Original em: http://www.soeurs-blanches.cef.fr/qui-sommes-nous/fondation/mere-marie-salome-histoire-et-les-debuts-difficiles/
Tradução de Diego Ferracini
Sexta filha de René Roudaut e Marie-Jeanne Lessec, Marie-Renée Roudaut nasceu em Guisseny no dia 03 de março de 1847, foi batizada no dia seguinte. Dois meninos ainda nasceriam na família de agricultores, profundamente cristãos, que formam aquela família cristã na qual os pais ensinam aos filhos o bom senso, a coragem e a fé. Perto de completar dez anos, Marie-Renée foi enviada às Filhas do Espírito Santo, onde aprendeu o francês e se preparou para a Primeira Comunhão. No dia seguinte ao da grande celebração, ela confiou à sua madre que havia pedido esta graça: “Tornar-se santa, fazendo tudo que fosse da Vontade de Deus.” Pouco depois, a família Roudaut foi se estabelecer em uma fazenda no povoado de Keranaou em Plouguernau. Algum tempo depois seu pai morreu e Marie-Renée teve de escolher entre a escola e o trabalho no campo para ajudar sua mãe e irmãos. Ela sente um profundo chamado à vida religiosa, mas onde e como? Finalmente decidira entrar nas “Filhas do Espírito Santo”, mas um acidente de carroça lhe quebrara o braço e impediu a entrada no dia fixado. Ela vê como um sinal de que Deus deseja fazê-la esperar, ela aceita.
Em um lugar bem distante – na Argélia – em 1869, Dom Charles Lavigerie, bispo da diocese, depois de dois anos de trabalho se depara com uma terrível epidemia de cólera juntamente com uma escassez que dizimou a população. Ele então percebe que apenas novas apóstolas seriam capazes de alimentar e educar os órfãos que migram para o bispado.
Ele fundara no ano anterior a Sociedade dos Padres Brancos para a evangelização da África e faria dessas mulheres uma ajuda apostólica ao trabalho dos Padres Brancos. Mas onde encontrá-las?
Decidiu, então, enviar em seguida o Padre Le Mauff – sacerdote da diocese de Argel, para uma viagem à Bretanha, sua terra natal. O sacerdote voltou à Argélia em 9 de setembro de 1869 com oito moças, somente quatro perseverariam, seriam as “primeiras pedras” da futura congregação.
Uma prima de Marie-Renée havia seguido o padre Le Mauff, mas por causa de uma doença fora obrigada a deixar o noviciado e voltar para casa em 1871. Marie-Renée questionou o que ela havia feito na Argélia. Yvonne comenta sobre os órfãos árabes acolhidos por Dom Lavigerie, fala dos trabalhos na padaria e na lavanderia, e conclui: “Eu deixei meu coração naquele lugar e mesmo se nunca for curada eu voltarei!” Então, Marie-Renée se decide: “Eu vou no lugar de Yvonne”, e pede admissão.
A parte mais difícil foi obter o consentimento de sua mãe. Com a ajuda de seu irmão mais velho, ela sai de casa no dia dois de outubro de 1871. É primeira vez que anda de trem, mas uma prima (Maria Roudaut) a acompanha ao postulantado que acaba de ser aberto em Vans, Ardéche.
Após essa primeira etapa, Marie-Renée com suas quatro companheiras no dia 18 de janeiro de 1872 prosseguem sua formação em São Carlos de Kouba, próximo da Argélia, sob os cuidados das Irmãs de São Carlos de Nancy. Ajudadas por suas formadoras as jovens irmãs possuem responsabilidade sobre 300 órfãos e 40 jovens – os meninos mais velhos são confiados aos Padres Brancos na “Casa da praça” em uma cidade próxima da Argélia. Para garantir a vida de todos uma área de 150 hectares é cultivada, é necessário fazer pão, lavar e cozinhar. Na possibilidade de suas forças os órfãos mais jovens ajudam no trabalho. Marie-Renée é encarregada dos menores os quais ela educa com bondade e firmeza consagrando dia e noite aos pequeninos.
Com suas quatro companheiras ela recebe o hábito no dia 23 de junho de 1872. O hábito branco das noviças lembra a silhueta das moças algerianas que elas querem parecer o máximo possível. Marie-Renée Roudaut se torna Irmã Maria Salomé, nome escolhido entre aquelas Santas Mulheres do Evangelho que seguiram o Cristo nas estradas da Galiléia.
