"Histórias Cruzadas" é um filme que todos deveriam ver. Ele vai muito além da abordagem rotineira da sociedade segregacionista, e trata, com muito humanidade, das dificuldades profundas das mulheres negras daquele tempo. Deve ser destacado que a realidade do sul dos EUA se assemelhava ao sistema de colonização do Brasil. Ademais, a escravidão se estabeleceu de forma estrutural e definiu profundamente as marcas características de toda a região.
Entretanto, diferentemente do Brasil onde a cultura portuguesa passou por um processo de aculturação, a cultura européia nos EUA sempre esteve protegida de qualquer influência não-branca. Isso fez com que a segregação já no séc. XX se tornasse a conseqüência "natural" entre dois mundos que jamais se encontraram. Na sociedade brasileira pós-escravidão os empregados negros certamente eram tratados com o mesmo rigor exposto no filme, porém os patrões não eram tão brancos ou sequer tinham uma cor muito diferente daquela dos seus serventes. Ademais, na vida cotidiana dos empregadores estavam hábitos e costumes que mais se assemelhavam à sensibilidade africana do que aos modismos ingleses e franceses que atravessavam o Atlântico.
O filme é muito belo porque mostra que ainda numa sociedade estruturalmente feia existem homens e mulheres fortemente vinculados com a verdade e o amor. As mesmas negras que eram discriminadas eram as que educavam as crianças e preparavam as refeições que talvez não fossem das mais refinadas, mas que certamente eram mais apreciáveis ao paladar. Como não assistir a este filme e não lembrar das doces babás que cuidaram e cuidam dos filhos dos brancos - não tão brancos como os do filme, mas "brancos" porque abastados - em nosso mundo, em especial em realidades como a nordestina e com destaque para a soteropolitana? Foram estas mulheres, descendentes das bondosas amas-de-leite, que amamentaram e alimentaram o Brasil.
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