruiu a Noé. Hoje, muitos não acreditam em Deus; porém, isso não é desculpa para mais nada. Explico; quem irá contestar que o mundo é habitado “por seres viventes”, pelas plantas, peixes e seres humanos? A negação do Criador não autoriza a negação da realidade do mundo, apenas introduz uma divergência em relação à Origem: discorda-se sobre a origem das coisas, mas tem de se acreditar na existência das mesmas coisas; um ateu, por não acreditar em Deus, deixa também de acreditar que existe o homem, que as Escrituras apresentam como criatura? Ora, CACETE!, que legitimidade tem alguém para defender um niilismo contrário a toda ordem e toda moral por ser ateu?! Esse ceticismo de ateu estúpido implicaria, se levado às reais conseqüências que derivam logicamente de sua forma de pensar, nisso: “Deus disse “Não matarás”; eu não acredito em Deus, então eu posso matar.” Digo por pungente experiência própria, há pessoas cuja demência é de tal grau que não conseguem entender um posicionamento contra o aborto fora de um sistema religioso, ou seja, não conseguem ou não querem me entender[4]. Entendo que não se creia em Deus, mas não dá pra entender alguém não crer na natureza. E é do Direito Natural, que antecede ao Estado, que o ser humano tem direitos inalienáveis como
à vida, à alguma propriedade e autonomia. Sem o Direito de Natureza, só vejo restarem a arbitrariedade e a convenção pura: a força, enfim, a força bruta e destruidora que é o âmago do espírito revolucionário.
Assim, considero ter resolvido o pseudo-problema acerca do conservadorismo e do ateísmo.[5]

Que ateu sou eu?

Serei eu um ateu? Minha aproximação com pessoas religiosas e com pontos de vista tradicionalmente concernentes a elas tornam inverossímil meu ateísmo, meu suposto ateísmo, digamos assim. Fui questionado sobre se eu já não seria hoje um “agnóstico”, portanto mais próximo de Deus que um ateu. Discussões terminológicas sempre são complicadas; e, preciso dizer, sinto-me aprisionado pelo rótulo “ateu”, embora não veja motivo para descartá-lo em favor de “agnóstico”. Tive uma vez oportunidade de consultar um dicionário de religiões, e no verbete sobre ateísmo tinha descrições que coincidiam com o que eu conhecia por agnosticismo. Dizia, por exemplo, que há certos ateus que não se sentem capazes de resolver o problema da existência de Deus, ou de sua interferência no mundo. Costuma-se tomar por ateu quem é convicto da inexistência de Deus, e por agnóstico, quem não tem uma resposta tão peremptória sobre essa questão, quem não tem tanta certeza assim. Mas é apenas um hábito. Vejamos o uso de “ateu” e “ateísmo” em Olavo de Carvalho; ele se diz inimigo do ateísmo militante, não do ateísmo em si. Não entendi isso logo – posso ter uma opinião ateísta mas não posso defende-la? Porém, naturalmente eu me encaminhei a esse tipo de ateísmo que ele descreve em “Ateus e ateus” como o de quem não acredita em Deus, em contraposição ao ateísmo de quem “acredita piamente que Deus não existe.” Deixei de ser aquele ateu iluminista clássico, de cunho cientificista – para quem isso é o modelo preciso de ateísmo, eu não sou ateu mesmo. Não sinto mais a antiga vontade de discutir com crentes – coisa que vira uma espécie de esporte, como o foi para mim – para dissuadi-los de ter sua fé. Por quê?

Vejam bem. Nós somos seres humanos e temos uma vida finita. Evidentemente, precisa-se levar isso em consideração ao se viver, e o fazemos quando procuramos planejar carreira, e quando procuramos trabalhar para acumular bens para que fiquem para os nossos filhos – aí está embutido a previsão de nossa morte mesmo quando conscientemente estamos pensando apenas na vida de nossos filhos. Cada pessoa deve encontrar um sentido para sua vida, e quem é religioso já aderiu a uma resposta formulada, que pode ser correta ou errada. Quem é ateu, tem uma dificuldade maior de encontrar esse sentido: e qual o “sentido” de atacar a resposta dos outros em vez de se tentar resolver o problema? Isso não é uma condenação à discussão em si mesma: apenas penso que as pessoas têm um desafio para suas existências, e que podem debater os caminhos que estão encontrando para enfrenta-lo, com um objetivo de colaboração; isso é muito diferente de se combater sistematicamente tais ou quais respostas apresentadas.

