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terça-feira, 15 de setembro de 2009

Entrevista do Acarajé Conservador à Revista Lupa - Facom - Ufba

Segue a entrevista que o Grupo de Estudos do Pensamento Conservador deu à Revista Eletrônica Lupa, mantida pela Faculdade de Comunicação da Ufba, e que se encontra no link. A entrevista foi dada no dia 04 de setembro de 2009, no próprio campus da Universidade.

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Por Rodrigo Aguiar em setembro 14th, 2009

A Lupa Digital entrevistou a quase totalidade dos integrantes do Grupo de Estudos do Pensamento Conservador. Há cerca de um ano, eles mantêm o blog Acarajé Conservador. Confira abaixo os trechos mais importantes do bate papo com Pedro Ravazzano, Ricardo Almeida, Fabrício Soares, Edson de Oliveira, Vinícius Mascarenhas e Vladimir Lachance.

LUPA -Afinal de contas, o que é ser um conservador?

Ricardo Almeida – Conservadorismo é, basicamente, uma vertente política que toma a existência da tradição como um dado positivo. Agora, você tem uma variabilidade muito grande: há conservadores de vertente monarquista, outros são conservadores “liberais”. Todas as vertentes partem da idéia de que se deve reportar a essa tradição, porque ela possui um conhecimento, uma sabedoria que transcende os indivíduos e pode ser acolhida como um cabedal de informações importantes.

L - No texto “Os Dez Princípios Conservadores”, do Russel Kirk, ele defende que o conservadorismo não é propriamente uma ideologia e sim uma tendência, uma disposição, um caráter. Faz sentido falar em uma ideologia conservadora?

Ricardo Almeida – O termo ideologia sugere idéias que são alheias ao conservadorismo. Quando Marx emprega o termo ideologia, ele o faz para designar um conjunto de proposições teóricas que encobrem um determinado interesse de classe, que está ligado a essas proposições. Os conservadores não partem dessa idéia, porque acreditam que, em primeiro lugar, uma teoria pode ser julgada apenas pelo seu próprio valor, independente de qualquer associação política, econômica ou social. Em segundo lugar, nem sempre, aliás muito frequentemente, um indivíduo que defende o conservadorismo não pertence às classes dominantes nem tem nenhum interesse econômico.

L - Frequentemente, os conservadores são acusados de serem intolerantes. Ainda nos “Dez Princípios”, o Russel Kirk fala no princípio da diversidade. Queria que algum de vocês comentasse sobre isso.

Vinícius Mascarenhas – Eu penso que as pessoas confundem muitas vezes o termo “conservador” com palavras que são utilizadas no senso comum. Por exemplo, as pessoas costumam dizer que é conservador qualquer coisa que seja intolerante. Então, o raciocínio é “se é intolerante, é conservador” e não “os conservadores são intolerantes”. Tudo que eles acham ruim chamam de “conservador” ou “de direita”, de maneira pejorativa. Agora, do ponto de vista que o Russel Kirk usa o termo “conservador”, é muito natural falar em diversidade, sobretudo partindo da tradição norte-americana, a qual ele é ligado. Pode-se falar também em pluralismo, que é uma abordagem do filósofo Michael Novak. Então, o conservadorismo não está fechado e o nosso grupo é uma prova disso. Temos pessoas da TFP [Tradição, Família e Propriedade], como é o caso do Sr. Edson. Temos pessoas que não são de religião alguma, tem outros que…
Pedro Ravazzano – São de todas. (risos)

*O grupo faz referência ao fato de Ricardo ser adepto da Filosofia Perene.

Edson de Oliveira – Muitas vezes, as pessoas criticam, por exemplo, que o Papa condene o preservativo e o chamam, num tom pejorativo, de “conservador”. Isso vai na linha de tentar tachar o Papa como um ditador, mas a meu ver o ditador é essa pessoa, porque ela não considera que alguém possa ter uma opinião diferente dela. Ela não quer que o Papa tenha a liberdade de expressar um pensamento da doutrina católica. No fundo, ela quer que o Papa fale o que ela quer ouvir.

L - A defesa de certos valores morais supremos está necessariamente ligada à religião?

Edson de Oliveira – Não, por causa do Direito natural. Através dele, qualquer pessoa (como Aristóteles, que não era católico nem nada) pode defender certos valores como supremos.
Fabrício Soares – Atualmente, isso é pouco comum, mas tradicionalmente muitos filósofos acreditavam na existência do universal, que é algo que transpõe o cultural. Platão, por exemplo, quando pensava em ética, não pensava a ação humana apenas para os gregos. Em diferentes sociedades humanas, é possível constatar comportamentos semelhantes como, por exemplo, a rejeição ao incesto. A existência desses pontos em comum mostra que certas coisas não são apenas convenções de uma dada cultura, mas sim coisas que precisam acompanhar o ser humano em qualquer lugar. Isso é uma prova da existência do Direito Natural, que precede a constituição mesma da sociedade.

L - Muitos críticos do conservadorismo apontam como seu “calcanhar de Aquiles” o fato dele não se constituir como uma ideologia.

Pedro Ravazzano – Eu não acho. Pelo contrário, acho que isso é um ponto positivo do conservadorismo. Existe uma base estrutural essencial pra qualquer pessoa que se considere conservadora, mas sobre ela cada um tem liberdade de pensamento. Veja o nosso grupo, por exemplo. Tem ateus, tem católicos, tinha protestantes…

L - Ateus no grupo?

Pedro Ravazzano – Fabrício é ateu. Tem Ricardo… (risos)
Ricardo Almeida – Deixa eu explicar. Em termos de religião, eu sigo uma vertente muito estranha pra maior parte das pessoas, que é o tradicionalismo, chefiado por René Guénon, Frithjof Schuon… Basicamente, o tradicionalismo é uma teoria de explicação das religiões que parte da ideia de que o que unifica todas as tradições é a base metafísica comum. Cada uma tem as suas particularidades dogmáticas, culturais e simbólicas, mas todas elas se referem a uma mesma estrutura metafísica da realidade e é esta estrutura que permite dizer que todas as religiões, se ortodoxas, conduzem ao mesmo lugar.

L - E dentro daquele espectro direita-esquerda, todo direitista é um conservador?

Ricardo Almeida – Não. A direita abriga pessoas das mais variadas formações. Liberais, anarco-capitalistas… Nem todo direitista é conservador, embora a direita abrigue o conservadorismo. Mas há um problema em definir alguém como de direita ou esquerda, porque esses termos não têm uma definição muito clara, são palavras usadas a esmo…

L - Mas vocês usam no blog. Esquerdismo, esquerdista….

Ricardo Almeida – O meu uso ainda é um pouco vago. Eu já li bons textos que tratam dessa dicotomia direita-esquerda, mas não cheguei a ter uma definição clara.
Fabrício Soares – O termo “esquerdismo” é muito mais definido do que “direitismo”. “Esquerda” é uma expressão cuja conotação foi atribuída principalmente pelos que se colocam dentro dessa denominação.

L - E a esquerda “inventou” a direita pra colocar tudo que era contrário a ela?

Fabrício Soares – De certa forma, sim.
Pedro Ravazzano – Como eu estava comentando com Ricardo, hoje a esmagadora maioria das pessoas que se auto-intitulam “de direita”, como se isso fosse um caráter de distinção, são defensores de um conservadorismo ou de um liberalismo infantil, que acha que votar no PSDB é ser de direita. É aquele direitismo que não tem nenhuma base. Além disso, esse esvaziamento do que é ser conservador ou ser de direita aqui no Brasil foi basicamente uma conseqüência do regime militar. Como a esquerda se auto-intitulava defensora da liberdade e do povo e o regime militar era visto como algo conservador, então o conservadorismo foi visto como esse monstro autoritário. Só que isso não existe, porque nós sabemos muito bem que os movimentos terroristas do regime militar não queriam derrubar a ditadura, queriam trocar uma ditadura por outra, muito mais cruel.

L - Existe partido de direita no Brasil?

Pedro Ravazzano – É uma pergunta complicada, porque no Brasil não existe uma fidelidade ideológica partidária. Os partidos de esquerda são muito mais ideologizados do que os partidos de “direita”, como o PSDB e o DEM. O PSDB é visto como o baluarte da direita conservadora no Brasil, mas, pelo amor de Deus, quem em sã consciência crê nisso? O próprio presidente Lula, em visita a Argentina, declarou que estava feliz porque todos os possíveis candidatos à presidência eram de esquerda. O único partido que talvez tenha uma sintonia a mais é o DEM, não o atual, mas o antigo PFL. Se você lesse a carta de apresentação do PFL, havia um viés liberal. Não um liberalismo convicto, mas mitigado. Depois que o PFL virou DEM e praticamente se tornou uma sucursal do PSDB, as coisas mudaram. O partido saiu da centro-direita e virou um partido de centro; centro que vai pela maré, de acordo com a situação.
Edson de Oliveira – No Brasil, existe político de direita, mas não partido. Por exemplo, o Lael Varella, do DEM. E tem também aquele da Polícia Militar de São Paulo, o Coronel Paes de Lira.
Pedro Ravazzano – Que entrou no lugar de Clodovil. E Clodovil, por incrível que pareça – pra você ver como o Brasil é uma caricatura – despontava como um conservador. (Risos). Foi vaiado pelo movimento gay. Era criticado pelo movimento negro.

L - Uma crítica muito comum da esquerda é a de que os meios de comunicação são dominados pela direita. Qual a visão que vocês têm do jornalismo, em particular o brasileiro?

Ricardo Almeida – Sobre essa questão, eu acho que deveria ser feito o que uma vez sugeriu o professor Olavo de Carvalho [filósofo brasileiro], faz uma centimetragem. Pega os arquivos dos principais jornais e mede o conteúdo escrito. Faça isso de maneira casual e você vai ver que a imensa maioria das matérias tem viés claramente esquerdista. Todo mundo diz que a mídia é de direita, mas eu peço que listem os jornalistas de direita.

L - Num balaio de gato, costumam citar Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi…

Pedro Ravazzano – Daqui a pouco, William Bonner é de direita.
Ricardo Almeida – Tudo bem, ainda vai. Mas Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi representam a imensa maioria?
Pedro RavazzanoJoão Pereira Coutinho.
Ricardo Almeida – Mas esses se destacam justamente porque fogem da regra. O foco incide sobre eles porque tem alguma coisa ali saindo do normal. Ora, se sai do normal, é porque o normal é o esquerdismo. Essa visão de que a mídia, o jornalismo é de direita se baseia no fato de que a esquerda parte da idéia de que existe uma classe que comanda os jornais e que esses donos dos jornais são de direita. Acontece o seguinte: embora você tenha essas famílias que comandam o jornalismo, como os Mesquita [Estadão], os Frias [Folha de S. Paulo], os Marinho [Globo], o que se escreve nos jornais não está de acordo com uma ideologia que porventura os donos desses jornais tivessem.

L - Que autores vocês lêem, discutem?

Vladimir Lachance – Edmund Burke, que é considerado o pai do conservadorismo moderno. Curiosamente, ele não era considerado um conservador porque fazia parte do Partido Liberal inglês. Mas o princípio das idéias dele é o que deu origem a teoria do conservadorismo moderno, retomada por Russel Kirk. Tem T.S.Elliot. No Brasil, Olavo de Carvalho. Chesterton é outro que lemos bastante. Hilaire Belloc, um católico que se dizia de esquerda, mas que tinha idéias que iam de encontro ao que a gente considera de esquerda hoje.
Pedro Ravazzano – Michael Oakeshott. O Roger Scruton, eu leio o blog dele. E tem algumas leituras complementares, que não são autores propriamente conservadores. Em economia, tem os economistas da Escola Austríaca: Hayek [Friedrich Hayek], von Mises [Ludwig von Mises]…
Vladimir Lachance – Mais ligado à tradição católica tem o Dr. Plínio [Plínio Corrêa de Oliveira, fundador da organização católica Tradição, Família e Propriedade (TFP)].
Fabrício Soares – Olavo de Carvalho, além da contribuição pessoal importante, nos apresenta vários autores que não ouvimos falar em sala de aula.

