quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Abd el-Kader e o Massacre de Damasco



Tradução Pedro Ravazzano

O ano era 1860, e o mundo estava, como de costume, em convulsão. Na China, a Segunda Guerra do Ópio estava chegando ao fim. A América estava se preparando para uma grande cirurgia, na forma da Guerra Civil, que finalmente curaria a jovem nação de seu defeito congênito da escravidão. E no coração do Oriente Médio, numa província do Império Turco Otomano, que mais tarde se tornaria na moderna Síria, uma profana mistura estava se formando. É isso mesmo: a política foi unida à religião.

Cristãos e muçulmanos viveram lado-a-lado na terra santa há mais de mil anos. Exércitos muçulmanos conquistaram a moderna Síria, Líbano, Israel e Egito, em meados do século VII, e enquanto os muçulmanos mantinham a autoridade política plena, os cristãos e judeus estavam autorizados a praticar livremente sua religião. A noção de que os não-muçulmanos foram forçados a se converter na ponta da espada é ridícula - no Egito, por exemplo, estima-se que os muçulmanos só se tornaram metade da população no ano de 1200, 500 anos depois.

A área em torno do Líbano e da Síria, em particular, era um local como nenhum outro no séc. XIX quando o assunto se tratava da diversidade religiosa. Além de um número significativo de muçulmanos (sunitas e xiitas), de cristãos (católicos, católicos maronitas, ortodoxos gregos, caldeus, siríacos, e outros), e de judeus, havia também grupos religiosos como a alauítas e drusos, que se separaram séculos antes do Islã tradicional e agora se enxergavam como religiões próprias.

Pelos padrões da época, esses grupos viviam em relativa harmonia. O que quer dizer, também pelos padrões da época, que o fato desses grupos coexistirem ser um milagre. Se você fosse uma minoria religiosa em qualquer lugar do mundo sua vida estava em perigo. Apenas um ano antes, o primeiro pogrom ocorrera em Odessa, na Rússia, ceifando a vida de muitos judeus. Nem mesmo a América era imune a esse tipo de violência religiosa: em 1838, 18 homens mórmons foram mortos no massacre de Haun’s Mill, no Missouri.

Os maronitas e drusos estavam concentrados no Líbano. Os dois grupos nunca tinham gostado do outro e sua relação foi ficando ainda pior. Incrementava a tensão o fato das potências externas encorajarem ambos os lados. Os franceses apoiavam os cristãos, os britânicos apoiaram os drusos, e com o Império Otomano se desintegrando a cada dia, os governantes turcos foram incapazes, ou não, de acabarem com o conflito.

Em 1858, os camponeses cristãos no Líbano organizaram um levante contra seus senhores feudais drusos. Os drusos retaliaram. O Patriarca dos maronitas, então, ameaçou remover à força os drusos das montanhas libanesas. Assim, portanto, as coisas ficaram feias.

Em maio de 1860, um grupo de cristãos atirou num grupo de drusos fora de Beirute, matando um. Na onda de violência que se seguiu em ambos os lados, dezenas de aldeias foram queimadas e centenas de pessoas foram mortas. A violência se espalhou para fora do Líbano e caminhara até a Síria, em direção a Damasco, onde ambiciosos homens estavam conspirando para dar uma forma a esta violência, até então desorganizada, em algo muito mais bizarro.

O principal deles fora o governador turco de Damasco, Ahmed Pasha, que não queria nada além do que dar a sua população uma "correção" - hoje diríamos limpeza étnica. Em março, ele já tinha começado uma reunião secreta com dois chefes dos drusos e com o mufti de Damasco. Juntos, eles traçaram um plano para provocar uma guerra total no bairro cristão da cidade.

O plano parece ter sido este: os drusos incitariam ataques contra os cristãos, "forçando" os turcos a intervir e, teoricamente buscando proteger a comunidade crista, a escoltaria até uma cidadela fora da cidade. Lá, conspiradores drusos estariam esperando para matá-los. 

Com o aumento das tensões entre os dois lados a cada dia, seria necessária uma única fagulha para acender o fogo. Esta chama foi acesa em 08 de julho. Pasha havia providenciado alguns meninos muçulmanos para desenhar imagens de cruzes na beira do bairro cristão da cidade, depois as profanaria, cuspindo e jogando lixo sobre elas. As aturdidas crianças foram imediatamente presas, punidas por ter provocado a ira da grande comunidade muçulmana.

"Em 9 de julho, os culpados, meros suportes num cenário planejado por Ahmed Pasha, foram ordenados a ser publicamente açoitados, então forçados, pelas mãos e joelhos, a limparem as ruas que sujaram com o lixo. Os provocadores fizeram o resto. "

O massacre de Damasco tinha começado.

