segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Quando os sedevacantistas se tornam até "coerentes"...

Pedro Ravazzano

O radical-tradicionalismo tem uma lógica muito peculiar que é fruto da desconstrução de paradigmas fundamentais da fé. Não é meu interesse, entretanto, refletir a respeito do conteúdo das recorrentes afirmações, mas sim mostrar como se desenvolve o pensamento que tende, naturalmente, à delirante pretensão.

A Igreja objetivamente, isto é, por meio de documentos, pronunciamentos oficiais, encíclicas etc, aquilo que realmente indica a sua posição, defende, estimula e reverencia realidades consideradas por muitos radicais-tradicionalistas como heréticas. Obviamente, comparam a própria Igreja presente com o ensinamento de outrora que consideram ter sido vilipendiado. Entretanto, afirmando que a Igreja atual errou e contradisse o que fora defendido em outros tempos afirmariam, na conseqüência lógica, ou que ela é falível – o que seria um completo absurdo do ponto de vista da fé - ou então recorreriam aos argumentos sedevancatistas que, nesse ponto, são bem lógicos e coerentes partindo dessas – falsas – premissas. Contudo, lançando mão de falácias eclesiológicas e malabarismos teológicos, preferem dizer que a Igreja é e não é formalmente, ou seja, que ainda que a Igreja, objetivamente, tenha respaldado “heresias” – dentro do argumento “rad-trad” em questão – não fora a Igreja que as respaldou, mas sim esta entidade modernista. Desse modo, é como se a verdadeira Igreja fosse uma idéia vaga, rarefeita, sem concretude e objetividade, supra-institucional conseqüentemente, onde os seus ditames e ensinamentos se tornam livremente interpretados.

Ademais, aparece o segundo obstáculo; o Papa. O Santo Padre defende Movimentos “heterodoxos”, participa de encontros ecumênicos, exalta ardorosamente o Concílio Vaticano II e não parece ter interesse em celebrar publicamente a forma extraordinária do rito romano. Entretanto, esse é o mesmo Sumo Pontífice que liberou a Missa Tridentina, retirou a excomunhão dos Bispos cismáticos lefebvristas e combate a mentalidade secularizante da modernidade. Ora, como conciliar, sobre a mesma autoridade, portanto gozando do mesmo poder legítimo, duas realidades consideradas, pelos “rad-trads”, tão adversas? Apela-se, então, para o modernismo papal, isto é, acusa-se o Santo Padre de heresia para assim, conseqüentemente, poder discernir individualmente o que é passível de seguimento, ou, então, afirma a sua ignorância, ou seja, que não tem o conhecimento necessário para enxergar a cristalina “heresia”, o óbvio “erro” e a evidente “apostasia” daquilo que defende.

No último estágio aparece a pretensão com o surgimento do direito de se arrogar o verdadeiro e real entendedor da Tradição e do Magistério. A Igreja que se opõe a “mim” na verdade não é a Igreja, mas sim um amontoado de modernistas, o Papa que parece se colocar do outro lado daquilo que “eu” defendo ou é herege ou, então, não entende muito bem os documentos escritos pelos seus antecessores. Alegam, contudo, que os fiéis, pautados na fé e na razão, têm o dever moral de fazer aquilo que Roma não mais realiza; alertar para as heresias. O peculiar é que, para isso, partem da livre interpretação, totalmente pessoal, no máximo fundada em certos teólogos, dos documentos da Igreja e do que entendem por Tradição. Desse modo, como os protestantes, dentro do radical-tradicionalismo se encontra uma multiplicidade de pareceres. O interessante dessa dinâmica é o delírio, ou seja, considerar, simplesmente considerar, que, por exemplo, Joseph Ratzinger, não leu ou não compreendeu aquilo que é “óbvio” – na visão “rad-trad” friso – ou, então, simplesmente reduzir toda a discussão na acusação de modernismo, o que garante certa tranqüilidade em escolher o que deve ser seguido – quando o Santo Padre defende a liberdade religiosa certamente é modernista, quando o Santo Padre libera a “forma extraordinária” certamente está em comunhão com os ensinamentos “de sempre”. Ademais, para gozar de uma pequena segurança institucional apelam para autoridades paralelas dentro do universo eclesial para assim mostrar comunhão.

Portanto, é inegável a forma pretensiosa com que se outorgam o direito de, abertamente, contradizer a Igreja e o Santo Padre, enquanto se consideram, ao mesmo tempo, fiéis à Igreja e devotos ao Santo Padre, sem sequer pensar ou na possibilidade de estarem errados ou, pelo menos, na consideração de dar um “voto” de confiança àquela que é a mãe de todos os cristãos; a Igreja.

7 comentários:

Anônimo disse...