L - Por quê o nome do blog é Acarajé Conservador?

Edson de Oliveira – Na época em que estávamos discutindo o nome, surgiram várias sugestões, inclusive “Zero à direita”. Daí alguém sugeriu que fosse “Café Conservador”, mas café é coisa do Sul. Tinja que ser alguma coisa da terra, daí veio a idéia do acarajé.
Pedro Ravazzano – Tá vendo? Defendemos a tradição baiana. (risos).
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Segue o link da apresentação da entrevista:

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Um caso incomum - as idiossincrasias de um ateu conservador (Parte II)

por Fabrício Oliveira Soares

Introdução à continuação

Expliquei, na parte anterior ( http://acarajeconservador.blogspot.com/2008/12/um-caso-incomum-as-idiossincrasias-de.html ), a evolução de minha mentalidade e da maneira pela qual assuntos que nos interessam estavam nela dispostos, até o período que termina com o final do Ensino Médio e meu ingresso na universidade. Agora, farei o mesmo em relação ao período posterior, da minha entrada na faculdade até a época atual.

Certos textos envelhecem, ou melhor, desatualizam-se mais rápido. Se eu me aventurasse a escrever sobre geografia, mesmo as mudanças ambientais que vêm ocorrendo no planeta não alterariam tão imediatamente a realidade descrita por mim. Mas outra é a situação do que lhes apresento: um relato autobiográfico de alguém aos 22 anos, começando a estudar Filosofia, que ainda conhecerá muitos pensadores, professores, explicações e teorias, que ainda conhecerá tanta coisa que, por me ser ainda desconhecida, não me revela o seu potencial de ação sobre a consciência. Quando faço este alerta, penso na segunda parte desta continuação, onde ficará mais claro o sentido dessas observações.

Mas é necessário dizer que o valor desse texto não reside tanto pelo que ele representa de meu pensamento ou de certa época – passageira? – de minha vida; na verdade, em meu lugar, poderia estar descrito um personagem de ficção, usado apenas como meio para se explicar certas coisas. Embora tenha escrito essas linhas em boa parte pensando nos amigos e pessoas que passam a me conhecer, eu não sou a única nem principal fonte da importância delas. O que mais importa aqui é o conteúdo de certas coisas que vivi e pensei, que poderiam ter acontecido a outro, e que faz com que este trabalho possa interessar a quem nada sabia de mim antes de chegar a este site(sim, isto aqui me deu muito trabalho!). E é natural que assim seja, que num escrito como este haja uma feição particular e outra mais ampla, de interesse mais universal, ligadas, sem que eu distinga bem onde termina uma e começa a outra, o que é, no mínimo, justificado para o autor-persongem.

Este artigo divide-se em duas partes. Na primeira, traço considerações políticas, comento a militância estudantil que eu conheci na faculdade e registro alguns acontecimentos pessoais relativos a esses assuntos. Na segunda, o foco é em considerações de natureza religiosa, i.e, explicarei os meandros de um certo ateísmo que é o meu, discutirei o uso desta palavras, e outras coisas afins.

Na faculdade...

No primeiro dia de aula... Bem, é fato amplamente reconhecido que a primeira vez é sempre especial. Nela, as esperanças ainda não se macularam pela vivência dos fatos concretos, bons ou ruins, de uma experiência cotidiana. O início da vida universitária é algo idílico, repleto das melhores expectativas. Claro, as pessoas fazem pressuposições diferentes, mais ou menos realistas, e muitas entram receosas na UFBA, pensando em greves, em problemas diversos... Sim, também temia as greves, mas, naquele dia, o que eu sentia era um misto de apreensão e de felicidade por estar estreando como estudante de nível superior. As aulas começariam, na verdade, na semana seguinte, devido à Semana do Calouro, evento já “tradicional” que promove uma série de atividades para apresentar a universidade aos que chegam. Lembro que assisti a uma atividade sobre machismo. Já não me lembro bem das datas, se não me engano o semestre letivo começou em abril, e em junho aconteceu uma greve, a última que houve até hoje, a longa greve de 2004.

A militância estudantil

De que forma, e com que intensidade eu participei do movimento estudantil? Participei apenas esporadicamente, de maneira muito circunstancial e sem me encaixar em algum grupo político; eu sentia certo peso na consciência por não participar de maneira constante e intensa como outros tantos faziam, e situava meu estudo acima das atividades de militância política, o que era uma atitude ocasionalmente censurada. Uma vez, alguém me dirigiu um comentário dizendo que “Fabrício não perde aula se for preciso para participar de movimento”, alguma coisa com esse significado. Foi uma leve crítica, leve mesmo, bem amena e cordial, aliás eu era visto como amigo e, afinal, cada um tem seu jeito; o meu era aquele e, de todo modo, eu estava do lado deles. Eu queria participar mais e por outro lado a disposição me faltava, não havia um ânimo arrebatador, embora eu gostasse daquilo e desejasse fazê-lo para “dar minha contribuição” para a sociedade, para o mundo. De vez em quando, eu tomava uma atitude no sentido de me adentrar mais no ME (movimento estudantil, para quem não estiver habituado), como uma vez em que dei a participar das reuniões do CA (Centro Acadêmico, que poderia se chamar Centro Revolucionário, CR), quando a “Atitude e Resistência” se reelegeu em 2005 ( quando entrei, já era ela quem estava na gestão, e só perdeu em 2007, sendo que a eleição se dá perto do final de ano, de forma que ela conduziu o CA por 5 ou 6 anos – há divergências); embora sejam abertas aos estudantes, não é comum que mais alguém além dos que participam desse negócio de CA se interesse em freqüenta-las, e eu as freqüentei por várias semanas, mais do que a grande maioria dos componentes da chapa.

Preciso contar que já tinha minhas divergências com a militância, e talvez sejam elas que instauraram um fosso providencial entre mim e a ala radical do ativismo do curso de História. Sim, a “ala radical” é tão radical, mas tão radical, que é uma coisa medonha que espanta e afugenta até as mentalidades “politicamente corretas” ( uma expressão cretina para designar os hábitos mentais da esquerda cultural incutidos a todas as pessoas cotidianamente) que lotam um lugar como São Lázaro (como é conhecido o nosso campus). Vejam bem, uma enorme parcela, se não quase todo mundo nesse lugar é de algum tipo de esquerda. Alguns votam no PSTU, muitos outros no PT, embora a maioria com críticas; é muito nítida a intersecção de valores e referências entre eles. Eu era de acordo com o espírito geral dos estudantes – eu nunca pertenci a um partido, embora os partidos que eu tinha afinidade fossem aqueles aos quais pertenciam os estudantes que militavam em partidos, nisso sendo parecido com os demais estudantes, que não são militantes e são de esquerda, de forma mais passiva ou menos; na penúltima eleição municipal, votei em Pelegrino/PT no 1º turno, e no PV para a Câmara; em 2006, andei com uns adesivos de Lula e Wagner na camisa, e na última hora, mudei de idéia e votei em Antônio Eduardo/PCO (coisa que quase ninguém sabe; no entanto, vibrei com aquela vitória de Wagner), que fora meu professor, e em Lula – ou seja, votei em Lula, co-fundador de Foro de São Paulo e amigo de terroristas, na última presidencial que tivemos. O que quero mostrar, talvez de forma muito prolixa, julgue o leitor, é que eu não era muito diferente da maioria das pessoas, que elegem o PT, e muito menos diferente do teor geral dos estudantes de ciências humanas, que é, tristemente, “progressista”, como se gosta de chamar. Então, contarei como a tal militância radical gera desconforto mesmo em estudantes que tendem à esquerda, no mínimo, e como fazia isso comigo, particularmente.

“Essas pessoas dos movimentos são as mais preconceituosas”; esse foi o tipo de frase que eu tive o prazer de ouvir nos últimos tempos antes de me formar, em reuniões entre colegas e entre colegas e professores. Escutei comentários muito críticos sobre os militantes políticos universitários, sobre o fato de criticarem tanto e serem “os mais preconceituosos”, sobre o fato de alguns terem sido vistos maltratando cães no campus, sobre o fato até de terem preconceitos que condenam.


Vinícius Mascarenhas – uma amizade e novas perspectivas

Nas nossas vidas, passamos por lugares, como escolas, trabalho, ou inúmeros outros ambientes, que são onde conhecemos as pessoas com quem manteremos relações, sejam nossos amigos, a pessoa com quem podemos vir a casar, aquela com quem teremos alguma oportunidade, seja profissional ou de alguma outra espécie, enfim, as pessoas que serão importantes para nós, dentre um conjunto muito maior de pessoas. No 3º semestre, as circunstâncias tiveram a bela idéia de colocar juntos, eu e um dos vários colegas que ingressaram comigo no curso, que até então não representava a mim mais do que isso; nós nos matriculamos numa disciplina vespertina e, por mecanismo natural dos estudantes, procuramos quem tinha feito o mesmo: eu e Vinícius Mascarenhas seríamos os únicos da turma a cursarem a disciplina e, portanto, passaríamos a almoçar juntos para irmos à aula. As aulas eram normalmente de visitação, e íamos juntos ao local; com isso, tivemos muita ocasião de conversar e de nos tornarmos próximos.

Nas férias que sucederam esse semestre, meus pais compraram o computador onde escrevo esse artigo; passei a usar orkut, e Vinícius foi um dos primeiríssimos a me adicionar, uma prévia do que seria o período das férias. Conversamos no MSN longas horas da noite, e foram os momentos mais agradáveis da época, e que deixam saudades (já que o infeliz está sem internet e não consegue consertar isso nunca). Vinícius aproximava-se cada vez mais do conservadorismo, desde que entrou na faculdade, e manifestava-se contra as idéias comumente veiculadas naquele ambiente, tornando-se um caso alegórico, posso dizer; ele era o “diferentão”, havia até quem achasse que ele falava certas coisa só para perturbar, e alguns demonstravam acha-lo “engraçado”. (Mas é melhor que ele mesmo preste o seu depoimento nesse blog – cobremos!) Creio que nenhum deles achará engraçado ter em mente o que ele fez com a sua capacidade de ação que vem trazendo e trará conseqüências notáveis para a causa conservadora em Salvador: foi ele quem, em junho do ano seguinte, me apresentou ao Sr. Edson Carlos, da TFP (a verdadeira, não a oficialmente representada pelos Arautos do Evangelho), primeiramente pela internet, e depois providenciou meu encontro com o Sr. Edson e o Sr. Márcio; foi ele quem foi conhecendo e aglutinando pessoas com algumas tendências ou simpatias conservadoras. Completarei esse raciocínio mais para frente.