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"Foi-me dito que Abd el-Kader fora o  George Washington argelino, o pai da moderna Argélia (...)  Abd el-Kader foi o primeiro árabe a criar uma aparência de unidade tribal para combater a ocupação francesa. Mas com a derrota, notei uma semelhança com Robert E. Lee. Ele era gentil, generoso, respeitado por seus inimigos e profundamente religioso.
"

Abd el-Kader foi um desses homens que, nas palavras de Shakespeare, tinha a grandeza sobre ele. Ele certamente não nasceu para si. Era proveniente de uma região remota da província turca da que hoje chamamos Argélia, em 1808, numa família tribal nas bordas do deserto do Saara. Você seria duramente pressionado a encontrar uma região tão menos improvável na terra para o surgimento de um dos homens mais influentes do século.

Abd el-Kader nasceu numa tribo de guerreiros, homens que durante séculos tinham colocado a valentia acima de tudo e valorizado um cavalo rápido e resistente. Seu pai, Muhi al-Din, era um marabu, um líder religioso de sua tribo, e um líder de uma tradição suf conhecida como ordem Kadiriyya. Esperava-se, a partir do momento de seu nascimento, que Abd el-Kader seguiria os passos de seu pai. "Seu destino, caso tivesse abraçado o de mentor, teria sido a de um monge casado, vivendo uma vida de oração, meditação e ensino".

Como todos os homens de sua tribo, Abd el-Kader foi treinado em equitação e esgrima e nas outras artes de guerra, mas a sua formação principal era em seus estudos religiosos. Quando adolescente, ele foi enviado por seu pai para a cidade de Oran para continuar seus estudos. Ele voltou para casa com quinzes anos. Com dezessete se casara, e, em seguida, partiu com seu pai para a peregrinação a Meca, uma viagem que levaria dois anos para ser concluída. Esta viagem incluiu paradas em Damasco e Bagdá, onde "este jovem magrebiano de incrível conhecimento e agilidade intelectual espalhava a sua palavra e poderia muito educadamente mantê-la diante dos principais estudiosos da cidade." Abd el-Kader voltou para sua aldeia natal de Mascara em 1828, e provavelmente teria passado o resto de sua vida lá não fossem a interferência dos eventos.

E eles interferiram. Em 1830, o rei Carlos da França, viu uma campanha imperial como uma ótima maneira de combater a sua impopularidade em casa, e, assim, usara um pequeno incidente diplomático como desculpa para invadir a Argélia. Argel se rendeu aos franceses rapidamente e sem derramamento de sangue, embora não tenha sido suficiente para salvar o rei, Carlos, que abdicou ao final daquele ano, e transferiu a coroa para seu primo, Louis-Phillipe.

Se os franceses tivessem sido mais generosos na vitória, a guerra poderia ter sido mais rápida. Os turcos não eram bem quistos pela população local, por isso, se era apenas uma questão de pagar impostos a um líder diferente, a maioria dos cidadãos teria aderido com um protesto mínimo.

Mas como tantos conquistadores estrangeiros, os franceses logo colocaram a população local contra eles por serem desnecessariamente duros e completamente surdos à cultura local. Ademais, expulsaram os turcos, o único grupo de pessoas que poderia ter servido como intermediário. Como Alexis de Tocqueville escrevera em 1837, "Uma vez que o governo turco foi destruído e nenhum substituto fora colocado em seu lugar, o país caiu na terrível anarquia."

O vácuo político gritava pela liderança, que por padrão caiu sobre os líderes religiosos de várias tribos fora da cidade. A brutalidade da ocupação francesa forçou os líderes tribais religiosos a se unir contra o opressor. Em 1832, as várias tribos se uniram para nomear o pai de Abd el-Kader, Muhi al-Din, seu sultão.

Muhi al-Din concordou, mas com uma condição: que imediatamente depois de aceitar o cargo, abdicaria em favor de seu filho. Esta cláusula fora recebida com aprovação imediata; o conhecimento religioso de  el-Kader, sua força e coragem, já eram famosas em toda a região. Na idade de vinte e quatro anos, Abd el-Kader tornou-se o líder de seu povo numa guerra contra a ocupação estrangeira. Ele logo ganharia o título de "Emir al-Mumineen", o Comandante dos Crentes.

Em retrospecto, a tarefa de Abd el-Kader era desesperançosa desde o início. Nenhuma quantidade de brio militar poderia fazer diferença diante do poder e tecnologia do exército francês confrontado com um grupo desorganizado de beduínos argelinos. Mas o homem fez a sua tentativa.

