quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Uma Carta do Sudão


Por um Padre Branco
Algumas Notas sobre o Sudão
http://dspace.dial.pipex.com/suttonlink/351su.html

O artigo a seguir é um relato de uma visita de dois meses ao Sudão entre julho e agosto de 1999. O autor é um Padre Branco que gostaria de permanecer anônimo.

Hajj Yousif fica cerca de 15 quilômetros de distância do centro de Cartum. Lá as estradas e trilhas de macadame, conhecidas apenas pelos iniciados, levam para o leste através de arbustos e semi-desertos. Era por aí que passavam os velhos camelos e os caminhões indo para Kassala, na fronteira com a Etiópia e na costa do Mar Vermelho, antes da nova estrada, que passa por Wad Medani e Gedaref ao Sul, ser construída. Num agora agitado subúrbio de Cartum, Yousif Hajj fora uma vez uma pequena aldeia situada no deserto ao longo do Nilo Azul, a leste da cidade velha de Cartum. Desde 1983, ano no qual o mais recente trágico episódio na cruel guerra civil do Sudão estourou, ondas de refugiados, deslocadas do sul do Sudão, chegaram para habitar nos arredores da capital. Este número tem aumentado em tempos de luta feroz quando cidades caíram nas mãos das facções combatentes ou, então, quando a fome e a doença, tanto reflexo da destruição e revolta causadas pela guerra como pelos períodos de seca, eclodem. Estima-se que cerca de 2.000.000 de almas estão vivendo em torno da capital, buscando melhorar de algum modo a sua existência.

As condições são terríveis. Uma geração de pessoas refugiadas cresceu nestas condições e conhece nada além de miséria em suas breves vidas. Entre estes deslocados encontram-se cristãos de várias denominações, muçulmanos e seguidores de religiões tradicionais africanas. Os mais afortunados encontram trabalho em Cartum ou se juntam às centenas de pessoas que compram e vendem no souq [mercado tradicional ou feira periódica] local. De manhã cedo até tarde da noite, ônibus convencionais, caminhões, pick-ups e táxis - muitos claramente impróprios para levar até mesmo o motorista, para não falar de passageiros - rastejam um colado com outro ao longo da pista, estreita e esburacada, transportando trabalhadores e aqueles que procuram trabalho nas "Três Cidades" – a velha Cartum sobre o Nilo Azul, a Cartum Bahri ao Norte e Omdurman, na margem ocidental do Nilo Branco. Estas três cidades têm como ponto central a confluência do Nilo Azul e do Nilo Branco, vastas extensões de lama e um rápido fluxo de água nesta temporada de chuvas. Os dois Nilos se tornam um e fluem por 1.000 km antes de chegar ao Lago Nasser e na represa de Aswan, na fronteira com o Egito.

Enquanto escrevo, as chuvas já começaram, e particularmente pesadas este ano. O Nilo Azul já está acima um metro do seu limite e céus nublados, tão incomuns no norte do Sudão, trazem a ameaça de chuva ainda mais forte e subsequente inundação. Depois de uma intensa chuva esta semana, a cena em Hajj Yousif, longe da única pista de asfalto, me lembrava cenas  da batalha de Somme da Primeira Guerra Mundial com vastas áreas de lama, trincheiras cavadas para canalizar um pouco da água - mas onde nesta terra tão plana?! - veículos emperrados e abandonados e por todos os lugares pessoas, com suas jellâbiyyas (longas camisas brancas de algodão usadas por homens) ou taubs (coloridos tecidos enrolados usados por mulheres), lutando para fazer o seu trabalho com alguma aparência de normalidade.

É aqui, em Hajj Yousif, no grande subúrbio de Cartum, que os Padres Brancos, Missionários da África, dirigem uma florescente paróquia dos pobres. Por cerca de dez anos, a paróquia tem sido administrada a partir de uma casa particular. Não há um igreja física como concebemos. Dez centros, que servem como escolas primárias durante a semana e como lugares de encontro e oração nos fins de semana, estão situados ao longo da paróquia. As escolas para os refugiados são administrados pela Arquidiocese de Cartum. Cerca de 10.000 crianças recebem educação primária apenas nos centros de Hajj Yousif.