Voltando ao debate de termos sobre “ateísmo” e “agnosticismo”; este segundo não se refere somente à indecisão sobre a existência de Deus. Refere-se à afirmação da permanência dessa indecisão; ninguém é agnóstico por não saber se Deus existe ou não, mas por pensar que não se pode saber isso. Quem não acredita em Deus, nem desacredita, pode ser considerado ateu, já que não admitiu a existência divina; se ele acha possível responder à essa questão, mesmo sendo um cético hesitante, pode ser considerado ateu.

Para completar essa descrição sobre em que ponto eu estou presentemente, falto apenas acrescentar uma breve apresentação sobre o que direciona minha atenção relativa a assuntos espirituais, transcendentais etc. Em primeiro lugar, devo dizer que eu busco entendimento sobre essas coisas, o que não contradiz minha caracterização como ateu, que, ademais, é pouco importante, tratando-se apenas de uma rotulação para apresentar, de forma resumida, abreviada e imperfeita o meu ponto de vista. Ademais, ateu é o que eu sou hoje, e que continuarei sendo enquanto me parecer que as razões para sê-lo sejam melhores que as razões para não sê-lo.

Quanto a esse ponto, aliás, talvez o meu conflito com a idéia de Deus se deva a exposições inadequadas deste, que consistem na atribuição de características ontológicas que nos são mais acessíveis – como características humanas, por exemplo – a um ser considerado absoluto e infinito. Descrições que afirmam a inteligência, a vontade, a ira, a escolha, enfim, que resultam implicitamente na “consciência” divina, me parecem remeter a uma impossibilidade clara e flagrante. Nenhuma “consciência” pode se estender pelo infinito; a vida não me parece um atributo de Deus, e características como essas são de seres vivos, limitados. Para se afirmar se algo existe, tem de se explicar o que é esse algo, e verificar se as condições são absurdas ou plausíveis.

Voltando ao que eu dizia, se me constato como ateu, não quero ficar preso a nenhum compromisso de agir conforme as pessoas esperem que um ateu aja. Eu sou ateu não por acreditar no ateísmo, mas por não ter fé, por não ter a crença de que Deus existe. O meu compromisso é com a verdade, não com uma convicção particular: já abandonei algumas antes. Apenas apresentei aqui a minha opinião atual e o meu procedimento intelectual.

Poderia insistir mais nesse ponto, mas em vez de fornecer uma argumentação exaustiva e que explique perfeitamente as minhas concepções sobre o assunto, pararei por aqui e acrescentarei o que for preciso à medida em que isso me seja requerido. Não me demorei pouco nesse texto, e desejo terminá-lo. Não obstante meu perfeccionismo, apresento esta alegação para não me estender demasiadamente – procedimento, aliás, semelhante aos que usa Descartes, me encorajando a fazê-lo também (filósofo que estou estudando na faculdade e cujo próximo texto que lerei é a terceira meditação: “De Deus; que ele existe”). Concluirei dizendo a minha principal motivação que me faz querer pesquisar sobre questões transcendentais – estou com dificuldades na expressão, e me pareceu por bem nesse momento usar essa palavra – é uma angústia que sinto quando penso a relação entre o particular e individual – nós mesmos – em relação ao infinito, que não pode ser satisfeito (vide a nota de rodapé da Parte I desse texto), à eternidade. E meu grande interesse se dirige à metafísica tal como apresentada por Guénon, autor que já fez uma grande diferença para minha vida, que me mostrou coisas que preciso procurar conhecer e entender. Quanto ao que seja essa metafísica que tanto me interessa, não será comentado agora. Sugiro que se busque artigos nesse blog sobre perenialismo ou Guénon.

Adendo 1: na parte de cima desse artigo, eu apresentei alguma coisa sobre o que vivi como aluno de História. Mas, para atualizar quem me lê, informo que hoje sou aluno do curso de Filosofia na UFBA, na graduação, e sou novamente calouro.