Durante quinze anos Abd el-Kader conduziu seu povo na resistência contra os franceses. Ele levou os seus soldados, por exemplo, a ficarem dia e noite sobre a sela, parando apenas para rezar, às vezes cobrindo até 150 milhas num dia para enfrentar o inimigo na batalha. Os franceses ficaram surpresos, e depois impressionados, com o poderio militar de seu jovem inimigo.

Abd el-Kader não travou simplesmente uma guerra contra os franceses, mas também estava lutando para estabelecer uma nação entre seu próprio povo. Ele formou um exército independente. Ele estabeleceu e recolhia impostos necessários para manter seu exército abastecido. Ele criou um gabinete de conselheiros, incluindo um comerciante judeu que serviu como seu embaixador junto aos franceses.

Ele teve que lutar não só com os franceses, mas com os líderes do seu próprio povo, muitos dos quais não eram avessos a trabalhar com o inimigo ou rebelar-se de outras formas, se isso lhes conviesse.

Em 1834, as forças de Abd el-Kader havia conseguido tal sucesso que o general francês encarregado de subjugá-los pediu por um cessar-fogo, que foi concedido. Alguns extremistas em sua própria comunidade rotulou-o como um herege por conta da negociação com os franceses, forçando Abd el-Kader a travar outra batalha para derrotá-los.

Um ano depois, porém, um outro general do exército francês usou um frágil pretexto para romper o cessar-fogo e marchar sobre as forças de Abd el-Kader. As forças francesas foram emboscadas e sofreram uma derrota humilhante, que incrementou a reputação de Abd el-Kader, tanto junto ao seu próprio povo como ao redor do mundo. 

Isso só fez deixar os franceses ainda mais furiosos e, assim, em 1836, eles vieram com mais forças e mais determinação para exterminar seu adversário. Abd el-Kader aprendeu rapidamente que ele não poderia derrotar o exército francês numa batalha de campo, e recorreu a ataques relâmpago, com sua cavalaria emergindo do deserto como surpresa e destruindo a unidade francesa, e depois desaparecendo na areia tão rapidamente.

Enquanto isso, as façanhas deste indestemível líder guerrilheiro, subfinanciado, levantando-se contra a poderosa França, começaram a atrair o interesse dos britânicos e dos americanos - os britânicos por causa de sua rivalidade de longa data com os franceses e os americanos por conta de sua própria experiência lutando contra imperialismo britânico apenas algumas décadas antes.

As façanhas de Abd el-Kader foram contadas na América em publicações populares, como a Little’s Living Age, e um leitor foi suficientemente tomado por el-Kader a ponto de nomear uma cidade em sua homenagem. Timothy Davis, um advogado que tinha estabelecido em Dubuque, em 1836 (Iowa ainda não era um Estado, que ainda era parte do território da Louisiana), adquiriu uma propriedade nas proximidades do Rio Turquia, que parecia ideal para um moinho de farinha, e projetou uma nova cidade a ser construída ao redor da usina. "Então, Timothy Davis, um espírito pioneiro, advogado respeitado e admirador distante deste resistente azarão, nomeava em seguida o novo assentamento de Abd el-Kader, sabiamente encurtado para línguas americanas como Elkader".

Elkader, Iowa, foi fundada em 1846. Permanece até hoje como a sede do condado de Clayton, com uma população de cerca de 1500. É a única cidade da América com um nome em árabe.

Em 1837, o general Thomas Bugeaud fora encarregado das operações francesas na Argélia. Sua missão inicial era garantir outro tratado de paz com Abd el-Kader, o que ele fez. Este tratado reconheceu a soberania da França sobre as cidades costeiras de Argel e Oran, embora concedendo as regiões desérticas do interior a Abd el-Kader. Mais uma vez, o governo francês não estava satisfeito com os termos do tratado depois que os detalhes se tornaram conhecidos. Além disso, o texto do tratado em árabe era pouco, mas fundamentalmente, diferente do texto em francês. Em 1839, os franceses aproveitaram da ambigüidade para marchar seu exército através de uma região do país que estava proibida a eles na versão árabe. A guerra tem um novo começo.

Por volta de 1841, os franceses já estavam cansados com a resistência de Abd el-Kader e seu pequeno exército. Ficou claro que suas táticas de guerra convencionais não estavam funcionando. Geral Bugeaud deu a sua recomendação ao Parlamento. "Precisamos de um líder que deverá ser implacável e de uma guerra ilimitada." Ele estava se referindo a si mesmo.