Naquelas conversas de MSN, ele foi me mandando artigos do Mídia Sem Máscara e de Olavo de Carvalho, de quem eu nutria uma desconfiança terrível. Lia nos seus artigos coisas extremamente destoantes do que eu conhecia, e que não tinham o respaldo da “formação acadêmica”. Sempre me incomodou ele não colocar referência para cada coisa diferente que ele dizia, e em alguns momentos me sentia diante de um autor genial, e em outros, me sentia sem confiança diante de alguma passagem ou afirmação que me parecia pouco rigorosa e cuidada. Mas se às vezes tinha esse segundo tipo de sentimento, a lembrança das demonstrações nítidas de capacidade e competência dele me fazia sentir uma forte necessidade de lê-lo mais para conhecê-lo com mais inteireza e entender o porquê de certos trechos e argumentos me parecerem poucos seguros; nunca, porém, me pareceu que eu pudesse tirar uma conclusão definitiva de pronto, especialmente se negativa, e descartar o exame de um autor tão complexo que leitores superficiais aos quais só interessam certos aspectos – os mais políticos – reduzem de forma tão deformante. Descobri que ele não fornecia provas ou evidências de algo que ele defendia num momento, mas as fornecia em outros em que afirmava a mesma tese; percebi como alguns textos iluminam outros, e que só um estudo sincero e paciente poderia me facultar compreender Olavo de Carvalho – e, ainda hoje, o meu conhecimento sobre ele é básico, ou talvez pouco mais que isso.

Nesse período, em 2007, eu ainda não tinha deixado de ser esquerdista, nem havia aderido à Direita. O convívio com ambas as formas de pensamento instaurou um conflito em mim, uma ligação psicológica com uma e outra (já que eu não conseguia mais descartar de pronto alguma das duas), uma grande dúvida, um problema que eu pretendia resolver pela confrontação de um com o outro. Quando o meu contato era com a Direita, eu me sentia mal com as suas críticas; quando era com a Esquerda, eu me sentia constrangido com uma certa intolerância à minha inclinação e necessidade de conhecer aquela que é tão condenada e comentada, mas que jamais deve ser conhecida. Estranha situação, em que eu me ofendia com uma ou com outra, quando cada uma atacava sua rival com a qual eu tinha algum laço. Mas a intolerância e “raivosismo” peculiares que eu pude experimentar nos meus colegas da Esquerda, que eu não notava direito quando estava em concordância com eles, fez com que eu me apegasse mais ao que eles queriam jogar no lixo antes que eu julgasse tê-lo examinado satisfatoriamente, e me fez dar razão a certas avaliações direitistas sobre a Esquerda e sua militância. Quanto mais eu me sentia acuado por ler Olavo de Carvalho e MSM (abreviação costumeira para o “Mídia Sem Máscara”), mas eu desejava lê-los avidamente antes que eu fosse privado desta leitura, eu sentia um estranho desejo de absorver seus argumentos o mais rápido possível como se eu estivesse prestes a ter de explicar a relevância do que eu lia inclusive para poder continuar lendo.

Eu já estava decidido a estudar o pensamento conservador, e já compartilhava com Vinícius anseios idênticos de ver considerações relativas ao nosso tema de interesse se manifestarem na faculdade, desejávamos ver no estudo de História discussões que extrapolassem o que de costume é levado em conta, ansiávamos por ver presente nos debates algo mais que perspectivas revolucionárias das ciências humanas. Fizemos juntos um trabalho sobre a Revolução Francesa que nos deu oportunidade de procurar caminhar nesse sentido e de termos um diálogo com cumplicidade. Estava patente que íamos criar um grupo de estudos do pensamento conservador, isto já era algo natural no decorrer desse período; eu já pensava em falar com Vinícius da criação desse grupo no semestre seguinte, sabia também que mais cedo ou mais tarde ele ia chegar com essa proposta, e foi o que aconteceu. Um certo dia ele veio falar comigo sobre isso e, se me lembro bem, eu já adivinhava a idéia dele enquanto ele me contava. Foi um momento muito cativante! Inaugural, com os sentimentos inerentes a uma situação em que pessoas se articulam para fazer juntas um projeto importante para elas.

Surge o Grupo de Estudos do Pensamento Conservador

Vinícius foi o grande articulador: a formação inicial do grupo era ele, Ricardo Almeida, Marcelo Couto, Fernando Fidalgo, eu, uma amiga de Ricardo que, se não me engano, chamava-se Adriana, e um colega de Marcelo que passou a freqüentar pouco tempo depois, Tiago. Eu havia falado para Vinícius de um estudante de Filosofia chamado Ricardo, mas foi Vinícius quem o conheceu primeiro e o chamou para o grupo. Também foi ele quem conheceu Marcelo e Fernando, que não participaria mais do grupo no ano seguinte. Não narrarei a história do grupo, pois não convém no momento (e é melhor que fique por enquanto na tradição oral!). Apenas queria contar o começo de tudo. Nossa primeira reunião se deu na quarta-feira da primeira semana de volta às aulas, portanto em 15 de agosto de 2007, e comemoramos nosso primeiro aniversário no 15 de agosto de 2008.

Uma nova identificação surge de um novo autoconhecimento

Não me considerava conservador enquanto participava desse grupo, que aliás existe para todo aquele que queira estudar o que nós estudamos, desde que seja civilizado nas reuniões. Mas, tendo lido os “Dez princípios conservadores” de Russel Kirk, não vi um só que me parecesse equivocado, com o qual eu discordasse. O que faltava para que eu me assumisse conservador? Gostei do texto seguinte, e do outro, e do outro. Por que então a demora? Mudar uma forma de encarar a realidade sempre é difícil, pois mantemo-nos apegados a formas de pensar anteriores que continuam presentes e claras em nossa memória. Vejam, não se trata de “mudar de opinião”, mudar a forma de pensar é algo muito maior, que afeta inumeráveis opiniões particulares do indivíduo. E mudar, nesse caso, era tornar-se “conservador”, algo visto como radicalmente ofensivo, e contra que eu mesmo me habituei a condenar, introjetando firmemente esse preconceito em mim. E mudanças tão radicais dão a sensação de que seremos tidos como levianos e superficiais, e contra isso nem a frase de Pascal “Não tenho vergonha de mudar de opinião, pois não tenho vergonha de pensar”[1] nos protege totalmente. Embora eu tenha refletido muito demoradamente antes de me tornar um conservador – mais do que qualquer jovem ao se tornar de Esquerda, coisa que acontece na alfabetização – posso parecer volúvel para alguns. Isto tudo é motivo de vacilação e de demora. Mas, tendo conhecido Olavo de Carvalho, conheci muito mais que meras considerações sobre economia e política, sobre estrutura do Estado, da produção e da sociedade. Conheci uma intimação à sinceridade, aprendi a conhecer minha consciência, embora o aprendizado da autoconsciência ainda prossiga; o conhecimento verdadeiro não se dá somente com a apreensão de dados externos, ele exige coragem, exigem certos sentimentos e disposições espirituais.[2] Foi assim que eu revelei a mim mesmo que já era um conservador e que só me cabia assim me identificar. E há mais jovens que precisam “sair do armário”! Mas o sujeito tem de estar disposta a abrir mão da falsamente confortável boiolice, no sentido olaviano do termo: ser covarde para agradar aos outros.

A questão do ateísmo em seus novos termos

Na parte precedente deste artigo, eu expliquei como me tornei ateu; mas, carece de atenção muito especial a questão sobre como esse ateísmo se conformou com a outra mudança radical que descrevi na presente secção, a de esquerdista para direitista, na concepção olaviana dos termos. Os conservadores comumente são religiosos, e acreditam numa ordem terrestre de alguma forma relacionada a uma ordem celeste, e inspirados pela religião combatem projetos políticos que vão de encontro a instituições como igrejas e família, e de encontro a concepções religiosas. A maioria dos que conheço são católicos, mas os demais têm alguma outra fé; isso vale para todos que eu conheço pessoalmente, e para os que eu já li.

Em primeiro lugar, é preciso analisar a questão em termos de “Deus” e “Natureza”;
muitos invocam o ateísmo ou o laicismo como desculpa para eliminar a distinção entre certo e errado e se justificar qualquer coisa, como o aborto, p.ex.[3] Na tradição judaico-cristã, há Deus, o Criador, e o Universo e os seres, a criação; segundo o livro do Gênesis, Deus havia criado “tudo o que se move sobre a terra”, o ser humano e os animais que seriam preservados pela arca, cujo modo de construção Êle instruiu a Noé. Hoje, muitos não acreditam em Deus; porém, isso não é desculpa para mais nada. Explico; quem irá contestar que o mundo é habitado “por seres viventes”, pelas plantas, peixes e seres humanos? A negação do Criador não autoriza a negação da realidade do mundo, apenas introduz uma divergência em relação à Origem: discorda-se sobre a origem das coisas, mas tem de se acreditar na existência das mesmas coisas; um ateu, por não acreditar em Deus, deixa também de acreditar que existe o homem, que as Escrituras apresentam como criatura? Ora, CACETE!, que legitimidade tem alguém para defender um niilismo contrário a toda ordem e toda moral por ser ateu?! Esse ceticismo de ateu estúpido implicaria, se levado às reais conseqüências que derivam logicamente de sua forma de pensar, nisso: “Deus disse “Não matarás”; eu não acredito em Deus, então eu posso matar.” Digo por pungente experiência própria, há pessoas cuja demência é de tal grau que não conseguem entender um posicionamento contra o aborto fora de um sistema religioso, ou seja, não conseguem ou não querem me entender[4]. Entendo que não se creia em Deus, mas não dá pra entender alguém não crer na natureza. E é do Direito Natural, que antecede ao Estado, que o ser humano tem direitos inalienáveis como
à vida, à alguma propriedade e autonomia. Sem o Direito de Natureza, só vejo restarem a arbitrariedade e a convenção pura: a força, enfim, a força bruta e destruidora que é o âmago do espírito revolucionário.
Assim, considero ter resolvido o pseudo-problema acerca do conservadorismo e do ateísmo.[5]

Que ateu sou eu?

Serei eu um ateu? Minha aproximação com pessoas religiosas e com pontos de vista tradicionalmente concernentes a elas tornam inverossímil meu ateísmo, meu suposto ateísmo, digamos assim. Fui questionado sobre se eu já não seria hoje um “agnóstico”, portanto mais próximo de Deus que um ateu. Discussões terminológicas sempre são complicadas; e, preciso dizer, sinto-me aprisionado pelo rótulo “ateu”, embora não veja motivo para descartá-lo em favor de “agnóstico”. Tive uma vez oportunidade de consultar um dicionário de religiões, e no verbete sobre ateísmo tinha descrições que coincidiam com o que eu conhecia por agnosticismo. Dizia, por exemplo, que há certos ateus que não se sentem capazes de resolver o problema da existência de Deus, ou de sua interferência no mundo. Costuma-se tomar por ateu quem é convicto da inexistência de Deus, e por agnóstico, quem não tem uma resposta tão peremptória sobre essa questão, quem não tem tanta certeza assim. Mas é apenas um hábito. Vejamos o uso de “ateu” e “ateísmo” em Olavo de Carvalho; ele se diz inimigo do ateísmo militante, não do ateísmo em si. Não entendi isso logo – posso ter uma opinião ateísta mas não posso defende-la? Porém, naturalmente eu me encaminhei a esse tipo de ateísmo que ele descreve em “Ateus e ateus” como o de quem não acredita em Deus, em contraposição ao ateísmo de quem “acredita piamente que Deus não existe.” Deixei de ser aquele ateu iluminista clássico, de cunho cientificista – para quem isso é o modelo preciso de ateísmo, eu não sou ateu mesmo. Não sinto mais a antiga vontade de discutir com crentes – coisa que vira uma espécie de esporte, como o foi para mim – para dissuadi-los de ter sua fé. Por quê?