Adendo 2: é normal que pontos que não tratei como principais pareçam mais importantes para alguns, ou que algumas considerações estejam insuficientemente desenvolvidas para outros tantos, ou pouco claras, etc. Mas urge a publicação deste texto, e mais perfeccionismo atrasaria ainda mais a publicação, ainda mais tendo em conta o seu tamanho e a demora em rever todos os parágrafos deste longo escrito. Quem desejar, pode entrar em contato comigo e, ou, comentar meu post; responderei diretamente ou, se me parecer matéria de interesse mais geral, posso abordá-la numa futura postagem.

Imagens: a primeira, a do chamado "Casarão" de São Lázaro, bonito embora danificado, eu encontrei no site problemasfilosoficos.blogspot.com ; a segunda me mostra no dia de minha formatura e foi tirada por minha irmã.

[1] APUD COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia, Saraiva.
[2] Essa valorização da consciência individual permeia todo o pensamento de OdeC, mas vou aqui só citar algumas referências que eu já conhecia: o True Outspeak de 26 de fevereiro de 2007 é iniciado com esse assunto; o texto “Notas para uma introdução à filosofia”, lido nesse mesmo programa; e um que não consegui encontrar agora, no qual ele compara as Confissões de St. Agostinho com a autobiografia de um pensador contemporâneo, inglês se me lembro bem.
[3] Vi em janeiro um caso cuja absurdidade ultrapassou todos os limites que eu havia imaginado até o doloroso momento. Na sala de espera de uma clínica, eu lia uma meteria de uma “Época” velha sobre uma polêmica que aconteceu quando um carnavalesco quis colocar, no desfile de sua escola de samba, um carro alegórico representando o Holocausto, com bonecos representando os judeus mortos, a até com pessoas fantasiadas de nazistas e um Hitler; uma federação israelita conseguiu vetar esse carro na justiça, e houve quem condenasse isso como censura, e quem ficasse ofendido com a idéia do carnavalesco. Um psiquiatra entrevistado pela revista e um dos defensores de tal carro, comemorou algo equivalente a “no Brasil, o Estado é separado da religião”. Ou seja, numa grave questão envolvendo os sentimentos de tantos judeus, para os quais o Holocausto é fato de memória recente, havendo até no Brasil quem passou por Auschwitz, um super-imbecil consegue fazer um comentário completamente desvinculado do que se discutia, confirmando um fato já óbvio de que no Brasil os que acusam a religião de interferir em tudo são na verdade pessoas que introduzem a religião em todas as discussões para conseguir aprovar o que existir de maior agressão ao ser humano.
Esse aí deveria ser enviado a um campo de concentração, e a Igreja não deveria fazer nada a respeito, nem mesmo dizer uma só palavra contra. Deveria só declarar: “religião não deve se envolver em nada, e não me cabe intervir em assuntos políticos. Nós só podemos rezar. Nada faremos se pegaram você, pois nada nos cabe no campo social, nada nos cabe fora do templo.”
[4] Seria inconveniente à militância abortista admitir que compreendeu um argumento não-religioso contra o aborto, pois a estratégia deles consiste somente em atacar a religião, e nada mais lhes restaria depois disso.
[5] Sobre o Direito Natural, leia “Com que direito se nega o Direito Natural?”, que foi publicado no site da Frente Universitária Lepanto, de autoria de um prof. de Filosofia.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

PRÓ-CHOICE: Falsa 3ª Via na Era do Eufemismo

Luciana Lachance e Vladimir Lachance
***
Muitos de vocês já devem ter ouvido esse termo – pró-choice – em discussões diversas, como em questões sobre o aborto, opção sexual, e mais recentemente, no discurso pedófilo de grupos como o NAMBLA, que tentam argumentar o relacionamento criminoso de homens com menores através da suposta escolha da criança no consentimento à violência. Neste último caso, não é necessário partilhar desta ideologia para reproduzir o discurso pró-escolha, uma vez que ele é intrínseco à mente criminosa de quem comete esse tipo específico de violência: praticamente todos os homens e mulheres que abusam sexualmente de crianças as acusam de “provocação”, consentimento e iniciativa. Da mesma maneira, ser pró-choice significa permitir ao outro o caminho da violência - onde a mutilação física e/ou psicológica é desprovida do sentimento de culpa que o indivíduo desenvolve por tomar tal escolha – o que, por extensão, determina que esta escolha jamais favorece duas ou mais vias, mas tem direção e sentido determinados. Isto significa dizer que o discurso sempre privilegia a mulher que faz o aborto, a pessoa que decide ser homossexual, ou a aceitação da sociedade para legalizar as drogas ou a pedofilia. A sociedade faz isso através de leis; o indivíduo relega ao próximo um livre-arbítrio deturpado, baseado na falsa premissa de que a escolha do outro não lhe atinge.

