quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A santidade não é "O Impossível"


Quem assiste ao filme "O Impossível" faz uma experiência fabulosa daquilo que de mais profundo e belo há no homem. A história real nos leva a compreender a grandeza da humanidade: a sua capacidade de abnegação, a sua resiliência diante das adversidades, a força com a qual a pessoa sai de si mesma e contempla o outro, o reconhecendo como irmão. Ademais, infelizmente, não podemos negar a existência de homens incapazes de alçar esse voo, não porque haja alguma imperfeição intrínseca na sua composição, mas porque não foram educados na formação do olhar diante da realidade.

A sala de cinema estava cheia, muitos olhos vidrados naquela história real. Entretanto, não sei quantos conseguiram captar a grandeza da experiência da família. Algums assistiam ao filme como se não passasse de uma aventura ou ação digna dos blockbusters de Hollywood. Outros, não satisfeitos, davam risadas em cenas dramáticas e que refletiam acontecimentos verídicos. De fato, é motivo de perplexidade perceber como existem homens diante dos quais os sentimentos do outro são totalmente estranhos. Estes espectadores não percebiam a respectividade entre as personagens e eles próprios. Os sentimentos ali representados, experiências reais, eram tão esquisitos e exóticos como o enredo de um filme de ficção. O homem que não se enxerga no outro de certa forma perde a sua humanidade: torna-se como o animal incapaz de se ver no reflexo do espelho.

Entretanto, curiosamente, "O Impossível", com toda a dramaticidade dos fatos reais, é uma ode ao completo oposto dessa inércia. O nome já é sugestivo. Se levarmos em consideração os paradigmas modernos de relacionamento, onde a pessoa humana é substituída pelo indivíduo e suas escolhas, como justificar o total desprendimento e essa grandeza de espírito que leva alguém a abrir mão da própria segurança em benefício de desconhecidos? O que leva o homem a atos tão maiores que ele próprio? O filme nos motiva a identificar a maravilha desse atributo que é o seu modo de ir além dos limites humanos. De certa forma "O Impossível" nos induz a reconhecer que tais gestos tornam os homens deuses, na medida em que experimentam um pouco da forma com que Deus se revela a nós de forma misericordiosa, compassiva e amorosa. 

"As estrelas mortas brilham tanto quanto as estrelas vivas", e "é impossível saber qual brilho pertence a cada uma delas", diz uma cena do filme. Os mortos e os vivos nos iluminam da mesma forma. Para alguns isso seria a "comunidade de almas", isto é, a tradição moral que é transmitida ao longo dos tempos, a democracia dos mortos. Entretanto, é mais belo e completo conceber essa fala na linha da comunhão dos santos, ou seja, a experiência de eternidade na qual estão inseridos os homens que na terra se sacrificaram pelo próximo e permitiram que aflorasse a maior vocação dada por Deus. 

Um comentário:

João Emiliano Martins Neto disse...

Pedro Apóstolo (1Pedro 1.16), na Bíblia, estimula que sejamos santos como o próprio Deus é santo. Isso é maravilhoso, porque não há limites simplesmente mundanos que possam impedir que a resiliência divinamente graciosa ajude o homem a escalar a montanha que conduz os verdadeiros cristãos ao caráter do Criador.

Parabéns pelo artigo e pelo Blog, caro irmão.

Que Deus o abençoe e um feliz 2013 só para a glória de Deus.


JOÃO EMILIANO MARTINS NETO