quarta-feira, 4 de junho de 2014

O estranho caso do exorcismo português, por Gilberto Freyre


Retirado do livro "Aventura e Rotina", de Gilberto Freyre
O abade velho dos arredores de Braga é a história principal que nos conta no seu modo simples e bom de ser da sua Igreja e do seu país (um modo que teria encantado Bernanos): a história de um exorcismo que teve de praticar numa criatura de Deus disputada pela demônio. Começa a conversa sobre o assunto com uma pergunta que lhe faço sobre assombrações: nunca aparecera fantasma naquela igreja antiga? O abade nos diz então, todo sinceridade e simplicidade, que fantasma nunca vira nem ali nem em parte alguma. Mas, em certa casa que habitara, ouvira ruídos que depois apurou serem infernais; e provocados por uma certa rapariga em cujo corpo metera-se violento e terrível demônio. Tão terrível que resistira a todo o severo latim do ritual católico de exorcismo. Zombava pela boca da rapariga das palavras sagradas como se zombasse do próprio Deus. Repetia o latim do ritual como se gracejasse com os doutores da Igreja.
Pelo que o bom abade, então ainda moço, decidira enfrentar o inimigo de Deus e da Igreja não apenas como padre católico: também como português. Lutando com ele de corpo a corpo se fosse preciso. E falando-lhe não em latim de seminário mas em português de plebe: rude, grosseiro, tremendo.
Suara o abade em seu combate com o demônio. Gastara contra o inimigo todo o português obsceno que sabia: cobrira-o de palavrões. Até que, sentido o demônio fraquejar, tivera de resolver de repente o problema: para onde ordenar em nome de Deus que fosse o nauseabundo diabo? Para que alma? Viera-lhe então à lembrança certa fotografia que vira das festas do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro; e dessa fotografia a figura de uma negra culatrona, a arrebentar-se nos requebros de um obsceno maxixe. Era a solução. Espécie de solução do mandarim de Eça, mas solução. E para a pobre da negra carioca é que o bom do abade português mandara, talvez  freudianamente, que o demônio, vencido por seus palavrões, voasse naquele mesmo instante: “que se metesse no cu daquela negra!”, ordenara com voz já cansada mas ainda tão forte de ministro de Deus que o diabo instantaneamente obedecera, deixando em paz a rapariguinha. Nunca mais lhe voltara ao corpo. Os ruídos estranhos na casa também desapareceram. O exorcismo fora completa vitória, não dele, simples padre de aldeia, mas de Deus Nosso Senhor sobre o demônio, que fora se meter no corpo da negra carioca. Os sacerdotes brasileiros saberiam cumprir o seu dever, expulsando o tinhoso para outras terras.

terça-feira, 3 de junho de 2014

A carta de um Santo Mártir


Carta escrita por São Mathias Mulumba ao Pe. Leon Livinhac M.Afr. (futuramente Bispo e Superior Geral dos Missionários da África). Kalemba, como também era conhecido, era o mais velho dos Mártires de Uganda, com cerca de 50 anos. Ele foi batizado no dia 28 de maio de 1882, pelo Pe. Girault M.Afr. O seu martírio foi o mais cruel e longo de todos, com três dias de torturas incessantes. Seus membros foram cortados de seu corpo, tiras de carne foram arrancadas de suas costas e deixado para morrer em Old Kampala.

Meu pai sempre acreditou que os Bagandas não tinham a verdade, então a procurava em seu coração. Ele mencionou tudo isso para mim, e antes de sua morte disse-me que algum dia homens viriam ensinar-nos o caminho correto.
Essas palavras causaram uma profunda impressão em mim e, quando a chegada de alguns estrangeiros foi anunciada, eu os observei e tentei entrar em contato com eles, dizendo a mim mesmo que ali estivessem, talvez, os homens anunciados pelo meu pai. Destarte, associei-me aos árabes, os primeiros que chegaram no reino de Suna. A sua crença pareceu-me superior às nossas superstições. Fui instruído e, juntamente com um número de bagandas, abracei o islamismo. Mutesa, querendo agradar o Sultão de Zanzibar, cujo poder e riqueza dava uma exagerada importância, também declarou que queria se tornar muçulmano. Ordens foram dadas para a construção de mesquitas em todo o país. Por um curto período, parecia que toda a nação iria aderir à religião do falso profeta, mas mudando sua idéia repentinamente, Mutesa deu ordens para exterminar todos os que tinham se tornado muçulmanos. Um bom número pereceu no massacre, duzentos ou trezentos organizaram-se para fugir e, com as caravanas árabes, foram para a ilha de Zanzibar. Eu consegui escapar, juntamente com alguns outros, ocultando o fato da minha conversão e continuando a passar-me por amigo dos nossos deuses, ainda que em segredo eu continuasse fiel às práticas do islamismo.
Assim estavam as coisas até a chegada dos protestantes. Mutesa os recebeu muito bem: ele lia o livro que trouxeram na audiência pública e parecia inclinado para essa religião, que declarou ser muito superior àquela dos árabes. Eu perguntei a mim mesmo se não tinha cometido um erro, se talvez os recém-chegados não eram os verdadeiros mensageiros de Deus. Fui visitá-los frequentemente e participava de suas instruções. Pareceu-me que os seus ensinamentos eram uma melhoria daquilo que me foi ensinado anteriormente. Destarte, abandonei o islamismo, porém sem pedir o batismo.
Muitos meses se passaram até a chegada de Mapèra (Pe. Lourdel M.Afr). Meu instrutor, Mackay, teve o cuidado de dizer-me que aquele homem branco que acabava de chegar não conhecia a verdade. Ele chamava a sua religião de “idolatria da mulher”; eles adoram, dizia, a Virgem Maria. Ele também me advertiu para evitá-los com muita precaução. Eu, assim, coloquei-me longe de vocês e, provavelmente, nunca teria colocado os meus pés em sua moradia se o meu chefe não tivesse ordenado  que supervisionasse a construção de uma das suas casas. Mas Deus mostrou o seu amor por mim.
A primeira vez em que vi vocês de perto fiquei muito impressionado. Ademais, continuava a observar as suas orações e o trato com o povo. Destarte, vendo a sua bondade, eu disse a mim mesmo, ‘Como pessoas que parecem ser tão boas podem ser mensageiras do Mal?”
Eu conversei com aqueles que estavam sendo instruídos em suas casas e os questionei a respeito da doutrina que professavam.  O que eles me disseram foi justamente o contrário daquilo que Mackay havia assegurado a mim. Assim, eu me senti fortemente impulsionado a participar de suas instruções catequéticas. Deus concedeu-me a graça da entender que vocês ensinavam a verdade e que eram realmente os homens de Deus que meu pai havia falado. Desde então, eu nunca tive uma mínima dúvida a respeito da verdade da sua religião e me sinto completamente feliz.
Retirado e traduzido do livro "African Holocaust: The Story of the Uganda Martyrs", de J. F. Faupel