Numa época em que o aluno deficiente é chamado de “portador de necessidades especiais”, o negro de “afro-descendente” e o gay de “homo afetivo”, o termo “pró-choice” serve como eufemismo para suavizar posicionamentos tidos como violentos ou que apresentam resistência para serem assimilados. Tomemos como exemplo a questão do aborto. Embora seja óbvio que existam apenas dois posicionamentos – ou se é contra ou a favor dessa prática – os pró-choice se apresentam como uma terceira via na discussão, uma espécie de caminho conciliador entre as duas posições tradicionais. Reivindicam que cabe apenas às mulheres decidirem se abortam ou não – e embora para muitos a questão se encerre em descriminalizar o aborto, este é apenas o primeiro impulso discursivo – para os países, como o Brasil, em que o aborto é crime. Como a maior parte desse tipo de organização pró-choice abortista se encontra em países em que a prática é legalizada, o grande trabalho dessas pessoas consiste em exportar a ideologia para países de terceiro mundo (onde o argumento da mulher-pobre é sensibilizante e interessa à sociedade que vê na família numerosa das pessoas de baixa renda a maior causa das mazelas sociais) e em oferecer “suporte” para que mulheres de seus países se libertem da culpa ou do trauma que o aborto, invariavelmente, traz consigo.

Dessa forma, fica evidente que não existe um terceiro caminho, mas a adoção de um discurso gradual, que procura resolver por partes a resistência que as pessoas têm aos atos de violência propostos. Num primeiro momento, é primordial que se garanta à mulher o direito ao aborto, para retirá-la da “marginalidade”. No segundo, quando o Estado garante e toda a sociedade financia a prática, esta mulher é persuadida à interromper a gravidez - ou, nos países em que não há restrição alguma, a praticar o infanticídio e autorizar aos médicos que sufoquem ou estrangulem seus bebês (isto é bastante recorrente nos abortos praticados em gestações entre cinco e nove meses). Trata-se da mesma ideologia abortista desde o início - não existe qualquer movimento novo ou uma diferente perspectiva, embora o pró-choice possa ser visto em duas categorias: os moderados e os radicais. Os moderados defendem que a mulher possa escolher o aborto em casos de estupro, risco para a mãe ou para criança; os radicais defendem a escolha pelo aborto em qualquer situação. Uma vez cooptados, os moderados tendem ao radicalismo, pois todo e qualquer problema que a mulher alega torna-se relevante. A idéia não é fazer a sociedade aceitar que uma mulher aparentemente insensível e independente tire o filho por indisposição à maternidade, mas tornar qualquer indisposição à maternidade uma patologia amparada e solucionada pelo aborto.

O aborto, é claro, é apenas um dos pontos que interessam aos movimentos pró-choice dessa categoria. É o ponto principal, sem dúvida, pois é a violência extrema, quando dois corpos (o da mulher e da criança) são violentados; os restos fetais, o útero e o órgão sexual invadido resultam dessa escolha. A violência permitida ao outro – dada e oferecida ao outro como direito – se materializa e se transforma em cada feto abortado, em cada mulher mutilada, em cada criança entregue ao estupro nas discussões de teóricos queer sobre o consentimento do sexo para os inocentes, em cada momento onde o ser humano defeituoso é retirado do útero, com a desculpa de que se trata da saúde do feto. Os outros pontos de interesse envolvem a “saúde reprodutiva” da mulher – aulas de educação sexual para crianças, métodos contraceptivos – todos os que envolvem o controle de natalidade, que por definição é eugênico em sua natureza.

