sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Ano da Fé

 
Por Zélia Viana*
Folha de São Pedro
Paróquia de São Pedro - Salvador/BA

Atento e preocupado com a crise de fé  que ameaça submergir o mundo, o Papa Bento XVI através da Carta Apostólica Porta Fidei ( A Porta da Fé)  convoca toda a Igreja  para celebrar o Ano da Fé,  com início marcado para o dia  11 de outubro de 2012 e término previsto para 24 de novembro de 2013,  na festa de Cristo Rei do Universo. Ilumina e inspira essa celebração o cinquentenário de abertura do Concílio  Vaticano II (11 de outubro de 1959) e os vinte anos de publicação do Novo Catecismo da Igreja Católica.

Mostrar a beleza do Evangelho, propagar a notícia do amor de Deus,  testemunhar esse amor  com palavras e com a vida  em todas as circunstâncias e onde quer que se encontre, essa é a missão do discípulo missionário de Cristo. Não é pois do clero – insisto -  mas de nós leigos  que somos maioria na Igreja, que vivemos e frequentamos os mais diversificados ambientes da sociedade  que o mundo espera uma resposta para essa crise. Se nos calamos ou, pior ainda, se nossa palavra não é coerente com aquilo que vivemos, nosso testemunho torna-se duvidoso e perde toda a credibilidade. Daí a insistência do Papa Bento XVI  da necessidade de um amadurecimento na fé.

Na literatura bíblica as palavras Porta e Fé  são  muito significativas. O próprio Jesus declara-se a  Porta: “Eu garanto a vocês: Eu sou a Porta das ovelhas” (Jo 10, 7) e no Livro dos Atos São Lucas narra que ao chegarem em Antioquia da Síria, Barnabé e Paulo “reuniram a comunidade e contaram tudo  o que Deus havia feito por meio deles: o modo como Deus tinha aberto a porta da fé para os pagãos” (At 14,27).

Para compreender melhor  o desejo do Sumo Pontífice e para que  esse ano de graça “desperte em cada católico o anseio de viver sua fé com convicção, confiança e esperança e  seja uma ocasião propícia para aumentar a celebração da fé na liturgia e, de modo especial na Eucaristia”, é importante que antes de qualquer coisa mergulhemos  no significado da  expressão Porta da Fé.

O vocábulo porta é definido  nos dicionários como a abertura através da qual as pessoas entram ou saem de um lugar. Essa porta de entrada é o Batismo através do qual somos convocados a acolher em nossa vida a Palavra de Deus, deixando-nos converter por ela, e  a entrar em íntima comunhão com Deus e com os irmãos, passando a fazer parte da  sua grande família na terra que é a Igreja. Não podemos esquecer que  a evangelização para ser eficaz e duradoura  apoia-se na fé pessoal e comunitária. 

Vivemos num mundo pluralista onde o Deus da Fé ainda é confundido com o Deus da Crença. Mas fé e crença  não são exatamente a mesma coisa.
     
Fé, é a primeira virtude teologal, é portanto dom de Deus. Já a crença  parte de convicções puramente humanas. A fé, porque crê e espera contra toda esperança como ensina São Paulo, é inquebrantável. A crença, porque se apoia apenas no humano, esfacela-se facilmente. É pela fé em Cristo que nos santificamos. A crença  pode até sacralizar lugares e objetos, mas não santifica. A fé liberta. A crença  escraviza  e fabrica fanáticos. As Escrituras narram que Satanás acreditava que Jesus era o Filho de Deus.  Satanás então tinha fé? Não. Tinha crença.         

No mundo ocidental Fé é usualmente definida como crer, acreditar. No conceito bíblico porém esta é uma definição incompleta vez que a verdadeira fé  aponta para algo bem mais amplo que simplesmente considerar algo verdadeiro. Na cultura hebraica Fé é mais que acreditar na existência e mesmo no poder de Deus. A palavra latina Fides supõe esta perseverança, confiança, fidelidade, estabilidade, lealdade, adesão incondicional a seu projeto de amor.
      
Abraão é considerado o Pai da Fé  não somente porque no mundo politeísta de então acreditou na existência de um único Deus que havia criado tudo o que existe,  mas também porque em obediência a Ele não hesitou em sacrificar o próprio filho, seu mais precioso bem. A verdadeira fé é aquela confia cegamente em Deus e dá testemunho, com gestos e ações,  daquilo que crê. É  por isso que São Tiago diz que a fé sem obras é morta.

Grande é hoje o número de batizados que conservam uma fé infantil, equivocada, confundindo-a com emoção, devoção, belas orações e fervor religioso.  Uma fé baseada apenas na emoção ou que brota de uma consciência religiosa infantil é uma fé frágil, sem firmeza, que facilmente desmorona. A fé madura e  firme tem suas raízes no coração e na razão. Ela  compreende a razão pela qual se crê e essa razão é uma pessoa: Jesus Cristo.

Para que o Ano da Fé dê frutos abundantes, precisamos assumir com  entusiasmo a  convocação  de redescobrir e aprofundar os conteúdos da fé que professamos  e a tomar consciência  de que naquele dia em que,  pelas mãos de nossos  padrinhos atravessamos  a Porta da Fé,  passamos  a fazer parte da missão  sacerdotal de Cristo de conduzir a humanidade para Deus. Este é o nosso desafio. Que como Paulo e Barnabé saibamos acolher a intransferível missão de   professar, rezar e celebrar a nossa fé a fim de que nosso testemunho adquira credibilidade junto aos batizados  que perderam sua identidade e aos   que ainda não creem.

* Minha avó ;)

Nenhum comentário: