domingo, 21 de setembro de 2008

"Mas em pleno século XXI"

Hoje é comum ouvir alguém dizer perante uma declaração alheia: “Mas em pleno século XXI!”. Pois é, no século XXI algumas coisas se tornaram intoleráveis.

Não se pode ouvir uma moça – um homem muito menos – dizer que pretende casar virgem; ninguém pode expressar contrariedade ou desconforto com o casamento de homossexuais ou com a adoção de crianças pelos mesmos. Não se pode ter horror de algo hediondo como o aborto sem ouvir: “Mas em pleno século XXI!”.

Já ouvi dizer que as idéias e valores morais devem ser julgados não pela sua pertença epocal, e sim pelo valor que eles têm para a humanidade. As pessoas, no entanto, insistem em usar como critério a época na qual os valores tiveram vigência, ou surgiram.

Mas se para as mentes menos sofisticadas e com maiores dificuldades de entender explicações teóricas dizer assim fica difícil, digo de outro modo:

1) Meses atrás recebi um cheque de um banco, fui até uma agência pretendendo sacar o dinheiro. A bancária me disse que para fazê-lo seria preciso levar o cheque até a agência do titular da conta. Pensei imediatamente: “Mas em pleno século XXI!”

2) Para adquirir meu diploma, me dirigi até a Secretaria Geral de Cursos. Peguei um papel para preencher, recebi um boleto GRU – Guia de Roubo da União – para fazer o pagamento. Depois disso terei que entregar o papelzinho preenchido, o comprovante de pagamento do boleto e as cópias do RG e CPF; com o detalhe que a secretaria só funciona de 8:30 até 12:00 horas. Que coisa prática! Penso comigo mesmo: “Mas em pleno o século XXI”.

3) Fiz uma compra pela internet. O tempo de entrega da encomenda varia de 5 a 10 dias úteis. O produto, um livro, foi enviado no dia 04 de junho. Depois de acompanhar pela internet o serviço de entrega dos Correios e não descobrir nada, liguei para a agência mais próxima. Soube que o carteiro havia passado no dia 26 do mesmo mês para fazer a entrega e foi embora; supostamente por não encontrar ninguém na residência. O que pensei eu? “Mas em pleno século XXI!”

4) Na minha cidade para ir de um canto a outro não se gasta menos de 40 minutos. O trânsito é um inferno. Sem falar que os ônibus são lotados. Nos finais de semana não há trânsito, porém não há ônibus. Nos tempos do progresso se desloca como se andasse de carroça: “Mas em pleno o século XXI”

Onde está a era da praticidade, da tecnologia, da velocidade? Os arautos do progresso e das revoluções sociais e culturais prometeram e prometem muitas coisas. Há de fato progressos materiais, ninguém poderia negá-los. Até que ponto, contudo, estes estão ajudando o homem? Há de fato revolução moral – que estou convencido, não traz bem algum – e as mudanças provenientes desta é que, quando chocadas com visões contrárias - geralmente milenares –, suscitam a fórmula: “Mas em pleno século XXI!”.

Isso quer dizer, por um lado, que algumas pessoas realmente não estão em sintonia com tais transformações. Por outro, significa que algumas pessoas, não poucas, identificam as mesmas com o progresso e se escandalizam diante da “caretice” alheia: “Mas em pleno século XXI”.

Por que não se escandalizam com a ineficiência dos transportes, dos serviços de atendimento ao consumidor, com a morosidade da justiça ou dos Correios ou mesmo dos serviços bancários? Não deveria a tecnologia estar a serviço da humanidade?

Isso sim merece um grande grito de insatisfação. E pode ser aquele mesmo: “Mas em pleno século XXI!”

Vinícius Mascarenhas

Um comentário:

André disse...

Como Olavo comentou certa vez, outra coisa é o tal retrocesso, engraçado como as pessoas dizem:"isso é um retrocesso", como se o que viesse depois fosse necessariamente pior do que o que tinhamos antes.