sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O real e o ideal na Teologia da Libertação

Pedro Ravazzano

A Teologia da Libertação (TL) tem algo de bom? Existe alguma faceta própria dela que seja realmente digna de ser valorizada? Essas são perguntas que, muitas vezes, passam longe da cabeça da maioria dos católicos comprometidos e conscientes da problemática da Igreja na América Latina nos últimos trinta anos. Entretanto, são questionamentos que devem nos levar a buscar aquilo que é dado pela realidade, isto é, abrir mão de visões distorcidas, quiçá românticas do que seja o cristianismo na sua mais profunda natureza. Desse modo, compreendendo de forma honesta o desenrolar desse pensamento teológico é possível construir uma crítica sincera e honesta.

A Teologia da Libertação entendeu corretamente a importância real do cristianismo na vida concreta do homem. Jesus deixa de ser apenas uma figura ideal, sem objetividade efetiva na existência do cristão, e passa a ter uma função essencial já que Ele se torna o transformador e catalisador do destino mesmo deste. Esta característica é marcante em todos os pressupostos que permeiam os paradigmas da Teologia da Libertação. Entretanto, a grande virada “libertadora” foi a sua grande decepção, isto é, o uso da leitura marxista.

O marxismo enquanto método fundamental da interpretação da realidade, como pensado pelos grandes arautos da TL, levou de modo sistemático ao fim do olhar transcendente diante do mundo. Ou seja, se Cristo era presença na existência mais íntima e plena do homem, Ele certamente humanizava-se de tal modo que perdia a Sua divindade. Essa crescente descristianização de Cristo é acompanhada da desconstrução da imagem do Jesus real, isto é, do Deus feito homem, restando apenas um famigerado “Jesus histórico”, morto por ser uma ameaça a ordem social estabelecida. Assim, por exemplo, Pe. Ignacio Ellacuría, um dos célebres adeptos deste pensamento, chega a defender, em nome da historicidade de Cristo, o Reino de Deus imanente, construído concretamente na luta contra o mundo estruturalmente contraditório. Nessa leitura a fé se torna comprometimento político e viver a experiência cristã se transforma em batalhar pela efetivação do ideal. Justamente na continuidade lógica desse raciocínio, Sacerdotes como Manuel Pérez Martínez e Camilo Torres Restrepo pegaram em armas e comandaram o Exército de Libertação Nacional, uma das mais violentas guerrilhas colombianas.

Os discursos “libertadores”, embebidos no materialismo histórico, não enxergavam o povo de Deus como homens e mulheres que carregavam uma riqueza própria. Assim, o natural espaço da individualidade era esmagado pela massificação do real. Enquanto Cristo buscava um relacionamento pessoal com cada homem, a Teologia da Libertação se fundamentava nos paradigmas coletivistas onde a realidade mesma da existência era transformada em meros reflexos das estruturas de poder. Por mais apocalípticos que soassem as traduções que a Teologia da Libertação fazia dos clamores do povo estas não passavam, em sua maioria, de simplórios devaneios ideológicos. Dizer, por exemplo, que a vida dos camponeses católicos do interior do Brasil só iria melhorar quando os modelos burgueses de domínio fossem destruídos poderia soar até profundamente real e acertado, entretanto isso seria uma saída muito mais cômoda – na mesma proporção que falsa – do que assumir a gravidade dos problemas pessoais e que concernem às experiências concretas e aparentemente banais de Dona Maria e Seu Zé.

Em nome de uma compreensão até correta da presença de Cristo junto ao homem na realidade a Teologia da Libertação criou o ideal e, em nome desse mesmo ideal, pretendeu modificar a realidade. Usando a chave de leitura dada por Eric Voegelin podemos então compreender que o abandono da realidade, a primeira, surge com a estruturação da segunda realidade, mediante um sistema ideológico que abarca absolutamente tudo. Como fruto desse processo surgem homens que não vivem mais na realidade, mas sim numa falsa imagem desta. Nascem, então, Padres que, em nome de Cristo, pegam em armas e criam guerrilhas. Não há mais cristianismo, resta apenas a paixão da ideologia!