A Segregação Racial Americana e o Estado

Pedro Ravazzano
***
A questão racial, nos Estados Unidos da América, é sempre motivo de muita reflexão e discussão, até porque, com razão, a discriminação foi parte freqüente da história americana até meados do século XX. Não obstante, o que muitas pessoas não sabem é a profundidade, assim como a complexidade, dessa problemática. Devemos nos distanciar da ótica dialética, influenciada pelos liberais esquerdistas, que reduz o debate por meio da transformação do branco em opressor e do negro em oprimido. No mundo atual, onde cada vez mais toma força o discurso politicamente correto e onde as mentiras depois de tão repetidas viram verdades, nada melhor do que fazer uma análise sincera e presa aos fatos.

Todas as pessoas tendem a gravitar ao redor de outros indivíduos que tenham níveis de compreensão semelhantes aos seus – isso não era uma particularidade dos brancos americanos. Nos EUA tal postura era – e é - muito visível; diversas etnias construíram um mundo próprio e se desenvolveram integradas com os irmãos. Isso, a priori, não é uma atitude racista nem carrega consigo um espírito discriminatório, não há a intenção de desmerecer o outro, existe simplesmente uma natural empatia entre os indivíduos crescidos na mesma cultura e defensores de mesmos princípios. Em todo o mundo, em toda a história, grupos se formaram através da identificação de pessoas congregadas quer pela raça, renda, religião ou educação. Em terras americanas diversas etnias edificaram estruturas particulares. Isso é algo que se encontra desde sempre nos Estados Unidos – país erguido por peregrinos -, mas que foi intensificado com a chegada de imigrantes. Por exemplo, quando poloneses aportaram em Detroit, vindos para o Novo Mundo a procura de oportunidades, muitos foram os negros que saíram dos bairros populares tomados pelos polacos. A mesma coisa ocorreu quando da chegada de judeus da Europa Oriental na cidade de Chicago; os judeus alemães deixaram o bairro após a ocupação pelos seus irmãos vindos da Rússia. O sociólogo negro, E. Franklin Frazier, disse que dentro das próprias comunidades negras, que também eram formadas através da identificação dos seus membros e da auto-exclusão da sociedade, existiam divisões internas, conseqüências das diferentes rendas, educação e padrões de comportamento, com grupos vivendo em zonas distintas.

As políticas de integração forçada, adotadas pelo Estado americano para obrigar as relações culturais entre brancos e negros, apenas ajudaram no incremento discriminatório. Essas iniciativas governamentais optaram por desconhecer uma característica bem peculiar da sociedade americana; as etnias viviam integradas, elas edificaram um verdadeiro mundo próprio dentro das grandes cidades do país. Isso era perceptível não só entre os brancos, mas entre negros, orientais, latinos, judeus. No caso dos caucasianos ainda havia distinções entre os irlandeses, italianos, poloneses, ingleses etc. Constatamos o autoritarismo do Estado americano; obviamente a derrubada das leis segregacionistas era essencial para a construção de um país fundamentado no espírito de Liberdade pensado pelos Pais Fundadores, entretanto, em oposição a essa identidade americana, obrigar a integração racial – através da ação estatal – foi uma atitude arbitrária que acarretou no agravamento das discussões raciais. A segregação não impedia apenas os negros de freqüentarem bairros brancos, mas brancos de freqüentarem bairros negros. Depois da derrubada dessas leis – que, é claro, acabavam que favoreciam a estrutura branca da sociedade – não houve uma imediata mudança de postura, ao contrário, whites e blacks continuaram mantendo e estimulando o segregacionismo.

O pensador americano, Thomas Sowell, acredita que os programas governamentais, como o busing – que levava crianças negras para escolas brancas e vice-versa – assim como as ações afirmativas e programas sociais em geral, fizeram com os negros americanos confiassem demasiadamente no Estado, na manutenção de uma rede de segurança que impedia a própria motivação individual. O ilustre economista afro-americano ainda vai além, reconhece que essas iniciativas estatais – busing, cotas e leis especiais – apenas ajudaram a alimentar os sentimentos racistas de brancos. Sowell afirma que antes do Civil Rights Act de 1964 a condição do negro na sociedade era cada vez mais revista, com maior aceitação e uma natural integração – e aqui friso a ação sempre zelosa das Igrejas nesse projeto.

O Estado americano, com razão, derrubou as leis segregacionistas escolares em 1954, com isso havia plena liberdade de circulação entre todos os povos que formavam a América, entretanto, ao forçar uma integração racial, em 1972, transportando alunos brancos para escolas negras – que ficavam fora de seus bairros e longe geograficamente – e levando negros para escolas brancas, produziu uma bipolarização étnica e muita má vontade. Além disso, através de políticas sociais, como os subsídios, estimulou artificialmente o trânsito racial, não só retardando a natural e sadia integração como, de maneia obtusa, desconhecendo uma característica corrente dos diversos povos que compõem a América; a formação de bairros e escolas próprias – aqui vale um comentário, se engana quem acha que as escolas negras eram inferiores as brancas, como até pretendeu o tom usado pela Suprema Corte no caso Brown v. Board of Education ("separate educational facilities are inherently unequal.") – que abriu o caminho para a integração racial. Por ironia havia em Washington, perto da Suprema Corte, uma escola all-black que a oitenta anos já produzia uma educação de alta qualidade, inclusive em 1899 já superava duas das três escolas secundárias brancas do distrito, em testes padronizados. Em 1940, no Harlem, o bairro negro de Nova Iorque, tinham escolas que faziam pontuações semelhantes – as vezes maiores/menores - aos dos colégios da classe trabalhadora branca de Lower East Side. No sul do país, onde se concentrava grande parte da população negra e que tinha um sistema educacional inferior – tanto para brancos como para negros – as escolas all-blacks viviam em estado realmente crítico, o que apenas se agravava com a ação organizada de grupos racistas, como o Ku Klux Klan, o braço armado do Partido Democrata na região. De todo o modo, existem hoje escolas só para negros que tem grande sucesso e outras que falham no projeto educativo, assim como existem escolas heterogêneas que falham e outras que tem grande sucesso; a questão racial, o problema da segregação, não conseguiriam explicar.

Aqui ainda vale uma breve recordação. Rosa Parks ficou conhecida por se recusar a ceder seu lugar a uma pessoa branca no ônibus, no Alabama. O que as pessoas não sabem é que essas políticas discriminatórias só se instalaram por conta da ação estatal. Ironicamente, foi o governo que foi chamado para solucionar o problema segregacionista, mas foi o mesmo governo que o estimulou e incitou. Os interesses econômicos são diferentes dos interesses políticos; os proprietários das empresas de ônibus, trens e bondes até poderiam ser racistas, mas nenhum queria perder uma massa de clientes consumidores como os negros. Após o disenfranchisement – a revogação do direito ao voto dos eleitores negros no final do séc. XIX e início do séc. XX - ficou fácil a aprovação de leis de segregação racial, como as leis de Jim Crow. Não obstante, os empresários dos transportes enfrentaram a Justiça durante a elaboração, aprovação e aplicação dessas leis racistas. Tal tática atrasou em anos a execução das leis de Jim Crow em diversos lugares, mas depois de ratificadas muitos foram os homens brancos dos negócios presos e ameaçados por descumprir a ordem; o dinheiro do homem negro era tão bom como o dinheiro do homem branco.