Para os próximos seis anos, a França travaria uma guerra intensa. Mais de 100 mil soldados - um terço de todo o exército francês - estava estacionado na Argélia, e eles não se sentiram constrangidos pelas regras comuns da guerra. Casas foram queimadas, o gado foi baleado, lavouras foram destruídas. Se Abd el-Kader foi Robert E. Lee, então Bugeaud foi William T. Sherman.

Nas palavras de um dos oficiais de maior confiança Bugeaud, "Eu não deixarei em pé sequer uma árvore em seus pomares, nenhuma cabeça sobre os ombros destes árabes miseráveis (...) Vou queimar tudo, matar todo mundo." O mesmo oficial foi responsável pelo asfixiamento de centenas de homens, mulheres e crianças, que tinham se refugiados dentro de uma série de cavernas. Na imprensa inglesa, Bugeaud ficou conhecido como "O Açougueiro dos beduínos".

Por outro lado, Abd el-Kader conduzira a guerra  da forma mais civilizada possível. Ele planejou uma série de regras para o tratamento de prisioneiros que foram, em alguns aspectos, precursoras das regras oficiais codificadas na Convenção de Genebra em 1949. Num exemplo, ele libertou um grupo de soldados franceses capturados porque não tinha comida suficiente para alimentá-los. Alguns prisioneiros ficaram tão impressionados com o tratamento dado por Abd el-Kader que chegaram ao ponto de formalmente desertarem para o outro lado, servindo como consultores estrangeiros para o emir.

Através de intermediários, Abd el-Kader desenvolvera correspondência com o Bispo de Argel, concordando em libertar os prisioneiros de guerra franceses em troca da promessa do bispo de pressionar os militares franceses na libertação dos prisioneiros árabes - o que ele fez, com sucesso limitado. Se os soldados franceses sabiam que não seriam abatidos pelo inimigo caso fossem feitos prisioneiros, eles não lutariam tão apaixonadamente. Como o coronel francês escreveu: "Nós somos obrigados a fazer o máximo possível para esconder essas coisas [o tratamento dado aos prisioneiros franceses pelo emir] de nossos soldados. Porque se eles suspeitassem de tais questões, não se lançariam com tanta fúria contra Abd el-Kader. "

Os presos levados até Abd el-Kader eram questionados para se certificar de que tinham sido bem tratados em sua viagem, se não fossem, o soldado argelino responsável por seus cuidados era açoitado. As mulheres cativas foram entregues aos cuidados da única pessoa no mundo que Abd el-Kader mais confiava: sua própria mãe.

Mas os franceses eram muito fortes, e os argelinos de Abd el-Kader  muito desunidos. Em 1847 ele não estava lutando uma guerra tanto como estava fugindo da captura. Seus tenentes começavam a render-se aos franceses. Abd el-Kader levou sua família para Marrocos, em busca de refúgio, mas foram expulsos pelo sultão, que não queria instigar a ira da França. Muitos de seus seguidores leais restantes queriam lançar um último ataque, para sair num momento de glória. Abd el-Kader recusou tal intento.

"Se eu achasse que ainda havia a possibilidade de derrotar a França, eu continuaria. Mais resistência só irá criar sofrimento vão. Devemos aceitar o julgamento de Deus, que não nos deu a vitória e que, em Sua infinita sabedoria, quer agora esta terra pertencente aos cristãos. Será que vamos nos opor à Sua vontade? "

Em dezembro de 1847, Abd el-Kader mandou comunicar ao general Lamoriciére, agora líder da batalha contra ele, que estava preparado para discutir os termos de sua rendição. Um acordo foi alcançado, e assinado pelo próprio filho do rei, onde se falava da rendição de Abd el-Kader e de seus homens, terminando a guerra que durara quinze anos, em troca de passagem segura para Alexandria ou Acre no Egito, onde Abd el-Kader planejava o viver o resto de seus dias.

E, mais uma vez, Abd el-Kader foi traído, quando o acordo que chegara não permitia que fosse aceita a sua liberdade. Os franceses tinham outras coisas em mente sobre o que fazer com Abd el-Kader - a monarquia do rei Louis-Philippe estava em colapso, e em fevereiro de 1848 ele abdicara antes que pudesse ser derrubado. O novo governo se recusou a ratificar o acordo. Abd el-Kader e sua família foram forçados a se mudar para a França, onde se tornaram prisioneiros - num ambiente bastante luxuoso - por mais de quatro anos.

A traição francesa a Abd el-Kader só fez dele uma figura ainda mais heróica aos olhos do mundo. Em 1850, um cavalo chamado Abd el-Kader (apelidado de "Pequeno Ab ") participou do Grand National Steeple Chase,  na Inglaterra. O cavalo, como uma possibilidade remota de 33-1, venceu. E venceu a corrida também no ano seguinte. O autor britânico William Thackeray escreveu uma elegia à Abd el-Kader, intitulada "The Caged Hawk." De Tocqueville chamara Abd el-Kader de "um Cromwell muçulmano".