*Na foto Pe. Camilos Torres Restrepo

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O jovem alienígena e alguns católicos

Pedro Ravazzano

Um jovem alienígena marciano cai na terra e em seus tempos livres acessa a rede mundial de computadores. Lá, então, ele conhece alguns terráqueos que, ainda sendo separados por questões sociais, raciais e geográficas, se apresentam todos como cristãos católicos, membros de uma tal Igreja Católica Apostólica Romana. O nosso caríssimo E.T, que chamaremos de Zezinho para proteger o seu anonimato, como um bom estudioso dos povos atrasados de outras galáxias, resolve se inteirar a respeito do que estes católicos professam.

Em conversas com alguns jovens humanos o viajante estelar toma contato com um idioma exótico chamado latim. Ainda que a maioria dos atuais habitantes desconheça esta língua e os poucos que gostam sequer saibam usá-la, o certo é que para alguns grupos entre os católicos que conheceu este idioma exerce uma atração irresistível, ele acredita que seja reflexo de algum poder mental. Em seguida mandaram que o nosso querido E.T fosse num sebo – assim é como os atrasados humanos chamam lojas que vendem livros, algo muito rudimentar, diga-se de passagem - para arranjar um breviário, fundamental para que ele acompanhasse aquilo que os habitantes terráqueos nomeiam de Missa Tridentina. Ele ainda não entendeu o que seria propriamente isso, mas soube que tinha algo relacionado com a sua condenação, almas, fogo do inferno, redenção, sacrifício incruento da cruz e um homezinho de costas – esta última parte é muito importante para os humanos, percebera rapidamente o marciano.

Zezinho, então, continuando a sua investigação, se aproximou de outros jovens católicos, mas foi seriamente repreendido pelos primeiros que conheceu. Estes acusaram os novos amigos do extraterrestre de serem modernistas. O nosso estimado E.T não compreendeu muito bem o que seria o modernismo, concluiu que tivesse algo a ver com bom humor, calças jeans e cervejas. Mantendo a sua proximidade com os católicos, descobriu que deveria rapidamente mudar os seus indecorosos trajes extra-planetários; o seu pescoço estava exposto e poderia ser razão do pecado de delicadas moças que só saiam de suas casas às 18:20 para tomarem banho de sol acompanhadas pelos seus irmãos e esposos e vestidas com longos pedaços de tecido.

Persistindo na sua investigação e ganhando a confiança dos seus novos companheiros, Zezinho conseguiu ser iniciado nos sumos mistérios. Recebeu em suas mãos um exemplar do grande livro que os humanos denominavam de “Suma Teológica”. O seu uso pareceu um pouco esquisito. Quase todos a citavam, mas poucos eram os que de fato a conheciam. Em seguida recebeu uma cartilha de recomendações que abarcavam quase todos os aspectos do ser. Deveria tradicionalizar os seus gostos musicais, artísticos, visuais e devocionais, do contrário seria grosseiramente moderno para acompanhar os encontros em que debatiam as multifacetadas colorações douradas usadas por Fra Angelico em suas obras ou a indecorosa sensualidade contida nas telas do barroco tardio do noroeste dos Países Baixos.

O jovem E.T estava achando interessante, ainda que exótica, essa religião humana. Contudo se assustou quando descobriu que já organizavam uma “Cruzada do séc. XXI; Per Conversionem Marcianorum et Hereticorum Extraplanetaria Contritio”. Foi aí que soube que tais católicos o chamavam de herege e servo de Satanás, o que não demorou a perceber que se tratavam de adjetivos nada positivos tendo em vista as caras de repulsa que os acompanhavam quando proferiam. Zezinho, portanto, temendo a sua segurança física parte para casa acreditando que os católicos não passavam de humanos mal humorados que viviam uma religião tão chata quanto eles próprios.

