terça-feira, 5 de março de 2013

A crise da imagem em Avery Dulles

Por Pedro Ravazzano

eminente teólogo Avery Dulles, convertido ao catolicismo nos seus tempos de estudante em Harvard, escrevera um dos mais interessantes livros de eclesiologia do séc. XX, “Models of the Church”. Nele, o sacerdote jesuíta criado Cardeal por João Paulo II, desenvolve uma rica exposição sobre a Igreja entendida por modelos; Instituição, Comunhão Mística, Sacramento, Anunciadora, Serva. Nos capítulos subsequentes explana sobre outros aspectos dessa problemática, como as relações entre Igreja e escatologia, Igreja e revelação, eclesiologia e ministério. Certamente é um livro que se abre para uma imensa possibilidade de debate teológico. O que me interessa, ao menos nesse artigo, são os aspectos que Avery Dulles apresenta no primeiro capítulo – “The Use of Models in Ecclesiology” – como os pressupostos para a reflexão.

Avery Dulles era consciente do papel da imaginação no processo de unificação da própria identidade do homem. O purpurado americano entendia o processo de fragmentação da fé como reflexo da destruição da sensibilidade imaginativa do sujeito:  “The contemporary crisis of Faith is, I believe, in very large part a crisis of images.”  O imaginário religioso pressupõe a respectividade com a experiência do fiel. Contudo, em um mundo altamente secularizado o estilo de vida contemporâneo cada vez endossa uma leitura utilitarista e hedonista da existência. 

A consciência se insere na subjetividade do homem e, por isso, abarca a totalidade do próprio sujeito. Quando Edmund Burke, em uma crítica aos revolucionários franceses, se referiu à destruição dos costumes civilizatórios e culturais, cunhara o termo “imaginação moral”. Foi em Russell Kirk, contudo, que se consolidaram as bases racionais desta ideia. Autores como Samuel T. Coleridge e George MacDonald também de destacaram como grandes teóricos da imaginação. Por sua vez, T.S Eliot e John H. Newman, este último com a sua noção de sentido ilativo, deram os fundamentos para o pensamento kirkeano.

De acordo com Coleridge a imaginação tem duas formas. Primeiramente é o poder de receber impressões externas, do mundo, através dos sentidos, o poder de percepção dos objetos através do conhecimento sensível, tanto referido a realidades pontuais como ao todo. Assim, portanto, pode-se dizer que nesse aspecto a imaginação é um ato espontâneo da mente, afinal a mente humana recebe impressões e sensações externas de modo inconsciente e involuntário. Entretanto, o homem também é capaz de formar e organizar tal conteúdo, criando uma imagem do mundo.

George MacDonald, por sua vez, em “The Imagination: Its Functions and Culture” desenvolve um conceito de imaginação na mesma linha do que fora colocado por Coleridge. Se, portanto, o homem é co-criador, é porque a sua imaginação é feita à imagem da imaginação de Deus. Nesse sentido, portanto, há em MacDonald a mesma percepção newmaniana acerca da abertura da consciência ao transcendente como o fundamento da sua própria capacidade cognitiva.

A imaginação é, assim, a faculdade humana que mais se aproxima da faceta criadora de Deus. Enquanto o divino cria o universo através do seu poder, o artista o imita a partir do momento em que inventa um novo mundo da fantasia e do mito. A imaginação é, então, o veículo da apreensão da natureza sacramental do mundo, repaginando velhas verdades com novas versões. Destarte, se os símbolos são capazes de transformar o modo como o homem enxerga a própria realidade, é compreensível a razão pela qual Avery Dulles associa a crise de fé com a crise da imagem. O Cardeal afirma, portanto:
“Symbols transform the horizons of man’s life, integrate his perception of reality, alter his scale of values, reorient his loyalties, attachments, and aspirations in a manner far exceeding the powers of abstract conceptual thought. Religious images, as used in the Bible and Christian preaching, focus our experience in a new way. They have an aesthetic appeal, and are apprehended not simply by the mind but by the imagination, the heart, or, more properly, the whole man.”
Ao ser um espírito encarnado o homem é capaz de alçar voos além da imanência. A imaginação ou o coração, seja como pensado por Coleridge, MacDonald, Newman, Eliot, Pascal etc, aponta para a capacidade de perceber a realidade como uma intuição que atravessa todas as coisas. A força simbólica de uma flor-de-lis ou de uma águia bicéfala vai além da mera definição conceitual. Assim, a imagem indica ao próprio homem o mistério que não pode ser transmitido em palavras ou através da objetividade de ideias, mas, isto sim, por meio da expressão da alma seja na poesia, na arte ou na prece.

Avery Dulles afirma que qualquer grande e contínua sociedade, dependente da lealdade dos seus membros, “require symbolism to hold it together”. Isso fica muito patente quando, com uma retrospectiva histórica, percebe-se a dinâmica dos movimentos revolucionários: primeiramente a destruição dos símbolos do regime deposto, seja a monarquia francesa ou o czarismo russo, e a criação de uma nova mística nacional com a estatização dos símbolos. Os regimes comunistas foram no mundo contemporâneo os mais cônscios a respeito da funcionalidade da imagem.

Entretanto, a força dos símbolos depende da própria experiência do sujeito. Por isso o empenho dos governos totalitários na imposição de novos paradigmas existenciais. O enfraquecimento, portanto, do imaginário religioso é consequência da estruturação de um estilo de vida fechado ao transcendente. Ademais, a vida cotidiana oferece poucos objetos que sejam harmônicos com a mensagem religiosa. Destarte, a crise da imagem, reflexo do tempo de rápidas mudanças culturais, aponta para a crise da fé. 

 A solução não se encontra apenas em uma revitalização da religião, mas, outrossim, na renovação das estruturas civilizatórias. A imagem simbólica ganha vigor na medida em que os homens nutrem valores eternos e se abrem para uma sensibilidade distante dos axiomas utilitaristas. A Igreja, mais uma vez, não está interessada em salvar apenas os seus, mas em salvar a Civilização; os seus grandes poetas e dramaturgos, os renomados músicos e instrumentistas, os visionários pintores e escultores, os santos homens e mulheres que testemunharam o Evangelho. A alimentação da imagem é consequência de um amplo e variado processo pedagógico no qual o sujeito se insere ao logo de toda a sua vida. Desse modo, sendo um homem integral, dotado de um coração imaginativo, pode ele olhar para a Cruz e entender no silêncio da imagem o mistério que ali se deu.

Um comentário:

Sérgio Meneses disse...

Análise interessantíssima. Vou colocar esse livro do Cardeal Dulles na minha lista de leituras.

Acho, contudo, que essa "crisis of images" de que nos fala Dulles não é senão reflexo de uma crise mais profunda, uma crise metafísica, que faz que o homem absolutize o que é contingente. A construção imaginativa moderna não é propriamente a causa da crise, mas seu efeito, certamente seu efeito mais notório, que mais se faz perceber, mas ainda sim efeito.