segunda-feira, 11 de março de 2013

A Teologia da Libertação e a sua religião sem Deus


A entrevista de Clodovis Boff, o irmão católico de Leonardo Boff, é de uma clareza tocante. O religioso servita, muito mais do que uma mudança doutrinal, mostrou a força da experiência de fé. Infelizmente, fica patente que as posições teológicas fundamentais da assim chamada teologia da libertação estão fora da ortodoxia católica. Antes, porém, que os mais progressistas se arrepiem com esta referência ao corpo doutrinário oficial da Igreja, é importante lembrar que qualquer adesão de fé é feita livremente. Destarte, ser católico imputa a participação de um corpo comum de fiéis e de pensamentos. Por isso mesmo, a correção, ou em casos extremos a excomunhão, é apenas um instrumento autêntico na defesa daquilo que se crê.

A teologia da libertação surge na esteira de todas as teologias contextuais – teologia negra, teologia feminista, teologia ecológica – que nascem das concepções pluralistas. As teologias pluralistas partem do relativismo como princípio de reflexão de iure.  As reinocêntricas e soterocêntricas colocam uma idéia rarefeita do Reino e da salvação como centro da experiência religiosa, normalmente defendida pelos adeptos de concepções secularistas da eclesiologia, como os teólogos da libertação. Já as teocêntricas ratificam uma multiforme manifestação do divino capaz de englobar a diversidade religiosa como parte de uma única família de fé. Todas elas são alvos de condenações em documentos como Dominus Iesus e Redemptoris Missio. Clodovis Boff percebera, assim, que o pluralismo colocado como princípio levaria não apenas à negação da Igreja e do seu papel como instrumento de salvação como, também, ao rechaço do caráter redentor de Cristo:
“Rahner não podia aceitar a condenação de um mundo que amava e concebeu a teoria do ‘cristianismo anônimo’: qualquer pessoa que lute pela justiça já é um cristão, mesmo sem acreditar explicitamente em Cristo. Os teólogos da libertação costumam cultivar a mesma admiração ingênua pela modernidade (...) Vi que, com o rahnerismo, a igreja se tornava absolutamente irrelevante. E não só ela: o próprio Cristo. Deus não precisaria se revelar em Jesus se quisesse simplesmente salvar o homem pela ética e pelo compromisso social”.
O aspecto político de transformação social contido na teologia da libertação pressupõe a existência de uma Igreja vista estritamente como “Serva”. Aqui entram os modelos eclesiológicos como pensados pelo teólogo Avery Dulles. Para ele a Igreja pode ser concebida através de cinco modelos: Instituição, Comunhão Mística, Sacramento, Anunciadora, Serva. Cada um carrega suas particularidades e premissas. Ademais, os modelos também se diferenciam pelo grau de fundamentação nas Escrituras, na Tradição e no Magistério, ainda sendo complementares uns aos outros. Entretanto, para os teólogos da libertação os três primeiros modelos são severamente descartados e não apenas porque evocam uma organização objetiva, mas porque também reconhecem a ação da graça e o aspecto vindouro do Reino.

A Igreja com Anunciadora, modelo desenvolvido pela teologia protestante, ainda sendo mais próximo dos adeptos da teologia da libertação, afasta-se destes quando concebe a missão escatológica da Igreja: o anúncio bíblico da vinda do Reino de Deus na eternidade, o que se adequa perfeitamente às concepções sacramentais e institucionais da missão cristã. Resta, portanto, a Igreja como Serva e sua eclesiologia secularizada. Este modelo não encontra, contudo, muitos fundamentos bíblicos, especialmente no Novo Testamento, onde a salvação é individual e espiritual, e muito mais referenciada ao aspecto apocalíptico do que profético.

Cristo, ademais, é obediente ao Pai e não ao mundo. Ele é o servo do Altíssimo. Desse modo, é em Cristo que se encontra a força de transformação, e não fora dEle. Os famigerados “valores do Reino”, como colocados pela teologia da libertação, são reducionismos propositais, já que o Reino, na verdade, se confunde com a própria plenitude do Senhor e não pode ser identificado com valores abstratos. Ainda assim, a fé em Cristo e a esperança na eternidade são os melhores estímulos para a antecipação daquele gozo que teremos na morada celeste, isto é, o esforço na disseminação dessas virtudes cristãs quase como a preparação para o estabelecimento, por Deus, do novo céu e da nova terra, na eternidade. Diz, então, Avery Dulles:
 
"A noção do Reino de Deus, que é corretamente usada por seculares teólogos para apontar a dimensão da responsabilidade social, não deve ser separada da pregação de Jesus como Senhor. O Reino, partindo do modelo da Igreja como Serva, se perde, portanto, caso procure constituir-se em oposição à noção querigmática ".
A chegada do Reino não será a destruição da Igreja, mas a realização total desta. Apenas na consumação final a dicotomia e tensão entre a Igreja e o mundo serão superadas. Se a teologia da libertação transformara a caridade cristã em subserviência cega ao mundo, os adeptos de outros modelos, como o institucional, podem tornar o triunfo final na glória da própria Igreja, e não o triunfo de Cristo em Sua Igreja apesar das fraquezas e pecados dos homens. Contudo, o perigo da teologia da libertação é ainda maior: o anseio pela construção do Reino no mundo temporal inevitavelmente excluirá muitos homens que não foram tocados por essas “virtudes”, justamente aqueles desesperados, solitários, perseguidos e famintos que desde séculos a Igreja nutre uma especial atenção. De certa forma a imanentização do Reino acaba por excluir milhões de almas que vivem à margem do contato material com os seus promotores.

Entretanto, é possível, através dos esforços da teologia da libertação, renovar ainda mais aquilo que sempre foi crido pela Igreja: a salvação do homem integralmente, corpo e alma. A libertação plena, como diz o documento da Congregação para a Doutrinda Fé Libertatis Nuntius, “é antes de tudo e principalmente libertação da escravidão radical do pecado”. Quando a fé em Cristo toma o primeiro plano podemos movimentar o mundo e verdadeiramente transformá-lo. Esta sim é a verdadeira revolução capaz de ser feita, seja por uma monja contemplativa na clausura, ou por um missionário na África, ou por uma mãe de família educando os seus filhos. As ideologias morrem e deixam como herança mortes, crises e tristeza. Mais uma vez a atualidade do Evangelho se renova. Diz, ao final, Clodovis Boff:
"A modernidade não tem mais nada a dizer ao homem pós-moderno. Quais as ideologias que movem o mundo? Marxismo? Socialismo? Liberalismo? Neoliberalismo? Todas perderam credibilidade. Quem tem algo a dizer? As religiões e, sobretudo no Ocidente, a Igreja Católica."

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