B16 fez uns pequenos agrados aos ditos tradicionalistas mas cada dia faz mais besteiras e pronunciamentos dúbios. Agora por conta de uma ou outra atitude mais "tradicional" os SV são incoerentes em não acatá-lo como baluarte da fé católica?

Só basta uma gota de veneno e estraga-se toda uma garrafa do melhor vinho. Qualquer um pode aparentar ser o mais santo de todos e praticar diversas coisas tradicionais, mas se negar um só dogma, por menor que seja, ou professar uma só heresia, este indivíduo está de fora da Igreja. Da mesma forma que uma vida de santidade pode ser arruinada por um só pecado mortal. No cristianismo o que não falta é culpa.

Anônimo disse...

Pedro,

Existem aqueles sedevacantistas "pero no mucho" dizem:
- Nosso luta é contra o CVII, contra a missa nova e em defesa do Papa.
Acredite se quiser !

abraços,
lucas

Max Aizner disse...

Post ... necessário.

Mídia Católica disse...

"Entretanto, afirmando que a Igreja atual errou e contradisse o que fora defendido em outros tempos afirmariam, na conseqüência lógica, ou que ela é falível – o que seria um completo absurdo do ponto de vista da fé - ou então recorreriam aos argumentos sedevancatistas que, nesse ponto, são bem lógicos e coerentes partindo dessas – falsas – premissas."

Os sedevacantistas não afirmam que a "Igreja atual" errou. A Igreja não erra. Quem erra são homens e não a Igreja enquanto instituição. E os homens não são inerrantes, a menos que sejam papas se pronunciando ex cathedra sobre fé e moral. Entretanto, não é simplesmente pelo fato de uma pessoa fantasiada de bispo ou papa que realmente parecem o que representam. Um Rei Momo não é um Rei. Da mesma forma Bento XVI não é papa. Pouco importa se uma pessoa porte paramntos eclesiásticos se cometem atos
públicos de heresia ou apostasia que saltam aos olhos. Aliás, isso é observável no seu blog em seu engajamento ao liberalismo econômico e capitalismo, que são grosseiras heresias condenadas pela doutrina social da Igreja. O que importa para os assim-chamados "católicos" não-sedevacantistas é aquilo que parece e não aquilo que é. Se o papa vai rezar com heréticos e entra numa sinagoga está tudo ok. Se ele defende a liberdade de religião e demais heresias do Concílio do Vaticano II também está tudo ok. Se ele flerta com o evolucionismo e declara que os judeus não precisam ser convertidos e que já estão salvos, também está tudo ok. Afinal de contas, vocês, "católicos" não-sedevacantistas, não ligam para a coerência, e a heterodoxia de seus prelados pouco importa. Gostam mesmo é de se iludir com as aparências...

Mídia Católica disse...

A propósito, duvido muito que publique meu comentário...

Mídia Católica disse...

Continuando...

No último estágio aparece a pretensão com o surgimento do direito de se arrogar o verdadeiro e real entendedor da Tradição e do Magistério. A Igreja que se opõe a “mim” na verdade não é a Igreja, mas sim um amontoado de modernistas, o Papa que parece se colocar do outro lado daquilo que “eu” defendo ou é herege ou, então, não entende muito bem os documentos escritos pelos seus antecessores.

Se este tipo de lógica realmente vingar, então ninguém, absolutamente ninguém, pode julgar quem quer que seja como um herege público, por mais que esta pessoa promova escândalos, já que dependeria de um pronunciamento oficial da hierarquia visível da "Igreja" que, sabemos, não está nem aí para a ortodoxia da doutrina. É o mesmo absurdo raciocinio de "não julgar". "Não se deve julgar", dizem os desinformados. Assim, os "papas" do Vaticano II não podem ser julgados factualmente, pois o argumento é que os sedevacantistas não se podem arrogar no "direito de se arrogar o verdadeiro e real entendedor da Tradição e do Magistério", como exposto pelas suas próprias palavras. Ora, se os católicos não podem julgar factualmente os hereges - entre os quais falsos papas - eles deverão obrigatoriamente comungar das mesmas grosseiras heresias que esse falsos papas dizem, como por exemplo a de que "os judeus já estão salvos e não precisam ser convertidos". É a mesma lógica absurda de dizer que os papas e o colégio sacerdotal estão sem pecado pois não podem ser formalmente julgados, muito embora os fatos testemunhem de forma totalmente contrária. Pela sua lógica, São João Batista não poderia ter julgados o fariseus, pois eram a hierarquia visível. Como se vê, pela sua lógica, todas as leis da Igreja viram letra morta diante de um papa pecador.

sdgsdg disse...

Não sou sedevacantista, mas achei os comentários acima coerentes.

E você Pedro, é muito burro.

O problema do Vaticano II existe. As heresias dele existem, claras como água.

É muita pretensão sua escrever sendo tão ignorante.