Vejam bem. Nós somos seres humanos e temos uma vida finita. Evidentemente, precisa-se levar isso em consideração ao se viver, e o fazemos quando procuramos planejar carreira, e quando procuramos trabalhar para acumular bens para que fiquem para os nossos filhos – aí está embutido a previsão de nossa morte mesmo quando conscientemente estamos pensando apenas na vida de nossos filhos. Cada pessoa deve encontrar um sentido para sua vida, e quem é religioso já aderiu a uma resposta formulada, que pode ser correta ou errada. Quem é ateu, tem uma dificuldade maior de encontrar esse sentido: e qual o “sentido” de atacar a resposta dos outros em vez de se tentar resolver o problema? Isso não é uma condenação à discussão em si mesma: apenas penso que as pessoas têm um desafio para suas existências, e que podem debater os caminhos que estão encontrando para enfrenta-lo, com um objetivo de colaboração; isso é muito diferente de se combater sistematicamente tais ou quais respostas apresentadas.

Voltando ao debate de termos sobre “ateísmo” e “agnosticismo”; este segundo não se refere somente à indecisão sobre a existência de Deus. Refere-se à afirmação da permanência dessa indecisão; ninguém é agnóstico por não saber se Deus existe ou não, mas por pensar que não se pode saber isso. Quem não acredita em Deus, nem desacredita, pode ser considerado ateu, já que não admitiu a existência divina; se ele acha possível responder à essa questão, mesmo sendo um cético hesitante, pode ser considerado ateu.

Para completar essa descrição sobre em que ponto eu estou presentemente, falto apenas acrescentar uma breve apresentação sobre o que direciona minha atenção relativa a assuntos espirituais, transcendentais etc. Em primeiro lugar, devo dizer que eu busco entendimento sobre essas coisas, o que não contradiz minha caracterização como ateu, que, ademais, é pouco importante, tratando-se apenas de uma rotulação para apresentar, de forma resumida, abreviada e imperfeita o meu ponto de vista. Ademais, ateu é o que eu sou hoje, e que continuarei sendo enquanto me parecer que as razões para sê-lo sejam melhores que as razões para não sê-lo.

Quanto a esse ponto, aliás, talvez o meu conflito com a idéia de Deus se deva a exposições inadequadas deste, que consistem na atribuição de características ontológicas que nos são mais acessíveis – como características humanas, por exemplo – a um ser considerado absoluto e infinito. Descrições que afirmam a inteligência, a vontade, a ira, a escolha, enfim, que resultam implicitamente na “consciência” divina, me parecem remeter a uma impossibilidade clara e flagrante. Nenhuma “consciência” pode se estender pelo infinito; a vida não me parece um atributo de Deus, e características como essas são de seres vivos, limitados. Para se afirmar se algo existe, tem de se explicar o que é esse algo, e verificar se as condições são absurdas ou plausíveis.

Voltando ao que eu dizia, se me constato como ateu, não quero ficar preso a nenhum compromisso de agir conforme as pessoas esperem que um ateu aja. Eu sou ateu não por acreditar no ateísmo, mas por não ter fé, por não ter a crença de que Deus existe. O meu compromisso é com a verdade, não com uma convicção particular: já abandonei algumas antes. Apenas apresentei aqui a minha opinião atual e o meu procedimento intelectual.

Poderia insistir mais nesse ponto, mas em vez de fornecer uma argumentação exaustiva e que explique perfeitamente as minhas concepções sobre o assunto, pararei por aqui e acrescentarei o que for preciso à medida em que isso me seja requerido. Não me demorei pouco nesse texto, e desejo terminá-lo. Não obstante meu perfeccionismo, apresento esta alegação para não me estender demasiadamente – procedimento, aliás, semelhante aos que usa Descartes, me encorajando a fazê-lo também (filósofo que estou estudando na faculdade e cujo próximo texto que lerei é a terceira meditação: “De Deus; que ele existe”). Concluirei dizendo a minha principal motivação que me faz querer pesquisar sobre questões transcendentais – estou com dificuldades na expressão, e me pareceu por bem nesse momento usar essa palavra – é uma angústia que sinto quando penso a relação entre o particular e individual – nós mesmos – em relação ao infinito, que não pode ser satisfeito (vide a nota de rodapé da Parte I desse texto), à eternidade. E meu grande interesse se dirige à metafísica tal como apresentada por Guénon, autor que já fez uma grande diferença para minha vida, que me mostrou coisas que preciso procurar conhecer e entender. Quanto ao que seja essa metafísica que tanto me interessa, não será comentado agora. Sugiro que se busque artigos nesse blog sobre perenialismo ou Guénon.

Adendo 1: na parte de cima desse artigo, eu apresentei alguma coisa sobre o que vivi como aluno de História. Mas, para atualizar quem me lê, informo que hoje sou aluno do curso de Filosofia na UFBA, na graduação, e sou novamente calouro.

Adendo 2: é normal que pontos que não tratei como principais pareçam mais importantes para alguns, ou que algumas considerações estejam insuficientemente desenvolvidas para outros tantos, ou pouco claras, etc. Mas urge a publicação deste texto, e mais perfeccionismo atrasaria ainda mais a publicação, ainda mais tendo em conta o seu tamanho e a demora em rever todos os parágrafos deste longo escrito. Quem desejar, pode entrar em contato comigo e, ou, comentar meu post; responderei diretamente ou, se me parecer matéria de interesse mais geral, posso abordá-la numa futura postagem.

Imagens: a primeira, a do chamado "Casarão" de São Lázaro, bonito embora danificado, eu encontrei no site problemasfilosoficos.blogspot.com ; a segunda me mostra no dia de minha formatura e foi tirada por minha irmã.

[1] APUD COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia, Saraiva.
[2] Essa valorização da consciência individual permeia todo o pensamento de OdeC, mas vou aqui só citar algumas referências que eu já conhecia: o True Outspeak de 26 de fevereiro de 2007 é iniciado com esse assunto; o texto “Notas para uma introdução à filosofia”, lido nesse mesmo programa; e um que não consegui encontrar agora, no qual ele compara as Confissões de St. Agostinho com a autobiografia de um pensador contemporâneo, inglês se me lembro bem.
[3] Vi em janeiro um caso cuja absurdidade ultrapassou todos os limites que eu havia imaginado até o doloroso momento. Na sala de espera de uma clínica, eu lia uma meteria de uma “Época” velha sobre uma polêmica que aconteceu quando um carnavalesco quis colocar, no desfile de sua escola de samba, um carro alegórico representando o Holocausto, com bonecos representando os judeus mortos, a até com pessoas fantasiadas de nazistas e um Hitler; uma federação israelita conseguiu vetar esse carro na justiça, e houve quem condenasse isso como censura, e quem ficasse ofendido com a idéia do carnavalesco. Um psiquiatra entrevistado pela revista e um dos defensores de tal carro, comemorou algo equivalente a “no Brasil, o Estado é separado da religião”. Ou seja, numa grave questão envolvendo os sentimentos de tantos judeus, para os quais o Holocausto é fato de memória recente, havendo até no Brasil quem passou por Auschwitz, um super-imbecil consegue fazer um comentário completamente desvinculado do que se discutia, confirmando um fato já óbvio de que no Brasil os que acusam a religião de interferir em tudo são na verdade pessoas que introduzem a religião em todas as discussões para conseguir aprovar o que existir de maior agressão ao ser humano.
Esse aí deveria ser enviado a um campo de concentração, e a Igreja não deveria fazer nada a respeito, nem mesmo dizer uma só palavra contra. Deveria só declarar: “religião não deve se envolver em nada, e não me cabe intervir em assuntos políticos. Nós só podemos rezar. Nada faremos se pegaram você, pois nada nos cabe no campo social, nada nos cabe fora do templo.”
[4] Seria inconveniente à militância abortista admitir que compreendeu um argumento não-religioso contra o aborto, pois a estratégia deles consiste somente em atacar a religião, e nada mais lhes restaria depois disso.
[5] Sobre o Direito Natural, leia “Com que direito se nega o Direito Natural?”, que foi publicado no site da Frente Universitária Lepanto, de autoria de um prof. de Filosofia.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Iniciativas contra o aborto

No dia 3 de Novembro de 2008, publiquei nesse blog um artigo intitulado "Apelo em favor da visibilidade do nascituro", no qual explico a artimanha que se usa para esmorecer nas pessoas a preocupação com o ser presente no ventre da gestante e aumentar a aceitação do aborto, e como essa tática pode ser obstaculizada, ou, ao menos, como isso me parece com muita clareza. Espero que, nas atuais circunstâncias de ofensiva pública contra clérigos que se levantaram contra o aborto de supostos gêmeos de uma garota de nove anos, estuprada pelo padrasto (poderia ser isso a parte trágica de um conto de fadas real, caso nesses contos os padrastos tivessem se consagrado também, como aconteceu com as madrastas, e caso o final tivesse sido feliz), apelos como o que eu fiz sejam ouvidos e cogitados, e, se possível, aplicados. Pois, embora os pró-vida nos vangloriemos de que "a maioria do povo brasileiro é contra o aborto", a última pesquisa que conheci mostrou que a maioria das pessoas são favoráveis ao aborto em casos de estupro e risco de vida para a gestante.[1]

Peço a alguém que providencie a tradução de dois importantes livros: "Aborted Women: Silent No More", de Julie Makimaa e Dave Readon, e "The Missing Piece", de Lee Ezeel. Julie e Ezeel foram concebidas por estupro e suas mães deixaram-nas viver; tornaram-se militantes, cada uma criou uma ong para persuadir as mulheres americanas estupradas a conceberem os filhos, mostrando a elas o porquê de tomar esta decisão. Essas obras mostram o resultado de anos de vivências, observações e acompanhamentos de mulheres. O caso delas foi divulgado num belíssimo artigo do Mídia Sem Máscara, “A criança “indesejada””, que eu até transcreveria aqui, mas o site atualmente está em manutenção. É preciso que os pró-vida tratem mais especificamente desse caso, pois é nesse ponto que muitos que se consideram contra o aborto vacilam.[2]

Não estou pedindo aos outros algo que eu mesmo posso fazer, ao menos fazer bem. Pessoas mais importantes e articuladas da Igreja e de movimentos pró-vida têm muito mais condições de fazer um evento como o que eu defendi em relação à visibilização do nascituro. E, quanto à tradução, eu leio inglês muito mal, e não vejo por quê caberia a mim tal trabalho. No entanto, tentei arranjar um tradutor e procurei o Pe. Lodi, do Pró-Vida Anápolis, mas que me informou estar muito ocupado em estudos de Bioética. Tentei também o bispo Dom Petrini, a quem tenho como amigo, mas por intermédio de nosso colega Vinícius M. de Oliveira, e ainda tenho de me informar sobre como foi a conversa. Se eu não conseguir alguém, ficará registrada aqui minha tentativa de fazer algo quanto a esse assunto tão delicado.

Espero não viver o mesmo que o dedicado mestre Olavo de Carvalho, que não conseguiu realizar coisas importantes pelo Brasil por não ter conseguido o apoio necessário. Presumo que tal não irá ocorrer, pois, ao menos no que tange a luta contra o aborto, tem muita gente mobilizada nesse país. Se acontecer, não deixará de ser surpreendentemente chocante.

Imagem: a bela Makimaa, que teve a oportunidade de nascer, em participação especial na March to life.

[1] Lembram da pesquisa anunciada quando a Folha de São Paulo publicou um dossiê sobre o jovem brasileiro? Se a estatística não se referia à população total, ao menos se referia a essa parcela, o que não é bom augúrio.

