
Pedro Ravazzano
A Teologia da Libertação (TL) tem algo de bom? Existe alguma faceta própria dela que seja realmente digna de ser valorizada? Essas são perguntas que, muitas vezes, passam longe da cabeça da maioria dos católicos comprometidos e conscientes da problemática da Igreja na América Latina nos últimos trinta anos. Entretanto, são questionamentos que devem nos levar a buscar aquilo que é dado pela realidade, isto é, abrir mão de visões distorcidas, quiçá românticas do que seja o cristianismo na sua mais profunda natureza. Desse modo, compreendendo de forma honesta o desenrolar desse pensamento teológico é possível construir uma crítica sincera e honesta.
A Teologia da Libertação entendeu corretamente a importância real do cristianismo na vida concreta do homem. Jesus deixa de ser apenas uma figura ideal, sem objetividade efetiva na existência do cristão, e passa a ter uma função essencial já que Ele se torna o transformador e catalisador do destino mesmo deste. Esta característica é marcante em todos os pressupostos que permeiam os paradigmas da Teologia da Libertação. Entretanto, a grande virada “libertadora” foi a sua grande decepção, isto é, o uso da leitura marxista.
O marxismo enquanto método fundamental da interpretação da realidade, como pensado pelos grandes arautos da TL, levou de modo sistemático ao fim do olhar transcendente diante do mundo. Ou seja, se Cristo era presença na existência mais íntima e plena do homem, Ele certamente humanizava-se de tal modo que perdia a Sua divindade. Essa crescente descristianização de Cristo é acompanhada da desconstrução da imagem do Jesus real, isto é, do Deus feito homem, restando apenas um famigerado “Jesus histórico”, morto por ser uma ameaça a ordem social estabelecida. Assim, por exemplo, Pe. Ignacio Ellacuría, um dos célebres adeptos deste pensamento, chega a defender, em nome da historicidade de Cristo, o Reino de Deus imanente, construído concretamente na luta contra o mundo estruturalmente contraditório. Nessa leitura a fé se torna comprometimento político e viver a experiência cristã se transforma em batalhar pela efetivação do ideal. Justamente na continuidade lógica desse raciocínio, Sacerdotes como Manuel Pérez Martínez e Camilo Torres Restrepo pegaram em armas e comandaram o Exército de Libertação Nacional, uma das mais violentas guerrilhas colombianas.
Os discursos “libertadores”, embebidos no materialismo histórico, não enxergavam o povo de Deus como homens e mulheres que carregavam uma riqueza própria. Assim, o natural espaço da individualidade era esmagado pela massificação do real. Enquanto Cristo buscava um relacionamento pessoal com cada homem, a Teologia da Libertação se fundamentava nos paradigmas coletivistas onde a realidade mesma da existência era transformada em meros reflexos das estruturas de poder. Por mais apocalípticos que soassem as traduções que a Teologia da Libertação fazia dos clamores do povo estas não passavam, em sua maioria, de simplórios devaneios ideológicos. Dizer, por exemplo, que a vida dos camponeses católicos do interior do Brasil só iria melhorar quando os modelos burgueses de domínio fossem destruídos poderia soar até profundamente real e acertado, entretanto isso seria uma saída muito mais cômoda – na mesma proporção que falsa – do que assumir a gravidade dos problemas pessoais e que concernem às experiências concretas e aparentemente banais de Dona Maria e Seu Zé.
Em nome de uma compreensão até correta da presença de Cristo junto ao homem na realidade a Teologia da Libertação criou o ideal e, em nome desse mesmo ideal, pretendeu modificar a realidade. Usando a chave de leitura dada por Eric Voegelin podemos então compreender que o abandono da realidade, a primeira, surge com a estruturação da segunda realidade, mediante um sistema ideológico que abarca absolutamente tudo. Como fruto desse processo surgem homens que não vivem mais na realidade, mas sim numa falsa imagem desta. Nascem, então, Padres que, em nome de Cristo, pegam em armas e criam guerrilhas. Não há mais cristianismo, resta apenas a paixão da ideologia!
*Na foto Pe. Camilos Torres Restrepo