Na França, Abd el-Kader se tornou numa espécie de celebridade. "Um culto começou a se formar em torno da pessoa do emir. Franceses vinham de todos os cantos para visitá-lo”. Foi, imagino eu, uma espécie de versão do século 19 daquilo que ocorrera no encontro do Papa no Yankee Stadium. Num determinado ponto foi atribuído um novo guarda para Abd el-Kader que pediu para ser transferido porque "ele queria a honra de guardar o emir para pagar a consideração pela qual foi tratado quando foi ex-prisioneiro." Como uma freira que cuidou da família de Abd el-Kader escreveu a seu superior; "excetuando algumas questões de natureza teológica, não há nenhuma virtude cristã que Abd el-Kader não pratique no mais alto grau."

Em 1849, os cidadãos de Bordeaux colocaram o nome de Abd el-Kader na cédula de votação como candidato nas eleições presidenciais. Em 1852, a opinião pública francesa se transformara em favor de seu inimigo derrotado e o presidente eleito, Luís Napoleão (em breve Imperador Napoleão III), anunciou que Abd el-Kader estava prestes a ser libertado. Depois de um desfile triunfal pelas ruas de Paris, Abd el-Kader e sua família foram enviados para Bursa, cidade turca não muito longe de Istambul. Bursa não se contentara com a chegada do emir, porém, e em 1855 - depois de obter a aprovação de Napoleão - Abd el-Kader mudou-se para Damasco.

No caminho de Damasco, Abd el-Kader conheceu e fez amizade com o adido militar britânico no Líbano, o coronel Charles Henry Churchill - primo distante de Winston. Churchill acabaria por escrever a biografia definitiva de Abd el-Kader e de seu tempo. Quando Abd el-Kader chegou em Damasco, como Churchill escreveu, "desde os dias de Saladino ninguém recebeu uma tão recepção triunfal."

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E foi assim que, em 1860, Abd el-Kader, o herói trágico do mundo árabe, encontrou-se no epicentro do turbilhão. Abd el-Kader já havia se retirado da vida política, mas ainda exercia uma quantidade substancial de poder simbólico, caso precisasse. E ele exerceria tal influência.

Ligado como ele era junto às elites de Damasco, Abd el-Kader ouvira rumores de que certos elementos da sociedade damascena estavam planejando tirar vantagem da violência no Líbano para lançar um ataque contra os cristãos locais. Ele estava suficientemente preocupado a ponto de informar ao cônsul francês e, juntos, foram ver o governador, Ahmed Pasha. Este, por sua vez, não acreditava que esta conspiração fosse se concretizar. Pasha assegurou que não havia nenhum motivo para os rumores.

No entanto, os rumores eram tão persistentes que o cônsul foi convencido a fazer algo extraordinário: sob o mais rigoroso sigilo, autorizou o gasto de dinheiro francês para armar Abd el-Kader e mil de seus homens argelinos.

Em 08 de julho, Abd el-Kader tinha descoberto os detalhes da trama entre os drusos e os turcos e se organizara fora da cidade para enfrentar a cavalaria drusa  antes que atacassem. Ele - e seu pequeno exército – conseguiu convencê-los a desistir do seu ataque. Entretanto, estava alheio ao fato de que havia uma multidão já varrendo Damasco.

Ele voltou para a cidade em 10 de julho e encontrou o caos estruturado. "Abd el-Kader logo descobriu que as tropas turcas, designadas para proteger a população, tinha sido enviadas para a cidadela ou ficaram observando com interesse enquanto manifestantes estavam furiosamente queimando casas e matando os cristãos."

Naquele momento, Abd el-Kader, o homem que conduziu seu povo muçulmano numa guerra contra os invasores cristãos por quinze anos, sabia o que tinha que fazer. E sabia que tinha que fazê-lo rapidamente.

Primeiro, ele e seus homens correram para o consulado francês para criar um porto seguro. Os franceses foram imediatamente acompanhados pelos diplomatas russos, americanos, holandeses e gregos que procuravam fugir do local. E, em seguida:

Durante toda a tarde de 10 de julho, Abd el-Kader adentrou no caos do bairro cristão, com seus dois filhos,  gritando: "Cristãos, venham comigo! Sou Abd el-Kader, filho de Muhi al-Din, o argelino ... Confiem em mim. Eu vou te proteger. "Durante várias horas os argelinos levaram hesitantes cristãos para a sua casa fortaleza em Nekib Allée, cujos dois andares interiores e os grandes pátios iriam se tornar num refúgio para as desesperadas vítimas. 

