Pensamentos do Cardeal Charles Lavigerie - I
Tradução por Pedro Ravazzano
A IGREJA E SOCIEDADE MODERNA
"... A Igreja não é a inimiga
de sua inteligência ou de sua filosofia, nem é ela contra suas ciências ou suas
indústrias, ou qualquer um dos produtos do gênio do homem: ela não é a inimigo
quer de sua liberdade ou do progresso da sociedade humana: ela só pede que
todas essas coisas permaneçam dentro dos limites da razão e da justiça. Pelo
contrário, ela se alegra, e nos alegramos com ela, em tudo o que aumente este
patrimônio de glória, riqueza, honra e prosperidade, os frutos do trabalho do
homem e da inteligência...” (Carta Pastoral quando foi instalado como bispo de Nancy, 05
de abril de 1863).
"... Às vezes a Igreja é
deliberadamente apresentada em falsas cores com a intenção de colocar as
pessoas contra ela: não só fazem dela a inimiga de todo o verdadeiro progresso,
como também é apontada por ser totalmente contra os triunfos mais legítimos do
espírito humano. Agora, em seu nome, eu declaro que não é assim (...) Não há
nada grande e nobre neste mundo que não seja consagrado por ela; ela abençoa
tudo o que é justo e incentiva tudo o que é frutífero. Ela é sempre a primeira
a elogiar os trabalhos do gênio do homem, pois ele é a obra-prima de Deus, a
quem ela serve! ... " (Discurso proferido na entrega de prêmios numa
escola em Nancy, 11 de Agosto 1866).
“O povo cristão deu a impressão de que dormira por muito tempo. Nos
primeiros séculos costumava tomar parte proeminente na propagação e na defesa
da fé, e até mesmo participando no governo e administração, uma vez que ajudava
na eleição dos seus pastores, mas de alguma forma gradualmente pareceram perder
o interesse em todas as suas atividades anteriores (...) mas, ao mesmo tempo,
enquanto os leigos na Igreja estavam dormindo, em todo o mundo, o povo ímpio de
repente acordou. (...) O que é pior, as pessoas comuns foram induzidas ao erro,
e elas acreditaram, e ainda acreditam, que a Igreja não só incentivou o povo
cristão à sonolência, como também se opôs à participação das pessoas em
qualquer forma do governo secular. Foi assim que esta terrível hostilidade
surgiu, no final do século passado, e foi transportada para o início deste, e
que tem tido consequências tão deploráveis. Não se pode negar que a Igreja
denunciou todos os erros, todos os crimes e a violência sangrenta que
repentinamente eclodiu no Velho Mundo cristão em nome do povo. Mas Igreja nunca
condenou a população como um todo, longe isso, ela entrou numa aliança com os
homens em todos os lugares onde a doutrina cristã e os padrões morais ainda
eram respeitados ... "(Carta Pastoral sobre a Encíclica Sapientiae
Christianae de Leão XIII, 3 de Fevereiro de 1890)
O APOSTOLADO NO ORIENTE
E A UNIÃO DAS IGREJAS
“É imperativo que os alunos
greco-melquitas em Jerusalém sejam educados em seu próprio rito, e, tanto
quanto possível, nos costumes do país no que se refere à alimentação, bebida,
roupas, moradia etc. Caso contrário, eles não terão impacto sobre o conversão
do Oriente, e serão incapazes de fortalecer a fé do povo de seu próprio rito. É
verdade que estas são apenas questões materiais, mas elas têm a sua importância.
(Carta ao Prefeito da Propaganda, 19 de novembro de 1881).
"... As únicas línguas a serem
estudadas em casa, além da francesa, são as línguas orientais, árabe e grega.
Nunca permita que os alunos participem do rito latino. Mais tarde, mesmo que
alguns deles desejem se juntar à Sociedade dos Missionários que os educaram,
devem manter seu próprio rito. Numa palavra, a Escola Apostólica de Santa Ana,
fundada exclusivamente para os orientais, deve direcionar tudo para esse fim.
Deve, portanto, permanecer Oriental, não apenas no seu rito e ensino , mas
também no modo de viver, vestir, morar e se alimentar ... " (Instruções
aos missionários enviados a Jerusalém).
“O erro fundamental cometido no
Oriente é estar distante dos orientais e mostrar desdém pelos seus ritos, e
querer latinizá-los ao fazê-los entrar na Igreja. Esse modo de agir é
duplamente lamentável. Por um lado, ele só pode chegar a um número muito
limitado de pessoas, apenas pouquissimos orientais teriam o heroísmo de
desistir de sua língua nos cultos e práticas que consideram como uma herança
preciosa.
Além disso, de acordo com o modo como os missionários católicos abordam
esse assunto, eles são suspeitos de ter segundas intenções de natureza
política. As pessoas não entendem porque os orientais deveriam ser
desencorajados a desistir de sua língua e costumes, a menos que os missionários
tenham sido chamados para promover os interesses e as intrigas da política
ocidental. Há apenas um método que pode dar frutos no Oriente, e pode ser
definido assim: aceitar e respeitar tudo que pode ser encontrado entre os
orientais, com a única exceção do vício e do erro ... "(Instruções aos
missionários enviados a Jerusalém ).
