terça-feira, 16 de setembro de 2008

Peyrefitte e Sísifo: a dialética do sentido (I)

Sob a regência de Peyrefitte tudo é luz e harmonia na História. É como se o sentido da História no fundo estivesse se desvelando da forma mais improvável possível: sem uma orientação determinada, sem leis férreas a reger seu desenvolvimento, este sentido ainda assim, ou talvez por isso mesmo, subjaz a cada uma das decisões individuais que compõe sua tessitura e concorre, no desenlace fatal, para o equilíbrio das sociedades humanas. É com esta impressão que eu leio a Sociedade de Confiança.

Livro instigador e complexo, nele seu autor, onze vezes ministro e viajante incansável pelos quatro cantos do mundo, analisa o fenômeno do deselvolvimento capitalista. Desenvolvimento a um só tempo inpirador e problemático: quantos não foram os que previram seu fim, quantos não foram os que anunciaram sua glória perpétua. Profetas, profetas... e é privilégio dos profetas da História, dos profetas sem deus, serem desmentidos pelos fatos.

Peyrefitte não é profeta. Esquiva-se de traçar um destino às sociedades humanas. Seu ceticismo de observador arguto dos costumes humanos - esteve em diversos países cumprindo funções oficiais - talvez lhe sugira a sobriedade que lhe é própria e transparece em suas análises. Sobriedade, porém, matizada por otimismo realista. Não se surpreendam com o paradoxo aparente. Como nos diz Olavo de Carvalho, no admirável posfácio que ele consagrou a edição brasileira da Societé de Confiance, o otimismo de Peyreffite decorre da constatação de um fato: a liberdade de agir.

(continua dos próximos capítulos)

2 comentários:

Rafael Oliveira disse...

Ótima ideia divdir em capítulos Ricardo.Ganhamos espaço e peridiocidade. Aguardo a continuação.

Ricardo disse...

Dividi por impossibilidade absoluta de escrever brevemente. Sou prolixo por natureza e vocação. Quanto ao resto, aguarde mesmo, comendo pipoca e tomando guaraná. Vem, mas vai demorar ainda um tanto.