“Apesar do zelo dos Missionários, seus esforços nunca serão capazes de produzir fruto suficiente se não forem ajudados por apóstolas, verdadeiras mulheres. O que os homens não podem fazer, as mulheres fazem. Eles admitem isso com facilidade, até mesmo alegria. A mulher é a origem de tudo porque é mãe.” (Carlos Lavigerie).
Ela professa os primeiros votos em seis de julho de 1873 e foi enviada em janeiro de 1874 para “Saint Cyprien des Attafs” na planície do Chelif a 200 kms ao oeste da Argélia. Este é o lugar onde Dom Lavigerie deseja concretizar seu perigoso projeto de que casais cristãos acolham órfãos e órfãs. Ele dá uma pequena casa, com um lote de terra e uma junta de bois, aos cuidados das Irmãs. Elas começam a cuidar dos bebês e das mulheres jovens da região, de acordo com o carisma original das Irmãs Brancas – o cuidado da mulher. Fazem pães, lavam roupa no rio.
Encarregada dos pequenos rebanhos, precisa cuidar dos animais durante o dia e vigiá-los durante a noite, quem sabe até mesmo correr atrás de algum que se perdeu. Esta é a atividade da Irmã Marie-Salomé. Durante a noite. dormindo no abrigo dos pastores, é preciso muitas vezes estar com um olho aberto. Lembrando a vida dura daqueles primeiros anos dizia as irmãs mais tarde: “Ainda assim, éramos felizes, tínhamos paz e alegria no coração”.
A Congregação cresceu e o trabalhou se multiplicou. Em 1876 foi aberto o “Hospital para árabes”, em Attafs. Em 1877 Lavigerie designa três irmãs, incluindo Irmã Marie-Salomé para fundar uma comunidade em Kabylie, na vila de Ouadhias, onde os Padres Brancos já estão fazem quatro anos. No mês de março do ano de 1879, Irmã Marie-Salomé fora nomeada superiora da comunidade de Attafs – trabalho capital por incluir o hospital, as aldeias de Saint Cyprien e Sainte-Monique com famílias recém chegadas, entre suas responsabilidades.
Madre Marie-Salomé assume com competência o cuidado das Irmãs, todas juntas estão comprometidas com o serviço de Deus e do povo através de suas qualidades pessoais e com coragem. No hospital se dá início a um trabalho que irá permanecer por mais de cem anos como referência de caridade e cuidado da miséria.
No entanto, após alguns anos, surgem grandes obstáculos. A Congregação passa por momentos complicados. O grande número de aspirantes, na sua grande maioria vindas de localidades rurais, com sua coragem e fé permitiram que as Irmãs fossem desbravadoras admiráveis. Mas a falta de instrução e escolaridade impediu que se ensinasse – indispensável à Missão. Dom Lavigerie está preocupado com o futuro, não consegue encontrar irmãs capazes de governo e ensino, muito menos de formar as mais jovens. Sua solução será unir “sua” jovem Congregação com alguma já estruturada e com irmãs mais capazes. Diversas tentativas causam sofrimentos de ambos os lados, sem uma solução real. Vocações diferentes demais não conseguem se unir em uma unidade de corações e vontades. Um exemplo, a união com as Irmãs de Nossa Senhora da Assunção – comunidade com três categorias de religiosas – possibilitaria a Madre Marie-Salomé estar acima das demais irmãs por seu estudo e capacidade, mas ela recusa se afastar de suas companheiras e acima de tudo de seu árduo trabalho.
Qual era a espiritualidade de Madre Marie-Salomé que lhe deu tanta coragem?
Toda sua vida significou “amar e servir a Deus” para ela a oração estava em primeiro lugar. Sua contemplação era o que motivava a ação. Agia somente por Deus em união com Jesus Cristo. Este “amor forte e ardente de Nosso Senhor” (Regra de vida.) Ele lhe deu um amor apostólico e por isso ela é missionária. Se ela deseja comunicar esse amor e “salvar as almas”, o faz amando e servindo a todos que se aproximam.
No trato com os outros é fundamentalmente humilde. Isso porque ela não consegue viver senão para seu Criador, suas irmãs e os africanos. Em suas notas e conselhos para as Irmãs, encontramos essas palavras:
“Procurar a Deus somente, agir por Deus somente, O encontrar em tudo. O que traz a felicidade em uma comunidade é a união de corações. Seremos realmente irmãs se nos amarmos, perdoarmos, e nos unirmos para irmos juntas a Deus!"
