segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Arcebispo Livinhac (1846-1922)

Missionário da África (Padre Branco)
Fundador da Igreja Católica em Buganda
Bispo de Pacando
Arcebispo de Oxyrhyncus
Superior Geral dos Missionários da África

Original em: http://www.africamission-mafr.org/mgr_livinhacgb.htm

Esse missionário francês era da diocese de Rodez, no Sul da França. Nasceu no dia 13 de julho de 1846 numa família cristã muito devota da aldeia de Ginals, na freguesia de Buzeins. Batizado Auguste Simon Léon Jules, ele era chamado de Léon. Seus pais eram donos de uma fazenda em Aveyron que eles mantinham com a ajuda de trabalhadores diários. Eles tiveram três filhos, Leon, sua irmã mais velha e seu irmão mais novo. A morte prematura de seu pai e depois de sua mãe, quando Léon tinha 6 anos, afetou a vida feliz das três crianças. A partir de então, a sua educação tornou-se responsabilidade de sua avó e de duas tias, sob o olhar atento de um tio-avô, o pároco de Bonneterre. A perda de seus pais na infância se transformou num ferida profunda, que se agravou quando, em janeiro de 1871, seu único irmão, um antigo Zouave Pontifício, foi morto defendendo a França das incursões da Prússia. Como um homem do dever, com um olhar pensativo e triste, mais tarde ele viria a ser cético diante do desconhecido. Possivelmente devido ao seu passado rural, Livinhac levava um estilo de vida simples, mas estava sempre inclinado a novas idéias.

De 1855 até 1860, Léon frequentou a escola primária dirigida pelos Irmãos das Escolas Cristãs, em Saint Geniez. Durante este tempo, ele provou ser uma criança tímida e sensível, mas sempre aplicada aos estudos. Bem comportado e piedoso, ele recebeu o Sacramento da Confirmação antes de sua Primeira Comunhão, ao contrário da prática dos tempos. Como seu estado de saúde era delicado, ele não estava preparado para o esforço físico. Nada indicava, portanto, que um dia seria um missionário ou até mesmo um padre. Dentro dos intuitos de sua família o jovem Livinhac deveria se tornar num fazendeiro enquanto seu irmão mais novo ingressaria no clero.

Depois da escola primária, Léon foi matriculado em Saint Denis, o colégio diocesano de São Geniez. No entanto, não foi fácil para ele estar lá. Como resultado, sua saúde piorou. Acometido por paralisia nas pernas, ele foi obrigado a voltar para casa de sua família em Ginals. Durante a sua convalescença, ele se confessou ao pároco, o Pe. Malet, que detectou nele uma vocação sacerdotal. Assim, pois, ele começou a receber lições de latim. Finalmente recuperado em 1861, Léon voltou para a faculdade, desta vez como um aluno na seção greco-latina, tendo em vista a sua preparação para o sacerdócio. Seu progresso foi tanto que ele fora capaz de pular uma classe no ano letivo de 1862. Ao longo desse período de estudo, ele viveu na casa de uma "Béate”, um membro de uma associação piedosa de mulheres consagradas.

Em outubro 1867, com 21 anos, entrou no Seminário Maior de Rodez. Este seminário, dirigido pelos Sulpicianos, na época contava com quase 300 seminaristas! Léon primeiro estudou filosofia e, em seguida, teologia. Mais tarde, ele reconheceu que houve falhas em seus estudos e ele nunca as supriria. Seu diretor espiritual era Pe. Georjon, superior do seminário. Entre seus colegas estavam o futuro Bispo Gély de Mende e o Bispo Garriguet, Superior Geral dos Sulpicianos. Léon recebeu a tonsura em maio de 1869 e as Ordens Menores no ano seguinte, em junho. Sua vocação tomaria um rumo inesperado em 187.

No outono, ele conheceu um missionário da África, Padre Charmetant (1844-1921), uma pessoa amável e gentil, enviado para o seminário de Rodez pelo arcebispo Lavigerie (1825-1892) de Argel. Este prelado francês havia fundado uma Sociedade Missionária em 1868 para evangelizar o continente Africano. Desde então, ele buscava nos seminários franceses candidatos para o seu ambicioso projeto. Léon se interessara, mas hesitou em comprometer-se. De fato, certos círculos da Igreja criticavam o famoso projeto que tinha apenas um trabalho de caridade: um pobre orfanato criado em Maison Carrée, perto de Argel, que também foi a primeira casa mãe dos Missionários da África.