Existem apenas algumas poucas estruturas permanentes. A maioria dos centros consiste simplesmente numa série de râkûbas, abrigos construídos de pedaços de madeira e bambu que fornecem sombra, delimitada por uma cerca de arame farpado. Nos centros onde a propriedade do terreno tem sido garantida, estruturas mais permanentes - um edifício para jovens, um local para o encontro de mulheres, sala de professores e funcionários etc foram construídas. Catequistas treinados, líderes leigos e voluntários ajudam os três sacerdotes, um diácono permanente local e uma comunidade de Irmãs do Bom Pastor com as atividades pastorais da paróquia. Aqui se trabalha para o desenvolvimento e o socorro, apoiados e financiados por muitos benfeitores do exterior – tanto por organizações como por indivíduos - anda de mãos dadas com a instrução cristã, com sessões de formação e workshops sobre vários aspectos da vida cristã. Uma comunidade de Irmãs Carmelitas da Índia organiza o dispensário na paróquia. As Missas e os sacramentos são celebrados no domingo em todos os centros quando há sacerdotes suficientes. Cerca de 300 catecúmenos seguem um programa de instrução para o batismo a cada ano. A celebração da Páscoa, com o batismo de muitos jovens e outros não tão jovens na Vigília Pascal, é o destaque do ano da Igreja e é a causa de grande e profunda alegria entre os fiéis.

Este, então, é o cenário da pequena comunidade muito ativa dos Padres Brancos em Hajj Yousif. Talvez, através do relato de uma ou duas ocorrências diárias que aqui houve ou através de incidentes que aconteceram durante a minha estadia na paróquia, ao longo dos últimos dois meses, o leitor poderá ter uma visão sobre algumas das alegrias e das tristezas vividas pelos habitantes da nossa comunidade.

A cinquenta metros da casa dos Padres, numa área que está sendo desenvolvida para a habitação, uma família Dinka acomoda-se, como muitas centenas de famílias desabrigadas e ao redor de Cartum, numa casa em construção. Agot Deng, apenas com 30 anos de idade, claramente tem tuberculose. Ele se encontra emagrecido deitado sobre uma cama de corda, vestindo uma jellâbiyya suja. Ele, na companhia de sua mulher, Abuc, levanta-se alguns minutos na beira da cama e dá as boas-vindas ao Abuna (Padre). Um grupo de crianças se reúne em volta, espantado com a visita de um khawaja (europeu). Uma jovem viúva e seus dois filhos - e há tantas viúvas jovens como ela num Sudão em guerra – divide com Agot e sua família um quarto da casa que tem um telhado e abrigo feito de sujas sacas levantado no quintal. Uma cadeira é encontrada para Abuna e nos é dada água para beber. A família recebe ajuda alimentar da igreja, mas Agot precisa retornar ao médico para tratamento. Oramos juntos e uma pequena quantia é dada para os honorários médicos. A família agradece a visita.

O diácono permanente mora a cerca de 5 km, no limite da cidade, perto do centro paroquial chamada Dar al-Salam,     “a Casa da Paz". A sua família, situada próximo de campos abertos com valas de irrigação e abundância de grama neste período chuvoso, sofre com os mosquitos e nunca passa uma semana sem alguém cair doente com malária. O Diac. Anthony chegou hoje para pedir ajuda para pagar os medicamentos para seus dois filhos, um sofre de disenteria e outro de febre tifóide. A água fornecida pela burro-de-carga nesta temporada de chuvas é frequentemente lamacenta, amarronzada. Todos correm risco de doença intestinal.

A maioria dos pais e das pessoas de idade que encontro nos centros depois da missa de domingo estão profundamente preocupados com a ameaça - já presente, mas mais ameaçadora este ano - que o governo feche e destrua as escolas paroquiais. Extremamente mal equipadas e com poucos recursos, essas escolas dirigidas pela Igreja têm produzido excelentes resultados ao longo dos anos e criaram um alto padrão de desempenho. Ameaçadoramente, duas enormes novas escolas, construídas com o melhor dos materiais, surgiram na paróquia nos últimos meses. Construídas pela al-Da'wa al-Islamiyya, a Missão Islâmica, e patrocinada por fundos provenientes da Malásia, essas novas escolas estão sendo propostas como substitutos para as escolas de refugiados.

Um novo programa de educação nacional foi recentemente publicado e será implementado em todas as escolas este ano. Uma olhada preliminar no conteúdo da diretriz mostra que está em curso uma islamização muito clara e deliberada de todas as áreas do currículo escolar. Quer as escolas para refugiados  permaneçam independentes ou não, a introdução deste novo programa nacional significa que todas as crianças que frequentam a escola terão que aprender e ser examinadas no conteúdo apartir deste programa. Não será permitida a entrada nas classes secundárias ou no ensino superior para aqueles que não seguiram e assimilaram este programa. Pais, professores e líderes religiosos de todo as vertentes estão justamente preocupados de que a sua liberdade religiosa - na verdade a própria fé de seus filhos - esteja mais uma vez sob o ataque de fundamentalistas islâmicos com influências dentro do governo.