Ah, quando o nosso viajante estelar estava pronto para partir, ouviu alguém gritar de longe; “Fica com Deus, que Cristo o abençoe”. Não entendeu muito bem o que essa amistosa despedida queria dizer, “seria Cristo o Deus dos humanos?!”, pensou. Acabou declinado desse mesmo pensamento, afinal convivera com os carrancudos católicos e tal nome jamais havia sido citado, muito mais de modo tão cordial.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A crise da fidelidade fundacional


Pedro Ravazzano

As Ordens e Congregações religiosas vêm sofrendo com uma grave crise não apenas vocacional, mas estrutural. O número de religiosos é cada vez mais escasso e os conventos e mosteiros cada vez mais se aproximam da falência. Nessa problemática se destaca, contudo, a desconstrução da figura dos fundadores, quase sempre esquecidos ou ofuscados em meio a uma radical contextualização das suas vidas e ensinamentos.

Os carismas apresentados por Deus aos fundadores são vivos e dinâmicos no seio da Igreja. Obviamente não estão fechados dentro dos limites históricos e culturais próprios da época da fundação. Não obstante, na essência de qualquer família religiosa deve haver a vivência sincera da espiritualidade apontada pelo Espírito Santo. Os fundadores, assim, são exemplos claros e objetivos do modo de experimentar o carisma. Ademais, os seus ditames apontam o norte da vida comunitária reunida na proposta fundacional e “precisamente nessa fidelidade à inspiração dos fundadores e fundadoras, dom do Espírito Santo, se descobrem mais facilmente e se revivem com maior fervor os elementos essenciais da vida consagrada.” (Vita Consecrata)

Infelizmente, com a crise pós-Vaticano II, fruto da errônea compreensão dos documentos conciliares, as Congregações e Ordens buscaram, num grande afã, a atualização diante das necessidades do mundo moderno. Nesse processo, além de hábitos arrancados, de devoções mutiladas e de apostolados deformados, também se encontraram os fundadores renegados. A famigerada contextualização, partindo de leituras imprecisas, os transformaram em idéias vagas, sem qualquer objetividade concreta. As suas vidas exemplares e os seus ensinamentos tornaram-se escravos do tempo, presos ao momento histórico preciso e sem qualquer influência na existência real dos seus filhos “modernos”. Portanto, opõem-se claramente ao que fora dito na exortação apostólica pós-sinodal Vita Consecrata, que diz que são os fundadores “exemplos a que as pessoas consagradas devem constantemente fazer referência, para resistirem aos impulsos centrífugos e desagregadores, hoje particularmente activos.”

A relativização mesma do legado dos fundadores é reflexo da anterior entrada de princípios estranhos na mentalidade cristã. A Igreja, até como herdeira do humanismo clássico, sempre compreendeu o saber como transmissão e expansão fundamentado na tradição recebida e comunicada, algo totalmente diverso da razão utilitarista e técnica atual. Contudo, nesse processo crítico os carismas e todo o legado fundacional padeceram com a obrigatoriedade de adesão às “necessidades dos tempos”, convertidos numa práxis difusa ostentada esta, por sua vez, através de uma leitura horizontal da realidade cristã e da linguagem vazia e desespiritualizada muito similar à novilíngua orwelliana.

A Vita Consecrata diz que “nos fundadores e fundadoras, aparece sempre vivo o sentido da Igreja, que se manifesta na sua participação plena da vida eclesial em todas as suas dimensões e na pronta obediência aos Pastores, especialmente ao Romano Pontífice”. Entretanto a atualizada vida religiosa, influenciada por teologias estranhas que pretendem polarizar, através da dialética moderna, a Igreja institucional e hierárquica do povo de Deus romanticamente idealizado, nivela todos os carismas a uma práxis “libertadora”, desprovidos de identidade e relação direta com a experiência íntima do fundador. Não obstante, ainda em meio a esse cenário, devemos ter em mente a importância fundamental da vida religiosa na manutenção e expansão da fé não só no passado, mas como no presente e no futuro. Desse modo, repetindo as palavras do Beato João Paulo II, sabemos que “a vida consagrada, profundamente arreigada nos exemplos e ensinamentos de Cristo Senhor, é um dom de Deus Pai à sua Igreja, por meio do Espírito.”