Encorajado por seu amigo Padre Charbonnier  (1842-1888), Léon finalmente tomou sua decisão após sua ordenação ao diaconato (Maio de 1872). Ele havia requerido ingresso junto ao Arcebispo Lavigerie no dia 26 fevereiro de 1873, atrasando, assim, a sua ordenação ao sacerdócio. No final de março, Léon, acompanhado por seu colega Auguste Moncet (1849-1889), chegou a Maison Carrée. Ele iniciou o noviciado em 06 de abril e uma semana depois estava vestindo o hábito missionário de Dom Lavigerie - gandoura, chechia e rosário. O seu Mestre de Noviços foi o Padre Terrasse (1831-1922), um jesuíta que lhe apresentou a prática da espiritualidade inaciana.

O Arcebispo Lavigerie, altamente impressionado com este noviço modelo, o ordenou sacerdote em 12 de outubro de 1873. No mesmo dia, ele o nomeou para o escolasticado (Seminário Maior dos Missionários da África.) Padre Léon seria Vice-Reitor, tesoureiro e professor de teologia dogmática, sem ter completado tanto o noviciado como os seus estudos teológicos. Listado como número 22 no registo de admissões, ele fez o seu Juramento Missionário em 7 de Abril de 1874. Além disso, alguns meses depois, em 12 de outubro de 1874, ele era então eleito membro do Conselho Geral durante o primeiro Capítulo Geral dos Missionários da África, conhecido como o Capítulo da Fundação, em vista da importância das suas decisões. Na ocasião, o arcebispo Lavigerie o nomeou Tesoureiro Geral da Sociedade, pobre em recursos financeiros, mas rica em generosidade pessoal. Naquele tempo, constituída por 43 padres e 9 Irmãos, formando ao todo 15 comunidades disseminadas pela Argélia.

No final de dezembro de 1874, o arcebispo Lavigerie enviava Pe. Livinhac a Paris para montar um “procurement office”, o primeiro na Europa. No entanto, oito semanas depois, Léon já estava de volta alegando que não tinha as aptidões para este tipo de responsabilidade. Na verdade, ao longo de sua vida, ele iria sentir repugnância ao exercício da autoridade. Em meados de fevereiro de 1875, o arcebispo Lavigerie o indicou para a comunidade de Ouadhias, em Cabília. Muito contente, Pe. Livinhac lá teve sua primeira experiência missionária em contato direto com o povo: ele estudou cabila, ensinava a algumas crianças, tratava os doentes e visitava os moradores. No entanto, o seu contentamento duraria apenas alguns meses. Em 24 de agosto de 1875, ele retornou mais uma vez para a Maison Carrée para ser agora reitor do escolasticado. Enquanto reitor, lecionou teologia moral,  escreveu uma gramática cabila e redigiu uma Regra de Vida, usado desde então por centenas de jovens irmãos. Esta regra era um resumo do pensamento missionário do Fundador. Em 1876, o Padre Livinhac pela primeira vez pregava um retiro aos seus confrades, na presença do Arcebispo Lavigerie.

Nesse mesmo ano, o assassinato de três de seus confrades, a caminho de Tumbuctu, perpetrado por tuaregues, lembrou-lhe que a vida missionária implica o dom de si mesmo ao martírio. Seu mandato como conselheiro foi renovado no Capítulo Geral de 1877. Mesmo que obtivesse a maioria dos votos, o arcebispo Lavigerie se recusou a colocá-lo à frente da sua sociedade. Pe. Livinhac não ficara infeliz. Na verdade, alguns meses mais tarde em março de 1878, ele seria nomeado para chefiar a primeira caravana que saíra dos altos planaltos da África equatorial. O Papa Leão XIII (1810-1903), tinha confiado a evangelização desta imensa região à Sociedade dos Missionários da África.
Pe. Livinhac permaneceu na África equatorial desde 1878 até 1889, mais particularmente às margens do Lago Vitória, em condições materiais miseráveis com caminhadas intermináveis a pé e desconfortáveis viagens por canoa. Ele sobreviveu a dois naufrágios, um causado pela tempestade e outro por um hipopótamo. Durante este período, ele e seus colegas, Padres Lourdel (1853-1890), Girault (1853-1941), Barbot (1846-1882) e o irmão Amans Delmas, todos franceses, fundaram a Igreja Católica em Buganda,  escrupulosamente aplicando as instruções do Arcebispo Lavigerie. O sucesso obtido iria torná-los, a seguir, modelos para seus confrades.

