domingo, 7 de setembro de 2008

O povo que não aprende a ser povo

Exatamente como fiz nos últimos 23 anos, fui assistir ao desfile militar do 7 de Setembro. Como moro no interior, aqui a parada não tem a pujância de unidades militares e viaturas que vemos em Salvador, mas o Tiro-de-Guerra e o Batalhão da Polícia Militar dão para o gasto.

Me lembrei de todas as aulas de Sociologia e Criminologia. As forças armadas e policiais são aparelhos do Estado para oprimir o povo; a violência urbana era um aspecto da luta de classes, com a polícia firmemente sustentando o lado dos ricos, dos opressores.

Esse ano, entretanto, observei mais a público que assistia ao desfile que aqueles que desfilavam. Homens, mulheres, velhos, novos, crianças. A vasta maioria vinda das camadas mais humildes da população, que vieram dos bairros distantes com bicicletas, a pé, de ônibus.

Aquelas pessoas não foram forçadas estar ali. Sequer convidadas, pois a atual administração municipal (uma porcaria) nada fez para convidar o povo para o desfile (na certa o prefeito teme as vaias cada vez mais constantes).

Mas estavam ali. E, incrível, aplaudiam os militares. Com entusiasmo! Vestiam as criancinhas de camuflado, agitavam bandeirinhas do brasil e cataventos verde-amarelos. Mas como podiam aplaudir? Meu professor, meus colegas, os autores que estudávamos não diziam que a polícia só serve para evitar que o povo mude o status quo? Elas não existem contra o povo? A polícia, pelos ricos, não estaria, contrariu sensu, contra o povo? O povo não deveria estar na rabeira do desfile, no grito dos excluídos, junto a turma da foice e martelo e da CNB do B?

Sorri, com meu saquinho de pipocas. Aquele povo não sabia nada sobre ser povo. Me lembrei de Bertoldt Brecht, sobre o levante de Berlim de 1953. "O povo traiu o governo". Por isso nossos gramscistas se esforçam em ensinar o povo a ser povo. E o povo que não trate de aprender, pois a história mostra que os revolucionários nunca se acanharam em tentar dissolver o povo e formar outro.

Viva o 7 de setembro!

Por Edgard Freitas
Itabuna - BA