No posto de gasolina perto da casa dos Padres, eu peço cinco galões de diesel, já algum tempo disponíveis. Eu estou sobrecarregado e o atendente, muito simpático e com um sorriso, diz que o suplemento é para a Jihad, o esforço de guerra do governo. Mais uma vez, afirmo que estou aqui como um trabalhador para a paz e me recuso a pagar o suplemento.

O pátio na casa dos Padres raramente está vazio. Trabalhadores paroquiais, catequistas e os pobres chegam de manhã cedo até tarde da noite. Muito tempo e energia são gastos simplesmente ouvindo as tristes histórias dessas pessoas cuja pobreza se estende além das considerações materiais. Arrancados de suas terras tradicionais no Sul e privados de suas casas, gado e fazendas, essas pessoas deslocadas e desorientadas agora veem seus costumes tribais, que deram forma, estrutura e força para suas sociedades, sob ameaça. Os pobres vão em busca de ajuda, principalmente de alimentos ou médicos, de taxas escolares para os seus filhos ou capas de plástico como abrigo para as chuvas, quando as suas casas de tijolos de barro desmoram e caem.

Tarde da noite, Flora, de 14 anos, e seu irmão, Frazier, com cerca de 10 anos, chegaram procurando ajuda para as taxas escolares. O fundo regular para as taxas que ajuda entre 120 crianças da paróquia se esgotara para este ano letivo. Eu explico isso com cuidado para as crianças que estão ai. Flora está chateada, frustrada e irritada porque seu Abuna não quer que ela estude. Agora está escuro e frequentes flahses de relâmpagos anunciam a aproximação de outro bom aguaceiro. A eletricidade é cortada e eu sou incapaz de ler a carta que alguém tinha escrito em nome das crianças, listando as suas necessidades: mensalidades escolares, uniformes, sapatos, cadernos e a muito importante mochila para levar os livros para a escola - o custo total destes itens é de aproximadamente $20. Peço a Flora e seu irmão para voltarem na manhã seguinte. Eles vão receber a ajuda para cobrir os custos.

Chega-nos a notícia sobre dois sacerdotes diocesanos, Pe. Hilary Boma e Pe. Lino Sebit, que foram presos juntamente com outros 20, acusados de conspirar atentados terroristas ano passado em Cartum. Eles passaram os últimos 12 meses em vários tipos de prisões e foram obrigados a comparecer perante vários tipos de tribunais. Abusados e maltratados, a maioria do grupo foi submetida a alguma forma de tortura e três dentre eles "desapareceram". A notícia que recebemos, contudo, é boa . No domingo, 15 de agosto, festa da Assunção de Nossa Senhora, os dois padres foram autorizados a celebrar a Eucaristia - pela primeira vez desde que foram confinados - com um pequeno grupo de irmãos da diocese. Eles estão agora na prisão Kobar e podem receber visitas. Ainda têm acesso a e-mail e a um pequeno rádio portátil. Regozijamo-nos e agradecemos a Deus que a sua situação tenha melhorado um pouco e rezamos pela sua rápida libertação.

A expulsão do Pe. Gilles Poirier, um padre canadense do PME (Prêtres Etrangères des Missions), em 7 de agosto de 1999, é um vívido lembrete de quão precária está a situação da Igreja no atual Sudão. Agentes de segurança, presentes em toda parte, seguem como sombra todo o pessoal da Igreja. Eles estão especialmente presentes nos centros durante as celebrações e reuniões. A situação econômica é tal que os informantes podem ser recrutados dentro das comunidades cristãs e os cristãos têm sido conhecidos por se inscreverem para o treinamento dos  Serviços de Segurança. Nenhuma razão oficial foi dada para a expulsão do Pe. Gilles. Ele trabalhara assiduamente por muitos anos como pároco de Hilla Mayo, um subúrbio pobre a 10 km ao sul de Cartum. Quando funcionários do governo canadense pediram às autoridades sudanesas a razão de sua expulsão, funcionários do Ministério do Exterior negaram qualquer conhecimento sobre o assunto.

