O que Francisco e Bento tem em comum? Um foi e o outro é Vigário de Cristo em um mundo atribulado e ambos são profundamente marcados por uma mesma característica: o realismo. Bergoglio e Ratzinger levam ao papado as experiências pelas quais passaram nos tempos de ministério episcopal em seus respectivos países. Tamanha abertura diante dos problemas reais permite que o pontificado se torne mais atento aos grandes obstáculos apresentados pela modernidade. Ademais, para aqueles que consideram a eleição do Papa Francisco como uma "ruptura" aos ensinamentos do seu predecessor é necessário, antes de tudo, uma compreensão católica da própria missão daquele que é o Sucessor de São Pedro.
Joseph Ratzinger é proveniente de uma ala eclesiástica marcadamene reflexiva. Ele, como professor universitário, deparou-se como uma diversidade de posições teológicas. Destaca-se, contudo, o desenvolvimento da teologia liberal, de claro sabor protestante, que assolava as universidades católicas na Alemanha. De certa forma é possível fazer um paralelo entre esse cenário e o contexto da Igreja na França em pleno século XIX: galicanismo e ultramontanismo em extremos opostos. Em terras alemãs a mesma dinâmica se desenvolvia. Se por um lado existiam os defensores de certo progressismo teológico como resposta ao empobrecimento reflexivo, havia, no patamar inverso, aqueles que não abriam mão do modo como a Igreja se relacionava com o mundo e como o pensamento era produzido nos centros de saber. Ratzinger, contudo, era a síntese dessa celeuma: nem realizado com a situação atual e nem tampouco interessado em abrir mão daquilo que sempre foi crido.
A teologia liberal, entretanto, ganhou espaço e se expandiu. Uma de suas principais posições era o reconhecimento do relativismo, sendo princípio, como fundamento da reflexão. Isso possibilitou o incremento das doutrinas modernistas já adormecidas desde a condenação de São Pio X. Ratzinger, destarte, era extremamente consciente das consequências profundas que este pensamento acarretaria não só para a teologia, mas para o mundo. A filosofia moderna já distante da metafísica e uma teologia moderna agora distante de Deus forjariam, juntas, a nova sociedade onde os valores universais perderiam a sua consistência de ser.
Diante deste realismo, Raztinger, já Bento XVI, combateu duramente a ação coercitiva de tal modo de pensar. As suas primeiras palavras marcaram todo o seu pontificado, tanto a "ditadura do relativismo", fazendo alusão ao modo como o raciocínio relativista se impregnou nos paradigmas fundamentais do homem contemporâneo, como a "hermenêutica da continuidade", se referindo ao método simplista de compreender o Concílio Vaticao II. Bento XVI, portanto, atacou problemas com os quais tinha familiaridade. Ademais, se o fez de modo reflexivo era porque isso era parte da sua natureza. Vale destacar, além disso, que a "Nova Evangelização" é conseqüência desse mesmo reconhecimento e da atenção dada pelo Santo Padre ao processo de secularização da Europa.
Deus, em seguida, nos manda um pai como Francisco. Para muitos a sua eleição foi recebida como um retrocesso ou o coroamento justamente do progressismo combatido por Bento XVI. Entretanto, Francisco foi o sucessor querido pelo Senhor porque ele vem na esteira daquilo que fora plantado por Ratzinger. Ambos são os promotores da verdade, da bondade da beleza, a "tríade essencial" que, como falara o Papa Bergoglio, todos devem comunicar.
O Papa Francisco leva consigo outro arcabouço experiencial. Se Bento XVI conheceu a teoria do pensamento liberal, o Cardeal latino-americano se defrontou diretamente com a prática já encarnada dessa doutrina. A sua luta contra a teologia da libertação desde o tempo de superior jesuíta fez dele persona non grata entre os adeptos da politização da fé. A sua resistência foi capaz de tornar a província argentina da Companhia de Jesus em um oásis seguro da espiritualidade inaciana. Ademais, depois de elevado ao posto de Arcebispo de Buenos Aires, após ser salvo do ostracismo ao que fora enviado pelos teólogos da libertação, Bergolgio se viu diante das ações organizadas da cultura de morte.
Assim, pois, o Papa Francisco traz com ele todo o aprendizado diante não mais de uma Igreja pensante, como ocorrera com Bento, mas sim da Igreja militante, que é atacada e ultrajada - daí a sua referência logo no ínicio do pontificado aos cristãos perseguidos no Oriente Médio e África. O seu conhecimento da prática certamente ajudará a Igreja a caminhar de modo ainda mais seguro na sua missão evangélica. Com Francisco certamente os olhos se voltam para áreas onde a fé luta pela própria sobrevivência. Ademais, justamente por ter conhecimento a respeito do modo sorrateiro como o Evangelho é deformado em ideologia política, Francisco se mostra preocupado com a perda de foco da missão cristã: sem o Cristo Crucificado, sem o anúncio querigmático, a Igreja se transforma em uma "ONG piedosa". E esta, infelizmente, é uma das mais recorrentes tentações demoníacas, que também são alvos frequentes dos pronunciamentos do nosso atual Pontífice.
Bento e Francisco são, portanto, homens realistas. Um foi teórico e o outro prático, ambos, contudo, profundamente orantes e apaixonados por Cristo Jesus. Se Ratzinger se voltava mais para a Europa, Bergoglio olha para continentes no subúrbio do mundo. Se Ratzinger atraía a discussão intelectual, Bergoglio é convidativo aos homens mais simples. Cada um leva em si mesmo uma marca carismática que enriquece a Igreja, e assim a Esposa de Cristo se enriquece com sua história. Temos, portanto, que nos alegrar! É tempo de vivenciarmos concretamente com Francisco tudo aquilo que aprendemos com Bento. Chegou o tempo de mostrar ao mundo a força da caridade que se forma em um coração configurado com o Coração do Senhor Crucificado.
Joseph Ratzinger é proveniente de uma ala eclesiástica marcadamene reflexiva. Ele, como professor universitário, deparou-se como uma diversidade de posições teológicas. Destaca-se, contudo, o desenvolvimento da teologia liberal, de claro sabor protestante, que assolava as universidades católicas na Alemanha. De certa forma é possível fazer um paralelo entre esse cenário e o contexto da Igreja na França em pleno século XIX: galicanismo e ultramontanismo em extremos opostos. Em terras alemãs a mesma dinâmica se desenvolvia. Se por um lado existiam os defensores de certo progressismo teológico como resposta ao empobrecimento reflexivo, havia, no patamar inverso, aqueles que não abriam mão do modo como a Igreja se relacionava com o mundo e como o pensamento era produzido nos centros de saber. Ratzinger, contudo, era a síntese dessa celeuma: nem realizado com a situação atual e nem tampouco interessado em abrir mão daquilo que sempre foi crido.
A teologia liberal, entretanto, ganhou espaço e se expandiu. Uma de suas principais posições era o reconhecimento do relativismo, sendo princípio, como fundamento da reflexão. Isso possibilitou o incremento das doutrinas modernistas já adormecidas desde a condenação de São Pio X. Ratzinger, destarte, era extremamente consciente das consequências profundas que este pensamento acarretaria não só para a teologia, mas para o mundo. A filosofia moderna já distante da metafísica e uma teologia moderna agora distante de Deus forjariam, juntas, a nova sociedade onde os valores universais perderiam a sua consistência de ser.
Diante deste realismo, Raztinger, já Bento XVI, combateu duramente a ação coercitiva de tal modo de pensar. As suas primeiras palavras marcaram todo o seu pontificado, tanto a "ditadura do relativismo", fazendo alusão ao modo como o raciocínio relativista se impregnou nos paradigmas fundamentais do homem contemporâneo, como a "hermenêutica da continuidade", se referindo ao método simplista de compreender o Concílio Vaticao II. Bento XVI, portanto, atacou problemas com os quais tinha familiaridade. Ademais, se o fez de modo reflexivo era porque isso era parte da sua natureza. Vale destacar, além disso, que a "Nova Evangelização" é conseqüência desse mesmo reconhecimento e da atenção dada pelo Santo Padre ao processo de secularização da Europa.
Deus, em seguida, nos manda um pai como Francisco. Para muitos a sua eleição foi recebida como um retrocesso ou o coroamento justamente do progressismo combatido por Bento XVI. Entretanto, Francisco foi o sucessor querido pelo Senhor porque ele vem na esteira daquilo que fora plantado por Ratzinger. Ambos são os promotores da verdade, da bondade da beleza, a "tríade essencial" que, como falara o Papa Bergoglio, todos devem comunicar.
O Papa Francisco leva consigo outro arcabouço experiencial. Se Bento XVI conheceu a teoria do pensamento liberal, o Cardeal latino-americano se defrontou diretamente com a prática já encarnada dessa doutrina. A sua luta contra a teologia da libertação desde o tempo de superior jesuíta fez dele persona non grata entre os adeptos da politização da fé. A sua resistência foi capaz de tornar a província argentina da Companhia de Jesus em um oásis seguro da espiritualidade inaciana. Ademais, depois de elevado ao posto de Arcebispo de Buenos Aires, após ser salvo do ostracismo ao que fora enviado pelos teólogos da libertação, Bergolgio se viu diante das ações organizadas da cultura de morte.
Assim, pois, o Papa Francisco traz com ele todo o aprendizado diante não mais de uma Igreja pensante, como ocorrera com Bento, mas sim da Igreja militante, que é atacada e ultrajada - daí a sua referência logo no ínicio do pontificado aos cristãos perseguidos no Oriente Médio e África. O seu conhecimento da prática certamente ajudará a Igreja a caminhar de modo ainda mais seguro na sua missão evangélica. Com Francisco certamente os olhos se voltam para áreas onde a fé luta pela própria sobrevivência. Ademais, justamente por ter conhecimento a respeito do modo sorrateiro como o Evangelho é deformado em ideologia política, Francisco se mostra preocupado com a perda de foco da missão cristã: sem o Cristo Crucificado, sem o anúncio querigmático, a Igreja se transforma em uma "ONG piedosa". E esta, infelizmente, é uma das mais recorrentes tentações demoníacas, que também são alvos frequentes dos pronunciamentos do nosso atual Pontífice.
Bento e Francisco são, portanto, homens realistas. Um foi teórico e o outro prático, ambos, contudo, profundamente orantes e apaixonados por Cristo Jesus. Se Ratzinger se voltava mais para a Europa, Bergoglio olha para continentes no subúrbio do mundo. Se Ratzinger atraía a discussão intelectual, Bergoglio é convidativo aos homens mais simples. Cada um leva em si mesmo uma marca carismática que enriquece a Igreja, e assim a Esposa de Cristo se enriquece com sua história. Temos, portanto, que nos alegrar! É tempo de vivenciarmos concretamente com Francisco tudo aquilo que aprendemos com Bento. Chegou o tempo de mostrar ao mundo a força da caridade que se forma em um coração configurado com o Coração do Senhor Crucificado.

Um comentário:
Olá, Pedro!
Gostei imensamente da sua reflexão. Concordo inteiramente.
E é exatamente nessa diversidade de dons e carismas que se percebe a riqueza da Igreja e a presença do Espírito Santo a guiá-la.
Que Deus te abençoe!
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