[2] Não direi que eu também não tenho meu recuo em certos casos sensíveis. Embora seja contrário ao aborto de indivíduo concebido por estupro, vacilo quando o objetivo é salvar a vida da mulher em quadros clínicos complicados (o que é muito raro devido à medicina, e que inclusive não foi o caso dessa garota de Alagoinha), quando a intenção dela é se proteger. É natural que alguém queira salvar a própria vida, e é por isso que num acidente de carro o motorista instintivamente joga o carro para a esquerda, de forma que o impacto maior acaba se concentrando no carona, que é quem geralmente morre. Não me sinto capaz de exigir da mulher que se sacrifique, pois não sei se eu teria coragem de me sacrificar; admito que esse meu pensamento talvez seja resultado da corrupção social que abordei no meu artigo precedente, que enfraquece a coragem e a moral das pessoas, fazendo com que estas não sejam capazes de fazer o que aparentemente seja o pior para si. Mas, independentemente das origens, essa é a minha atitude em relação a esses casos fatais que, felizmente, a medicina fez o favor de escassear e que, oxalá, irá reduzir quase ao ponto do risco de uma gravidez convencional, se já não o fez.













Nossa querida Julie M. Não é linda?

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O fenômeno da carnavalização da vida numa sociedade oca e deformada

Cultura e ordem social
As diferentes sociedades que existiram na história humana tiveram um importante ponto em comum: a demarcação entre a esfera cultural superior, ligada diretamente às elites e à classe sacerdotal, mas na qual participava toda a sociedade, e a esfera cultural inferior, mais popular (o que não quer dizer “ruim”, mas sim que se subordinava a uma hierarquia cultural, e que não raro é mais rica e bela até do que a “cultura superior” de nossos tempos); a primeira tinha o papel de ordenamento do cosmos social, é nela que se situa, por exemplo, os pensamentos agostiniano e tomista, e a elaboração da teoria das três ordens (clero, nobreza e servos) por um bispo medieval, enquanto que na segunda situava-se, por exemplo, o carnaval (na forma como José Rivair Macedo explica no livro “Riso, cultura e sociedade na Idade Média”, muito bom para quem quiser ler sobre a cultura popular do período e entender melhor sobre certos aspectos que procurarei comentar, com bem menor competência, nesse artigo) e determinados tipos de eventos sociais. A representação da subversão era encenada nessas celebrações, mas ela cumpria seu papel dentro da ordem, invertendo papéis temporariamente e mantendo incólume a estruturação cósmica “permanente”- pois essas sociedades conheceram a decadência, por motivos que já julguei serem materiais, depois materiais-culturais e que hoje comento com mais reduzida segurança. Era o caso de uma celebração na qual, por um dia, alguém do povo fazia o papel de rei, sendo executada no final – a explicação que conheci foi: saciava-se o desejo de subversão das pessoas, mas no fim tudo voltava a ser como era antes, conciliando aquele desejo com a necessidade de preservar o status quo.[1]

Nessas sociedades, havia espaço para o deboche, para a zombaria e o maldizer, e religiosos e reis não se julgavam tão superiores a ponto de pretender estar fora do alcance disso (hoje existe uma arrogância inconcebível para aquela época, e por parte de indivíduos muito mais medíocres). Mas existia um elemento concernente à seriedade muito mais poderoso e determinante que hoje. As coisas divinas “podiam” ser consideradas superiores, e ofensas a elas ofendiam as pessoas, que tinham o direito de se ofender, atitude que hoje é considerada “radicalismo” religioso, “intransigência”, “fanatismo” etc. etc. “Mas você não é ateu??”, alguém pode perguntar. Sim, mas isso não me tira a legitimidade para fazer essa crítica.[2] E outra coisa muito importante: eles realmente levavam a morte a sério.

A presença da morte, tratada como uma ausência, e o caráter de nossa época

A humanidade sofre um processo de escandalosa infantilização, alienação, mediocrização[3], aviltamento, rebaixamento, imbecilização e por aí vai. As pessoas evitam encarar a realidade, e criam um mundo de fantasia cor-de-rosa para viver nele. Isso acontece o tempo todo na vida cotidiana, e as pessoas não se dão conta e não se chocam. É o caso do desarmamento compulsivo e de sua restrição exacerbada o mais que se puder. Um adulto (isso, lembrem-se, adulto) de 21 anos não pode ter uma arma de fogo, nem uma pistolinha, nem um revólver; Alexandre Magno comandou legiões aos 15 anos! Isso, aos quin-ze!! E não era um caso excepcional, pois o sujeito era ensinado a ser homem o quanto antes, ao contrário de hoje, em que se é ensinado a o ser o mais tarde possível, ou, se possível, a não o ser até o fim da vida. Um adulto de hoje não vale uma criança de ontem, e é nisso que somos educados: na baixeza, na covardia (quem não aprende espontaneamente pela convivência, é forçado pela ditadura “politicamente correta” a aprender a se acovardar), na imaturidade crônica que toma conta de “adultos” cada vez mais idiotas e que não aprendem a crescer. O caso da morte é significativo.

A morte é uma intimação à responsabilidade, a uma vida com sentido, e os povos tradicionais sempre se pautaram por ela. Os antigos egípcios viviam em função da morte, e procuravam economizar seus recursos para custear uma mumificação – ao menos os que podiam fazê-lo, as classes mais altas, às quais se juntou, posteriormente, um conjunto maior de pessoas capazes de pagar. Era notoriamente uma civilização inspirada pela absorção da morte para a vida do dia a dia, o que não é o mesmo que dizer que eram infelizes. Uma vez teve uma exposição de coisas do Antigo Egito em São Paulo (infelizmente, esses eventos não costumam vir para as bandas de cá...) e li sobre ela numa revista. Eu estava no ginásio, na época, mas lembro de como o comentador destacava o fato de os egípcios serem um povo de mentalidade fúnebre, e festivos, alegres! Apesar do destaque dos egípcios, isso não era muito diferente em outros povos. Era o normal.[4]

Vou abordar mais o nível individual agora, já que acima comentei sobre a relação de uma sociedade com a morte. Assim, poderá ficar mais clara a ligação entre as duas coisas. No Livro I de “A República”, Platão conta sobre os jovens atenienses, que viviam em meio a vícios e diversões, mas que, ao chegarem a certa idade, tornavam-se temerosos, devido à morte que se aproximava. [5] Quando eu era pequeno (antes do período pelo qual eu iniciei aquele meu relato), cheguei a praticar Karatê pela Aiasatsu, e precisávamos estudar uma apostila também. Lá havia um ensinamento bastante intimidador: o karateca deveria pensar mais na morte do que na vida. Isso significa o oposto do estado psicológico que tomou conta de nossa época. Não, não estou querendo ficar neurótico nem deixar alguém nesse estado; apenas chamo a atenção para o fato gravíssimo de que não buscamos aprender a maneira correta de lidar com um dos poucos fatos que podemos dizer que é certo, perfeitamente universal e determinante para a nossa existência, “existência” entendida num sentido pleno e total.

Não se trata de exigir heroísmo de ninguém. Eu me amedronto de vez em quando com esse assunto e, há poucas semanas, quando perdi um ente querido, precisei ligar para Ricardo.[6]

Deve-se acrescentar algo importante. A Contemporaneidade, que não encara a morte como as outras épocas o faziam, é justamente o período que mais concedeu espaço para ideologias tresloucadas tornarem-se referência para o governo dos povos, dando lugar a morticínios sem concorrentes na história da humanidade. Hobsbawn narra, no começo de seu “A era dos extremos” que, no começo do século, a morte de dezenas era um fato chocante e de repercussão internacional, e que nem se imaginava em contabilizar as mortes de civis na escala das centenas. As informações que ele nos dá nessa interessante passagem mostram como a morte de poucos (“poucos”?! É porque estamos no século XXI!O leitor da época analisada por Hobsbawn se chocaria comigo, e com meu caro leitor que provavelmente não se espantou com a palavra) causava mais perplexidade que a morte de milhões (não se contente com o dado, junte dezenas, centenas e assim sucessivamente na sua cabeça até formar o milhão) causa hodiernamente, “em pleno século XXI”, como diz certas pessoas com orgulho, num hoje em que defensores do nacional-socialismo e do socialismo-comunismo procuram melhorar sua situação dizendo que seus regimes não mataram como se diz, que foram alguns milhões a menos... A nossa época é a do totalitarismo – que deixou sua marca indelevelmente até hoje, só a alienação de uma ingenuidade estúpida impede as pessoas de perceberem isso- um tipo de “ordem” que consiste no seguinte: a partir do “partido”-Estado, a vanguarda revolucionária conforma os vários aspectos da sociedade da maneira que lhe pareça conveniente. Hoje, no Ocidente (êpa, é aqui) sua semente tenta germinar da seguinte maneira: a vagabunguarda diz o seguinte:

“__Não se preocupe, Joãozinho (tem mais de 50 anos), vamos cuidar de você; se alguém usar uma palavra que te magoe, conte pra gente cuidar dele. Mas me dê essa arma aí, não, nada disso, quem cuida do bandido – não seja preconceituoso, não use essa expressão fascista, ele é só um excluído pela sociedade, por você também – é o governo (governo como conhecemos + intelectuais esquerdistas). Nós protegeremos você... quê, entrou ladrão aqui, não evitamos nada?, não é assim, você tem de cobrar, não fazer nosso trabalho, nós que temos de cuidar de você e da sua família., me dê essa arma que você pode fazer uma besteira, você pode se machucar... Joãozinho, Joãozinhooo!!! Dê cá essa arma, DÊ LOGO A SUA ARMA, JOÃOZINHO! Isso, assim, e não seja malcriado que a gente coloca você pra sentar no canto, de castigo! Saiba que só queremos seu bem.”

E dá sinais evidentes de que constrói-se progressivamente um estado de coisas no qual o Estado se intrometerá cada vez mais no âmbito particular. Não é só a importante questão da arma; trata-se até de querer controlar o exercício da religião e até da alimentação do sujeito.[7]

Ao mesmo tempo que se constrói essa ditadura sobre o indivíduo comum, movimentos sociais procuram colocar-se acima das leis, e, de fato, é a ideologia (da Esquerda politicamente correta) que vem moldando a aplicação destas; numa época totalitária, ou que se almeja a sê-la, o jurídico, intelectual, religioso etc precisa estar, necessariamente, subordinado ao político.
Apenas lembro que não há vida integral sem a compreensão sobre a morte, e não há civilização sem pessoas capazes de enfrentar essa tarefa. Devemos procurar ficar à altura dela, e não evitá-la. Mas, que faz nossa sociedade moderna, que se julga superior – que piada! – às “arcaicas civilizações antigas”? Só pensa em conforto, em lazer, na cura de doenças, no creme anti-rugas, em prolongar a juventude, no jogo de futebol... É uma sociedade de frivolidades, cada vez mais “politicamente correta”, viciada, burguesa (nada de coro com o vulgar discurso anti-burguês da Esquerda; condeno o aburguesamento que atinge todas as esferas da sociedade, quando a burguesia tem o seu papel correto ao se manter em seu lugar devido, sem pretender substituir o que há de superior a ela, sem pretender substituir o que é aristocrático e merece ter um lugar privilegiado na sociedade civilizada), imoral e tecnicista, que acha que o avanço (ah...o avanço!) da ciência e da técnica resolverá os desafios que se impõem à espécie humana, que são maiores do que a mente viciada e preguiçosa de telespectadores do BBB, Faustão e Fantástico podem imaginar.