"... Os Padres devem ter em
mente que o principal obstáculo ao seu trabalho seria a menor suspeita de um
pretenso interesse na latinização. Todos os ofícios litúrgicos assistidos pelos
alunos devem ser no rito grego. (...) Este é o espírito que deve ser neles
redespertado num esforço para uni-los mais estreitamente com a Santa Sé, e para
ir mostrando-lhes como são grandes e necessárias para a salvação esta união e a
perfeita ortodoxia ... " (Instruções aos missionários enviados a
Jerusalém).
O PAPEL DO PAPADO
E O GOVERNO DA IGREJA
"... Todo o governo romano, na
minha opinião, tanto da Igreja e como do Estado, é marcado por um grande mal -
não é um governo católico. Deixe-me explicar, quero dizer que durante os
últimos 300 anos, e apenas nos últimos 300 anos, em vez de procurar homens de
todas as nações para o governo, só admitira romanos em suas fileiras, ou pelo
menos italianos, incluindo o Colégio Sagrado, fazendo com que apenas Cardeais
pertencentes a Itália fossem eleitos como Chefe de Igreja (...).
Assim, pois, especialmente durante este último quarto de século, um
espetáculo mais peculiar ainda vem ocorrendo diante de nossos olhos: sob o
pretexto da unidade católica, o mundo inteiro está sendo Italianisado,
especialmente a França. Estamos adotando sua liturgia, práticas disciplinares,
música e até mesmo o modo de se vestir do clero italiano, e, o que é muito
infeliz, temos toda uma multidão de espíritos iludidos que se sentem obrigados
a cumprir com tudo isso.
Não teria sido possível nenhum desses exageros que têm ocorrido se Papas de
todas as diferentes nações tivessem sucedido um após o outro, ao invés de uma
sucessão de Papas italianos. Como também se os assessores e os outros homens ao
serviço do Santo Padre pertencessem em números iguais a todos os países
católicos, em vez de todos serem romanos. Seria perfeitamente natural que cada
indivíduo perseverasse naquilo que fosse bom em seu próprio país e, assim,
teria sido uma escolha entre duas coisas, ou ao menos seriam deixados livres em
tudo o que fosse de menor importância. Se a uniformidade fosse realmente
necessária, esta uniformidade seria o produto final de todas as excelentes
coisas de cada país, e não uma reprodução servil das boas e más práticas de
apenas um deles.
"... Você acha que aqui seria o
mesmo se você tivesse cardeais de todos os diferentes países na proporção de
suas populações? Francês, Americano, Inglês, Espanhol – ao invés de ter nenhum,
mas apenas Cardeais Italianos? Certamente não. Pelo contrário, com
conservadores e liberais presentes, se forma um grupo bem equilibrado, tendo
aqui um Senado muito moderado, porque seria animado pela verdadeira sabedoria
... " (Carta a Faugère, Conselheiro Político do Escritório para Assuntos
Estrangeiros, Roma, 10 de janeiro de 1863).
"... No futuro, o elemento
italiano no Sagrado Colégio deve ser compensado pela presença de tantos
estrangeiros Cardeais como possível aqui em Roma. E não é por acaso que eu digo
aqui em Roma, porque os Cardeais que residem na França, Espanha, Áustria e
Inglaterra não têm absolutamente nenhuma influência sobre assuntos
eclesiásticos. Há apenas uma maneira de ganhar essa influência, e é estando perto
do Papa, pois nele está investido todo o poder pessoal e soberano, colocando-se
numa posição onde se pode vê-lo freqüentemente, falar com ele e aconselhá-lo
quando necessário, como também aos cardeais que foram confiados pelo Papa na
direção de seus negócios ... " (Nota confidencial ao Ministro da Religião,
sobre a nomeação dos cardeais franceses, Maio 1875).
"... A minha missão, querido
Monsenhor, é iniciar des-italianização da Igreja. Tudo me preparou para isso.
Meus estudos, a minha estadia em Roma, o meu envolvimento nos assuntos
episcopais franceses e, finalmente, o meu apostolado na África, levou-me ao
afastamente de tudo aquilo que divide... Tudo (...) daqui em diante depende
deste processo mais crucial: a des-italianização da Igreja. Eu sei quais
medidas devem ser tomadas para este fim e eu estou pronto para apontá-las. Eu
me ofereço inteiramente para esta tarefa, digo-lhe, mais uma vez, aqui reside o
meu caminho ... " (Carta a Maret, 03 de dezembro de 1875).
"... Tenha bem em mente que
enquanto os cardeais italianos continuarem a ser maioria, eles jamais nomearão
um estrangeiro: seria muito imprudente tentar fazer o público pensar o
contrário. A única coisa prática a fazer é influenciar o Papa, de modo que ele
possa vir a aumentar gradualmente o número de cardeais não-italianos. Isso pode gerar alguns
resultados ... cem anos a partir de agora ... " (Carta a um jornalista,
1888).
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