"Quando a noite estava avançada, hordas de saqueadores - curdos, árabes, drusos - entraram no bairro e inflaram a multidão furiosa, que, já saturada de despojos, começou a clamar por sangue. Homens e meninos de todas as idades foram obrigados a apostatar e, em seguida, foram circuncidados no local ... As mulheres foram estupradas ou levadas para partes distantes do país, onde foram colocadas em haréns ou casadas instantaneamente com muçulmanos ", escreveu Churchill sobre estes eventos. "Dizer que os turcos não tomaram nenhuma iniciativa para controlar este massacre e destruição seria supérfluo. Eles foram coniventes com tudo isso, instigaram e fizeram parte. Abd el-Kader sozinho ficou entre os vivos e os mortos ".


Abd el-Kader voltou com seus homens e todos os cristãos podiam agora se sentir em segurança na sua propriedade.

A notícia se espalhou entre os manifestantes que o emir estava protegendo os cristãos. No dia seguinte, uma multidão enfurecida se reuniu em sua porta para protestar. Eles estavam dispostos a tolerar o abrigo dado aos diplomatas, mas exigiram que abrisse mão dos cristãos locais sob sua proteção. Como a multidão ficava ainda mais revoltada, o emir chegou à porta.

"Dá-nos os cristãos", gritava a multidão depois que ele acalmou-a unicamente com a sua presença silenciosa.

"Meus irmãos, o seu comportamento viola a lei de Deus. O que faz vocês pensarem que têm o direito de sair por aí matando pessoas inocentes? Vocês afundaram tão baixo que até estão matando mulheres e crianças? Deus não diz em nosso Livro Sagrado que quem mata um homem que nunca cometeu um assassinato ou que tenha criado desordem na terra será considerado como um assassino de toda a humanidade?!"

"Dá-nos os cristãos! Queremos os cristãos! "

"Não disse Deus que não deveria haver nenhuma coação na religião?" O emir em vão respondeu.

"Oh santo guerreiro", gritou um dos líderes do grupo. "Nós não queremos o seu conselho. Por que você mete o nariz no nosso negócio? "

"Você matou cristãos", gritou outro. "Como você pode opor-nos por responder aos seus insultos. Você é mesmo como os infiéis – abre mão daqueles que está protegendo em sua casa ou será punido do mesmo modo como estes que está escondendo " 

"Vocês são loucos! Os cristãos que morreram eram invasores e ocupantes que assolaram nosso país. Se agir contra a lei de Deus não os assusta, então pensem sobre o castigo que vão receber dos homens ... Vai ser terrível, eu prometo. Se vocês não vai me ouvirem, então Deus não irá ampará-los com razão - vocês são como os animais que são despertados somente pela visão do capim e água "

"Você pode manter os diplomatas. Dê-nos os cristãos ", gritou a multidão, parecendo mais e mais como romanos no Coliseu.

"Enquanto um dos meus soldados ainda estiver de pé, vocês não vão tocá-los. Eles são meus convidados. Assassinos de mulheres e crianças, vocês filhos de pecado, tentem tirar um desses cristãos e vão aprender o quão bem lutam os meus soldados. " O emir virou-se para Kara Mohammade. “Pegue minhas armas, meu cavalo. Vamos lutar por uma causa justa, assim como aquela que lutamos antes. "

"Deus é grande", seus homens gritaram, brandindo suas armas e espadas. Diante dos experientes soldados veteranos do emir, a multidão se dissipou atirando insultos.

Bem mais de mil refugiados cristãos foram alojados dentro de casa de Abd el-Kader, tornando-a tão lotada que as pessoas não podiam sentar-se ou deitar-se, e muito menos utilizar as instalações. Então, Abd el-Kader organizou pequenos grupos com seus homens argelinos para acompanhar os cristãos, em grupos de 100, para a cidadela fora da cidade - a mesma cidadela que os drusos tinha originalmente planejado usar para matá-los.

A residência foi finalmente esvaziada e limpa. Abd el-Kader, em seguida, mandou espalhar a notícia que uma recompensa de 50 piastras seria paga por cada cristão que fosse levado para sua casa. Durante cinco dias, o emir raramente dormia, e quando o fez, foi numa esteira de palha no hall de entrada de sua residência, onde ele distribuía o dinheiro de recompensa tirado de um saco que ele mantinha ao seu lado. Assim que 100 refugiados foram recolhidos, seus argelinos os acompanharam até a cidadela.
O pior da rebelião terminou em 13 de julho de 1860 - 150 anos atrás. Pelo menos 3.000 cristãos foram mortos antes que tudo tivesse acabado. A Abd el-Kader foi creditado a salvação de mais de 10 mil cristãos, incluindo todo o corpo diplomático europeu.

A notícia chegou à França uma semana depois - tanto a respeito do horrível massacre, como do incrível e central papel de Abd el-Kader no combate. Os franceses ficaram em êxtase e pasmados. Editoriais elogiando suas ações foram impressos em jornais de todo o país. Le Gazette de France escreveu: 

"O emir Abd el-Kader imortalizou-se pela proteção corajosa que deu os cristãos sírios. Uma das mais belas páginas da história do século 19 será dedicada a ele" Outro jornal escreveu: "...Quando a carnificina estava no seu ápice, o emir apareceu nas ruas, como que enviado por Deus "
A notícia também viajou através do Atlântico. Em 20 de outubro, o New York Times publicou o seu editorial:

"Para Abd-el-Kader este é realmente um capítulo de glória, e da verdadeira glória, também. Não há tão grande feito para a história gravar, que o soldado mais intransigente da independência maometana, quando esta independência manteve as montanhas, brandindo sua espada, tornar-se o guardião mais intrépido da vida e honra cristã nos dias de sua queda política, e no declínio tanto de seu povo e de sua fé. As derrotas que levaram os argelinos a se renderem aos franceses foi estranhamente e nobremente vingada ... Hoje o mundo cristão se une para honrar o Príncipe destronado do Islã, o mais altruísta dos cavaleiros guerreiros, arriscando os seus seguidores e suas vidas para resgatar seus antigos inimigos, seus conquistadores e os vencedores de sua raça e de sua religião, do ultraje e da morte ".

(O New York Times tem, impressionantemente, arquivos que datam desde 1851. Você pode ler o editorial completo aqui.)

Abd el-Kader não fora o único muçulmano que se esforçou para defender os cristãos de Damasco da multidão furiosa. Em particular, na área de Damasco conhecido como Maydan, que (naquela época e agora) era a casa dos muçulmanos mais devotos na cidade, os muçulmanos esconderam e protegeram seus vizinhos cristãos da violência. Mas Abd el-Kader se tornou o rosto islâmico que se levantou em defesa da comunidade cristã e, como tal, as honras e elogios caíram de todo o mundo sobre ele.

Os franceses imediatamente concederam a Abd el-Kader, que apenas uma década antes tinha sido o seu maior inimigo, a Legião de Honra francesa. (Isto seria como a América que, em 1987, concedeu a Medalha de Honra do Congresso para Ho Chi Minh). Rússia, Espanha, Prússia, Grã-Bretanha, e até Papa o premiaram com várias distinções. Dos Estados Unidos vieram de presente um par de pistolas colt finamente forjadas - uma fonte afirma que foram feitas de ouro - entregues numa caixa que trazia a inscrição: Do presidente dos Estados Unidos, a Sua Excelência, o Senhor Abdelkader, 1860. "

(Duas das minhas fontes afirmam que quem enviara o presente fora o Presidente Lincoln e não o Presidente Buchanan. O que tornaria a história ainda melhor - uma dos nossos melhores presidentes, ao invés de um de nossos piores. Lincoln não assumiu o cargo até março de 1861.)

Abd el-Kader era caracteristicamente modesto sobre seu papel nessa história. Numa carta ao bispo de Argel, escrevera:

"... O que nós fizemos para os cristãos, fizemos para sermos fiéis à lei islâmica e respeitosos com os direitos humanos. Todas as criaturas são parte da família de Deus e os mais amados por Deus são aqueles que fazem o melhor para sua família. Todas as religiões do livro se fundamentam em dois princípios - louvar a Deus e ter compaixão pelas suas criaturas ... A lei de Maomé dá maior importância à compaixão e à misericórdia, e tudo aquilo que preserva a coesão social e nos protege da divisão. Mas aqueles que pertencem à religião de Maomé corromperam isso e é por tal razão que eles estão agora como ovelhas perdidas. Obrigado por suas orações e bons votos a mim... "
O impacto do massacre foi significativo. Assim que a notícia chegou à França, um exército foi enviado para o Líbano. O sultão turco, buscando acabar com qualquer argumento dos franceses para a invasão, despachou o seu próprio exército até Damasco para identificar e processar os perpetradores. No final, mais de 300 homens foram considerados culpados, metade dos quais foram exilados do império. Os outros foram condenados à morte, incluindo o governador, Ahmed Pasha, que foi fuzilado. Mas a questão de quem fora o verdadeiro mandante do massacre - se foram os turcos, que queriam vingança, ou se foram até mesmo os britânicos ou franceses que estavam procurando uma desculpa para ocupar Síria - permanece sem solução até hoje.