As dificuldades experimentadas pelos cristãos na paróquia vizinha de Cartum Bahri, ao rezarem juntos aos domingos no centro de Dour as-Sha'b, se intensificaram recentemente quando um grupo radical fundamentalista, conhecido como o Ansar al-Sunna, atacou sem qualquer motivo  o sacerdote e os fiéis durante a Missa no domingo, 8 de agosto, 1999. Durante a confusão subsequente, algumas pessoas se feriram e a polícia realizou várias prisões de ambos os lados. O centro foi fechado e as  orações passaram a ser proibidas desde então. Sua Excelência Reverendissima o Arcebispo Gabriel Zubeir Wako, está atualmente fora do país participando de reuniões em Nairobi. A responsabilidade pastoral que ele carrega ao liderar e guiar os fiéis desta Arquidiocese de Cartum é enorme, por vezes, uma carga onerosa. Oremos para que o Espírito da Paz possa reforçá-lo e iluminá-lo nesta tarefa.

Meu primeiro compromisso como padre missionário foi na paróquia de outro Padre Branco no Sudão: a paróquia de Nova Halfa, no distrito de Kassala, cerca de 400 km de Hajj Yousif através do deserto, em linha reta, mas 630 km de distância pela estrada de asfalto via Wad Medani e Gedaref. Quando surgiu a oportunidade de visitá-la, esperei uma semana até a minha autorização de viagem ser concedida ... em seguida, carimbada pela Segurança ... em seguida, assinada ...

Numa manhã de sexta-feira eu sai com o motorista, Francis. Nós seguimos o Nilo Azul até Wad Medani ao longo de uma estrada com obras muito atrasadas. Dirigimos lentamente, de modo a evitar os piores buracos.

Em Medani, depois de dois pontos de controles, onde a Segurança nos perguntou sobre o khawaja e verificou sua autorização, deixamos o bairro da Jezîra, a "ilha", a rica e fértil terra entre os Nilos Azul e Branco, e agora cruzamos para o leste através de grandes extensões planas, onde os abutres e marabus circulam e deslizam sobre as térmicas. O painço de sorgo, aqui chamado de dura, a dieta básica da maioria do Sudão, fora semeado  em julho e já viçosos brotos verdes se espalham como um tapete vívido sobre a terra abaixo de um enorme céu.Tomamos café da manhã num restaurante de estrada em Fao, na metade da nossa jornada. E em Gedaref abastecemos de diesel. No início da tarde, chegamos em Khashm el-Girba e deixamos a estrada de asfalto para viajar a 65 km ao longo da acidentada radmiyya. A primeira camada de pedra foi colocada, juntamente com o calhau, para receber a sua superfície de asfalto para a nova estrada que ligará a fábrica de açúcar em Halfa com a estrada principal. Esta grosseira fundação esperou três anos para ser concluída, mas num país em guerra interna os fundos são canalizados para outros lugares - para alimentar, equipar e armar os militares.


Choveu e quando entramos em Halfa, às 16:00, a terra em torno a nós estava sob um metro de água. O padre da paróquia enviou os meninos para nos guiar até igreja através da inundação. Fui recebeido por 60 crianças que celebravam o fim de um "acampamento" durante o qual se prepararam para o grande Jubileu do ano 2000. Uma árvore foi derrubada na chuva da manhã e o complexo da igreja estava alagado. Entretanto, nada atenuava o entusiasmo das crianças, como eles cantavam e brincavam, com os pés descalços, como num concerto de gala na conclusão do "acampamento". Ao cair da noite, o zunido dos mosquitos aumentava nas árvores e em nossa varanda. Nós descarregamos as caixas de remédios e as 50 capas de plástico que trouxemos de Cartum, enquanto isso o pároco saía no meio da noite para conduzir as crianças para casa.

O trabalho dos Padres em Halfa é semelhante ao dos Padres em Hajj Yousif. Aqui, no entanto, o número de cristãos é menor e os centros de oração estão espalhados por uma área de 120 km por 30 km. Nós somos uma comunidade rural, com muitas pessoas ocupadas no trabalho no campo ou na fábrica de açúcar. Os cristãos, a maioria composta por refugiados, como em Cartum, vivem em cabanas africanas típicas fora da cidade de Halfa e em muitas aldeias na área. Estes novos assentamentos foram construídos na década de 1960 para receber milhares de pessoas fugidas da zona de Wadi Halfa ao norte, na fronteira com o Egito, cujas terras gradualmente desapareceram com a subida das águas do Lago Nasser, atrás da represa de Assuã. Irrigada pela água do Rio Atbara, represado em Khashm el-Girba, a área da Nova Halfa produz açúcar, algodão e trigo, bem como diversos tipos de legumes e frutas. Famílias halfaoui possuem terras e cultivam uma variedade de culturas, incluindo lentilhas, feijão e tomate. Algumas famílias cristãs árabes chegaram com os muçulmanos halfaoui que foram evacuados. Assim, o governo da época concedeu terras para a Igreja Católica e para a Igreja Copta. Duas igrejas de tijolos e concreto já existiam em Nova Halfa desde 1970.