O Estado se encontra no centro do problema; se por um lado foi o governo o responsável pelo estímulo ao segregacionismo, através da aprovação de leis que tolhiam a liberdade do homem negro – leis essas que sofreram com a repulsa de empresários que, ao defender a Livre-Iniciativa, defendiam a legitimidade do cidadão afro-americano. E aqui recordamos da memorável frase de Adam Smith; "não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu "auto-interesse", que pode muito bem ser entendida dentro do contexto abordado – por outro lado, foi o mesmo governo que, querendo derrubar a estrutura discriminatória que havia construído, adotou ações enérgicas e até truculentas ao obrigar a integração por meio do trânsito racial imposto, que não só maculava a liberdade do indivíduo branco e negro de escolher onde morar, onde estudar, como estimulava e incrementava os conflitos raciais – com certeza não era nada agradável ser um jovem branco obrigado a estudar numa escola negra ou ser um jovem negro obrigado a estudar numa escola branca, e tudo por conta dos gracejos do Estado. Peg Smith, uma senhora líder do movimento anti-busing em Charlestown, quando questionada sobre a sua resistência, afirmou: “Eu quero minha liberdade de volta. Eles levaram minha liberdade. Eles me dizem onde meus filhos devem estudar, isso é como viver na Rússia. Depois disso eles vão nos dizer onde devemos fazer compras”. Obviamente, as feministas americanas em nada apoiaram o clamor das mães que se viam impedidas de decidir sobre a educação dos filhos. As mesmas pessoas que comemoravam a decisão do Supremo Tribunal quanto ao “direito de escolha” da mulher em relação ao aborto eram as mesmas que se calavam quando o mesmo Estado revogava o direito da mãe de decidir sobre a educação do filho; de todo o modo, em ambos os casos há o mesmo princípio anti-natural, contrariando o direito intrínseco do homem; o direito a vida e o direito da autoridade familiar. Num encontro de discussão sobre a Equal Rights Amendment (Emenda da Igualdade de Direitos), que contava com a participação de mães anti-busing, uma brava matriarca se levantou e questionou se a ERA garantiria a uma mulher o direito de decidir sobre a educação dos filhos; ela foi convidada a se retirar. Os movimentos anti-busing seguiam o estilo libertário de desobediência civil, em nada se aproximavam de um espírito anti-americano, ao contrário, o discurso estava embebido no princípio tradicional de Liberdade que construiu o país. Infelizmente, como bem frisou Thomas Sowell, a ação violenta do Estado ao obrigar a integração racial apenas favoreceu o racismo na própria sociedade; muitos foram os grupos anti-busing que combinaram perversamente o patriotismo com o estúpido racismo. A cidade de Boston, por exemplo, se transformara num verdadeiro campo de guerra; havia força policial em todos os cantos da cidade, policiais escoltavam ônibus em todas as escolas, detectores de metais eram instalados e soldados patrulhavam até lanchonetes, inclusive cotas foram estipuladas para os policias, incitando a hostilidade racial dentro do sistema. Tudo isso por conta dos caprichos estatais ao obrigar os brancos a freqüentarem escolas e bairros negros e negros a freqüentarem escolas e bairros brancos. Assim disse Kevin White, prefeito de Boston: “As vezes, quando eu olho pela janela, eu vejo Belfast lá fora” – em alusão a capital da Irlanda do Norte que vivia tomada pelo exército por conta dos conflitos civis instaurados; de um lado a maioria protestante que detinha o controle do governo e impedia a ascensão de católicos, e do outro a ação organizada católica que tinha o apoio da República da Irlanda.

A política de integração forçada, busing, destruiu completamente o forte espírito comunitário que havia nos bairros. Antes da adoção dessas ações, pais, professores e estudantes geralmente viviam na mesma comunidade, participavam da mesma igreja e faziam compras no mesmo lugar. Havia mais modelos positivos para as crianças nesses dias. Quando a infra-estrutura da comunidade foi derrubada, quando as crianças foram obrigadas a estudar e viver em escolas e bairros que desconheciam a sua realidade e onde, para piorar, eram tratados como, no mínimo, excentricidades, se perdeu todos esses exemplos que faziam parte do cotidiano do jovem. Wellington Webb, que foi prefeito de Denver, viu o fim do busing como a oportunidade perfeita de reconstruir a vida comunitária; “Tendo de volta as escolas de bairro nós poderemos ajudar a reconstruir as comunidades” Infelizmente a esmagadora maioria das escolas de bairro, essas fechadas com as políticas de anti-segregação forçada, se encontrava em bairros negros, com isso o resgate e retomada de tão benéfica estrutura educacional ficou extremamente prejudicada.

Aqueles que, inebriados com o simplismo dialético, tentam transformar a complexa questão racial numa mera dicotomia entre brancos opressores e negros oprimidos desconhecem a realidade dos fatos. O grande artífice da crise racial nos EUA foi o Estado, tanto num primeiro momento, quando legitimou leis racistas, como posteriormente, ao obrigar a integração forçada. Sem dúvida alguma esse é um período muito triste da história americana, mas que deve ser recordado; a melancolia e o pesar desses tempos devem ser entendidos como reflexos da falta de adesão ao espírito libertário em sua sadia e positiva radicalidade. Quando um país é privado da Liberdade, quando o indivíduo se encontra tolhido e diminuído por conta da força Estatal, abre-se uma lacuna que é ocupada pela ação coercitiva do governo que impõe leis racistas e, em seguida, determina onde deve morar e onde seus filhos devem estudar.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Pobre Danuza Leão

Danuza Leão,

Eu li seu artigo “Falando um pouco de religião”, assumo que não tinha a menor pretensão, foi quase uma leitura acidental. Não sou muito paciente com aqueles que usam argumentos falaciosos, para não dizer mentirosos, contra a Igreja. O problema não é se opor ao catolicismo, todos tem liberdade para tal, mas sim justificar com uma construção totalmente estapafúrdia. A honestidade intelectual deve ser a base de qualquer crítica. Pois bem, antes de mais nada, vale recordar, sou de Salvador, onde estudo Economia na Universidade Federal da Bahia. Provavelmente deve concluir que sendo um católico praticante, sou um jovem totalmente arqueológico e perdido em meio aos ensinamentos "opressores" da Igreja. Que nada! Seu artigo tem vários erros, pretendo pontuá-los; primeiro a senhora diz que a Igreja condena o orgasmo e o prazer sexual entre o casal, mentira, o prazer é de extrema relevância no sexo que, é claro, também deve ter um sentido procriativo, entretanto, como afirmou, não menospreza a necessidade da paixão carnal. Depois a senhora fala das mortificações e penitências, pois bem, nós fazemos pequenos sacrifícios para nos unir ao grande Sacrifício de Cristo e, do mesmo modo, nos aproximar da Caridade, tudo isso é muito louvável.

O que eu achei engraçado do seu artigo é que a senhora pinta o ambiente católico quase como uma sociedade de puritanos ingleses do séc. XVII. A senhora se engana bastante! O catolicismo não tem esse espírito sepulcral, de que tudo é pecado e o pecado se encontra em tudo. Essa sua afirmação é tão sem sentido que até mesmo na Idade Média – que o mundo aprendeu a criticar – os católicos faziam banquetes e festas, bebiam e comiam, enquanto os protestantes puritanos ficavam em suas casas condenando o mundo e afirmando que tudo era motivo de perdição. O mundo não é pecado, o mundo foi criado por Deus, daí que seja bom, o homem, com seus erros, que o corrompe. Um católico precisa ser alegre, afinal o que é saber que Deus Se fez Homem para viver com os homens e pelos homens morrer para salvá-los? Isso é o ápice do Amor de Deus e o ápice da alegria dos homens!

Por fim, a senhora usa um argumento bem mequetrefe. Danuza, eu esperava mais da senhora, juro que esperava. O mundo atual perdeu a noção da arte sagrada, do esplendor de Deus. Hoje o orbe se incomoda com Igrejas de ouro, mas não entende que essas Igrejas só são assim, que os tronos tem pedras preciosas, que os tecidos são os melhores que existem – ah, o Papa não usa Prada, o sapato vermelho é um sapato papal feito de couro, um jornal que fez essa triste referência – porque tudo isso é oferecido ao Senhor, unicamente para Deus. Se o homem pode ofertar um templo de ouro porque construir um templo de latão? Damos nosso máximo em matéria porque é assim que simbolizamos a grandeza da nossa fé. Aqui em Salvador nós temos a Igreja de São Francisco de Assis, a Igreja com maior quantidade de ouro do Brasil. Os franciscanos viviam em total e completa pobreza, mas construíram um templo mais dourado que o próprio raiar do sol, contradição, hipocrisia? Para eles o mais indigno, para Deus o mais esplendoroso!

O mundo moderno se tornou estranho; no Big Brother Brasil os participantes se mortificam para ganhar a liderança, todo mundo aplaude. Para receber um artista conhecido monta-se um banquete e uma festa estrondosa – provavelmente a senhora já foi a uma desas recepções. Religiões orientais são valorizadas, mesmo que caricatamente – o hinduísmo, tão popular hoje em dia, é tão rigoroso quanto o catolicismo quando se trata da castidade. Tudo que a Igreja fala é visto como um absurdo e retrocesso, quando, na verdade, os argumentos usados contra ela que são os verdeiros absurdos.

Sem mais,

Pedro Ravazzano