
Pedro Ravazzano
A comemoração do Ano Novo sempre me pareceu emblemática. De fato é interessante tirar um momento para avaliar os frutos colhidos durante o tempo que passou, contudo o que parece é que o homem se esforça para nutrir a crença gnóstica de que o novo ano representa um novo tempo. O cristianismo, por sua vez, rompeu com qualquer noção cíclica das eras, inaugurou, isto sim, o tempo enquanto realidade progressiva e contínua. O homem é chamado a contemplar a realidade e transformar-se além dos marcos que são colocados.
A crença popular, ainda que não tenha um objetivo pressuposto gnóstico, parece que reflete certa mentalidade obscura e ultrapassada. O novo ano é um novo tempo, ou melhor, o tempo das mudanças e das reformulações. Obviamente não há nenhuma imoralidade em usar tais festejos como saudáveis pretextos para refazer as prioridades e repensar os sonhos. Entretanto, o preocupante é saber que o homem, esmagado pela complexidade do mundo materialista atual, se encontra impossibilitado de refazer-se conscientemente no hoje. A grande sacada do Réveillon é o tempo universal que a sociedade concede a si mesma para festejar o ano que nasce.
Não obstante, o então 2012 não difere em nada do velho 2011. Trata-se do mesmo mundo com os mesmos problemas e do mesmo homem inserido na mesma realidade. Infelizmente o Novo Ano se transforma em Ano Novo e, nessa crença quase gnóstica de um tempo zerado, o homem sequer consegue confrontar-se com si mesmo. Sustenta-se, contudo, na vã confiança de que os tempos que se iniciam carregam o vigor do renascimento. Não! Se algo deveria ser comemorado não seria o tempo, mas sim o homem, entretanto este não precisa dos limites do calendário para refletir sobre o sentido da existência.
Um comentário:
Olá, Pedro, tudo bem?
Vc pode indicar um artigo que fale um pouco mais sobre a parte em que vc fala que o cristianismo rompeu com a noção ciclica de eras?
Obrigado
Maurício
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