Carnaval como mero evento circunstancial, e Carnaval como horizonte da existência, numa época infeliz e alegre

Depois dessa prolongada introdução, posso entrar propriamente no tema que intitula o artigo. O carnaval, festa cujas origens são apontadas na Velho Mundo de séculos atrás, tornou-se a festa brasileira por excelência, que atrai a cada ano muitos turistas, seduzidos também por propagandas libidinosas do nosso país (apesar das campanhas em sentido contrário que autoridades brasileiras procuram fazer há anos, segunda cita o Arcebispo do Rio, D. Eugênio Sales, numa Mensagem em 2004.) É apontada na mídia como a maior festa popular do mundo – esse ano, foram 2 milhões de pessoas no Salvador, onde domina o axé. No do Rio de Janeiro, provavelmente o mais famoso até hoje, mulheres nuas, em grau maior ou menor, requebram ao som do samba. Como eu acho questões morais muito difíceis de se responder, prefiro não julgar se o Carnaval é mau ou bom em si (claro que comemorações como a de Olinda não estão em questionamento aqui), isso é, no espaço reservado para ele. Mas, sem tomar como foco a análise particular e essencial do Carnaval, e, em vez disso, considerando a análise desse evento na manifestação circunstancial que ele tem na sociedade em que vivo, considero: ele cumpre, dentro de um contexto social maior, um firme papel na nossa degeneração moral.

Contarei um episódio para demonstrar um ponto. Uma vez, uma menina de pouca idade, criança, pediu a mãe uma camisinha, para ir ao Carnaval. Apesar do susto da mãe, a filha era inocente: ela viu as propagandas que diziam para ir com camisinhas para o Carnaval ( Pergunto: por quê? Precisa-se delas para pular, para ouvir o som?), e, como ela ia a um Carnaval - não lembro se era festa de escola ou essa coisa selvagem nas ruas mesmo - pediu à mãe a camisinha, pois como garota inteligente que aprende o que os mais velhos ensinam, aprendeu que precisava-se dela para sair nessa festa, como proclama a TV. Li essa história num módulo na época de escola. É uma demonstração de um dos aspectos mais grosseiros do Carnaval: a sexualização instigada, forçada e insuflada pela mídia, pelos artistas, por quem faz a imagem dessa festa. Atentem-se, nada nesses meios (in)culturais reflete simplesmente a demanda da população, antes procuram moldá-la atribuindo-lhe certos contornos e características desejados (por algum sociopata). A revista Catolicismo cita interessante estudo sobre a opinião do brasileiro sobre essa festa (“Maioria dos brasileiros rejeita imoralidade carnavalesca”- http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/A279FFD8-D0B7-B67F-B1570335ABF2F3FF/mes/Abril2004 ), segundo a qual ela conta com uma rejeição de 57,4%, índice impressionante para algo tão alardeado aos quatro ventos como coisa maravilhosa e fascinante.










(Com esta, ainda é preciso ir com outra roupa para o Carnaval?)

(Não esqueçam, hein?!)

Nesse ano, o Correio da Bahia informou que a Secretaria da Saúde iria distribuir (a essa altura, está distribuindo) camisinhas e pílulas do dia seguinte durante o Carnaval. É profundamente revoltante esse tipo de notícia. Embora os grupos pró-aborto venham tentando legalizar a prática homicida com muita insistência, o fato é que nossa Justiça entendeu por bem não legalizá-la, entendendo que assim estaria protegendo o direito à vida de todos. Mas essa gente que ocupa os governos pouco se importam com as leis (possuem mentalidade revolucionária, e acham que as leis que não são feitas por eles não possuem nenhum valor), e as desobedecem flagrantemente. As tais pílulas são “substância abortiva”, vedada no juramento de quem se forma em Medicina, e eliminam um embrião, resultado da fecundação do óvulo pelo espermatozóide, que não é nem um nem outro, mas o ser particular que se origina da fecundação. Abusos como esse derivam do hedonismo que o jurista Ives Gandra Martins denuncia quando comenta a questão do aborto no Brasil. As pessoas querem prazer fácil, sem responsabilidade. Acrescento: são adultos infantilizados, que querem se divertir com suas genitálias como uma criança se diverte sem preocupação com seu brinquedo; aliás, essa é uma palavra muito comum nas campanhas da camisinha: se for “brincar”, use camisinha! Se brincar errado, é só eliminar o ser resultante. O Estado garante a sua diversão, a lei sobre vida vem depois.

Mas esse Carnaval é muito mais que uma mera festa que acontece numa semana de fevereiro. Permanece incompleto lembrar das micaretas e dos carnavais fora-de-época que acontecem durante o ano inteiro. O Carnaval tornou-se uma metáfora, algo que representa um sentido para as pessoas. Hoje, são privilegiados os que vivem cada dia, vendo um sentido nele próprio. Uma propaganda que está saindo nessa época é reveladora: mostra o desenho cinzento de uma policial, com expressão de desânimo, e uma frase do tipo: “Durante 364 dias do ano, Fulana é policial”. Ao lado, vem: “Na quarta de Carnaval, ela é Odalisca!”, com a imagem a cor da personagem fantasiada e com a maior expressão de felicidade. Há outras semelhantes, com outras profissões. O interessante de se notar é o seguinte: muitas pessoas suportam, cheias de insatisfação, uma semana de trabalho à espera do fim de semana. E esperam os meses com essa rotina passar para ter um tempo de férias – e tirar férias hoje, já não é algo certo, pois o sujeito pode ter de trabalhar nesse período. Em resumo, as pessoas vivem sem objetivos, esperando um momento de alegria extremamente transitório, ou procurando esse momento sempre que possível, na hora do programa de TV, p.ex, conformando assim, a um sofrimento na mediocridade, alegrias fúteis na mediocridade, que valem meramente como descanso para a próxima estação, mas que não desperta em ninguém a dimensão de sua vida por inteiro. O que o século passado trouxe foi o sabor amargo da tragédia, com o insosso da vida ordinária na sociedade de mercado cada vez mais separada dos elementos supra-temporais da civilização que são a fonte da alegria de existir nesse mundo.

Uma sociedade em que o carnavalesco – não em sentido estrito da festa pré-quaresma, mas no sentido amplo da atitude psicológica e cultural que está presente a todos os momentos em nosso meio – ocupou papel principal, é uma sociedade que realizou a subversão a que me refiro no primeiro parágrafo. Diante disso tudo, as pancadarias que acontecem na avenida são coisa pouca, um sintoma menor (E olhe que essas violências baixas não são pouco revoltantes!). O pior é que a isso se soma os caracteres peculiares do período em que vivemos. Fato muito significativo quanto a isso aconteceu há alguns anos, quando um carnavalesco quis colocar, no desfile de sua escola de samba, um carro alegórico representando o Holocausto, com bonecos representando os judeus mortos, a até com pessoas fantasiadas de nazistas e um Hitler.[8] Entendido simbolicamente, é o ponto de articulação entre os dois aspectos freqüentes de nossos dias de Kaly Yuga[9] que comentei aqui: é a tragédia carnavalizada, a representação da hecatombe humana ao som de samba. Quando não resta nada que se considere digno de veneração e respeito, a dignidade cabe a indivíduos fúteis do show business e às vaidades vãs desse meio, enquanto que a vida num ambiente de superficialidade vira Carnaval e, portanto, a morte também.

[1] Não sou a pessoa mais adequada para fazer essas considerações antropológicas, e lamento os erros que posso estar cometendo, e entendo que possa haver críticas ao esquematismo que uso e exemplos de comunidades que não se encaixam no modelo que apresento. Mas mesmo que seja esse o caso, creio que meu objetivo principal estará a salvo, que é o de defender que existe um tipo de hierarquia cultural que não pode ser invertida, ao menos no Ocidente. René Guénon, explicando o caso da Índia, aponta que essa foi a civilização na qual o pensamento metafísico foi mais estendido, e que, para se ligar à tradição, o hindu precisava dominar esse conhecimento em algum grau, a depender de suas capacidades intelectuais. Tenho esse caso em mente quando pressinto as possíveis limitações do esquema que apresento naquele parágrafo.
[2] Não vou comentar esse ponto aqui, porque é relativo ao assunto de outro artigo, que completará aquele que escrevi parcialmente; por enquanto, apenas veja se consegue enxergar um sentido nisso. Talvez você leia aquele artigo já em posse da resposta.
[3] Desculpem o possível neologismo.
[4] Desde a época de escola que eu tenho uma dificuldade tremenda de entender como alguém acredita de verdade no Carpe Diem no sentido de se esforçar por ser alegre o tempo todo; achava que eu não conseguia entender, hoje vejo que essa idéia é um equívoco, não a do Carpe Diem, que é valiosíssima caso entendida adequadamente, mas a da referida interpretação.
[5] Na verdade, Platão expõe as idéias em forma de diálogo, de forma que essa passagem deve constar da fala de algum interlocutor que participa da história. Mas não estou com o livro em mãos, então, perde-se os detalhes.
[6] Eis uma pessoa que se pode dizer que é fantástica, pois é na dor que se vê de que é capaz o bálsamo, e é na profunda dor que aflige o ser que se vê de que é capaz um bálsamo que se oferece para a alma humana.
A pessoa é minha avó materna; tomara que a morte, essa misteriosa, a tenha na verdade levado para algo bom.
[7] Lembra da listinha de alimentos que teriam a propaganda proibida na GB, incluindo catchup e amendoim, dentre inúmeros outros? Quem acompanha Olavo de Carvalho está familiarizado com essas coisas todas.
[8] (Essa nota eu escrevi para um outro artigo, no qual ataco a retórica dos que empunham a bandeira do Estado laico para defender qualquer barbaridade, mas vejo que ela interessa ao tema presente, por isso publico parte dela aqui, com algumas modificações.) Em janeiro, conheci um caso cuja absurdidade ultrapassou todos os limites que eu havia imaginado até o doloroso momento. Na sala de espera de uma clínica, eu lia uma meteria de uma “Época” velha sobre uma polêmica que aconteceu quando um carnavalesco quis colocar, no desfile de sua escola de samba, o supracitado carro alegórico; uma federação israelita conseguiu vetar esse carro na justiça, e houve quem condenasse isso como censura, e quem ficasse ofendido com a idéia do carnavalesco. Um psiquiatra entrevistado pela revista e um dos defensores de tal carro, comemorou algo equivalente a “no Brasil, o Estado é separado da religião”. Ou seja, numa grave questão envolvendo os sentimentos de tantos judeus, para os quais o Holocausto é fato de memória recente, havendo até no Brasil quem passou por Auschwitz, um super-imbecil consegue fazer um comentário completamente desvinculado do que se discutia, só pelo intuito de atacar gratuitamente a religião.
[9] Para os hindus, último ciclo que precederá a destruição do mundo, caracterizado por todo tipo de absurdidades.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Uma nova proposta para 2009 - informe para quem ainda não participa do GEPC

Um caro membro da nossa comunidade nos orkut nos perguntou sobre a retomada das atividades nesse ano. Essa é parte da resposta, que prometi publicar aqui, embora o faça com certo atraso. Abaixo vai a sugestão que eu e Vladimir Lachance enviamos à lista de emails do grupo, conhecida portanto só pelos atuais membros, e que obteve unanimidade até o momento, adaptada para publicação neste blog.

Fabrício Soares, 8 de fevereiro


Consideramos precisa a formação de subdivisões que estudem mais algum aspecto específico relacionado ao assunto geral do "pensamento conservador". Nós continuaríamos com as reuniões de quinta-feira, 14 horas, mas formaríamos pequenos grupos (duplas ou trios) de estudo/pesquisa que focasse algum aspecto do conservadorismo, que poderia se encontrar outro dia da semana, ou que trabalhasse mais virtualmente mesmo (isso dependeria mais de cada grupo, que escolheria uma forma de trabalhar).

Não haveria uma quantidade limite de subgrupos em que cada um poderia contribuir; isto ficaria a cargo de cada pessoa, de acordo com sua possibilidade e afinidade com o tema de estudo. Mas a pessoa que assumir a responsabilidade com mais de uma equipe deve procurar honrar com os compromissos propostos por ela (a equipe), e não relaxar, pois do contrário as atividades não poderão ser realizadas com êxito. Que cada um participe de quantos grupos lhe agradar, mas sem "mangueação". Nas reuniões de quinta-feira, do "grupão", cada subgrupo – lembrem-se, não devemos nos fragmentar* ao adotarmos esse novo funcionamento, que esperamos que adotemos – coordenará a discussão de vez em quando, de forma que todos apresentem e debatam o resultado de seus estudos. Se não ficou bem explicado, por favor perguntem. E dêem sugestões também. Que façamos as emendas necessárias. Esperamos que não se recuse a proposta inteira. Também podemos explicar mais porque achamos necessário fazer isso. Enfim, nós estamos aqui para explicar melhor, pra justificar, pra discutir qualquer aspecto relativo ao que estamos lhes enviando.

* No sentido de encararmos as outras subdivisões como algo que não nos diz respeito, ou diminuirmos nosso intento de aproximarmos-nos uns dos outros. Pois o maior sentido deste grupo de estudos, para nós, é principalmente formar laços com os outros membros, podendo encontrar nas pessoas do grupo verdadeiros amigos a quem possamos recorrer.

Imaginamos alguns temas possíveis para servirem como exemplos:

A) Estudo geral sobre o que é conservadorismo – a que se refere "conservar", tendências e pensadores, sociologia (para saber como o "conservadorismo" se desenvolve na sociedade, comportamento e reação das classes, relação com as circunstâncias históricas – ou seja, não é estudar se as idéias são verdadeiras ou não, mas sim um estudo sociológico do conservadorismo ou conservantismo), grandes expoentes, obras e o que mais caiba neste tópico.

B) Economia e conservadorismo – pode-se estudar como os conservadores aderem às correntes econômicas, como conservadores-liberais, a Nova Direita, ou a condenação que outros conservadores fazem do capitalismo como inimigo das tradições e dos valores, ou um recorte que interesse mais, como o conservadorismo e o liberalismo econômico apenas.


C) As tradições no sentido perenialista, metafísica etc.


D) Conservadorismo x revolução – gnosticismo, messianismo, modernidade, Eric Voegelin


E) A Universidade e o pensamento de Esquerda.


F) Catolicismo e conservadorismo.


São algumas propostas, podemos criar outras, dependerá de nossos interesses.Bom, reunimos aí a maior parte do que pensamos até agora. Caso lembremos-nos de algo mais, acrescentaremos. (Acrescento algo evidente: quando estivermos executando a proposta, certamente aparecerá coisas que não pensamos ao formulá-la)
Abraço a todos, Fabrício e Vladimir.

Estamos à disposição!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Sobre a privatização da universidade pela esquerda, com considerações sobre o Vestibular 2009 da UFBA e um apelo sobre o futuro

O domínio da Esquerda sobre os meios de educação em geral, e sobre a universidade em particular e em especial -se não conseguiram expropriar os de produção, ao menos expropriaram os de ensino - é tão patente, consumado e costumeiro que as pessoas lidam com isto como se fosse um fato natural, imanente à ordem do Universo e das coisas, talvez até estabelecido por Deus.

Os esquerdistas - comunistas, socialistas, anarquistas, "politicamente corretos" etc - se sentem donos (hum, donos) da universidade, ao menos das faculdades de ciências humanas, que existem para refletir e sustentar suas ideologias, suas "visões" de mundo, segunda sua concepção. Essa atitude mental é tão estabelecida que é fácil citar vários exemplos que são consequências desse status quo, status quo estabelecido para favorecer o predomínio de certas correntes sobre a sociedade.

Ex.1. Na lista de emails dos estudantes de meu curso, me cansei de ver gente, com a intenção de contestar algumas coisas que lá eram escritas, dizer: "o que você tá dizendo é uma idéeia conservadora", "isso é de direita" etc etc. Ou seja, não é mais necessário se discutir a verdade/mentira das proposições: a distinção entre esquerda/direita substitui todas as outras tradicionalmente usadas nos debates filosóficos, teológicos, científicos, e a militância substituiu a intelectualidade, entendida esta no seu verdadeiro sentido. O sinônimo de bom, belo e verdadeiro é "esquerda"; é óbvio que essa não é uma forma séria de pensar, mas um método de manipulação que consiste em manejar preconceitos (não no sentido deformado por eles: me refiro ao "pré-conceito" de papagaios que repetem discursos que viraram senso comum no meio universitário antes de avaliar seriamente a realidade) para desacreditar uma posição sem ter de correr os riscos de discutir seu centeúdo; uma proposição "conservadora"/"direitista" está previamente errada, e segue-se utilizando de rotulações para "provar" que o outro lado está equivocado.

E mais: não é surpreendente que apareça um dizendo: "Como pode um estudante universitário ter idéias tão conservadoras?!" Ou seja, demonstram que acreditam que na Universidade só deveria haver eles! Desenvolverei esse ponto mais adiante.

Ex.2. A primeira eleição que ocorreu quando saí da esquerda foi a passada (estou escrevendo a continuação do meu artigo anterior, explicarei esse período nela). Quando uma pessoa querida perguntou em quem eu ia votar, eu respondi "em Imbassahy", e, por esse e outros momentos mais significativos, ela me disse: "Como pode, você acabou de se formar em História, devia ter outra cabeça, ser mais avançado", "devia votar em Pinheiro ou Hilton", "ser mais consciente". Só que não acredito mais que muitas dessas coisas que nos são ensinadas são "consciência", mas sim vícios que, pela repetição e pelo fato de imperarem nos meios letrados, amealham (suprema)autoridade.

Ex.3. Há, no orkut uma comunidade "Sou Historiador! Não comunista", que, na sua descrição, demonstra eloqüentemente o que estou dizendo: "Esta comunidade não foi criada para falar mal da linha comunista e socialista de pensamento. Afinal, somos pessoas civilizadas que sabem respeitar as tendências e maneiras de ver o mundo.Mas não aguento mais ser rotulado de comunista, socialista, quando falo que fiz faculdade de História." ( vejam http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=1157812 )

Ex.4. Numa vez em que visitei a escola onde estudei, hábito que mantenho para sempre reencontrar professores, funcionários e outras pessoas com quem convivi por anos, conversei com uma ex-professora que perguntou algo como: "E aí, como está, muito revolucionário??", ao que respondi "Não, não, eu saí disso!", ao que redarguiu com algo como "Os estudantes de sua área são muito revolucionários". "É verdade, mas eu não, eu deixei isso!"

O quinto exemplo que abordarei, terá um tratamento especial.



Manipulação acintosa no Vestibular UFBA 2009


Farei primeiramente um balanço sobre as provas de humanidades desse vestibular para mostrar, antes de apontar a manipulação a que me refiro, algumas tendências gerais do que nosso meio acadêmico considera relevante, sem pretensão de fazer um relatório.

Na prova de Português da 1º fase caiu um trecho de Eni Orlandi e duas letras de música, de Caetano Veloso e Chico Buarque, além de mais uma daquele na prova de Redação da 2ªfase. Quatro questões (40% da prova) tratam desses três textos, cujos conteúdos são, de alguma maneira, ralativos à cidade, ao espaço urbano. A primeira procura analisar seu objeto pela perspactiva do "discurso", tema que interessa nossa academia de uma maneira muito forte, como se, julgando não ser possível compreender a realidade das coisas, se desejasse simplesmente compreender o que as pessoas falam das coisas. E a literatura erudita, da "alta cultura", quase desaparece em provas que se preocupam majoritariamente com o "popular" e o etnológico.

Na prova de Ciências Naturais, a questão 17 diz, em seu enunciado, que "A obtenção de células especializadas a partir de células-tronco embrionárias pode permitir a recuperação de tecidos comprometidos, relacionados a diferentes danos - inclusive no sistema nervoso - até então considerados irreversíveis." Ora, o que significa "pode permitir"? Pois as pesquisas de sucesso nesse campo foram feitas a partir de células-tronco somáticas, ou seja, do corpo do indivíduo; ainda não se conseguiu curar enfermidades com técnicas advindas de pesquisas com células-tronco embrionárias. A expressão "pode permitir" está aí como substituto de "pode vir a permitir"? É, no mínimo, uma frase que induz ao erro, e que foi colocada para favorecer a posição dos que defendem tais pesquisas com seres humanos. Tendo isso em mente, interpreto as entrelinhas da alternativa (16), correta, que diz "As discussões éticas relacionadas ao estudo de células-tronco decorrem, entre outros aspectos, do uso das células-tronco embrionárias que, sob determinada explicação, se contrapõe a uma proteção à vida humana em seus diferentes estágios." Prestem atenção em "sob determinada explicação" e como a expressão produz uma sensação de rejeição à explicação referida. Os avaliadores reproduziram de forma íntegra tal argumento, que diz que certo tipo de pesquisa "se contrapõe a uma proteção à vida humana em seus diferentes estágios" e não que isso é feio e Papai do Céu não gosta; não obstante isso me deixe feliz, a justa referência ao argumento propeiamente ético, a frase "sob determinada explicação" produz na mente do leitor a idéia da oposição religiosa, usada para desqualificar a posição dos que se opõem ao uso de embriões HUMANOS em laboratório.

Na 2ª fase, a prova de Português não cobrou gramática diretamente, tais conhecimentos serão avaliados de acordo com o uso da língua que o candidato faz para responder às 6 questões, que perguntam sobre conhecimentos linguísticos, literários e de interpretação textual. Prevalece nestas questões um interesse sobre temáticas sociais e cotidianas, seja devido às obras literárias, que não são selecionadas de acordo com estilos e períodos literários, como a UFBA deixa bem claro, mas de acordo com temas considerados de atualidade e de relevância. Esse tipo de foco negligencia assuntos mais elevados, em termos civilizacionais (vide seção 11 da Parte I, sobre Otto Maria Carpeaux, em "O futuro do pensamento brasileiro", de Olavo de Carvalho, aliás, livro que deveria ser lido por todo estudante brasileiro, ao menos os que desejam se dedicar às humanidades, para que se conheça as perspectivas que há para as nossas áreas e para nossa cultura, e para que se possa traçar conscientemente os percursos para uma vida intelectual proveitosa, também para o Brasil e para a humanidade; uma observação: "humanidades" não designa a mesma coisa que se classifica por "ciências humanas", sendo mais ampla e incluindo o estudo de Letras, por exemplo).

A prova de Redação foi sobre as diferentes realidades da família brasileira, tema sempre oportuno. Dentre os textos apresentados como base para reflexão, não havia nenhum que louvasse qualidades da família, sendo eles, nos melhores casos, de tom neutro.

Não há, quanto à prova de Geografia, considerações a fazer quanto à presença de ideologia. Mas, na de História, a questão 06, a última, dizia: "Em relação a atitudes preconceituosas e discriminatórias contra as chamadas "minorias" étnicas, de gênero, portadores de necessidades especiais, entre outras, aponte duas medidas tomadas, no Brasil, para combater essas atitudes." Essa questão, que parte do pressuposto de que o repúdio a essa "diversidade de gênero" é puro preconceito, vale 20 pontos, a pontuação máxima de uma questão da prova, contra o menor valor de 10. Sem dúvida, trata-se de uma questão muito importante, mais até do que a queda de Roma ou a Revolução Francesa.