Com personalidades tão diferentes como Dom Lavigerie e Madre Marie-Salomé puderam conviver juntas? A erudição do grande eclesiástico e a universalidade profética contrastam com a relativa falta de educação, a modéstia e a natureza silenciosa da religiosa. A seqüência dos fatos fala por si mesma:
Repleto de hesitações, Dom Lavigerie fechou o noviciado, em seguida o reabriu novamente e convidou Madre Marie-Salomé para ser mestra de noviças em 02 de outubro de 1880. Melhor ainda, no primeiro Capítulo Geral da Congregação reunido em 1882, ela foi aclamada de forma unânime como Superiora Geral.
De forma paradoxal o Arcebispo da Argélia se torna cardeal em 1882 e é nomeado Arcebispo de Cartago na Tunísia, com isso aumenta sua desconfiança sobre o futuro da pequena congregação.
Com sua inteligência, intuição feminina e tato sobrenatural, Madre Marie-Salomé volta imediatamente ao carisma missionária do Fundador, ela continua convencida de que ele deseja que a congregação nascente confie nele. Lavigerie previu o valor apostólico e vital das mulheres na comunidade africana. Nisso é apoiada pelos Padres Brancos a quem recorre diversas vezes pedindo ajuda.
Tudo será resolvido em 1885. Na véspera de partir para a Tunísia, onde reside com maior freqüência, o Cardeal prepara uma “Ordem de Dissolução” da Congregação que teria efeito um ano mais tarde. Após orar e pensar a noite toda com o Conselho e movida com uma fé tenaz Madre Marie-Salomé contesta a decisão do Cardeal em uma conversa memorável na Argélia no dia 16 de abril de 1885 – mas tudo em vão.
Diante dessa dolorosa perda, seu único recurso é pedir a Virgem Maria na qual ela coloca toda confiança. Com suas Assistentes vão “aos pés de Nossa Senhora da África, na basílica dedicada a ela e conversam como as filhas conversam com uma mãe. Elas fazem o voto de erigir uma estátua da Virgem diante da Casa-Mãe. A Congregação se salva.
Após a Paixão vem a Ressurreição. Elas obtêm a graça de uma mudança radical na atitude do Fundador. O cardeal, retido na Tunísia, atrasa a execução de sua decisão. O apego forte às suas religiosas e à vocação missionária que possuem toca seu coração. Por outro lado, uma brilhante aspirante formada em Diplomacia pede insistentemente admissão. Seria um novo sinal da Providência?
É necessário confiar, desistindo de seu projeto de fechar a Congregação.Foi necessário, portanto, reabrir o noviciado então fechado. Moças chegam dos mais diferentes países da Europa e até mesmo do Canadá, a internacionalidade será sempre um componente essencial do carisma das Irmãs Brancas, eficaz desde o início da Congregação.
Madre Marie-Salomé foi re-eleita Superiora Geral por unanimidade em 1886 e eleição após eleição será Superiora até 1925. O texto final das Constituições do Instituto será provisoriamente aprovado em Roma em 1888 por cinco anos e depois de forma permanente em 1893. A Congregação foi reconhecida como exclusivamente missionária.
Quando o cardeal morreu em 26 de novembro de 1892 uma de suas últimas palavras para Madre Marie-Salomé foram: “Não tema por vossa Congregação, ela viverá!”. A profecia se cumpriu com a expansão do Instituto com a abertura de comunidades na África Equatorial em 1894 e Ocidental em 1897.
Quanto à Madre Marie-Salomé, após 43 anos como superiora da Congregação, ela se ausentou do cargo em 1925 e morreu aos 83 anos em 18 de outubro de 1930 em St. Charles na Argélia. Foi enterrada no “Cemitério da família”.
O voto feito na primeira comunhão havia se realizado. Ela se santificou cumprindo exatamente o que Deus queria.
No seguimento dos acontecimentos na Argélia, os restos mortais de Madre Marie-Salomé foram transferidos em outubro de 1991. A humilde bretã de Plouguernau, cuja fé de granito nunca vacilou no serviço ao Reino de Deus tem a honra de repousar no coração da Basílica de Nossa Senhora da África, aquela que domina a maravilhosa vista para a baía de Argel.

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