segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Padres Brancos: Missionários e Etnógrafos



 Alguns dos M.Afr. citados ao longo do texto

Original em: http://www.mafrome.org/ethnographie.htm#gb

"Padre Schynse, eu presumo".  Assim poderia ter dito Henry Morton Stanley (1841-1904), o aventureiro, quando se encontrou com Pe. Auguste Schynse. Em setembro de 1889, a expedição de Stanley, em socorro a Emin Pasha, parou no bairro da Missão Bukumbi  (Vitória-Nyanza do Sul) e lá recebeu dos missionários mantimentos, roupa, sapatos e burros. Mais tarde, o Padre Schynse, acompanhando o incapacidatado Pe. Ludovic Girault para Zanzibar, encontrou-se no caminho com a caravana de Stanley e Emin.

Cardeal Lavigerie queria que seus missionários fossem principalmente apóstolos, em vez de homens de ciência ou simples exploradores. Eles não estavam ali para ser, nas palavras humoradas de Lavigerie, os "Robinson Crusoes". No entanto, reconheceu que estava enviando seus homens para o interior de um continente praticamente desconhecido para a comunidade científica da Europa.

No serviço da ciência estavam geógrafos, etnógrafos e inúmeros outros especialistas ocupados na abertura deste território desconhecido e, assim, queriam que os Missionários da África contribuissem para este processo. "Todos os (tais) serviços prestados à ciência", escreveu Lavigerie, "podem ​​ser considerados como uma resposta eficaz aos ataques odiosos dirigidas contra a Igreja por seus inimigos." Ele pediu que um missionário dedicasse um mínimo de 15-20 minutos por dia, mantivesse uma rotina que seria vista como uma contribuição para a ciência. Ele desejara que as lendas, narrativas históricas e os mitos sagrados fossem catalogados, porque estes poderiam confirmar as verdades da Sagrada Escritura e os ensinamentos cristãos sobre a unidade do gênero humano. Observações e coleções científicas, feitas com a ajuda de instruções e ferramentas fornecidas pelas sociedades científicas em Paris, deveriam ser enviadas regularmente.

O período entre 1892-1914 assistiu ao nascimento da etnografia missionária na Igreja Católica. Sua principal estrela, e uma das maiores autoridades da época em linguística, etnologia e história da religião, era Wilhelm Schmidt (1868-1954), padre dos Missionários do Verbo Divino. Em 1906, Schmidt fundou a revista Anthropos, em Moedling, perto de Viena, Áustria. Isto se tornou no foco do Instituto Anthropos, que dirigiu entre os anos 1932-1950. O trabalho de Schmidt, doze volumes monumentais sobre a origem da idéia de Deus, começou a aparecer em 1912. Os Padres Brancos foram encorajados pelo exemplo de Schmidt para entrar no campo da etnografia e vários publicaram suas descobertas nas páginas da Anthropos durante estes anos. Antes da “Idéia de Deus” de Schmidt começar aparecer, outro astro já estava publicando artigos sobre "religião primitiva" e "O Papel Científico do Missionário" na primeira edição da Anthropos. Este era o Espiritano Alexandre Leroy.

Em 1909, Leroy publicou um importante trabalho sobre a religião primitiva, que se concentrou nas áreas de língua banto da África. Este livro apresenta uma imagem totalmente diferente da religião tradicional daquela dos exploradores e estudiosos, que faziam deselegantes comparações com as chamados religiões "superiores". Ele refutou a nova "religião" europeia do evolucionismo e suas teorias da promiscuidade primitiva e politeísmo. O trabalho de Leroy foi solidamente baseado em tradições orais, nas línguas e práticas rituais por ele observadas, provando conclusivamente que os africanos eram monoteístas. Apenas o cristianismo católico, acreditava, poderia responder às questões levantadas por estas religiões. Após o seu aparecimento, Léon Livinhac, Superior Geral dos Padres Brancos, escreveu ao autor, parabenizando-o em nome da Sociedade, e aplaudindo a investida contra o evolucionismo. Os missionários de Livinhac deram total apoio às teses de Leroy.

O primeiro Padre Branco em campo foi Auguste Achte (1861-1905), que publicou uma dúzia ou mais de artigos em periódicos de missão entre 1894 e 1905, ano da sua morte. O trabalho mais notável de Achte foi sua inédita “História dos Reis de Baganda”, terminada em janeiro de 1900. Outra obra ainda não publicada também foi produzida em 1900 por Jacques "Yacouba" Dupuis (1865-1945). Tratava da geografia física e humana de Timbuktu, incluindo uma completa etnografia e história da sua descoberta e ocupação pelos franceses. Jan (ou Jean) Martin-Michel, van der Burgt (1863-1923) era um padre holandês Branco e um dos primeiros missionários no Burundi, que se tornou um escritor prolífico nos primeiros anos do século XX. Seu Dicionário Francês-Kirundi foi enviado em manuscrito para o Museu de Berlim, em 1899, junto com 348 objetos etnográficos, embalados em três caixas. A seção etnográfica desta obra foi publicada em 1903 em s'Hertogenbosch, na Holanda, seguida de um dicionário completo e gramática em 1904.

A etnografia revela van der Burgt como um excêntrico polímata de primeira ordem. Sua bibliografia conta 491 itens e, após uma longa introdução de 113 páginas, seguida por um dicionário etnográfico com 196 artigos, em conjunto com 250 gravuras e figuras impressas, mais 10 mapas. A introdução, que é de extraordinária amplitude e erudição, tratava da classificação racial, teoria hamítica, pré-história africana, Egito antigo, fenícios, sabeus, gregos e romanos na África, escritores árabes, Zimbabwe e Monomotapa, os povos de Oromo-Galla , animais domésticos e estatísticas negras. O resto do livro é uma espécie de "notas e consultas", organizadas de forma alfabética, sobre a etnografia do Burundi. Há artigos sobre crenças religiosas, hinos religiosos tradicionais, curandeirismo, medicamentos, fazedores de chuva, mitos e literatura oral, bem como listas de reis, gravuras de uma centena de estilos de cabelo com os seus nomes, 14 gravuras de tatuagens e 138 gravuras de edifícios, obras de arte, utensílios e roupas.

Após este “tour de force”, não é surpreendente que van der Burgt recebesse uma distinção do governo alemão. O autor, no entanto, não se refestelava sobre os seus louros. Um fluxo de artigos publicados continuou a ser derramado de sua pena, incluindo, em 1921, dois anos antes de sua morte, uma história da missão na África Central, escrito em holandês.

O Bispo Adolphe Lechaptois (1852-1917), do Vicariato de Tanganica, produziu uma única etnografia dos povos Fipa e Bende de seu vicariato em 1913, fruto de 20 anos de experiência. Nas margens do lago Tanganyika está uma compreensiva e positva descrição de sua história, política, vida familiar, tradições orais, artes, conhecimento científico e industrial. Até mesmo se encontrava partituras musicais. O livro ganhou merecidamente o prêmio e a medalha de prata da Sociedade Geográfica de Paris.

Eugène Mangin (1877-1922) foi o etnógrafo do povo Mossi. Tendo contribuído com quatro artigos importantes sobre os Mossis na Anthropos entre 1914 e 1916, as suas cópias foram publicados pela revista como um livro e depois republicadas pelos Missionários da África em Argel em 1960. O trabalho é uma competente etnografia do povo Mossi e das suas reais tradições, com ênfase em suas crenças religiosas e ritualísticas.

O Bispo Julien Gorju (1868-1942) tornou-se no primeiro Vigário Apostólico de Burundi em 1922. Antes disso, ele estava no Seminário Bukalasa, em Uganda, onde fundou o jornal Munno e dirigia a imprensa. Ele também foi Notariado Eclesiástico para a causa dos Mártires de Uganda. Sua obra mais importante, pelo qual recebeu um prêmio da Academia Francesa, foi uma pesquisa etnográfica dos povos do norte de Nyanza, no seu Vicariato, entre os lagos Vitória, Alberto e Eduardo. Esta obra foi publicada em 1920, mas foi baseada em um quarto de século de estudos lingüísticos e culturais. O livro, que apareceu pela primeira vez como uma série de artigos distintos, foi organizado em Bukalasa em 1919. Os povos descritos são o Ganda, Hima, Nyoro, Nkole, de Uganda, Kiziba do territórii Tanganica (anteriormente África Oriental Alemã), e os Tutsis, Hutus e Twa de Ruanda e Burundi. Depois de se mudar para o Burundi, Gorju descreveu sua primeira viagem em outro trabalho substancial, juntamente com as informações etnográficas.

Félix Dufays (1877-1954) era um luxemburguês que foi para a Ruanda em 1903, nomeado para fundar a missão de Mulera. Suas obras publicadas apareceram após a Primeira Guerra Mundial, mas foram baseadas em pesquisas e experiênias anteriores. Seu livro de história, Páginas de um épico africano – Temos Difíceis 1928, conta a história do tenso início de Mulera de 1903 até o assassinato de Loupias em 1910. Já sua “Au Kinyaga les enchainés”, de 1939, consiste em notas etnográficas coletadas a mais de 26 anos e que circularam entre os confrades, em 1913. Ele também escreveu um romance moral em suaíli, após a I Guerra Mundial, que teve duas edições em francês.

Dois outros Missionários da África etnógrafos foram para a África Oriental Alemã durante o período de 1892-1914. Eles eram Jean-Marie Robert (1879-1966), que chegou ao país em 1906, e o Padre Branco suíço Fridolin Bösch (1881-1968), que veio em 1909. Robert começou a publicar seu material sobre Fipa (Tanganyika) em 1930, enquanto a Bosch iniciou seu estudo de Nyamwezi em 1912, logo após a chegada de Dom Henri Léonard, de quem recebeu o incentivo. Começou a publicar suas descobertas em 1920. Ao todo, a produção etnográfica dos Missionários da África, durante os anos 1892-1914, forma um orgulhoso recorde.

Outras Ciências

Alguns Missionários da África contribuíram para a exploração da história e para a descoberta geográfica ou ingressando em expdições como exploradores ou através das suas jornadas em regiões até então despercebidas pelos europeus. Um deles foi o primeiro sacerdote alemão da Sociedade, Auguste Wilhelm Schynse (1857-1891), de Trier, que fez seu juramento missionário em 1883 e que foi enviado com José Dupont e Merlon Armand para iniciar a missão de Bungana, em Kwamouth no Congo, em 1885. Schynse escreveu um relato em alemão de seus dois anos em Kwamouth, que foi publicado em 1889. Em setembro de 1889 a expedição de Morton Stanley em socorro a Emin Pasha passou no bairro da Missão Bukumbi, em Nyanza do Sul, e recebeu suprimentos dos missionários.

Em 24 de setembro, Schynse, acompanhado por Ludovic Girault (1853-1941), o Pro-Vigário de Unyanyembe, que estava sofrendo da cegueira dos rios, foi ao encontro do doutor Stanley, e foi decidido que Girault deveria retornar para a Europa para o tratamento. Em 04 de outubro Schynse e Girault deixaram Bukumbi com 20 carregadores e quatro soldados para se juntarem a Stanley e Emin em seu caminho para a costa. Schynse voltou no ano seguinte, na companhia de Emin. Schynse escreveu um relato da viagem com Stanley e Emin, publicado em francês, alemão e italiano. Ele oferece uma série de insights sobre o caráter e os hábitos de ambos os exploradores. Ele morreu um ano depois, com a idade de 34.

Augustin Hacquard (1860-1901) entrou para a Expedição Hidrográfica Hourst para mapear o rio Níger, em 1896. Sua caravana para o Sudão francês, em 1895, criou grande interesse e expectativa entre a comunidade científica em Paris, que estava ansiosa pela informação geográfica, etnográfica e linguística. Ele, de fato, dirigiu estes dados à Sociedade Geográfica de Paris, em 1894. Hacquard publicou um grande número de artigos em periódicos geográficas e missionários sobre a expedição Hourst e sobre suas outras viagens no Saara e no Sudão francês, notadamente em “Les Missions Catholiques”. Um de seus artigos mais importantes descreveu suas duas visitas ao Reino Mossi.

Na África Oriental Alemã, Théophile Dromaux (1849-1909) foi pioneiro de uma nova rota a partir de Ugogo ao Lago Tanganyika, em 1897. A viagem levou-o através de regiões de Ukimbu e Ukonongo até então não descritas. Seu relato no jornal “The Geopraphical Journal”  contém os dados da geografia física e humana das áreas por onde ele passava.

Nesse período o maior cientista Missionário da África foi, indiscutivelmente,  o arqueólogo Alfred-Louis Delattre (1850-1932). Delattre, que poderia ser facilmente comparado com os melhores arqueólogos de hoje, passou a vida escavando as ruínas púnicas, romanas e cristãs que ainda existiam na colina de  Byrsa, em Cartago, na Tunísia. Sua bibliografia inclui 250 publicações numeradas, além de outros 25 grandes documentos. Delattre era a pedra angular de uma equipe montada por Lavigerie para estudar a história e arqueologia da Igreja primitiva do Norte Africano.

O Bispo Anatole Toulotte (1852-1907) foi um importante membro dessa equipe. Embora tivesse escrito um relato de sua viagem pelo Sudão francês em 1896-1897 e um estudo lingüístico do uso árabe na região, a maioria de suas obras era sobre arqueologia, história, geografia e cultos cristãos no Norte da África, sendo muitos desses nunca foram publicados. Joseph Mesnage (1859-1922), que era herdeiro literário e intérprete de Toulotte, produziu uma impressionante lista de escritos sobre o cristianismo no norte da África. Entre os mais importantes estavam os relatos sobre os antigos bispados e as ruínas associados a estes, investigação que teve como base o material inédito de Toulotte, principalmente a sua consideração sobre o declínio e extinção do cristianismo na África romana. Seu trabalho também ajudou na revisão do chamado mito cristão de Kabyle.

André Vellard (1865-1906) escreveu um guia para a Cartago antiga e moderna. Vellard também foi o autor de vários manuscritos inéditos sobre a história e geografia, física e humana, do Saara. Seu trabalho mais significativo, no entanto, foi o jornal manuscrito sobre a viagem que fez com Charles Guérin para o Saara Ocidental em 1903, e sua estadia com Charles de Foucauld em Beni Abbés.

Durante os anos 1892-1914, os Padres Brancos na África equatorial, e, particularmente, na colônia alemã, foram os anfitirões de um número sem fim de viajantes. O colonialismo parece ter liberado um bando de homens itinerantes de um tipo ou de outro. Eles eram uma mistura de excêntricos viajantes, caçadores e especuladores comerciais. Entre eles estavam alguns genuínos cientistas.

Os missionários em Mpala já tinham começado a coleta de insetos e conchas, quando foram visitados por Edouard Foa, o explorador francês, caçador e geógrafo, em 1898. Foa, que foi patrocinado pelo Ministério da Instrução Pública e pelo Museu Francês de História Natural, ficou encantada com o inseto gigante e espécimes de borboletas que os Padres lhe deram. Ademais, ficara profundamente abalado ao saber que as conchas que ele próprio tinha recolhido já eram conhecidas pelos Padres Brancos e que foram classificadas num trabalho sobre os moluscos do lago Tanganyka, a seu pedido, feito pelo naturalista francês Jules-René Bourgignat em 1888. Um diretor do museu italiano chegou a Bukalasa (Nyanza do Norte), em 1907, à procura de tesourinhas (dermaptera). Ainda havia outras visitas de entomólogos da França, bem como cientistas de museus britânicos e holandeses, para Busubizi (Nyanza do Norte) e Lusaka (Alto Congo) , coletando borboletas e outros insetos. Bruno Schmitz (1872-1905) criou um museu mineralógico privado em Mpala e Baudouinville. O Bispo Dupont, por sua vez, coletava cobras em Chilubula (Niassa) e enviava o veneno para o Instituto Pasteur de Lille. Dois professores da Universidade de Viena passaram por Msalala (Unyanyembe) em 1909, com meia dúzia de espécimes de aves, peixes e mandíbulas de rinoceronte.

Em Wargla (Ouargla), no deserto do Saara, Edmond Huguenot (1850-1933) criou um museu de artefatos arqueológicos pelo qual, em seguida, foi feito um oficial da Academia Francesa em 1907, com “académiques Palmes”, pelos serviços prestados à pré-história. Garimpeiros e geólogos abundavam da África equatorial, Sudão Francês e do Saara. Um geólogo do Museu Francês de História Natural, o professor V. Gauthier,  visitou Timbuktu em 1906, trazendo saudações de Charles de Foucauld. Notícias se seguiram logo após a morte de Stanislas Comte (1865-1906), companheiro de Vellard na mal-fadada Biskra wadi. Comte foi ele próprio um geólogo que tinha feito um estudo da Silex Subsaariana (quartzo fundido na pedra).

Na África Equatorial as visitas científicas atingiram seu clímax com a chegada de dois duques reais em 1906 e 1907: o duque de Abruzzi e o duque de Mecklenburg-Strelitz, ambos alpinistas. O último viajou com a sua própria comissão científica, que permaneceu após a sua partida. Seu interesse principal era craniometria, ou a medição de características cranianas, uma falaciosa pseudo-ciência amada pelos apologistas coloniais. Com alguma dificuldade, os Missionários evitaram comprometer-se.

Esse casual flerte dos Padres Brancos com os variados expoentes de ciência colonial revelou o grau em que os missionários já estavam: de forma independente comprometidos com uma variedade de projetos científicos próprios. Nos anos de 1892-1914, os Missionários da África, apesar de muitas desvantagens decorrentes de uma mentalidade tendenciosamente europeia e das desigualdades e imposições da situação colonial, desenvolveram, com poucas exceções, um verdadeiro amor e compreensão dos povos africanos entre os quais trabalhavam. Eles também contribuíram muito para o conhecimento mundial da África e para a compreensão do modo como os próprios africanos enxergavam a si mesmos.

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