Enfim, a parte principal, que deixei para o final. Na prova de Ciências Humanas, na 1ª fase(Questões de 11 a 28), diz a primeira:

"A análise do texto ( um trecho de M. Chauí e Oliveira que diz que a Filosofia exprime as questões colocadas pelo homem em cada época, que "procura enfrentar essa novidade", sobretudo "propondo novas perguntas") e os conhecimentos sobre o pensamento filosófico (grifo deles, mesmo) nas diversas fases da História permitem afirmar que a Filosofia:

(01) proposta por Santo Agostinho expressou a busca da conciliação entre as crenças do cristianismo - uma nova religião - e o pensamento filosófico greco-romano, introduzindo o conceito de dogma para impedir o avanço do pensamento crítico."

Além da ênfase de valor duvidoso sobre o enfoque da Filosofia sobre a novidade, essa questão traz uma agressão absurda, estupidamente inconsequente e preconceituosa ao pensamento agostiniano, fundamental para o pensamento religioso de muitas pessoas devido a sua importância para a Igreja e até para os luteranos, pelo menos. Segundo ela, Sto. Agostinho introduziu "o conceito de dogma para impedir o avanço do pensamento crítico." O(s) resposável(eis) por isso não merece(m) respeito, pois abdicou de toda seriedade e cientificidade para exigir apenas conhecimentos objetivos, e cobrou a adesão a uma opinião sem comprovação, anti-cristã e anti-católica, para que o candidato recebesse a pontuação correspondente.

A questão 13 traz uma porcaria de trecho dizendo "Considerada por uns um direito inviolável do ser humano e, por outros, um patrimônio que deve ser utilizado produtivamente pelas diversas gerações, a idéia de propriedade privada da terra segue sendo interpretada como conquista adquirida, seja ela política ou econômica."

A partir das informações do texto e com base nos conhecimentos sobre propriedade privada, pode-se afirmar:

(16) O direito à propriedade privada, praticado na sociedade industrial capitalista, aprofundou as desigualdades sociais.

(64) A permanência da concentração da propriedade da terra e a expansão do agronegócio, no Brasil dos dias atuais, contribuem para aprofundar os conflitos sociais em torno da política de assentamentos."

Primeiramente, o leitor da questão deve decidir se é a favor da propriedade enquanto "um direito inviolável do ser humano" ou "um patrimônio que deve ser utilizado produtivamente pelas diversas gerações". A vigarice intelectual do trecho de Andrioli reflete o caráter de quem formulou a questão. O confronto entre capitalismo e socialismo demonstrou que os bens são utilizados mais produtivamente no primeiro do que no segundo, ou seja, enquanto propriedade privada. E precisa concordar com as supracitadas proposições para receber a pontuação, coisa que me recusei a fazer.

Uma diz "O direito à propriedade privada, praticado na sociedade industrial capitalista, aprofundou as desigualdades sociais."; mas como se pode mensurar isso? O capitalismo trouxe novas desigualdades, sim, decorrentes de novas formas de distribuição de riqueza. Mas, sendo que nos séculos anteriores haviam formas de desigualdade fortemente estabelecidades de desde antes do nascimento da pessoa, contra a qual esta não podia fazer muita coisa, diferentemente do capitalismo que permite a competição, no caso a desigualdade do Antigo Regime que confrontava camponeses pobres com uns poucos "nobres" imersos num luxo ostentoso e plenamente reconhecida por títulos, plenamente estabelecida, como se pode dizer que "o direito à propriedade privada aprofundou as desigualdades sociais"?! O avaliador pode demonstrar que a desigualdade do capitalismo é mais profunda que a anterior? Tal questão é sem objetividade, sem base material, concreta, só servindo para despertar sentimentos anti-capitalistas nos concorrentes a uma vaga na universidade, com base no difundido preconceito contra a desigualdade.

E a que diz " A permanência da concentração da propriedade da terra e a expansão do agronegócio, no Brasil dos dias atuais, contribuem para aprofundar os conflitos sociais em torno da política de assentamentos." não é, contrariamente ao que diz o gabarito, verdadeira, mas sim, falsa. O que aprofunda tais conflitos é a ideologia esquerdista que procura semear a discórdia em todos os espaços da sociedade, inclusive no campo. Existe muita terra disponível no Brasil, para quem desejar consegui-la de forma civilizada. Num encontro da comunidade católica "Comunhão e Libertação", um casal (não lembro do nome, mas qualquer um do movimento os conhece, pois são duas pessoas muito importantes para a CL) deu seu valiosíssimo depoimento sobre como se afastaram da influência da Comissão Pastoral da Terra, dominada pela Teologia da Libertação, cujo procedimento consistia em invadir terras e exigir do governo a sua propriedade. Tal método nunca rendera fruto nenhum (nem creio que seja esta a intenção, dar a alguém uma vida boa sob o capitalismo, fazendo-o se conformar com o sitema em vez de procurar a revolução) mas quando iniciaram um novo grupo que se mobilizou para amealhar dinheiro e comprar terras à venda, conseguiram adquirir uma boa fazenda que lotearam e fizeram progredir espantosamente, de forma que cada vez mais e mais pessoas decidiram fazer parte, mesmo não sendo católicas mas muitas vezes protestantes, pois hoje há ali inclusive ensino superior. Então, os conflitos dos quais esses heróis participaram no tempo em que eram manipulados pela CPT eram causados pela concentração fundiária ou pela ideologia revolucionária? Resolve-se um problema eliminando-se a sua causa; se eles resolveram sem abolir a "concentração da propriedade da terra" é porque este não era o motivo.

A proposição também é errada pelo que diz do avanço do agronegócio como outra causa desse problema; é mais outra falácia. O agronegócio não é bom só para grandes proprietários, mas também pode ser muito útil e favorável para as propriedades familiares, como são denominadas as pequenas (não creio que as grandes não o sejam, só por causa do fato de não trabalharem pai, mãe e filhos na roça), conforme explicou uma vez um monitor numa disciplina da faculdade. Conforme ele ensinou, a família pode valorizar o produto de sua atividade ingressando no agronegócio, e há no Brasil terras disponíveis para plantio equivalentes à área dos EUA.

O que há, tanto na questão 11 quanto na 13, é simplesmente o seguinte: o avaliador está numa posição de poder, pois como explicou Foucault há na sociedade diversos poderes efetivos além dos oficiais, como os de presidentes, governadores etc. A bibliotecária que pode lhe recusar o empréstimo de um livro possui poder, numa escala micro. E o que ele faz com isso, nos casos em discussão, é simplesmente utilizar da força que possui para violentar a consciência de quem responde a prova, pois assim como um prisioneiro tem de dizer ao seu torturador o que este quer ouvir, sob pena de continuar sendo castigado, o candidato é constrangido a assentir com o que o(s) avaliador(es) deseja(m). Suas proposições são controvertidas, não unânimes nem provadas; não se trata da autoridade do conhecimento, mas do cargo.

A questão 16 traz um texto de um jornalista da Veja sobre novos índios descobertos, que nunca tiveram contato com não-silvícolas, e que diz que pelas estimativas há na Amazônia Legal quase setenta tribos de índios isolados - ou seja, que rejeitaram ou não tiveram nenhum contato com não índios. A política da FUNAI em relação a esses grupos é de não-interferência. Não foi sempre assim."

(08) "O extermínio das nações indígenas das áreas litorâneas e interioranas do país, ao longo de sua história, resultou da incapacidade de aqueles povos se adequarem às formas superiores e civilizadas da sociedade que se constituiu no Brasil."

(16) "A imagem dos "homens vermelhos", como descrita no texto, confrontada com imagens conhecidas dos índios xavantes e dos ianomâmis, indicam a existência de profunda diversidade étnica e cultural entre os povos indígenas do Brasil atual, contestando a interpretação homogênea da cultura indígena atualmente em voga no país.

O extermínio indígena aconteceu por causa da violência alheia, concordo; mas o problema é a negação embutida da idéia de formas superiores de nossa sociedade. Para mim e para muitos, a sociedade que foi constituída no Brasil sob a direção portuguesa é superior à de uma tribo onde se comem outros índios para adquirir suas qualidades, e onde se cometem outras barbaridades. E, se índios recusaram-se a adotar formas superiores de comportamento, pioraram sim as coisas para eles. Mas a formulação das questões também pecam por ambiguidade. Qual é "a interpretação homogênea da cultura indígena atualmente em voga no país"? Eu estou acostumado a ouvir repetir que os índios possuem diferenças culturais e blá blá blá etc etc. Então, há ao menos duas interpretações em vogas no país, a "homogênea" - palavra colocada de maneira equivocada, deveria ser "homogeneizadora" ou "homogenista", pois "homogênea" está sintaticamente errada. Fora isso, dizer que existem "profundas diferenças" devido ao fato de grupos de índios diferentes se pintar de tal ou qual jeito é muita "forçação de barra". O antropólogo é muito acostumado a observar as diferenças, mas muitas pessoas vêem mais semelhanças que diferenças entre índios que caçam e pescam e cultuam forças naturais. Vejo um pouco de razão nos dois lados, especialmente no segundo.

Mas algo muito importante, que não deve se deixar batido, está no texto citado no enunciado, que fala de índios "que rejeitaram ou não tiveram nenhum contato com não índios. A política da FUNAI em relação a esses grupos é de não-interferência. Não foi sempre assim." O final, "não foi sempre assim", provoca no leitor uma simpatia pela política da FUNAI ao remeter à oposição entre a política de interferência, que causou mortes e desaculturação, e a política da FUNAI, que deixa os índios no seu canto; faz parecer que resolvemos um problema, que adotamos a atitude que não foi tomada antes, mas deveria. No entanto, é triste saber que a tribos indígenas não foram dadas oportunidades de conhecer nosso modo de vida e adotar o que tiver de melhor em cada um para eles. Leiam: "que rejeitaram ou não tiveram nenhum contato com não índios". Em várias tribos na Amazônia, crianças indígenas (e não estou falando de aborto, mas de seres cuja humanidade os abortistas ainda não contestam, de seres que já nasceram, andam, falam e choram, ou, choram visivelmente) são mortas devido à política de "deixar de lado" da FUNAI. A quem não chegou a repercussão do caso de Hakani, veja http://www.midiasemmascara.org/?p=7442 ou diretamente no site Hakani.org ; reparem especialmente na reação de um ex-presidente da FUNAI, muito significativa para o que abordo.

Eliminei de minha análise outras questões que originariamente eu havia incluído nesse texto. Não pretenderei completude dessa vez, e acredito que o que foi escrito mostra, com bastante evidência, um certo espírito presente na prova do vestibular da UFBA, e que é muito lamentável mas não surpreendente, porque reflete um espírito muito forte em nosso meio acadêmico hodierno. Retorno agora para a questão do Exemplo 1, para concluí-la: a Universidade é espaço para "progressistas", para esquerdistas, os conservadores não fazem jus a ela? Há, sem dúvida, grandes nomes da intelectualidade conservadora, mas esse fato é desprezado pelos que se arrogam donos da sabedoria conferida pela academia; basta pensar em pessoas como Gilberto Freyre, Miguel Reale, François Furet, Pierre Chaunu, Allan Bloom para se dar conta disso. Serei breve em meu desfecho: cabe aos insatisfeitos com a situação denunciada lutar para garantir seu espaço e sua liberdade na academia. A esquerda tem projetos de poder, ela pensa em termos de "ocupação de espaços", de hegemonia; quem não fazer nada contra, poderá perder tudo para a intelligentsia, e talvez isto não seja oposto ao merecimento de quem se omite. Enquanto estivermos no ambiente universitário, devemos nele agir de acordo com nossas idéias, mas sempre tendo em vista o bem maior que é a verdade, a que nós e nosso pensamento deve se submeter, e nunca o contrário. E que possamos ajudar a UFBA a ser uma grande universidade, e que seu "compromisso social" seja sério e responsável, uma efetivo comprometimento com a bem comum da sociedade e com a civilização que a ampara.