O contraste com a vida em Hajj Yousif não poderia ser maior. O ritmo de vida aqui é mais lento e as pessoas têm tempo para conversar. Os Padres visitam as famílias, a prisão e o hospital, buscando prestar serviço às pessoas e cuidar de todos os habitantes, apesar da situação económica ser desesperadora. Ao longo dos anos, os Padres  desenvolveram contatos e relações com algumas famílias muçulmanas, e também estas visitamos. Eu saúdo o administrador local, o muhâfiz, e o líder do conselho. Visitei a fábrica de açúcar para celebrar a Missa na capela. Durante as chuvas, a colheita da cana se torna impossível e a fábrica fecha para manutenção e limpeza. Muitos dos homens mais jovens saem para procurar trabalho em outro lugar, assim a comunidade na Missa fica muito pequena. Ao sul, em Girba, as chuvas transformaram a área ao redor da igreja num mar de lama e lutamos para chegar ao centro para a Missa no domingo. De volta a Halfa, a escola nortuna, que recebe cerca de 150 jovens adultos para o ensino primário em cinco noites por semana, também fica fechada por dois meses durante a estação chuvosa. Um velho paroquiano, originalmente de Wau, John Basha, é contratado para pintar a escola - paredes e quadros-negros. Eu supervisionava o trabalho e fui ajudado pelos meninos de rua, Kur, Jafar, Taha e Dioup, na organização dos móveis e na varredura. O lugar se transforma, agora arrumado e limpo, pronto para a retomada das aulas, em meados de setembro. O vigia de idade, Halakah, um refugiado eritreu aleijado pela poliomielite quando criança, tem o sonho de conseguir um passagem para Jerusalém e pergunta se eu posso falar com o padre da paróquia - mais uma vez - sobre o assunto. Tentamos convencê-lo de que uma viagem a seu próprio país, apenas 130 km de distância, pode revelar-se mais viável. Eu conduzo um dia de recolhimento para alguns casais da paróquia. Todos se aproximam da Confissão e da Comunhão e parecem regenerados pela experiência.

Eu visitei o hospital com o pároco para ungir Kwol, um policial de 28 anos, que, em pouco mais de um ano, foi reduzido a pele e osso pela tuberculose. Ele está extremamente fraco, mas responde às orações e seus olhos nunca deixam de fitar o sacerdote. Dois outros pacientes na enfermaria, ambos muçulmanos, observam e aguardam a sua vez na visita. Kwol morreu na manhã seguinte e foi enterrado sem demora.

No meu último dia em Halfa, fui visitar Sidonia, cujo casamento com Dominic abençoei há alguns anos. Ela, também, é uma sombra de seu antigo eu. Agora esperando seu segundo filho, ela se senta na beira da cama, mas mal conseguia falar. Deixamos-lhe dinheiro para comida – carne, frango ou ovos - para complementar a pobre dieta. Ela toma medicamentos para turbeculose, o que pode afetar a vida de seu bebê. Sua irmã e os vizinhos estão a ajudá-la. Eu precisei partir.

Meu tempo no Sudão está se esgotando rapidamente e devo voltar a Cartum. As grandes planícies são verdes - tão verdes – e a perspectiva de uma boa colheita parece provável. Em Cartum, como em Halfa, fala-se muito de paz - alguma forma de paz para o ano 2000. Grandes esperanças e muitas conversas, mas a realidade revela a miséria se estender por muitas e muitas famílias no Sudão - tanto muçulmanas e como cristãs. Os problemas continuam e a miséria se torna cada dia mais grave. Muitos dos jovens e instruídos entre os sulistas que vivem no norte do Sudão estão partindo para o Egito. Vistos para o Egito estão sendo concedidos livremente e sem dificuldade. O sul está sendo sistematicamente esvaziado por políticas de promoção da guerra, fome e opressão. Se a paz virá, quem estará aqui ou ali – para se beneficiar?

Quem se importa? QUEM SE IMPORTA?

Nenhum comentário: