sábado, 5 de janeiro de 2013

Pi, Deus e o Mar


Com spoiler!

O filme "As Aventuras de Pi" não é um filme de ação! Todos já se chocam quando se deparam logo ao começo com as reflexões existenciais de Piscine Molitor: a busca por ele mesmo e, mais profundamente, o encontro com Deus. Talvez por isso alguns espectadores se sentiram enganados e acabaram saindo do cinema na metade da sessão. Ainda tendo cenas memoráveis e engraçadas, a proposta do filme é retirar o homem moderno da sua zona de conforto racionalista ou da inércia dos que sequer pensam. "As Aventuras de Pi" é um convite para o uso abundante da imaginação moral e da capacidade empática do sujeito.

Qualquer espectador atento percebe as semelhanças entre o drama de Pi e o sofrimento do Jó bíblico. A tenacidade com que Piscine Molitor acreditava em Deus, dialogava com Ele a ponto de debochar da Sua presença no desespero, era reflexo de uma existência sedenta do divino. A infância do jovem indiano, e o seu encontro com o hinduísmo, o catolicismo e o islamismo, talvez seja a metáfora perfeita para o homem, enquanto homo religiosus, que naturalmente busca a realidade sobrenatural, transcendente e fundante do próprio ser. A epopéia de Pi é a saga da pessoa completamente entregue aos desíginios de Deus e que, nesse processo, coloca-se como necessitado da Sua graça, Ele que é "o Compassivo, o Misericordioso" dos muçulmanos e mais perfeitamente o Filho Unigênito, Jesus Cristo, que o garoto encontrou numa pequena igreja no interior da Índia através de um padre missionário.

A ação da Providência se faz presente em todo o filme, mas se encarna especialmente em Richard Parker. Como bem reconhecera Pi, através do tigre pode ele manter o equilíbrio, a atividade e até mesmo a força vital para continuar na sua luta pela sobrevivência. A provação de Deus nas tormentas e tempestades é respondida com o desespero dos crentes, isto é, com a angústia daqueles que têm fé, mas que esmorecem com os desafios dAquele que sabem que é o Sumo Bem. Entretanto, quando tudo parecia perdido, Deus o vigiava. Quando tudo parecia acabado, Deus concebia proteção. O surgimento miraculoso de uma ilha carnívora é um sopro de esperança junto aos corações atribulados. O seu misterioso funcionamento - gerando vida pela manhã e morte pela noite - pode ser compreendido como o microcosmo da própria existência e da dualidade entre as duas forças que lutam pelas consciências.

A história, entretanto, ganha o seu sentido mais profundo quando o jovem Pi, já salvo, depara-se com japoneses incrédulos da sua saga. Para a sensibilidade racionalista moderna aquela experiência parecia muito fantasiosa, mítica, irracional. Por mais verdadeira que fosse, e assim o era, as façanhas de Piscine Molitor em alto mar eram mais próximas de contos infantis do que de um testemunho real, pensaram. Pi, então, inventa, distorce, a grandeza da realidade, forjando uma história onde os animais se tornam humanos, onde a esperança se transforma em ódio, o amor vira tristeza e, por fim, a imaginação moral, isto é, o aprendizado com os sinais e com a tradição herdada especialmente do pai, vira acomodamento. Richard Parker é Pi e Pi é Richard Parker. Ambas as versões não explicavam a razão do naufrágio - a existência de Deus - mas cada uma escolhia o modo como se relacionar com esse mistério: abertura ou fechamento da razão.

O filme todo, com a abundância de cenas singelas e incrivelmente vibrantes, é um convite à contemplação e à beleza. Pi vivenciou e experimentou, através do olhar atento para aquilo que não era óbvio, a primeira história, aquela que tomava feições fantásticas ao ter como personagens tigres, zebras e chimpanzés, mas que levava consigo a grandeza da alma humana sensível aos sinais. Richard Parker, como presença, depois de cumprida a sua missão, some silenciosamente nas selvas mexicanas. Pi, ao final, assim como Jó, reconstrói a sua família e vive na alegria de ter feito o encontro com Deus através de uma história que será para sempre sinal do Seu amor.


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