Obrigado pelas circunstâncias, eles fundaram a Igreja no seio da corte do reino de Buganda, outrora muito poderoso, mas agora à mercê das tensões criadas pela presença ocidental e árabe. Esses conflitos, com base na politicagem comercial e religiosa, daria origem a uma assustadora violência  entre os baganda (habitantes de Buganda), que levaria a uma guerra civil, religiosa e colonial em 1892. Justamente por razões de segurança, no início de 1883, o Padre Livinhac transferira sua residência para Kamoga, em Bukumbi, uma região ao sul do Lago Vitória. Em última análise, ele próprio passaria pouco tempo em Buganda, de junho de 1879 até novembro de 1882 e alguns meses em 1886, 1888 e 1890.

Depois de sua nomeação como Vigário Apostólico do Vicariato Vitória-Nyanza, em junho de 1883, Livinhac passara a viver em Maison Carrée, onde, em 14 de Setembro de 1884, o arcebispo Lavigerie o ordenava bispo titular de Pacando. Depois, tendo participado do oitavo Capítulo Geral, retornara à África equatorial em maio de 1885. Em Buganda se deparou com uma situação muito tensa. O Kabaka (Rei) Mwanga, (1866-1903), tornou-se refém das rivalidades entre curandeiros da corte, comerciantes árabes, anglicanos e católicos. Cada facção procurava a sua conversão e a monopolização do país.

Em 1886, o bispo Livinhac estava presente quando das mortes heróicas dos Mártires de Baganda que escolheram permanecer fieis à fé cristã. Estes se recusaram a obedecer às ordens de Mwanga, que buscava testar a lealdade de seus servos, de acordo com o direito consuetudinário. Naquele tempo, Livinhac  escreveu uma gramática de luganda para tornar o aprendizado da língua mais fácil para os seus confrades. Em 24 de agosto de 1887, em Kipalapala, ele sagrou bispo o seu amigo Padre Charbonnier, que havia sido nomeado Vigário Apostólico do Vicariato de Tanganyika. Esta foi a primeira ordenação episcopal na África equatorial.

No Domingo de Pentecostes, em 25 de maio de 1890, em Kamoga, Livinhac celebrou a ordenação episcopal do seu sucessor, Pe. Hirth (1854-1931). Ele era da Alsácia e tinha sido seu aluno. De fato, em setembro de 1889, durante o décimo Capítulo Geral, Livinhac havia sido eleito Superior Geral - uma eleição que recebeu com pouco entusiasmo. Em 19 de setembro de 1890, acompanhado por 14 jovens baganda, desembarcou em Marselha a tempo de assistir o Congresso Anti-Escravidão. Além disso, Livinhac visitou o Vaticano, levando com ele os jovens africanos. Em 05 de novembro de 1890, o Arcebispo Lavigerie instalou-o como Superior Geral, aos 46 anos. Quando o arcebispo Lavigerie ofereceu para fazer-lhe o seu coadjutor, ele se recusou, a fim de dedicar-se à sua nova tarefa.  Os confrades o apreciavam muito pela sua bondade e firmeza, o que faria com que fosse reeleito Superior Geral nos Capítulos Gerais de 1894, 1900 e 1906 Gerais e Superior Geral para a vida,, relutantemente, no Capítulo 1912. Depois, ele assim participaria no Capítulo Geral de  1920.

O Bispo Livinhac liderou a Sociedade dos Missionários da África, em colaboração com a Congregação para a Propagação da Fé, até sua morte, em 1922, um período de 33 anos, coincidindo com o retalhamento do continente Africano entre as potências europeias. Assim, portanto, ele pode ser considerado como o segundo fundador da Sociedade, mas, sem dúvida, menos flamejante que o primeiro. Ele conduziu a Congregação em nome dos Capítulos Gerais, com a ajuda de quatro Conselheiros, incluindo seu sucessor Pe. Voillard, (1860-1946), francês. Seus primeiros três anos como Superior ainda foram muito influenciados pela presença do Arcebispo Lavigerie, então envolvido na Campanha Anti-escravidão. Esta Campanha tivera grandes repercussões junto aos seus missionários na África equatorial, dando origem à ira dos comerciantes árabes contra suas missões forçando-os, mais cedo do que o previsto, a submeter-se às potências coloniais.

Somente após a morte do fundador, em novembro de 1892, que Livinhac se tornou verdadeiramente Superior Geral, com poderes e responsabilidades; antes dessa data, ele era apenas "Vigário Geral", como seus antecessores. Ele, então, escreveu aos seus irmãos uma frase que resumiu sucintamente sua atitude em relação ao futuro: "Agora nós temos que seguir o modelo usual das Congregações que perderam seu Fundador: cada um de nós, em seu maior ou menor âmbito, deve tornar-se um homem de iniciativa, enquanto, ao mesmo tempo, evitando qualquer coisa que não esteja em conformidade com as regras e ordens recebidas do alto”.