Enquanto isso, tantos franceses como ingleses tinham projetos na área e, como na espreita até o dia em que pudessem colonizar a região, foi lançada a idéia da instalação de Abd el-Kader como o governante de Damasco. O único problema era que Abd el-Kader não tinha interesse. Como ele disse a um jornalista francês, "Minha carreira política acabou. Eu não tenho nenhuma ambição de glória mundana. A partir de agora, quero apenas os doces prazeres da família, oração e paz."

Ele foi fiel à sua palavra. Abd el-Kader viveu o resto de seus dias em Damasco e sua residência estava na lista de visita obrigatória de qualquer europeu que chegava na cidade. Em 1869, Abd el-Kader fora influente no convencimento dos árabes na importância do projeto para a construção de canal ligando o Mediterrâneo ao Mar Vermelho, o que ajudou a tornar o Canal de Suez uma realidade.

Abd el-Kader, ademais, vivera uma vida de espiritualidade simples, gastando muito de seu tempo escrevendo um comentário sobre as obras de Ibn Arabi, o famoso muçulmano erudito do séc. XIII. Ele morreu de insuficiência renal em 25 de maio de 1883 e foi sepultado junto ao túmulo de Ibn Arabi, em Damasco. O New York Times publicou um obituário poucos meses antes de sua morte, que dizia:

"Um dos mais hábeis governantes e um dos capitães mais brilhantes do século, se as estimativas feitas por seus inimigos estão corretas, está agora, com toda a probabilidade, se aproximando ao final de sua carreira tempestuosa ... A nobreza de seu caráter, não menos do que o brilho de suas façanhas no campo, há muito ganhou a admiração do mundo ... Os grandes homens não são tão abundantes a ponto de darmos o luxo de perdê-los sem uma palavra. Se ser um patriota, um soldado cujo gênio é inquestionável, cuja honra é inoxidável, um estadista que poderia fazer das tribos selvagens da África num formidável inimigo, um herói que poderia aceitar a derrota e o desastre sem um murmúrio - se tudo isso constitui um grande homem, Abd-el-Kader merece ser classificado entre os primeiros dos poucos grandes homens do século. " 

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Uma das pessoas mais jovens a acompanhar Abd el-Kader em sua viagem ao exílio, primeiro na  França e depois em Damasco, foi Muhammad Yunus, que tinha apenas sete anos de idade quando deixou a Argélia. Quando a multidão invadiu Damasco, Muhammad Yunus Al-Jaza'iri (Al-Jaza'iri é "o argelino" em  árabe para) estava com os seus 20 anos, mas já tinha ganho uma posição como confidente de Abd el-Kader e ocupava um lugar de destaque no Exército do emir. Ainda desempenhou um papel fundamental no resgate dos cristãos. O que não é surpreendente, já que o próprio pai de Muhammad Yunus, Muhammad Sha'aban, tinha sido um dos tenentes mais confiáveis de Abd el-Kader durante a guerra na Argélia. Além disso, Abd el-Kader era seu tio.

Enquanto a fama Abd el-Kader o fez intocável, aqueles em torno a ele não tiveram a mesma sorte. Muhammad Yunus foi envenenado e morreu subitamente em 1880. Os drusos foram suspeitos, mas nada foi provado.

Quando Muhammad Yunus morreu, o próprio Abd el-Kader se tornou no executor de sua propriedade, e até a sua morte foi ele o guardião do filho de Muhammad Yunus, Mahmoud, meu bisavô.

Muhammad Yunus era o meu trisavô.

Abd el-Kader, discernindo da melhor forma os registros de genealogia, era meu penta-tio-avô.

Eu tenho escrito profissionalmente há 15 anos, e particularmente desde 9/11 eu venho tentando, quando as circunstâncias permitiam, fazer deste um tema subjacente no meu trabalho: que os muçulmanos e os cristãos possam viver juntos, que há mais que nos une do que nos divide, que só os extremistas, de ambos os lados, querem ver um choque de civilizações, e não co-existência, instalado.

Só sei que grandes homens trilharam este caminho antes de nós. Meus esforços para fazê-lo são um grão de poeira sobre uma enorme montanha de tolerância que meus antepassados construíram em 1860. Eu me sinto honrando em ecoar, qualquer ínfima parte que seja, a mensagem que Abd el-Kader espalhou de forma tão eloquente, e com tal impacto, há 150 anos atrás.

(Todas as palavras em itálico acima foram retiradas diretamente do maravilhoso livro de John W. Kiser, Commander of the Faithful: The Life and Times of Emir Abd el-Kader,, sem o qual este artigo não poderia ter sido escrito)

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