Retirado do livro "Aventura e Rotina", de Gilberto Freyre
O abade velho dos arredores de Braga é a história principal que nos conta no seu modo simples e bom de ser da sua Igreja e do seu país (um modo que teria encantado Bernanos): a história de um exorcismo que teve de praticar numa criatura de Deus disputada pela demônio. Começa a conversa sobre o assunto com uma pergunta que lhe faço sobre assombrações: nunca aparecera fantasma naquela igreja antiga? O abade nos diz então, todo sinceridade e simplicidade, que fantasma nunca vira nem ali nem em parte alguma. Mas, em certa casa que habitara, ouvira ruídos que depois apurou serem infernais; e provocados por uma certa rapariga em cujo corpo metera-se violento e terrível demônio. Tão terrível que resistira a todo o severo latim do ritual católico de exorcismo. Zombava pela boca da rapariga das palavras sagradas como se zombasse do próprio Deus. Repetia o latim do ritual como se gracejasse com os doutores da Igreja.
Pelo que o bom abade, então ainda moço, decidira enfrentar o inimigo de Deus e da Igreja não apenas como padre católico: também como português. Lutando com ele de corpo a corpo se fosse preciso. E falando-lhe não em latim de seminário mas em português de plebe: rude, grosseiro, tremendo.
Suara o abade em seu combate com o demônio. Gastara contra o inimigo todo o português obsceno que sabia: cobrira-o de palavrões. Até que, sentido o demônio fraquejar, tivera de resolver de repente o problema: para onde ordenar em nome de Deus que fosse o nauseabundo diabo? Para que alma? Viera-lhe então à lembrança certa fotografia que vira das festas do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro; e dessa fotografia a figura de uma negra culatrona, a arrebentar-se nos requebros de um obsceno maxixe. Era a solução. Espécie de solução do mandarim de Eça, mas solução. E para a pobre da negra carioca é que o bom do abade português mandara, talvez freudianamente, que o demônio, vencido por seus palavrões, voasse naquele mesmo instante: “que se metesse no cu daquela negra!”, ordenara com voz já cansada mas ainda tão forte de ministro de Deus que o diabo instantaneamente obedecera, deixando em paz a rapariguinha. Nunca mais lhe voltara ao corpo. Os ruídos estranhos na casa também desapareceram. O exorcismo fora completa vitória, não dele, simples padre de aldeia, mas de Deus Nosso Senhor sobre o demônio, que fora se meter no corpo da negra carioca. Os sacerdotes brasileiros saberiam cumprir o seu dever, expulsando o tinhoso para outras terras.