Sob a direção do bispo Livinhac, a Sociedade dos Missionários da África passara por uma expansão extraordinária seguida do rápido aumento de seus membros. Considerando que, em 1892, eram 3 Bispos, 185 Padres e 64 Irmãos, em 1922 havia 16 bispos, 674 padres e 180 irmãos. Graças a este aumento, o bispo Livinhac foi capaz de abrir casas de promoção e formação no Canadá, Luxemburgo, Bélgica, Grã-Bretanha, Alemanha, Itália e até na Argentina. Ele também fora capaz de multiplicar fundações na África e organizar a evangelização de novas regiões como Ruanda, Burundi e Sudão francês. Os três vicariatos e 3 Pro-Vicariatos de 1892 seriam 13 vicariatos em 1922!

Reformas administrativas e financeiras seriam instituídas. O Bispo Livinhac deu Constituições (1908) à sua sociedade e também um Diretório (1914), aprovado pela Santa Sé. Ansioso para criar um espírito de família, incentivou a publicação de várias revistas para o uso dos seus confrades: Chronique Trimestrielle 1879-1909, Rapports  Annuels de 1905, e Petit Echo, o boletim lançado em 1912, promovendo a partilha de experiências e idéias.

Enquanto Superior Geral, escreveu 133 circulares a seus confrades em que se mostrou  um mestre espiritual muito influenciado pelas idéias de Santo Inácio de Loyola, (1491-1556). Com grande confiança na Providência e uma fervorosa devoção à Virgem Maria, ele exigiu obediência de seus confrades ao Soberano Pontífice. Segundo ele, o sucesso da evangelização dependia da santidade do missionário. Ele se correspondeu pessoalmente com cada confrade. Assim, tornou-se o pai de uma família missionária muito unida. Fora da Sociedade, ele conseguiu criar interesse junto aos católicos pela promoção de um bem organizado trabalho missionário na África.

Durante seu tempo como Superior, Livinhac teve que enfrentar vários desafios. O primeiro foi a partilha de bens e responsabilidades entre a Sociedade dos Missionários da África e a Arquidiocese de Argel. O segundo desafio diz respeito à Igreja Católica em Buganda. Sua existência tinha sido colocada em risco na sequência dos dramáticos acontecimentos de janeiro de 1892, quando os anglicanos, apoiados por Londres, tomaram poder esmagando os católicos. Na ocasião, os Missionários da África foram acusados de serem agentes secretos, às vezes, de Paris e, por vezes, de Berlim. O Bispo Livinhac tomou para si o desafio de encontrar uma solução que satisfizesse todas as partes. A partir de então, ele se esforçara para internacionalizar sua sociedade, dado que tinha permanecido muito francesa. As potências coloniais exigiram que os missionários em suas colônias fossem da mesma nacionalidade que os seus governantes ocidentais. As tensões entre as potências coloniais acabariam por provocar a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Isso acarretaria graves consequências para a Sociedade dos Missionários da África: suas atividades iriam funcionar num ritmo mais lento por vários anos e entre os seus membros convocados para o serviço militar, 60 seriam mortos, 29 seriam gravemente ferido e 42 mudariam de direção na vida como resultado. O Bispo Livinhac conseguiu restaurar sua Sociedade do desastre humano. Em 1904, mais uma vez ele enfrentou outro desafio ligado à política anticlerical do governo francês que ameaçava a própria existência da Sociedade dos Missionários da África. Este desafio, que deu origem a muitas ansiedades, iria encontrar uma solução inesperada quando o governo francês abandonara sua política anticlerical alguns anos mais tarde.

O Bispo Livinhac foi escutado pelo Papa Bento XV (1854-1922). Até mesmo algumas de suas idéias foram tomadas por ele em sua encíclica missionária “Maximum Illud”, publicada em novembro de 1919. Nesta encíclica, o Papa destacou a rejeição dos nacionalismos europeus, a necessidade de formar um clero local e a importância da colaboração entre os Institutos Missionários e Vicariatos nos países de missão. Neste contexto, em junho de 1920, beatificou os mártires de Baganda, cuja causa foi introduzida em 1912. O Bispo Livinhac, que não pôde comparecer à cerimônia por motivos de saúde, foi criado Arcebispo de Oxyrhyncus em 21 de novembro de 1920. Desgastado pela sua pesada responsabilidade como Superior Geral, ele faleceu em Maison Carrée em 11 de Novembro de 1922, aos 76 anos.

Desde 1975, os restos mortais de Dom Livinhac estão em Uganda, e desde 24 de junho de 2007 no Santuário de Nabugala.

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